Subido por Daniele Kowalewski

Appiah, Kwame Anthony - Identidade como problema

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Identidades
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IDENTIDADE COMO PROBLEMA
Kwame AnthonyAppiah"
Um dia desses,digitei ídenffty social scietzceno Google, e essaferramenta
de busca anunciou, toda orgulhosa, haver encontrado "aproximadamente
iao milhões de resultados" em cerca de um quarto de segundo. Acrescentei
a palavra proa/em e os resultados apontaram ainda 3o milhões de páginas.
Disso se conclui que, atualmente, se fala bastante a respeito de identidade,
uma vez que raça, gênero, orientação sexual, nacionalidade e religião, entre
tantos outros marcadores, são identidades; e parece que, por essesdados do
Google, um quarto se refere à identidade como problema. Essefato indica
que vem ocorrendo significativa mudança no modo como os anglófonos falam da vida social. E não só eles;basta digitar no Google "identidade social"
e se terá i,z5 milhão de páginas; "identidad social" alcança mais de 8 milhões
de páginas; "identité sociale" produz cerca de z6,5 milhões.
Há pouco mais de meio século, tais palavras dificilmente eram usadas
do modo como sãohoje para tratar dessascaracterísticassociaiscompar
tilhadas pelas pessoas.Em i95o, a identidade de alguém era aquilo que o
distinguia, não o que o ligava aos outros. Vejamos a diferença: um relatório
policial diria que "a vítima é do sexomasculino, negra, heterossexual,pertencentea uma determinada associaçãocatólica, massua idenfídadepermanece descon/decida': Na época, predominava esse signiõcado de identidade.
Assim, neste texto, teorizarei um pouco acercada natureza dessasidentidades
Kwame Anthony Appiah é professor da Princeton University. Tradução de Lólio Lourenço de
Oliveira e revisão técnica de Ana Mana Sallum
r
i8
Identidades
Identidade como Problema
sociais e sobre como pensamos nelas atualmente. Há três dimensões que
chamar a atenção é precisamente que há rzormas associadas às identidades
acredito serem importantes.
sociais, que denomino: normas de fdelzf@cação e }zormas de frafamento. As
Primeiramente, as identidades sociais dependem de rótulos para sua
existência - um velho í/zsíglzfproveniente da teoria sociológica rotuladora
normas de identificação especificam a maneira como pessoasde determinada identidade devem se comportar; e as normas de tratamento, como se
de algumas décadas atrás. Isso porque as pessoasreagem aos outros e pen-
deve ou não reagir e atuar sobre pessoas de certa identidade (mencionarei
sam sobre si mesmas por meio dessesrótulos. Vocês pensam nas pessoas
como baíafzos ou bósnios ou bafísfas, e então reagem a eles como tais; vocês
as normas indiferentemente, dizendo o que as pessoasdevem ou não fazer,
ou o que deve?"íam
ou não fazer). Resumo estesegundo ponto dizendo que
pensam em si mesmos como brasa/errose fazem (ou não) certas coisas por-
a identidade é normativa.
que é isso que vocês pensam ser. Assim, este primeiro ponto é metafísico: o
Não é necessárioque tais "devem" e "deveriam" sejam especificamente
nominalismo a respeito de identidades sociais é preferível ao realismo onto-
morais. Que os homens não deveriam usar saias não é uma verdade moral.
lógico. Enfatizo que não quero dizer que identidades não sejam reais, o que
quero é dizer algo a respeito de como elas são reais.
De fato, não penso que haja qualquer verdade nisso. No entanto, vivo em
O fato de os rótulos não poderem ser eliminados não significa que um
Unidos não apenasesperamque os homens não usem saias,mas também
esperamque não o façam porque reconhecem que os homens não devem
fazê-lo.A norma cria a regularidade comportamental. Não é essaregulari-
ou mais rótulos não possam estar em circulação ao mesmo tempo, nem im-
pede que eles sejam substituídos, uns pelos outros, ao longo do tempo. Ou
seja,é preciso semprehaver algum rótulo. Assim, por exemplo, nos Estados
uma sociedade em que há uma norma nesse sentido: as pessoas nos Estados
dade que cria a expectativa de comportamento. As normas (como os crité-
Unidos, ÁÓríca/zvirou negro persolz oÍcoZor ou ÁÓrícan-amerícan. O desdo-
rios de pertencimento) geralmentenão sãoaceitaspor todos, e muitas vezes
bramento dessesmuitos rótulos fundamenta por que faz sentido falar deles
há curiosas disputas a respeito delas. Assim, faz parte de nossa compreensão
como rótulos em mudança no tempo para a mesma identidade. O fato de os
dessasnormas o fato de elas serem contestáveis.
rótulos não poderem sereliminados não é porque há uma relaçãobiunívoca
entre rótulos e identidades. Podemos ter identidades com muitos rótulos
que vão se transformando com os anos. Em suma, pois, o primeiro ponto é
vamente: homens heterossexuais não devem apaixonar-se uns pelos outros;
que as identidades sociais exigem rótulos.
muçulmanos não devem comer carne de porco Positivamente: os homens
E importante que rótulos de identidades sociais sejam entendidos como
contestáveis em suasfronteiras. Não temos resposta pronta para a pergunta
sobre se o filho de um afro americano com uma esquimó criada no Alasca
devem abrir asportas para as mulheres; homens homossexuais devem reve
é realmente negro. Há quem negueque um transexual pós-operado tenha
to que as apoiemos. Uma norma de que pessoasde certo tipo devem "fazer
realmente mudado de sexo. Questões desse tipo podem gerar infindáveis
algo" significa apenas que é amplamente sabido que elas devem "fazer algo't
discussões. A aceitação da contestabilidade é outra razão pela qual o nominalismo parece ser a única opinião sensata a respeito de identidades.
mas de identificação, pessoas que, pelos rótulos, se identificam como x agem
Dizer que os limites sãocontestáveisnão signiâca que não haja casos
óbvios. Se,diante de toda evidência, considerar-se que Brad Pitt não é um
homem, teremos perdido todo o nosso sentido de semântica: pode haver
respostasclaras a perguntas a respeito da atribuição de conceitos com fron-
Eis aqui mais alguns exemplos de normas que tenho em mente. Negatinegros e brancos não devem envergonhar suas respectivas etnias; judeus e
lar-se publicamente; os negros devem apoiar ações afirmativas; muçulma
nos devem fazer o /zadgí'.A existência dessas normas não implica de imedia-
A terceira dimensão da identidade deriva da segunda: por existirem nor
àsvezessegundoo próprio rótulo. Quero dizer com isso que uma razãopela
qual elasagem como agemé que são motivadas pela ideia "tenho razão em
'fazer algo' porque sou um x'l
sa utilização das palavras, é sugestivamente semelhante à contestabilidade
Este último ponto nos instiga a encarar as ídenfídades como essência/me?zfesuyerívas, uma vez que a importância delas advém do papel que desempenham nos pensamentos e atos de seusportadores. Defendo, pois, um
essencialde muitos conceitos normativos, mostrada anos atrás por Walter
modo de ver as identidades como nonzínaís, }zormafívas e su@efivas, traços
teiras indistintas. Essa contestabilidade reconhecida, construída por nos-
Bryce Gallie:. De fato, a segunda dimensão de identidade sobre a qual quero
W B. GaUie, "Essentially Contested Concepts'; i956.
Mulçumano que fez peregrinação a Moca(N. R.)
tg
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Identidades
Idetttidade como Problema
que explicam por que hoje em dia costumamos nos referir a elas como so-
ela poderá dar a largada em suavida com muitas possibilidades. Há inúme-
cialmente construídas.
ras opções, muitos momentos de escolha, grandes e pequenos, na constru
A meu ver, nem tudo que é importante na vida social o é por sersubjetivo desse modo. Escolho as identidades
subjetivas por considerar
ção de uma vida. E um liberal filosófico (que não é o mesmo que um liberal
seu papel
económico) acredita que, no fim das contas, essas escolhas pertencem à pes
crucial em algo muito mais específico: a vida ética.
soa de cuja vida se trata.
Para tratar da vida ética, primeiramente observemos quão ampla é
a gama de tipos de pessoasque se ajustam à rubrica geral que estabeleci.
Há aqui duas ideias importantes e distintas. Uma delas é constitutiva.
Cada vida possui aquilo que poderíamos, segundo Herder, chamar de uma
wcdfdú4. Essessão os padrões pelos quais se decidirá se ela é mais ou menos
bem-sucedida. A medida da minha vida, por exemplo, depende constituti-
Meu relatorespondeà questãoa que me referi no início desteartigo se
bre o que são coisas "tais como" raça, gênero, orientação sexual, naciona-
lidade, religião etc. Agora, podemos acrescentar,por exemplo, identidades
de profissionais liberais (advogado, médico, jornalista, filósofo); profissões
(artista, compositor, romancista); filiações, formais ou informais (íã de bei-
vamente do quão bom é meu trabalho filosófico, porque me comprometi a
sebol, amante de.jazz, membro do Partido Conservador, católico, maçom);
e outros rótulos menos consistentes (dândi, conservador, cosmopolita). Em
contribuição filosófica importante acidentalmente como fez,por exemplo,
cada um desses casos, há rótulos, normas e identificações subjetivas.
pelo fato de ele ser economista de profissãos; fosse primordialmente
ser um âlósofo. Isso será verdade para a maioria de nós, acadêmicos, no que
concerne a nosso campo de estudos. Porém, é possível que alguém dê uma
Kenneth Arrow. O teorema de Arrow é um acréscimo à sua medida de êxito
Seisso é que são identidades, a mim parece tolo querer ser a favor ou
um ma-
contra elas.Apenas temos de lidar com elas.Para tanto, cabe perguntar: qual
temático, pouco teria esseteorema acrescentado à sua vida, por ser,do ponto de vista matemático, bastante desinteressante; e o que nele é de interesse
é a extensão do papel desempenhado por essasidentidades em nossa vida?
matemático já era conhecido de Condorcet'
Para responder a essapergunta, não partirei da vida social propriamente
Assim, o primeiro ponto fundamental é que cada um de nós tem um
dita, mas daquilo, como disse,que denomino "vida ética" dos indivíduos. E,
por ética, aqui me refiro ao sentido dado por Aristóteles em Ética a Nicõma
papel no estabelecimento de nossa própria medida. É um papel: algumas
coisassão um acréscimo ao êxito de qualquer vida em que ocorram, sejam
quais forem as escolhase os projetos que os agentespossam ter. Mas isso
signiâca que, em geral,cada um tem uma medida diferente de outra pessoa.
co: de reflexão sobre o que faz a vida humana ir bem, o que faz uma pessoa
ter ezzdaímo/zia.Palavra de Aristóteles que, como agora sabemos, melhor se
traduz não como "felicidade': mas como "florescência': Ética, nesse sentido,
O segundo ponto é que minha vida é um trabalho meu, desde que eu dê
possui importantes ligações com moralidade, conforme acepçãode Ronald
aos outros o devido crédito. Sem dúvida, todos nós poderíamos construir
vidas melhores,mas isso não justifica que se imponha uma vida melhor a
nós. Amigos atenciosos,sábiosbondosos e parentesaflitos têm o direito de
Dworldn. Ética, diz ele,"abrangeconvicçõesa respeitode que tipo de vida
é bom ou ruim, e moralidade abrange princípios a respeito de como uma
pessoa deve tratar as outras pessoas"s.
Cadaum de nós tem uma vida para ser vivida. Encaramosmuitas exi-
nos oferecera;budae conselhossobre como proceder. Devem, porém, ser
conselhos,e não coerção.E, assim como a coerção privada seráum erro nes-
gências morais, mas estas nos oferecem variadas opções. Não devemos ser
descortesesou cruéis, por exemplo, mas podemos viver de diversas manei-
sascircunstâncias, será um erro que governos, interessados na perfeição de
seuscidadãos, empreendam essacoerção.
ras evitando tais vícios. Também enfrentamos pressõesde circunstâncias
históricas e de dons físicos e mentais: nasci na família errada para ser o rei
minha medida de vários modos signiâca que estou muitas vezesmais bem
Não há dúvida de que essesdois pontos estão ligados. Que eu determino
da Suéciae tenho o corpo errado para a maternidade;sou desajeitadodemais para ter êxito como jogador profissional de básquete e sou também
insuâcientemente musical para ser um concertista de piano. Mas ainda que
uma pessoa leve em conta esseslimites morais, históricos, físicos e mentais,
3.
R. Dworkin, Sovere@fzVirfue, 2000, p. 485, nota i. Observe seque a definição de Dworkin admite
que o ético pode incluir o moral. Pode ser melhor levar uma vida na qual você trate os outros
como deveriam ser tratados.
4.
5.
6.
Refere-sea Johann Gottfried von Herder(i744-l8o3), âlósofo, teólogo e poeta alemão, precursor
do romantismo germânico(N. R.)
Trata-sedo teorema da impossibi]idade de Arrow- que ]he valeu o Prêmio Nobel de Economia de
i97z. Grossomodo, diz que a soma das racionalidades individuais não produz uma racionalidade
coletiva (N. R.).
Made-Jean-Antoine-Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet(i743-i794), matemático e filósofo
francês (N. R.).
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Identidades
Identidade como Problema
situado para saber como dirigir minha própria vida. Mas isso é um fato con
religiosas, por exemplo, realizam isso de maneira óbvia: ajudam a constituir
tangente,importante, é verdade, mas ainda assim contingente. Mesmo que
comunidades de pessoasque podem apoiar-se umas às outras na busca de
você conheça o bastante sobre minha medida para fazer um juízo quanto ao
que devo fazer, seu papel é aconselhar-me, não tomar a decisão por mim.
metas que compartilham como membros daquela religião.
Por que dispomos de tão diversa esfera de identidades e relaçõessociais?
Assim, minha individualidade não se produz em um vácuo, antesé molda
Uma resposta etiológica tratará de nossa evolução como espécie social e do
da pelas formas sociais disponíveis, e, evidentemente, por nossasinterações
com os outros.
fato de sermos evolucionariamente destinados ao jogo social de construir
O terceiro capítulo de On l,íberfy [Sobrea ],íbe7dade]("Sobre a ]ndividualidade como um dos Elementos do Bem-estar") é a formulação inglesa
clássicadessanoção de individualidades. Porém, como John Stuart Mill ali
reconheceucom franqueza, seu próprio pensamento a respeito dessestemasfoi profundamente moldado por um ensaio de Wilhelm von Humboldt,
a coalizão na busca de alimento, parceiros e proteção. Por isso é que temos
solidariedades e antagonismos do tipo ílz-groz4pe ouf-group, que os psicó
logos sociais têm explorado nos últimos cinquenta anos. A essaresposta
psicológico-evolucionária, podemos acrescentar uma resposta económica.
A diferenciação da economia moderna Criou a necessidadede as pessoas
associarem aptidões e treinamentos de novas maneiras. Outrora, havia ape
escritonos anosde i79o, no livro que hoje conhecemoscomo .17ze
l,fmífs
of SfafeAcfíon [Os [,ímffes da Anão do Esfado]. No capítulo "Do Homem
Individual e dos Fins Supremosde SuaExistência'! Humboldt escreveuque
é "mediante uma união [...], baseadanas vontades e capacidadesde seus
membros, que cada um se habilita a participar dos ricos recursos coletivos
dos outros"'. Os liberais compreendem que temos necessidadede outras
nas alguns poucos tipos de trabalho: governante, sacerdote,bardo, escriba,
agricultor, soldado, caçador,ferreiro. Hoje, o United StatesDepartment of
pessoas:o respeito à individualidade não é aprovação do individualismo.
SítznesweZf
(mundo dos sentidos), mas do Mersfa?zdeswelf
(mundo do enten-
Pode-seobjetar que eu estejacompreendendo aqui muitas coisas como
identidade, até mesmo algumas que normalmente não pensamoscomo
identidades sociais. Creio, porém, que o fato de fazê-lo é, na verdade, uma
vantagem, por serem essasoutras identidades tão importantes em nossa
vida ética quanto as identidades sociais usuais. E considero relevante colocar as identidades sociais sobre as quais normalmente falamos no contexto
de todas essasoutras porque elascompartilham, do ponto de vista ético, do
dimento), para empregar a terminologia kantiana. Porque a psicologia que
a evoluçãoproduziu em nós indica que existe um modo pelo qual o mundo
traço comum que as pessoasutilizam ao buscar a ezzdafmo/zía,desenvolvendo uma concepção de o que é, para sua vida, ir bem e tentando, então, viver
de acordo com essa concepção.
Essasduas contribuições são distintas. Uma identidade pode vir com
metas constitutivas, cuja adoção por nós estabelecepadrões para o êxito ou
fracasso de nossos projetos. Assim acontece, por exemplo, com a identidade
"romancista':Ela proporciona modos de definir uma concepçãode o que
é, para minha vida, ir bem, e assim ajuda a estabelecerminha medida. Mas
uma identidade pode também ajudar-me a viver de acordo com uma concepção,proporcionando-me os meios para leva-la a cabo. As identidades
Labor relaciona milhares de proâssões em seu manual de ocupaçõesP.Há
muitas respostas objetivas semelhantes, relativas às origens da diversidade
daidentidade.
No entanto,há também uma respostaética não do ponto de vista do
se mostra por dentro, do ponto de vista de uma criatura com aquela psico-
logia. E, dessaperspectiva,há outra respostaigualmente persuasiva:usamos
identidades para construir nossa vida; nós a construímos como homens e
como mulheres, como ganensese como brasileiros, como cristãos e como
judeus; nói a construímos como âlósofos e como romancistas, como pais
e como filhas. As identidades são um recurso essencial nesse processo.A
moralidade - que, como já disse, significa para mim a forma como devemos
tratar uns aos outros - é também parte do andaime sobre o qual erguemos
essaconstrução. Há então diversos projetos que empreendemos voluntariamente, tais como aprender a ser um cozinheiro realmente bom, ou jogar
brídge, ou tocar violão ou, de maneira mais sublime, propor-se a escrever
grandes obras de ficção.
As identidades são tão variadas e extensasporque, no mundo moderno, as
pessoasprecisam de um enorme rol de ferramentas para construir sua vida. A
gama suficiente de opções para cada um de nós não é a mesma para todos nós.
De fato, as pessoasestão construindo novas identidades o tempo todo: gay tem
7-
J. S. Mill, On l,íberfy, i978.
8.
W von Humboldt, 7he l,ímífs o$SfafeActíofz, 1969,p. g. Esseensaio de Humboldt, embora escrito
basicamente uns quarenta anos; punk é mais jovem.
entre i791 e 1792, só foi publicado pela primeira vez de forma completa em t85z. Ver "Introdução':
p.vn
United StatesDepartment ofLabor, Occupafíofza/OzzfZook
Harzdbook, zoi4
z3
z4
!densidades
Identidade como Problema
Recentemente,os filósofos muito têm escrito sobre como asidentidades
Sustento que as identidades estão entre as mais importantes ferramentas
socialmentemantidas e transmitidas para construir uma vida. A construção
de uma vida tem muitas dimensões.Algumas sãoprofundamente pessoais,
sociais figuram de modo público, prática e epistemicamente, o que, em linguagem hegeliana, é rotulado como "política do reconhecimento': Obviamente, as reaçõesde outras pessoastêm papel preponderante na moldagem
do sentimento de alguém sobre quem ele próprio é. Como assinala Charles
moldando os atosexclusivamentenossosou em parceriacom nossosíntimos, mas epistemicamente cerradas para desconhecidos.Sãoprivadas no
sentido de que não são da conta de ninguém mais. A maioria de nós man
tém pelo menos um relacionamentosério. Como esserelacionamentovai
Taylor, esseprocesso começa na vida privada: "No nível íntimo, podemos
ver quanto uma identidade original necessitae é vulnerável ao reconhe
é da conta de cada um, da conta do parceiro ou parceira, talvez da família
cimento oferecido ou negado por outras pessoasimportantes:' Os relaciona-
e dos amigos. Fora isso, ninguém tem direito à informação sobre o anda-
mentos, diz ele, "são cruciais porque sãoprovas importantes da identidade
mento dessa relação. Outras notícias são intrinsecamente públicas; elas são
gerada internamente":'. Mas esse é apenas o começo. Nossas identidades
não dependem apenasde interações na vida íntima. A lei, a escola,a Igreja, o
conhecidas de todos, e somos conhecidos por elas.Não há razão para ser um
democrata, a menos que você deseje ser computado como tal, agir como um
democrata, ser visitado por colegasdemocratas, contestar as reivindicações
trabalho e muitas outras instituições também nos moldam. Mais adiante,retomarei a questão de por que grande parte de nossa identidade é essencial às
de republicanos e opor-se a seusvotos. Portanto, as identidades diferem à
medida que secomprometem mais no âmbito privado ou público.
interações públicas com pessoaspara além de nossos íntimos, e então insis-
Há pelo menos duas dimensões importantes da identidade, que exibem
um espectro público-privado. Uma delas, como já vimos, é epistêmica.
Antes, porém, quero assinalar que um modo essencialpelo qual nossas
identidades moldam nossa experiência subjetiva é por meio da psicologia
Nessecaso,a privacidade é somente uma questão da regulação do conhe-
da estima, por meio dos sentimentos gerados em nós pelo respeito e despre-
cimento. Minha identidade homossexualpode ser essencialpara minha
vida. Mas, se estou no armário, estou protegendo essaidentidade tanto
quanto sua importância da maioria das outras pessoas;é uma questão
de grau, porque o círculo de conhecimento pode ser maior ou menor. Porém, mesmo que eu esteja fora do armário, o modo como expressominha
sexualidadenão é da conta nem do Estado nem da sociedade.Possoser
zo dos outros. Tanto o respeito quanto o desprezo podem ocorrer mediados
ou não pela identidade. Você pode desprezar-me porque fui desonesto. Isso
tirei em que há aspectos de nossa identidade que também são mais privados.
não diz respeito à identidade: seu respeito diminuído por mim não é um
respeito diminuído mediado pela identidade de um desonesto.Você está
reagindo ao fato de ter havido desonestidade, e não a uma suposta identidade desonesta. De outro lado, se você me olha com desprezo por eu ser um ci-
solicitado a, sensatamente,manter dissimulado meu comportamento sexual, porque os atos sexuaisde outros podem nos atingir de tal modo que
temos o direito de não nos deixar expor sem consentimento. E, decerto, o
que faço em privacidade epistêmica pode estar sujeito à regulamentação
por outras razões.Porém,ser um assuntoprivado significa que tem a ver
com coisas da minha vida, a cujo respeito - pelo menos enquanto forem
mantidas fora da visão pública - cabea mim decidir. Podemosdizer que
gano,julgando-me pelo fato de algum outro cigano ter sido desonesto com
você, então'a identidade tem papel indiscutível para explicar sua reação a
mim. Minha atitude em relação a você, que, até onde eu sei, não foi desones
to com ninguém, é mediada pelo fato de você compartilhar da identidade
com alguém desonesto. Agora, é certo que, se sou cigano e vejo outro cigano
sendo desonesto,posso sentir-me envergonhado. Assim, algumas de nossas
atitudes negativas relativamente a nós mesmos também são mediadas pela
identidade.
são assuntos praticamente privados.
A maioria daspessoasconsidera que as i.dentidadesreligiosasdevem ser
O mesmo se dá com as atitudes positivas, como o respeito. Não só posso
epistemicamente públicas, mas praticamente privadas. Os outros podem ter
sentir-me enaltecido privadamente pelos feitos de outros de minha iden
tidade orgulhar-me de seus feitos - como posso também experimentar
estima social por isso. (Essaestima nem sempre é positiva, como quando
conhecimento a respeito, mas não têm o direito de determinar como devemos agir sobre elas. Os sadomasoquistas, creio, tendem a manter suaspráticassexuais epistemicamente privadas e julgam que elas devam ser também
alguém diz: "Realmenteadmiro o modo como vocês,judeus, mantêm-se
unidos':)
praticamente privadas. Uma vez que a regulamentação exige conhecimento,
desde que uma dimensão da identidade seja, de forma legítima, praticamen-
te pública, isso exige que se aceite que ela não seja epistemicamente privada.
10
C. Taylor, À4uifíczzlfurarísm, 1994, p. 36; A. Honneth, 7;zeSfrzzggiejor RecognÍfíon, 1995
z5
z6
Identidades
Identidade como Problema
Infelizmente, vivemos em sociedades que têm tratado muitas pessoas
com desprezopor serem, digamos, mulheres, homossexuais, negros, judeus.
o mais
vida social. Muito embora minha "raça" ou minha sexualidade possam ser
elementos da minha individualidade, alguém que insista em que eu organize
minha vida em torno desseselementos não é um defensor da individualida-
às suas identidades. A política do re-
de. Insisto na privacidade prática de minha identidade: na necessidadede
Como nossas identidades são moldadas "dialogicamente': segundo Taylor,
as pessoas com essas características
das vezes negativamente essenciais
trate a cor de minha peleou minha sexualidadecomo essenciaispara minha
as têm considerado
essenciais
conhecimento começa quando se percebe que isso é errado. Uma forma
de remediar, buscadapelos detentores dessasidentidades, implica ver es
deixar para mim sua expressão.
sasidentidades coletivas não como fontes de limitação e insulto, mas como
identidades são tanto epistêmicaquanto praticamente públicas. As pessoas
partes valiosas de quem eles são. E, uma vez que uma ética moderna da
autenticidade (que provém aproximadamente do romantismo) requer que
exprimamos quem somos essencialmente,os detentoresdessasidentidades
querem que suasidentidades sejam conhecidas - em parte graças às demandas
de autenticidade -, mas também esperam que o exercício de suas identidades
avançam ao exigir que a sociedade os reconheça como mulheres, homosse
xuais, negros, católicos e façam o trabalho cultural necessáriopara resistir
aos estereótipos, desafiar os insultos e eliminar as restrições.
O envolvimento da identidade na política formal significa que muitas
tenha lugar no contexto de estranhos, que reagem a elas (as identidades pos
tas na política formal) em virtude de suaspróprias identidades.
Essetipo de política é realmente uma característicaprofunda da vida
democrática moderna. Identificamo-nos com pessoase partidos por varia-
Mas vale insistir que o dano causado por práticas anteriores de exclusão
das razões psicológicas, entre as quais identificações do tipo pré-político, e,
não foi simplesmente a negação da estima e a corrosão do autorrespeito.
por isso, estamosmais inclinados a apoiar todas as políticas de tal pessoa
Todas as velhas formas de desprezo levam não só à negação do respeito, mas
ou partido. Em parte,isso ocorreporque pessoassensatastêm coisasmais
importantes a fazer do que descobrir, por si mesmas, qual deve ser o equi-
mantêm as pessoas fora de empregos, educação, dinheiro e poder.
Todo tipo de coisa tem sido sugerido para reverter essahistória de des
prezo: leis contra discursos de ódio ou assédioverbal no local de trabalho,
líbrio adequado entre, digamos, imposto de consumo e imposto de renda,
ensino público em prol da tolerância, louvor público dosheróis dos oprimidos. São formas de política pública de reconhecimento.Mas é importante reconhecer que, enquanto membros de grupos que experimentaram
mas também porque pessoassuâcientemente semelhantes a você podem
realmente escolher políticas, quando de fato pensam sobre elas, como as
que você escolheria se tivessetempo para isso. Aqui, pois, como em muitos
lugares na vida, é sensatoque se pratique uma divisão cognitiva do traba-
exclusão ou desprezo históricos realmente precisam de novas práticas se
lho. Isso costumava funcionar mediante a criação de identidades políticas
dais para ílorescerem,o que eles buscam é também uma redistribuição
de educação,dinheiro e poder. Quando os negros e as mulheres dos Estados Unidos lutaram pelo voto, frequentementeo fizeram como negros
e como mulheres.Não estavam,porém, exigindo reconhecimentode sua
identidade, exigiam, sim, o direito ao voto. Do mesmo modo, quando os
esquerda, direita, liberal ou Liberal, democrata, republicano, democrata
cristão, socialista e marxista. Porém, em muitas das democracias ricas, as
filiações a partidos são menos vigorosas do que costumavam ser, e outras
movimentos de gays e lésbicas dos Estados Unidos lutam por reconheci-
e a deânição de classerelacionada com o trabalho tem perdido importância
mento, eleso fazem exigindo direitos - como de servir abertamenteao
Exército ou de casar-se que seriam bem-vindos, ainda que viessem sem
reconhecimento. Nem todas as reivindicações políticas feitas em nome da
identidade de certo grupo são predominantementereivindicaçõesde re-
para a identificação das pessoas. De modo bem profundo, um novo tipo de
conhecimento.
Na vida social, também, é igualmente importante não avançar demais na
luta por uma política de reconhecimento. Seesteacarretaproclamar a iden-
identidades vêm ganhando mais peso político. Penso que isso se dá porque
muitas das filiações partidárias mais antigas tinham por base a classesocial,
política de identidade, baseada na preponderância cada vez menor da classe
social - sua importância decrescentecomo identificação subjetiva -, tem
aumentado no Ocidente a partir da década de ig6o.
Na maior parte do restante do mundo, asidentidades políticas mais importantes jamais se basearam na classe social. Eram étnicas, etnorregionais, reli-
tidade de alguém na vida social, então o desenvolvimento de normas enér-
giosas,baseadasem castasou em uma identidade nacional.A nacionalidade
também foi extremamenteimportante no Ocidente nos últimos dois séculos,
gicasde identificação pode tornar-se não libertador, masopressivo. Há um
assim como a religião, especialmente em paísescomo Grã-Bretanha, Alemanha,
tipo de política de identidade que não só permite, mas também elege que eu
Suíçae EstadosUnidos, que possuemsignificativo número tanto de católicos
z7
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Identidades
Identidade como Problema
como de protestantes,e grande ramiõcação destesúltimos. Raça também tem
do em termos de padrões de comportamento a que todos, em princípio, po-
sido uma preocupação política fundamental das sociedades europeias e de suas
descendentes- na Australásia, na África do Sul e no Novo Mundo.
dem seconformar
Tais identidades engajam-se na política por duas razões. Uma delas é que
é entendido por muitos como não essencial.Denomino
essasnormas de normas comportamentais gerais. Porém, de todo aquele
que se identifica como membro de um grupo etnorracial
que leva sua par
suasnormas constitutivas denotam que pessoascom determinada identida
de compartilham objetivos que o Estado pode promover ou retardar. Não
ticipação a sério como razõesfundamentais para sentir e reagir - espera-se
que seconforme às normas de solidariedade. Ao contrário do que se dá com
surpreende que mulheres atuem juntas na vida política, uma vez que suas
as normas comportamentais gerais, sem solidariedade não há etnicidade.
Com o que se parecem as normas de solidariedade? Em primeiro lugar,
opções são moldadas pelo sexismo das instituições públicas; ou que pessoas
negras atuem juntas em sociedadesmarcadas pelo racismo antinegros; ou
que homossexuais assim o façam em sociedades permeadas pela homofobia.
A conexão entre identidade e política constitui-se, nesse caso, de normas de
elas têm determinada forma em que figura algum rótulo do grupo. Assim,
normasde solidariedade para a identidade x são normas que dizem o que
você deveria fazer com, fazer para e fazer por outros xs. Para que sejam de
Mas as pessoastambém atuam com base em identidades por razões mais
solidariedade,aquilo que você faz tem como objetivo ou promover os interessesdos xs com quem, para quem e por quem você atua ou proteger o
puramente estratégicas.A política democrática requer a formação de coali-
grupo em geral, muitas vezesprotegendo seu bom nome. Assim, as normas
zões em larga escala por meio de sociedades de pessoasque nem sequer se
conhecem. Quando menos, tais coalizões são necessárias na busca de uma
de solidariedade típicas para grupos etnorraciais exigem preferência pelos
gama de recursos,tanto simbólicos quanto materiais, que os Estadosmo
demos distribuem. Essafunção estratégicaé de particular importância em
contextos de escassez,nos quais trabalhar com alguns e contra outros é o
dos xs, além de que se evitem comportamentos que desmereçamos xs aos
olhosdosoutros.
único meio de obter recursos. Não foi de surpreender que identidades étni-
uma sociedadequando suas normas de identidade incluem normas de solidariedade amplamente aprovadas dessetipo. As identidades etnorraciais
são sempre mobilizadas para a solidariedade, não importa que outra coisa
identificação; é uma conexão interna, pode-se dizer.
cas e religiosas ganhassem proeminência nos Bálcãs assim que a economia
iugoslava entrou em colapso. Tais conexões entre identidade e política são,
companheiros xs, que exigem ação com outros xs para garantir os interesses
Devo dizer que uma identidade está mobilizada para a solidariedade em
ra de ser mobilizada na perseguição de metas, as quais não têm muito a ver
elas sejam ou façam. À medida que uma identidade etnorracial vai deixando
de ser claramente governada por normas de solidariedade, ela deixa de ser
com a particularidade da identidade ou com as suasnormas.
uma identidade etnorracial importante. E isso faz que etnicidade e raça se
em sentido obviamente semelhante, externas: a identidade estaria ali à espe-
As identidades etnorraciais nem sempre são definidas por normas de
comportamento características. São essencialmente contrastantes
e esse
jam recursos cujos portadores podem utiliza-los para a construção da coalizão estratégica da vida política.
é um dos importantes achados da antropologia moderna -, exigem uma
fronteira com outras etnicidades para que se estabeleçasua importância.
Acima de tudo, ser iorubá, digamos, é não ser ibo ou hauçá;ser hútu é não
Na maioria das sociedades,grande parte das identidades religiosas também se mobiliza para a solidariedade.Isso porque a associaçãoreligiosa
quase semprerequer mais do que crença. Claro que se pode ter crençasre-
ser tútsi; ser basco é não ser francês nem espanhol. Claro que há formas dis
ligiosas sem ter uma identidade religiosa. Essa é a situação de muitos ateus
metafísicos do Ocidente moderno. Mas uma identidade religiosa, ainda que
tintas de comportamento associadasà etnicidade: culinária, modos de falar
e vestir e até mesmo filiações religiosas. Porém, comumente se entende que
seuscritérios de filiação sejam puramente de credo, terá normas de compor-
o abandono de qualquer uma delasnão acarreta o abandono da etnicidade
de alguém. Nos Estados Unidos, o judaísmo é uma identidade etnorracial
tamento associadas a ela, e estas, em geral, incluirão normas de solidarieda-
porque podem ser abandonadas a lei e a tradição judaicas sem que se perca
de. Não obstante,o papel das identidades religiosas na vida social e política
nem sempre é substancial: as normas da solidariedade religiosa podem ser
aquelaidentidade; e hispânico é uma identidade etnorracial porque ela se
bastante frágeis. Assim, a meu ver, não é um traço constitutivo das identida
mantém mesmo que não sefde espanhol.
des religiosas sua mobilização para a solidariedade.
Assim, embora haja normas específicasde identiâcação, aquilo que os
membros de um grupo etnorracial devem fazer - e que pode ser especifica-
Algumas identidades vêm com um programa: o romancista, que mencio
nei anteriormente,vem com algumascoisasa seremfeitas. Essaé uma profis-
zg
3o
Identidade como Problema
Identidades
são exemplar. As identidades profissionais
que são essencialmente profissões
dam tanto asatividades dos portadores dos rótulos como asdos que reagem
institucionalizadas vêm com estruturas de carreira que indicam um padrão
a ser atingido no decorrer de toda uma vida. Monitor, assistente,professor,
primeiros artigos,talvez um ou dois livros, professorassociado,estabilidade
a estes.A aplicaçãodos rótulos e o conteúdo das normas são comumente
contestados,embora sejacomum também haver exemplares incontestados
etc. Muitas vezes,há ritos fundamentais de passagem- conseguir estabilidade,
apreciados por outros, mediante aros de reconhecimento, fora dos contextos
Temos grande quantidade de identidades porque elas são úteis para
a construção da vida, mesmo que o sejam de maneiras diferentes. Algumasajudam a determinar a medida de nossasvidas: o que representapara
nossasvidas ir bem. Uma patriota norte-americana tem uma vida que vai
melhor se o país for melhor, e pior em caso oposto. Essa é sua escolha.
Não é fiorque ela é não norte-americana - o que pode ter sido determinado pelo nascimento -, mas porque escolheu que fosse assim, uma vez
que ela se identifica como norte-americana. Outras identidades - como
em que orientam a vida prática. Claro que os soldadosuniformizados e em
as de profissões e suas primas institucionalizadas,
serviço reconhecem e apreciam suasidentidades e seuspostos militares - essa
é uma das razões para usarem uniformes -, mas, embora tenhamos meios de
dizer quem está no Exército(pelo corte do cabelo ou postura), não se espera
oferecem projetos e metas. Identidades-padrão, as que recebemos de nos-
tornar-se sócio, fazer exameda ordem ou do conselhoproâssional, obter a
primeira estrela em seu uniforme
que deixam marcas no caminho. Porém,
embora essasidentidades programáticas sejam atualmente - como sugerem
os exemplos dados
um elemento importante
da vida ética das pessoas, não
é frequente que se mobilizem para a solidariedade.Resultadaí que muitas
vezestambém não é importante que os portadoresdessasidentidades sejam
que os civis tratemos os militares de modo diferente de qualquer outra pessoa.
Analogamente, embora seja agradável ser reconhecido por nossa identidade
e normas quase universalmente aceitas.
as procissões liberais -
sas famílias, imputadas ou não, estritamente falando, são essenciaispara
a moldagem de nossas escolhas e nossos planos. Nossas identidades por
filiação, estruturadas socialmente e proporcionadas pelas contribuições
conceituais, institucionais e materiais de outros, agregam-se às nossas
profissional - como romancista, âlósoío ou poeta, digamos -, o prazer provém da ligação existenteentre essereconhecimento e o êxito ou a reputação
identidades-padrão à medida que crescemos.
no desempenho profissional. O reconhecimento é importante, na maior parte
tidades desempenham seu papel principalmente em nossas vidas íntimas,
das vezes,para identidades que se mobilizam para a solidariedade. É fácil per
ceber por quê. Se uma identidade semobMza para a solidariedade, será então
necessárioque seu companheiro x seja capaz de dirigir-se a você como x. Ao
mesmo tempo, os não xs terão opinião a respeito dos xs e pensarão, sentirão e
em esferasde privacidade epistêmica e prática, as quais temos o direito de
impedir que os outros conheçam ou que nelasinterõram. Assim se dá com
passatempos:ninguém tem o direito de saberse sou romancista posso es-
reagirão a eles de diferentes maneiras.
Essaé uma razão por que identidades homólogas em sociedades diferen
tes podem deslocar-se ao longo do eixo público-privado. "Intelectual': nos
Estados Unidos, pode ser qualificado pelo adjetivo "público': exatamente
porque, nessepaís, ela não é uma identidade mobilizada para a solidariedade. As pessoas,de modo geral, não operam nem reagemumas às outras
como intelectuais; nem os não intelectuais, de modo geral reconhecem nor
mas a respeito de como os intelectuais devemos ser tratados. Na França, ao
Nossaconstruçãode vida é tanto privada quanto pública. Algumas iden
crever anonimamente, se assim o desejar.Ninguém tem o direito de regulamentar como escrevo meus romances. Porém, ser romancista é parte importante de quem sou; e há coisas que os romancistas deveriam fazer
escrever
romances, mas também mais coisas e coisasque as pessoasesperamdos
romancistas. E há as identidades públicas. Aquelas para as quais a maioria
de nós exige reconhecimento: religião, raça e gênero, por exemplo. Nestas,
atuamos em púbico e esperamosque os outros atuem nas suas e também
regam asnossas.
reconhecido como tal. Nos Estados Unidos, os acadêmicos frequentemente
Em qual ponto do espectropúblico-privado uma identidade se encontra é algo que, em geral, não está embutido nas identidades. As identidades religiosaspodem viver em sua maior parte na vida privada, mas podem
mobilizar para a solidariedade em certas ocasiões.Uma identidade católica
desejampermanecer no armário, o que, como sugerea ética do oufífzg,sem
que viveu durante muito tempo na vida privada pode vir a público por estar
dúvida nenhuma, é um direito deles.
associada a normas
contrário, intelectual é uma identidade pública mobilizada para a sonda
riedade e reconhecida pelos outros como tal. Ser intelectual é desejar ser
As identidades sociais,como afirmei no início, sãonominais, normativas
e subjetivas. Funcionam mediante rótulos, associadosa normas que mol-
a respeito do aborto, digamos
que o Estado pode se
lapar ou manter. Nessecaso, a vida pública da identidade está ligada interna-
mente com suasnormas. Pode,porém, vir a público às vezespor ter normas
3t
n"
3z
Identidades
de solidariedade que fazem dela a base natural para a perseguição de metas
que todos têm: compartilhamento de dinheiro, poder e estima socialmente
disponível - a conexãocom suasnormas aqui seráexterna.
Quão importante é o reconhecimentopara uma identidade - quanto
desejamos ser publicamente reconhecidos e estimados sob seu rótulo
de
/
IDENTIDADES PROBLEMÁTICAS
pende de quanto consideramos que ela deve ser epistêmica e praticamente
pública, e, frequentemente,isso dependede ter havido histórico de não reconhecimento, um passado social em que o desprezo assomava.
GabrieZCohfz'F
No entanto, de que maneira uma identidade figurará em todos essesmo
dos não está gravado em pedra, evidentemente. As identidades oscilam para
dentro e para fora da visão pública, alteram aspróprias normas, empenhamse pela solidariedade por algum tempo, depois desistem. Em suma, elas são
históricas e orgânicas. Talvez, por isso, sejam tão variadas. A história de vida
produz diversidade:observemos a gama de organismos e de culturas. Hoje
em dia, estamos preocupados com a extinção de espécies e de culturas. Por
isso, talvez valha a pena lembrar que novas espécies e novas culturas - e novas identidades
também estão sendo geradas a cada momento.
A iniciativa de organizar conferência sobre "identidades" e a própria formu
lação do tema das palestras iniciais, ao enfatizar sua dimensão de pro.bZema,
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
indicam algo digno de nota. A saber,que se propõe aqui algo mais do que
um con)unto de defesasdo direito à identidade, no registro social ou pessoal, ou de alguma das suas formas efetivas. Está em jogo algo mais fundo:
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United StatesBureauof Labor Statistics,8 jan. zol4- Disponívelem: <http://www.bls.
um esforço de reflexão sobre o alcance e o significado dessadimensão da
vida social que ganhou notoriedade e espaço em décadas recentes. Como sa-
bemos, isso se deu basicamente a partir da emergência dos movimentos em
defesa de direitos; o que, de resto, explica a conotação virtuosa que tendemos a emprestar ao termo, deixando em segundo plano o fato de que, afinal,
o movimento da juventude nazista,a HítZedzzgend,
também tinha caráter
identitário. O importante, no nosso caso, é que isso revela um amadurecimento do tema, cada vez mais aberto à reflexão e à crítica.
'Por que justo a mim acontece ser como eu?': pergunta Felipe, numa das
tiras de Quino sobreMafalda. O risco de algum "essencialismo"subjacente
à formulação é amenizado pela interrogação sobre a causa do infortúnio,
e parte da graça dessa pequena obra-prima está em que, ao problematizar
assim sua identidade, Felipe revela já a ter embora fraturada, ferida, como
tentarei retomar mais adiante. Antes de chegar a isso, convém formular, em
primeira aproximação, o que entenderei aqui por identidade social. Des-
gov/ooh>. Acesso em: 29 ago. 2014.
Gabriel Cohn é professor emérito da Faculdade de Filsofia, Letras e Ciências Humanas da Uni
versidade de São Paulo(usp) e professor visitante sênior da Capes na Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp).
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