A Teoria da Dependência e as novas formas de integração na

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A Teoria da Dependência e as novas formas de integração na América
Latina: o caso da ALBA
Resultado de investigação finalizada
Globalização, integração regional e sub-regional
Nilson Araújo de Souza
Doutor em Economia pela UNAM, com pós-Doutoramento na USP; professor visitante sênior da
Universidade Federal da Integração Latino-Americana – UNILA (Programa CAPES-UNILA)
Luisa Maria Nunes de Moura e Silva
Doutora em Sociologia pela USP; professora associada da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul UFMS
Resumo
O objetivo deste artigo é examinar o processo recente de integração latino-americana com base na Teoria
da Dependência, na abordagem de Ruy Mauro Marini. Concentramos a análise no processo de formulação
e implementação da ALBA. Segundo essa abordagem, a integração deveria entender-se como a formação
de uma nova economia, baseada na incorporação de amplos contingentes populacionais à cultura, ao
trabalho e ao consumo e que promova a redução da superexploração do trabalho. O pressuposto é o de que,
quanto maior a dependência externa da América Latina, menores suas possibilidades de integração; ao
inverso, os processos de integração da região avançam nos momentos em que sua dependência entra em
crise e crescem as condições para um maior grau de autonomia regional.
Palavras-chaves: Teoria da Dependência, Integração Latino-Americana, ALBA.
Introdução
O objetivo deste artigo é examinar o processo recente de integração latino-americana com base na Teoria
da Dependência. Entende-se como processo recente de integração o período iniciado com a derrota do
projeto da Área de Livre Comércio das Américas – ALCA. Concentramos a análise na elaboração do
projeto e na implementação da Aliança Bolivariana dos Povos de nossa América – ALBA, que nasceu
justamente em oposição à ALCA.
A referência teórica utilizada é a Teoria da Dependência, na abordagem de Ruy Mauro Marini, para o qual
a integração deveria entender-se como a formação de uma nova economia, baseada na incorporação de
amplos contingentes populacionais à cultura, ao trabalho e ao consumo, e promovendo a redução da
superexploração do trabalho e uma melhor distribuição de renda.
O pressuposto é o de que, quanto maior é a dependência externa da América Latina, menores suas
possibilidades de integração ou, dito de outro modo, maior a desintegração da região; e, ao inverso, os
processos de integração da região avançam nos momentos em que sua dependência externa entra em crise
e crescem as condições para um maior grau de autonomia regional. A integração regional seria, ademais,
um instrumento para enfrentar a dependência externa.
O texto se desdobra em três partes. Na primeira delas, examinam-se as proposições apresentadas por
Marini sobre a integração latino-americana a partir de sua abordagem da teoria da dependência. Na
segunda, analisa-se o processo de formulação do projeto da ALBA. A última parte dedica-se ao processo
de implementação desse bloco regional.
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1. A Teoria da Dependência e a Integração
Ao mesmo tempo em que a Cepal, num recuo estratégico, propugnava a tese do “regionalismo aberto”,
surgia na América Latina, no começo da década de 1990, uma nova concepção acerca da integração
regional, que se contrapunha àquela tese. Foi elaborada por um dos principais expoentes da Teoria
Marxista da Dependência, Ruy Mauro Marini. Depois de duas décadas e meia dedicado ao estudo da
América Latina, Marini ainda não havia convertido a integração regional em objeto de estudo.
A Teoria da Dependência parte da ideia de que vigora na América Latina “um capitalismo sui generis”,
donde concluía que “é o conhecimento da forma particular que acabou por adotar o capitalismo
dependente latino-americano que ilumina o estudo de sua gestação e permite conhecer analiticamente as
tendências que desembocaram neste resultado” (Marini, 1974, pp.14-15).
Mas, para entender essa especificidade, ter-se-ia que analisar o sistema em seu conjunto “tanto em nível
nacional como, e principalmente [grifo nosso], em nível internacional” (Ibid., p.14). Partindo da análise
da economia mundial e da inserção da América Latina nesse contexto, Marini constatou a existência do
intercâmbio desigual entre as economias latino-americanas e as economias centrais. O intercâmbio
desigual significa que as nações com menor grau de produtividade e, portanto, com menor composição
orgânica do capital, a saber as nações dependentes, transferem mais-valia, no processo de intercâmbio,
para as nações desenvolvidas, que possuem maior grau de produtividade. Além disso, com a forte
presença do capital estrangeiro em seu interior, transferem mais-valia por meio da remessa de lucros e de
encargos financeiros da dívida externa.
Incapaz de impedir essa transferência de mais-valia pelos mecanismos de mercado, diz Marini, a
economia dependente da América Latina busca compensá-la, no plano da produção interna, por meio da
superexploração da força de trabalho, recorrendo ao aumento da intensidade do trabalho, à prolongação
da jornada de trabalho e à redução do “consumo do operário para além de seu limite normal” (Ibid., p.38),
ou seja, remunerando a força de trabalho por um salário abaixo de seu valor. Esta seria a essência da
dependência latino-americana. A conseqüência, na esfera da circulação, é que se restringe o mercado
interno para bens de consumo-salário, ao mesmo tempo em que, com a concentração de renda decorrente,
aumenta a demanda para bens de consumo capitalista, gerando a cisão entre a esfera alta e a esfera baixa
da circulação.
Estas formulações foram feitas no começo da década de 1970. Duas décadas depois, após a retomada do
processo de integração regional com a criação do Mercado Comum do Sul - MERCOSUL, Marini, em
seu primeiro livro em língua portuguesa, América Latina: dependência e integração, trata o fenômeno da
integração à luz de sua Teoria da Dependência. Em essência, para ele, a inserção internacional
dependente da economia latino-americana “acarretará também, por isso mesmo, a impossibilidade de
integração das economias latino-americanas entre elas mesmas” (Marini, 1992, pp.116-117). Portanto,
“não surpreende, assim, que a afirmação da economia capitalista dependente latino-americana, sob sua
forma de exportação de produtos primários, faça declinar o espírito integracionista” (Ibid., p.117).
Por outro lado, sempre que afrouxam os laças de dependência, abre-se espaço para o projeto de
integração. Isso ocorreu na segunda metade da década de 1940 e começo da de 1950, quando, estando
Perón na presidência da Argentina, que “acentuou sua política independente”, chegou-se a propor a
formação da União Econômica Sul-Americana, “que coloca, pela primeira vez de modo coerente o
objetivo da integração econômica regional” (Ibid., p.127). O mesmo ocorreu após a emergência da crise
estrutural capitalista iniciada no final dos anos de 1960, quando
as políticas de afirmação nacional [latino-americanas] darão origem à busca de afirmação regional, num
plano mais global, que terá seu ponto alto na criação do Sistema Econômico Latino-Americano (SELA),
em 1975, o primeiro organismo de caráter exclusivamente regional e situado numa linha de
independência em relação aos Estados Unidos, desde a União Econômica Sul-Americana, de 1953 (Ibid.,
pp.138-139).
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O agravamento da crise na década de 1980 teria recolocado a questão da integração latino-americana,
levando “alento aos processos de integração regional”, em cujo contexto se cria o MERCOSUL, que
“assume importância crescente no plano latino-americano, contrapondo-se à política direta de
entendimento com os grandes centros, que desenvolvem o Chile e o México” (Ibid., p.143)1. Em síntese,
a crise e a consequente ofensiva imperialista da década de 1980
obrigou-os [aos países latino-americanos] à reunião de esforços, mediante a política de concertação, e pôs
de novo em primeiro plano a questão da integração regional, agora independentemente dos Estados
Unidos e com a participação ativa do Brasil. Mas esse latino-americanismo renovado se configura no
contexto de uma realidade mundial profundamente modificada, pela formação dos grandes blocos
econômicos hegemonizados pelos centros imperialistas (Ibid., p.145).
A partir daí, Marini define sua própria concepção de integração latino-americana:
Neste contexto, a América Latina tem, primeiro, que – enfrentando as pressões que se exercem sobre ela,
no sentido de dilacerá-la e proceder à anexação em separado de suas partes – promover a criação de um
espaço econômico mais amplo, capaz de adequar-se aos requerimentos derivados das modernas
tecnologias de produção. Isso não pode entender-se, porém, como ocorreu na década de sessenta, como
simples agregação de espaços econômicos relativamente dinâmicos, pequenas ilhas no oceano de
subdesenvolvimento em que se submerge a região. Pelo contrário, supõe a formação de uma nova
economia, baseada na incorporação de amplos contingentes populacionais à cultura, ao trabalho e ao
consumo, mediante uma adequada alocação dos investimentos, uma verdadeira revolução educacional, a
redução das altas taxas de superexploração do trabalho e, portanto, uma melhor distribuição de renda.
É evidente que esse resultado não pode ser alcançado sem que a integração econômica signifique,
também, avançar no processo de integração política, apontada em direção a um Estado supra-nacional. As
atuais discussões sobre a reforma do Estado, que se desenvolvem em todos os países da região, não
chegarão a bom termo se não partem da noção de que o antigo ideal bolivariano encontra-se reatualizado
pela própria vida e que, mais além dos dados geográficos, históricos e econômicos, nenhum país latinoamericano é, hoje, viável isoladamente. Chegamos àquele ponto em que nossa sobrevivência como
brasileiros, mexicanos, chilenos, argentinos depende da nossa habilidade para construir novas superestruturas políticas e jurídicas, dotadas de capacidade de negociação, resistência e pressão que se requer
para ter efetiva presença ante os super-Estados que existem já ou que estão emergindo na Europa, na Ásia
e na própria América (Ibid., pp.145-146).
Mas, para que a integração cumpra esse papel de fortalecer a independência da região e assuma
essa característica de promoção da “incorporação de amplos contingentes populacionais à cultura, ao
trabalho e ao consumo”,
há, por certo, uma questão ainda mais relevante: retirar-lhe o caráter de competência exclusiva dos
governos e da burguesia, através de uma maior iniciativa e controle por parte das forças populares, que
dependem da coordenação de esforços no plano sindical, social e cultural, assim como partidário e
parlamentar. A integração deve deixar de ser um mero negócio, destinado somente a assegurar áreas de
investimento e mercados, para converter-se num grande projeto político e cultural, na melhor tradição da
esquerda latino-americana. Isso supõe que operários, estudantes, intelectuais, mulheres, organizações
sociais e políticas dos países latino-americanos forjem os instrumentos hábeis para a uniformização de
suas demandas e para a coordenação de suas lutas no plano reivindicativo e da legislação laboral, da
política educacional e das plataformas programáticas, e se empenhem na inclusão de representantes seus
nos órgãos existentes ou por criar no marco do processo de integração (Ibid., p.61).
2. O projeto da ALBA
O MERCOSUL e os outros processos de integração da época não realizaram essa proposição de Marini.
À medida que punham ênfase na prática “comercialista”, esses blocos regionais passaram a funcionar
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basicamente como área de livre comércio dentro do regionalismo aberto. Enquanto tal, privilegiava-se a
competição, no lugar da cooperação. O resultado era que, na competição, fortaleciam-se as empresas mais
fortes sediadas nos países mais fortes, em detrimento das empresas mais frágeis dos países mais frágeis.
Esse processo poderia levar à desintegração, ao invés da integração, à medida que, ao destruir ou debilitar
as economias mais débeis, reduziria sua capacidade de compra e, consequentemente, as possibilidades de
intercâmbio intra-regional. Como analisamos em outro artigo (Souza, 2012), a ação dos EUA não
conseguiu bloquear o processo de integração latino-americano nesse período, mas o moldou segundo os
interesses de suas corporações, ao provocar a ênfase nas relações de comércio e no regionalismo aberto.
No entanto, com a emergência de governos progressistas na região, a partir de 1999, não apenas
deflagrou-se um processo de mudança do MERCOSUL, como se criaram novos blocos regionais, como a
Aliança Bolivariana dos Povos de Nossa América – ALBA e a União das Nações Sul-Americanas UNASUL. Marini teria antecipado processos que ocorreriam tempos após suas formulações. Não significa
que, em nível da prática, esses projetos expressem as postulações de Marini, mas, em grande medida,
recolhem suas ideias no nível do discurso. Não é à toa que hoje se retoma com força, na América Latina, o
estudo sobre as contribuições de Marini ao pensamento latino-americano.
O momento decisivo, que abriu um novo processo de integração regional, foi o fracasso do projeto
estadunidense de criar a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), durante a III Cúpula dos Povos,
em 2005, em Mar del Plata. É importante registrar que o mesmo MERCOSUL, que fora moldado nos
termos do programa neoliberal, foi utilizado, em mãos de governos progressistas, como instrumento para
barrar o expansionismo estadunidense, disfarçado de integração continental.
Em oposição ao projeto da ALCA, começara-se a conceber na América Latina dois projetos alternativos
de integração da região. Com o fracasso da ALCA, fortaleceram-se ainda mais esses dois novos
caminhos. Referimo-nos à União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e à Aliança Bolivariana dos
Povos de Nossa América (ALBA)2. Desde a origem, esses projetos procuraram superar as formas
tradicionais de integração baseadas apenas no comércio. Mas nos concentraremos neste artigo no exame
da ALBA por ser o projeto de integração que mais expressa as ideias de Marini. Reúne países da América
do Sul (Venezuela, Bolívia e Equador), da América Central (Nicarágua3) e do Caribe (Cuba, São Vicente
e Granadinas, Dominica, Antigua e Barbuda), que abrangem uma superfície de 2.513.230 km2 e abrigam
uma população de 71.479.532 habitantes.
A ALBA foi proposta originalmente pelo presidente venezuelano Hugo Chaves Frias por ocasião da III
Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Associação de Estados do Caribe, celebrada na Ilha de
Margarita, Venezuela, em dezembro de 2001. Mas foi criada em 14 de dezembro de 2004 quando firmouse, em Havana, entre os presidentes Hugo Chaves e Fidel Castro, a “Declaração Conjunta” que
estabeleceu os princípios fundamentais que norteariam a constituição do novo bloco. Os acordos para
implementação do bloco foram firmados, também em Havana, nos dias 27 e 28 de abril de 2005, entre os
dois presidentes.
A “Declaração” parte de uma contundente crítica da dependência e subdesenvolvimento engendrados pela
dominação imperialista:
Constatamos también que los beneficios obtenidos durante las últimas cinco décadas por las grandes
empresas transnacionales, el agotamiento del modelo de sustitución de importaciones, la crisis de la
deuda externa y, más recientemente, la difusión de las políticas neoliberales, con una mayor
transnacionalización de las economías latinoamericanas y caribeñas y con la proliferación de
negociaciones para la conclusión de acuerdos de libre comercio de igual naturaleza que el ALCA, crean
las bases que distinguen el panorama de subordinación y retraso que hoy sufre nuestra región
(Declaración, 2004).
A ALBA apresenta, portanto, desde o início, claramente uma definição anti-imperialista. Conforme
Marini havia postulado, o avanço da integração latino-americana só poderia ocorrer nos marcos do
enfrentamento com a dependência externa.
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Reforçando essa ideia, a “Declaração Conjunta” critica ao mesmo tempo a proposta estadunidense de
criar a Área de Livre Comércio das Américas – ALCA, que seria “la expresión más acabada de los
apetitos de dominación sobre la región y que, de entrar en vigor, constituiría una profundización del
neoliberalismo y crearía niveles de dependencia y subordinación sin precedentes” (Ibid.), bem como os
processos de integração latino-americana anteriores, os quais, “lejos de responder a los objetivos de
desarrollo independiente y complementariedad económica regional, han servido como un mecanismo para
profundizar la dependencia y la dominación externa” (Ibid.).
Depois do rechaço à proposta de criação da ALCA, o documento apresenta os princípios que deveriam
orientar a constituição da ALBA:
Dejamos claro que si bien la integración es, para los países de la América Latina y el Caribe, una
condición imprescindible para aspirar al desarrollo en medio de la creciente formación de grandes
bloques regionales que ocupan posiciones predominantes en la economía mundial, sólo una integración
basada en la cooperación, la solidaridad y la voluntad común de avanzar todos de consuno hacia
niveles más altos de desarrollo, puede satisfacer las necesidades y anhelos de los países latinoamericanos
y caribeños y, a la par, preservar su independencia, soberanía e identidad [grifo nosso] (Ibid.).
Por isso, “la cooperación entre los países participantes y no la competencia” (Ibid.) deveria prevalecer no
processo de construção da ALBA. Como consequência, a integração “no puede ser hija ciega del
mercado, ni tampoco una simple estrategia para ampliar los mercados externos o estimular el comercio.
Para lograrlo, se requiere una efectiva participación del Estado como regulador y coordinador de la
actividad económica” (Ibid.).
Ao longo de várias Cúpulas de Chefes de Estados, a natureza da ALBA foi sendo melhor definida e novos
instrumentos foram sendo criados. Na III Cúpula, por exemplo, realizada em abril de 2006 em Cuba,
quando ocorreu a adesão da República da Bolívia, o presidente Evo Morales propôs a criação do Tratado
de Comércio dos Povos – TCP, em oposição aos tratados de livre comércio, e que seria um instrumento
das relações cooperativas de comércio entre os países membros. Na VI Cúpula, realizada em janeiro de
2008 em Caracas, instala-se o Conselho dos Movimentos Sociais4, que assinalaria o papel protagônico
dos povos nos processo de construção do bloco, ou seja, concebe “a los pueblos como el principal motor
de la unidad” (Qué és el ALBA – TCP?). Recordemos que Marini havia propugnado que o avanço do
processo de integração requeria “uma maior iniciativa e controle por parte das forças populares”
Essa Cúpula ao mesmo tempo definiu melhor os conceitos de projeto grannacional e empresa
grannacional, que já haviam sido instituídos por ocasião da V Cúpula, em 2007. Antes, no entanto,
estabeleceu os critérios definidores do conceito de grannacional, a saber:
1.
Histórico y geopolítico: es la visión bolivariana de la unión de las repúblicas latinoamericanas
y caribeñas para la conformación de una gran nación.
2.
Socioeconómico: es la estrategia de desarrollo de las economías de nuestros países con el
objetivo de producir la satisfacción de las necesidades sociales de las grandes mayorías.
3.
Ideológico: la afinidad conceptual de quienes integramos al ALBA, en cuanto a la concepción
crítica acerca de la globalización neoliberal, la necesidad del desarrollo sustentable con justicia social, la
soberanía de nuestros países y el derecho a su autodeterminación, generando un bloque en la
perspectiva de estructurar políticas regionales soberanas [grifo nosso] (Ibid.)
Aí estão presentes os elementos de “afirmação regional” e de “incorporação de amplos contingentes
populacionais à cultura, ao trabalho e ao consumo” de que falava Marini. Nessa concepção, os projetos
grannacionais materializam os processos sociais e econômicos da integração e envolvem as dimensões
política, social, cultural, econômica, científica e industrial. Por sua vez, o conceito de empresas
grannacionais – as quais nascem dos projetos grannacionais – surge em oposição às empresas
transnacionais. Assim, privilegiam a produção de bens e serviços destinados à satisfação das necessidades
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humanas, ao contrário da lógica do lucro e da acumulação de capital (Ibid.). Materializa-se, aí, o princípio
da cooperação, em lugar da competição.
A partir da VI Cúpula Extraordinária, ocorrida em Maracay, Venezuela, em junho de 2009, a ALBA
passa a chamar-se Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América. Por sua vez, a Declaração
expedida em outubro do mesmo ano, por ocasião da VII Cúpula, realizada em Cochabamba, Bolívia,
sintetiza o que seriam os princípios fundamentais da ALBA: complementaridade, cooperação,
solidariedade, respeito à soberania dos países, justiça e equidade. Ou seja, o objetivo seria promover a
integração por meio da cooperação, e não da competição. Por outro lado, o objetivo não é apenas
viabilizar o desenvolvimento econômico, mas igualmente o desenvolvimento social, político e cultural
(Ibid.). Essa Cúpula voltou a tratar dos projetos e das empresas grannacionais, avançando na sua
definição e instituindo vários projetos e empresas. (ALBA, 2009).
Rompendo com a lógica evolutiva dos processos de integração convencionais (livre comércio, união
aduaneira, mercado comum, união econômica), os níveis de integração na ALBA “não devem ser
entendidos como uma série de etapas, pois na ALBA os diferentes níveis estão se desenvolvendo
simultaneamente” (Muhr, 2010. apud Melo, 2012, p.38). Além disso, não se trata de um bloco em que o
conjunto dos acordos seja obrigatório para todos os países membros. Ao contrário,
El ALBA funciona como un área donde los países miembros firman distintos acuerdos de cooperación
bilaterales, trilaterales o multilaterales según sus necesidades e intereses (…) Esa es una vía más rápida
para poner en marcha proyectos que respondan a las necesidades de los países sin tener que esperar el
visto bueno de los demás (Melo, 2012, p.35).
Segundo Melo, graças a essa flexibilidade, não há necessidade de se criarem instituições supranacionais,
como na União Européia; ao invés disso, foram criados seis Conselhos “que se encargan de llevar
adelante las conversaciones que se plasman em los acuerdos de cooperación” (Ibid.: p.35), a saber:
Conselho Presidencial, Conselho Político, Conselho Ministerial da Área Social, Conselho Ministerial de
Complementação Econômica, Conselho de Defesa e Conselho de Movimentos Sociais (Ibid.). Neste
sentido, há uma diferença com a proposta de Marini, que indicava a criação de estruturas supranacionais.
Isso se deve à necessidade objetiva de avançar com base na realidade concreta e diferenciada dos níveis
de desenvolvimento dos distintos países.
A IX Cúpula, realizada em abril de 2010, além de estabelecer a criação de instrumentos novos, como o
Sucre e o Banco da ALBA, assume uma definição doutrinária socialista. Segundo a Declaração Final, os
chefes de Estado propõem “construir una base económica independiente, desarrollada y socialista”
(Manifiesto, 2010, apud. Melo, 2012, p.28).
O papel do Estado recebeu, por sua vez, uma definição mais avançada por ocasião da XI Cúpula,
realizada em fevereiro de 2012 em Caracas. Deixou de ser um mero estado regulador e coordenador,
como nas formulações anteriores, para ser o “ator central da economia”. Assim: “el TCP busca fortalecer
al Estado como actor central de la economía de un país a todos los niveles enfrentando las prácticas
privadas contrarias al interés público, tales como el monopolio, el oligopolio, la cartelización,
acaparamiento, especulación y usura” (ALBA, 2012). Para isso, deveriam ser realizadas a nacionalização
e a recuperação de empresas e recursos naturais (Ibid.). Lembremo-nos de que Marini questionara as
“discussões sobre a reforma do Estado” que propugnavam a redução do tamanho do Estado e propunha,
ao contrário, uma mais forte ação do Estado, inclusive no plano plurinacional latino-americano.
3. A ALBA em construção
Examinemos agora alguns aspectos do processo de implementação da ALBA. Foi formada inicialmente
entre Venezuela e Cuba. De um lado, a Venezuela garantia a Cuba o suprimento de petróleo subsidiado,
transferências de tecnologia e financiamento em infra-estrutura e energia; de outro, médicos, educadores e
cientistas cubanos ajudavam nos programas de saúde, educação e desenvolvimento tecnológico da
Venezuela. Conforme Fritz (2007, p.11),
7
En cuanto a los proyectos de cooperación, un aporte central cubano está en los sectores de servicios de la
salud y de la educación. Venezuela, en cambio, ofrece transferencias de tecnología y financiamiento en
los sectores de energía y de infraestructura… [Desde 2005], Cuba se comprometió a enviar hasta 30.000
profesionales de la salud a la misión “Barrio Adentro” que brinda atención primaria en salud. En el
marco de la misión “Ribas“, 10.000 estudiantes reciben una beca para estudiar carreras médicas en Cuba.
Y se acordó tratar en Cuba a hasta 100.000 venezolanos con enfermedades de la vista durante el 2005.
Además, el gobierno de Castro apoya a la misión “Robinson” en la alfabetización y educación escolar.
Para Cuba la alianza ALBA es de especial importancia. Desde los años sesenta la isla socialista sufre un
embargo comercial por parte de los EEUU. La suspensión de la ayuda soviética en los noventa llevó a
una profunda crisis económica, de la que sólo ha podido recuperarse lentamente (apud Brozoski, 2011,
p.7).
Um importante instrumento de integração, a Petrocaribe, foi constituído antes mesmo que os países
participantes se integrassem à ALBA, ainda que em sua criação fosse feita clara referência a esse bloco.
Muitos deles se integraram em 2008 e 2009 (Antigua e Barbuda, Dominica, São Vicente e Granadinas)
e outros (Bahamas, Belice, Granada, Guiana, Jamaica, República Dominicana, Santa Luzia, Suriname,
São Cristóvão e Neves) ainda não participam do bloco, mas gozam dos mesmos benefícios. O papel da
Petrocaribe foi assim definido:
Para contribuir con el desarrollo económico y social de los países del Caribe, PETROCARIBE
dispondrá de un Fondo destinado al financiamiento de programas sociales y económicos, con aportes
provenientes de instrumentos financieros y no financieros; contribuciones que se puedan acordar de la
porción financiada de la factura petrolera y los ahorros producidos por el comercio directo. Este Fondo
se denominará ALBA-CARIBE (Venezuela, 2005, apud Brozoski, 2011, p.5).
Outro importante instrumento da integração na ALBA são os projetos e empresas
grannacionais. Vimos na seção anterior que diversas áreas de integração foram reclassificadas em 2007
como projetos grannacionais, que foram melhor definidos em 2008. A partir daí, várias empresas foram
criadas. Conforme Brozoski (2011, p.6),
Actualmente, la Grannacional de Energía, Petróleo y Gas S.A está operando en la Faja Petrolífera del
Orinoco con el objetivo de desarrollar estudios de cuantificación y certificación de reservas. Asimismo, se
creó la Grannacional de Alimentos; la Grannacional de Manufactura, Ciencia y Tecnología; el Proyecto
Grannacional Centro Regulador de Medicamentos del ALBA (Albamed); Grannacional ALBA de
Nicaragua S.A. (ALBANISA); Empresa Constructora del ALBA y Pescalba, de capital venezolano y
cubano; Grannacional de Café (iniciativa de los gobiernos de Venezuela y la Mancomunidad de
Dominica).
Na área financeira, foram criados dois importantes instrumentos, fomentados pelo Conselho Monetário
Regional, máxima instância financeira da ALBA: a) em 2008, os governos da Bolívia, Cuba, Nicarágua e
Venezuela criaram o Banco da ALBA como uma alternativa financeira para contrabalançar o crônico
problema da restrição externa dos países membros; b) em 2010, os países da ALBA criaram o Sistema
Único de Compensação Regional de Pagamentos (Sucre). Segundo Brozoski (2011, p.9),
El SUCRE es una unidad de cuenta adoptada por los miembros del ALBA como mecanismo para facilitar
el comercio, no es una moneda circulante. Será utilizado por los Bancos Centrales como forma de registrar
y contabilizar el intercambio comercial, posibilitando que los pagos de las transacciones no sean realizados
obligatoriamente en dólar.
Na perspectiva de fortalecer o desenvolvimento cultural no processo de integração, foi inaugurada, a 24 de
julho de 2005, a rede latino-americana de comunicação Telesur. Sociedade multiestatal, criada pelos
governos da Venezuela, Argentina, Cuba, Uruguai e Bolívia, já conta com 30 parcerias com emissoras do
“Sul”5 (Nogueira, 2012). Partindo de “una visión integradora de los pueblos”, estabelece sua missão como
a “serviço da integração das nações e povos da América Latina e Caribe”, colocando-se como “agentes de
transformación” que criam “espacios de comunicación e intercambio para fortalecer la integración
8
regional, la participación protagónica de sus pueblos y la suprema felicidad social”. Para cumprir esse
papel, a emissora propõe-se a dar “voz a los que no la tienen” (TELESUR apud Nogueira, 2012, pp.8890).
O comércio entre os países da ALBA, apesar de haver crescido significativamente, segue num nível muito
baixo: as importações da Venezuela provenientes dos países da ALBA aumentaram de 2,1% de sua pauta
em 2006 para 4,9% em 2010 (Severo, 2010). Provavelmente, com a instituição do Sucre, esse comércio
vem se intensificando.
Considerações finais
Examinamos neste texto a relação entre dependência e integração na América Latina, de acordo
com as formulações da teoria marxista da dependência, na vertente de Ruy Mauro Marini.
Concentramos a análise no processo de elaboração e implementação do projeto da ALBA,
precisamente por ser o bloco que melhor expressa as formulações feitas por Marini no começo da
década de 1990.
O pensamento de Marini indica que, nos momentos de reforço da dependência externa,
prevalece na América Latina a desintegração. Por outro lado, nos momentos em que países da região
chegaram a conquistar algum grau de autonomia, puderam avançar nos projetos de integração. Ao
mesmo tempo, a integração regional, desde que com base numa “maior iniciativa e controle por parte
das forças populares”, poderia ser um importante instrumento a favor da “formação de uma nova
economia, baseada na incorporação de amplos contingentes populacionais à cultura, ao trabalho e ao
consumo”, diminuindo a superexploração da força de trabalho e aumentando a participação autônoma
da região no contexto internacional. Os princípios que norteiam a ALBA, isto é, complementaridade,
cooperação, solidariedade, respeito à soberania dos países, justiça e equidade, expressam essa
identidade.
No momento atual, beneficiando-se da crise estrutural e do declínio relativo da supremacia econômica
e política dos EUA, governos progressistas que se formaram em vários países latino-americanos
começaram a promover mudanças que têm acarretado a diminuição da dependência externa. Destacamse, entre essas mudanças, a retomada de um maior controle sobre seus recursos naturais. Países
andinos, como Venezuela, Equador e Bolívia, com seus processos de refundação, têm avançado mais
nessa direção. Essas transformações com vistas a uma maior autonomia nacional beneficiam o processo
de integração regional.
O projeto da ALBA, que começou a ser elaborado e executado no final de 2004 a partir de
acordos firmados entre Venezuela e Cuba, depois generalizados para outros países latino-americanos e
caribenhos, é resultado desse processo de mudança, ao tempo em que reforça essas mudanças. O
fortalecimento da cooperação, em lugar da competição, entre os países membros tem fortalecido a
autonomia de decisão e a construção de uma economia independente nesses países, além de estar
incorporando amplos contingentes populacionais à cultura, ao trabalho e ao consumo e diminuindo a
superexploração da força de trabalho, realizando, ainda que parcialmente, as ideias propugnadas por
Marini. Isso não significa que os construtores da ALBA hajam se inspirado diretamente na obra do
pensador latino-americano. Isso pode ou não ter acontecido. O fundamental é que, partindo de uma raiz
comum – a crítica à dependência latino-americana -, chegaram, uma década depois, às mesmas
postulações.
Referências bibliográficas
•
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1
É importante registrar que, na fase inicial, quando predominavam os governos neoliberais, o MERCOSUL não cumpriu esse
papel de contrapor-se aos grandes centros, mais bem adaptando-se aos interesses externos. No entanto, a partir de 2002 e 2003,
quando mudaram os governos da Argentina e do Brasil, o MERCOSUL claramente contrapôs-se aos interesses dos EUA, sendo
um importante instrumento para derrotar seu projeto de criação da ALCA (Souza, 2012).
2
O nome original era Alternativa Bolivariana para as Américas.
3
Honduras ingressou na ALBA em 2008, mas, depois do golpe de estado contra o presidente Manuel Zelaya, retirou-se em
dezembro de 2009.
4
Neste sentido, Muhr (2010) indica que “na ALBA o social tem assumido desde o início um papel fundamental de integração”.
5
Entendido como “concepto geopolítico que promueve la lucha de los pueblos por la paz, autodeterminación, respeto por los
Derechos Humanos y la Justicia Social” (apud Nogueira, 2012, pp.88-89)
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