Subido por Alessandro Amorim

2015. Amorim. Rafael Correa e revolução cidadã

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Boletim OPSA
| n.1, jan/mar de 2015 |
Observatório Político
Sul-Americano
Boletim OPSA
O
Boletim
OPSA
reúne
análises
sobre
O Observatório Político Sul-Americano -
acontecimentos de
OPSA é um núcleo de referência destinado ao
política da América do Sul e tem periodicidade
monitoramento e registro de eventos políticos
trimestral. A publicação é composta por editorial
nos planos interno e externo dos países sul-
e textos dirigidos a leitores que querem ter
americanos. Suas atividades principais envol-
acesso rápido a informações de qualidade sobre
vem a coleta e sistematização de informações
temas contemporâneos. As fontes utilizadas
relativas aos processos políticos dos países da
para sua confecção são resumos elaborados
região, bem como a elaboração de análises
pelos pesquisadores do OPSA com base nos
pontuais sobre aspectos e problemas das con-
jornais de maior circulação em cada um dos
junturas doméstica e internacional da área.
países
e
destaque
documentos
na conjuntura
de
autoria
de
pesquisadores ou agências independentes que
Coordenadora Acadêmica
complementam as informações divulgadas pela
imprensa.
Maria Regina Soares de Lima
Ph.D. em Ciência Política pela Vanderbilt University
Este Boletim foi elaborado principalmente com
base nas informações referentes aos meses de
abril a junho de 2014.
Assistentes de Coordenação
Regina Kfuri
Tatiana Oliveira
O Boletim OPSA é publicado na segunda semana do mês seguinte ao trimestre a que se refere.
É permitida a reprodução deste texto e dos
Assistentes de Pesquisa
dados nele contidos, desde que citada a fonte.
Reproduções para fins comerciais são terminan-
Clayton Cunha (Bolívia)
temente proibidas.
Ana Carolina Vieira de Oliveira (Argentina)
Gabrieli Gaio (Paraguai)
Paula Gomes Moreira (Peru)
ISSN 1809-8827
Alessandro Amorim (Equador)
Fidel Flores (Venezuela)
Talita Tanscheit (Chile)
Tiago Sales (Colômbia)
Instituto de Estudos Sociais e Políticos
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
IESP/UERJ
Josué Medeiros (Brasil)
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Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
Guerra Fria, também a política externa
EDITORIAL
foi agente de mudança da inserção
internacional do país, aproveitando-se
"Autonomia na Dependência": A
de contexto favorável aos países do Sul
Agência da Política Externa
como a descolonização nos anos 60 e
a
da OPEP e da crise do petróleo. Tanto
de todos, é o título do livro de Gerson
publicado
em
1980.1
a "política externa independente", dos
Nos
1960,
primórdios da disciplina de Relações
da
escreveu um dos primeiros trabalhos
as
estruturais
que
tinha
apenas
qualquer
um
determinações
papel
ou
de
sistêmicas.
Ao
externa
a
periferia
de
oportunidades
modificar
do
país
a
na
inserção
ordem
por
si
só
não
tenha
a
capacidade de alterar a situação de
vulnerabilidade econômica estrutural,
ela pode atenuar as condições da
correntes - crise do capitalismo e
para
"pragmatismo
internacional. Ainda que a política
contrário das explicações sistêmicas
oportunidades
a
subordinada
era
epifenômeno
combinação
orientados
no
campo, nas quais a política externa ou
não
o
sistêmicas e da ação de agentes
interpretações
predominavam
quanto
responsável" dos 1970, foram frutos
Internacionais no país, Gerson Moura
contestando
nova ordem
internacional na esteira da formação
Este, como deve ser do conhecimento
Moura
discussão de uma
inserção
-
internacional
do
país
e,
inclusive, diversificar sua dependência.
Gerson enfatizou o papel da bem
sucedida política externa de Vargas
A junção destes dois elementos esteve
nos anos 40. Esta soube aproveitar a
presente nos momentos em que a
situação
do
lógica da autonomia comandou as
Nordeste brasileiro e a necessidade de
escolhas de política externa, mas não
materiais estratégicos para a indústria
garantiu
de guerra, no contexto da constituição
continuidade. Ao contrário, em outras
do sistema de poder norte-americano,
ocasiões, mesmo que as condições
para
coisas,
internacionais fossem permissivas, as
financiamento norte-americano para a
escolhas da política externa tenderam
construção da usina de Volta Redonda,
para
um marco na industrialização brasileira
concordância com o status quo. Desta
nos
forma, na política externa do século XX
geográfica
obter,
anos
momentos,
entre
estratégica
outras
seguintes.
ainda
no
Em
outros
contexto
da
o
sua
eixo
permanência
da
aquiescência
e
e
experimentamos diferentes períodos
Gerson Moura, Autonomia na Dependência: A
Política Externa Brasileira de 1935 a 1942. Rio
de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1980.
1
2
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
de predomínio de uma ou de outra
variados matizes na América do Sul,
destas lógicas de ação externa, em
configuravam
um
grande
expectativas
bastante
parte
em
função
das
cenário
de
positivas.
O
orientações que as elites governantes
primeiro mandato de Dilma Rousseff,
imprimiram, confirmando a agência da
porém, acionou o alarme com respeito
mesma na definição de diferentes
à continuidade da política altiva e ativa
trajetórias de inserção internacional.
pretérita face ao menor protagonismo
da Presidente num contexto em que a
No século XXI a política externa "altiva
diplomacia presidencial e presencial é
e ativa" do governo Lula constituiu
mais
um
momento
em
que
cada vez mais necessária para que o
a
status
combinação das duas dimensões gerou
condições
para
uma
política
quo
não
se
deteriore,
em
especial para um país como o Brasil
de
que tem no poder brando um de seus
autonomia no plano externo. Talvez se
principais instrumentos de projeção e
tenha muito rapidamente acreditado
ação
que, num contexto de difusão do poder
internacional.
precária
na direção dos emergentes, estavam
Ademais,
institucionalização
a
das
inciativas anteriores agravou o risco de
dadas as condições para uma inserção
sua deterioração, em um contexto
relativamente menos subordinada do
doméstico
Brasil no sistema internacional, crença
e
internacional
mais
restritivo.
também impulsionada pela firmeza das
opções de política externa do período
O
Lula.
tenha
presidencial, um quadro econômico
estimulado o voluntarismo dos agentes
preocupante com contingenciamento
e
de
do orçamento, turbulência no interior
diversas
da corporação diplomática, conflito
Talvez
esta
desestimulado
institucionalização
inovações
do
crença
medidas
das
diplomacia
aberto entre a direção do MRE e os
reconfiguração da integração regional,
jovens terceiros secretários em função
a cooperação para o desenvolvimento
do estreitamento das possibilidades de
e a instituição de mecanismos de
ascensão na carreira e ameaça de
prestação
greve
contas
como
da
a
de
período
arrefecimento
da
política
dos
funcionários
externa. As grandes transformações da
administrativos,
num
política
diminuição
demanda
sul-americana,
a
presença
da
ambiente
de
chinesa,
menos ostensiva dos EUA na região,
apontavam, ao final de 2014, para um
em
das
cenário distinto daquele que presidira
estratégias internacionais daquele país
os dois mandatos do governo Lula. Os
depois do 11 de setembro, a ascensão
primeiros meses do segundo mandato
da China e o ciclo ascendente de
aprofundaram
governos
enfrentadas por Dilma Rousseff num
função
da
redefinição
progressistas
dos
mais
3
as
dificuldades
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
quadro
econômico
deteriorado,
e enterro do projeto de integração
relativo enfraquecimento político da
regional
presidente
Congresso,
Novamente a força da lógica binária se
reunificação das forças de oposição e
impôs num quadro de grande incerteza
dos segmentos mais conservadores,
e
além de enfrentar a oposição das
internacional do país. Nem uma coisa
forças
nem outra, porém. Sem diplomacia
vis-à-vis
sindicais
projetado
ajuste
externo,
as
o
e
populares
fiscal.
No
limitações
ao
plano
centrado
restrição
presencial
também
forte
não
no
ao
Mercosul.
protagonismo
tem
agência,
nem
política crítica da estrutura normativa
cresceram com a demanda global mais
do
enfraquecida, preços das commodities
outro lado, entre o polo da autonomia
em queda e prioridade chinesa ao
e
crescimento doméstico em detrimento
graduações possíveis.
das exportações.
Neste
quadro
ordenamento
o
da
internacional.
aquiescência
há
Por
várias
A ênfase em escolhas pragmáticas
as
parece ser o caminho escolhido pela
prioridades da nova gestão são a busca
presidente, com a nomeação do novo
por retomar as rédeas do governo e a
chanceler Mauro Vieira, cuja primeira
ênfase nos temas domésticos. Além do
tarefa,
mais,
instrumentos
internacional Marco Aurélio Garcia, foi
pela
a
vários
largamente
turbulento,
dos
utilizados
política
secundado
recomposição
pelo
das
assessor
relações
no
externa de Lula/Amorim como créditos
interior da corporação, extremamente
subsidiados
esgarçadas
do
BNDES
para
no
final
do
primeiro
investimentos brasileiros no exterior e
mandato, e a implementação de uma
recursos orçamentários substanciais
política externa de resultados no plano
destinados à cooperação internacional,
comercial, neste caso alinhada com o
sofreram drástica redução diante de
MIDIC. O mega acordo com a China e
um quadro recessivo e de ajuste fiscal
os acordos com México sinalizam nesta
que marca estes primeiros meses do
direção. De uma tacada, a política
governo Dilma Rousseff.
externa acenou favoravelmente aos
setores
As Cassandras de plantão anunciaram
críticas da oposição de que o governo
ocorreu no passado em situações de
crise
do
a
do Brasil. De outro, respondeu às
ativa" e, muito provavelmente, como
e
favoráveis
alianças contra hegemônicas da parte
o declínio da política externa "altiva e
deterioração
progressistas
não fechara qualquer acordo comercial
viés
num contexto de perda da posição do
autonomista da política externa, o
país nas correntes de comércio global.
retorno na direção do alinhamento com
Também agradou aos empresários que
o Norte, aquiescência na política global
veem na aproximação com o México
4
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
uma possibilidade de ampliar o acesso
das exportações brasileiras de bens e
serviços.
Mais pragmática impossível! Mas sem
agência não tem política externa ativa,
quanto mais crítica. Vamos aguardar
os próximos passos na expectativa de
que a situação econômica não se
agrave mais, tornando a escolha por
satisfazer
os
mercados
e
os
investidores a estratégia dominante da
política externa.
Rio de Janeiro, 5 de junho de 2015.
Maria Regina Soares de Lima
5
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
2006), foi eleito. Em seguida, Alan
Instituições e Processos Políticos
García Pérez (2006-2011), do Partido
Aprista
Três anos de governo Humala: Da
Peruano
(Apra),
deu
seguimento à proposta dos presidentes
alternativa ao neoliberalismo ao
anteriores de aprofundar as propostas
caos.
ditadas pelo Consenso de Washington.
Paula Gomes Moreira
Pesquisadora OPSA
Quando Ollanta Humala, do Partido
Nacionalista Peruano (PNP) venceu as
eleições gerais de 2011, contra a
candidata Keiko Fujimori, da coalizão
Considerações iniciais
Força 2011, a expectativa era de que
A frágil democracia peruana sofreu
houvesse o rompimento com o modelo
duros golpes com a chegada dos anos
de livre mercado ortodoxo, consoante
1990, em especial a tentativa, em
um governo de centro-esquerda. Seu
1992, de autogolpe, arquitetada pelo
triunfo
ex-presidente Alberto Fujimori (1990-
mercados internacionais, refletido na
2000). Somente após fortes críticas
mais forte queda da Bolsa de Lima. “Os
por
investidores
parte
internacionais,
populares
do
de
observadores
aliados
país,
a
é
reestabelecimento
que
da
a
renúncia
de
viviam
temores
momentos
nos
de
setores
pânico e o mercado só esperava que
houve
fossem dados sinais claros de que se
ordem
iria continuar com o modelo econômico
constitucional peruana.
Após
despertou
atual”.2
Fujimori
da
O passado bate à porta
liderança do Peru, vários governos
O então recém-eleito presidente, de
neoliberais se sucederam no poder.
longe lembrava o militar de natureza
Valentin Paniagua ficou um ano à
reformista, que imbuído de um esprit
frente da Casa de Pizarro, sede do
Poder
Executivo,
durante
de corps castrense3 (von Clausewitz,
tempo
1999), clamava pela recuperação da
suficiente para a realização de novas
honra militar, fragilizada após uma
eleições, nas quais o candidato do Peru
década de corrupção no país, sob o
Possível (PP), Alejandro Toledo (2001-
regime fujimorista.4
TERRA NOTÍCIAS. Elección de Ollanta Humala
derrumba la bolsa y reclaman señales de
confianza. Elecciones presidenciales 2011. 6 de
junho
de
2011.
Disponível
em:
http://noticias.terra.com.pe/eleccionespresidenciales/2011/eleccion-de-ollantahumala-derrumba-la-bolsa-y-reclaman-senalesde-
confianza,b38a78bf1c660310VgnVCM3000009a
f154d0RCRD.html. Acesso em: 22 abr. 2015.
3
VON CLAUSEWITZ, Carl. Da Guerra. Martins
Fontes, 1996.
4
NESBET-MONTECINOS, Felipe. Humala antes
de Ollanta: evolución política del nuevo
presidente peruano. European Review of Latin
American
and
Caribbean
Studies/Revista
2
6
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
O episódio remonta a fins dos anos
explicação da grave crise política pela
2000,
qual
quando
o
então
presidente
passa
o
país
atualmente.
Alberto Fujimori havia anunciado sua
Primeiro,
saída do cargo e buscava com urgência
contextualizar a importância de dois
seu assessor de Inteligência, Vladimiro
personagens na história apresentada,
Montesinos Torres, no quartel andino
que são: Vladimiro Montesinos Torres
de Locumba, cidade do departamento
e
de Tacna, próxima à fronteira com a
primeiro foi condenado por corrupção e
Bolívia,
crime organizado pela Justiça peruana7
quando
um
grupo
de
69
faz-se
Antauro
irmão,
major
para a campanha de Humala, por parte
aposentado, ocuparam uma estação
de seu assessor Óscar López Meneses 8.
mineradora e exigiram a renuncia
Segundo a acusação da Procuradoria
imediata de Fujimori.5
Anticorrupção,
líder
do
também
particular oferecido por Montesinos
Congresso
Torres,
peruano, Valentín Paniagua Corazao,
após viagem de Fujimori
Meneses
bens pessoais e resguardo policial
renúncia foi feito via um fax remitido
ao
escândalo
recebeu dinheiro para aquisição de
novembro, o anúncio de sua
Japão,
do
o
envolvendo a arrecadação de recursos
do
pivôs
2014,
tenente coronel Ollanta Humala e seu
Em
dos
Em
e
Humala,
um
Humala.
soldados reservistas, liderados pelo
Antauro
é
necessário
suspenso
ao país
ex-chefe
do
Serviço
recentemente
de
Inteligência
Nacional do Peru (SIN)9.
asiático para participação em reunião
do bloco econômico de Cooperação
O caso levou à renúncia de vários
Econômica
congressistas,
da
Ásia
e
do
Pacífico
(Apec)6.
eles,
Wilfredo
Pedraza, que era Ministro do Interior
desde 24 de julho de 201210 e José
Os acontecimentos apresentados se
mostram
entre
fundamentais
para
a
Europea de Estudios Latinoamericanos y del
Caribe, p. 81-90, 2011.
5
Idem.
6
LA REPUBLICA. Ronald Gamarra: fujimorismo
todavía no aprende sobre valores democráticos.
Política. 13 nov. 2011. Disponível em:
http://www.larepublica.pe/13-11-2011/ronaldgamarra-fujimorismo-no-aprendio-sobredemocracia. Acesso em: 21 abr. 2015.
7
PERÚ 21. Vladimiro Montesinos encabeza lista
de deudores por corrupción en el Perú. Política.
03 de abril de 2015. Disponível em:
http://peru21.pe/politica/vladimiro-montesinosencabeza-lista-deudores-corrupcion-pais2215825. Acesso em: 21 abr. 2015.
8
Idem. López Meneses se comunicaba, al
parecer, con Humala, según Agustín Mantilla.
Política. 26 de outubro de 2014. Disponível em:
http://peru21.pe/politica/lopez-meneses-se-
comunicaba-al-parecer-humala-segun-agustinmantilla-2202330. Acesso em: 22 abr. 2015.
9
Em 10 de fevereiro de 2015, a primeira ministra
Ana Jara havia anunciado o fechamento
temporal da Direção Nacional de Inteligência
(Dini), órgão principal de administração do SNI,
alegando a realização de uma reorganização da
instituição, com a melhoria dos controles de
fiscalização, prestação de contas e análise da
situação laboral de seus funcionários. Em 2000,
o SNI foi fechado devido sua utilização indevida
para objetivos de campanha de Fujimori, tendo
sido restituído em 2008 para apoiar as ações de
combate ao terrorismo.
10
EL COMERCIO. Caso López Meneses: Wilfredo
Pedraza renunció al Ministerio del Interior.
Política. 15 de novembro de 2013. Disponível
em:
http://www.larepublica.pe/15-112013/caso-lopez-meneses-wilfredo-pedraza-
7
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
Cueto Aservi, ex-chefe do Comando
Sem o apoio do irmão e com a
Conjunto das Forças Armadas.
constante troca de ministros – tendo as
mudanças
Somado este quadro, que contribuiu
oscilaram
ministro13 e, de Ana María Sanchéz
entre
como sua quarta ministra de Relações
32% a 24% nos últimos meses 11,
Exteriores14 – Humala ainda transita
houve a prisão, logo que assumiu o
entre
mandato em 2011, de seu irmão
Antauro
Humala.
Antauro
Penal
Permanente,
da
compromisso
. Em outras
15
e falta de apoio, seu governo ainda
navega por uma miríade de influências
políticas, dificultando, inclusive, sua
capacidade
sua
de
realizar
uma
boa
gestão.
pena, Antauro iniciou seu apoio à
Frente pela Unidade e Defesa do Povo
Sobre
Peruano (FUDP) criada pelo Movimento
esta
conjuntura,
Adalberto
Vergara chegou a defender que existe
pela Anistia e Direitos Fundamentais
no
(Movadef), e que agrupa, ainda, o
país
institucional’,
Pátria para todos, o Etnocacerista e o
Terra Verde
um
e
palavras, não obstante a crise política
morte de policiais da Polícia Nacional.
de
“ideias
nacionalistas
[proposta de] Chávez”
em janeiro de 2005, que resultou na
revisão
de
rumo à autonomia étnica, igual a
Corte
ocupação de uma delegacia de polícia,
aguarda
mescla
autoritárias, com
Suprema de Justiça, por liderar a
Enquanto
uma
esquerdistas,
foi
condenado a 19 anos de reclusão pela
Sala
sido
Cateriano, como seu sétimo primeiro-
refletida em seus baixos níveis de
que
recentes
marcadas pela nomeação de Pedro
para mexer com a imagem de Humala,
popularidade,
mais
“um
‘macroarranjo
surgido
com
a
promulgação da Constituição de 1993
.
12
e que se manteve inalterado em suas
linhas fundamentais”16. Ou seja, o
Mudanças favoráveis
renuncio-al-ministerio-del-interior. Acesso em:
22 abr. 2015.
11
GESTIÓN. Aprobación de Ollanta Humala sube
ocho puntos porcentuales en E y alcanza 40%.
Política. 24 de abril de 2015. Disponível em:
http://gestion.pe/politica/ollanta-humala-subeocho-puntos-porcentuales-y-alcanza-402129954. Acesso em: 22 abr. 2015.
12
CORREO. Elecciones 2016: Movadef encabeza
frente con apoyo de Antauro Humala. Política. 15
de
janeiro
de
2015.
Disponível
em:
http://diariocorreo.pe/politica/elecciones-2016movadef-encabeza-frente-con-apoyo-deantauro-humala-557629/. Acesso em: 22 abr.
2015.
13
PERU THIS WEEK. Pedro Cateriano replaces
Ana Jara as Prime Minister. National. 02 abr.
2015.
Disponível
em:
http://www.peruthisweek.com/news-pedro-
cateriano-replaces-ana-jara-as-prime-minister105751. Acesso em: 22 abr. 2015.
14
EL COMERCIO. Ana María Sánchez: quién es la
canciller que relevó a Gutiérrez. Política. 03 de
abril
de
2015.
Disponível
em:
http://elcomercio.pe/politica/gobierno/anamaria-sanchez-quien-canciller-que-relevogutierrez-noticia-1801847. Acesso em: 23 abr.
2015.
15
LAUER, Mirko. “Ojo, contiene ingredientes
conservadores”. La República, Política. 15 de
novembro
de
2005.
Disponível
em:
http://www.larepublica.pe/15-11-2005/ojocontiene-ingredientes-conservadores.
Acesso
em: 23 abr. 2015.
16
VERGARA,
Adalberto.
Alternancia
sin
alternativa: ¿Un año de Humala o 20 años de un
sistema?. Revista Argumentos, Ano 6, Nº 3, 13
p., 2012.
8
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
esperado
giro
à
esquerda
não
econômico criado pouco antes de o
aconteceu, tendo política e economia
atual presidente assumir a liderança do
peruanas permanecidas as mesmas de
país, em abril de 2011, formado por
outrora.
Chile, Peru, Colômbia e México, além
de alguns observadores, já é visto
No entanto, do ponto de vista da
como um forte concorrente ao Mercado
manutenção do regime político, o Peru
Comum do Sul (Mercosul), do qual
vive desde o fim do governo de
transição
encabeçado
por
fazem parte Brasil, Uruguai, Argentina,
Valetín
Paraguai e Venezuela19.
Paniaga (2000-2001), do Ação Popular
(AP),
o
seu
ciclo
de
democracia
Além de avanços no setor econômico,
eleitoral mais longo. Carlos Alberto
os
Adrianzén defende que a democracia
parcerias regionais e extra-regionais
no país tem se mantido, apesar da
para facilitação de processos como
ausência de um sistema de partidos, e
trâmite
de um conjunto de agremiações que a
fronteiriça. Humala tem levado adiante
cada ano têm se hiperfragmentado.
também esforços binacionais em suas
Como
partidos
relações exteriores, a exemplo da
perderam
realização de gabinetes conjuntos com
consequência,
políticos
os
nacionais
membros
de
AP
vistos
e
buscado
integração
países
organizações
e
promoção da integração de áreas, a
regionais, que não conseguem manter-
exemplo da Amazônia, que requerem
se por muito tempo17.
mais incentivos do Estado para seu
locais
desenvolvimento
A essa estabilidade democrático dentro
da
instabilidade
de
economia,
buscado
que
enfrentar
Humala
com
a
de
para
a
regional20.
a eliminação do Visto Schengen para
peruanos21 documento necessário para
tem
ingresso em países da União Europeia
maior
(UE). O mesmo esforço tem sido
abertura da pauta de exportações e
estabelecimento
Colômbia,
Recentemente, o presidente negociou
organizações
políticas18, soma-se a desaceleração
da
a
têm
importância, frente à proliferação de
políticas
como
da
realizado com relação ao Visa Waiver
acordos
Program, com o objetivo de permitir
comerciais, sobretudo no âmbito da
aos peruanos viajar a turismo ou
Aliança do Pacífico (AP). O bloco
ADRIANZÉN, Carlos Alberto. Una obra para
varios elencos. Apuntes sobre la estabilidad del
neoliberalismo en el Perú. Nueva sociedad, Nº
254, p. 100-111, 2014.
18
Idem.
19
A Bolívia também anunciou sua adesão ao
Mercosul, a partir de junho de 2015, quando
passará a ser membro pleno do bloco.
20
EL COMERCIO. Humala a Santos: "La Alianza
del Pacífico no es suficiente". Política. 30 de
setembro
de
2014.
Disponível
em:
http://elcomercio.pe/politica/actualidad/ollanta
humala-juanmanuelsantos-alianza-pacifico-nosuficiente-gabinetebinacional-noticia-1760621.
Acesso em: 23 abr. 2015.
21
A Colômbia também tem negociado junto à UE
a eliminação da necessidade do visto para seus
cidadãos.
17
9
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
negócios
para
os
Estados
Unidos,
através de benefícios financeiros a
podendo lá permanecer por até 90
adultos com mais de 65 anos de idade,
dias22.
que carecem de condições básicas para
sua
Assim, apesar dos bons resultados
obtidos
no
setor
externo,
é
Programa
alimentos adequados aos hábitos de
consumo locais de diferentes grupos
Humala, nos últimos meses, devido
etários de estudantes.
aproximação do fim de seu mandato e
próximas
o
Warma, que consiste na provisão de
atenção na agenda de governo de
das
e
Nacional de Alimentação Escolar Qali
a
conjuntura interna que tem tido maior
convocação
subsistência
eleições
Em 2016, Humala pretende utilizar os
presidenciais pelo Escritório Nacional
mesmos programas como uma de suas
de Eleições (JNE), para 2016.
principais bandeiras contra a candidata
fujimorista
Considerações finais
foi
realizado
eleições. Por um lado, representava
em
Humala como o candidato das dúvidas,
uma
mesma cidade em que esteve anos
peruanos.
enfatizou
sociais
O
a
outros
muitos
criados
dos
ao
do
gerava
PNP
de
em
vulnerabilidade
situação
social
Pensão
de
65,
Assistência
que
outorga
incerteza
devido
os
meios
consolidada do estilo de governo do
fujimorismo,
de
desrespeito
em
caracterizado
às
por
seu
instituições
democráticas, proclividade em violar
universidades do país; o Programa
Nacional
o
das provas, haja vista a imagem já
fornece bolsas de estudo para ingresso
jovens
defendia
outro lado, definia Keiko, a candidata
seu
governo, a exemplo do Bolsa 18, que
de
ele
propostos para alcançar tal feito. Por
programas
longo
que
social, ao mesmo tempo em que
militares
candidato
vez
crescimento econômico com inclusão
atrás, quando pedia a renúncia de
junto
Steven
cada um dos candidatos, nas últimas
novembro de 2014, em Locumba,
Fujimori
Fujimori.
Levitsky24 já caracterizara o perfil de
O anúncio do início de sua campanha
presidencial23
Keiko
os direitos humanos, uso clientelista
Solidaria
dos programas sociais e corrupção
proteção
institucionalizada25.
LA REPUBLICA. Eliminación de visa Schengen
para Perú sería en 2016. Sociedad. 27 de abril
de
2015.
Disponível
em:
http://www.larepublica.pe/27-042015/eliminacion-de-visa-schengen-para-peruseria-en-2016. Acesso em: 27 abr. 2015.
23
Idem. Ollanta Humala anuncia inicio de
campaña electoral al 2016. Política. 03 de
novembro
de
2014.
Disponível
em:
http://www.larepublica.pe/03-11-2014/ollanta-
humala-anuncia-inicio-de-campana-electoral-al2016-video. Acesso em: 27 abr. 2015.
24
Levistsky ficou famoso na segunda rodada de
eleições em 2011 no Peru, ao dizer que “nós
podemos ter dúvidas sobre Humala, mas temos
provas sobre Keiko”.
25
CUADROS, Carlo Magno Salcedo. El gran
desafío de Ollanta Humala: realizar un verdadero
gobierno de centroizquierda. Nueva Sociedad.
Opinión.
Disponível
em:
22
10
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
Por fim, na corrida eleitoral já em
integrante do Mercosul
marcha,
ao
origem em 1991, com a assinatura do
a
Tratado de Assunção, a integração
um
colocado
cenário
por
parecido
Levitsky
começa
despontar, sendo que, dessa vez a
regional
indecisão política de Humala parece
governantes uruguaios para além da
contribuir
do
dimensão comercial, como uma forma
eleitorado pela candidata da oposição.
de solidariedade entre os povos e de
Ou seja, apesar das conquistas já
garantia da estabilidade continental.
para
a
preferência
realizadas pelo governo, em especial
política
de
ideológicos,
fato,
que
em
irá
pelos
Frente Ampla, antes com José Mujica e
termos
decidir
encarada
Para além do discurso, os governos da
na área social nos últimos três anos, é
a
foi
desde sua
agora com Tabaré Vásquez, estão
a
implementando ações para aprofundar
continuação ou não de Humala na
os pontos de contato entre o Uruguai e
presidência do Peru, nos próximos
seus pares. Destaca-se, nesse sentido,
anos.
os acordos recentes realizados com
Bolívia e Paraguai para que os dois
países mediterrâneos obtenham uma
saída para o mar. Dessa forma, além
de contribuir para o desenvolvimento
Integração Regional
econômico
O Porto de Rocha e a Integração
uruguaio
Regional
da
região,
ajuda
a
o
governo
apaziguar
uma
discórdia que se iniciou com a Guerra
do Pacífico e que se entende até hoje
em litígios na Corte Internacional de
Marianna Albuquerque
Pesquisadora OPSA
Justiça.
A Guerra do Pacífico e a demanda
Introdução
na Corte Internacional de Justiça
Desde de que foi admitido no processo
No final do século XIX, entre os anos
negociador
de 1879 e 1883, Chile enfrentou forças
para
a
integração
da
América do Sul, que havia sido iniciado
conjuntas
por esforços bilaterais de Brasil e
disputa de áreas ricas em recursos
Argentina, o Uruguai colocou-se como
estratégicos na região do deserto do
um forte incentivador da união entre as
Atacama.
nações
vencedor do conflito, o Chile anexou a
sul-americanas.
Parte
http://www.nuso.org/opinion.php?id=96.
Acesso em: 27 abr. 2015.
11
de
Ao
Bolívia
sair
e
Peru
como
pela
grande
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
região peruana de Tarapacá e a região
O
boliviana de Antofagasta, retirando da
apaziguador do conflito:
Bolívia
a
possibilidade
de
acesso
extensão
um acesso ao oceano passou a ser uma
de
marítimas,
dos objetivos constitucionais do país,
estratégicos
como
sua
plataforma
continental de 200 para 350 milhas
questão nacional, que consta como um
motivos
Rocha
ONU, após três anos de negociação, a
governos bolivianos, a retomada de
seus
de
Em 2014, o Uruguai conseguiu na
soberano ao mar. Para os sucessivos
por
Porto
aumentando
o
limite
estabelecido pela Convenção de Direito
e
do Mar de Montego Bay. Com a
econômicos.
extensão,
o
país
pode
procurar
Em face desse objetivo, em 2013, a
hidrocarbonetos na nova área que se
Bolívia entrou com uma ação na Corte
encontra
sobre
sua
Internacional de Justiça (CIJ), órgão da
aliviando
assim
a
Organização das Nações Unidas (ONU)
energética
de
localizada em Haia, na Holanda, para
Uruguai enfrenta. Com a decisão, a
que o Chile negocie de boa fé um
zona marítima uruguaia passaria a
acesso soberana para a Bolívia ao
equivaler a quase metade da superfície
Oceano Pacífico. Como os dois países
territorial do país, mas a efetivação
envolvidos reconhecem a jurisdição da
plena da medida ainda requer estudos
CIJ para julgar litígios internacionais, a
e
Bolívia demanda que o Chile, ao longo
especialistas
dos acordos e da prática diplomática
favorável ao país abriu precedente
realizadas desde a Guerra do Pacífico,
para Brasil e Argentina, que possuem
havia se comprometido com o diálogo
demandas
sobre a questão, o que havia criado
organização.
uma expectativa de direito que deve
A
pelos
decisão
na
do
Porto
de
águas
profundas, localizado no departamento
A CIJ concluiu pela procedência do
de
pedido boliviano e, uma semana depois
Rocha,
torna-se
especialmente
relevante para a projeção econômica
de ajuizada a ação, comunicou ao
a
ONU.
semelhantes
construção
possui questões pendentes com o país.
Rodriguez,
da
feitas
o
próspera. Nesse sentido, o projeto de
com a Bolívia e que, portanto, não
Eduardo
demarcações
que
porta de acesso ao mundo ainda mais
Tratado de Paz e Amizade, em 1904,
em
importações
passou a enxergar o oceano como uma
por sua vez, alega que assinou um
boliviano
dependência
Com o direito adquirido, o Uruguai
ser efetivamente cumprida. O Chile,
embaixador
jurisdição,
do
Haia,
país
e
aparece
como
tópico
prioritário do Ministério de Transporte
decisão
e
favorável.
Obras
Públicas.
A
vantagem
comparativa que o porto oferecia é sua
12
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
maior profundidade, com um calado
recursos. De um orçamento total de
natural de 20 metros, que supera os
aproximadamente R$ 100 milhões, o
portos da região, como o Porto de
Brasil contribui com 70%, a Argentina
Santos, que possui um calado natural
com 27%, o Uruguai com 2% e o
de 12 metros. Dessa forma, o Uruguai
Paraguai com 1%. A distribuição é feita
poderia tornar-se um grande centro
na seguinte proporção: Brasil recebe
logístico da região, ao permitir o
10%, Argentina fica com 10%, Uruguai
desembarque de navios maiores e a
com 32% e Paraguai com 48%. O
distribuição de volumes de produção
objetivo do fundo é financiar projetos
mais significativos a baixos menores,
de infraestrutura que contribuam para
no Oceano Atlântico.
o desenvolvimento da região.
O projeto prevê um orçamento de
Colocando os recursos do FOCEM na
aproximadamente US$ 500 milhões, e
perspectiva da integração regional, em
contará com recursos do Fundo de
26 de fevereiro de 2015, nos últimos
Convergência Estrutural do Mercosul
dias de seu mandato, o ex-presidente
(FOCEM), criado em 2005. O FOCEM
e atual senador da Frente Ampla José
possui uma estrutura reflexa entre
“Pepe”
contribuição
presidente boliviano, Evo Morales, um
e
distribuição
dos
Mujica
assinou
com
o
Localização estratégica do Porto de Rocha:
Fonte: http://www.ipsnoticias.net/
13
1
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
memorando em que o Uruguai concede
Integração da Infra-estrutura Regional
à Bolívia acesso ao oceano por meio do
da América do Sul (IIRSA), atualmente
Porto de Rocha. O objetivo do governo
vinculada à Cosiplan da Unasul, ficou
uruguaio é conceder facilidades para o
visível a importância que a integração
uso do espaço terrestre do porto e da
física entre os Estados possui para a
plataforma continental estendida para
efetividade de uma integração regional
que a Bolívia possua saída marítima. O
que vá além de trocas comerciais.
argumento de Mujica foi baseado na
Dessa forma, a iniciativa uruguaia,
importância do comércio marítimo,
iniciada por Mujica e continuada por
visto como um “direito natural para o
desenvolvimento
econômico
Vásquez, demonstra a percepção do
das
governo
nações”. O Acordo foi firmado na Casa
de
Governo
do
Uruguai,
tensões
em
entre
satisfação por Morales, que agradeceu
acordo
por
meio
do
Chile
e
Bolívia
econômico
e
do
dos
obtenha
êxito,
será
ainda
o
necessário o apoio de Brasil, Argentina
funcionamento da parceria ainda estão
e Paraguai, rotas de passagem para o
em negociação, afora no governo de
escoamento da produção boliviana em
Tabaré
principal
direção ao Oceano Atlântico. Essa é,
problemática envolvida é que Uruguai
sem dúvidas, uma boa oportunidade
e Bolívia não fazer fronteira, o que
para a convergência estrutural e o
demanda que o transporte seja feito
diálogo geopolítico entre os principais
anteriormente pelo território brasileiro,
governos da região.
Vásquez.
A
para
minimizar
países sul-americanos. Para que o
laços regionais.
técnicas
região,
desenvolvimento
a iniciativa uruguaia em aprofundar os
questões
na
de
apaziguamento do conflito histórico
Montevidéu, e foi recebido com muita
As
uruguaio
ou através de Paraguai e Argentina. A
intenção é estender ao Paraguai, que
também não possui saída para o mar,
os benefícios concedidos à Bolívia.
Conclusão
As obras do Porto de Rocha, que
possuem previsão de durar dois anos,
ainda estão longe de serem concluídas,
mas o projeto já possui relevância
estratégica para a integração regional.
Após o lançamento da Iniciativa para a
14
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
revés
Política Governamental
político,
na
trajetória
e
desenvolvimento do processo iniciado
em
2007.
Nas
disputas
para
os
Executivos locais, o movimento AP
Rafael Correa, “revolução cidadã”
perdeu para forças de centro-direita
e reeleição ilimitada.
nas três principais cidades do país:
Guayaquil, Cuenca e Quito.
Alessandro Michael Cunha Amorim
Pesquisador OPSA
Tal fato, dado sua gravidade política na
conjuntura do país, acabou gerando
Há
uma
proposta
constituição,
de
emenda
tramitando
expectativas
à
governistas
na
ilimitada.
A
possível
cenário
restauração
de
todavia,
no
ímpeto
frear
Correa
e
o
seus
correligionários passaram a investir
diversos esforços, no sentido de uma
oposicionistas,
de
conservadora,
presidente
Rafael Correa e da própria “revolução
Grupos
levou,
“revolução cidadã” contra uma suposta
instabilidade, traça o futuro político de
cidadã”.
que
com o fito de garantir a manutenção da
para o bloco governista, pois, dentro
um
o
próprio movimento. Como resultado, e
emenda
supracitada é de suma importância
de
AP,
os
reflexões e avaliações no interior do
busca tornar a reeleição para cargos de
popular
do
para
consequentemente, a uma série de
Assembleia Nacional no Equador, que
voto
negativas
mudança constitucional, para tornar a
tal
reeleição ilimitada nos cargos de voto
emenda, tem se mobilizado em torno
de uma consulta popular.
popular.
Com a referida mudança,
Correa
poderá
se
candidatar
A “revolução cidadã”, projeto político
novamente à Presidência da República,
levado a cabo por Rafael Correa e o
nas
movimento Aliança País (AP), tem
continuidade
fomentado, nos últimos anos, diversas
revolução
transformações no Equador. Além da
cabe
estabilidade política alcançada após
equatoriana, que foi aprovada via
uma década turbulenta – entre 1996 e
referendo em 2008, ou seja, já sobre a
2006 o Equador teve 10 presidentes –
gestão de Correa, permite apenas uma
, houve no país latino-americano, sob
única reeleição consecutiva.
eleições
de
ao
2017,
seu
bolivariana.
destacar,
a
e
projeto
dar
de
Atualmente,
Constituição
a rubrica de tal projeto, consideráveis
avanços
sociais,
econômicos
e
A decisão em torno da proposta de
de
reeleição ilimitada, que até então não
infraestrutura. Nas eleições ocorridas
era
em fevereiro de 2014, todavia, parece
nem
mesmo
cogitada
publicamente por Correa, foi tomada
ter ocorrido um início de inflexão, ou
15
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
pelo movimento AP em sua quarta
cada vez mais um método comum de
convenção,
governança.
realizada
em
maio
de
com
popular
pela
uma
meses
de
consulta, com apoio da população
fevereiro. Após esse episódio, Correa,
acima de 60%, como pesquisas do
que já havia se pronunciado contra a
instituto
Cedatus-Gallup
sua
mostrando,
os
das
reeleição
eleições
em
diversas
oportunidades anteriores, começou a
se
manifestar
positivamente
em
em direção à aprovação da emenda
constitucional da reeleição ilimitada,
pedido ao bloco parlamentar para que
foi uma consulta à Corte Constitucional
se iniciasse no legislativo a tramitação
A
questão,
para
(CC). A CC do Equador, a contragosto
o
da expectativa dos oposicionistas –
Presidente, não diria respeito a um
que defendiam uma consulta popular –
mero anseio de caráter personalista –
, decidiu que a proposta de mudança,
como apontado por opositores –, mas
impulsionada
sim ao próprio futuro e estabilidade da
do
principal
governo,
seria
Nacional. A CC compreendeu que esta
mandatário
seria a tramitação adequada posto que
equatoriano, estaria vivendo tempos
a proposta não objetiva alterar a
difíceis.
Cabe
pelo
tratada via emenda pela Assembleia
“revolução cidadã”. O Equador, na
avaliação
ainda
O passo inicial dado pelo movimento,
decisão do movimento, realizou um
proposta.
governistas,
vem
assim, preferiram o outro método26.
relação ao tema e, corroborando a
da
demanda
mesmo
2014, na cidade de Esmeraldas, dois
depois
alta
Todavia,
estrutura fundamental tampouco os
destacar,
a
elementos constitutivos do Estado.
de
Nesse sentido, a decisão foi bastante
discussões apenas no legislativo – e
positiva para os governistas, posto que
não via consulta popular –, defendida
eles detêm maioria das cadeiras no
pelo movimento AP, coloca o projeto
legislativo (100 das 130 cadeiras). Os
democrático do país em uma situação
membros da oposição, após a decisão
delicada.
da
da Corte, iniciaram vários movimentos
Constituição em 2008, que, reiterando,
de articulação em torno da promoção
foi efetivada via referendo, dois anos
de uma consulta popular.
mudança
após
a
entretanto,
constitucional
Desde
ascensão
a
que
através
aprovação
de
Correa,
as
Para que a consulta ocorra, de acordo
consultas populares tem se tornado
com a legislação, faz-se necessário a
Segundo dados da Cedatos, em maio de 2014,
61% da população acreditava que a consulta
popular era o melhor caminho para estabelecer
ou não a reeleição ilimitada, ao passo que
apenas 18% defendiam o tramite via emenda.
Em junho, a parcela da população que apoia a
consulta popular sobe para 69%, chegando a
73% em setembro do mesmo ano. Na última
pesquisa, realizada em abril de 2015, 81,6% da
população opina a favor da consulta popular para
definir
a
questão.
(fonte:
http://www.cedatos.com.ec)
26
16
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
coleta
de
certa
quantidade
de
e sociais, tem como lideres Guillermo
assinaturas da população. Todavia, o
Lasso,
processo não é simples, os formulários
Oportunidades
para
Montúfar, do movimento Concertação.
a
coleta
de assinaturas são
disponibilizados,
constitucional
depois
dos
de
do
movimento
(CREO),
Criando
e
César
análise
O coletivo apresentou uma pergunta
das
em novembro, mas foi negada pelo
méritos
perguntas, pela CC e pela Conselho
conselho.
Nacional Eleitoral (CNE). Aqui reside
outra
um dos grandes problemas enfrentado
reformulada, que foi enviada do CNE
pelos grupos que querem frear a
para a CC. A CC, entretanto, devolveu
reeleição
os
o pedido ao CNE, o argumento da Corte
pedidos de consulta, quando não são
foi de que ela não teria competência
imediatamente
têm
direta para dar uma decisão. O CNE,
peregrinado entre um órgão e o outro.
por fim, em março deste ano, devolveu
O
a solicitação ao coletivo.
que
ilimitada,
tem
posto
que
recusados,
levando
suspeitas,
sobretudo para atores oposicionistas,
em
relação
à
neutralidade
CNE,
estão:
mas
dessa
vez
Diego Borja, ex-ministro de governo,
foi entregue a CC em dezembro de
os grupos que realizaram pedidos à CC
à
pergunta,
novamente
O pedido do grupo DS, cujo dirigente é
e
independência desses órgãos. Dentre
e/ou
Apresentou
2014. A decisão, cujo resultado foi a
Sociedade
inadmissão do pedido, só saiu quatro
Patriótica (SP), Compromisso Equador
meses depois, em abril deste ano. O
(CE), Democracia Sim (DS) e o partido
veredicto foi tomado por três juízes,
Pachakutik.
segundo a análise dos magistrados, o
A primeira organização a entregar
conteúdo das pergunta proposta se
pedido ao CNE foi o partido Sociedade
referia
Patriótica (SP), grupo que tem Gilmar
procedimento
Gutiérrez como presidente executivo.
Constituição. Dessa forma, como já
O pedido foi entregue a CNE, em
existe uma iniciativa de reforma cidadã
outubro do ano passado, e foi negado.
sobre
Em novembro do mesmo ano o partido
possível apresentar outra. A Corte, na
resolveu acudir à CC, mas a solicitação
ocasião, se referia ao pedido proposto
foi inadmitida, a corte julgou que o
por Alberto Arias e outros cidadãos, ao
pedido não estava claro.
qual pedem uma consulta para que se
a
o
assunto
de
mesmo
relacionado
reforma
tema,
não
a
da
seria
permita a reeleição indefinida das
A petição de consulta do coletivo
autoridades de eleição popular, pedido
Compromisso Equador foi recusada
até então desconhecido por grande
três vezes pelo Conselho. O coletivo,
parte dos grupos aqui mencionados.
formado por 40 agremiações políticas
17
Boletim OPSA | 01 | jan/mar 2015
A última organização que realizou
o atual contexto do país. Enquanto os
pedido de consulta junto aos órgãos
setores
supracitados
conjuntamente
foi
o
Pachakutik.
A
descritos
em
se
torno
mobilizam
de
uma
proposta foi realizada em março deste
consulta popular, a emenda continua
ano. O grupo, para evitar imbróglios
sendo discutida pelo Legislativo e o
jurídicos, como os ocorridos com as
futuro de Rafael Correa e da própria
outras organizações, fez o pedido junto
“revolução
ao CNE e a CC ao mesmo tempo. O
eleições, permanece incerto. Dado a
CNE negou a consulta, agora o partido
importância do tema para a região
aguarda a decisão da CC.
latino-americana,
diálogos conjuntos dessas forças no
sentido de formar uma unidade contra
a emenda da reeleição ilimitada, entre
esses grupos estão: Pachakutik, CE, SP
e País Livre (PL). A iniciativa de
mobilização conjunta partiu do partido
Pachakutik. O grupo DS, entretanto,
compor
ação
com
organizações à direita do espectro
ideológico, decidiu não participar da
articulação.
Uma
das
primeiras
iniciativas da composição (Pachakutik,
CE, SP e PL) foi criar uma comissão
para analisar as propostas de consulta
popular. O grupo conta com Santiago
Utitiaj, do Pachakutik; César Monge,
pelo CE; Fernando Balda e Víctor Hugo
Erazo, pelo SP, e Grace Almeida, pelo
PL.
Além
de
assessoria
de
participa
da
contar
com
advogados,
comissão,
resta
próximas
agora
os desdobramentos desses eventos.
CNE, têm ocorrido, no último mês,
não
nas
acompanhar a conjuntura do país e ver
Diante das desventuras com a CC e o
alegando
cidadã”,
uma
também
como
representante de um setor específico
dos ex-constituintes, Betty Amores.
No que diz respeito à questão da
emenda da reeleição ilimitada, esse é
18
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