Subido por Fernanda Moura

(Livro) Tempos conservadores - estudos críticos sobre as direitas (3)

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TEMPOS CONSERVADORES
estudos críticos
sobre as direitas
Organização
Lucas Patschiki
Marcos Alexandre Smaniotto
Jefferson Rodrigues Barbosa
Goiânia, 2016
Copyright © 2016 Edições Gárgula
A marca — Edições Gárgula — está organizada como Selo Editorial do Núcleo
de Estudos e Pesquisas em História Contemporânea da Faculdade de História
da Universidade Federal de Goiás (NEPHC/FH/UFG) e do Grupo de Pesquisa
– Capitalismo e História: Instituições, Cultura e Classes Sociais (UFG/CNPq).
Seu propósito editorial é o de publicar a produção acadêmica dos professores e
pesquisadores que compõem o NEPHC e o GP — Capitalismo e História. Tratase de um Selo Editorial de autores associados e sem fins lucrativos. Todas as
obras editadas e publicadas pelas Edições Gárgula são custeadas pelos membros
participantes do núcleo e do grupo de pesquisa e, eventualmente, por verbas de
custeio originadas de editais públicos de agências de fomento à pesquisa.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Tempos conservadores: estudos críticos sobre as direitas / Organização:
Lucas Patschiki, Marcos Alexandre Smaniotto e Jefferson Rodrigues
Barbosa. Goiânia: Edições Gárgula, 2016.
ISBN: 978-85-68205-11-2
1. História. 2. História do Brasil. 3. Ciência Política. 4. Lucas Patschiki.
5. Marcos Alexandre Smaniotto. 6. Jefferson Rodrigues Barbosa.
Editores
Prof. Dr. David Maciel (FH/UFG)
Prof. Dr. João Alberto da Costa Pinto (FH/UFG)
Conselho Editorial
Carla Luciana (Unioeste)
Cláudio Maia (UFG/Catalão)
Dilma de Paula Andrade (UFU)
Eurelino Coelho (UEFS)
Fábio Maza (UFS)
Gilberto Calil (Unioeste)
Gilson Dantas (NEPHC)
Marcos Del Roio (Unesp/Marília)
Maria Letícia Corrêa (UERJ)
Maurício Sardá de Faria (UFPB)
Walmir Barbosa (IFG/Goiânia)
Organização
Lucas Patschiki
Marcos Alexandre Smaniotto
Jefferson Rodrigues Barbosa
Editoração eletrônica
Carol Piva
Revisão
Ana Carolina Neves
Sumário
Apresentação
6
Pedro Leão da Costa Neto
Introdução
8
Gilberto Calil
Paulo Francis, o polemismo a serviço da agenda ultraliberal
Alexandre Blankl Batista 12
“A voz do povo, o espírito da França”: uma análise sobre a ascensão
da nova líder da Frente Nacional, Marine Le Pen (2011-2014)
Guilherme Ignácio Franco de Andrade
35
Gen pés descalços e o nacionalismo japonês: interseções
53
Janaina de Paula do Espírito Santo
Skinheads chauvinistas: integralistas, os “carecas do subúrbio”
e o nacional-socialismo brasileiro
Jefferson Rodrigues Barbosa
77
A burguesia dependente-associada e a crise: o Instituto Millenium
em suas análises sobre 2008
97
Lucas Patschiki
A direita “filantrópica”: o Rotary Clube em debate
121
Marcos Alexandre Smaniotto
Democracia e o pensamento conspiratório: uma análise sobre a função
das teorias da conspiração na sociedade a partir das manifestações
anti-PT 2014-2015
148
Marcos Meinerz
Golpe de Estado e luta de classes: o caso argentino de 1976
171
Marcos Vinicius Ribeiro
Reflexões sobre a teologia do livre mercado: democracia e livre
mercado segundo o Instituto Ludwig von Mises Brasil
194
Raphael Almeida Dal Pai
O Instituto Brasileiro de Filosofia: contrarrevolução e justificação
ideológica da autocracia burguesa (1964-1965)
Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves
219
Agradecimentos a Paulo Jeca Schulz, Carol Piva,
Ana Carolina Neves, Gilberto Calil, Pedro Leão da
Costa Neto, David Maciel, João Alberto da Costa
Pinto, Jonas Christmann Koren, Thomaz Herler,
Julius Daltoé, Alexandre de Almeida e César Saad.
Apresentação
Pedro Leão da Costa Neto
O presente volume reúne diferentes contribuições de nove historiadores e
um cientista social, apresentando-nos os resultados de suas pesquisas acadêmicas,
que foram realizadas, em particular, na Unioeste de Marechal Cândido Rondon e em
distintos centros de pós-graduação — UFG, UFPR, UFRGS, PUC-RS e Unesp.
Tempos conservadores: estudos críticos sobre as direitas revela, em seu
caráter crítico, a homogeneidade das fontes primárias consultadas, destacando-se
uma forte influência do teórico marxista italiano Antonio Gramsci e seus conceitos de
intelectual orgânico e aparelhos privados de hegemonia, bem como uma análise
temática sobre as manifestações teóricas e práticas da direita, em escala nacional e
internacional, desde os anos 1970, mas com claro predomínio de experiências das
últimas décadas.
Desse modo, o livro analisa manifestações da ofensiva conservadora,
abrangendo as diferentes internacionais — o Golpe de Estado Militar da Argentina,
em 1976; as críticas nacionalistas ao mangá Gen pés descalços, publicado no Japão
em 1973 e difundido no país por mais de uma década; e a evolução da Frente
Nacional francesa, entre 2011 e 2014, quando Marine Le Pen assumiu-lhe a direção.
Sobre a direita no Brasil, temos um conjunto de artigos dedicados a alguns de seus
intelectuais representativos (Miguel Reale, Paulo Mercadante e o polemista Paulo
Francis, cujo estilo tem-se tornado um modelo para os intelectuais da direita), bem
como a seus diferentes institutos de pesquisa (Instituto Millenium e sua influente
divulgação das políticas neoliberais, o Instituto von Mises Brasil e o Instituto Brasileiro
de Filosofia). Há também abordagens acerca da atuação do Rotary Clube em
Marechal Cândido Rondon, do nebuloso universo das teorias conspiratórias e da
evolução dos movimentos skinheads em âmbito nacional.
6
As discussões aqui propostas são bastante atuais, sobretudo nessa época
dominada por uma ofensiva cultural e política da direita cada vez mais aberta e,
necessariamente, disposta a cumprir seu objetivo e complemento econômico e
social: a destruição dos direitos dos trabalhadores.
Neste sentido, o livro representa uma relevante contribuição e um importante
instrumento de combate à tentativa de construção de uma hegemonia conservadora
no Brasil.
7
Introdução
Gilberto Calil
Há 30 anos era lançado o livro Tempos Conservadores,1 organizado pelo
historiador equatoriano Agustín Cueva, uma obra fundamental para a compreensão
dos efeitos do processo internacional de direitização na América Latina. Sob o
impacto dos governos de Reagan e Thatcher, tratava-se de identificar e
compreender a popularidade de teóricos reacionários como Hayek e Friedman, a
seriedade com que eram tratadas pseudociências como a sociobiologia e o avanço
ou retomada de fenômenos antigos como o racismo, o machismo e a xenofobia.
Tratava-se então de uma “virada conservadora” — título de um capítulo escrito pelo
próprio Cueva. A década seguinte veria o auge do neoliberalismo, do irracionalismo
e do pós-modernismo, sob o efeito político e ideológico da queda do Muro e do
desmoronamento do “socialismo realmente inexistente” (feliz expressão proposta por
Edmundo Dias). A eleição de Hugo Chávez, em 1998, marcou o início de uma etapa
distinta na América Latina, onde, a despeito de inúmeras contradições e
ambiguidades, constituíram-se, em grande parte do subcontinente, governos
situados “à esquerda”, com perspectivas reformistas em distintos graus, ainda que
sempre dentro dos marcos do sistema capitalista. A despeito de seus evidentes
limites, a contraposição com o período de fundamentalismo neoliberal alimentava
esperanças. O ciclo de governos petistas no Brasil (2003-2016) se insere neste
contexto, ainda que em um formato muito particularmente conservador e conciliador,
restringindo-se a algumas políticas econômicas anticíclicas e a políticas
assistencialistas focalizadas.
1
CUEVA, Agustín. Tiempos Conservadores: América Latina y la derechización de Occidente. Quito:
El Conejo, 1987. A edição brasileira foi lançada dois anos depois, pela Hucitec.
8
Os atuais “Tempos Conservadores” são marcados pelo fim deste ciclo, com
a derrocada ou fragilização dos chamados governos progressistas e uma violenta
ofensiva ideológica da direita e, particularmente, da extrema-direita. Se em âmbito
internacional este processo é marcado simultaneamente por políticas neoliberais,
crescimento de partidos fascistas e por fortes resistências que se expressam de
distintas formas (como a recente greve na França e a mobilização popular em torno
da candidatura Sanders nos EUA), na América Latina e, em especial, no Brasil as
forças de esquerda encontram-se na defensiva, com escassa capacidade de disputa
hegemônica, enquanto visões de mundo conservadoras, fundamentalistas e
antissociais são crescentemente compartilhadas.
No Brasil atual, o avanço da direita e da extrema-direita é facilmente
perceptível nas manifestações públicas, na disseminação de visões conservadoras
nos terrenos social, político, econômico, cultural, educacional e moral e no avanço
de articulações políticas envolvendo grupos religiosos fundamentalistas, lideranças
ruralistas e tradicionais grupos políticos antipopulares. Uma obra coletiva
recentemente lançada — A onda conservadora2 — colocou em destaque alguns dos
aspectos e formas de manifestação desta ascensão da direita: atuação de meios de
comunicação; criação e fortalecimento de aparelhos privados de hegemonia
voltados à disseminação de visões de mundo reacionárias; privatizações e ajuste
social;
repressão
policial;
machismo;
instrumentalização
do
discurso
“anticorrupção”; reordenamento urbano excludente; mercantilização da vida; avanço
do “politicamente incorreto” agressivo e desqualificador... Estas são algumas dentre
as muitas expressões e evidências deste processo e, certamente, há muito mais a
ser investigado e discutido, e neste sentido, a contribuição deste livro é certamente
valiosa.3
2
DEMIER, Felipe & HOEVELER, Rejane (Orgs.). A onda conservadora: ensaios sobre os atuais tempos
sombrios no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 2016.
3
Nota dos organizadores: indicamos, junto com a obra citada, o livro organizado por Sebastião
Velasco e Cruz, André Kaysel e Gustavo Codas, Direita, volver! O retorno da direita e o ciclo político
brasileiro (São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2015) e o amplo dossiê Direitas, política e ideologia,
organizado pelo Marxismo21. Disponível em: <http://marxismo21.org/direitas-politica-ideologia>.
Acesso em: 13.6.2016.
9
A disseminação de visões de mundo conservadoras e antipopulares
acompanha todo o ciclo dos governos petistas e é facilitada pelas suas contradições
e inconsistências e pela renúncia à confrontação ideológica por parte de um governo
que era identificado como sendo “de esquerda”. A burocratização e a cooptação dos
sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais promoveram a decapitação
da direção dos subalternos e abriram caminho para que a atuação dos aparelhos
privados de hegemonia controlados pela direita tivesse sua eficácia potencializada.
Os efeitos deste processo são enormes e apenas recentemente foi possível que
tenham se constituído à esquerda mobilizações e ações massivas comandadas por
uma nova geração que já não identifica o Partido dos Trabalhadores como referência
de esquerda — as mais destacadas são Jornadas de Junho de 2013 e as ocupações
das escolas, iniciadas em 2015 e, atualmente, em curso em vários Estados.
Os governos petistas pavimentaram o caminho para a ascensão
conservadora através de um conjunto de escolhas conscientes. A intocada
subordinação ao capital financeiro determinou estritos limites às políticas sociais,
sobretudo em momentos de acirramento da crise. Propostas como a “Agenda
Brasil”,4 apresentada pelo governo Dilma, em agosto de 2015, e caracterizada por
um sistemático ataque aos direitos trabalhistas e pelo favorecimento ao grande
capital favorecem a visão simplória de que “os políticos são todos iguais”, tão cara à
extrema-direita que sempre se apresenta como um elemento externo ao sistema. E,
para completar, a Lei Antiterrorismo — proposta pelo governo Rousseff, aprovada
pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidenta poucos dias antes de seu
afastamento — proporciona um salto de qualidade na escalada repressiva, criando
base legal para o enquadramento dos movimentos sociais como organizações
terroristas.
A rendição ideológica conduzida pelo Partido dos Trabalhadores é, portanto,
elemento fundamental do quandro em que se dá o avanço ideológico da direita,
sobretudo porque desqualifica e deslegitima perspectivas e projetos que proponham
pensar a organização da sociedade em outras bases, ao mesmo tempo em que torna
possível que a direita atribua à “esquerda” os perversos efeitos sociais da crise
4
Agenda Brasil (2015). Disponível em: <imguol.com>. Acesso em: 18.8.2015.
10
capitalista, mesmo permanecendo a economia gerida sob a perspectiva de total
subordinação aos interesses e imposições do capital financeiro transnacionalizado.
A vigência de um governo que se apresenta como sendo de esquerda, juntamente
com sua opção sistemática pelo não enfrentamento ideológico contra a direita — e,
na maior parte dos casos, operando mesmo a explícita reificação das premissas
ideológicas do capitalismo —, ofereceu condições ótimas para o avanço da direita e
da extrema-direita, ao menos até o afastamento de Rousseff.
É inegável o avanço ideológico de posições socialmente conservadoras,
culturalmente obscurantistas e economicamente liberais e antipopulares, aliado a
uma expressiva popularização de intelectuais e lideranças políticas que podem ser
caracterizadas como de extrema-direita, defendendo posições fascistizantes e um
discurso violentamente antipopular. É igualmente inegável que a virulenta oposição
aos governos petistas, em especial de Dilma Rousseff, é combustível decisivo para
este avanço. O PT e o governo Rousseff aparecem como objeto principal contra o
qual se dirige este discurso. O paradoxo é aqui perceptível: como é possível que
seja
apresentado
como
“ameaça
comunista”
um
governo
que
impõe
contrarreformas, mantém uma política econômica estritamente neoliberal, ainda que
temperada por políticas assistencialistas focalizadas e, ainda, consegue manter
parte dos movimentos sociais submissa? Tudo indica que se trata da construção de
uma tropa de choque fascista, cujo crescimento é fomentado pelas misérias do
governo petista, mas que visa sobretudo aos movimentos populares autônomos e às
eventuais alternativas reais em processo de formação, que têm como perspectiva a
construção de uma hegemonia do mundo dos trabalhadores.
11
Paulo Francis, o polemismo a
serviço da agenda ultraliberal
Alexandre Blankl Batista1
Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, o Paulo Francis, chegou a ter o maior
salário do jornalismo brasileiro na década de 1990. Para alguns, surpreende que o
teor de seu conteúdo textual tenha sido tão valorizado durante aquela época. No final
dos anos 1980 e durante os anos 1990, vários leitores espantavam-se diante dos
apelos preconceituosos e conservadores de Paulo Francis em suas colunas na Folha
de S. Paulo (FSP) e, depois, n’O Estado de S. Paulo (OESP). A despeito dessa fase,
o jornalista tem ainda relevante incursão na produção sobre crítica cultural e
cobertura da política estadunidense na imprensa brasileira durante a segunda
metade do século XX. Foi também um dos maiores polemistas do país e influenciou
vários profissionais da imprensa que, em boa medida, hoje, sendo também
polemistas, procuram imitar algumas características de seu estilo.
Paulo Francis declarava-se trotskista na juventude, tendo uma produção
jornalística mais identificada com a esquerda, especialmente na década de 1960. Ao
longo da década de 1970, percebe-se uma “fase de transição” em sua postura
político-ideológica e, especificamente, a partir de meados da década de 1980, uma
guinada ao liberalismo. Na transição da década de 1980 para 1990, Francis
apresentava a sua faceta conservadora, registrando em seus textos e avaliações
político-sociais o preconceito contra afrodescendentes e nordestinos, além de sua
1
Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor do Colegiado de
História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná.
12
vulgata ultraliberal, reproduzida do pensamento único, reinante na grande imprensa
brasileira naqueles tempos. Este texto objetiva apresentar alguns resultados de
pesquisa, tratando brevemente do polemismo e da trajetória de Paulo Francis a partir
de sua atuação na imprensa.
O polemismo de Francis
O polemismo, atualmente, parece ser uma ferramenta bastante difundida em
blogs de internet, na televisão e em determinados espaços de jornais e revistas da
grande imprensa. Tem sido apresentado para vulgarizar posições ideológicas e
constituir um chamariz que atraia público, pró ou contra as ideias em pauta. Diante
da popularização dos blogs, os textos de polemistas são comumente replicados nas
redes sociais, tanto por simpatizantes de determinado blogueiro, para mostrar o grau
de identificação com o texto replicado, quanto por opositores daquele discurso, para
contrastar o ponto de vista com argumentos distintos e tentar desqualificá-lo.
Na televisão, tanto aberta como a cabo, Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi
foram os primeiros a destacarem-se como os potenciais “herdeiros de Francis”.
Mainardi é seu confesso admirador, tentou imitar seu estilo agressivo, permutado a
certas doses de aparente erudição, quando escrevia na revista Veja. Jabor, por sua
vez, foi quem ocupou espaços importantes na grande imprensa e mídia deixados por
Paulo Francis.2 Sobre uma eventual pretensão de Jabor em se parecer com Paulo
Francis, o jornalista Paulo Henrique Amorim conta que, em certo momento da
trajetória do ex-cineasta, teria se passado o seguinte: “Arnaldo Jabor tinha acabado
de saber que o Evandro Carlos de Andrade decidiu dar-lhe uma coluna diária no
Jornal da Globo. No térreo do prédio da Globo, na Terceira Avenida, ele celebrou
comigo: ‘Vou ser o Francis brasileiro!’. E foi” (AMORIM, 2015, p. 139).
Além de Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi, hoje, destacam-se variados
polemistas, os quais, diversas vezes, lembram o “estilo Paulo Francis”. Esses
2
Nos telejornais da Rede Globo, Jabor passou a ocupar os espaços que antes eram de Francis,
imitando o teor irônico e ácido de seus comentários. Tinha ainda substituído Francis na Folha de S.
Paulo, quando este migrou para o Estadão. Da mesma forma, o substituiu no Programa Manhattan
Connection, do qual, posteriormente, Diogo Mainardi participou.
13
profissionais não apenas ocuparam espaços deixados por ele, mas os ampliaram
consideravelmente, levando em conta o advento das novas mídias e nichos da
internet, não existentes na época de Francis. Entre eles, podem-se citar os escritores
Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Luiz Felipe Pondé e Olavo de Carvalho. Este
último, por exemplo, como destaca Patschiki, “irá emergir na imprensa no vácuo
deixado pela morte de Paulo Francis em 1997, em plena conjuntura onde a grande
mídia
batalhava
ostensivamente
pela
implementação
do
ultraliberalismo”
(PATSCHIKI, 2013, p. 35). Outros, ainda, criaram-se na esteira do antipetismo
exacerbado, neste novo milênio, inaugurado após as eleições presidenciais
brasileiras de 2002.
Essa maneira de escrita, caracterizada pelo tom polêmico, não é apenas um
estratagema político-ideológico. Tem estado em evidência e tem o seu lugar
garantido nos meios jornalísticos justamente porque atrai o leitor, tanto o simpatizante
quanto o opositor do sujeito que escreveu a polêmica. No caso de Francis, não faltam
depoimentos alegando que essa era uma faceta importante de seus textos, ou seja,
atraía tanto os admiradores quanto os opositores.3
Por estar em evidência, esse mote começa a despertar o interesse de
pesquisadores, especialmente os da área de comunicação social e jornalismo, mas
também os das ciências sociais em geral. Alguns estudos dão conta deste tema
como estratégia para atrair a atenção do leitor, por uma questão meramente
mercadológica ou como artifício para construir uma espécie de ethos, um espaço
jornalístico para o qual o leitor seja atraído e permaneça interessado em virtude da
polêmica (PEREIRA, 1997; WAINBERG, 2002; BISSON, 2004; PETRIK, 2006;
FERREIRA, 2009).
Os principais elementos do polemismo — cuja característica fundamental é
a linguagem ferina — são o cinismo, a violência verbal e a ênfase na ironia. Desse
modo, estimulam-se ou até criam-se casos aparentemente banais, mas que acabam
tomando uma proporção maior do que a expectativa comum poderia supor, tendo
em vista o ataque a pessoas, a grupos ou organizações político-partidárias e a
3
Cf. o depoimento de Boris Casoy, entre outros, no documentário CARO Francis. Direção: Nelson
Hoineff. Brasil. 2010, 98 min, DVD.
14
movimentos sociais, evidenciando-se, assim, o caráter político da postura polemista.
Além disso, os profissionais que adotam tal postura possuem, frequentemente, laços
orgânicos com aparelhos privados de hegemonia, visando determinado projeto de
classe ou atuando como vulgarizadores de certa agenda ideológica. Da mesma
forma, o “politicamente correto” tem sido desqualificado e até ridicularizado como
uma perspectiva de hipocrisia político-filosófica. Mostram-se, então, os traços
conservadores que visam legitimar uma postura reacionária frente a temas
progressistas, como a contraposição agressiva à atitude feminista e a discussões
sobre gênero, por exemplo, ou à aceitação social da homossexualidade, dentre
outros assuntos. O mais curioso é que tais posturas são colocadas pelos seus
autores como “corajosas”, ou como “desafiadoras do lugar comum” e dos
“posicionamentos intelectuais abjetos”.4
Francis foi um precursor recente dessa faceta, pois reunia em seus textos
boa parte dos elementos elencados acima. A linguagem ferina de Paulo Francis, no
entanto, sempre foi uma característica de seus textos, mesmo em sua fase
declaradamente trotskista.
5
Todavia, é importante lembrar que, antigamente,
especialmente nos anos que precederam o golpe de 1964, a imprensa brasileira era
bastante incisiva em suas críticas sobre política, assumindo a parcialidade editorial
e estimulando a verve de seus colunistas. Naquele ambiente é que se forjou o
polemismo de Francis, ainda quando era crítico teatral nos anos 1950. Na década de
1960, adaptou seu estilo para atacar outro polemista da época, o famoso político e
jornalista Carlos Lacerda. No jornal Última Hora, entre 1962 e 1964, quando Paulo
Francis atuava como colunista político, é que se moldou boa parte do seu “polemismo
político”.
A primeira de suas polêmicas famosas, no entanto, aconteceu em 1958,
quando era crítico teatral do jornal Diário Carioca e atacou a atriz Tônia Carrero,
deixando entender que ela ascendera na carreira apenas por sua beleza. Além disso,
4
MAINARDI, Diogo. Acabou o antídoto contra o abjeto. In: Revista Veja, ano 30, n. 6, 12.2.1997, p. 79.
5
Apesar de Francis, ao que parece, nunca ter militado em uma organização trotskista, em sua atuação
jornalística na década de 1960 percebem-se indícios de posturas estratégicas que vão ao encontro
do trotskismo brasileiro de então. Entre eles, a defesa do brizolismo no pré-golpe de 1964 e a simpatia
pelo “nacionalismo militar” de Gal Afonso Augusto de Albuquerque e Lima, em plena ditadura, às
vésperas do AI-5.
15
insinuava que a atriz dormia com seus colegas de palco e que informantes lhe teriam
oferecido, a ele, Francis, fotos provocantes de Tônia, em poses sensuais, publicadas
em uma revista pornográfica dos EUA. A reação imediata veio de Adolfo Celi,
produtor de Tônia Carrero, que teria dado uma bofetada no jornalista, e do colega de
Tônia nos palcos, Paulo Autran, que, ao término de uma peça teatral em que Francis
fazia-se presente, soltou-lhe uma cusparada no rosto (MOURA, 1996; NOGUEIRA,
2010).
Houve outros ataques pessoais de relevante repercussão, como aqueles
direcionados a Carlos Lacerda, no Última Hora, chamado de “fascista” ou “Her
Carlos”; a Roberto Marinho, n’O Pasquim, classificado como “um homem chamado
porcaria”; e a Roberto Campos, em diversos momentos, e em vários periódicos de
imprensa, compreendido como o grande vilão da nação brasileira.6 Do mesmo modo,
Caetano Veloso, na FSP, foi menosprezado por Francis, acusado de subserviente
diante de Mick Jagger, em uma entrevista, ao que Caetano respondeu, chamando-o
de “bicha amarga”. No mesmo jornal, tornaram-se muito conhecidas as polêmicas e
ataques ao primeiro ombudsman da FSP, Caio Túlio Costa, ao Partido dos
Trabalhadores, de modo geral, a Luiz Inácio Lula da Silva e Luíza Erundina, em
particular. Ainda, disparou impropérios e difundiu preconceitos contra nordestinos e
a afrodescendentes.
Quando atuou n’OESP, Francis conviveu com dois processos acarretados
por sua “língua afiada”. Ao referir-se, seguidamente, a Eduardo Suplicy como
“Mogadon” (medicamento que, entre os seus efeitos colaterais, deixa o usuário
sonolento), foi proibido pela justiça de mencionar o nome dele em suas colunas. O
processo movido pelos diretores da Petrobrás também data dessa época, mais
precisamente de 1996. No entanto, embora Paulo Francis tivesse feito acusações
semelhantes, antes, no próprio jornal, aquele processo teria sido motivado em virtude
de uma manifestação do jornalista no programa Manhattan Connection, acusando os
diretores da estatal de manterem contas secretas na Suíça, oriundas, supostamente,
de desvio de dinheiro público.
6
A partir de 1985, contudo, Francis passava a considerá-lo um grande intelectual, uma espécie de
referência na área político-econômica.
16
Da mesma maneira, o jornalista direcionava ataques de agressividade verbal
de menor repercussão, mas com teor igualmente ácido, bem como manifestava com
proeminência seus rancores políticos e viés ideológico. Parte deles são suas diversas
manifestações contrárias, ao longo dos anos 1980 e 1990, ao Movimento Sem Terra
e à Central Única dos Trabalhadores, aos grevistas de várias categorias, ao ensino
público (considerado ineficaz), a diversos grupos estatais, ao Partido Comunista
Brasileiro, à esquerda brasileira em geral, aos professores universitários com viés
marxista, especialmente os lukacsianos, mencionados em fins dos anos 1970 em
textos da FSP, e os gramscianos, mais citados nos anos 1980.
A polêmica de Paulo Francis também parece conservar um estreito limite
entre o caráter informativo do jornalismo e a forma de expor o ponto de vista de
maneira descompromissada. Em parte, isso explicaria os diversos erros e
imprecisões cometidas por ele, além das trocas de datas e nomes. A confiabilidade
das fontes e a checagem das informações parecem ficar em segundo plano frente
ao impacto do que se quer dizer ou fazer pensar. Segundo Paulo Henrique Amorim,
que conviveu de perto com o polemista no escritório da Rede Globo de TV, em Nova
Iorque,
Francis, a certa altura, não escrevia mais as colunas para a Folha — até
ser defenestrado — e depois para o Estadão e O Globo. Apenas se
deitava na cadeira da redação, usava o telefone da Globo e ditava a
coluna — geralmente em torno do que tinha acabado de gravar. Outras
vezes, no auge da crise da dívida, ele dizia: “Conversei com um banquei-ro…” E espinafrava o Brasil. Geralmente, o “ban-quei-ro” era o
Pimenta das Neves, funcionário subalterno do serviço de imprensa, em
Washington, do Banco Mundial, outro que espinafrava o Brasil no
Estadão. Ou Francis se baseava num relato precário de um produtor d’O
Globo e da Globo, Régis Nestrovski, que ia às coberturas da dívida e
captava o que cabia nos termos do futebol americano, tema em que se
especializou (AMORIM, 2015, p. 138).
É esclarecedor constatar que uma das causas que o aborreceram na
polêmica contra o ombudsman, na FSP, foi o fato de Caio Túlio Costa afirmar, em
17
certo momento, que Francis não faria jornalismo na Ilustrada: 7 “Ali ele é mais o
Francis ficcionista, o cronista dos tempos, diz besteiras e coisas sábias. Escreve o
que muitos pensam e não ousam falar em voz alta. É preconceituoso, vulgar, chuta
alguns dados […]” (COSTA, 2006). O exemplo torna-se simbólico, referente ao
legado que Francis deixou, já que um de seus pretensos imitadores de estilo, ao que
parece, acabou sendo defendido com o mesmo argumento de que não deveria ser
levado a sério. Este foi o caso de Arnaldo Jabor, tendo a incumbência de comentar
sobre política nos telejornais da Rede Globo.8
Por tudo isso, não é à toa que Francis tornou-se um guru para vários
jornalistas controversos e polemistas brasileiros contemporâneos. Foi assim com
Rodrigo Constantino e Diogo Mainardi, desde cedo apontados como pretensos
prodígios, potenciais continuadores do estilo Francis. Ele também tem sido a
referência para Arnaldo Jabor nos seus comentários televisivos, para Reinaldo
Azevedo (que se diz ex-trotskista, a exemplo do que ocorria com Francis) e até para
Olavo de Carvalho, que combina uma linguagem de baixo calão com aparência de
erudição. Aquilo que Bernardo Kucinski chamou de “método Paulo Francis”, ou
“Paulo Francis, uma tragédia brasileira” tem protelado a incumbência de “chocar e
divertir”, como dizia o autor, e menos informar (KUCINSKI, 1998), o que vai contra a
essência de um jornalismo feito com maior seriedade.
7
Em depoimento para o documentário CARO Francis, já citado, Daniel Piza relata: “Chamar de
cronista, neste contexto, é uma coisa meio negativa… ‘Ah, não é um jornalista!’ E ele era um jornalista,
só que um jornalista de opinião”.
8
Luiz Carlos Azenha relatou o seguinte sobre Jabor, quando explicava um caso de assédio moral que
teria sofrido, relacionado ao processo político eleitoral de 2006: “Argumentei, então, que o
comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula
era comparável ao ditador da Coreia do Norte, Kim II-sung, e que não acreditava ser essa postura
compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante
cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o ‘palhaço’ da casa, não deveria ser levado a sério”. AZENHA,
Luiz Carlos. Globo consegue o que a ditadura não conseguiu: calar a imprensa alternativa. In: Carta
Capital, 30.3.2013. Disponível em: <www.cartacapital.com.br>. Acesso em: 31.3.2013.
18
Trajetória jornalística e virada ideológica de Francis
Podemos identificar os principais motes da atuação intelectual de Paulo
Francis, entre a década de 1960 até o seu falecimento, no início de 1997, tentando
compreender sua atuação orgânica em determinados momentos e, em outros, uma
indefinição quanto ao apoio de agendas políticas, junto aos periódicos de imprensa
para o quais escrevia. Nesse percurso é preciso destacar tópicos como o processo
de sua transformação ideológica e os momentos em que desempenhou o papel de
intelectual orgânico, na defesa de agendas socioeconômicas e no apoio a
programas políticos e a certos candidatos em determinados pleitos eleitorais.
Desse modo, é preciso esclarecer que, durante a trajetória intelectual do
jornalista, projetam-se fases ideológicas distintas. Paulo Francis descobriu o
trotskismo na década de 1950 e, após o golpe de 1964, sofreu o impacto oriundo do
advento da ditadura, que impôs um período de mais de vinte anos de repressão
político-social ao país. Decorreria daí uma gradual transformação de sua postura
intelectual, passando da esquerda para a direita do espectro político, apresentandose como um vigoroso defensor da agenda ultraliberal implantada no país na década
de 1990 e tornando-se hegemônica na grande imprensa a partir daquela mesma
época. Parte dessas informações, grosso modo, com alguma variação interpretativa,
encontra-se nas avaliações de seus principais biógrafos e em certos artigos e
dissertações acadêmicas sobre o jornalista. Assim, objetivamente, vamos tentar
identificar as prerrogativas que, de uma forma ou outra, estiveram associadas às
mudanças que o seu perfil ideológico foi tomando.
Uma das questões importantes diz respeito ao seu propalado trotskismo.
Notamos em nosso estudo que Francis, aparentemente, jamais militou em quaisquer
organizações trotskistas, talvez desconhecesse boa parte delas ou, pelo menos, não
as mencionava em seus textos, limitando-se a falar sobre Leon Trotsky ou acerca de
seus comentadores. Uma obra em particular parece tê-lo marcado. Trata-se da
conhecida trilogia biográfica sobre Trotsky, escrita por Isaac Deutscher. Paulo
Francis chegou a participar da equipe editorial de tradução brasileira dessa obra,
publicada no final da década de 1960 pela Civilização Brasileira, editora de seu
amigo Ênio Silveira. Não é possível descartar completamente uma atuação de
19
Francis em torno das estratégias do trotskismo brasileiro, na época, e das teses de
suas organizações militantes. Sabe-se, por exemplo, que o Partido Operário
Revolucionário Trotskista (POR ou PORT), no Brasil, defendeu as teses do trotskismo
argentino de vertente posadista, especialmente a partir de 1963, quando passou a
defender o nacionalismo de Leonel Brizola até antes do golpe de 1964, além de
alinhar-se ao “nacionalismo militar” de Albuquerque e Lima, em meio à ditadura
(PEREIRA NETO, 2003). Essas posturas encontram simetria com os escritos de
Francis, primeiro no jornal Última Hora, onde atuou até 1964, depois no Correio da
Manhã, onde escreveu até o final de 1968.
Dessa forma, em sua atuação jornalística pré-1964, mais do que defender
Brizola, alinhou-se ao “bloco populista” identificado com lideranças do PTB,
alternando, por vezes, apoio condicional com críticas mais contundentes ao então
presidente João Goulart. O jornal Última Hora, em seu editorial, assim como em
muitos dos textos do próprio Francis, estava focado em defender o governo Goulart
e atacar seus adversários políticos, sobretudo o então governador da Guanabara,
Carlos Lacerda. Portanto, pode-se dizer que o jornalista teve papel conectivo como
intelectual, atuando a favor da permanência daquele bloco no poder, predicando um
projeto nacionalista de desenvolvimento econômico e social do país. Para isso,
utilizou-se do jornalismo diário, adotando, embora com alguma reticência, o perfil
editorial da Última Hora, em que apontava caminhos possíveis, tentando persuadir
os leitores, por meio de suas ideias, de prováveis soluções dos problemas
enfrentados pelo governo brasileiro de então.
Todavia, é necessário deixar claro que esse chamado “bloco populista” não
era coeso. Entre outras divergências e disputas, havia o enfático interesse de Brizola
em liderá-lo. No jornal Última Hora, o jornalista e repórter Samuel Wainer, chefe do
jornal, era amigo de João Goulart e o defendia como a principal liderança do PTB.
Paulo Francis, ao contrário, deixava clara a sua predileção por Leonel Brizola em
vários de seus artigos naquele mesmo periódico. Além disso, existem dados que
confirmam Francis como um atuante intelectual orgânico do brizolismo, por um curto
período, entre o final de 1963 e 1964. Ainda no final de 1963, tornou-se membro de
um dos “grupos dos onze”, os quais foram concebidos por Leonel Brizola (em 29 de
20
novembro de 1963, Brizola anunciava a concepção de formação desses grupos em
um de seus programas na rádio Mayrink Veiga). Além disso, Francis foi um dos
principais articulistas do efêmero jornal O Panfleto, que circulou entre fevereiro e
março de 1964, tendo apenas sete números publicados. Esse jornal, pouco estudado
até hoje, foi organizado por Brizola para divulgar as suas pretensões nacionalistas e
demais estratégias políticas.9
A crítica político-social e a condenação ao chamado “stalinismo” —
elementos claramente ligados ao trotskismo — só viriam mais delineadas na
produção textual de Francis no período pós-1964. Nesse momento, os seus textos
expressavam, fundamentalmente, a preocupação com a falta de liberdade
intelectual. Não foi coincidência que esse assunto ganhou dimensão em seus artigos
a partir de então. Francis chegou a escrever bastante contra a ditadura civil-militar
brasileira em suas colunas do Correio da Manhã e em artigos para a Revista
Civilização Brasileira. No entanto, após o AI-5, seus artigos passaram a refletir
indiretamente sua insatisfação com a situação nacional, apontando exemplos
externos à realidade do país. O regime político soviético foi alvo constante de seus
textos para O Pasquim, bem como o exemplo do regime cubano, ambos apontados
como ditaduras que cerceavam e reprimiam a liberdade de expressão e a vontade
individual dentro do conjunto social.
Anos mais tarde, Francis argumentava que essas suas posturas
comprovavam que nunca fora conivente com certas práticas da esquerda brasileira,
essencialmente as defendidas pelo PCB, pois a crítica ao stalinismo seria produto de
sua formação trotskista. Consideramos que, de fato, essa conduta esteve presente
na trajetória de Francis, sendo inaugurada, mais evidentemente, após o AI-5, quando
publicou um longo artigo para a revista Realidade, em 1969, seguindo linha
semelhante em sua produção para O Pasquim. Apesar disso, é difícil encontrar em
seus textos uma defesa explícita do trotskismo. Até mesmo eventuais inclinações à
esquerda, supostamente vinculadas ao marxismo, na prática, são difíceis de
9
A historiadora Elenice Szatkoski publicou recentemente o resultado de sua pesquisa de doutorado,
estudando e analisando o conteúdo deste jornal, o qual se encontra, segundo ela, preservado apenas
no acervo da Fundação Alberto Pasqualini, no Rio de Janeiro (SZATKOSKI, 2014).
21
identificar, haja vista a sua atuação orgânica pré-1964 junto ao projeto nacionaldesenvolvimentista perseguido pelo PTB, no Última Hora, e reafirmada em seus
textos produzidos antes do AI-5, quando apoiou abertamente, mesmo com alguma
hesitação, a corrente nacionalista da ditadura, contrária à corrente representada por
Castello Branco. Francis afirmava-se continuamente como um intelectual pragmático,
bradando a necessidade de optar sempre pelo “mal menor”.
A postura antistalinista foi uma prerrogativa de vários intelectuais de
prestígio, reconhecidos mundialmente durante a Guerra Fria. A própria CIA teria
utilizado e estimulado a produção desses intelectuais como forma de reforçar a
propaganda antissoviética, dentro e fora dos EUA (SAUNDERS, 2001). Entre eles,
encontravam-se vários trotskistas. Paulo Francis envolveu-se profundamente naquele
caldo de cultura, já que acompanhava as tendências intelectuais diretamente a partir
de diferentes publicações da grande imprensa estadunidense. Não é incorreto
aventar que tenha contribuído, mesmo que involuntariamente, para a desejável
propaganda ocidental por parte do establischment anticomunista do período. N’O
Pasquim, por exemplo, foram comuns comentários seus argumentando sobre a
degenerescência do Estado soviético:
Algumas pessoas me consideram inimigo profissional da União
Soviética. Ainda não me chamam, que eu saiba, de lacaio da embaixada
americana, talvez porque eu seja um crítico tão veemente do
imperialismo americano como do soviético, mas conhecendo a
intolerância de certos tipos e os antolhos que usam, acho que esse dia
chegará. Respondo que lido com fatos. […] À parte realizações
materiais, considero a URSS um Estado bárbaro (FRANCIS, 1970, p. 10).
Afinal, ao passo que tecia críticas aos EUA por conta do intervencionismo
militar (Francis denunciou avidamente os graves e violentos excessos cometidos
pelos EUA no Vietnã), elogiava o ambiente de maior liberdade individual encontrada
naquele país comparado com países de orientação comunista no cenário mundial da
época. As críticas mais intensas aos EUA foram diminuindo na mesma proporção em
que aumentava sua aversão à URSS e ao PCB, coincidindo com seu exílio voluntário
nos EUA e o ingresso na grande imprensa paulista, no jornal FSP, a partir do final do
22
ano de 1975. No entanto, sua autodeclarada virada ideológica viria em fins dos anos
1970, incorporando elementos novos nos anos subsequentes.
Em 1979, por exemplo, declarava na FSP que havia abandonado a esquerda
e, conforme dizia, não acreditava mais no socialismo. Assim, confirmava não só
ceticismo que já era possível perceber em seus romances Cabeça de Papel, de
1977, e Cabeça de Negro, de 1979, mas também demonstrava uma clara mudança,
mais ponderada, quanto à reavaliação de suas críticas políticas, percebidas n’O
Pasquim. Sugerimos que sua ponderação naquele momento foi motivada pela
repressão do regime ditatorial e foi também um produto de sua revisão em sua
condição de intelectual. É difícil assinalar uma posição de organicidade de Francis
naquele período, que decorre de sua participação n’O Pasquim, em 1969, até os
primeiros anos da década de 1980. Uma publicação, com um título significativo, que
já refletia bem a hesitação em suas posições ideológicas, foi Certezas da Dúvida, de
1977, quando expunha uma síntese de suas reflexões intelectuais ao longo da
década de 1970.
Nessa época, Francis vacilava em apontar caminhos e soluções para os
problemas sociais, econômicos e políticos nos âmbitos nacional e mundial. Para ele,
os modelos experimentados no capitalismo e no socialismo não serviam. Observava
que, na verdade, não havia socialismo nos países do Leste Europeu e em parte
alguma. Todas as experiências nesse sentido teriam se transformado em regimes
tirânicos e perversos. É bastante expressivo o fato de que pouco tenha argumentado
em favor de uma proposição ou projeto social de cunho trotskista como alternativa
ao poder constituído no período. Ao contrário, enfatizamos este ponto, percebe-se
que jamais militou a favor do trotskismo, sendo, no máximo, um simpatizante de
comprometimento distante com a causa e com suas ramificações e organizações.
Em fins dos anos 1970, Francis chegou a flertar com o chamado
“eurocomunismo”, elogiando em suas colunas para a FSP as concepções
democráticas que, segundo ele, guiariam o perfil daqueles projetos elencados por
certos PC’s da Europa. A debilidade daqueles projetos, entretanto, parece ter tirado
as últimas crenças do jornalista em relação à possibilidade socialista. É preciso frisar
que, em 1979, quando declarava o abandono do socialismo, ainda permaneceu
23
hesitante quanto a posições ideológicas melhor definidas. A síntese dessa postura é
identificada em várias passagens de seu primeiro livro de memórias, O afeto que se
encerra, publicado em 1980. Um ano depois, a partir de 1981, foi contratado por
Roberto Marinho, o mesmo que ele havia insultado n’O Pasquim, chamando-o de
“porcaria”. Sua figura pública colocou-se em maior evidência com as frequentes
inserções de seus comentários nos telejornais da Rede Globo de TV. Paulo Francis,
então, começou a tornar-se mais popular, também, devido às imitações que os
humoristas realizavam de sua performance caricata enquanto apresentava suas
crônicas internacionais nessas inserções televisivas.
A sua “virada ideológica assumida” somente se completaria em meados dos
anos 1980. Precisamente em 1985, no mês de fevereiro, Francis escrevia uma coluna
redimindo o até então desafeto Roberto Campos. O economista foi alvo histórico de
Francis, execrado desde os seus escritos para o Última Hora, passando pelo Correio
da Manhã e pela FSP, em diversas colunas do jornalista. A partir de então, Francis
não apenas eximia Campos de boa parte dos males que afligiam o país, como o
tomava por guru e grande intelectual brasileiro. Era o início de sua condição orgânica
em favor da construção de uma agenda ultraliberal para o país, que se tornaria mais
evidente na década de 1990, mas que tinha seus primeiros elementos constitutivos
já nesta época. Conforme Francis:
Roberto Campos é um guerreiro. Pouca gente é tão odiada no Brasil.
[…] Mas Campos é respeitado, intelectualmente. Não é um adversário
fácil, num debate. Melhora horrores, em pessoa. […] Escrevi coisas
brutais sobre Campos. São erradas. Retiro-as. “Como eu não ia
dizendo…”. Acontece. Nunca tive a pretensão de ser santo milagreiro.
Corro os riscos que sempre levam a erros. […] Mas cheguei à conclusão
que capitalismo num país rico é opcional. Num país pobre, no tipo de
economia inter-relacionada do mundo de hoje, a suposta saída que se
propõe no Brasil de o Estado assumir e administrar, e é o que mais leio
neste jornal, leva à perpetuação da miséria, do atraso, da estagnação.
Capitalismo no Brasil é uma questão de sobrevivência. […] O que ele
[Campos] propõe no Brasil é mais adequado à nossa realidade
econômica e social. Ele tem sido xingado por muita gente. É tolice. Se
os recursos que o Estado brasileiro canalizou para o estatismo tivessem
sido postos ao dispor da iniciativa privada, o Brasil hoje seria uma
potência de peso médio e talvez mais. E quanto mais gananciosos os
capitalistas, melhor. Ganância é sinônimo de ambição. Se ganha
24
dinheiro no capitalismo produzindo e vendendo, produzir e vender
requerem garra e gana, ambição. Ganhar dinheiro requer criação de
empregos e mercados (FRANCIS, 1985).
Não é coincidência que a FSP, jornal em que atuava, passava por
transformação idêntica. A FSP alterava seu perfil editorial exatamente naquele ano,
mais precisamente entre julho e agosto de 1985 (FONSECA, 2005). Até aquele
momento, o jornal defendia um modelo de desenvolvimento capitalista próximo ao
que se entende por “nacional-desenvolvimentismo”, bastante similar àquele com que
Paulo Francis simpatizava desde que começou no jornalismo político. Essas posturas
confluentes, possivelmente, integraram um grande redirecionamento das classes e
frações de classes dominantes, refletidas pela grande imprensa e grande mídia,
como resposta à crescente crise econômica e política há tempos sentida no país,
oriunda de fatores internos (aumento inflacionário, instabilidade social e econômica)
e externos (crise do petróleo, ascensão de um neoconservadorismo nos países
centrais do capitalismo mundial, descrédito e penalizações impostas pelos
organismos internacionais aos países latino-americanos, etc.). Tudo isso desgastou
a ditadura civil-militar e foi parte dos elementos causais que conduziram o país ao
processo de transição do governo militar para o governo civil em meados dos anos
1980.
A partir de então, Paulo Francis tornou-se, gradativamente, um dos grandes
vulgarizadores da agenda ultraliberal aconselhada pelos grandes organismos
internacionais, mediadores do controle da economia mundial capitalista, como o
Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, tendo respaldo e amparo
insinuantes dos EUA para a concretização daquela agenda, formalmente instituída a
partir do Consenso de Washington, em 1989. A mesma recomendava o equilíbrio
fiscal, exigindo corte de gastos estatais, diminuição da máquina pública e estímulo
às privatizações e à abertura dos mercados econômicos. Paulo Francis foi um
insistente e agressivo agente defensor das privatizações do setor público brasileiro,
seguindo muitos argumentos formulados pelo antigo desafeto Roberto Campos,
tentando convencer seus leitores sobre a suposta ineficiência irrecuperável das
grandes estatais nacionais e do sistema de ensino público.
25
Na mesma proporção de sua atuação orgânica ultraliberal, cresceu a sua
aversão aos socialmente desfavorecidos, o seu preconceito racial e regional e,
sobretudo, o seu anticomunismo. Acreditamos que essas características são
indissociáveis da própria agenda ultraliberal. É necessário lembrar que, na década
de 1980, tanto nos EUA como na Inglaterra, multiplicaram-se os discursos de ódio e
de aversão ao “terceiro-mundismo”, ao comunismo, ao socialismo e às minorias
raciais (CUEVA, 1987). O polemismo de Francis sintetizou todos esses elementos em
um só alvo, no final dos anos 1980, ao atacar a candidatura de Luiz Inácio Lula da
Silva à eleição para a Presidência da República. Na oportunidade, hostilizava o fato
de Lula ser, em primeiro lugar, supostamente ignorante, porque era oriundo do
Nordeste brasileiro, além de não ter frequentado as cátedras superiores de ensino;
em segundo lugar, por sustentar uma ideologia socialista, na contramão de tudo o
que estaria acontecendo na Europa e no restante do mundo. Segundo Francis, essas
seriam características que o desqualificariam para o posto de Presidente da
República. Conforme ele mesmo explica:
Mais um amigo por dentro e inteligente com quem almoço. […]
Pergunto-lhe quem vai ganhar a eleição. Lula. Temos de ir ao fundo do
poço. Chafurdar. A ala albanesa dos petelhos, prevê meu amigo,
proporá legislação, porque é uma das treze alas do PT. Marilena Chauí
convocará reunião ministerial para determinar se é democrático que haja
serventes que varram os ministérios. […] Lula nos coloca au niveau de
Cuba e Nicarágua. É uma besta quadrada. Não sabe de nada do que
está falando […]. Com Lula, seriam porteiras abertas. O cangaço se
tornaria nacional e prestigiado pelo governo federal. As classes
produtoras se defenderiam. Entropia. Sudão. Já escrevi aqui várias
vezes que todo mundo que conheço que pesa acha que Lula leva a
eleição. […] Com Lula o dinheiro todo brasileiro já foi ou vai embora. Só
quem não puder tirar é que deixará qualquer coisa aí. E as estatais vão
falir e a hiperinflação vem. […] Adverti daqui o leitor de que não dissesse
“pior do que Ribamar não pode haver”. Há Lula. Os petelhos, Érundíina,
que se parece com Jeff Chandler, a República do paraíba, do pérapado, e, como diz Veja, Lula se assemelha ao eleitor médio...
(FRANCIS, 1989).
Analisando-se as diversas colunas de Francis na FSP, percebe-se
claramente a sua procura, a exemplo do editorial do próprio jornal em que publicava
26
seus textos, por um candidato que representasse os pressupostos da agenda por
ele vulgarizada. O apoio a Collor de Mello fora circunstancial e estratégico. Embora
ele não fosse o candidato ideal, era o mais próximo do projeto que Francis defendia,
especialmente pelo anticomunismo declarado e pela promessa de abertura da
economia brasileira. A grande imprensa nacional, de maneira geral, teve posição
semelhante, apoiando-o nas eleições, visivelmente no segundo turno, mas sendo
reticente no início de seu mandato, além de tomar cuidados ao apoiar as metas de
seu governo. Depois da famosa ação de confisco das poupanças, da dificuldade de
sustentação das bases e dos escândalos de corrupção, a grande imprensa foi
rapidamente abandonando o apoio ao governo e endossou a cassação do mandato
do Presidente.
Nesse lapso de tempo, Francis já havia trocado o jornal FSP pelo rival, OESP.
Neste periódico, de posição editorial semelhante à FSP, quanto à vulgarização e
adoção da agenda ultraliberal no país, mas com de viés mais conservador
(FONSECA, 2005), Francis consolidou sua posição ultraliberal. Provavelmente, em
nenhum momento precedente de sua carreira jornalística tenha sido tão lido quanto
nos anos 1990. É necessário lembrar que o contrato com a FSP exigia exclusividade,
ao passo que o contrato com OESP permitia que seus textos fossem publicados em
jornais de outros Estados. Desse modo, Francis passou a colaborar com O Globo,
no Rio de Janeiro, o Zero Hora, no Rio Grande do Sul, dentre outros periódicos,
tornando-se, nessa época, o jornalista mais bem pago do país.
Seu sucesso esteve ligado ao seu potencial de gerar polêmicas, ao seu estilo
de polemismo calcado na ironia e no cinismo, pautado em uma peculiar erudição,
reconhecida por alguns e muito contestada por outros, haja vista os diversos erros
que cometia e os imponderados julgamentos que fazia. Certos analistas como Luís
Augusto Fischer (1998), Carlos Bissón (2004) ou mesmo Isabel Lustosa (2000)
reconhecem certo valor literário, e até histórico, em seu estilo jornalístico, ou mesmo
sua importância como divulgador cultural de obras literárias e de produções musicais
e cinematográficas. Entretanto, não é objeto de nossa análise realizar semelhante
avaliação de estética literária. Este artigo, em particular, e nossa pesquisa, de forma
geral, tentam sobretudo evidenciar a importância que Francis teve dentro da
27
imprensa brasileira como comentador da política nacional. Neste sentido, não cabe
insistir dizendo que sua trajetória representou um saldo positivo ou negativo para a
nossa história e a história da imprensa no país, e sim reforçar que, de fato, Francis
cumpriu um papel importante como intelectual de imprensa e colunista político. Sua
organicidade e status jornalístico, percebidos em diversos momentos de sua carreira
profissional, atestam sua importância como intelectual, tanto mais próximo à
esquerda quanto à direita do espectro político.
O último ponto que destacamos sobre sua trajetória intelectual diz respeito à
sua avaliação do golpe e da ditadura civil-militar no Brasil. Em um momento bastante
confortável da carreira, ao publicar, em 1994, seu segundo livro de memórias, Trinta
anos esta noite, Francis sintetiza várias impressões de sua visão contextual sobre a
ditadura brasileira, seus agentes, suas causas e consequências para o processo
histórico brasileiro. Imbuído do comprometimento com a agenda ultraliberal, o
jornalista realiza uma verdadeira revisão de algumas das suas leituras feitas
anteriormente sobre o período, como no imediato pós-1964. Entre outros temas,
destacam-se o seu silêncio sobre a ação e o envolvimento empresarial durante o
regime; a relativização do conceito de golpe de Estado, ao tratar acerca dos
episódios que marcaram 1964; a sobrevalorização de sujeitos atomizados como
condutores dos acontecimentos, em detrimento de grupos sociais, classes ou
quaisquer representações coletivas; e a minimização do papel dos EUA no golpe e
na manutenção da ditadura brasileira (BATISTA, 2012).
A maioria dessas posições são conciliáveis com a revisão que tem sido
reproduzida por importantes empresas jornalísticas da grande imprensa nacional,
como o Grupo Folha, as Organizações Globo e a editora Abril. Nos editoriais d’OESP,
também prevalecem alguns elementos elencados na interpretação de Francis
resumida acima. A questão fundamental, talvez, diga respeito à “interpretação
liberal”, que é reforçada pela grande imprensa, e que ganhou importante divulgação
na coleção publicada, a partir de 2002, pelo também jornalista Elio Gaspari (2002).
Para Gaspari, assim como para Francis, o período presidido pelo ditador Castello
Branco representou uma importante renovação econômica, materializada em um
projeto com feições liberais que previa maior abertura do mercado brasileiro e foi
28
contraposto pela ala nacionalista de Costa & Silva. Segundo Gaspari, Castello
Branco tinha a intenção de retomar o processo democrático, sendo essa fase da
ditadura intitulada de “envergonhada” pelo autor. Porém, esse termo não foi criação
de Gaspari, uma vez que ele já constava nas análises de Francis, em Trinta anos esta
noite, embora num sentido mais amplo, para designar as sucessões de lideranças
no interior do mais alto escalão do regime ditatorial (FRANCIS, 1994). Gaspari e
Francis eram amigos e essa sociabilidade, de maneira geral, guardava mais
afinidades acerca do tema em questão, em seus aspectos fundamentais, do que
divergências.
A ideia de “ditadura envergonhada” também diz respeito a uma tentativa de
atenuação das perversidades cometidas durante o regime ditatorial no Brasil. A
comparação com outros regimes congêneres latino-americanos, como o argentino e
o chileno, por exemplo, sugere que esses regimes não poderiam ser comparados
com o caso brasileiro, tendo em vista que produziram maior contingente de mortos e
desaparecidos. Essa é a mesma lógica adotada pelo conhecido editorial da FSP, de
17 de fevereiro de 2009, que apresentou o período de mais de vinte anos de ditadura
no Brasil como uma “ditabranda”. A revista Veja, da editora Abril, também utilizou,
entre a década de 1990 e início dos anos 2000, um expediente semelhante ao dos
demais veículos da grande imprensa, evidenciando a voz dos militares e sua versão
dos acontecimentos. Em cada uma dessas falas, e no conjunto delas dentro das
diferentes edições da revista, a ditadura é claramente apresentada como um mal
necessário para evitar uma suposta ditadura de esquerda e a consequente
contenção do comunismo (SILVA, 2013).
A grande imprensa nacional, em especial a do centro do país, tem realizado
um “trabalho pedagógico” notório em relação à interpretação da natureza da
ditadura brasileira, agregando à atuação de seus (considerados) protagonistas as
(vistas desta forma) inevitáveis limitações da democracia no período e o
levantamento de “saldos positivos” resultantes das opções práticas adotadas na
época. A disputa pelo consenso não se dá apenas em âmbito meramente jornalístico,
mas também na divulgação de obras acadêmicas oportunas e mais próximas deste
conjunto elencado de concepções.
29
Diante disso, temos mais um significativo aspecto do intuito “pedagógico” de
Francis. Ao dispor de uma série de argumentos para vulgarizar a agenda ultraliberal
em suas variadas publicações, utilizava o polemismo, o status e o lugar privilegiado
que dispunha na imprensa, com amplo espaço para expor suas ideias.
Consequentemente, além de comentar o cotidiano e a rotina das estratégias políticas
e econômicas, envolvendo a situação do país e sua interação com a realidade
internacional, o polemista voltava seu olhar para o passado e interpretava a história,
usando exemplos considerados positivos e agregadores para o desenvolvimento
socioeconômico brasileiro, mesmo no interior do regime ditatorial. Assim, foi um dos
precursores importantes dos trabalhos de Gaspari e da construção consensual que
vem se formando na grande imprensa a respeito da interpretação da ditadura-civil
militar brasileira. Entretanto, sobre uma eventual contribuição acerca da
interpretação geral do período, na época em que escreveu, não trouxe nada de muito
original, nem mesmo fontes inéditas, transformando Trinta anos esta noite, hoje, no
nosso modo de ver, em mais uma produção memorialística do cenário histórico
nacional de outrora, importante, porém, para compreender esse movimento de
construção hegemônica a respeito das explicações que tentam dar sentido aos
episódios do período.
A produção de Francis na imprensa, entre 1962 e 1975, até o momento, foi
pouco estudada e, por coincidência ou não, é pouco exibida e esmiuçada, tanto pela
grande imprensa quanto pelos seus biógrafos. Francis ocupou espaços importantes
nos periódicos Última Hora, Correio da Manhã, Revista Civilização Brasileira, O
Pasquim e Tribuna da Imprensa. Durante a ditadura, alternou a postura mais
agressiva com um posicionamento mais defensivo e reticente referente a uma
estratégia de ação, fazendo uma oposição que variava de um discurso mais incisivo
e combativo, contra alguns dos generais que disputavam o poder entre 1964 e 1968,
até um distanciamento político mais hesitante a partir de 1969, pós-AI-5.
30
Considerações finais
Certos estudiosos da trajetória de Francis o colocam como um intelectual
independente, sem vínculo significativo com as empresas jornalísticas em que atuou
ou sem qualquer compromisso com agrupamentos sociais próximos ao poder. Nosso
posicionamento é de que não foi bem assim. A própria sociabilidade de Francis
comprova o contrário. Quando seu núcleo de amizades e ambiente profissional
estiveram circunscritos a profissionais de determinados jornais, próximos de um
projeto nacional desenvolvimentista, ou mesmo identificados com setores da
esquerda, o jornalista aproximou-se de tais posicionamentos políticos. Mudando-se
para Nova Iorque, foi adquirindo status como jornalista, ingressou na grande
imprensa e passou a conviver com grandes empresários, banqueiros e a frequentar
os bastidores do poder político, de modo que se aproximou da direita. Foi nessa
época que travou amizade com homens como Delfim Neto e, posteriormente, com
Roberto Campos, civis respeitados e poderosos dentro da ditadura civil-militar.
Possivelmente, deslumbrou-se com o centro do capitalismo em contraste
com o Brasil, distinguindo-se dos bairros provincianos do Rio de Janeiro das
décadas de 1950 e início de 1960, bem como registrando a lembrança do Nordeste
brasileiro que conheceu quando viajou com o Teatro do Estudante do Brasil,
momento em que teve contato com a pobreza do interior brasileiro. A ditadura, como
bem reconhecia Paulo Francis, contribuiu para que ele rompesse com a expectativa
inocente de transformar o país em uma nação forte, rica e independente. Ademais,
outros analistas insistem que as mudanças de opinião eram comuns nas
ponderações do jornalista que frequentemente se contradizia.
Isso tem servido para justificar uma pretensa independência intelectual de
Francis, especialmente em sua fase ultraliberal, atuando na imprensa. Esse viés de
intelectual atuando na imprensa é importante, significativo e diferencia-se do
jornalista intelectual da imprensa. Certamente, Francis conheceu maior liberdade
para escrever na FSP e n’OESP, não só em virtude do status jornalístico que ele
mantinha, mas também por suas posições políticas e intelectuais, as quais não
divergiam em essência dos editoriais daquelas empresas. O comprometimento de
Francis foi maior com a agenda política internacional hegemônica do período do que
31
com qualquer outra coisa. Por essa razão, nessa fase, foi um intelectual orgânico nos
jornais, mais do que dos jornais, mas de modo algum “independente”.
O que observamos, na verdade, é uma quase inabalável defesa da agenda
ultraliberal em voga, de seus princípios fundamentais e da crença na necessidade
de sua aplicação prática, concepções que o jornalista passou a defender desde
meados dos anos 1980 até o fim de sua vida, em princípios de 1997. Por outro lado,
certas posições contraditórias existiram e, algumas delas, serviram ao seu
polemismo, destacando-se como uma espécie de chamariz para o texto do jornalista,
tanto por parte de seus admiradores como de seus opositores.
__________________________
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34
“A voz do povo, o espírito da
França”: uma análise sobre a
ascensão da nova líder da Frente
Nacional, Marine Le Pen (2011-2014)
Guilherme Ignácio Franco de Andrade1
A Frente Nacional (FN) — partido francês, originalmente criado como Front
National pour l'unité Française (MAYER & SENEAU, 2002, p. 43) — foi fundada em 5
de outubro de 1972, procurando reunir o eleitorado dos conservadores franceses. A
direita francesa se encontrava em situação delicada na década de 1970, tendo em
vista que os movimentos conservadores não vislumbravam a confiança e o respeito
da população. Após várias tentativas de organização partidária, ou de formação de
outros movimentos conservadores, a direita estava desorganizada, dividida em
pequenas facções. Durante o período do pós-guerra até a década de 1970, os
grupos conservadores haviam falhado em suas tentativas de representação política
e de união partidária (VIZENTINI, 2000, p. 51).
A FN surge, nesse contexto, influenciada pelo sucesso eleitoral do partido
neofascista italiano — Movimento Sociale Italiano (MSI). O próprio logotipo da FN foi
1
Doutorando em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, na linha de
pesquisa Sociedade, Urbanização e Imigração, sob orientação do Prof. Dr. Leandro Pereira
Gonçalves. Bolsista do CNPq. E-mail: [email protected]
35
inspirado no símbolo usado pelo MSI; apenas as cores foram substituídas para fazer
referência às cores da bandeira da França.
A FN se originou, segundo Paulo Fagundes Vizentini, como uma mistura de
várias vertentes do pensamento conservador, incluindo os nostálgicos de Vichy,
neofascistas, intelectuais e ativistas, sob a liderança de Jean-Marie Le Pen e François
Duprat. Os membros dos partidos de extrema-direita da Europa apresentavam
particularidades distintas, conforme observa Vizentini:
Os partidos de extrema-direita tinham uma composição etária curiosa.
Eram formados por pessoas acima de 60 anos e que haviam sido
nazistas no passado; e depois seguia-se a faixa de pessoas de meia
idade, onde a pirâmide reduzia-se drasticamente; abaixo, uma ampla
base social de jovens entre dezesseis e vinte e quatro anos. [...] Fora
essa exceção, normalmente os partidos viviam uma vida vegetativa e
semiclandestina; veteranos de guerra, entre outros, que tinham seus
clubes e associações e que utilizavam certas causas periféricas (cabe
salientar que essa é uma forma de retomar-se a linha política)
(VIZENTINI, 2000, p. 51).
Dentre esses grupos distintos, destacam-se membros do governo de Vichy,
do movimento Poujadista, opositores do general de Gaulle, neofascistas, militantes
que participaram da Fédération des Etudiants Nationalistes2 (FEN), da Jeune Nation3
(JN) e ativistas que, embora não possuíssem vínculo partidário, simpatizavam com a
ideia de organizar um partido de extrema-direita.
Após a formação do partido, Jean-Marie Le Pen foi escolhido para presidi-lo,
pois decidiu-se que o presidente deveria ser alguém cujo passado não fosse
marcado por uma militância violenta ou por envolvimento com grupos neofascistas
(MARCUS, 1995, p. 18). Para Milza, Jean-Marie Le Pen era um bom orador e possuía
uma boa reputação política entre os membros da extrema-direita, considerando que
era um grande defensor do patrimônio nacional e que não tinha uma carreira política
marcada por ações violentas, embora existam relatos sobre sua participação em
torturas durante a Guerra da Argélia (MILZA, 1987, pp. 341-342).
2
Federação dos Estudantes Nacionalistas.
3
Jovem Nação.
36
A primeira formação hierárquica do partido evidencia, tendo em vista os
membros que o compõem, suas lideranças, sua essência radical e sua aproximação
com o fascismo. Embora no plano discursivo tal formação se apresente como um
movimento político com a pretensa ideia de modernizar o pensamento da extremadireita, notamos a participação de vários sujeitos com ampla experiência em
movimentos extremistas.
Para Jonathan Marcus, a criação da FN já era esperada, pois sempre existiu
na França uma extrema-direita ativa, o único problema era a forma de organização
desses grupos. O autor assinala ainda que a grande virtude de Jean-Marie Le Pen
foi saber trabalhar com os diferentes projetos existentes dentro da FN e transformálos em uma plataforma partidária.
O FN foi legalmente criado em 1972, mas na realidade ele herdou um
número de tendências políticas muito mais antigas. A grande virtude de
Jean-Marie Le Pen é que ele conseguiu unificar todas estas tendências,
ele unificou todas essas tendências para criar uma força coerente, no
FN, encontram-se ex Poujadistas que se juntaram ao partido
simplesmente por razões fiscais e econômicas, católicos tradicionais
que estavam escandalizados pela influência socialista na igreja, bem
como veteranos da guerra da Argélia revoltados com o fracasso da
política de Charles de Gaulle. Eu poderia listar ainda mais motivos até
sobre os monarquistas. Na realidade, uma extrema direita
verdadeiramente determinada existe desde antes da Segunda Guerra
Mundial (MARCUS, 1995, p. 19).
Os grupos autoritários da França ficaram por muito tempo desacreditados da
política. Devido à existência de diversos grupos franceses de pequeno porte, a
extrema-direita até então havia falhado em suas tentativas de conseguir
representação parlamentar (WILLIAMS, 2006, p. 35). O partido ficou marcado pelo
seu discurso xenófobo e sua postura agressiva contra a imigração:
[…] na França, um partido de extrema-direita, a Frente Nacional, que
procura negar a sua identidade neonazista, mas que a todo o momento
faz referência ao passado do regime de Vichy, ganha base de apoio
social, a ponto de políticos de esquerda, socialistas ou comunistas,
serem obrigados às vezes, nas suas circunscrições eleitorais, a
defender políticas restritivas à imigração (VIZENTINI, 2000, p.15).
37
A FN, em seu “programa de governo”, mantinha uma estrutura política e
ideológica baseada na defesa da identidade nacional — ameaçada pela imigração,
pela internacionalização do comércio e pela globalização — e no retorno do
“glorioso” nacionalismo francês. Em seu alegado plano de defender a França,
lançava-se contra os inimigos internos (anteriormente judeus, maçons e protestantes,
agora imigrantes, principalmente árabes e muçulmanos) e os inimigos externos
(especulação internacional e as forças das multinacionais e do corporativismo). A FN
defende valores tradicionais e instituições que, segundo ela, devem pautar a
identidade francesa pelos princípios de família, exército, autoridade e catolicismo
(HAINSWORTH, 2004, p. 44).
Até hoje, muitos membros do partido mantêm conexões com grupos
neonazistas e neofacistas da Europa, mesmo que, oficialmente, a FN, no intuito de
conquistar a respeitabilidade do meio político, negue qualquer tipo de ligação com
esses grupos. Todavia, individualmente e principalmente, a ala mais jovem (e
também a mais radical) é quem mais se aproxima desses grupos. Existem diversos
grupos, como o Front National de la Jeunesse4 (FNJ) e a Renouveau Étudiant5 (RE),
que fazem panfletagem para a FN, colaborando com as campanhas políticas e,
geralmente, agindo como tropa de choque nas passeastas do partido (DECLAIR,
1999, p. 66).
Em sua primeira eleição, ocorrida em 1973, a FN intitulava-se como um
partido defensor do nacionalismo e das raízes do povo francês. Assim, ela entendia
a nação francesa como resultado de uma entidade orgânica, construída por uma
civilização etnicamente homogênea, sendo produto da história, da cultura e da sua
civilização (BOURSEILLER, 1991, p. 88). Segundo a FN, a França seria uma nação
construída a partir das memórias das grandes batalhas, do sofrimento e do sacrifício
da população francesa. Dessa forma, todo cidadão francês deveria honrar e
reverenciar os costumes, as tradições e as conquistas, respeitando, assim, o
passado de glória (BOURSEILLER, 1991, p. 89). Segundo Jean-Marie Le Pen,
4
Frente Nacional da Juventude.
5
Renovação Estudantil.
38
O que nós temos de mais comum entre nós, aqui, hoje, e com nossos
compatriotas franceses que estão no exterior deste recinto é a noção de
patrimônio, seu patrimônio cultural acumulado por séculos de trabalho e
de sacrifícios, por gerações que nos precederam, seu imenso
patrimônio moral cultural (LE PEN, 1987, p. 10).
Seguindo o mesmo raciocínio, Jean-Marie Le Pen assinala que “a nação é a
comunidade de língua, de interesse, de raízes, seus mortos, o passado, a
hereditariedade e a herança. Tudo o que a nação lhe transmite no nascimento tem já
um valor inestimável” (LE PEN, 1987, p. 10). Podemos pontuar aqui que o discurso
de exaltação das batalhas e do militarismo e a ideia de nacionalismo hereditário nos
remete às pseudociências, às teorias raciais e de eugenia difundidas nos séculos
XVIII e XIX. Esse discurso de Jean-Marie Le Pen é uma tentativa de sensibilizar a
população quanto às questões nacionalistas, visto que parte dos militantes da FN —
sobretudo os ex-combatentes da Argélia e da Coréia — sente frustração frente à
derrota da França na manutenção das colônias africanas.
No processo de construção do projeto político da FN, percebemos que, além
de priorizar a questão militar para reforçar o nacionalismo, o partido também
procurou construir outros símbolos, sobretudo buscando heróis e personalidades
históricas francesas que pudessem reforçar e simbolizar o novo nacionalismo
desenvolvido pela FN. Desse modo, o catolicismo se fortalece dentro do partido,
tendo em vista que, para representar o nacionalismo da FN, foi escolhida a figura de
Joana D’Arc, uma heroína francesa, nacionalista, católica, devota à nação, que
sacrificou sua vida em prol da liberdade do país, sem ter qualquer ação
individualista, ou seja, priorizando a nação acima de qualquer desejo individual. A
escolha de Joana D’Arc como símbolo do partido também reforça a busca pela
tradição histórica do país, demonstrando orgulho do passado histórico. Ademais,
essa escolha é uma forma de unir todas as células dentro da FN, colocando um novo
foco a ser seguido, supondo que isso supere antigas figuras como Napoleão
Bonaparte, Marechal Pétain, General Boulanger, Charles Maurras e Pierre Laval.
O uso da História Antiga pela extrema-direita na França já ocorria desde o
governo de Vichy. Segundo Glaydson José da Silva, hoje a FN procura utilizar o
passado para recriar uma identidade nacional,
39
É da História, como grande campo de alusões e de suas relações com
a “identidade nacional” que Le Pen extrai referências para seus
discursos, estabelecendo paralelos com heróis (sobretudo Joana D’Arc)
e atos fundadores da História nacional, criando uma França mítica da
qual o partido tem necessidade e faz apelo na justificativa de suas
posições ideológicas (SILVA, 2007, p. 11).
Parte da inspiração da FN também surge do governo de Vichy. Os
saudosistas do antigo regime buscavam se inspirar em algumas leis racistas do
governo provisório, tentando incorporá-las ao programa da FN, principalmente
quando ainda se discutia o antissemitismo no partido.
A influência do catolicismo é bastante presente na FN, quando identificamos
o uso de sujeitos importantes para a Igreja Católica francesa, símbolos do
nacionalismo e do cristianismo francês. Dessa forma, verificamos não só o uso da
figura de Joana D’Arc como símbolo católico e nacionalista, mas também a figura de
Clóvis, o rei do império franco, responsável por unir os diversos povoados francos.
Clóvis é uma figura bastante importante para a cultura francesa, principalmente para
os católicos. Ele foi responsável pela mudança religiosa nos territórios francos, pois
se converteu ao catolicismo, abandonando os cultos nórdicos e germânicos que
predominavam em grande parte da população (DAVIES, 1993, pp. 10-17). Quando
Clóvis se torna cristão, ele promove o processo de cristianização em seu reino.
Assim, a figura dele é importante para a FN em dois sentidos: primeiro, porque ele
representa um ícone do nacionalismo francês, na medida em que unificou os
territórios francos e deu início ao que se tornaria futuramente a França; em segundo
lugar, porque ele representa forte apelo católico junto à ala católica do partido
(DAVIES, 2010, pp. 576-587). Para Peter Davies, a elevação de Joana D’Arc e de
Clóvis como símbolos do partido corresponde à nova visão da FN sobre
nacionalismo, tendo esses dois sujeitos simbolizando o que há de mais puro e fiel à
história e à tradição da França (DAVIES, 2010, p. 20).
Com relação ao nacionalismo, a FN procurou se posicionar em defesa dos
cidadãos naturais franceses. Noutros termos, o sujeito defendido pela FN equivale
ao cidadão francês proveniente de uma longa geração de franceses (o francês
40
branco caucasiano), católico, nacionalista, identificado com sua terra e com a história
da França, orgulhoso de suas raízes e que valoriza o desenvolvimento da nação
acima da vontade individual (FRONT NATIONAL, 1973).
Para Jean-Yves Camus a questão da nação é algo central na FN, sendo seu
principal ponto de referência ideológico. Podemos afirmar que o nacionalismo é
fundamental para o discurso do partido e sua principal fonte de luta (CAMUS, 1989,
p. 17). Dar ênfase à nação é a questão chave para ocupar os espaços deixados
pelos outros partidos. A defesa da nação como pauta da agenda política da FN tem
dois objetivos: primeiro, legitimar a ideia de que o nacionalismo lhe pertence, ou seja,
caso outro partido utilize dessa tática, a FN o acusa de apropriação política; segundo,
obrigar outros partidos a também fazerem um discurso que defenda a soberania
nacional (CAMUS, 1989, p. 18).
Na concepção do nacionalismo da FN, para Bruno Megret e George-Paul
Wagner, a identidade francesa é mais que nacionalismo, é um “instinto natural”. Um
dos secretários da FN, Jean-Pierre Stirbois, em um artigo publicado na revista do
partido, a National Hebdo, afirma que “a FN se tornou referência, quando tomou
como prioridade a política nacional” (STIRBOIS, 1988, p. 217). Jean-Marie Le Pen
assinala, na mesma revista, que a “a nação é uma entidade política fundamental, é a
crença de que o nacionalismo prospera em situações concretas, em que indivíduos
e grupos se unem para sobreviver, proteger e se reproduzir” (LE PEN, 1989, p. 4).
Marine Le Pen
Marine Le Pen ingressou na FN em 1986, aos 18 anos de idade, ao mesmo
tempo em que ingressou na militância estudantil do partido, a FNJ (LISZKAI, 2011,
p. 64). Por vários anos, ela foi uma das principais lideranças e referências políticas
da FNJ. Nos anos iniciais em que esteve no partido, porém, sua atuação era mais
esporádica, pois ela estava cursando a universidade, de modo que não podia
dedicar parte integral do seu tempo à carreira política do partido (DÉZÉ, 2012, p.
132).
Marine se formou em Direito e fez mestrado em Direito Penal. Em sua
trajetória enquanto advogada, trabalhou com o deputado da FN, Georges-Paul
41
Wagner, cujo escritório era conhecido por defender militantes da extrema-direita.
Georges-Paul Wagner foi militante da Action Française (AF) em sua juventude e
ingressou na FN em 1988. Durante sua vida profissional, ele ficou marcado por ter
defendido os militantes da Organisation Armée Secrète6 (OAS), que planejaram os
atentados contra o general Charles de Gaulle, bem como por ter advogado nos
processos em que Jean-Marie Le Pen era acusado de antissemitismo e racismo.
Marine Le Pen dedicou-se às áreas do direito penal e civil, principalmente atuando
em questões ligadas à imigração ilegal. Após alguns anos trabalhando, ela
abandonou a carreira de advogada para se dedicar à militância (LISZKAI, 2011, pp.
23-24).
Sua carreira política teve início em 1998, momento em que, efetivamente,
ingressou na política francesa, assumindo, de 1998 a 2004, seu primeiro cargo
político como Conselheira Regional7 da região de Nord-Pas-de-Calais (DÉZÉ, 2012,
p. 13). Após concluir seu mandato, Marine Le Pen foi eleita como Conselheira
Regional em Île-de-France, onde exerceu o cargo de 2004 a 2010. Ela também atuou
em outras funções, pois, conforme permitido pela legislação francesa, poderia
acumular mais de um cargo político, sendo eleita Conselheira Municipal da cidade
industrial de Hénin-Beaumont, de 2008 a 2011 (DÉZÉ, 2012, p. 131).
Marine Le Pen atuou na parte jurídica da FN, logo ingressando no comitê
executivo, posição importante dentro do partido (MESTRE & MONNOT, 2011, p. 110).
Com o sucesso eleitoral da FN nas eleições presidenciais de 2002, tendo Jean-Marie
Le Pen alcançado o segundo turno, a diretoria da FN procurou explorar esse
momento político, no intuito de manter o crescimento do partido. Dessa forma, o
comitê político da FN, na tentativa de avançar, indicou Marine Le Pen à vicepresidência do partido e também renovou o comitê executivo. Marine Le Pen, em
2003, foi encarregada de organizar a campanha política do partido para as eleições
presidenciais de 2007 (DÉZÉ, 2012, p. 132). Depois de se tornar vice-presidente da
FN, ela passou por um processo de amadurecimento e procurou se especializar em
comunicação e publicidade.
6
Organização Armada Secreta.
7
Cargo equivalente ao de governador de Estado.
42
Após as eleições de 2007, quando a FN não conseguiu repetir a mesma
campanha de 2002, tendo alcançado um número de votos bem abaixo do esperado,
Jean-Marie Le Pen anunciou sua aposentadoria política, tornando-se presidente de
honra do partido (MESTRE & MONNOT, 2011, p. 110). Com o fim do “reinado” de
Jean-Marie Le Pen, a FN iniciou o processo de candidaturas para os membros do
partido interessados em assumir o cargo de futura presidência. Esse momento
representou uma passagem importante para o partido, pois, durante quase 40 anos,
Jean-Marie Le Pen o comandou com mãos de ferro, sempre controlando e
articulando a militância para seguir sua linha política. A mudança de liderança, neste
sentido, permitiu aos militantes uma oportunidade de modificar o partido.
Com a formalização das candidaturas de Marine Le Pen e Bruno Gollnisch
para a presidência da FN, a base do partido ficou fragmentada. Marine Le Pen
representava a ideia da renovação e transformação do partido, sendo vista pelos
seus seguidores como aquela que daria novos rumos ao partido (MESTRE &
MONNOT, 2011, p. 111). A base eleitoral de Marine Le Pen era representada pela
ala jovem do partido, cujos militantes simpatizavam com as ideias de Marine Le Pen,
pois muitos deles foram seus companheiros na FNJ, acompanharam sua trajetória e
crescimento no cenário político. Segundo Sarah Proust, a ala mais jovem da FN se
identificava com Marine porque acreditava em sua capacidade de liderança e
transformação. A ala mais jovem do partido é contemporânea de Marine, ou seja,
fruto das mesmas condições determinantes. Portanto, a considera capaz de
compreender a sociedade atual e os problemas apontados pelas novas gerações
(PROUST, 2013, p. 43).
Em contrapartida, os jovens que apoiam a candidatura de Marine não
reconhecem Bruno Gollnisch como alguém capaz de lidar com os problemas do
desemprego, da desqualificação profissional, da diminuição do padrão de vida e da
falta de perspectiva com relação ao futuro. Segundo Sarah Proust, a pouca empatia
dos jovens com a candidatura de Bruno Gollnisch diz respeito ao fato de essa
geração ter nascido em uma sociedade globalizada, dominada pelo neoliberalismo,
fruto da internet e das redes sociais. Desse modo, esses jovens não são ressentidos
com a Guerra da Argélia, não tiveram participação nas lutas do movimento estudantil
43
nas décadas de 1960 e 1970, não cresceram durante a Guerra Fria (portanto, não
dispõem do sentimento anticomunista), tampouco são saudosistas da Revolução
Nacional que ocorreu durante o regime de Vichy (PROUST, 2013, p. 44).
Após oficializar sua candidatura no Congresso da FN — com uma aprovação
esmagadora, contando com o apoio de Jean-Marie Le Pen e da maioria dos membros
do Comitê Central —, Marine iniciou sua campanha para a presidência da FN.
Durante quatro meses, ela realizou reuniões com 50 delegacias da FN espalhadas
pela França, a fim de explicar seu projeto político e indicar os novos rumos e posições
que o partido assumiria, caso fosse eleita. Ela ainda buscava demonstrar que o
vencedor da eleição interna deveria automaticamente ser o candidato do partido à
presidência da França. Sua argumentação era baseada na questão da receptividade
do novo nome da FN, o qual deveria não somente representar a maioria do partido,
mas também uma imagem renovada para a FN.
Durante os quatro meses de campanha, Marine Le Pen intensificou seu
discurso sobre as transformações necessárias para colocar a FN no centro do
debate político da França. O partido deveria ressurgir com um novo formato. Assim,
ela iniciou o processo de “humanização do partido”, ou seja, segundo ela, seria
necessário “desdiabolizar” a imagem da FN e neutralizar a rejeição sofrida por parte
expressiva da população francesa. Em suas apresentações, Marine Le Pen gostava
de deixar claro que não estava ali para construir um projeto que fosse estabelecido
apenas internamente, mas uma alternativa política para a população, um projeto de
mudança que deveria ser o centro da reforma política do país.
O quartel general da campanha de Marine Le Pen se localizava na cidade
de Hénin-Beaumont, conhecida por ter sido um polo industrial importante para o país,
representando uma fatia expressiva da economia francesa. Porém, na atualidade,
Hénin-Beaumont enfrenta uma crise econômica, caracterizada pela falência de
várias indústrias e por uma elevada taxa de desemprego em ascensão. Ainda assim,
a cidade representa a maioria dos eleitores da FN, sendo a região que mais apoia
Marine Le Pen.
Durante sua campanha para a presidência da FN, Marine Le Pen indicava as
modificações que faria no partido, caso vencesse as eleições. Nas delegacias pelas
44
quais passava, discutia sobre quase todos os temas centrais em debate na França,
principalmente sobre a economia do país, o aumento do desemprego, a União
Europeia, a segurança pública, o aumento da criminalidade e a suposta perda da
identidade francesa. Marine Le Pen contestava a imigração e tecia críticas ao
governo do então presidente Nicolas Sarkozy que, segundo ela, teria concedido
ainda mais espaço para a entrada de imigrantes ilegais no país. A campanha de
Marine Le Pen contra a imigração tinha o intuito de demonstrar o avanço da religião
muçulmana na França, como o cotidiano dos cidadãos franceses supostamente teria
sido transformado em virtude da ocupação dos espaços públicos para as cerimônias
religiosas, como os comércios locais teriam sido modificados com o crescimento de
restaurantes e comerciantes árabes. No discurso de Marine Le Pen, o uso da retórica
xenófoba procurava criar um ambiente hostil, como se os franceses estivessem se
tornando minoria em seu próprio país.
Para a FN, defender a preservação da cultura francesa é primordial, frente
ao suposto avanço da islamização no país. Desde o início do partido, com as ideias
de François Duprat, a FN se encarrega de defender o que acredita ser uma “cultura”
francesa. Em vários artigos das revistas Identité e National Hebdo, a FN tem-se
dedicado a elaborar um discurso que supostamente defende a França e os valores
morais do Ocidente cristão, em detrimento da invasão bárbara dos árabes. A
“cruzada cultural” que a FN defende objetiva, em primeiro lugar, criar um novo
inimigo no imaginário da população e, em seguida, criar um bode expiatório que seja
responsável pelos problemas sociais e políticos que o país atravessa.
Marine Le Pen procurou enfatizar a crítica à atual direita, acusando a União
por um Movimento Popular (UMP), partido de Nicolas Sarkozy, de ter instalado o
“caos social” no país. De acordo com ela, a “imigração descontrolada” é a grande
fonte de tensão na República, já que o governo de Sarkozy não foi capaz de criar
formas para que os novos habitantes se adaptassem aos “padrões franceses
aceitáveis”, ou seja, abandonassem a cultura e a língua do país de origem e se
tornem cidadãos franceses (FRONT NATIONAL, 2012, p. 1). Marine Le Pen assinala
que a formação de guetos em Paris — os quais não reconhecem a língua e a cultura
francesa — tem causado conflitos, brigas e provocações entre vizinhos, o que
45
configura desrespeito ao “povo genuíno” (FRONT NATIONAL, 2012, p. 2). Além
disso, tais conflitos também resultam do forte apelo religioso existente nas novas
comunidades dominadas pelos imigrantes muçulmanos, os quais vivem conforme
suas crenças. O cenário político e social em questão, segundo a FN, é consequência
de um processo maciço de islamização do território francês. Nesse contexto, a
população islâmica se torna cada vez mais expressiva, lutando para garantir seu
espaço e seu predomínio cultural e político (FRONT NATIONAL, 2011).
Durante sua campanha política, Marine Le Pen atacou o multiculturalismo,
dizendo que o conceito seria uma invenção da esquerda socialista para corromper
os Estados nacionais. Ela sugere que o debate proposto pela esquerda durante
vários anos, de aceitação das diferenças culturais dos imigrantes, é incompatível
com as sociedades ocidentais, pois estas foram forjadas no centro da democracia,
da liberdade e da república, ao passo que a história dos imigrantes é direcionada
para o fundamentalismo religioso, para o autoritarismo e para a submissão religiosa
e patriarcal. Desse modo, os imigrantes considerados “bárbaros” pela FN não teriam
condições de viver uma plena democracia, pautada pela neutralidade e laicidade do
Estado. Logo, a adaptação deles seria algo impossível e corrosivo para ambas as
culturas (FRONT NATIONAL, 2011, p. 1).
Quanto ao posicionamento da FN em relação à situação econômica, Marine
Le Pen difere-se de seu antecessor, pois acredita que um Estado soberano deve
defender seus direitos econômicos e controlar a soberania nacional. Em um discurso
em frente ao banco de investimentos Dexia, no distrito de La Défense, em Paris,
Marine Le Pen convocou uma conferência para atacar a crise econômica e o sistema
bancário francês (FRONT NATIONAL, 2010), demonstrando-se contrária à manobra
do Estado francês de injetar dinheiro em bancos para evitar a falência dos grupos de
investidores, pois, segundo ela, estes não passavam de especuladores que lucram
com a exploração dos bens estatais e com a pobreza da população (FRONT
NATIONAL, 2010). Ao mesmo tempo, ela defendia o final da lei Pompidou-Giscard,
de 1973, cujas diretrizes proíbem que o Estado francês, quando necessário, contraia
empréstimos no Banco Central Francês (FRONT NATIONAL, 2010). De acordo com
essa lei, o Estado não pode contrair empréstimos no seu próprio banco sem taxas
46
ou a juros baixos, o que o força a recorrer ao mercado internacional, vendendo títulos
da dívida ou contraindo empréstimos em outras instituições, com taxas de juros
elevadas (FRONT NATIONAL, 2010a). Segundo dados apresentados pela FN, no ano
de 2010, o Estado teria pagado 135,5 trilhões de euros em juros da dívida, dos quais
cerca de 1.650 trilhões representavam a dívida nacional (FRONT NATIONAL, 2010a).
No discurso em que a FN se colocava contra o domínio do neoliberalismo,
que, para Marine Le Pen, permanecia intocável, mesmo diante de uma recessão
econômica, ela priorizava, sobretudo, o protecionismo econômico das empresas
nacionais e do comércio nacional (FRONT NATIONAL, 2010). Neste sentido, ela
parece beber do antigo projeto de Bruno Mégret, procurando apresentar uma
alternativa ao atual sistema capitalista, uma “via alternativa” ou, nas palavras de
Mégret, uma “terceira via”. Em entrevista para a revista do partido Nation Press,
Marine Le Pen enfatiza essa mudança econômica e fala sobre a necessidade de se
posicionar frente ao capitalismo e contra os especuladores.
Para Marine Le Pen, o Estado deve ser forte e controlar a economia para
garantir o desenvolvimento nacional, posição contrária à política da FN durante mais
de 30 anos, quando o partido se declarava ultraliberal. Aqui, percebemos um dos
pontos que diferenciam o programa político da FN de Marine Le Pen das antigas
posições assumidas por Jean-Marie Le Pen. Quando ela discursava, por exemplo,
demonstrava-se desfavorável à alteração dos planos de pensão promovida pelo
governo do presidente Nicolas Sarkozy, condenando a política liberal-conservadora
da UMP de ampliar as políticas de austeridade e defendendo a ampliação e a
manutenção dos direitos sociais adquiridos pela população (FRONT NATIONAL,
2010b).
O primeiro turno das eleições presidenciais da França foi marcado para
ocorrer no dia 22 de abril de 2012, ao passo que o segundo turno ficou estabelecido
para o dia 6 de maio de 2012. Conforme determina a Constituição francesa, os
candidatos teriam até o dia 16 de março de 2012 para homologarem suas
candidaturas, apresentando suas 500 assinaturas, cuja conferência é feita pelo
Conselho Eleitoral e depois oficializada pelo Jornal Oficial. Assim, no dia da
divulgação oficial, foram homologadas, além das inscrições de Marine Le Pen e de
47
Nicolas Sarkozy, as dos seguintes candidatos: Nathalie Arthaud (Parti Lutte Ouvrière8
— LO); Jacques Cheminade (Parti Solidarité et Progrès9 — PSP); Philippe Poutou
(Nouveau Parti Anticapitaliste
10
— NPA); Nicolas Dupont-Aignan (Debout la
République 11 — DLR); Eva Joly (Europe Écologie Les Verts 12 — EELV); Jean-Luc
Mélenchon (Front de Gauche13 — PFG); e François Hollande (do Partido Socialista —
PS).
A campanha oficial teve início no dia 20 de março, momento em que cada
partido teve espaço nos meios de comunicação para divulgar seu programa eleitoral.
Nos trinta dias que antecedem o primeiro turno, a legislação francesa determina que
todos os candidatos possuam o mesmo espaço para apresentação dos seus
programas políticos. Os programas políticos e de generalidades, veiculados nas
rádios e tevês, são obrigados a contar o tempo de intervenção de cada concorrente.
O Conselho Superior Audiovisual define as regras para garantir a pluralidade da
expressão política, determinando o tempo das intervenções, as análises e as
reportagens políticas. A imprensa escrita não está submetida a este tipo de
regulamentação, ou seja, os candidatos têm liberdade para disponibilizar acessos à
comunicação virtual. Entretanto, na véspera das eleições, todos os sites montados
por eles são fechados.
A campanha de Marine Le Pen foi pautada pelo nacionalismo. Durante seus
discursos, seu grupo de campanha organizava o ambiente com enormes bandeiras
da França, com símbolos dourados e representações de Joana D’Arc. O objetivo
dessa campanha era criar um sentimento de patriotismo na população e, ao mesmo
tempo, atribuir um sentido para a campanha de Marine Le Pen, sendo esta
comparada à Joana D’Arc.
Conforme demonstramos anteriormente, Joana D’Arc é uma personagem
histórica da França, símbolo do nacionalismo, do amor à pátria, da entrega e devoção
8
Partido Luta Operária.
9
Partido Solidariedade e Progresso.
10
Novo Partido Anticapitalista.
11
(Partido) Levantar a República.
12
(Partido) Europa Ecologia – Os Verdes.
13
(Partido) Frente de Esquerda.
48
à nação e da libertação do país. Não apenas uma heroína para a história da França,
mas também figura emblemática para a Igreja Católica francesa, sendo considerada
a santa padroeira da França. Joana D’Arc foi chefe militar durante a Guerra dos Cem
Anos, ocorrida entre a França e a Inglaterra. Ela foi capturada e executada em 1431,
tornando-se uma mártir do nacionalismo francês, sobretudo por ter devotado sua
vida em defesa do país. A tentativa de associar Marine Le Pen à figura histórica de
Joana D’Arc revela a estratégia de campanha da FN, ou seja, colocar Marine Le Pen
no estandarte do nacionalismo, representando sua devoção e patriotismo.
Considerações finais
Podemos concluir que a transformação cristalizada do programa político de
Marine Le Pen é, em parte, resultado de um processo que teve início na década de
1990. Quando as lideranças intelectuais do partido — Bruno Mégret, Bruno Gollnisch
e Jean-Marie Le Pen — organizaram-se para reformar o projeto político da FN, o
fizeram tendo em vista uma nova leitura da conjuntura social e política inaugurada
após a Guerra Fria, definida, em especial, pelo avanço da globalização e do
neoliberalismo. Os militantes mais jovens da FN — como Marine Le Pen, Steeve
Briois, Louis Aliot, Marion Marechal Le Pen, Nicolas Bay, Florian Philippot — são os
responsáveis por essas mudanças. Vale lembrar que esse processo de
transformação não aconteceu de forma passiva, visto que é resultado das lutas
internas e dos embates entre as diferentes vertentes da FN. A aceleração desse
processo de modernização é fruto, sobretudo, da liderança de Marine Le Pen, na
medida em que ela não se limitou às antigas posições do partido, reestruturando sua
política interna.
Em grande medida, a transformação da FN deve ser creditada à liderança
política encabeçada por Marine Le Pen, favorecendo uma nova leitura da conjuntura
política nacional e internacional. Essa leitura da atual situação do sistema capitalista
não só passa pelo impacto da União Europeia sobre a economia francesa, pelo
enfraquecimento industrial do país e pela forma como o FMI impulsiona o projeto
neoliberal, mas também proporciona mudanças significativas no campo discursivo,
no programa econômico e na tentativa de aproximação com os trabalhadores. A FN,
49
hoje, representa o partido defensor dos interesses dos pequenos burgueses que são
atingidos diretamente pelo livre mercado existente na União Europeia. A grande
concorrência dos produtos nacionais provenientes dos pequenos empresários não
consegue competir com as grandes empresas de outros países sem que o Estado
intervenha de forma protecionista. Desse modo, a pequena burguesia e a classe
média sentem-se desamparadas pelo governo. Nesse contexto, a FN, enquanto
representante do espectro fascista e de defesa da classe média, consegue avançar
politicamente.
__________________________
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52
Gen pés descalços e o nacionalismo
japonês: interseções
Janaina de Paula do Espírito Santo1
No ano de 1973, começou a ser publicado no Japão o mangá Hadashi no
Gen, mais tarde traduzido para o português com o título de Gen pés descalços.
Como usual no mercado de quadrinhos japonês, a série Gen foi publicada em
capítulos semanais de inúmeras revistas durante aproximadamente um ano,
mantendo-se no mercado editorial do país, entre edições e reeedições, por quase
12 anos. A história contada por Keiji Nakazawa também rendeu uma animação e
duas live actions, produzidas nos anos 1980 e alcançando grande sucesso. No
quadrinho, o enredo começa em 1945, nos arredores de Hiroshima, concentrandose na trajetória de seu personagem principal, um garoto chamado Gen, que
presencia a destruição de sua cidade pela guerra e, especialmente, pela bomba
atômica, tendo que lidar com as consequências do conflito e com os efeitos da
explosão, bem como com a posterior ocupação estadunidense. Nakazawa, o autor
da série, também foi um sobrevivente do cataclisma atômico: “a série foi baseada
em minha experiência pessoal sobre a bomba. As cenas de família, as personagens
e vários episódios que aparecem em Gen são pessoas e eventos reais que eu vi, dos
quais ouvi falar ou que eu mesmo vivenciei” (NAKAZAWA, 2003, p. 13).
Embora seja a mais conhecida, Gen pés descalços não foi a única nem a
primeira obra em que Nakazawa tentou escrever sobre a experiência da bomba
1
Doutoranda em História pela Universidade Federal de Goiás e professora no Departamento de
História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. E-mail: [email protected]
53
vivida por ele. Ainda em 1966, ele publicou um mangá intitulado Kuroi Ame Ame ni
Utarete (Batido pela chuva negra), no qual descrevia, em cinco volumes, uma história
fictícia sobre os sobreviventes de Hiroshima envolvidos no mercado negro do pósguerra. Na década de 1970, também publicou uma história chamada Ore wa Mita
(Eu vi) em uma das revistas mais populares de mangás do Japão, a Shonen Jump,
cujas histórias são publicadas em capítulos semanais. É essa revista que acaba por
dar início àquela que se tornaria a sua obra principal, de maior difusão e impacto
globalizado:
De sua publicação original durante a mais de setenta edições da revista
semanal Shonen Jump até agora, a obra já foi traduzida para diversas
línguas (do alemão e francês até o esperanto e indonésio), foi adaptada
para o cinema, transformada em animação, especial para a televisão e
até mesmo em ópera. Somente no Japão já vendeu mais de cinco
milhões de exemplares, nos Estados Unidos foi incluída em uma lista de
livros recomendados para escolas públicas. A obra possui um
simbolismo tão profundo que em 2007 foi levado para Veneza pelo
governo japonês para ser utilizado no debate sobre o tratado de não
proliferamento de armas nucleares (MOREIRA, 2014, p. 32).
Desde sua publicação, Gen pés descalços foi encarada como uma narrativa
representativa do discurso pacifista que definiu a intelectualidade japonesa no
período do pós-guerra. Este signo representou, inclusive, um elemento marcante
para Gen enquanto obra, uma vez que sua primeira tradução resultou de um projeto
coletivo, em que a informação funcionaria, de maneira geral, como uma espécie de
avanço contra as armas nucleares. Sob este enfoque, o mangá foi encarado como
“esforço pela paz”, uma forma de discutir e difundir os efeitos da bomba atômica.
A história de Gen trata de pessoas que vivem situações desumanas,
tanto nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, como também
depois de um ataque nuclear (retratado nos volumes posteriores).
Esperamos que Gen sirva como mais um alerta do sofrimento que a
guerra traz a pessoas inocentes e como documento único de uma fonte
de desespero particularmente horrível: a bomba atômica (NAKAZAWA,
2004, p. VIII).
54
Apesar de todo o alcance de Gen e das questões propostas pelo quadrinho,
recentemente ele foi alvo de uma polêmica encabeçada pelo Conselho Escolar
Municipal de Matsue (cidade localizada no sudoeste do Japão) que decidiu retirá-lo
das bibliotecas escolares. A medida e a polêmica não duraram muito. Em pouco mais
de dois meses, grande parte dos diretores escolares de Matsue se manifestaram
contrários à medida, e a obra continuou onde estava. Todavia, um adendo foi criado:
o diretor e a escola poderiam optar por manter ou não o livro acessível aos estudantes
e/ou diminuir o impacto do discurso antimilitarista promovido pelo autor, amenizando
o retrato que ele traça do exército japonês. É interessante mencionar que a medida
foi inspirada, segundo representantes do conselho, em um volume constante de
cartas contrárias à abordagem histórica de Gen, especialmente no que diz respeito
ao tratamento do conflito japonês com a Coreia. Algumas agências de notícias
afirmam que tais cartas, embora chegassem constantemente, eram elaboradas por
um único cidadão da província; outras não chegam a dar detalhes sobre os autores
ou o possível autor desse tipo de reclamação.
Esse evento, ainda que possa ser tomado como pitoresco ou como alguma
espécie de falta de tato isolada de um grupo governamental específico, também
representa um eco da resistência nacionalista que, por vezes, acompanha a obra em
questão e outros mangás e livros que optam por uma abordagem questionadora
frente ao exército japonês ou à participação nipônica na Segunda Guerra Mundial,
bem como no período anterior a ela. De fato, no período de publicação, a opção de
Nakazawa de apontar o papel central do militarismo e do nacionalismo japonês ia na
contramão de um certo conservadorismo político, que marcou a explicação mais
cara aos historiadores japoneses, entre as décadas de 1960 e 1980, centrada em
uma afirmação do papel do Japão como uma grande vítima atômica do conflito
mundial. Como relembra a historiadora Shimazu:
Nesta atmosfera de crescente conservadorismo político, a atitude do
pós-guerra popular tradicional para a guerra — de que os japoneses
foram realmente as vítimas da guerra — foi estabelecida. A autovitimização dos japoneses, como um meio de chegar a um acordo com
o passado, sugere que a memória da guerra precisa ser selecionada e
higienizada para enfatizar o sofrimento, ao contrário da agressão. Em
nenhum lugar essa tendência foi mais evidente do que na televisão, que
55
se tornou o meio de comunicação mais poderoso da década de 1960
em diante. Em geral, os programas de televisão sobre a guerra são
comemorativos, sendo exibidos em datas de importância histórica, ou
seja, nos aniversários das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima
e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente, e no dia da
rendição incondicional, em 15 de agosto de 1945. Escusado será dizer
que a intenção por trás, concentrando programas nestas
comemorações particulares, é retratar os japoneses como as vítimas do
militarismo, ao invés de os agressores. Além disso, mesmo o mais
pequeno pormenor pode ser usado para afetar o retrato geral do Japão
nesses dias. O melhor exemplo é o termo usado para descrever 15 de
agosto. É comumente conhecido como o “bi shusen”, traduzido como “o
fim da guerra”, em vez de “haisenbi”, ou “o dia d”! (SHIMAZU, 2006, p.
106 — tradução nossa).
Em seu estudo sobre o Japão, Renato Ortiz chama a atenção para a
permanência da mentalidade nihonjinron (no original, 日本人論, que, em tradução livre,
poderia significar algo como teorias/discussão sobre o “ser japonês”, “japonidade”),
que é, na verdade, uma tentativa de, em um “pan-orientalismo”, reafirmar a
“superioridade” japonesa entre os diferentes países da Ásia, usando, para isso,
argumentos muito concentrados nas discussões sobre a identidade nacional. Um
dos argumentos centrais destas discussões é justamente um mito que coloca o
Japão como uma sociedade racialmente homogênea e, por isso mesmo, socialmente
pura, o que permitiria que sua essência se mantivesse quase inalterada com o passar
dos anos (ORTIZ, 2000, p. 25).
Nesta perspectiva, a “característica” do povo japonês seria a sua
originalidade “excepcional”, ou a sua natureza “única”, o que o colocaria em um
patamar diverso de outros povos, tanto no Oriente como no Ocidente. Essa
diferenciação, eventualmente, é retomada pela intelectualidade como um indicativo
de uma certa “liderança natural” inerente ao país e como justificativa para incursões
do governo de caráter expansionista.
O argumento em torno de uma sociedade nipônica naturalmente superior não
é nova e, ao longo da história do Japão, reaparece, em diferentes configurações, de
tempos em tempos. No século XIX, por exemplo, esse tipo de discurso foi utilizado
como uma ferramenta de resgate e revalorização da religião xintoísta, o que acabou
56
por fortalecer o culto à figura do imperador e enfraquecer a Restauração Meiji. Estas
diferentes leituras em torno do nihonjinron, ao longo dos anos, vão sendo adaptadas
ao contexto político-social da nação e aos interesses políticos dos grupos no poder.
Pode-se considerar o fascismo como um fenômeno político e supranacional.
O fascismo, para autores como René Remónd (1994), é um protesto do instinto, um
sobressalto contra o racionalismo. Ademais, é um movimento pragmático que
enfatiza a eficácia e os valores da nação. Desta maneira, considerar o fascismo
japonês como uma pálida tentativa de ocidentalização, ainda no início do século XX,
desconsidera todo um universo de transformações bastante marcantes, nesse
período, ocorridas em um país que, em meio século, tinha passado de uma economia
com características medievais para um sistema de produção modernizado,
ultrapassando a posição da Grã-Bretanha na região e passando a disputar mercados
no Pacífico, dominados pelos EUA.
Não se pode pressupor que o fascismo europeu e japonês formassem uma
frente unificada, embora algumas das suas orientações e proposições políticosociais se aproximassem, ou seja, existiam pontos de contato entre o fascismo
italiano e as diretrizes que o imperador Hirohito tentava executar no Japão. A este
grupo, mais tarde se juntou a Alemanha. Estava formado, assim, um eixo comum de
interesses e práticas ideológicas: “Nesses três países, comungava-se principalmente
a exaltação da coletividade nacional; o desprezo ao individualismo liberal, o
crescente dirigismo estatal, o culto ao chefe de Estado e ao nacionalismo
defendendo-se as virtudes da raça” (GONÇALVES, 2011, p. 3).
O regime em vigor no Japão era uma Monarquia de implicações liberais. No
ano de 1926, com o falecimento do imperador Taishô, seu sucessor imprime em sua
administração um militarismo chauvinista de fortes características fascistas — o que
o associa ideologicamente aos movimentos europeus. Ainda que, usualmente, a
figura do imperador Hirohito, fascista em essência, fosse apontada como o ponto
definidor da política japonesa — uma vez que ela se fundava na existência de um
grande líder, a exemplo de Hitler, na Alemanha, ou Mussolini, na Itália —,
percebemos que o fortalecimento da liderança já estava presente anteriormente. A
figura central, neste sentido, é o próprio Japão. Noutros termos, ainda que a
57
convivência com diferentes partidos políticos fosse encarada como particularidade
nipônica menor, diante da crença japonesa na origem divina do imperador e,
portanto, de uma liderança naturalizada frente à Ásia, isso garantiria seu posto como
um líder de peso semelhante às outras duas lideranças fascistas do período.
A leitura usual, por vezes, desconsidera a complexidade do pan-asianismo
e do basho, seu grande elemento norteador. Para os pensadores e políticos do
período, que tentavam construir o pan-asianismo enquanto uma agenda de ação
política, divulgar o basho era uma tentativa de usar elementos do poeta mais famoso
do Japão até o momento como símbolo e síntese do caráter e dos objetivos do povo
japonês: sabi (simplicidade), shiori (sugestão), hosomi (amor às pequenas coisas) e
karumi (senso de humor) (FRÉDÉRIC, 2008). Desta maneira, dentro do movimento,
naturalizar e sintetizar o caráter do povo japonês era uma forma de sustentar
intelectualmente os projetos de uma liderança nipônica em todo o continente asiático.
Ainda que ela encontrasse um símbolo na figura do imperador, para a
intelectualidade e para os partidos políticos envolvidos com essa ideologia naquele
período, a predominância japonesa sempre esteve além de sua autoridade formal.
Essa presença marcante de uma liderança política, envolvida avidamente no
processo de modernização industrial de um país como o Japão, remete-nos à
definição de Leandro Konder, que enxerga o fascismo como
[…] uma tendência que surge na fase imperialista do capitalismo, que
procura se fortalecer nas condições de implantação do capitalismo
monopolista de Estado, exprimindo-se através de uma política favorável
à crescente concentração do capital; é um movimento político de
conteúdo social conservador, que se disfarça sob uma máscara
“modernizadora”, guiado pela ideologia de um pragmatismo radical,
servindo-se de mitos irracionalistas e conciliando-os com procedimentos
racionalistas-formais de tipo manipulatório. O fascismo é um movimento
chauvinista, antiliberal, antidemocrático, antissocialista, antioperário.
Seu crescimento num país pressupõe condições históricas especiais,
pressupõe uma preparação reacionária que tenha sido capaz de minar
as bases das forças potencialmente antifascistas (enfraquecendo-lhes
a influência junto às massas); e pressupõe também as condições da
chamada sociedade de massas de consumo dirigido, bem como a
existência nele de um certo nível de fusão do capital bancário com o
capital industrial, isto é, a existência do capital financeiro (KONDER,
2009, p. 53)
58
Nos anos anteriores à ascensão de Hirohito ao poder, o Japão iniciou um
processo de industrialização acelerada, tornando-se, em pouco tempo, a nação mais
industrializada da Ásia e, por isso mesmo, a grande fornecedora de produtos
manufaturados para a região asiática. Essa rápida modernização e tomada de
mercados adjacentes contribuiu para que o país tomasse consciência de sua
limitação geográfica. Já sob o domínio do imperador Taishô, o aumento do poderio
bélico e as guerras de expansão do território foram as táticas adotadas para impedir
a estagnação do mercado exportador japonês, caracterizado pela ausência de
matérias-primas. Crises econômicas e tensões sociais marcam o período posterior.
O sufrágio universal (limitado ao sexo masculino) trouxe uma série de disputas
sociais e reações conservadoras. Como para o Estado japonês não havia uma
definição muito nítida no que concerne aos limites entre matérias pública e privada,
o respeito ao governo era traduzido como um “senso de lealdade” esperado de todos
os setores sociais. Por consequência, discussões ideológicas — como o direito ao
voto ou a proposta de reforma socialista — eram vistas como um ataque direto à
existência do Estado. Essa violência de Estado foi bastante presente no momento de
transição do imperador Taishô para seu sucessor, Hirohito, que, no anos 1930,
tentando reafirmar seu poder, usava de coerção, intimidação e controle, nos mais
diferentes meios. Essa tática também se apoiava na ideia de “superioridade
manifesta” japonesa, apregoada por uma elite em ascensão naquele momento. O
sentido do basho era um dos sustentáculos teóricos da prática coercitiva. Formulada
por Kitaro Nishida, sua proposição considerava, a partir das concepções da filosofia
de Aristóteles, que o universo era formado de forças complementares que se
dispunham não em torno de uma síntese, mas de um equilíbrio constante entre elas.
O Japão, nessa perspectiva, deveria ser a força complementar do Ocidente, uma
espécie de líder do Oriente. E o imperador, como líder do líder, não poderia ser
contestado, enquanto traçava um caminho para a realização da liderança nipônica.
Ainda que o imperador Hirohito tenha usado de força para garantir seu poder
desde o primeiro momento, sua liderança estave calcada em um equilíbrio entre
diferentes partidos. De maneira indistinta, estes partidos defendiam a volta de todas
as propriedades para o imperador, visando, para eles, uma redistribuição mais
59
equilibrada entre os súditos. Ao mesmo tempo, o fascismo japonês divulgava seu
“apoio” à luta do proletariado contra o capitalismo, mas de uma maneira
reinterpretada: as justificativas para que o Japão representasse uma liderança
política natural no Oriente fundamentavam-se no “espírito nipônico”, considerado
mais forte do que qualquer interesse social, visto que estava imbuído de uma origem
divina e de uma missão perante a Ásia. A adoração ao imperador, noutros termos,
aniquilaria os interesses econômicos e igualaria todos ao patriotismo, como se as
classes fossem “apagadas” por esse objetivo comum, além do bushido, ou seja, a
devoção e o culto aos antepassados e à religião comum. Na interpretação dada pelo
fascismo japonês, em suma, a docilidade esperada do súdito apagaria a
desigualdade e a luta de classes.
Analisando o desenrolar desse período histórico, percebemos que a
interpretação usual, construída no pós-guerra, imputa uma passividade ao imperador
Hirohito, demonstrando que ele foi levado, muitas vezes, a tomar decisões contra sua
vontade, em virtude das forças militares. Essa explicação justifica a invasão da
Manchúria e uma série de manobras políticas e militares posteriores e, por vezes, o
próprio militarismo japonês. Essa narrativa, chamada por Yoshikuni Igarashi de
“narrativa fundadora”, é uma espécie de discurso conformador entre EUA e Japão,
que, no pós-guerra, passaram de inimigos a aliados:
No final da Guerra, os EUA e o Japão, em certo sentido, escalaram a si
mesmos como personagens de um melodrama que culminou na
demonstração de um poder atômico nunca antes visto. Através da
bomba, os EUA, classificados como um sujeito salvaram e converteram
o Japão, classificado como objeto feminino. A chamada decisão divina
de Hirohito, participou deste drama ao aceitar o poder superior dos EUA.
Apesar dessa hipérbole, essa narrativa popular foi efetiva ao definir a
percepção dos dois países da guerra e como ela chegou ao fim
(IGARASHI, 2011, pp. 59-60).
Em síntese, essa narrativa — que apresenta o Japão como o objeto passivo
do conflito — contribui, no processo de manutenção do poder imperial, para que a
explicação histórica usual coloque o imperador também como vítima do militarismo
externo, o que marcou a política expansionista japonesa, ainda no período anterior à
Segunda Guerra Mundial.
60
O expansionismo japonês e os quadrinhos
A política expansionista japonesa teve início ainda na Era Meiji. O primeiro
conflito desse cenário desembocou na Primeira Guerra Sino-Japonesa, em que
Japão e China se enfrentaram em uma disputa pelo território da Coreia. Saindo
vitorioso desse conflito, o Japão ocupou a Coreia entre 1910 e 1945, impondo sua
língua e seus costumes em todo o território. Ao mesmo tempo, um tênue equilíbrio
entre Rússia e Japão se estabeleceu na disputa pelos territórios da Manchúria. Em
1931, o Japão realizou uma série de invasões também no território chinês. Estes
conflitos eram chamados de jihen (conflito), já que não havia uma declaração de
guerra formal.
O governo de Tóquio, também naquele ano, aproveitando-se do caos interno
que a guerra civil provocou entre as diversas províncias chinesas, desembarcou
tropas na Manchúria, onde criou um protetorado, o Manchukuo. O país tentava
ampliar sua influência na região, já no início do século XX, durante a guerra contra o
império russo, o que causou um grande número de baixas no lado russo. A vitória
japonesa é vista como o início do imperialismo japonês e da transformação do país
em uma nação industrializada. Essa avanço é uma novidade no equilíbrio político da
Ásia Oriental, pois colocou o Japão em disputa de mercado com os EUA, bem como
com países da Europa. Essa mudança desencadeou forte pressão norte-americana
no sentido de controlar e impedir o avanço industrial japonês. É a partir do
desdobramento deste conflito que se dá a entrada oficial do Japão na Segunda
Guerra, com a autorização do ataque nipônico às bases militares anglo-americanas
situadas no Oceano Pacífico. Após essas ações bélicas, o Japão direcionou seus
ataques a outras instalações militares anglo-americanas localizadas na Malásia,
Indonésia, Birmânia, Singapura, Guam e Índias Orientais Holandesas. Neste sentido,
na perspectiva nipônica, a participação do Japão no conflito mundial foi um
desdobramento de uma política expansionista anterior.
É neste contexto que Nakazawa começa a contar a história do menino Gen.
O quadrinho do autor narra o que aconteceu antes, durante e após a detonação da
bomba, tendo como fio condutor a história de uma família à imagem e semelhança
da família do próprio Nakazawa. Ademais, é uma crítica à militarização da sociedade
61
japonesa durante a Segunda Guerra Mundial e à fé cega dos japoneses no
imperador. Os primeiros quatro volumes de Gen pés descalços foram publicados em
inglês em 1976, sendo um dos primeiros mangás veiculados nos EUA, ainda que o
resto da série tenha levado décadas para ser publicado integralmente. A edição em
português, publicada pela editora Conrad, no fim da década de 1990, é uma
tradução da edição estadunidense. A história completa começou a ser publicada no
Brasil somente em 2014. O volume 10, que encerra a história, saiu no Brasil em maio
de 2016.
Tal atraso, no caso dos EUA, muitas vezes é imputado ao teor crítico do
mangá e à mensagem transmitida pelo próprio Nakazawa através de seu trabalho,
continuamente condenando a decisão dos americanos pela explosão da bomba
atômica e acusando os comandantes militares americanos de terem usado os civis
japoneses como cobaias para testar os efeitos secundários criados por essa
explosão. De fato, em cada volume de Gen, Nakazawa amaldiçoa o imperador
Hirohito (considerado pela sociedade japonesa, antes da derrota pela guerra, como
tendo origem divina) e seus conselheiros.
A resistência à guerra é demonstrada pelo pai de Gen, já nas primeiras
páginas do mangá. Os meses anteriores à explosão atômica são retratados como
momentos de intensa mobilização por parte da população, em diferentes esforços
de guerra. O pai de Gen, neste sentido, satiriza tais esforços e tece muitas críticas
ao imperador, sendo hostilizado pelos vizinhos e conduzido à prisão. Ao contraporse à guerra, tendo em vista a Coreia e as atrocidades cometidas pelos japoneses
nesta região, o pai de Gen fundamenta toda a crítica posterior que é construída por
Nakazawa, ou seja, a necessidade de romper com a irracionalidade da guerra.
Conforme ilustra a figura abaixo, a crítica do personagem é direta:
62
Figura 1: O pai de Gen discursa para os seus vizinhos durante um treinamento
promovido pela associação do bairro. 2
2
Fonte: NAKAZAWA, Keiji. Gen pés descalços: o nascimento de Gen, o trigo verde (vol 1). São Paulo:
Conrad, 2011, p. 17.
63
Como recurso narrativo, o pai de Gen não só representa uma homenagem
do autor ao seu próprio pai — que, da mesma forma, acabou preso por se envolver
com o movimento pacifista —, mas também constrói o contraponto que sustenta toda
a história. No desenho, seu discurso é acompanhado pela imagem de soldados
feridos com expressão vazia aos pés de um oficial festejando uma vitória. É o modo,
de imageticamente, apresentar-se o paradoxo entre o discurso nacionalista da
guerra e o custo social da batalha. No quadrinho final (já que a leitura deve ser feita
em ordem invertida com relação ao padrão ocidental), o pai de Gen quebra a espada
de bambu usada nos treinos enquanto diz: “Chega”. Isso assinala a ruptura do
personagem e o enfrentamento da família Nakaoka contra o nacionalismo acrítico
dos seus vizinhos.
Contada por pessoas comuns, voltada ao cotidiano e aos custos sociais da
guerra para a população japonesa, a posição pacifista do pai de Gen também
permite a aproximação de outro personagem, que, de tempos em tempos, vai mudar
os rumos da família Nakaoka: o vizinho, sr. Bok. É através dele que Nakazawa discute
a postura belicosa de seu país frente à Coreia. Ele relata o conflito:
Depois que a Coreia se tornou colônia do Japão, fomos trazidos para cá,
para fazer trabalhos forçados e lutar nos campos de batalha. Nem
imaginam quanto os coreanos estão sofrendo com essa guerra. Quero
muito que essa guerra acabe. Quero voltar para minha esposa e filhos
(NAKAZAWA, 2011, p. 74).
A postura do Japão e do exército japonês durante a guerra é alvo de uma
discussão constante, de modo que uma série de narrativas, de tempos em tempos,
tem ocupado espaço na mídia internacional, sobretudo no que tange às “mulheres
de conforto”. A ação do exército japonês era bastante violenta e envolvia campos de
trabalhos forçados, torturas, armas químicas e as mulheres de conforto, ou seja,
escravas sexuais, recrutadas à força, sendo consideradas, atualmente, vítimas de
abuso sexual. A prostituição em massa ainda é alvo de controvérsia, uma vez que o
governo japonês é bastante reticente ao admitir a ligação destes grupos com o
exército japonês. Especialmente desde que os nacionalistas voltaram ao poder, o
discurso oficial evita admitir ou discutir grande parte dos chamados crimes de guerra
64
neste período. O modus operandi das forças armadas no país era bastante
agressivo:
Pode não ter sentido tentar estabelecer qual dos dois agressores do Eixo
na II Guerra Mundial, Alemanha ou Japão, foi o mais brutal para as
pessoas que vitimou. Os alemães mataram 6 milhões de judeus e 20
milhões de russos [isto é, de cidadãos soviéticos]; os japoneses
assassinaram algo como 30 milhões de filipinos, malaios, vietnamitas,
cambojanos, indonésios e burmeses e pelo menos 23 milhões de
chineses étnicos. Ambas as nações saquearam os países conquistados,
em uma escala monumental, embora os japoneses tenham pilhado mais,
por um período mais longo, do que os nazistas. Ambos escravizaram
milhões e os exploraram como trabalhadores forçados — e, no caso dos
japoneses, como prostitutas [forçadas] para tropas nas linhas de frente.
Se você era um prisioneiro de guerra dos nazistas de origem britânica,
estadunidense, australiana, neozelandesa ou canadense (mas não
russa) tinha 4% de chance de morrer antes do fim da guerra;
[comparativamente] o índice de mortalidade dos prisioneiros de guerra
aliados mantidos pelos japoneses era de quase 30% (JOHNSON, C.,
2003, s. p. — tradução nossa).
Até como uma forma de conformação com a derrota, de maneira geral,
mesmo na atualidade, não é grande a discussão acadêmica, pelo menos no âmbito
escolar, acerca da guerra ou das ações do exército japonês. A perda da batalha
representa muito mais o fim de um processo que resulta em uma espécie de lição
aprendida do que um espaço gerador de reflexões. Assim, na construção de sentido
histórico japonês, a guerra representa o espaço de encerramento que gerou a paz
pela qual as gerações posteriores são definidas.
O menino Gen, a guerra e o pós-guerra
Como já foi dito, a história do mangá acompanha Gen, um menino de 8 anos.
A narrativa tem início meses antes da explosão atômica, o que é demonstrado ainda
no primeiro dos dez volumes que compõem a série. Neste primeiro volume,
observamos a vida cotidiana, a carestia, a falta de comida, os treinamentos de
sobrevivência e o medo constante dos bombardeios, ou seja, grande parte da
história trata desses temas, por vezes questionadores para Gen e seus irmãos. Em
65
virtude da atitude crítica tomada pelo pai — contrapor-se à postura conformista e
belicosa da sociedade japonesa—, sua família é muito hostilizada pelos vizinhos,
todos contagiados pelo nacionalismo militarista, que, narrativamente, figura como o
grande sustentáculo do povo, seu espaço de conformação.
Há um momento da narrativa em que o irmão mais velho de Gen acaba
testemunhando o suicídio de um de seus colegas de batalhão, uma vez que este não
aguenta os abusos físicos e psicológicos a que é submetido, ainda durante o
treinamento para a batalha. Seu suicídio é encoberto pelos superiores e os pais dele
partem para casa sentindo orgulho do filho, cuja morte só poderia ser honrada para
um soldado naquele momento, pois transmitia respeito ao imperador. O testemunho
de todos estes acontecimentos permite que o irmão de Gen assimile o discurso
pacifista engendrado pelo pai e reflita dessa maneira: “Por quê? Por que as pessoas
não conseguem pensar direito? Até quando serão manipuladas por essa guerra
cheia de mentiras? Se cada japonês não aprender a se valorizar, essa guerra nunca
terá fim” (NAKAZAWA, 2011, p. 229).
Nos primeiros volumes, a crítica à guerra assume um teor bastante pessoal,
sobretudo gerado nos pensamentos dos personagens. O único a se posicionar
abertamente contra a guerra é o pai do Gen, sem, todavia, encontrar espaço para
que sua crítica se transforme em um diálogo. Esse é um recurso empregado pelo
autor para se referir aos efeitos do imperialismo, pois, ainda que existisse
discordância quanto a este, ele acabava sendo uma experiência restrita à
consciência dos envolvidos, em detrimento da coletividade.
Mesmo que o foco narrativo de Nakazawa seja a vida cotidiana, questões
políticas e motivações do governo japonês para a batalha aparecem de maneira
constante em todos os volumes. Essas questões são, primeiramente, suscitadas pelo
pai do personagem principal, o que ajuda a manter a coerência da narrativa, dado
que, quando esta se inicia, o protagonista ainda é uma criança; em seguida, ele se
torna mais e mais crítico da guerra e da situação do Japão, como resultado direto de
suas experiências para sobreviver. Da mesma forma, a mãe de Gen assume o papel
de crítica do exército japonês. Em suma, servindo-se tanto do pacifismo (presente
em todos os momentos e em grande parte das falas dos personagens), como dos
66
pais de Gen (do pai, nos primeiros volumes, e da mãe, no meio da história), o autor
apresenta o contraponto de sua história, ou seja, demonstra que, ainda que vítima, o
Japão foi protagonista de uma série de atrocidades e crimes de guerra.
Situado entre a ficção e autobiografia, pode-se dizer que Gen pés descalços
é uma obra que se situa também entre a memória, o discurso histórico, o imaginário
e a crítica posterior de seu autor. De certa forma, constitui um espaço de intersecção
de “verdades” em torno da experiência. Para Willian Moreira seria
Interessante notar que, ao contrário do discurso histórico, aqueles que
derivam da tematização do imaginário contém outra relação com a ideia
de verdade, que é derivada do desejo e valores do seu agente. Nesse
sentido, o discurso ficcional aparece como resultado do anseio de
produzir algo diferente e questionadora da “verdade” socialmente
estabelecida. A ficção e a autobiografia não se distinguem porque a
segunda não se contamina com o imaginário, até porque se deixa levar
pelas imagens, mas não pode se entregar inteiramente a esse aspecto.
Por seu estilo discursivo, a autobiografia lida com uma constante
instabilidade e tende em alguns momentos a se aproximar do discurso
histórico, e em outros do discurso ficcional (MOREIRA, 2014, p. 98).
No momento em que Nakazawa se dedicou a escrever sua obra e
ressignificar sua experiência, o mundo já não era mais o mesmo, considerando que
as bombas já tinham sido lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, os japoneses viviam
em uma nação ocupada, o sistema capitalista sofrera uma mudança essencial e o
poderio industrial de uma nação lhe dava poder de decidir um conflito, muito mais
do que a batalha direta de seus soldados. Neste sentido, a rendição e a capitulação,
vivenciadas em 2 de setembro de 1945, serviram como reconhecimento de que a
força estava no capital e não na pátria, em uma espécie de American way of life
planetário.
Esta mudança também aparece em algumas nuances da construção
narrativa do mangá, quando este retrata as dificuldades de sobrevivência
enfrentadas por uma cidade destruída pela bomba atômica. Ao passo que o primeiro
volume é marcado pela explosão da bomba, grande parte do segundo nos apresenta
Gen como testemunha da destruição causada por ela. Pessoas e animais, em
diferentes graus de sofrimento, passam pelo protagonista, que busca sua família e a
67
encontra soterrada em sua própria casa. Gen e sua mãe, os únicos sobreviventes,
assistem à morte da família em um incêndio, sob os escombros, sem poder socorrêlos. Em sua autobiografia, o autor assinala que esta é uma das principais diferenças
entre sua história e a de seu personagem principal. Embora seu pai tenha tido uma
morte semelhante, Keiji Nakazawa não a presenciou, além de ter encontrado sua
mãe, testemunha do incêndio que aniquilou-lhe a família, muitas horas depois do
acontecido. A menção ao acontecimento, para o autor, foi uma forma de honrar seu
pai:
O que difere a morte do meu pai do pai de Gen é que eu eu não estava
na cena do crime. Mamãe me falou sobre isso, em detalhes macabros.
Ela estava na minha cabeça, então no mangá eu decidi que Gen estaria
lá e tentaria salvar seu pai. Minha mãe sempre teve pesadelos com isso.
Ela dizia que era insuportável, que ainda podia ouvir os gritos do meu
irmão dizendo: “Eu vou morrer com você”. Ela o segurava pelos braços,
mas não importava o quanto ela o puxasse, não podia libertá-lo.
Enquanto isso, meu irmão dizia: “Está quente!”. Papai também dizia:
“Faça alguma coisa!” Minha irmã mais velha, Eiko, talvez porque
estivesse presa entre as vigas, não dizia nada. No momento, minha mãe
dizia que ela mesma já estava enlouquecida. Ela chorava: “Eu vou
morrer com você”. Felizmente, um vizinho que passava lhe disse: “Por
favor, pare; Não adianta. Não há necessidade de você morrer com eles”.
Tomando-a pela mão, ele conseguiu fazer com que que ela fugisse do
local. Quando ela voltou atrás, as chamas eram ferozes, e ela podia ouvir
claramente os gritos do meu irmão: “Mãe, está quente!”. Era
insuportável. Uma maneira cruel de matar (NAKAZAWA, 2010, p. 19 —
tradução nossa).
Quando o mangá foi publicado, o autor comenta que era comum receber
cartas perguntando se todas aquelas coisas tinham realmente acontecido, se a
situação de Hiroshima, de fato, assemelhava-se à retratada pelo quadrinho. As
críticas à ocupação estadunidense — materializadas no texto a partir dos
pensamentos de Gen e de seus amigos, órfãos da bomba — contribuíram para que,
por algum tempo, o autor fosse classificado como politicamente alinhado à esquerda,
sendo convidado para fazer parte do Partido Comunista Japonês. Além de denunciar
o imperialismo japonês, ele também se posiciona quanto à luta proletária e à
perseguição aos sindicatos, que tiveram lugar no pós-guerra. Para tanto, cria a
68
personagem de um professor que auxilia Gen a elaborar críticas sobre a realidade
enfrentada pelo Japão, conforme podemos observar na figura abaixo:
Figura 2: Gen e seu professor discutem a situação política do país no pós-guerra.3
O encontro com o professor, neste sentido, contribui para que Gen participe
das manifestações pacifistas e questione os políticos em discursos e palestras. À
medida que vai tomando consciência da falta de liberdade do Japão durante o
processo de ocupação americana, o personagem assume um papel de
enfrentamento aos estadunidenses. Esse enfrentamento é acompanhado de rancor,
ao considerá-los como responsáveis pela bomba atômica que matou seus pais e
3
Fonte: NAKAZAWA, Keiji. Gen pés descalços (vol. 8). São Paulo: Conrad, 2015, p. 120.
69
irmãos. Em alguns momentos, a posição de revide aos EUA conduz o personagem a
pequenos enfrentamentos e vandalismos contra o exército estadunidense, ou seja,
contra o inimigo que, mesmo não reconhecendo a culpa pela destruição de
Hiroshima, separa o Japão de sua liberdade. A ocupação americana é retratada, na
maioria das vezes, como desdobramento de um mecanismo complicado de controle
dos trabalhadores, dos governantes, dos sobreviventes e, especialmente, das
informações sobre os efeitos cauados pela bomba. No quadrinho acima, o peso do
discurso do professor faz com que Gen adormeça pensando em aprofundar-se nos
estudos. Tudo isso acaba por revelar a imaturidade do personagem, com 13 anos na
ocasião, correspondente à própria imaturidade do Japão, ainda traçando caminhos
no pós-ocupação.
As condições e tratamentos de saúde são retratados como desdobramentos
do mercado negro, já que, em troca de cadáveres e de pacientes afetados pela
bomba, os soldados ofereciam remédios a altos preços, enriquecendo-se às custas
do desconhecimento e da falta de condições da população, de maneira geral. O
controle das greves e das pessoas aparece, de tempos em tempos, como um
mecanismo difícil de ser burlado, mas sempre alvo do pensamento crítico do
protagonista. Ao mesmo tempo, os efeitos da ocupação vão, sutilmente, assumindo
seu espaço, tendo em vista a imitação dos ianques feita por Gen e seus amigos, a
adoção natural de termos e expressões em inglês por eles, além da absolvição do
beisebol e da moda ocidental como parte do cotidiano deles, em maior ou menor
grau. O cinema é retratado como o espaço em que o discurso da guerra é
amenizado; ao lado do esporte, representa, para o japonês comum, uma folga de
suas dificuldades cotidianas, bem como um Ocidente absorvido e ressignificado.
Edward Said, ao escrever sobre o orientalismo, chama a atenção para o fato
de que nossa aproximação com o Oriente sempre passa por um saber construído,
organizado e normatizador do outro:
[...] o intercâmbio entre os sentidos acadêmico e mais ou menos
imaginativo do orientalismo é constante, e desde o final do século XVIII
tem havido um comércio considerável, totalmente disciplinado — talvez
até regulado — entre os dois. Neste ponto eu chego ao terceiro sentido
do orientalismo, que é algo mais histórica e materialmente definido do
70
que qualquer dos outros dois. […] o orientalismo pode ser discutido e
analisado como a instituição organizada para negociar com o Oriente —
negociar com ele fazendo declarações ao seu respeito, autorizando
opiniões […] governando-o […] em um estilo ocidental para dominar,
reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente (SAID, 1990, pp. 15-16).
No caso do Japão, a explicação conformadora, de uma nação que
“aprendeu” com a guerra, assume contornos ainda mais fortes: o uso da bomba
atômica pelo vencedor, paradoxalmente, adquire expressão salvadora, passando a
justificar o fim da guerra. Noutros termos, uma arma de destruição em massa de
alcance tão profundo acaba representando o sacrifício final em nome da “paz”.
Trocando em miúdos, o alinhamento bastante rápido do Japão a esta “nova ordem
mundial”, capitaneada pelos EUA, apagou os crimes de guerra do imperialismo
japonês, como um acordo tácito entre os dois países, uma compensação pela
destruição da bomba. Em cima desta tradição inventada, explicações geradas tanto
no Ocidente quanto no Oriente se constroem e se difundem. É importante notar o
caráter aglutinador que a Segunda Guerra Mundial, enquanto acontecimento, acaba
representando para os dois lados. Tudo isso faz de Gen uma obra de intersecção,
de corte, ainda que, em alguns momentos, alinhe-se às explicações sobre o
significado do conflito mundial. Todavia, ao mesmo tempo, representa uma voz
dissidente, no âmbito da experiência vivenciada e testemunhada por seu autor. A
resistência ao imperialismo, ao nacionalismo e aos conflitos se manifesta justamente
no âmbito da experiência do indivíduo. A resistência, neste sentido, pode ser
individual ou familiar, manifestando-se em grupos pequenos, em redes de apoio e
em espaços de troca, sobretudo espaços sociais e coletivos.
Mesmo diante dessas constatações, o discurso revisionista — que prevê a
responsabilidade do Japão pela guerra e desconstrói seu papel de vítima,
conformado com a posição na nova ordem mundial — muitas vezes incomoda. Tanto
é que Gen foi alvo de críticas negativas. Sua narrativa não é a da história oficial, ainda
preocupada em resguardar o espaço do imperador e do império. Na época em que
Nakazawa estava crescendo e vivenciando o que ia se tornar sua arte sequencial,
esse discurso garantia o militarismo e o nacionalismo das massas. Hoje, guarda um
sentido conformador, também penhor da “ordem”. O caráter perturbador de Gen pés
71
descalços não só testemunha uma grande calamidade, mas também esconde ecos
desse nacionalismo, que tem se fortalecido no Japão e no mundo. Gen convoca
todos a serem soldados e testemunhas da paz. Há lugar para a paz fora de suas
páginas? Ao desafiar o próprio trauma, Nakazawa traz para o quadrinho um saber
que não pode ser vetado, que tem o peso de um testemunho, por vezes contrário ao
testemunho da história tradicional. Para além do peso usual dado aos quadrinhos,
caracterizados pela simplicidade e pelo passatempo, histórias como Gen revelam
que a arte sequencial pode suscitar reflexões sobre a existência de um mal, a
necessidade de não esquecê-lo e, muito menos, banalizá-lo.
Por outro lado, as críticas que a atualidade imputa à obra de Nakazawa são
indicativos do crescimento de uma ideologia nacionalista no território japonês. O
embate político entre a esquerda e a direita no Japão é, nos dias de hoje, um embate
que também se dá por meio dos animes e mangás. Partindo deste pressuposto, fica
mais fácil entender o lugar daquela petição que propunha a retirada de Gen das
bibliotecas japonesas. Vale ressaltar que os termos “esquerda” e “direita”
empregados aqui não são exatamente acurados no que concerne à política
japonesa, uma vez que eles se referem, de maneira mais direta, à disputa entre o
nacionalismo (representado pela direita) e o pacifismo (representado pela esquerda).
Valores nacionalistas, militaristas, revisionistas e xenófobos são constantemente
incorporados à pauta das reivindicações políticas do Jimintou (partido da direita
japonesa), bastante influente no cenário político do Japão desde 1955 (em virtude
de uma grande derrota, sua participação foi interrompida em 1992, afastando-se do
poder entre 1993 e 1994) e, recentemente, influente graças à ascensão do ministro
Shinzo Abe, símbolo da retomada dos setores mais conservadores do partido ao
poder.
Mesmo contando com alas “moderadas” e “conservadoras”, a agenda
comum deste grupo “liberal-democrata” tem, desde os anos 1950, investido contra
o artigo 9º que, em renúncia à guerra e à autodefesa, aboliu o exército japonês. Ainda
que não sejam, hoje, pontos absolutos, esses temas sempre foram alvo de discussão
e emendas deste grupo político. Para Eduardo Alves:
72
As discussões persistem no presente, e com as recentes alterações
legislativas podem tomar um novo rumo no sentido de efetivação da
Reforma Constitucional, no entanto, os esforços do governo tem focado
na remoção de bases militares americanas do território japonês,
notadamente a Base dos Fuzileiros Navais em Futennma. Tais esforços
podem, por outro lado, representar a tentativa de legitimar a efetiva
remilitarização do país (ALVES, 2011, p. 77).
Outros pontos de embate dentro do nacionalismo conservador do Jimintou
são a retirada dos poderes constitucionais do imperador e a chamada “ordem
pública”, considerando que o militarismo anterior cedeu lugar a algumas políticas
focadas em garantir um Estado de bem-estar social. Em suma, estes são os pontos
que estiveram sempre na pauta de mudanças deste grupo político. Shinzo Abe foi
um defensor do país durante a Segunda Guerra Mundial e já cogitou retirar alguns
dos “pedidos de desculpas”, manobras diplomáticas de reconhecimento da ação
bélica e violenta do exército japonês. Ainda que, nas análises sociais do retorno
político desta ala conservadora ao poder, tal fato seja imputado à crise política e ao
discurso protecionista do partido, o supranacionalismo e a defesa de uma
historiografia conservadora são faces de um mesmo fenômeno. Em nome de um
“resgate do espírito japonês”, associações como o Zaitokukai (um grupo de extremadireita contra o direito dos estrangeiros) ou a Atarashii Rekishi Kyōkasho o Tsukuru
Kai (associação japonesa que busca reformar os livros de história no Japão) têm
adquirido cada vez mais força em suas mobilizações. As petições contra Gen pés
descalços são um exemplo disso. Desse modo, a política interna e externa japonesa
tem sido marcada não por fatos isolados, mas por pontos de apoio que preveem toda
uma reforma legal. A guinada nacionalista tem espaços diversos de inserção: está
presente nos quadros políticos, formadores de opiniões, celebridades e
organizações privadas. Ernani Oda, ao resgatar as análises dos intelectuais
japoneses no entendimento deste fenômeno, chama a atenção para o fato de que o
nacionalismo acaba adquirindo contornos de produto de consumo, que investe
pesadamente na tentativa de ser aceito em um “mercado simbólico” global (ODA,
2014, p. 195). Ainda assim, as batalhas discursivas não podem ser encaradas como
73
uma resposta isolada à globalização de maneira geral, mas como um alinhamento
em torno do passado que tem um espaço de difusão cada vez mais amplo.
Fábio Bertonha chama a atenção para o significado dessas transformações:
O governo de Shinzo Abe criou recentemente um conselho nacional de
segurança baseado no modelo americano, para onde convergem todas
as informações relevantes. Desse modo, defende Abe, os japoneses
poderão reagir com maior rapidez aos acontecimentos referentes às
políticas externa e de segurança. Além disso, a coalizão governista de
Abe conseguiu aprovar na câmara baixa do Parlamento uma
controversa lei de segredos de Estado para impedir o vazamento de
informações. No Japão, informações confidenciais costumam vazar com
tamanha facilidade que os diplomatas e militares americanos têm por
hábito compartilhar o mínimo possível com seus aliados japoneses e tal
situação pode ser, no mínimo, suavizada com a nova lei. A nova END
ainda não significou um rompimento completo com o status japonês de
suposto “país pacifista”, mas é mais um passo nessa direção
(BERTONHA, 2014, p. 40).
Tudo isso pressupõe não apenas uma disputa discursiva sobre o passado,
mas sugere os indicativos de uma transformação política mais ampla que tem
marcado a atualidade. Pontos da conhecida agenda fascista ressurgem com nova
roupagem, como uma alternativa em tempos de crise. Os desdobramentos dessa
nova ordem mundial devem ser entendidos e explorados, não tomados como nota
de rodapé.
Diante disso, podemos dizer que o estudo dos quadrinhos a partir de uma
perspectiva histórica pode contribuir tanto para formularmos uma espécie de
entendimento sobre os processos em que o passado adquire sua modelagem
histórica específica, como para percebermos que a história é constituída de atos
discursivos, formas de comunicação e padrões de pensamento. Esse dado também
constitui um espaço importante na construção das mediações possíveis entre os
quadrinhos e o conhecimento, neste caso, sobre o nacionalismo japonês, seus
impactos, percepções e reflexos.
74
__________________________
Fontes
NAKAZAWA, Keiji. Gen pés descalços: o nascimento de Gen, o trigo verde (vol 1). São Paulo:
Conrad, 2011.
________. Gen pés descalços: o trigo é pisoteado (vol. 2). São Paulo: Conrad, 2011.
________. Gen pés descalços: trigo, é hora de brotar (vol. 3). São Paulo: Conrad, 2011.
________. Gen pés descalços: cresça firme, trigo verde (vol. 4) São Paulo: Conrad, 2011.
________. Gen pés descalços (vol. 5). São Paulo: Conrad, 2012.
________. Gen pés descalços (vol. 6). São Paulo: Conrad, 2013.
________. Gen pés descalços (vol. 7). São Paulo: Conrad, 2014.
________. Gen pés descalços (vol. 8). São Paulo: Conrad, 2015.
________. Gen pés descalços (vol. 9). São Paulo: Conrad, 2015.
Referências bibliográficas
ALVES, Eduardo Mesquita Pereira. Constituição e constitucionalismo no Japão: reflexões em
torno do art. 9º, renúncia à guerra e à autodefesa. Monografia de conclusão de curso. UFPR,
2011.
BERTONHA, João Fábio. A nova estratégia nacional de defesa japonesa. In: Meridiano 47,
vol. 15, n. 142, mar.-abr. 2014. Disponível em: <periodicos.unb.br>. Acesso em: 27.3.2016.
GERTZ, René. O Fascismo no Sul do Brasil. Porto Alegre: Mercado, 1987.
GONÇALVES, Ana Cristina. Representações de Hiroshima: a problemática da representação
a partir de Gen pés descalços. Dissertação (Mestrado em Letras). Universidade de São
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76
Skinheads chauvinistas: integralistas,
os “carecas do subúrbio” e o
nacional-socialismo brasileiro
Jefferson Rodrigues Barbosa1
Uma questão divide chauvinistas tradicionalistas e chauvinistas modernos na
contemporaneidade: os primeiros guardam lealdade às experiências da primeira
metade do século XX, como o fascismo, o nazismo e, no caso brasileiro, o
integralismo. Os segundos opõem-se aos tradicionalistas, pois consideram
prejudicial a identificação de suas propostas com os modelos ideológicos, estéticos
e organizacionais estigmatizados pelos desdobramentos da Segunda Guerra
Mundial.
Para os membros desta segunda vertente chauvinista, os indivíduos em
sociedade são definidos pelo sentimento de pertencimento a comunidades culturais
específicas, que dão sentido e valor à sua existência. Daí se originam certas
concepções hoje em voga, pautadas pelo repúdio aos imigrantes, tendo em vista um
discurso impregnado de um sentido específico de lógica territorial, para justificar a
xenofobia e o racismo, como acontece com a Frente Nacional — partido chauvinista
francês.
Nacionalismo regional ou nacionalismo étnico é a forma como denominou
Manuel Florentin: “São os grupos que rejeitam o atual conceito de Estado-nação e
atribuem essa categoria à comunidade orgânica de idêntica etnia, cultura ou língua”
1
Professor de Teoria Política do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp. E-mail:
[email protected]
77
(FLORENTÍM, 1994, p. 73). As organizações em questão são caracterizadas por um
discurso fortemente moralizador que sempre focaliza o conteúdo de sua propaganda
contra o caráter materialista da vida moderna, referenciando-se a princípios de
ordem simbólica como, por exemplo, o pertencimento a uma comunidade étnicocultural que precisa ser protegida.
Não só na Europa e nos EUA, mas também na América Latina, os herdeiros
dessa
insanidade
parecem
profundamente
divididos
entre
organizações
chauvinistas tradicionalistas e modernas. As primeiras — a quem a imprensa
jornalística e alguns trabalhos acadêmicos acrescentam o prefixo “neo” (fascista ou
nazista) — insistem na herança histórica de Hitler e Mussolini e em sua simbologia
característica (a exemplo de uniformes), assim como na defesa inalterável e
irrefutável dos seus pressupostos ideológicos. Já as segundas se interessam em
adaptar suas concepções diante da conjuntura contemporânea, negando a
simbologia de outrora, na busca de maior inserção para suas concepções
irracionalistas.
No emaranhado dos grupos chauvinistas contemporâneos, destacam-se
grupos juvenis que, sem dispensar certos símbolos anacrônicos na afirmação de sua
identidade política, buscam firmar presença como portadores de valores
nacionalistas extremados ou de “superioridade étnica”. Neste caso, não focalizando
partidos políticos, mas organizações e movimentos sociais regressivos, alguns
grupos
skinheads
nacionais
apresentam-se
como
portadores
de
valores
irracionalistas e violentos, como é o caso de determinados grupos skinheads
brasileiros.
Os nacionais-socialistas “White Power” e os integralistas “Carecas do
Subúrbio”, por exemplo, são expressões destas manifestações e, em geral, são
denominados como grupos de extrema-direita pelos meios de comunicação e por
trabalhos acadêmicos.
78
Gênese da cultura skinhead: tendências, diferenciações e ideologias
É necessário pontuar as origens do movimento skinhead, surgido na
Inglaterra no final da década de 1960. A Inglaterra, naquele período, era o cenário
de muitos grupos juvenis, a exemplo dos rudeboys ou rudies (grupos de migrantes
jamaicanos conhecidos por posturas violentas e machistas) e dos mods (gangues
violentas retratas no filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick). Os skinheads
surgiram, inicialmente, como um grupo juvenil não racista que frequentava os
círculos dos mods (conhecidos como hard mods) e dos rudeboys nas festas de ska
e reggae. Eram, em sua maioria, filhos de operários e vangloriavam-se de pertencer
a um movimento genuíno de trabalhadores nacionalistas na construção de suas
fronteiras de identidade social e territorial. Ao mesmo tempo que nutriam um
sentimento exacerbado pelo futebol (defesa do território), os primeiros skins
articularam a construção de sua identidade social, servindo-se de elementos
associados à estética dos operários ingleses, tais como botas, suspensórios e calças
jeans.
Ademais, em oposição aos hippies — que, segundo os skinheads, eram
cabeludos, usuários de entorpecentes e alienados —, utilizavam como marca
identitária as cabeças raspadas, o que foi legado à cultura skin contemporânea.
Fontes bibliográficas apontam que a estética das cabeças raspadas é oriunda
também de estratégias para melhor desempenho nas brigas de ruas, de modo que
os skins não possam ser agarrados pelos cabelos, e tem relação com a ideia de
higienização (COSTA, 1993). As cabeças raspadas e o fisiculturismo, neste sentido,
correspondem à ideia de saúde, força e virilidade, ao passo que a conduta moral
rígida corresponde à ideia de força moral.
A Inglaterra, durante as primeiras manifestações skinheads, recebeu um
grande número de imigrantes, sobretudo jamaicanos e paquistaneses, os quais
foram inseridos no país como mão de obra barata. Com a crise econômica da década
de 1970, ocasionada pela alta mundial do preço do petróleo, as taxas de
desemprego começaram a aumentar e, para muitos ingleses, os imigrantes que
disputavam com eles o mercado de trabalho eram os responsáveis por isso. Naquele
contexto, começaram a ocorrer na Inglaterra as primeiras ações violentas de
79
skinheads
contra
esses
imigrantes
que
passaram
a
ser
acusados
e
responsabilizados pelo desemprego. Somam-se aos conflitos entre os skinheads e
as culturas juvenis então em voga os reflexos da crise econômica:
Tratava-se de uma revolta antiburguesa que reivindicava os valores da
comunidade e da solidariedade da classe operária, um fenômeno de
banda e de moda em que o racismo estava ausente: os skinheads
escutavam duas variantes da música negra, o ska e o steady beat.
Depois, no começo dos anos de 1970, ocorreu uma evolução
fundamental: os jovens trabalhadores brancos e os jovens negros
divergiram musicalmente quando o reggae se tornou uma música de
reivindicação cultural do rastafarianismo. O movimento skinhead (inglês)
cessa, então, de ser multirracial, e a radicalização ideológica dos
skinheads começa: alguns se tornam membros do National Front ou do
British Movement, outros engrossam a fila dos hooligans nos estádios de
futebol (CAMUS, 2000, p. 420).
Naquele contexto, concepções chauvinistas (nacionalismo radical) e
xenófobas (aversão ao estrangeiro) passaram a fazer parte dos valores defendidos
pelos skinheads, alterando-lhes a configuração ideológica. Começavam, assim, a
aparecer os primeiros sinais da inclinação de determinados segmentos desta cultura
urbana-juvenil às estratégias racistas e violentas para afirmação de sua identidade
enquanto grupo social.
Na década de 1980, ocorre um segundo momento na construção da
identidade skinhead, a construção de uma identidade mais politizada, quando muitos
grupos começaram a se rearticular, identificando-se com propostas de partidos
chauvinistas, a exemplo do National Front, partido político inglês defensor de valores
nacionais-socialistas. Desse modo, ocorre entre os skins ingleses a inserção de
valores relacionados à pureza racial e a suposta defesa da necessidade de um
espaço vital para uma sociedade inglesa sem imigrantes, para a construção de uma
Inglaterra somente para os ingleses. A partir daquele contexto, a constante pressão
da mídia acerca da infiltração do preconceito racial dentro de grupos skinheads
proporcionou o surgimento de um maior engajamento político entre eles (tanto
aqueles à esquerda quanto à direita), resultando na fragmentação de vários
submovimentos rivais. Desde então, existem conflitos entre as diversas tendências
80
sobre o legado da cultura skinhead. Ainda na década de 1980, muitas organizações
skins passaram a se identificar de forma explícita com ideias nazistas, ganhando
visibilidade a vertente skinhead “White Power” (ou boneheads, como são
pejorativamente chamados dentro da cultura skinhead). Começavam também a
aparecer, em outros países, jovens que assumiram os valores e a estética skinhead;
nos EUA, por exemplo, muitas organizações skins estabeleceram vínculos com os
remanescentes da Ku Klux Klan (KKK), organização racista atuante desde o final do
século XIX, conhecida pelo extermínio de negros no sul daquele país.
Os antagonismos e diferenças ideológicas entre as facções skinheads se
tornam ainda mais complexas, tendo em vista o surgimento dos skins antifascistas
(antifas), 2 o que potencializou as divergências entre esquerdistas e direitistas,
racistas e não racistas, politizados e apolíticos. Assim, surgiram os “Skin Heads
Against Racial Prejudice” 3 (SHARP), cujo princípio é ser contra toda forma de
discriminação racial e fascismo, apresentando-se como apolíticos, e os “Red and
Anarchists Skinheads”4 (RASH), que promovem ideologias de esquerda, a princípio
mais como uma forma de combater o White Power.5 Neste sentido, estes grupos, em
específico, não se ajustam à conceituação de chauvinistas.
O terceiro momento na construção da identidade skinhead acontece no final
da década de 1980 e início de 1990, a partir da organização de grupos
internacionais, como a organização “Blood and Honour” e a “Hammerskin Nation”
(organização neonazista originária dos EUA, atualmente com filiais em vários países):
É necessário bem compreender que o movimento skinhead não está
organizado segundo uma lógica nacional e sim supranacional: há
grupos em todos os países da Europa, nos EUA e no Canadá, na
Austrália e na Nova Zelândia, assim como na maior parte dos países da
América Latina. Eles intercambiam jornais, participam de algumas
2
Sobre as ações antifascistas, cf. o documentário que apresenta maiores detalhes sobre os
enfrentamentos urbanos envolvendo esse grupo: ANTIFA: Chasseurs de skins, 2008. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=CRKymsEuD1M>. Acesso em: 26.2.2016.
3
“Skinheads contra o preconceito racial”.
4
“Skinheads vermelhos e anarquistas”.
5
Sobre os diferentes grupos cf. o documentário: SKINHEAD Attitude. Direção: Daniel Schweizer, 2003,
90 min. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8vnH_SZAL5Q>. Acesso em: 11.3.2016.
81
manifestações comuns e se comunicam pela internet. Além disso, a
tecnologia do CD tem permitido a grupos musicais venderem as suas
produções a baixo preço e para além das fronteiras do país de que um
grupo skin é originário [...] o movimento se dividiu, em plano mundial,
em várias facções, que concorrem entre si de forma impiedosa: por um
lado os “Hammerskins”, de origem americana, ligados em sua origem
aos grupos religiosos neopagãos dos Identity Churches, como o Aryan
Nation ou a Igreja do Criador; por outro, o movimento “Blood and
Honour”, de origem britânica, próximo dos neonazistas [...]. Entretanto,
é na Europa Oriental que o fenômeno tem conhecido crescente
inquietude [...] (CAMUS, 2000, p. 420).
No ano de 2005, por exemplo, ocorreram, em Portugal, grandes
manifestações promovidas pela Frente Nacional portuguesa (organização composta
também por militantes skinheads que integram a “Hammerskin”), cujos discursos
subordinaram-se a temas contra a identidade cultural e a imigração.
A mobilização de organizações internacionais como a “Hammerskin” e a
“Blood Honour” traduz uma nova dimensão da articulação entre tendências
skinheads chauvinistas e racistas, bem como reflete o resultado de articulação
destes grupos, os quais potencializam suas ações de propaganda através de
tecnologias de comunicação e de iniciativas no campo da cultura,6 a exemplo dos
festivais de música e da difusão de bandas, como a RAC (Rock Against Comunist).
Skinheads no Brasil: “Carecas” e skins integralistas
No Brasil, as primeiras organizações skinheads datam também do início da
década de 1980, sem vínculo direto com os ideais nazistas. Oriundos de facções
divergentes existentes dentro do movimento punk brasileiro, os skinheads logo se
organizaram de forma independente, tornando-se inimigos do punk devido à
incompatibilidade ideológica entre suas ideias nacionalistas e conservadoras em
oposição às posturas libertárias defendidas pelo movimento punk e aos valores
anarquistas, difundidos, em especial, pelos anarcopunks.
6
Sobre as modalidades de propaganda e mobilização, bem como iniciativas no campo da cultura de
caráter regressivo cf.: WHITE Terror. Direção: Daniel Schweizer, 2005, 89 min. Disponível em:
<http://www.dschointventschr.ch/en/movies/documentaries/white-terror>. Acesso em: 23.2.2016.
82
Os primeiros skinheads brasileiros atuavam inicialmente na Zona Leste da
cidade de São Paulo. Como limitavam-se a essa região periférica, foram
denominados de “Carecas do Subúrbio”, organização composta de jovens
trabalhadores das indústrias e do comércio de São Paulo, segundo dados levantados
pelos pesquisadores Alexandre Almeida e Márcia Costa (2011).7
A influência de partidos e organizações chauvinistas buscando atrair os
jovens dessa organização foi marcante, surtindo o efeito de dividi-los entre aqueles
que se identificavam com as ideias integralistas e aqueles que começaram a
identificar-se com o nacional-socialismo e suas concepções políticas:
A aproximação de alguns membros dessas organizações com os
“Carecas do Subúrbio” pode ser considerada um dos motivos que
aprofundou o fracionamento do grupo, resultando no surgimento de
outras facções. Esse processo começou a ocorrer mais ou menos por
volta de 1985 e se aprofundou, com problemas e contradições, como
em parte veremos a seguir, no decorrer da década seguinte. Postulamos
que esses grupos nacionalistas, formados ou rearticulados a partir dos
anos 1980, tiveram um papel fundamental na politização e consequente
fracionamento dos skinheads locais, e apontamos principalmente a
Ação Integralista Brasileira (AIB), o Partido Nacional Socialista Brasileiro
(PNSB) e o Movimento Participativo Nacionalismo Social (PARNASO),
cuja articulação propiciou reagrupamento de uma parte dos skinheads,
que passaram inicialmente a se considerarem integralistas ou nacionais-
7
“Os primeiros skinheads que apareceram no Brasil assumiram a denominação de “Carecas do
Subúrbio”. Eles surgiram em nosso país mais ou menos no ano de 1978, na Zona Leste da cidade de
São Paulo, e em cidades localizadas na região metropolitana. As informações que chegaram para
jovens sobre a existência de skinheads na Inglaterra e Estados Unidos tiveram procedências diversas,
como meios de comunicação de massa (revistas, jornais e programas de televisão) e discos
importados das bandas desse estilo musical, que eram pirateados em fitas cassete, para viabilizar a
venda, por conta do baixo preço. Além disso, seguindo uma forma de atuar herdada dos punks, os
Carecas teceram uma rede alternativa nacional e até internacional que incluía troca de informações e
contatos entabulados de diversas maneiras, como fanzines, cartas e músicas. O contínuo fluxo de
informações trouxe dados sobre as particularidades e transformações na cena skinhead internacional.
Dessa maneira, relatos sobre a atuação de organizações racistas entre os skinheads europeus e
norte-americanos também começaram a circular entre os Carecas brasileiros. Na minha pesquisa
sobre a formação do Poder Branco Paulista, uma facção skinhead local, entrevistei um antigo membro
dos “Carecas do Subúrbio", que me relatou os intensos contatos com o exterior, por meio de
correspondência, e como foram importantes para conhecer algumas características da cena Skinhead
White Power, e também as bandas e os skinzines, como o inglês Blood And Honour e o belga Pure
Impact. Todos esses contatos foram importantes e, como veremos a seguir, a relação com
organizações nacionalistas brasileiras revelou-se fundamental em todo o processo de politização
vivido pelos skinheads locais.” (ALMEIDA & COSTA, 2011, p. 248).
83
socialistas. A seguir, houve o surgimento em São Paulo dos
denominados skinheads “White Power”, conhecidos na época como
Poder Branco Paulista (ALMEIDA, 2011, p. 250).
Diante da crise econômica da década de 1980, responsável por afetar o
mercado de trabalho da região onde atuavam os “Carecas do Subúrbio”, eles se
propagaram com a afirmação de uma identidade baseada nos pressupostos
ideológicos de um “nacionalismo proletário”, em repúdio às transformações oriundas
das políticas neoliberais do período. Para os “Carecas do Subúrbio” que,
posteriormente, organizaram-se no Rio de Janeiro e em outras regiões do país,
também sob a denominação de “Carecas do Brasil”, o movimento não era “nem
racista nem fascista” (COSTA, 1993).
A internet, sendo cada vez mais acessada pela imprensa, constitui-se em um
dos territórios de atuação de vários grupos chauvinistas nacionais de diferentes
vertentes. A articulação entre grupos nacionalistas foi, assim, potencializada através
dos recursos de comunicação, o que possibilitou o armazenamento e o
compartilhamento de informações e a sociabilização de recursos imagéticos, tais
como vídeos, fanzines virtuais, textos de formação política e informações sobre
encontros e shows musicais.
A atuação dos grupos skinheads brasileiros pode ser evidenciada pelo
número expressivo de sites, blogs e vídeos disponibilizados na internet. A exemplo
disso, no vídeo intitulado “Carecas e nacionalistas unidos Ativismo 7 de setembro,
anti-comunismo, anti Dilma, PT, Foro de SP” 8 são disponibilizadas imagens de
“carecas” de diferentes tendências participando do desfile ocorrido em 7 de
setembro, na cidade do Rio de Janeiro. Abaixo do vídeo está inscrito: “Ativismo
Patriota conservador no Rio de Janeiro” e, entre as siglas das organizações que
participaram do ato, há referência ao Movimento Integralista Linearista Brasileiro
(MIL-B).
Dentre as fontes analisadas nesta investigação, há um vídeo esclarecedor
sobre a relação entre os skinheads e os “carecas” integralistas. Intitulado “Carecas
8
Disponível em: <http://www.youtube.com>. Acesso em: 14.4.2012.
84
Força Nacionalista”, 9 esse vídeo demonstra as estratégias e ações adotadas por
esse grupo para a propaganda de concepções chauvinistas. Desse modo, os
“carecas” são apresentados durante um desfile militar, no qual ostentam cartazes
com frases nacionalistas, sob a música da banda Anti Narcose, Manifesto
Nacionalista, cuja letra homenageia o antissemita Gustavo Barroso. Ao final do vídeo,
há a seguinte mensagem: “Agradecimento ao Núcleo Integralista do Estado do Rio
de Janeiro (NIERJ), Carecas do Subúrbio SP e todas as forças nacionalistas”.
Em sua maioria, as vítimas das agressões empenhadas pelos skinheads são
militantes de esquerda, homossexuais, consumidores de entorpecentes e grupos
juvenis, tais como roqueiros e punks; em suma, estes são os inimigos mais comuns
dos skins, cuja violência adquire, sobretudo, justificativas homofóbicas (aversão aos
homossexuais). Nesse caso, ações de perseguição e espancamento de
homossexuais tornaram-se, em muitos países, uma das marcas mais distintivas dos
skinheads homofóbicos. De qualquer forma, é importante ressaltar que a homofobia
não é um elemento compartilhado pelo universo ideológico que orienta todas as
tendências dos skinheads.
A diferença mais notória entre os diferentes grupos skinheads 10 pode ser
percebida no grupo “White Power”, defensor da supremacia branca. Para este, os
principais alvos do combate nas ruas são os negros, as pessoas portadoras de
necessidades especiais, os judeus, os imigrantes, os anarquistas e marxistas. No
caso brasileiro, em especial, muitas vezes a vítima é o imigrante nordestino. Para
diferenciar o conjunto de skinheads brasileiros é necessário pontuar que existem
facções com diferentes graus de influência no espectro político e cultural, a exemplo
9
Disponível em: <http://www.youtube.com>. Acesso em: 14.4.2012.
10
“Os ‘Carecas do Subúrbio’ já apresentavam em seu interior diferenças de concepções e
divergências entre lideranças. No início da segunda metade da década de 1980, o estilo skinhead se
espalhou por várias cidades brasileiras, na forma de facções, assumindo novas denominações e
ostentando contradições e disputas internas. Essas novas facções, tanto em maior ou menor grau, se
aproximavam dos ‘Carecas do Subúrbio’, quanto refletiam novas facetas dos skinheads existentes em
outros países, relações tecidas com determinados grupos racistas e nacionalistas, e mesmo a
sociedade em geral, particularidades e processos locais. Assim, surgiram os ‘Carecas do ABC’,
‘Carecas do Ceará’, ‘'Carecas da Baixada’, ‘Carecas da Bahia’, ‘Carecas do Vale do Paraíba’, entre
outros grupos. Já o ‘Poder Branco Paulista’, ao negar a postura nacionalista e propor uma ‘São Paulo
branca’ contra um ‘Brasil mestiço’, se constituiu em outra facção” (ALMEIDA & COSTA, 2011, p. 253).
85
dos “Carecas do Subúrbio” que, em parte, são integralistas. Assim, defendem o lema
integralista “Deus, Pátria e Família” (difundido pelos seguidores de Plínio Salgado,
na década de 1930), o que evidencia o arcabouço moral desse grupo. Noutros
termos, a característica ideológica singular desta facção skinhead fundamenta-se
em elementos do catolicismo. Segundo Almeida e Costa (2011), como reação à
associação da imagem skinhead ao racismo e como manifestação de uma ideologia
“genuinamente nacional”, segmentos skinheads do ABC começaram, na década de
1980, a identificar-se com o integralismo:
A partir de meados da década de 1980, vários skinheads da segunda
geração, e alguns da primeira geração que por serem muito jovens à
época não tinham posição de liderança, procuraram constituir um novo
movimento mais politizado, distante, se possível, da violência e com
alguma consistência ideológica coerente com o contexto multicultural
brasileiro, se afastando do nazismo, em contraposição aos skinheads do
“Poder Branco Paulista”. Para atender essas expectativas, grupos de
skinheads nacionalistas de várias localidades do país tomaram o
Integralismo como referencial. Entre esses skinheads, alguns passaram
a se afirmar integralistas, principalmente por influência de militantes de
organizações nacionalistas, que tentavam cooptar jovens para suas
fileiras, pois, tal como as antigas milícias da Ação Integralista Brasileira,
lideradas por Gustavo Barroso, os skinheads “verdes” seriam a nova
força nacionalista nas ruas. Eles dizem seguir o Integralismo da “linha
de Gustavo Barroso” e se autoproclamam skinheads de “Terceira
Posição”, ou seja, nacionalistas (ALMEIDA & COSTA, 2011, p. 7).
A relação entre skinheads que se apresentam como seguidores da ideologia
do sigma e os integralistas organizados é polêmica, 11 pois, para os militantes
11
“Cito dois exemplos desses momentos de tensão. Um deles ocorreu durante o evento em
comemoração ao Dia do Trabalho, na década de 1980, na Praça da Sé (SP). O evento, organizado
por partidos, sindicatos e organizações de esquerda sofreu uma tentativa de invasão por parte de um
grupo de nacionalistas, encabeçado por Anésio Lara Campos, com a participação de alguns ‘Carecas
do Subúrbio’. Segundo alguns entrevistados que estavam presentes no evento, Anésio foi acusado
de manipulá-los provocando assim a prisão de vários membros dos ‘Carecas’, enquanto ele saiu
incólume. Pouco tempo depois, Anésio seria agredido por alguns desses skinheads. O segundo
exemplo foi uma discussão entre o militante integralista Cássio Silveira e ex-membros dos ‘Carecas
do Subúrbio’, durante o I Congresso Integralista para o século XXI, realizado em São Paulo, em 2004.
Durante o debate sobre a formação do Movimento Integralista Brasileiro (MIB), a participação de
skinheads foi rechaçada por Cássio Silveira, por considerá-los muito violentos. Tal acusação foi
rebatida pelos ex-menbros do grupo, justificando a aceitação dos skins, pois para eles esses grupos
podem ser considerados a ‘porta de entrada’ para os jovens que se interessam pelo nacionalismo”
(ALMEIDA & COSTA, 2011, p. 6).
86
integralistas, os skinheads, em sua maioria, são estigmatizados como desordeiros e
violentos, ao passo que, para os skins, os integralistas são vistos como muito
“intelectualizados” e pouco propensos à ação direta:
A relação entre os skins “verdes” e outros militantes do Integralismo é
marcada por momentos de aproximação e tensão, pois muitos militantes
das organizações integralistas viam e vêem com certa apreensão, a
inclusão de skinheads em seus grupos. Essa apreensão é motivada pela
imagem estigmatizada do grupo e pela consequente repercussão
negativa na imprensa; pela conduta violenta de alguns membros e pelos
possíveis conflitos com grupos rivais, como punks e “Antifascistas”;
pelas discordâncias doutrinárias (como a questão do antissemitismo e a
negação do Holocausto); pela ameaça de deturpação da doutrina; pela
falta de disciplina e recusa de muitos skins de abandonar seu estilo,
especialmente no que diz respeito à estética visual belicosa. Os skins
criticavam e ainda criticam os militantes integralistas “tradicionais” por
considerá-los
manipuladores
e
indivíduos
demasiadamente
“intelectualizados” e não realizarem atividades do tipo “ação direta” nas
ruas (ALMEIDA & COSTA, 2011, p. 6).
Como apontam Almeida e Costa (2011), entretanto, os segmentos de
skinheads brasileiros denominados “carecas” identificam-se com o nacionalismo e
com o culto à Plínio Salgado, bem como vinculam-se a elementos ideológicos, a
exemplo do anticomunismo e de valores conservadores, estes últimos representados
pelo primado da religião e da ordem social sob fundamentos moralizantes:
Estes skins buscam constituir um movimento autônomo com uma
identidade política própria, sincretizando elementos da cultura skinhead
(em especial a estética visual e sonora) com elementos de organizações
e partidos “tradicionais”, como a simbologia e algumas ideias de força,
no sentido de se apresentar como uma continuidade desses
movimentos, adaptados aos tempos modernos. Criam assim, não só um
movimento autônomo, mas o que podemos chamar de uma “ideologia
skinhead”. Neste sentido, o lema “Deus, Pátria e Família” foi apropriado
pelos skins por sintetizar, segundo relatos, a essência de um verdadeiro
nacionalista e por dar sentido e consistência ideológica à existência ao
movimento local. Desta maneira, os skinheads entusiastas do
Integralismo têm como principais características identitárias o
anticomunismo, o repúdio às drogas e ao aborto, a homofobia, o
antirracismo, o antisionismo, o antiliberalismo, a xenofobia, a defesa do
87
Estado forte e interventor e dos valores cristãos. Ainda assim, não é
totalmente correto afirmar que um “abismo” divide esses dois grupos,
pois existem skins que se mantêm ligados a alguns dos grupos citados
e há certo respeito pelas partes, em especial aos militantes integralistas
de longa data. Também não é incomum, em eventos como os desfiles
cívico-militar, em comemoração aos aniversários da Revolução
Constitucionalista de 1932 e da Independência do Brasil, a convivência
respeitosa entre militantes integralistas “tradicionais” e skinheads
(ALMEIDA & COSTA, 2011, p. 7).
Conforme assinalam os pesquisadores em questão, independentemente das
divergências ideológicas entre facções skinheads e grupos nacionalistas, existem
elementos que comprovam a articulação entre eles. Neste sentido, os autores
destacam o papel de Anésio Lara Campos, importante militante integralista entre as
décadas de 1980 e 1990, que buscou tornar os skinheads próximos da ideologia
integralista.12
Nacional-socialismo brasileiro: PNSB e os skins “White Power”
Em 1985, foi fundado o Partido Nacional Socialista Brasileiro (PNSB) por
Armando Zanine, 13 antigo oficial da Marinha. A base deste nacionalismo é a
12
“As relações e contatos entre esses skinheads, particularmente os ‘Carecas do Subúrbio’,
ocorreram, ainda que eventualmente surgissem discordâncias de algumas lideranças com o PNSB.
E, portanto, apesar dos ‘Carecas do Subúrbio’ negar a proximidade com o ideário defendido pelo
PNSB, em 1989, durante as comemorações dos 100 anos do nascimento de Adolf Hitler, membros
dos ‘Carecas do Subúrbio’ e skinheads do PNSB estiveram, como no caso de São Paulo, presentes
nas comemorações realizadas em várias localidades do Brasil. Entre os integralistas que se
aproximaram dos skinheads, uma figura de destaque foi o advogado A. L. C., anticomunista,
monarquista, defensor da ideia de um Estado cristão, no qual a autoridade do estado viria de Deus.
Ele também negava a existência do Holocausto, apoiava o revisionismo histórico e ainda afirmava que
entre os integralistas existiam centenas de membros representantes da ‘mistura de todas as raças’
formadora do povo no Brasil” (ALMEIDA & COSTA, 2011, p. 253 e p. 257).
13
“Nascido no Rio de Janeiro, em 1930, Armando Zanine, um oficial da Marinha Mercante e exmilitante do Partido Socialista Brasileiro, tornou-se conhecido ao fundar, em 1985, o PNSB (Partido
Nacional Socialista Brasileiro), baseado no partido nazista alemão. Esse partido, que se denominava
sem rodeios de nazista, pleiteou por várias vezes o seu registro junto ao Tribunal Superior Eleitoral, a
fim de lançar candidatos próprios aos diversos cargos políticos, obtendo a rejeição do TSE em todas
as suas investidas, por se chocar com vários pontos do artigo 17 da Constituição Brasileira, que se
refere a liberdade de criação de partidos políticos desde que sejam resguardados os direitos
fundamentais da pessoa humana. Ainda que não tenha sido legalmente registrado, o PNSB, dissolvido
a poucos anos, contava com filiados em vários estados brasileiros, como Rio de Janeiro, São Paulo,
Bahia, Espírito Santo, Santa Catarina e Paraná. O seu principal grupo de sustentação era o movimento
dos ‘carecas’, considerados os skinheads brasileiros” (GUIMARÃES, 2000a, p. 451).
88
construção do que seu fundador denominava de “raça brasileira”, para a qual seriam
aceitas pessoas de todas as “raças e religiões”:
Nas entrevistas concedidas à imprensa, Zanine — simpatizante das
ideias de Hitler, Mussolini e Enéas Ferreira Carneiro (“os carecas e o
Enéas foram as melhores coisas que surgiram nesses últimos anos no
que se refere a Brasil”) — expõe com convicção e sem hesitar o seu
pensamento nitidamente conservador que tem atraído muitos adeptos
provocado grande polêmica. A base de seu raciocínio é o nacionalismo
exacerbado, xenófobo, apoiado na construção do que denomina de
“raça brasileira”, para a qual seriam aceitas pessoas de todas as raças
e religiões “obrigatoriamente brasileiras”. Ao contrário do racismo
nazista, mestiços e negros seriam bem-vindos já que “raça ariana só
existe na Europa” (GUIMARÃES, 2000a, p. 451).
O PNSB tentou, por várias vezes, o seu registro junto ao Tribunal Superior
Eleitoral, a fim de lançar seus candidatos em eleições, obtendo do TSE rejeição todas
as vezes, devido às garantias constitucionais que repudiam qualquer forma de
apologia ao nazismo. Ainda que não tenha sido legalmente registrado, o PNSB
contava com uma articulada rede de comunicação de âmbito nacional, composta de
militantes distribuídos em vários Estados brasileiros, sobretudo nas regiões Sul e
Sudeste, mas também em Estados do Nordeste, como o Sergipe e a Bahia.
Sob este enfoque, a base do pensamento nacional-socialista ganhou novos
traços e significados, tanto históricos como locais. Os integrantes do PNSB, assim,
são nacionalistas ferrenhos no sentido político e pautam-se pelos princípios de
caráter
distributivistas
e
igualitários,
porém
restringem
seus
benefícios
exclusivamente aos membros de suas comunidades, ou seja, àqueles que
compartilham uma espécie de sentimento de pertencimento às comunidades
imaginárias, norteadoras das concepções destes grupos. Nas décadas de 1980 e
1990, em específico, o PNSB teve como principal núcleo de sustentação os
“Carecas” — grupo surgido como um desdobramento dos skinheads europeus —,
cujos membros buscavam a construção de um movimento de “cabeças raspadas”
genuinamente nacional.
89
No blog Nacional socialismo em rede, 14 por exemplo, os internautas têm
acesso a vários vídeos do youtube sobre a atuação de organizações nacionaissocialistas em diversos países. Além disso, há um site intitulado Partido Nacional
Socialista Brasileiro,15 em que a utilização da suástica e de outros símbolos nazistas
articula-se à propaganda que busca apresentar uma releitura do nacional-socialismo
adaptado à realidade brasileira. Clicando no link “ativismo”,16 abrimos o texto “Leis
do lobo solitário”,17 cuja revisão, segundo dados do site, foi elaborada pela “diretoria
do PNSB”, o que coloca em evidência a continuidade da ação deste grupo. Não se
sabe, porém, se existe uma relação direta entre os antigos e os novos militantes do
PNSB. No texto mencionado, são colocadas, de forma explícita, estratégias para que
o “lobo solitário” haja com eficiência e descrição nas suas atividades de militante
nacional-socialista. A referência aqui de parte do texto tem o intuito de fazer com que
os leitores reflitam sobre o seu conteúdo velado, ou seja, o estímulo à violência
veiculado livremente na internet.18
É interessante, tendo em vista a diversidade dos grupos chauvinistas na
contemporaneidade, a bricolagem formada pelos herdeiros das ideologias violentas.
Na perspectiva desta investigação, militantes do PNSB, skinheads nacionaissocialistas e integralistas representam o aspecto do irracionalismo e o retorno à
14
Disponível em: <http://nacionalsocialismoemrede.blogspot.com>. Acesso em: 14.5.2009.
15
Disponível em: <http://nacional-socialismo.com>. Acesso em: 14.5.2009.
16
Disponível em: <http://nacional-socialismo.com/Ativismo.htm>. Acesso em: 14.5.2009.
17
Disponível em: <http://nacional-socialismo.com/LoboSolitario.htm>. Acesso em: 4.4.2009.
18
“Qualquer um é capaz de ser um Lobo Solitário. Resistência é um estilo de vida, basta ter
perseverança e fé na Revolução Nacional-Socialista. Sucesso e experiência virão com o tempo.
Sempre comece aos poucos. Saiba ponderar ‘custo-benefício’, riscos e objetivos de cada ação.
Conhecimento é poder. Aprenda com seus erros e com os erros dos outros. Nunca se apresse ao
fazer nada, tempo e planejamento são as chaves do sucesso. Quanto menos um estranho souber,
mais seguro e mais chances de sucesso você terá. Mantenha sua boca fechada e seus ouvidos
abertos. Nunca confesse nada, ou mesmo diga coisas que você acredite que não venham a
comprometer o grupo ou sua ação individual. [...] Lembre-se, até as menores coisas farão diferença.
Nunca deixe nenhum registro de suas atividades que possam te conectar à mesma. Tenha em mente
que repetir as atividades na mesma área irá deslocar a atenção possivelmente a você. Quanto mais
você mudar suas táticas, mais efetivas elas serão. [...] Não descartamos a possibilidade de existir
uma hora quando pequenas células e Lobos Solitários se envolverão em uma alta estrutura, uma
grande organização com grandes líderes. E essa é a proposta no PNSB, em longo prazo. Mas essa
hora não é agora e parece estar longe de se realizar, pelo menos feita uma leitura atual da situação.
Tenha a consciência de que o seu ativismo pode significar não mais do que a preparação para as
futuras gerações – ‘manter acesa a chama do NS’ – e que isso de forma alguma representa um fator
de desânimo para o militante” (Trechos do texto “Leis do lobo solitário”, idem, ibidem).
90
insanidade caracterizada pelas práticas violentas e excludentes destes grupos.
Neste sentido, como desdobramento da cultura política de decadência ideológica e
do irracionalismo (LUKÁCS, 1959), é possível a análise comparativa das atuais
formas de organização de determinados segmentos skinheads como uma dimensão
da generalização da cultura da violência que marca muitas organizações de
formação miliciana e de valores segregadores. Porém, existem algumas
diferenciações ideológicas entre aqueles que se apresentam como “cabeças
raspadas”; desse modo, diversas tendências devem ser consideradas quando
enfocamos a cultura skinhead como objeto de análise de certas expressões do
comportamento político-juvenil.
As diferenças entre militantes e organizações que fazem apologia às
concepções ideológicas de Adolf Hitler devem ser destacadas, pois, no Brasil e em
outros países, nem todo nazista é skinhead, ainda que o “White Power” se apresente
como nazista. Entretanto, muitos militantes das organizações contemporâneas
nacionais-socialistas não têm vínculo ou relação direta e explícita com grupos skins.
Nesta lógica, nem todo skinhead ou “careca” é necessariamente um apoiador do
nazismo enquanto ideologia; porém, muitos compartilham de determinados valores
difundidos pelos intelectuais da suástica, como evidenciou o estudo de Márcia Costa
(1993) sobre os “Carecas do Subúrbio”. Assim, é possível considerar que algumas
características da cultura skinhead têm relação com as as práticas e valores políticos
de caráter fascistizante.
Considerações: skinheads, chauvinismo e violência
Existem várias facções skinheads, nem todas aderem aos mesmos
componentes ideológicos, embora o chauvinismo seja a marca identitária mais
expressiva entre as duas vertentes analisadas aqui de forma suscinta: os “Carecas
do Subúrbio”, autodenominados antirracistas — porém conservadores, homofóbicos
e violentos — são portadores de pressupostos chauvinistas, sendo o integralismo
fundamento ideológico singular entre outras vertentes skinheads de âmbito nacional.
Somam-se a este mosaico de insanidade os nacionais-socialistas, representados
pelo grupo skinhead “White Power”, marcado por características ideológicas de
racismo, homofobia e xenofobia.
91
Ambas as vertentes são relativamente organizadas nas grandes cidades, em
grupos autônomos; o “White Power” é o segmento mais singular, fato que exacerba
os antagonismos deste grupo com os demais. Por outro lado, em cidades do interior,
onde existem poucos skinheads, é comum a presença, em eventos musicais ou em
manifestações públicas, de militantes de grupos diferentes, o que ocasiona, muitas
vezes, a tolerância entre esses membros, devido ao respeito pela cultura skin e pelos
valores nacionalistas.
O movimento skinhead no início do século XXI é segmentado, isso deve ser
ressaltado para evitarmos generalizações deficitárias. A cultura
skinhead
caracteriza-se por tendências ideológicas distintas. Embora nem todos segmentos
skinheads sejam racistas, a violência é um elemento comum na maioria deles, o que
pode ser percebido, por exemplo, nos embates ocorridos entre skins neonazistas e
antinazistas.
Tendo em vista os confrontos entre as diversas tendências de grupos
skinheads, mais um fato sobre a violência difundida pela cultura skinhead foi
noticiado. Nesse caso, durante um show realizado na cidade de São Paulo, em 4 de
setembro de 2011, ocorreu um conflito envolvendo grupos skins neonazistas e
antifascistas.19 As ações dos “cabeças raspadas”, nesse contexto, evidenciam seus
reais valores. A esse respeito, também é emblemático o caso em que dois
adolescentes — ambos com cabelos compridos e trajando camisetas de bandas de
rock — foram atacados por “carecas” em um trem na região metropolitana de São
Paulo, em 7 de dezembro de 2003.20 O adolescente Flávio Augusto do Nascimento
19
“Briga de skinheads na zona oeste de SP deixa um morto. Uma briga envolvendo cerca de 70
membros de diferentes gangues de skinheads deixou ao menos uma pessoa morta e outra
gravemente ferida, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, neste sábado. Gangues de skinheads
neonazistas, entre elas a Front 88 e a Terror Hooligan, estavam na porta da boate Carioca Club, na
rua Cardeal Arcoverde, onde a banda de punk inglesa Cock Sparrer iria se apresentar. Outra facção
de gangues skinheads, que se posicionam contra as ações fascistas, desceu a rua também em
direção ao clube. Havia cerca de 35 pessoas de cada facção. Quando as facções se encontraram,
iniciaram um confronto usando armas de fogo, facas e coquetéis molotov. Cerca de 400 pessoas
estavam na frente da boate no momento da briga. Segundo testemunhas, carros estacionados foram
depredados. A polícia usou spray de pimenta para conter o tumulto. A assessoria do HC (Hospital das
Clínicas) confirmou uma morte e um ferido em estado grave. Oito pessoas foram detidas para
averiguação e encaminhadas para o 14º DP (Pinheiros)” Disponível em: <www.folha1.uol.com.br>
Acesso em: 4.9.2011.
20
Disponível em: <www.folha1.uol.com.com>. Acesso em: 4.6.2009.
92
Cordeiro, de 16 anos, perdeu o braço direito, enquanto que Cleiton da Silva Leite, de
20 anos, morreu após traumatismo craniano. Na verdade, eles foram obrigados a
pular de um trem em movimento para não serem assassinados pelos skins dentro do
vagão. Cabe aqui reiterar que os vídeos do youtube disponibilizados na internet
possibilitam o acesso a programas jornalísticos sobre os crimes e a atuação de
grupos skinheads.
A bibliografia aqui referenciada assinala os elementos ideológicos que
revelam a aproximação entre muitas organizações skinheads no Brasil e
organizações skinheads atuantes em diversos países. De qualquer forma, alguns
sites e blogs disponibilizados por skinheads pregam a não violência entre eles,
embora sejam minoritários, se comparados à grande maioria dos grupos de
“cabeças raspadas”. Esse grupo minoritário representa os defensores da vertente
skin tradicionalista e preza, em especial, a cultura, a estética e a musicalidade do
movimento. De fato, a popularização da cultura skinhead em diversos países
contribuiu para que muitos jovens crescessem em um ambiente de contato contínuo
com as músicas e a estética skinhead, assimilando tal identidade como manifestação
apenas de uma cultura urbana, uma “cultura das ruas”.
Todavia, analisando as origens da cultura skinhead inglesa, a partir do final
da década de 1970, e seus desdobramentos em certos segmentos de skins na
atualidade, é pontual ressaltar os vínculos ideológicos existentes nas práticas de
muitas organizações e os valores propagados há décadas por extremistas de direita,
como a defesa do território, baseada em um paradigma chauvinista e xenófobo, e a
afirmação de suas convicções políticas através da violência contra seus antípodas.
É evidente que a cultura skinhead é multifacetada e pressupõe uma diversidade de
tendências.
Um aspecto que marca muitos skinheads é a valorização da cultura militar,
associada, sobretudo, à preparação física, ao treinamento para o combate através
de táticas de confronto, ao conhecimento de esportes de contato e, em alguns casos,
à utilização de armas brancas ou de fogo. Quanto a isso, os boletins policiais
registram o porte de armas por determinados skins, não só no Brasil, mas em outros
países, o que remete ao modelo organizacional paramilitar e corresponde às formas
93
de organização de determinados grupos skinheads. Como exemplo, o livro de Márcia
Regina Costa (1993) — elaborado a partir de várias entrevistas com “Carecas do
ABC”
21
e “Carecas do Subúrbio” — demonstra que muitos dos militantes
entrevistados articulam uma hierarquia composta de soldados e generais. Ademais,
segundo a autora, os “Carecas do Subúrbio” afirmaram que “um dia teriam um
exército de carecas para salvar o Brasil”.
Os militantes de muitas organizações skinheads apresentam em suas
práticas a afirmação de valores conservadores, fundamentados em princípios de
conduta social, sexual e familiar, com destaque para o repúdio às concepções
políticas igualitárias; em suma, essas organizações elegem o chauvinismo como
paradigma político. Os valores chauvinistas e violentos também foram expressos
pela “Juventude Nacionalista Brasileira”, organização articulada na segunda metade
da década de 1990 por segmentos dos “Carecas do ABC”, os quais buscaram se
vincular ao integralismo, no intuito de proporcionar uma identidade política nacional
aos skinheads brasileiros, uma vez que estes estavam sendo influenciados por
culturas skinheads estrangeiras, a exemplo dos skins racistas e dos vinculados ao
movimento SHARP.22
21
Modelo de skinhead surgido na região da grande São Paulo, nas cidades de Santo André, São
Bernardo do Campo e São Caetano.
22
“[...] uma parcela dos “Carecas do ABC” optou em se vincular novamente ao Integralismo e, na
segunda metade da década de 1990, estruturaram um movimento denominado ‘Juventude
Nacionalista Brasileira’ (JNB). Esse movimento articulou-se com outros grupos skinheads brasileiros
que tinham fracassado na tentativa de implantar o SHARP e adotaram elementos do Integralismo,
mesclado com a conduta skinhead, como ideologia. Tal rearticulação estava em consonância com
um processo em âmbito internacional no qual grupos skinheads nacionalistas buscavam se afastar
do nacional-socialismo e criar organizações inspiradas nos movimentos nacionalistas históricos locais
e estes, por sua, vez ligados a uma organização chamada ‘Internacional Terceira Posição’. O
Integralismo seria o movimento nacionalista local nos qual os skinheads dos anos 1990 se inspirariam.
Basicamente, havia dois polos da JNB: um em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e o outro
em Niterói (RJ), formado pelos skinheads daquela localidade, além de núcleos em Fortaleza (CE),
Barra do Piraí (RJ) e Porto Alegre (RS). Em entrevista ao jornal Diário do Grande ABC, em 1995,
membros da JNB do ABC paulista afirmaram que objetivo do movimento recém-criado era ‘despertar
um instinto patriótico, nacionalista e defender os interesses nacionais até pegando em armas se for o
caso’; consideravam Plínio Salgado e Gustavo Barroso seus ideólogos, acusavam o então presidente
Fernando Henrique Cardoso de ‘entreguista’, não admitiam a homossexualidade, o consumo de
drogas e o capital estrangeiro investido no país. Também não aceitavam envolvimento com a
criminalidade por parte de seus membros, e ainda diziam acreditar que tanto Hitler quanto Mussolini
tinham sido ‘úteis à suas nações’, mas que as ideologias nacional-socialista e fascista eram
incompatíveis com a realidade vivida no Brasil” (ALMEIDA, 2011, p. 253 e pp. 259-260).
94
A atuação dos movimentos e partidos políticos chauvinistas é complexa e
difusa, tendo em vista que se faz presente desde o início do século XX, em diversos
países, ganhando configurações e perfis distintos em cada época histórica. Assim,
tais grupos podem atuar na sociedade como gangues de skinheads ou através de
grupos políticos mais estruturados, como é o caso das organizações políticas sem
registro partidário, a exemplo dos integralistas contemporâneos ou dos nacionaissocialistas brasileiros do PNSB.
Entre as expressões chauvinistas, as manifestações regressivas dos
skinheads nacionais-socialistas e integralistas contribuem para a configuração de
um panorama diversificado, caracterizado por formas de nacionalismo extremado,
instrumentalizado como fundamento para as práticas violentas dos ativistas destas
respectivas organizações.
__________________________
Fontes
Carecas: Força Nacionalista Disponível em: <www.youtube.com>. Acesso em: 14.4.2012.
Carecas e nacionalistas unidos Ativismo
<www.youtube.com>. Acesso em: 14.4.2012.
7
de
setembro.
Disponível
em:
FOLHA DE S. PAULO. Skinheads se apresentam à polícia de Mogi das Cruzes em SP.
Disponível em: <www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 4.6.2009.
PARTIDO NACIONAL-SOCIALISTA BRASILEIRO. Ativismo. Disponível em: <http://nacionalsocialismo.com/Ativismo.htm>. Acesso em: 14.5.2009.
________.
Leis
do
lobo
solitário.
Disponível
socialismo.com/LoboSolitario.htm>. Acesso em: 4.6.2009.
em:
<http://nacional-
SASSAKI, Raphael. Briga de skinheads na zona oeste de SP deixa um morto. In: Folha de S.
Paulo, 4.9.2011. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 4.9.2011.
95
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nacionalistas contemporâneos. In: LUSTOSA, Rogério V. (Org.). À Direita da Direita. Goiânia:
Editora PUC-GO, 2011.
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GONÇALVES, Leandro Pereira & SIMÕES, Renata Duarte (Orgs.). Entre tipos e recortes:
histórias da imprensa integralista (vol. 2). Guaíba/RS: Editora Sob Medida, 2012.
________. Integralismo e ideologia autocrática chauvinista regressiva: crítica aos herdeiros
do sigma. Tese (Doutorado em Ciências Sociais). Universidade Estadual Paulista, Marília,
2012.
BARBOSA, Jefferson Rodrigues. Entre milícias e militantes IV: neointegralistas ou
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contemporâneo.
In:
PassaPalavra,
jul.
2009.
Disponível
em:
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CAMUS, Jean-Yves. Skinheads. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; MEDEIROS, Sabrina
Evangelista; VIANNA, Alexander Martins (Orgs.). Dicionário crítico do pensamento da direita.
Rio de Janeiro: FAPERJ/Mauad, 2000.
COSTA, Márcia Regina. Os “Carecas do Subúrbio”: caminhos de um nomadismo moderno.
Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1993.
FLORENTÍM, M. Guia da Europa Negra: sessenta anos de extrema direita. Portugal:
Publicações Europa América, 1994.
GUIMARÃES, Valéria Lima. Armando Zanine. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da;
MEDEIROS, Sabrina Evangelista; VIANNA, Alexander Martins (Orgs.). Dicionário crítico do
pensamento da direita. Rio de Janeiro: FAPERJ/Mauad, 2000.
LUKÁCS, G. El asalto a la razón. México: Fundo de Cultura Economica, 1959.
96
A burguesia dependente-associada
e a crise: o Instituto Millenium em
suas análises sobre 2008
Lucas Patschiki1
Introdução
O Instituto Millenium (IMIL) foi fundado em 2005 pela economista Patrícia
Carlos de Andrade, sendo chamado, naquele momento, de Instituto da Realidade
Nacional.2 Seu “manifesto” afirma que foi lançado “com a finalidade de promover
valores e princípios de uma sociedade livre”, dentre os quais destacam-se:
“liberdade individual, propriedade privada, meritocracia, estado de direito, economia
de mercado, democracia representativa, responsabilidade individual, eficiência e
transparência” (IMIL, on-line).3 Ademais, o instituto é responsável por organizar uma
série de conferências e palestras, debates e colóquios públicos, além de manter um
“canal” de televisão on-line (transmitindo programas por podcast); um boletim
eletrônico; um projeto para “sala de aula”; e diversas campanhas (geralmente
veiculadas através de anúncios em revistas e jornais de grande circulação). Também
reúne atualmente uma equipe fixa de 10 pessoas e mais de 200 colaboradores,
sendo a maioria fixos (idem, ibidem).
1
Doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás. Pesquisa financiada pela Capes.
2
A troca para o atual nome aconteceu em 2006, durante o Fórum da Liberdade realizado na cidade
de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
3
Disponível em: <www.institutomillenium.org.br>. Acesso em: 15.9.2015.
97
O IMIL articula uma série de intelectuais representantes de diversos grupos
e frações da burguesia brasileira e estrangeira, trazendo questões para o debate e
a disputa, buscando produzir consenso. A atuação do IMIL busca tanto a formação
de consenso intraclasse, através do “financiamento de pesquisas de opinião
acessíveis somente aos associados e mantenedores” (SILVEIRA, 2011, s. p.), quanto
posiciona-se abertamente para a disputa ideológica, através da “promoção de
eventos abertos ao público bem como a divulgação de artigos curtos acerca de
temas diversos”, almejando a “conscientização do público”. Seus colaboradores
também atuam cotidianamente como “experts em meios de comunicação (televisão,
rádio, jornais)” (idem, ibidem). Além disso, cumpre um papel de mediador das
negociações com o Estado, mantendo discussões políticas, públicas e privadas com
legisladores. Na sua página de prestação de contas, consta que sua receita
alcançou 620 mil reais, em 2009; 1.091.000 reais, em 2010; 965 mil reais, em 2011;
e 1.071.593 reais, em 2012 (IMIL, on-line).4
Sua maior frente de atuação é on-line, o que pode ser observado na
popularidade de seu domínio na web. Conforme registra o Alexa (on-line), 5
ferramenta de ranking da internet, o IMIL ocupa, dentre todos os sites brasileiros, a
posição de 10.890, ao passo que, em comparação global, situa-se na posição
354.306. Isso demonstra um alcance altamente considerável em torno de seus
visitantes, já que, segundo informações oficiais, ele habita um universo composto de
mais de 2.763.360 de sites cuja inscrição finaliza em “.com.br” (CETIC, on-line).6 Seu
público possível corresponde a 37,4% da população total brasileira, isto é, mais de
75.982.000 de brasileiros, o que equivale a 3,6% da população mundial usuária da
rede (ECOMMERCE, on-line).7
Embora os integrantes do IMIL prefiram intitular-se simplesmente de
“liberais”, militam para o avanço e o aprofundamento do neoliberalismo como
programa histórico-social em disputa, determinado pelas relações de forças em sua
4
Disponível em <http://www.imil.org.br/institucional/prestacao-de-contas>. Acesso em: 18.9.2014.
5
Disponível em: <www.alexa.com>. Acesso em: 17.9.2013.
6
Disponível em: <http://www.cetic.br/dominios/index.htm>. Acesso em: 13.2.2012.
7
Disponível em: <http://www.e-commerce.org.br/stats.php>. Acesso em: 13.2.2012.
98
historicidade, ou seja, não sendo resultado automático das formulações de seus
teóricos; assim como nos planos militares, não é possível fixar anteriormente todos
os seus detalhes, “mas só […] seu núcleo e esboço central” (GRAMSCI, 2002, p. 25).
O IMIL afirmou-se como o maior espaço de produção de consenso para as frações
da classe dominante brasileira. É um aparelho privado de hegemonia por excelência,
dado que não está diretamente ligado às relações de produção, distribuição e venda.
Desse modo, não cumpre as responsabilidades de sindicato patronal, federação
industrial,
associação
comercial,
etc.,
atuando,
segundo
interpretação
fundamentada em Gramsci (2002, pp. 341-342), como “uma nomenclatura de classe”
que visa expandir o grupo social do qual se origina, correspondendo a “organismos
que, na sociedade civil, não só elaboravam as diretrizes políticas, mas educavam e
apresentavam os homens supostamente em condição de aplicá-las”. Ainda segundo
Gramsci “[em sociedade] ninguém é desorganizado e sem partido, desde que se
entendam organização e partido num sentido amplo, e não formal” (idem, pp. 253254).
O IMIL resulta da iniciativa de diversos atores de peso da classe dominante
brasileira, além de contar com a participação direta de representantes do capital
estrangeiro, mobilizando ampla parcela da intelectualidade a seu dispor. Sua
hierarquia interna divide-se em câmaras (câmara de fundadores e curadores,
câmara de mantenedores, câmara de instituições, além da “câmara” de
financiadores); no conselho de governança; no conselho fiscal; no comitê gestor; e
no conselho editorial.8
8
Destacam-se, nestas instâncias, nomes como os de Armínio Fraga, Gustavo Franco e Henrique
Meirelles (ex-presidentes do Banco Central); Gustavo Marini (Santander); João Roberto Marinho e Luiz
Eduardo Vasconcelos (Organizações Globo); Grupo Abril; Daniel Feffer (Suzano); Jorge Gerdau
Johannpeter (Gerdau); Ricardo Diniz (Thomson Reuters); Pedro Henrique Mariani (Banco BBM,
Latapack e Petroquímica da Bahia); Salim Mattar (Localiza); Sergio Foguel (Oderbrecht, Conselho
Nacional de Turismo); William Ling (Petropar); Jayme Garfinkel (Porto Seguro); Antonio Carlos Vidigal
(siderúrgica TenarisConfab); Helio Beltrão (Ultra e Ediouro); João Accioly (Bio100 Agroindustrial);
André de Paiva Leite (Statoil); Augusto Teixeira de Freitas (corretora Ativa); Antonio Carlos Pereira
(editor chefe do Estado de São Paulo); Eurípedes Alcântara (ex-diretor chefe da Veja, demitido
recentemente); Luiz Felipe D’Ávila (escritor e editor); Patrícia Carlos de Andrade, Paulo Guedes,
Samuel Kinoshita e Rodrigo Constantino (economistas); Carlos Pio e Eduardo Viola (cientistas
políticos); e Guilherme Fiuza e Pedro Bial (jornalistas). Dentre as instituições e entidades associadas
ao IMIL, constam a Confederação Nacional dos Jovens Empresários; Espírito Santo em Ação; Instituto
Atlântico; Instituto de Estudos Empresariais; Instituto Liberal; Instituto Liberdade; e Instituto Ling.
Disponível em: <http://www.imil.org.br/institucional/prestacao-decontas>. Acesso em: 18.9.2014.
99
As formulações políticas e ideológicas criadas e disseminadas pelo IMIL
participam diretamente das disputas da fração hegemônica da classe dominante,
sendo este aparelho privado de hegemonia espaço fundamental na produção de
consensos para a burguesia. Neste sentido, as disputas em torno do programa
neoliberal (e seu referencial) constituem linguagem comum para estruturar
consensos mínimos de modo ativo, relacionando questões e interesses imediatos
com as necessidades de reprodução ampliada do capital-imperialismo.
Deste modo, compreender as formulações desenvolvidas pelo IMIL sobre a
crise de 2008 deve superar uma análise descritiva (limitada a demonstrar as
representações de seus intelectuais), assinalando, em especial, as disputas e as
questões que guiaram as diferentes interpretações programáticas e os planos gerais
visando a intervenção de seus membros no Estado estrito e na sociedade civil. Para
tanto, iremos explorar, primeiramente, as premissas teóricas do instituto, buscando
assinalar suas disputas em torno da linguagem ideológica comum e os marcos que
orientam suas leituras sobre a realidade, de modo que possamos esclarecer como o
editorial do IMIL, a fim de constituir um ponto de vista “homogêneo” e coerente, filtra
e depura as distintas interpretações elaboradas por seus especialistas. Em seguida,
analisaremos os diagnósticos “concretos” dos especialistas e editores do IMIL sobre
a crise. Nesse momento, intentaremos verificar se existem, nessas variadas
interpretações, distintos interesses que acabam por conformar disputas abertas em
torno da construção de um consenso provisório. Por fim, examinaremos as
“soluções” e proposições políticas (positivas e negativas) sugeridas pelo IMIL, as
quais servirão para normatizar e guiar a atuação política coletiva. Esta análise
associa-se a uma pesquisa mais abrangente e nos permitirá, posteriormente,
vislumbrar a capacidade de atuação política do IMIL (sua “efetividade real”) nas
diversas relações que estabelece com a sociedade política.
A crise internacional
A crise econômica de 2008, surgida, não por acaso, nos EUA, originou-se da
crise da bolha imobiliária estadunidense que estoura naquele ano. Esta crise, como
as ocorridas no modo de produção capitalista, é resultado da superprodução de
100
mercadorias, não da escassez, sendo gerada, exatamente, em virtude do bom
funcionamento do sistema capitalista e configurando-se não como uma crise
conjuntural (que teria origem em algum evento específico), mas estrutural, capaz de
desencadear uma série de outras crises. Segundo os membros do Observatório
Internacional da Crise:
Desde o surgimento do capitalismo existiram crises cíclicas e periódicas,
de menor ou maior intensidade, extensão e duração. Desta vez, no
entanto, trata-se de uma crise nova, com características distintas; é uma
crise mais extensa, profunda multidimensional e com alcance global.
Nós nos referimos, mais que a outra crise cíclica do capitalismo, a uma
grande crise estrutural no marco de uma “Crise da Civilização”, com o
potencial de eventualmente redesenhar a geografia socioeconômica e a
história planetária (DIERCKXSENS et al., 2010, p. 11).
A crise imobiliária e creditícia dos EUA origina-se, especialmente, no
chamado mercado subprime que, graças à inadimplência, corresponde a um nível
mais arriscado de investimento, garantindo lucros maiores para a empresa que
oferece este tipo de crédito. Após a bolha da Nasdaq 9 (National Association of
Securities Dealers Automated Quotations) estourar, o Federal Reserve System (FED),
para não diminuir o nível de investimentos financeiros, passou a diminuir os juros da
economia interna, tanto é que, em 2003, chegaram a cair para 1% ao ano, o que
permitiu o crescimento avassalador do mercado imobiliário americano. Assim, a
demanda cresceu de maneira drástica, já que os financiamentos e, principalmente,
as hipotecas acompanharam estas mesmas taxas. A hipoteca passou a ser a grande
alavanca para o crédito, amplamente utilizado para aquecer o mercado interno;
ademais, a necessidade de aumento da demanda não poderia excluir os “grupos de
risco” (os chamados “maus pagadores”), o que foi supostamente resolvido pelo
recurso do subprime. A Fannie Mae e Freddie Mac (duas grandes hipotecárias
estadunidenses) chegaram a deter, sozinhas, quase metade dos 12 trilhões de
dólares em hipotecas do país. Em 2008, “4 em cada 5 hipotecas [eram] vendidas e
só uma [estava] com o credor original” (SOARES, 2008). Ainda no ano de 2005 estava
constituída a bolha do setor:
9
Mercado de ações automatizado norte-americano.
101
[...] comprar uma casa (ou mais de uma) tornou-se um bom negócio, na
expectativa de que a valorização dos imóveis fizesse da nova compra
um investimento. Também cresceu a procura por novas hipotecas. [...]
Em busca de rendimentos maiores, gestores de fundos e bancos
compram esses títulos “subprime” das instituições que fizeram o
primeiro empréstimo e permitem que uma nova quantia em dinheiro seja
novamente emprestada, antes mesmo do primeiro empréstimo ser pago.
Também interessado em lucrar, um segundo gestor pode comprar o
título adquirido pelo primeiro, e assim por diante, gerando uma cadeia
de venda de títulos (FOLHA DE S. PAULO, 11.7.2008).
Noutros termos, quando não se consegue pagar a dívida inicial (a hipoteca),
um ciclo em cascata de não pagamentos é gerado, o que resulta em uma crise de
liquidez, de retração de crédito. Isso ocorreu quando o FED, a partir de 2005, passou
a aumentar os juros, aumentando, com efeito, a inadimplência, derrubando os preços
dos títulos imobiliários, o que forçou empresas e pessoas a retirar dinheiro para o
consumo, em vez de consumir e investir através do crédito. Os bancos, sem dinheiro
suficiente para cobrir tais retiradas, buscaram crédito, mas este, devido aos juros,
encontrava-se restrito; desse modo, o mercado financeiro não conseguiu garantir as
retiradas.10 Assim,
[...] entram os Bancos Centrais, injetando dinheiro a juros baixos para
garantir dinheiro no caixa dos bancos. Se isso não resolver, a solução é
abrir falência (e sim, se você tivesse dinheiro lá ele simplesmente
sumiria) ou tentar que alguém compre o banco e garanta dinheiro no
caixa. Diversos bancos tradicionais acabam sendo incorporados por
outros ainda maiores, numa tentativa de evitar uma quebradeira e, pior,
uma crise de confiança, aonde todos iriam aos seus bancos retirar seus
dinheiros e aí todos os bancos quebrariam de uma só vez (SOARES,
1.10.2008).
Mesmo que tal investimento signifique o aumento da dívida pública e,
portanto, a socialização da dívida, ele não foi capaz de promover o revigoramento
da economia. Sob este enfoque, como veremos adiante, vários países capitalistas
centrais praticamente faliram. Nos EUA, o investimento produtivo “diminuiu 24%
10
No funcionamento “normal” do mercado, os bancos trabalham com cerca de 1/3 de lastro para a
retirada dos fundos de seus clientes.
102
desde o final de 2007, o que provocou um aumento do desemprego e afetou a renda.
As dívidas sem capacidade de pagamento e a queda da renda implicam uma
contração generalizada da demanda. A crise da economia real, em outras palavras
tornou-se evidente” (DIERCKXSENS et al., 2010, p. 11). Conforme demonstra a Folha
de S. Paulo:
Em setembro do ano passado, o BNP Paribas Investment Partners —
divisão do banco francês BNP Paribas — congelou cerca de 2 bilhões
de euros dos fundos Parvest Dynamic ABS, o BNP Paribas ABS Euribor
e o BNP Paribas ABS Eonia, citando preocupações sobre o setor de
crédito “subprime” (de maior risco) nos EUA. Segundo o banco, os três
fundos tiveram suas negociações suspensas por não ser possível avaliálos com precisão, devido aos problemas no mercado de crédito
“subprime” nos EUA. Depois dessa medida, o mercado imobiliário
passou a reagir em pânico e algumas das principais empresas de
financiamento imobiliário passaram a sofrer os efeitos da retração; a
American Home Mortgage (AHM), uma das 10 maiores empresas do
setor de crédito imobiliário e hipotecas dos EUA, pediu concordata.
Outra das principais empresas do setor de financiamento imobiliário nos
EUA, a Countrywide Financial, registrou prejuízos decorrentes da crise e
foi comprada pelo Bank of America. A Countrywide responde por cerca
de um quinto de todas as hipotecas nos EUA e foi uma das instituições
mais atingidas pela crise das hipotecas “subprime”. O choque da crise
chega agora a colocar em risco as duas gigantes americanas do setor
hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac. Ambas contam com o respaldo
do governo — que pode ter de intervir e assumir o comando de ambas,
caso a situação financeira delas se agrave, segundo o diário americano
“The New York Times” (“NYT”). As ações chegaram a cair cerca de 40%.
[...] as duas empresas têm cerca de US$ 5 trilhões em débitos
assegurados. Se as duas empresas ficarem impedidas de obter novos
empréstimos — devido ao temor de que caiam em “default”
(inadimplência) —, ficariam impedidas também de adquirir hipotecas de
outras companhias do setor (11.7.2008).
Nesse contexto de “crise de confiança” — crise representada, na verdade,
pela incapacidade de estas instituições financeiras gerirem os títulos que perderam
valor (ou melhor, pela capacidade de determinarem a extração acelerada de maisvalia para cobrir o lucro que supostamente seria gerado automaticamente) — os
Estados nacionais aparecem como elementos cruciais para salvar o sistema. Os EUA
aprovaram um pacote de 700 bilhões de dólares para comprar os ativos “podres”
103
relacionados às hipotecas dos bancos e financeiras. O FED ofereceu 600 bilhões de
dólares para dívidas relacionadas às hipotecas e mais 200 bilhões, no intuito de
incentivar a oferta de crédito para o consumo. A Casa Branca ofereceu 17 bilhões e
400 milhões de dólares do “Programa de Alívio para Ativos Problemáticos” (destinado
a
empréstimos
emergenciais),
especialmente
direcionados
à
indústria
automobilística. A gestão Barack Obama complementou estas ações destinando 787
bilhões de dólares para conter, especialmente, a onda de desempregos, tendo em
vista a criação de 3 milhões e meio de empregos (O ESTADO DE S. PAULO,
9.10.2008).
Nem todos os países do mundo contavam com essa capacidade de
endividamento. Nesse caso, os primeiros afetados de maneira mais incisiva pela
crise foram Irlanda, Grécia e Portugal, que haviam endividado-se pesadamente nos
últimos 10 anos, o que contribuiu para que sua capacidade de novos empréstimos
fosse bastante reduzida. Ao mesmo tempo, eles não poderiam simplesmente
declarar moratória, pois cumprem acordos com a União Europeia e com o Banco
Central Europeu, o que mantém as taxas de juros pagas pelos governos integrantes
da Zona Euro baixas, supostamente sob a condição de que proveriam recursos e
apoio aos países da região, evitando, assim, calotes. A moratória dos países em
questão aumentaria os custos dos empréstimos feitos pelos países menores da União
Europeia, os quais já têm dificuldades em manter o pagamento de suas dívidas
externas. Os bancos credores desses países enfrentariam sérios problemas de
solvência, abrindo intervenção e necessitando de salvamento por parte das
instituições financeiras supranacionais (BBC Brasil, 29.7.2011). As exigências
impostas aos empréstimos destes países aprofundaram a expropriação dos direitos
sociais e o desmonte do Estado, trazendo-lhes consequências sociais graves. A
Grécia, desde então, encontra-se em situação de quase guerra civil (DANTAS, 2010,
pp. 79-91).
104
A crise no Brasil
No Brasil, desde a quebra do Lehman Brothers, o Estado, sob o signo da
crise, viabilizou investimentos diretos no mercado, a exemplo da liberação de quase
meio trilhão de dólares no sistema financeiro, especialmente através dos
compulsórios adicionais, visando o fortalecimento do sistema bancário e financeiro
nacional através da centralização das carteiras de créditos nas maiores empresas
do setor. O mercado financeiro ainda contou com o Banco Central como fiador para
a proteção cambial, a partir da venda de dólares ao mercado futuro. Ampliou-se a
liberação de crédito sob formas de empréstimo para as grandes empresas e para o
agronegócio, cuja parcela exportadora ainda passou a contar com a garantia de
dólares para o comércio, através do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa
Econômica Federal. A agricultura, a construção civil e demais projetos de
infraestrutura receberam crédito de quase 50 bilhões de reais, descontando a
liberação de crédito que seria destinado a investimentos futuros, como as Olímpiadas
e a Copa do Mundo. O crédito ao consumidor individual foi elevado para 10 mil reais,
com o governo subsidiando a compra de eletrodomésticos e automóveis através da
diminuição do Imposto sobre Produtos Industrializados. Segundo Leda Maria
Paulani:
Os impactos pelo lado real têm chegado aos poucos e têm vindo
principalmente da deterioração das expectativas, que poderão reverter
os indicadores relativos à formação bruta de capital fixo (ou seja,
investimento) que, a duras penas, estavam se recuperando, depois de
duas décadas de estagnação. Os investimentos governamentais como
o PAC e o pacote habitacional poderão substituir em parte o investimento
privado, mas dificilmente serão suficientes para compensar a redução
deste último. Do lado do consumo, o crédito não foi tão afetado, apesar
de certa retração no início, particularmente no que tange a
financiamento de bens de alto valor, como automóveis. [...] A
manutenção do nível de consumo tem feito que o Brasil seja visto hoje
como o paraíso das multinacionais, pois, dado o tamanho do mercado
interno brasileiro e a já famosa engorda da classe C (20 milhões a mais
de pessoas com renda para consumir alguma coisa além do essencial),
nossa economia tem sido vista como uma alternativa de obtenção de
lucros num mundo em retração. O grande problema é que o consumo
não tem dinamismo para puxar a economia, como o tem o investimento,
e consumo puxado por crédito não é sustentável no longo prazo, como
105
nos mostra o espelho americano. Esse arranjo macroeconômico, em que
o investimento está novamente ameaçado de reversão e em que um
consumo puxado por crédito aparece como o elemento dinâmico, está
de forma evidente completamente invertido, mas é um arranjo típico de
um processo de acumulação em que a finança está no comando,
fomentando o crescimento de riqueza fictícia (PAULANI, 2009, p. 35).
Essa série de medidas — associadas a diversas complementações nos
quatro anos seguintes — buscaram deixar o país apto a enfrentar a crise. Todavia,
tais medidas pressupõem investimentos diretos do Estado na economia, sem
nenhum controle ou garantia sobre eles, visto que são feitos através de empréstimos,
crédito e abono fiscal. O Brasil, desse modo, aprofundou o processo de
monopolização da economia em torno de conglomerados transnacionais, mantendo
elevados os lucros dos bancos privados do país e garantindo o pagamento dos juros
das dívidas externa e interna. Nesse contexto, foram emitidos, entre 2009 e 2010,
mais de 180 bilhões em títulos da dívida interna para os financiamentos do BNDES,
o que, graças ao forte arrocho, resultou na sequência de superávits recordes (O
ESTADO DE S. PAULO, 9.4.2009).
A crise configura diferentes reações em diferentes formações sociais. Sob
este enfoque, o Estado assume papel de protagonista, pois, como já foi dito, é o
único agente capaz de sociabilizar as perdas privadas, adotando medidas de
austeridade e, ao mesmo tempo, gerindo as forças de repressão de forma
nacionalmente integrada. O Estado é o único agente capaz de garantir a reprodução
ampliada do capitalismo financeirizado. Sob a declaração enfática de que
determinados conglomerados financeiros privados são “grandes demais para
quebrar”,11 os países capitalistas centrais colocaram-se como fiadores últimos do
sistema econômico “tal como ele já existe”, ou seja, deram a prerrogativa para que
os bancos e financeiras agissem da maneira que lhes conviesse. As ações em torno
da austeridade foram exigências dos organismos supranacionais que compõem a
11
Segundo Maria Lucia Fattorelli (apud SILVA, 2015), “os bancos privados criaram derivativos em
cima de derivativos. Papéis podres que estavam inundando seus balanços. Ou seja, eles estavam
quebrados, mas foram considerados grandes demais para quebrar e continuaram com seus
patrimônios intocáveis. [Contudo] quem está assumindo esse ônus são os países, e é um ônus que
não tem fim”.
106
teia do capital-imperialismo (FMI, Banco Mundial, Troika, etc.), ao passo que as ações
em torno da sucessiva violência estatal ocupam-se da luta de classes, delimitada ao
território nacional-estatal (como processo de derrota do internacionalismo
revolucionário). Ambas as ações são, de fato, exigidas pela classe dominante em
luta aberta contra sublevações das classes populares e trabalhadoras. Segundo
Panayota Gounari (2014), que analisa a crise na Grécia:
Este experimento neoliberal, como implementado atualmente na Grécia,
gera destrutividade e morte e ressoa com formas de “necrofilia social”.
Por necrofilia social, me refiro ao contundente esforço organizado por
parte do sistema político doméstico e centros neoliberais estrangeiros
para implementar políticas econômicas e medidas de austeridade que
resultam em destruição física, material, social e financeira de seres
humanos: políticas que promovem morte, seja física ou simbólica. O
objetivo da ofensiva capitalista em curso na forma da doutrina neoliberal
é o de destruir simbolicamente e fisicamente os estratos mais
vulneráveis da população, para colocar a sociedade inteira em um
estado moribundo, para impor medidas de austeridade sem
precedentes e assim gerar mais lucro para as classes mais privilegiadas
internacionalmente (GOUNARI, 2014).
Essas medidas, impopulares e antipopulares, necessitam, para sua
validação, da anuência de parte da população que lhes garanta base social de
suporte. Não por acaso, é nesse contexto que se percebe um forte crescimento dos
projetos fascistas, ora diretamente representados, caso da Ucrânia, ora tendo suas
pautas diluídas pelo campo político. No caso brasileiro, a violência se deu pela
quebra do “pacto social” lulista, o que corrobora a forma política de submissão
petista aos desmandos do capital. Não há possibilidade nenhuma de se conceber
um pacto social amplo em torno de um programa político-econômico entre atores
histórica e estruturalmente desiguais, com interesses contraditórios. Os atores e
movimentos sociais que foram às ruas no Brasil, nos dois últimos anos, conheceram
a violência da “direita” tradicional e da “esquerda” transformada. Lembrando as
possibilidades que a crise oferece ao aprofundamento da ofensiva do capital, via
“doutrina do choque”, como entende Naomi Klein: “o estado de choque é facilmente
explorável porque as pessoas tornam-se vulneráveis e confusas. Elas são privadas
de suas ferramentas vitais para entenderem a si mesmas e suas posições no contexto
sociopolítico”.
107
A crise segundo o IMIL
Partindo do pressuposto de que a crise aprofunda as relações sociais
capitalistas, aumenta a taxa média da exploração e sociabiliza, via Estado, as perdas
anteriores, tudo nos levou a crer que o IMIL teria uma leitura, se não positiva, ao
menos “empreendedora” daquele momento, aos moldes schumpeterianos, nos
termos da “destruição criadora”.12 Entretanto, seja em virtude do lugar subalterno que
ocupam no sistema de produção e financeiro global, seja por receio do alcance
daquela crise, há uma retração analítica, o que fica explícito em artigo de Gustavo
Franco, quando retoma John Maynardes Keynes:
Há muita gente celebrando o fim do capitalismo, ou do neoliberalismo,
os termos são usados como sinônimos. [...] Embora a atmosfera esteja
carregada demais para vaticínios, parece razoável supor [...] como
disse recentemente Paul Samuelson, a economia de mercado tem cerca
de mil anos de serviços prestados, ao passo que os experimentos sob
os auspícios de Marx, Lênin, Stálin, Fidel, Chávez são nada menos do
que trágicos. Tal como a democracia, o capitalismo tem muitos defeitos,
mas bate a concorrência por ampla margem. Vale lembrar que as crises
financeiras existem desde sempre, e que invariavelmente são
combatidas por intervenções salvadoras dos governos, que terminam
fazendo o sistema mais robusto. John Maynard Keynes, tão lembrado
recentemente, foi um dos heróis na vitória sobre uma grande crise e
estava muito longe de ser hostil ao que hoje se chama de neoliberalismo.
[...] Fica-se com a impressão de que “intervenções do Estado no domínio
econômico” têm mais chances de funcionar quando feitas por gente que
acredita em mercados e que vê a intervenção como exceção, não como
regra (FRANCO, 20.11.2008).
Embora as grandes questões ainda não enfocassem os atores específicos,
responsáveis pela resolução da crise, já era atribuída ao Estado a intervenção política
sobre a economia, em ampla expectativa sobre a atuação da gestão Barack Obama
nos EUA.
Mohamed El-Erian, um dos gestores de um grande fundo de
investimentos americano e autor de “Quando os mercados colidem”
12
Em 2014, tal expressão é registrada como verbete na página “IMIL explica”.
108
(2008), apontava inevitáveis mudanças no horizonte: (1) A economia
americana tem pela frente um longo período de baixo crescimento,
enquanto se cura do endividamento excessivo. (2) O crescimento global
vai depender mais das economias emergentes. (3) Os países
emergentes, por sua vez, vão depender mais de uma dinâmica própria
de crescimento do consumo interno e menos do desempenho das
exportações (GUEDES, 20.11.2008).
Diante disso, chama-nos a atenção o fato de que sequer a linguagem comum,
a neoclássica, emerge organicamente na resolução da crise. As “soluções” são
sempre limitadas, pois o capitalismo dependente-associado periférico gestou e gere
um sistema em crise. Na conjuntura nacional — dando continuidade ao argumento
de Franco (2008) “de que ‘intervenções do Estado no domínio econômico’ têm mais
chances de funcionar quando feitas por gente que acredita em mercados e que vê
a intervenção como exceção, não como regra” —, ideologicamente amplia-se o
combate às possíveis soluções populares para a crise, atacando a gestão federal do
Partido dos Trabalhadores. Isso pode ser visualizado em um artigo que critica a
utilização de Medidas Provisórias para a contenção da crise em âmbito nacional:
[...] exemplo de desprezo à democracia veio poucos dias depois. O
ministro da Economia e o presidente do Banco Central compareceram
ao Congresso Nacional para detalhar as providências do governo no
combate à crise. Exatamente no dia seguinte, sem nenhum aviso prévio
aos parlamentares, foi editada a MP 443, que autorizou o Banco do Brasil
e a Caixa Econômica Federal a adquirirem participações em instituições
financeiras privadas. [...] ainda não houve apreciação pelo Congresso
Nacional, mas, quase certamente, a MP será aprovada em sua
integralidade. A comparação entre as soluções adotadas pelo Brasil e
pelos Estados Unidos traz um incômodo (seríamos tão democráticos
quanto se é propagado?) e principalmente, uma lembrança: não se
pode abrir mão de princípios fundamentais em nome de maior eficiência
e rapidez na tomada de decisões. Afinal de contas, em nome dessa
agilidade (ou de qualquer outro motivo estabelecido como de “interesse
público”) a democracia pode tornar-se gradativamente uma ditadura.
Que o digam nossos vizinhos sul-americanos (MOREIRA, 20.11.2008).
Esse fim — supor que uma gestão presidencial de esquerda, aos moldes de
uma democracia burguesa, carrega a possibilidade de tornar-se, de fato, um regime
de esquerda — destoa do discurso daqueles que defendem a intervenção no
109
momento da crise. Falando claramente, elogia-se a medida intervencionista, mas
com a ressalva de que esta não poderia ser instrumento de decisão do Poder
Executivo sobre as outras esferas decisórias eleitas. Existe um forte elemento de
retórica ideológica nesse posicionamento contra o Executivo, visto que o IMIL foi e é
participante ativo tanto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social do Gabinete da Presidência da República (responsável, em caráter consultivo,
pela política econômica do governo) como da Câmara de Políticas de Gestão,
Desempenho e Competitividade (responsável pela flexibilização do aparelho de
Estado). Não por acaso, Jorge Gerdau — um dos principais financiadores do IMIL e
membro destes dois conselhos (atuando como presidente no segundo) — assinala
que cabe ao Estado investir na produção e na infraestrutura e, ao mesmo tempo,
cortar despesas públicas:
O aumento da eficiência e da competitividade do agronegócio e da
indústria passa obrigatoriamente pela melhoria da infraestrutura do país.
Precisamos de estradas, ferrovias, portos e aeroportos com melhor
qualidade para exportar mais. No mercado interno, a melhoria da
logística poderá reduzir os custos para os consumidores, pois essa
atividade possui um peso importante na formação dos preços dos
produtos. Aumentar custos, neste momento, não é uma boa política.
Diante do cenário de redução de atividade econômica em que milhares
de pessoas lutam para manter seus empregos, o aumento dos salários
do funcionalismo público em 2009 parece ser, em muitos casos,
inadequado (GERDAU, 5.1.2009).
As sugestões propostas por Gerdau são contrariadas pelo próprio IMIL, o
que evidencia que existem percepções distintas entre as frações de classe que dão
conta exatamente da origem principal dos seus lucros. De qualquer forma, se essas
posições não divergem a ponto de armar o conflito, indicam que a questão ainda se
encontrava em disputa. O artigo de Alfredo Peringer (2009) é emblemático neste
sentido, onde retorna para o liberalismo, fundamentando-se nas proposições de
Adam Smith, considerando a baixa intervenção do Estado na economia como
“progresso”, o único meio de gerar verdadeiro crescimento econômico:
Infelizmente, ainda que as crises sejam o “produto de doutrinas que
atribuem a governo o poder mágico de criar riqueza do nada”, como
demonstra Ludwig Von Mises em The Theory of Money and Credit, o
110
desentendimento monetário vem levando alguns economistas a receitar,
nos períodos recessivos, a ação estatal para suprir a “falta de dinheiro”
ou de crédito. O receituário, de origem keynesiano-monetarista, é tão
falso como um bombeiro receitar gasolina para apagar um fogo. Nas
crises não há falta de dinheiro na economia. Há, naturalmente, um
aumento da demanda por moeda, provocado pelo medo e pelas
incertezas em relação ao futuro. Indivíduos, empresas e bancos
requerem, nesses períodos, mais tempo para formar suas expectativas
e tomar suas decisões de gastos, investimentos e empréstimos. Keynes
está certo ─ ao menos nisso ─ quando, referindo-se ao aumento das
injeções de moeda e crédito na economia, afirma que “não adianta levar
um cavalo à fonte, se ele não tem sede”. Só que, em vez de aceitar as
soluções de mercado (não há outras!), foi mais infeliz ainda: achou que
o governo deveria agir como agente gastador, investidor e emprestador
desses recursos na economia (PERINGER, 12.1.2009).
Peringer ainda ataca o keynesianismo porque este, supostamente, não gera
crescimento (se o fizesse de fato, seria “ilusório”), afirmando também que políticas
estatais e intervencionistas são pretexto para que a burocracia política libere mais
verbas para os seus gastos (públicos). Ambos os artigos foram publicados quando
o mercado tinha a expectativa de que a “marolinha” de Lula se tornasse um
“tsunami”, discurso fortemente vendido pelo oligopólio midiático, o que, em 2010,
poderia vir a alterar de maneira drástica as expectativas de continuidade petista na
gestão federal. Compondo um quadro de relação de forças mais crível, é convocado,
para o mês de dezembro de 2008, um Colóquio do IMIL, intitulado: “Efeitos do novo
panorama mundial sobre os valores da democracia, da economia de mercado e da
liberdade”, do qual participa uma série de debatedores do instituto e convidados:
Aloísio Araújo, Eduardo Giannetti, Ilan Goldfajn, Paulo Guedes, Alberto Carlos
Almeida, Amaury de Souza, Demétrio Magnoli e Eduardo Viola.
Na primeira parte do Colóquio, os debatedores concentraram-se em torno de
questões relacionadas ao “papel da economia de mercado como doutrina e política
econômica nos novos tempos”. A primeira ponderação deteve-se na possibilidade
de colapso da civilização ocidental em virtude da crise; quanto a isso, ressalvadas
as diferenças entre os economistas mais otimistas e mais pessimistas, todos
concordaram que a crise não ofereceria riscos à civilização ocidental, alguns
prevendo que ela demoraria mais tempos para ser superada, outros menos. Alguns
111
sugeriram, inclusive, que problemas ambientais e de escassez de recursos poderiam
ser mais desastrosos do que a crise financeira em si. Em suma, os debatedores
concordam que a crise estrutural do capital afeta-lhe a reprodução, mas dissociam
isso da sincronia da crise econômica, como se dessem conta de questões diferentes
e isoladas. Segundo Paulo Guedes (COLÓQUIO IMIL, on-line),13 “uma coisa é uma
disputa intelectual entre correntes de economistas que veem falhas de mercado visà-vis intervenções inadequadas do governo, quem tem maior responsabilidade…”,
para concluir que “embora numa crise desse tipo todos tenham. Os excessos
envolvem vários. Várias dimensões. Todo mundo tem uma parte no processo”. Aloísio
Araújo prossegue:
Realmente, se olharmos historicamente, na Grande Depressão
americana, a gente fica um pouco assustado, porque depois dali se
falou em guerra, em evolução do socialismo, do nacional-socialismo…
Uma porção de alternativas. Se a pergunta é sobre crise de valores, é
por aí. Mas eu tenho muito menos medo disso porque são hipóteses que
já foram tentadas e que tiveram fracassos muito maiores do que a crise
que a gente está tendo agora. Tenho muito mais medo de excessos
keynesianos do que de Marx. Acho que é um perigo muito maior. São
duas atitudes ruins: uma é dizer “ah, não houve nada, o mercado
funciona, de vez em quando a gente tem crise, está tudo bem”; acho
que não, a gente tem que evitar ter crises tão grandes quanto essa
(idem, ibidem).
Diante disso, Ilan Goldfajn (idem, ibidem) conclui: “acho que nossa disputa
no curto prazo é com… Quem chamar de keynesianismo, chama”, evidenciando,
assim, a ascensão do nacionalismo protecionista e a possível quebra das regras do
jogo internacional, ou seja, a defesa soberana da economia popular pelos Estados
nacionais, o que exigiria combate via cooperação em âmbito internacional, visto que
teríamos “vários exemplos de democracias autocráticas ao redor do mundo. A
começar pela Rússia, passando pelos nossos vizinhos bolivarianos, o próprio modelo
chinês…” (COLÓQUIO IMIL, on-line). 14 Como se nota, embora diferentes chaves
13
Disponível em: <http://www.imil.org.br/artigos/coloquio-millenium-parte-1/>. Acesso em: 15.9.2014.
14
Disponível em: <http://www.imil.org.br/artigos/coloquio-millenium-parte-2/>. Acesso em: 16.9.2014.
112
explicativas sejam apresentadas, elas tomam sentido no discurso do IMIL como ação
direta de um único espectro do cenário político: a esquerda. Sobre isso, Demétrio
Magnoli diz que:
A esquerda no mundo, e em particular na América Latina, já escreveu
que o socialismo não está no horizonte, mas que há uma nova fase
preparatória rumo ao socialismo que é o capitalismo de Estado. Isso não
é uma interpretação. É um programa; o chavismo se baseia nesse
programa. [...] Então, assim como a recessão traz um problema para a
economia de mercado e para a democracia política talvez traga um
problema maior para a ideia do autoritarismo político e do capitalismo
de Estado (idem, ibidem).
A solução, neste sentido, seria defender os “valores liberais”, considerando
que já existem em sociedades não liberais. Todavia, Magnoli (idem, ibidem) assinala
que nas “sociedades democráticas de massa [...] há uma série de incentivos para
se atacar esses valores [...] o Estado tem incentivos para atacar esses valores, [aqui]
esses valores são erodidos o tempo todo [...]”. Em seguida, Amaury de Souza ainda
busca afirmar que qualquer discussão sobre “estatização” pela historicidade da
formação do pensamento econômico, supostamente de esquerda, latino-americano
teria obrigatoriamente forte influência fascista:
[...] a perspectiva de que esses valores estão ameaçados necessita
explicitar uma alternativa a eles [...]. A partir da Europa Oriental,
sobretudo Hungria e Romênia, que foram os países que enfrentaram
mais de perto o impacto do fechamento do comércio internacional [em
1929], eram os emergentes da época, foram os grandes pensadores
que acabaram criando a nossa CEPAL, como Mihail Manoilescu,
Georgescu, Rötgen… Foram os romenos que vieram para a América
Latina com uma visão fascista, a bem da verdade — são dois modelos
de fascismo desenvolvimentista por excelência, e que deram na CEPAL
e na esquerda latino-americana. Mas era uma alternativa. Qual
alternativa factível temos hoje à globalização? Com alguma base
doutrinária e teórica. É o que eu me pergunto a respeito dos valores
liberais. Qual alternativa? (idem, ibidem).
113
Ao que Magnoli responde de imediato: “Qual a alternativa aos valores
liberais? A tirania”. A partir disso, o debate torna-se mais acirrado, sendo finalizado
com a fala de Amaury de Souza:
[...] o simples fato de que você tenha na América do Sul uma pressão
para que você tenha alternância de poder já mostra que você teve,
também no plano das instituições democráticas, um avanço. Portanto
esta virada dos anos 1990 não é uma virada definitiva, de que se possa
dizer: “Bem, estamos todos caminhando em direção a um modelo
populista, autoritário”, ou que isso é uma ameaça forte. Porque a
alternância de poder se tornou uma condição sine qua non de qualquer
governo na América do Sul. Vai mudar? Pode. Pode mudar. Mas o
quadro, digamos assim, de circunstâncias que seguram a volta de
governos ditatoriais a meu ver é muito forte. Voltaremos a um processo
democrático mais institucionalizado? Eu chamaria a atenção apenas
para o seguinte: em todos os casos em que tivemos essa chamada
democracia popular ou democracia direta ao estilo bolivariano, em todos
eles o que vimos ao longo dos anos foi a criação e o crescimento de
uma oposição muito mais institucionalizada e muito mais aguerrida. É o
que vem acontecendo em todos esses países. Portanto, acho que a
perspectiva de médio prazo não é tão ruim (idem, ibidem).
Tal constatação traduz a perspectiva que deve pautar os diversos
posicionamentos da burguesia reunida em torno do IMIL, o que é facilmente
amplificado graças ao controle quase completo exercido pelos membros
representantes da mídia brasileira. Esse cenário hoje passa a ser conhecido como o
ressurgimento da direita (o surgimento de uma “nova direita”, nos termos dos
próprios atores), capaz de dar base social tanto para o avanço da ação coercitiva do
Estado — visível em toda sua plenitude durante as Jornadas de Junho de 2013 e
durante os protestos ocorridos na Copa do Mundo em 2014 — quanto para o avanço
das organizações fascistas. Este movimento infiltra-se no campo político, tendo em
vista a atuação desses atores via guerra de posições, associada, em dado momento,
à capacidade midiática de propor pautas políticas (notadamente através de veículos
do Grupo Abril, um dos principais integrantes do IMIL).
A fim de cumprir a ação exploratória que buscou compreender os
posicionamentos do IMIL como históricos, sujeitos a suscitar disputas e questões
que se puseram como problemas (a burguesia é pragmática em seus interesses, não
114
há corpus doutrinário que se imagine estático diante das vias pelas quais o
capitalismo se reproduz de modo ampliado), abordaremos um texto de 2009,
reeditado em 2013, intitulado “A crise de 2008 vista por um prisma liberal”, cujo autor,
Rodrigo Constantino, agora é sacralizado pelos seus pares midiáticos como
“comentarista de direita”, graças ao seu livro Esquerda Caviar e, especialmente, à
sua coluna na Veja Online.
Muitos celebram a retomada da economia americana e, por tabela, o
sucesso das medidas adotadas pelo governo. Considero tal
comemoração precipitada. A economia americana ainda é refém dos
estímulos monetários, que terão de ser retirados em algum momento.
[...] Pretendo mostrar abaixo uma análise diferente das causas desta
crise financeira, utilizando um prisma liberal. Meu objetivo será
demonstrar que as impressões digitais do governo americano estão em
todas as cenas do crime. Em primeiro lugar, os Estados Unidos não
experimentam mercados verdadeiramente livres há quase um século. O
governo intervém ativamente usando tanto a política fiscal como a
monetária, além de inúmeras regras regulatórias. Um dos principais
preços de mercado é justamente a taxa de juros, e ela vem sendo
sistematicamente manipulada pelo governo, através do Banco Central.
A emissão de papel-moeda e as operações no open market são
instrumentos à disposição do banco central para a criação de mais
oferta monetária. [...] O Banco Central atua como emprestador de última
instância, o que é análogo a uma rede de segurança para trapezistas.
Sabendo-se a priori que esta rede de segurança estará lá para proteger
no caso de uma queda eventual, os trapezistas naturalmente irão ousar
mais nas manobras. [...] Durante sua gestão [de Alan Greenspan] no
comando do Fed, o mercado financeiro criou a expressão “Greenspan
Put”, exatamente para se referir a esta rede de segurança garantida pelo
Banco Central no caso de alguma catástrofe (CONSTANTINO, 2013).
Para não explicitar os modos pelos quais a riqueza é constituída, Constantino
foca seu ponto de vista na distribuição e no controle dessa riqueza, apagando o chão
social da economia. Assim a autonomiza como campo dotado de regras, valores e
temporalidades próprias que a fazem escapar da política, seu elemento de
instabilidade, visto que existiria um ciclo ideal que historicamente se concretizaria,
caso fossem deixadas as tarefas do mercado financeiro (entendido como sendo toda
a economia) para o próprio mercado. O colunista ainda concebe para a
irracionalidade do mercado um fator médio cíclico (nenhuma novidade sobre isso e,
115
novamente, ver Schumpeter), o que tanto escapa da historicidade do sistema, como
encobre as contradições idealizadas, exatamente por considerar o elemento
“instável” e “histórico” alheio aos desdobramentos do sistema — o que é
simplesmente mentiroso, visto o papel fundamental do Estado em sua reprodução.
O importante, afinal, é achar um “inimigo” externo que seja culpado; nesse caso,
surgem os pobres:
Mas a intervenção do governo não se restringiu à área monetária. O setor
imobiliário sempre foi foco de muita atenção por parte dos políticos, pois
a demanda pela casa própria costuma ser uma prioridade para muitos
cidadãos. Em 1977 foi criado o Comunity Reinvestment Act (CRA), com
o objetivo de obrigar bancos a emprestar uma parte dos seus ativos às
comunidades carentes. Em 1994, o governo estendeu as metas do CRA,
e em 2005, após um escândalo contábil envolvendo a Freddie Mac, o
governo resolveu punir a empresa demandando mais crédito hipotecário
para as classes de baixa-renda. Em outras palavras, o governo exerceu
enorme pressão para que o crédito imobiliário chegasse às classes mais
baixas, com menor condição de pagamento. Foi justamente este setor
subprime do crédito imobiliário que experimentou o maior crescimento
nos últimos anos, caracterizando uma verdadeira bolha que depois
estourou (idem, ibidem — grifos meus).
O autor segue listando os aparatos (estatais e privados) de regulação do
mercado, os quais seriam cúmplices da jogatina financeira, o que, em certo ponto, é
verdade, mas que não se faz em âmbito separado, capaz de efetivar-se como
verdadeiros órgãos de controle diante dos diferentes lobbies e da participação
orgânica das investidoras na política e no Estado:
Os reguladores podem até ser acusados de negligência, mas não faz
sentido falar em ausência de regulação. Como espero ter deixado mais
claro no resumo acima, as intervenções do governo americano estão no
epicentro da crise atual. Evidentemente, isso não exime de culpa os
agentes do setor privado, principalmente no mercado financeiro. De
fato, houve claros excessos fruto de irresponsabilidade de muitos
desses agentes. Mas quando todos erram ao mesmo tempo, deve-se
procurar a causa em algum fator exógeno. As manipulações que o
governo vem fazendo no mercado, principalmente no que diz respeito à
oferta monetária, explicam melhor estes erros coletivos num mesmo
momento. Enfim, aplicam-se os mesmos instrumentos causadores do
116
mal como se fossem parte da cura agora. É como tentar curar a leucemia
usando sanguessugas [...] Insanidade, como lembrou Einstein, é fazer
tudo igual novamente e esperar resultados diferentes (idem, ibidem —
grifos meus).
Após a exposição desses diversos registros, podemos entender que as
disputas em torno do discurso ideológico do IMIL não se configuram como questões
de cunho semântico, mas social, pois dizem respeito aos interesses da classe
dominante e irão estruturar a sua ação política comum, formulando consensos
provisórios. Essa diversidade de posicionamentos dentro do IMIL encontrará dado
consenso, elegerá uma explicação vitoriosa para a crise. Esta será a do artigo de
Constantino, muito mais próximo dos posicionamentos do capital financeiro.
Considerações finais
Sobre as variadas interpretações dos intelectuais do IMIL, nossa primeira
hipótese era a de que essas diferenças nos permitiriam observar conflitos entre as
distintas frações da classe dominante representadas no instituto. Durante nossa
investigação, essa hipótese não se confirmou, aliás, revelou-se exatamente o
contrário: as frações, embora distintas quanto à origem de seu capital, nivelam-se ao
Estado estrito, corolário histórico da sociedade civil no Brasil (FERNANDES, 1976).
Ademais, o Estado é o agente histórico que não só implementou e garantiu as atuais
formas de espoliação sob o modelo neoliberal (taxa de lucros e correções cambiais
absurdas em favor do capital; aumento sem precedentes das garantias para o
capital; financiamentos e isenções sem nenhuma contrapartida social; privatizações
e concessões; etc.) (GONÇALVES, 2014), como também implementou as novas
formas de superexploração sob o signo da reestruturação produtiva (FILGUEIRAS,
2005, pp. 49-56). Esse consenso é possível, porque, embora as diferentes frações
da burguesia brasileira diferenciem-se em virtude da origem de seu capital, elas
passam a compartilhar o mercado financeiro como agentes ativos. Ao mesmo tempo,
os agentes financeiros passam a explorar os setores produtivos, sobretudo aqueles
advindos das privatizações.
117
Como explica Marcos Arruda (2009, p. 50), “uma grande quantidade de
atores produtivos está continuamente tentada a investir no financeiro porque rende
mais, com muito menos esforço e risco. Então eles se financeirizam”. Aliás, se
houvesse realmente uma brecha entre os interesses dessas frações do capital, o
momento de crise seria também de acirramento do conflito, o que não ocorre.
Obviamente não ocorreu porque todos os participantes inserem-se em um contexto
de extrema acumulação — feita a um altíssimo custo social para a esmagadora
maioria da população, permitindo fortes implicações estruturais no desenvolvimento
econômico e social do país. O discurso “vitorioso” é o do aprofundamento do
arrocho, do aumento de garantias ao capital, da expropriação de direitos, da
precarização da vida, da violência estatal e da desigualdade social. Assim, “as
pessoas tornam-se coisas sem vida enquanto o mercado torna-se vivo. Enquanto as
pessoas estão perdendo a sua humanidade, com o governo abandonando suas
funções sociais e de bem-estar, [o mercado], considerado um ser vivo, passa a ser
o objeto de cuidado e preocupação” (GOUNARI, 2014).
__________________________
Fontes
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________. Efeitos do novo panorama mundial sobre os valores da democracia, da economia
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(parte
2),
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Disponível
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120
A direita “filantrópica”:
o Rotary Clube em debate
Marcos Alexandre Smaniotto1
Podemos afirmar que o estudo da direita e do conjunto de seus projetos e
ações políticas é importante quando o que se procura é o entendimento, mais claro
e objetivo, das estratégias e táticas da classe dominante na manutenção e/ou
ampliação de seu poder, procurando constituir, estruturar ou manter a sua
hegemonia sobre a classe trabalhadora. Neste sentido, o desenvolvimento da
pesquisa sobre a formação e atuação da Guarda Mirim2 levou-nos a entender outras
organizações das frações da classe dominante, dentre elas o Rotary Clube.3 Foi no
intuito de demonstrar um pouco da atuação local desta organização internacional
que produzimos este artigo. Este estudo, portanto, não é desinteressado ou
imparcial, mas visa criar algumas induções e deduções para aqueles que se
antagonizam com a visão de mundo burguesa na luta de classes, de modo que
possam ter, por seus “prismas”, um canal de interpretação.4
1
Doutor em História pela Universidade Federal de Grande Dourados.
2
O texto aqui apresentado é parte da pesquisa realizada para a confecção da dissertação de
mestrado em História A Burguesia Rondonense em Ação: a formação e atuação da Guarda Mirim
(1966-1979), realizada na Unioeste – Campus de Marechal Cândido Rondon – e defendida em 2008.
Cabe destacar, ainda, que o texto foi modificado e ampliado no que se refere à teoria e à prática,
criando, assim, as condições mínimas necessárias para aqueles que desconhecem o clube
minimamente entenderem-no em sua composição político-ideológica.
3
Quando nos referirmos ao Rotary Clube de Marechal Cândido Rondon, estamos falando do Rotary
Clube Marechal, fundado em 23.6.1969, o primeiro a se estabelecer no município. Cf.
<http://rotarymarechal.blogspot.com.br>.
4
Trata-se, como alertava Antonio Gramsci, de indicar a possibilidade e “A capacidade do intelectual
profissional de combinar habilmente indução e dedução, de generalizar sem cair no formalismo vazio,
de transferir certos critérios de discriminação de uma esfera a outra do julgamento, adaptando-os às
121
A pesquisa utilizada para a elaboração deste texto deteve-se nos arquivos
do noticiário Frente Ampla de Notícias, da Rádio Difusora do Paraná, e abrange os
anos de 1966 a 1976. Este exaustivo trabalho na busca de fontes mostrou as ligações
entre os grupos organizados em interesses comuns, como o Rotary Clube, o Lions
Clube, a Câmara Júnior, a Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de
Marechal Cândido Rondon (Acimacar), igrejas, clubes locais, sindicatos patronais e
a própria Rádio Difusora. Neste sentido, cabe ressaltar que o texto não aborda,
especificamente, a discussão sobre a análise do discurso jornalístico, ou seja, as
reportagens foram analisadas tendo em vista informações sobre a atuação políticoideológica dessas entidades em Marechal Cândido Rondon. Acreditamos, dessa
forma, que as manifestações, individuais ou coletivas, públicas ou privadas, são a
indicação da relação direta com a realidade concreta em que estas pessoas ou
grupos estão inseridos. Noutros termos, as reportagens da Rádio Difusora
expressam a vontade de determinadas frações de classe, organizadas em um ou
mais “aparelhos privados de hegemonia” e/ou em uma ou mais extensões do Estado
em sentido restrito — conceitos que serão debatidos mais adiante. Acreditamos que
o entendimento dialético sobre o Rotary Clube e suas ações de classe deve partir
daquilo que é aparente, ou seja, da própria definição do clube sobre ele mesmo e
do senso comum que o envolve. Com o auxílio da teoria — desde o início
apresentada — e das fontes históricas proporcionadas pelo estudo de caso,
poderemos desenvolver alguns contrapontos a essa visão, matizando e
problematizando a entidade, reconstruindo uma visão que preservará elementos
iniciais de sua formação, mas trazendo outros, antes “submersos” e escamoteados
devido à predominância do senso comum em relação ao Rotary.
Existem teorias sociais sobre a sociedade capitalista, suas formas de
organização, funcionamento, estrutura econômica e organização ideológica (política
e cultural) que, embora sejam diversas nas suas bases interpretativas, defendem,
em
última
instância,
a
manutenção
do
modo
capitalista
de
produção.
novas condições, etc., constitui uma ‘especialidade’, uma ‘qualificação’, não um dado do senso
comum vulgar. É por isso, portanto, que não basta a premissa da ‘difusão orgânica, por um centro
homogêneo, de um modo de pensar e de agir homogêneo’. O mesmo raio luminoso, passando por
prismas diversos, dá refrações de luz diversas: se se pretende obter a mesma refração, é necessária
toda uma série de retificações nos prismas singulares” (GRAMSCI, 2001, p. 206).
122
Posicionamentos liberais, neoliberais, de tendências fascistas, desenvolvimentistas,
neodesenvolvimentistas, conservadores e outros congêneres divergem na forma de
entender as “melhores” diretrizes político-econômicas a serem implementadas. De
outra parte, também existem as teorias socialistas sobre a sociedade capitalista,
identificando, interpretando e denunciando os limites deste modelo socioeconômico,
mantendo a coesão na defesa de que este sistema é contraditório, excludente,
explorador, desumano, injusto e precisa ser transformado em sua base de
sustentação (propriedade privada, trabalho assalariado e lucro). Portanto,
teoricamente, existem posicionamentos pró e contra o capitalismo e, como a
neutralidade é impossível para aqueles que trabalham com História, manifestam-se
embates teóricos entre defensores e críticos deste sistema. Neste sentido, antes de
começarmos a analisar o Rotary Clube, cabe indicar o entendimento — e o
posicionamento — deste historiador nesse contexto, por meio dos conceitos
utilizados para a formulação do presente texto que serão fundamentais para
compreender a instituição estudada.
Conceitos para interpretação da “filantropia” rotariana
Sobre a ideologia, os intelectuais e sua ação política para a propagação e
naturalização de suas ideias e de seus ideais, na defesa de um projeto ético-político
(independente da classe social a que pertencem/defendem), utilizamos alguns dos
conceitos de Antonio Gramsci. Procuramos, por meio dos escritos deste intelectual,
identificar aspectos que passam pelo entendimento da sociedade por meio da
dialética burguesia x trabalhadores. Conforme Antonio Gramsci:
Uma ideologia, nascida em um país mais desenvolvido, difunde-se em
países menos desenvolvidos, incidindo no jogo local das combinações.
A religião, por exemplo, sempre foi uma fonte dessas combinações
ideológico-políticas nacionais e internacionais; e, como a religião, outras
formas internacionais, como a Maçonaria, o Rotary Club, os judeus, a
diplomacia de carreira, que sugerem recursos políticos de origem
histórica diversa e os fazem triunfar em determinados países,
funcionando como partido político internacional que atua em cada nação
com todas as suas forças internacionais concentradas; mas religião,
maçonaria, judeus, etc., podem ser incluídos na categoria social dos
“intelectuais” (GRAMSCI, 2002, p. 42 — grifos meus).
123
Antonio Gamsci se refere a um “país mais desenvolvido” relacionando-o aos
países nos quais o capitalismo tinha mais desdobramentos e complexidade (capital
financeiro presente e influente; capital industrial em franca expansão; relações
imperialistas dominando países economicamente dependentes; dentre outros),
como é o caso dos EUA no início do século XX, onde e quando foi criado o Rotary
Clube. Das afirmações de Gramsci é importante reter que até o desenvolvimento
técnico-científico e o aprofundamento das relações sociais capitalistas, no século
XVIII e principalmente no XIX, a religião foi a forma que se fazia mais eficaz em
disseminar política e ideologicamente seus princípios em âmbito internacional
(católica em especial, mas também o protestantismo, dentre outras). Depois do
avanço do capitalismo, organizações como Rotary Clube (que alguns acreditam
estar ligada inicialmente com a maçonaria e o protestantismo) se organizaram e
instituíram-se como “intelectuais” em “aparelhos privados de hegemonia”, ampliando
o número de “trincheiras” de combate político e ideológico.
No sentido de entender a constituição histórica do Rotary Clube, sua
proposta política e ideológica, para além dos fatores citados, Antonio Gramsci
afirmou que
[…] o Rotary não pretende ser nem confessional, nem maçom; todos
podem ingressar nas suas fileiras: maçons, protestantes e católicos
(em alguns lugares arcebispos católicos aderiram ao Rotary). Parece
que o seu programa essencial baseia-se na difusão de um novo
espírito capitalista, na ideia de que a indústria e o comércio, antes de
serem um negócio, são um “serviço social” (GRAMSCI, 1984, pp.
415-416 — grifos meus).
É impressionante a lucidez de Gramsci ao perceber, ainda na década de
1920, a tendência ideológica dos rotarianos em pretender associar a indústria e o
comércio ao “serviço social”. Isso seria, supostamente, o objeto e a finalidade maior
dos rotarianos, colocando-se como os portadores natos da capacidade de direção
da filantropia, caridade e benevolência, dada a posição social de seus membros —
maioria ligada com funções de gerência, profissionais liberais, comerciantes,
124
pequenos industriais, empresários, enfim, pequena burguesia 5 que, portanto, não
precisava de “caridade”.
Continuando com o entendimento teórico sobre a análise do Rotary Clube,
se levarmos em consideração as afirmações anteriores, podemos dizer que Antonio
Gramsci nos remete a dois outros conceitos importantes: “intelectuais” e “aparelhos
privados de hegemonia”. Para Antonio Gramsci:
Os intelectuais são os “prepostos” do grupo dominante para o exercício
das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto
é: 1) do consenso “espontâneo” dado pelas grandes massas da
população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à
vida social, consenso que nasce “historicamente” do prestígio (e,
portanto, da confiança) obtida pelo grupo dominante por causa de sua
deposição e de sua função no mundo da produção; 2) do aparelho de
coerção estatal que assegura “legalmente” a disciplina dos grupos que
não “consentem”, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído
para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando
e na direção, nos quais desaparece o consenso espontâneo. Esta
colocação do problema tem como resultado uma ampliação muito
grande do conceito de intelectual, mas só assim se torna possível
chegar a uma aproximação concreta à realidade6 (GRAMSCI, 2000, p.
21 — grifos meus).
5
Há integrantes da grande burguesia no Rotary de Marechal Cândido Rondon, embora não seja
presença majoritária. Cf. Setton (2004) para mais informações sobre a origem social dos rotarianos.
6
É importante destacar que Antonio Gramsci escrevia esta conceituação tendo em mente, naquele
momento, a separação da Itália entre o Norte industrializado e o Sul agrário, mais especificamente no
processo de Risorgimento (entre 1815 e 1870, quando a Itália passava por lutas pela unificação). O
autor, assim, podia observar a atuação de funcionários de nível médio (engenheiros, professores,
advogados, etc.), responsáveis pela adequação da ideologia burguesa como norma econômica,
política e cultural nas funções da vida prática que a Itália assumia. Também é necessário frisar outro
aspecto caro à formulação do conceito de intelectuais por Gramsci, isto é, a questão da organicidade
destes. Para Antonio Gramsci todos são intelectuais, dada a capacidade que todas as pessoas têm
de formular e defender visões de mundo – com complexidades variadas, evidentemente. No entanto,
há, para Gramsci, os “intelectuais tradicionais” e os “intelectuais orgânicos”. Os primeiros associamse à perspectiva tradicional de intelectual, vinculados à erudição simples e “desinteressada”, não
necessariamente vinculada à atuação política prática (intelectuais de “monastério”). Os “intelectuais
orgânicos” associam-se à base político-econômica que defendem ou em que estão inseridos. Neste
sentido, existem os “intelectuais orgânicos da classe dominante” e os “intelectuais orgânicos da
classe trabalhadora”. Ambos têm ligação orgânica com o grupo social que defendem e se
caracterizam pela proposição de ideias e ideais práticos, vinculados à defesa de suas posições e de
seus grupos.
125
Neste sentido, os intelectuais orgânicos da classe dominante desempenham
a função subalterna (em relação a uma camada econômica e politicamente superior
de decisão) de tentar criar coesão política e ideológica para que a hegemonia
burguesa — ou uma de suas frações — seja predominante, hegemônica. Trata-se
dos funcionários do consenso espontâneo, sobre os quais mencionou Gramsci,
indicando a necessidade de mediações intelectuais para que o grupo dominante se
mantenha enquanto tal, até que desapareça e entre em cena a coerção. Os
intelectuais orgânicos da classe dominante são, como apontou Gramsci, os
“prepostos” dos grupos ligados ao mundo da produção, a exemplo dos cientistas
políticos liberais e neoliberais, jornalistas, professores, dentre outros tantos que estão
a serviço de um grupo social específico ou de um modo de produção específico, o
que pode ser visto quando a burguesia “direciona” a ciência rumo aos interesses da
indústria e do agronegócio (hoje letra comum nas universidades).
Neste sentido, Antônio Gramsci problematizava a questão:
§ 1. Os intelectuais são um grupo autônomo e independente, ou cada
grupo social tem uma sua própria categoria especializada de
intelectuais? O problema é complexo por causa das várias formas que
assumiu até agora o processo histórico real de formação das diversas
categorias intelectuais. As mais importantes dessas formas são duas: 1)
Todo grupo social, nascendo no terreno originário de uma função
essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo
tempo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe
dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no
campo econômico, mas também no social e político: o empresário
capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da economia
política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito, etc.
Deve-se observar o fato de que o empresário representa uma
elaboração social superior, já caracterizada por uma certa capacidade
dirigente e técnica (isto é, intelectual): ele deve possuir uma certa
capacidade técnica, não somente na esfera restrita de sua atividade e
de sua iniciativa, mas também em outras esferas, pelo menos nas mais
próximas da produção econômica (deve ser um organizador de massa
de homens, deve ser um organizador da “confiança” dos que investem
em sua empresa, dos compradores de sua mercadoria, etc.). Se não
todos os empresários, pelo menos uma elite deles deve possuir a
capacidade de organizar a sociedade em geral, em todo o seu
complexo organismo de serviços, até o organismo estatal, tendo em
vista a necessidade de criar as condições mais favoráveis à expansão
126
da própria classe; ou, pelo menos, deve possuir a capacidade de
escolher os “prepostos” (empregados especializados) a quem confiar
esta atividade organizativa das relações gerais exteriores à empresa.
Pode-se observar que os intelectuais “orgânicos” que cada nova classe
cria consigo e elabora em seu desenvolvimento progressivo são, na
maioria dos casos, “especializações” de aspectos parciais da atividade
primitiva do tipo social novo que a nova classe deu à luz. (GRAMSCI,
2001, p. 15-16 — grifos meus).
Os membros do Rotary Clube, por exemplo, podem ser entendidos como
intelectuais orgânicos da classe dominante, como afirmado por Antonio Gramsci,
devido às características apontadas anteriormente e, também, porque se posicionam
e
atuam
levando
um
conjunto
de
valores
marcadamente
burgueses,
internacionalmente defendidos, atuando como os “prepostos” de uma fração da
classe dominante (urbana — com interesses na indústria e no comércio, em
detrimento do campo — ou do agronegócio, nos dias atuais), como veremos mais
adiante. Com certa segurança, poderíamos afirmar que, no sentido do exposto, tanto
o Rotary Clube, como o Lions Clube,7 devem ser entendidos tendo em vista suas
funções sociais enquanto “intelectuais orgânicos” da burguesia e suas relações
dentro de seus “aparelhos privados de hegemonia”. 8 Sobre estes “aparelhos”,
conforme Antonio Gramsci:
7
O Lions Clube é uma instituição criada seis anos depois da fundação do Rotary, com objetivos
congêneres. Conforme Setton (2004, p. 26): “Hoje, o Lions Internacional destaca como seus objetivos
primordiais duas proposições bastante semelhantes àquelas expressas pelo movimento rotário, quais
sejam, o bom relacionamento entre os povos e nações visando à paz entre todos, e a procura do bemestar moral, social e cívico da comunidade. A atenção dada a valores comportamentais de um controle
efetivo na formação moral dos indivíduos é uma preocupação constante nesse tipo de associação.
Assumem o compromisso de formadores de opinião, mas também de conduta social”.
8
A discussão sobre os “aparelhos privados de hegemonia” precisa levar em consideração a “Teoria
Ampliada do Estado” ou simplesmente “Estado Ampliado”. Esta é uma expressão utilizada
inicialmente por Cristine Buci-Gluksmann (1980). Trata-se, grosso modo, de uma formulação teórica
de Gramsci que identifica no Estado (também chamado de Estado restrito) e suas instituições
inerentes, conflitos entre e intra classes sociais (luta de classes), dado o entendimento de que o
Estado é uma relação social. Não é algo a pairar, apartado dos interesses e dos conflitos sociais.
Dentro do entendimento da ampliação do Estado está a questão da sociedade civil, que é formada,
também a grosso modo, pelas organizações privadas e associações políticas de uma formação social
– como as entidades de interesse comum e mútuo, como o Rotary Clube, por exemplo, o Lions Clube,
a Associação Comercial, a Federação das Indústrias, etc.
127
Parece-me que o que de mais sensato e concreto se pode dizer a
propósito do Estado ético e de cultura é o seguinte: todo Estado é ético
na medida em que uma de suas funções mais importantes é elevar à
grande massa da população a um determinado nível cultural e moral,
nível (ou tipo) que corresponde às necessidades de desenvolvimento
das forças produtivas e, portanto, aos interesses das classes
dominantes. A escola como função educativa positiva e os tribunais
como função educativa repressiva e negativa são as atividades estatais
mais importantes neste sentido: mas, na realidade, para este fim tende
uma multiplicidade de outras iniciativas e atividades chamadas
privadas, que formam o aparelho da hegemonia política e cultural das
classes dominantes (GRAMSCI, 2002, p. 284).
A categoria gramsciana de “aparelhos privados de hegemonia” pode ser
entendida como o conjunto das organizações privadas de interesse comum e mútuo,
situadas na esfera da “sociedade civil”, como, por exemplo: clubes de serviço
(Rotary, Lions, Maçonaria, etc.); entidades de educação diretamente ligadas às
empresas (como as Fundações); organizações de empresários e industriais visando
a educação para o trabalho (como o Senai, Sesi, etc.); organizações de empresários
(como Associações Comerciais e Industriais ou, ainda, as Federações — da
Indústria, do Comércio, etc.), dentre muitas outras. Esses “aparelhos” ainda podem
ser definidos como coletivos, voluntários e relativamente autônomos da “sociedade
política”. São justamente estes “aparelhos” que irão “ampliar” o Estado. Neste
sentido, os “aparelhos privados de hegemonia” da classe dominante representam a
organização e a propagação de uma ideologia/cultura que, no sistema capitalista, é
a capitalista. São estes “aparelhos” que dão forma aos interesses privados como
sendo coletivos, que atuam para deixar de ser apenas classe dominante e se
transformarem em classe dirigente, enfim, que ampliam o Estado em benefício
próprio.9
9
Há, ainda, os “aparelhos privados de hegemonia” voltados para a organização dos explorados na
defesa dos seus interesses que, no sistema capitalista, são anti-capitalistas, e, sobre eles, –
continuando a citação acima iniciada – Gramsci ponderou que “Na realidade, só o grupo social que
se propõe o fim do Estado e de si mesmo como objetivo a ser alcançado pode criar um Estado ético,
tendente a eliminar as divisões internas de dominados, etc., e criar um organismo social unitário
técnico-moral” (2002, pp. 284-285).
128
Atuação da direita “filantrópica”
O Rotary Clube é uma organização espalhada pelo mundo, criada em
Chicago, nos EUA, no início do século XX. Naquele momento, os EUA passavam por
uma
extensa
reorganização
desenvolvimento/refinamento
proporcionada
pela
das
urbana
relações
ampliação
e
no
contexto
capitalistas
racionalização
de
do
tanto
do
produção
—
setor
industrial
(taylorismo/fordismo) — como de sua política (econômica e militar) imperialista. 10
Podemos afirmar que o Rotary Clube também é uma das mais antigas organizações
internacionais
autodenominadas
de
“clubes
de
serviço”.
11
Segundo
sua
autoidentificação,
Os associados a esses clubes são chamados de rotarianos. Eles são
homens e mulheres que prestam serviços voluntários às comunidades
onde atuam profissionalmente, ajudando a promover a ética nos
negócios e desenvolvendo projetos em diversas áreas, como saúde e
educação, cujo grande objetivo é estimular a boa vontade e a paz
mundiais. Atualmente, o Rotary está presente em 218 países e regiões
geográficas, atuando por meio de mais de 35 mil Rotary Clubs, que
reúnem mais de 1,2 milhão de voluntários. Cada clube escolhe seus
próprios dirigentes e tem uma considerável autonomia, respeitando os
estatutos e o regimento interno estabelecidos pelo Rotary International.
Regionalmente, estes clubes estão agrupados em distritos.
Tradicionalmente um dos países onde o Rotary é mais forte, o Brasil,
10
Sobre as transformações econômicas, políticas e culturais, além da mudança do eixo econômico
dominante mundial da Europa aos EUA, confira o texto “Americanismo e Fordismo” de Gramsci
(2001b).
11
Teoricamente, um clube de serviço pode ser entendido como uma organização em que prevalece:
a) trabalho voluntário; b) atividades sem fins lucrativos; c) presença de reuniões regulares. Veremos
que, quando analisadas sob o prisma do materialismo histórico e da luta de classes, esta definição
precisa ser ampliada, identificando posicionamentos e interesses que ultrapassam o caráter
aparentemente desprendido e desinteressado presente no Rotary Clube. Outras interpretações, como
as utilizadas por Maria Setton, evocam outros autores para tratar do tema, mas, em nossa opinião, não
conseguem identificar – devido à preocupação maior com o indivíduo e sua relação com o outro no
âmbito associativista – os interesses de classe presentes na instituição. Segundo Setton (2004, pp.
28-29), “Para compreendermos o fenômeno do associativismo voluntário é preciso considerar um
complexo feixe de motivos que concorrem para a sua formação. Devemos compreender este
fenômeno a partir de uma teia articulada de determinações de ordem social, política e econômica que
interagem para o seu surgimento. Alex de Tocqueville, Max Weber e George Simmel são os autores
clássicos a que nos remetemos para analisar o associativismo como um tipo de sociabilidade
característica de um novo modelo de sociedade. […] Entre os pensadores modernos, utilizamos as
contribuições de Norbert Elias e Antony Giddens”.
129
conta com 2.382 Rotary Clubs e mais de 55 mil rotarianos (estes dados
são de fevereiro de 2016). Três brasileiros já presidiram o Rotary
International, cuja sede está em Evanston, no estado de Illinois, nos EUA
(REVISTA ROTARY BRASIL, on-line12 — grifos meus).
Neste sentido, aparentemente, a organização filantrópica-empresarial (por
mais estranho que essa junção possa parecer) pode ser entendida como uma
entidade que tem como uma de suas primeiras finalidades a pretensão de moralizar
as relações capitalistas, supostamente dando-lhes ética. De outra parte, no conjunto
de suas atividades, projetos na área de saúde e educação visam gerar mais boa
vontade e incentivar a paz no mundo. Para que os objetivos rotarianos sejam
alcançados, o “aparelho” mantém uma rígida hierarquia e organização interna, do
âmbito internacional ao local, perpassando todos os “distritos”, ou seja, todas as suas
“filiais” pelo mundo. Neste sentido, conforme Setton:
A estrutura hierárquica rotariana reflete uma organização voltada para
um controle interno bastante rígido. Há vários níveis administrativos
com responsabilidades diferentes, mas com tarefas semelhantes de
supervisão, isto é, todos os níveis hierárquicos têm a obrigação de
supervisionar a forma de veiculação da filosofia rotária e a atuação
de seu colega hierárquico imediatamente inferior (SETTON, 2004, p.
27).
Trata-se, portanto, de um “aparelho” que funciona aos moldes de uma
empresa privada, normatizada e legislada, sobretudo porque quem conduz esse
“aparelho” são empresários e/ou pessoas ligadas à dinâmica empresarial, na busca
de moralizar o capitalismo (“ética nos negócios”), fomentar a boa vontade e a paz no
mundo. Continuando o entendimento a respeito do clube, podemos dizer que sobre
o surgimento, função e principais práticas do Rotary Clube Internacional, achou-se
importante apresentar a visão de um dos fundadores da seção do Rotary Clube em
Marechal Cândido Rondon, Antonio Maximiliano Ceretta — que foi vereador,
rotariano e diretor-geral da Rádio Difusora. Conforme o Jornal Frente Ampla de
Notícias
12
Disponível em: <http://revistarotarybrasil.com.br/rotary/definicao>. Acesso em: 25.3.2016.
130
Hoje é um dia particularmente grato a todos os rotarianos do mundo. O
Rotary Internacional nasceu na cidade de Chicago, Estados Unidos, no
dia 23 de fevereiro de 1905. Naquele tempo a cidade de Chicago era
um reduto de aventureiros de todas as raças, crenças e nações. Todos
queriam enriquecer, custasse o que custasse. Valia tudo no sentido de
arranjar dinheiro, mesmo que isso fosse por meios ilícitos e menos
morais. Mas havia naquela cidade um homem de profundos sentimentos
cristãos, de formação moral ilibada e sentia que aquilo não poderia
continuar assim. As profissões e empregos eram assaltados por
pessoas sem escrúpulos e a ética profissional era coisa sem valor algum
na escala de valores humanos. Era ele Paul Harris [...] que com o
engenheiro Gás Lör [...] e mais o alfaiate Hairam Shórei [...] falavam
sobre esse assunto quando surgiu a ideia de se fundar uma sociedade
que valorizasse as funções do homem. Seria um clube que congregasse
as mais variadas profissões e esses homens tentariam impor moral e
ordem numa cidade conturbada como era Chicago daqueles velhos
tempos. A ideia teve seus seguidores e ali nasceria. […] Não há Rótaris
em países comunistas, mas fora da Cortina de Ferro, não há país, por
pequeno que seja, que não esteja representado. O Rotary […] tem por
lema o ideal de Bem Servir […] O que o rotariano tem como ponto de
honra é fazer o máximo para que, dentro de sua profissão, alcance o
máximo. […] Cada Rotary não poderá ter mais do que três membros de
uma mesma profissão, visando assim que uma mesma profissão não se
sobressaia sobre as demais, reconhecendo que todas as profissões são
dignas e todas elas procuram visar a um fim máximo: melhorar e
aperfeiçoar o profissional. Além disso o Rotary se empenha em
campanhas de interesse imediato (Rádio Difusora, 23.2.1970 — grifos
meus).
Em termos gerais, podemos dizer que o Rotary Clube é um clube privado ao
qual as pessoas, mediante convite, podem ser “associadas”, caso mantenham um
conjunto de especificidades morais, dentre elas um “ilibado” caráter. Com a
pesquisa, pudemos constatar que, na década de 1970, em Marechal Cândido
Rondon, pessoas com pouco capital não frequentavam os “quadros sociais” do
clube, ou porque simplesmente não podiam participar, ou porque não foram
convidadas. Afirmamos isso uma vez que não foi identificado, nas reportagens do
Frente Ampla de Notícias, nenhum membro desprovido de propriedade privada dos
meios de produção. Ademais, os integrantes eram sempre “profissionais liberais” de
áreas específicas (médicos, advogados, dentistas, professores, etc.); noutros
termos, não eram associados ao clube pedreiros, marceneiros, carpinteiros,
131
motoristas, mecânicos, garis, boias-frias, etc. Esta constatação se contrapõe à
afirmação de Antonio Maximiliano Ceretta, quando ele diz que o Rotary acredita na
dignidade de todas as profissões. Como se nota, somente uma classe social é
convidada para integrar o Rotary Clube.
O registro de Maximiliano Ceretta revela, na verdade, o “norte” das atividades
do clube. É interessante a afirmação de que “não há rótaris em países comunistas”.
Isso, evidentemente, ocorre porque se não houvesse propriedade privada dos meios
de produção, não exerceriam a “ética nos negócios”; se não houvesse pobres e
classes sociais, não poderiam exercer a “filantropia” e o “bem servir”. Neste sentido,
visando defender o sistema socioeconômico no qual estavam assentadas as bases
não declaradas da organização (ou seja, no capitalismo), o apoio (tácito ou explícito)
à ditadura civil-militar no Brasil não parece ser absurdo. Comunismo não, ditadura
sim. Neste sentido, é interessante ilustrar, por meio de uma reportagem, a
correspondência do assessor de Emílio Garrastazu Médici endereçada ao Rotary em
19 de janeiro de 1970:
Apraz-me agradecer o empenho de vossas senhorias na campanha
“Uma Bandeira para cada Sala de Aula”. Certo que a participação desse
clube de serviço muito contribuiu para o bom êxito de nosso
empreendimento, aceite nossas atenciosas saudações. Coronel Otávio
Costa, coronel assessor, chefe de assessoria de relações públicas da
presidência da república (Rádio Difusora, 19.1.1970).
Possivelmente, tal mensagem de agradecimento foi direcionada a todos os
Rotaris do Brasil, mas não deixa de sugerir que a campanha pela ditadura foi
desenvolvida no município. Em outras palavras, o Rotary Clube de Marechal Cândido
Rondon posicionava-se também como um dos defensores da ditadura civil-militar,
atuando pedagogicamente para a aceitação do regime, por meio, neste caso, da
apologia ao patriotismo e ao nacionalismo, contribuindo com a construção ideológica
da ditadura. É interessante perceber que, internacionalmente, até pela característica
intrínseca dos membros do Rotary (formados mormente por empresários e
profissionais liberais), a defesa era, em última instância, do sistema liberal e do
capitalismo. Diante do suposto “perigo comunista” que propagandeava a direita civilmilitar do Brasil no pós-1964, o que importava era a manutenção do sistema
132
capitalista, já que é por meio dele e da consequente divisão social em classes que
os privilégios de poucos se sobrepõem aos interesses de muitos, ou seja, é por meio
da manutenção do liberalismo e do capitalismo — sob qualquer meio administrativo
(democracia, ditadura, fascismo, etc.) — que os empresários conseguem se manter
economicamente dominantes e, no caso de integrarem o Rotary, também “éticos e
filantrópicos”. Alguns meses à frente, em um dos seus tradicionais jantares, o Rotary
Clube de Marechal Cândido Rondon comemorou a chegada do general ditador
Emílio G. Médici ao topo do “aparelho”. Segundo consta no Frente Ampla de Notícias:
Os rotarianos reuniram-se ontem em janta festiva, para comemorar a alta
investidura do general Emílio G. Médici, Presidente da República, como
governador honorário do Rotary no Brasil. Os rotarianos manifestaram a
sua satisfação, comunicando-a ao novo governador honorário e
agradecendo o decreto de declaração de utilidade pública do Rotary
Internacional, do Lions Clube e da Casa da Amizade13 (Rádio Difusora,
25.4.1970 — grifos meus).
O caráter conservador da representação do Rotary em Marechal Cândido
Rondon está caracterizado. Não temos certeza em afirmar o que mais se
comemorava: a “investidura” de um ditador a governador honorário ou a declaração
de utilidade pública do Rotary e Lions Clube do município, mas um jantar era sempre
proposto para festejar tais acontecimentos. Aqui é importante assinalar que, por meio
desses fatos, podemos identificar a posição política e ideológica do “aparelho
privado de hegemonia” e sua função orgânica no sistema capitalista, atuando em
sua defesa, independente dos meios para tal. Surge, então, outra possibilidade
interpretativa para o Rotary Clube, não tão ilibada e ética quanto propõe sua
autoidentificação. As principais preocupações e consequentes áreas de atuação
político-econômica do Rotary Clube de Marechal Cândido Rondon e região, no início
dos anos 1970, podem ser observadas através de outra reportagem do Frente Ampla
de Notícias:
13
A Casa da Amizade é o local onde as reuniões e os jantares do Rotary Clube de Marechal Cândido
Rondon são realizados. Formalmente, ela “É composta por senhoras de rotarianos, cuja ação principal
é o da benemerência e a filantropia. No Brasil, a associação de senhoras de rotarianos, ou Casa da
Amizade, é uma entidade civil considerada de utilidade pública pela Lei [Federal] 5.575/69”.
Disponível em: <http://www.distrito4440.com.br/html/casaamizade.htm>. Acesso em: 18.10.2007.
133
Com a participação dos Rótaris de Toledo, Foz do Iguaçu, Cascavel e
Marechal Cândido Rondon, realizou-se ontem em Toledo o 1º Fórum
Regional da Avenida de Serviços da Comunidade. O ambiente decorreu
cordial e quatro comissões foram organizadas, cada qual sob a
presidência de um dos Rótaris convidados. Assuntos de suma
importância foram tratados, debatidos e votados. Destacamos os
seguintes: Criação de comissões municipais de assistência ao menor
abandonado, ao menor excepcional e ao menor fisicamente aleijado [...]
estudo de possibilidade de instalação no Oeste de um asilo para velhos,
aproveitando incentivos fiscais de acordo com a lei, organização de
sociedade mantenedora, doação e contribuição dos futuros candidatos
ao asilo, o máximo de empenho ao combate à verminose, aproveitando
a experiência feita por um grupo de médicos e laboratoristas do Rótari
de Cascavel, com ótimos resultados... criação de bancos de sangue
inclusive com sugestão às secretarias de segurança de que, na carteira
de identidade, se ponha o teor de sangue de seu portador... incentivar
a criação de bibliotecas públicas, em colaboração com as prefeituras e
órgãos culturais [...] participação dos rotarianos num melhor
entendimento entre pais e filhos, especialmente em relação às atitudes
da moderna juventude, tornando os pais mais compreensivos e os filhos
mais ligados à família... apoio integral à MOBRAL,14 Projeto Minerva15 e
outros que visam dar mais cultura para o Povo Brasileiro... sugerir aos
possuidores de prédios com mais de um andar a instalar extintores,
14
“O Movimento Brasileiro de Alfabetização – Mobral – surgiu como um prosseguimento das
campanhas de alfabetização de adultos iniciadas por Lourenço Filho, só que com um cunho
ideológico totalmente diferenciado do que vinha sendo feito até então. Apesar de os textos oficiais
negarem, sabemos que a primordial preocupação do Mobral era tão somente fazer com que os seus
alunos aprendessem a ler e a escrever, sem uma preocupação maior com a formação do homem. Foi
criado pela Lei número 5.379, de 15 de dezembro de 1967, propondo a alfabetização funcional de
jovens e adultos, visando ‘conduzir a pessoa humana a adquirir técnicas de leitura, escrita e cálculo
como meio de integrá-la a sua comunidade, permitindo melhores condições de vida’. Apesar da
ênfase na pessoa, ressaltando-a, numa redundância, como humana (como se a pessoa pudesse não
ser humana), vemos que o objetivo do Mobral relaciona a ascensão escolar à uma condição melhor
econômica de vida, deixando à margem a análise das contradições sociais inerentes ao sistema
capitalista. Noutros termos, basta aprender a ler, escrever e contar e estará apto a melhorar de vida”.
Disponível em: <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/heb10a.htm>. Acesso em: 6.2.2007.
15
“O Projeto Minerva nasceu no Serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação e
Cultura. Foi iniciado em 1º de setembro de 1970. O nome Minerva é uma homenagem a deusa grega
da sabedoria. Do ponto de vista legal foi ao ar tendo como escopo um decreto presidencial e uma
portaria interministerial de nº 408/70, que determinava a transmissão de programação educativa em
caráter obrigatório, por todas as emissoras de rádio do país. A obrigatoriedade é fundamentada na
Lei 5.692/71. O objetivo maior do projeto atendia à Lei nº 5.692/71 (Capítulo lV, artigos 24 a 28) que
dava ênfase à educação de adultos. O parecer nº 699/72 determinava a extensão desse ensino,
definindo claramente as funções básicas do ensino supletivo: suplência, suprimento, qualificação e
aprendizagem. A meta a atingir pretendia utilizar o rádio para atingir o homem, onde ele estivesse,
ajudando-o a desenvolver suas potencialidades, tanto como ser humano, quanto como cidadão
participativo e integrante de uma sociedade”. Disponível em: <www.eps.ufsc.br>. Acesso em:
9.2.2007.
134
explicando-lhes que, para efeito de seguro contra fogo, as tarifas são
menores... sugerir às Prefeituras a formação de um grupo de bombeiros
civis voluntários, com aparelhagem de pouco custo, a exemplo do que
acontece em várias cidades de Santa Catarina... maior intercâmbio
cultural e esportivo entre membros de clubes de serviço... apelar às
Prefeituras e ao DER para a sinalização das estradas, especialmente nos
cruzamentos... visitas periódicas aos colégios, levando-lhes o espírito e
a filosofia do bem servir... dar oportunidade para jovens inteligentes e
promissores a se aprimorarem por meio da Fundação Rotary que dá
bolsas de estudo para qualquer país democrático do mundo... Em
síntese, essas as teses levantadas, debatidas e aprovadas neste
encontro regional de alto alcance para o oeste. A Secretaria Geral do
Rotary ficou encarregada de mandar correspondência aos altos órgãos
do governo, apelando aos rotarianos que ocupam altos cargos, para sua
colaboração no atendimento das propostas aprovadas (Rádio Difusora,
26.10.1970 — grifos meus).
Inicialmente, merece destaque a relação entre “filantropia” e ações políticoideológicas presentes nas atividades programadas pelos membros dos Rotaris da
região Oeste do Paraná. “Filantropicamente” o Rotary Clube tentava promover a
assistência aos menores abandonados ou a portadores de algum tipo de
necessidade especial; a instalação de asilos; o combate à verminose; a criação de
bancos de sangue e de corpo de bombeiros voluntários; e a instalação de extintores
e de sinalização nas rodovias. No âmbito político-ideológico, visava a criação de
bibliotecas municipais, apoio ao Mobral e ao Projeto Minerva, além de visitas
periódicas aos colégios, “levando-lhes o espírito e a filosofia do bem servir”. Também
buscava futuros “intelectuais orgânicos” que compusessem seus quadros, por meio
das bolsas de estudo “para qualquer país democrático do mundo”. Neste sentido,
faz-se atual a análise que Antonio Gramsci (1984, pp. 415-416) elaborou sobre a
propagação de um “novo espírito capitalista”, difundindo a ideia de que a indústria e
o comércio são, antes de um negócio, um serviço social prestado “filantropicamente”
pela burguesia às camadas expropriadas. Dessa forma, transmitia-se a ideia de uma
suposta importância social desse “aparelho” para o conjunto da sociedade,
negando, historicamente, os prejuízos que o capitalismo traz para os trabalhadores.
Assim, podemos afirmar que, na década de 1970, o Rotary Clube de Marechal
Cândido Rondon atuava paternalisticamente, autopromovendo-se em campanhas e
135
outras atividades com finalidade filantrópica (como será visto um pouco mais adiante
no texto), indicando o “novo espírito capitalista”, supostamente ético e socialmente
responsável.
Ainda com base nas informações da citação anterior e a fim de indicar a
função orgânica do Rotary Clube na sociedade capitalista, podemos lembrar de
outra indicação teórica de Antonio Gramsci (2000, p. 21), quando demonstrou que a
burguesia promove seus intelectuais, os quais são os “prepostos” do grupo
dominante, ou seja, exercem uma função subalterna em relação à hegemonia social,
aproximando-se das camadas populares e educando-as diretamente, tarefa não
realizada pelo conjunto dos grandes acumuladores de capital. Assim, podemos dizer
que, embora o Rotary Clube atue com práticas filantrópicas, promove, em última
instância, a aceitação — implícita ou explícita — dos valores liberais como justos e
necessários.
Dentre outras avaliações que poderiam ser feitas, tendo em vista o noticiário
acima citado, teoricamente destacamos aquelas que sugerem a “ampliação do
Estado” e a função político-ideológica presente nas ações do Rotary Clube da região
Oeste do Paraná: a) a entidade apropria-se de funções que são conferidas ao Estado
(em sentido restrito), a exemplo da criação de um corpo de bombeiros, da
sinalização de trânsito, da construção de asilos, dentre outras; b) ela também
preocupa-se com os menores (crianças e adolescentes empobrecidos), incumbindose novamente da tarefa do Estado e, ao mesmo tempo, ampliando-a, do comum
assistencialismo para o assistencialismo-educação; c) a entidade arregimenta
“jovens inteligentes”, fomentando as suas capacidades a partir da conhecida
educação voltada para a criação de intelectuais orgânicos da classe dominante; d)
por fim, a entidade demonstra a intenção de contatar os rotarianos ocupantes de
“altos cargos” no Estado restrito, acionando-os para que as propostas do clube
fossem executadas. O conjunto dessas ações explicita que o Estado não paira sobre
a sociedade e que as organizações (políticas, não governamentais, associativas,
filantrópicas, religiosas, entre outras) não são alienadas do conjunto políticoideológico que forma a luta de classes na sociedade capitalista. A disputa pela
direção do Estado restrito — visando, dentre outros aspectos, proporcionar mais
136
recursos/logística para potencializar a efetividade prática da visão de mundo
(política, econômica e cultural) — deve ser tema presente quando pensamos a
atuação do Rotary Clube como “preposto”, ou seja, ele é, em última instância, um
“aparelho privado de hegemonia” que trabalha em sua “trincheira”, defendendo
posições para a manutenção do capitalismo industrial/comercial — fonte de seu
poder e distinção social.
Neste sentido, muito da condição social e histórica da região Oeste do
Paraná pode ser observada através do plano de atividades formulado pelo
“aparelho”. Esse plano demonstra, também, as principais áreas de atuação nas quais
o Rotary Clube, inicialmente, investiu suas ações, destacando-se a educação, a
exemplo das “visitas educacionais” que foram feitas mesmo antes da reunião de
diretrizes ter sido realizada. Segundo o Frente Ampla de Notícias:
Continua com pleno êxito o ciclo de conferências que estão sendo
realizadas por elementos do Rotary desta cidade. [...] Hoje a noite ele
[Antonio Maximiliano Ceretta] irá para Pato Bragado para realizar a sua
conferência sobre política. Em Mercedes esteve o rotariano Dr. Nori
Pooter falou sobre cárie dentaria e suas implicações. Amanhã a noite
estará em Mercedes o Dr. Leopoldo Pietroswki falando sobre
cooperativismo e o Dr. Joaquim Felipe Leginski em Pato Bragado
falando sobre o humanismo e a paz (Rádio Difusora, 15.4.1970).
Dessa forma, conferências sobre política, cárie dentária e suas implicações,
cooperativismo, humanismo e paz correspondiam à atuação dos rotarianos na área
“filantrópica”/política/educacional, de modo que o clube exercia seu “preposto”
papel de grupo organizado para a manutenção dos seus interesses; nesse caso,
através da educação para o consenso. Destacamos essas características, pois os
interesses comuns dos quais partilhavam Antonio Maximiliano Ceretta, Nori Pooter,
Leopoldo Pietroswki16 e Joaquim Felipe Leginski relacionam-se às posições sociais
16
A título de complementação, podemos dizer que é de conhecimento comum o “problema” financeiro
ocorrido na Copagril na década de 1970, quando o rotariano Leopoldo Pietrowski a presidia. Segundo
o Jornal Rondon Hoje, “A fiscalização do INCRA que está efetuando levantamentos na Copagril teria
constatado um ‘furo’ de caixa de 27 milhões de cruzeiros, que a direção da Cooperativa vinha
disfarçando nas prestações, declarando-a na rúbrica de notas a receber. […] O prejuízo existe e vem
sendo mascarado, segundo se diz, há dois ou três anos, para evitar que os agricultores associados
dele tomem conhecimento”. (Jornal Rondon Hoje. Marechal Cândido Rondon, 22-29 de abril de 1978).
Antes disso, Leopoldo Pietrowski fazia parte da diretoria do Sindicato Rural Patronal de Marechal
Rondon. Cf. <http://www.memoriarondonense.com.br/calendario-historico-single/08/9>.
137
ocupadas por eles: o primeiro, intelectual orgânico da classe dominante e vereador;
o segundo, empresário e vereador; o terceiro, veterinário; o último, médico.
Possivelmente, durante as palestras mais técnicas ou específicas (como no caso da
saúde), tratou-se menos da política e suas implicações na transformação social das
crianças e adolescentes, alvos das inserções rotarianas. No entanto, direta e/ou
indiretamente, as palestras sobre política, 17 cooperativismo, 18 humanismo 19 e paz,
certamente, expressaram a ideologia liberal rotariana de mundo, proporcionando
uma visão unilateral sobre esses temas.
Outra fração do Rotary Clube, direcionada, em especial, à realização de
ações “filantrópicas” e “humanitárias” é a denominada “Senhoras Damas de
Rotarianos”. Conforme o Rotary Clube Marechal,
A Associação de Senhoras de Rotarianos (ASR) é uma entidade
prestadora de serviços de caráter assistencial, moral, cultural sem fins
lucrativos, que anda paralelamente ao Rotary. Em Marechal Rondon a
ASR é quase tão antiga quanto o Rotary. Ela surgiu um ano depois da
fundação do Rotary Marechal, no dia 28 de agosto de 1970. Na época
Nori Pooter era o presidente do Rotary. As fundadoras foram Mirian
Pooter, Leonora Sakuragui, Maria Alice Cruzatti, Neuza Reuter, Rose
Maria Wanderer, Doris Feiden, Zita Zart, Everly da Silva, Elzira Granich,
Ana Nely Welp, Wirika Poersch e Mirian da Cruz Vianna. Destas,
destaca-se Neuza Reuter, que até hoje participa da Associação. A
primeira diretoria em 1970/71 teve Mirian Pooter como presidente, Dóris
Feiden como vice-presidente, Leonora Sakuragui como secretária e
Rose Maria Wanderer como tesoureira. As primeiras reuniões
aconteciam no Clube Concórdia, no Lord Restaurante ou mesmo nas
residências das integrantes da ASR (ROTARY MCR, on-line).20
17
Recordemos que em 15.4.1970 vivíamos em plena ditadura civil-militar no Brasil e, ainda, nunca é
demais lembrar a relação entre o ditador Emílio Garrastazu Médici e o Rotary Clube, apontado nas
fontes anteriores.
18
Só para lembrar que este foi o ano de formação da Cooperativa Agrícola Mista Rondon Ltda.
(Copagril).
19
O humanismo para os rotarianos associa-se à tendência renascentista de valorização dos atributos
humanos – em detrimento dos sobrenaturais –, procurando, na “humanidade” e na cultura, melhorar
a condição humana. No Manual de Procedimentos de 2013 (Guia de Referência sobre as Normas do
Rotary), o item que trata sobre a natureza jurídica da entidade demonstra que “Esta será uma
sociedade sem fins lucrativos. Seus propósitos serão humanitários e beneficentes, para manter as
relações de clube membro do Rotary International”. Portanto, a “humanidade” referida pode ser
relacionada à “filantropia” e às ações que levariam mais “humanidade” àqueles que dela
necessitassem. Disponível em: <www.google.com.br/search>. Acesso em: 16.2.2016.
20
Disponível em: <http://rotarymarechal.blogspot.com.br>. Acesso em: 12.2.2016.
138
Uma das primeiras atividades que as “Senhoras Damas de Rotarianos”
realizaram em Marechal Cândido Rondon pode ser evidenciada por meio de uma
reportagem do Frente Ampla de Notícias, quando informava que
As Sras. Damas Rotarianas promoveram em nossa cidade uma
campanha para [arrecadar] cobertor[es] aos pobres. Esta campanha já
está chegando ao seu término e já na próxima terça-feira, nas
dependências do Clube Concórdia vai ser feita a entrega dos
respectivos cobertores, antes porém haverá uma visita às famílias
pobres e será entregue um cartão, para a retirada do cobertor. A Rádio
Difusora participou nesta campanha, através do programa Chapéu de
Palha [dirigido e apresentado pelo rotariano Dirceu da Cruz Vianna], e
os ouvintes enviaram a quantia de 107 cruzeiros, dinheiro este já
entregue às Damas de Rotarianos, e neste jornal falado agradecemos a
atenção que os ouvintes dispensaram a este apelo (Rádio Difusora,
23.6.1971).
O Rotary Clube Internacional não admitia mulheres em sua organização, as
quais foram aceitas somente a partir de 1989, ou seja, 84 anos após a fundação do
clube. As “Senhoras Damas de Rotarianos” eram importantes para impulsionar ainda
mais a visão beneficente do “aparelho”. Mais adiante, demostrando que a campanha
“filantrópica” das senhoras foi um sucesso (na opinião dos rotarianos) e, ainda, que
a preocupação delas era também com as crianças, o Frente Ampla de Notícias
(Rádio Difusora, 1.7.1971) apontava que “Depois de encerrada a campanha [...] as
senhoras entregaram o material arrecadado, [...] [e este] certamente serviu para
agasalhar muitas criancinhas que como nós também sentem a fome e o frio”.
Ampliava-se, portanto, o número de tentáculos de que a burguesia dispunha na
defesa de seus interesses — além destes havia a maçonaria; as Arenas (duas no
município, pois as frações da classe dominante não queriam se identificar com
oposição ao regime ditatorial); a Associação Comercial; os meios de comunicação
(rádio e jornal); dentre outros, bem como, evidentemente, a inserção de membros do
Rotary no Estado restrito, conforme veremos.
Sobre o quadro de direção do Rotary Clube de Marechal Cândido Rondon
podemos utilizar uma reportagem da Rádio Difusora (4.7.1975), quando informou que
o “Rotary Clube tem Hoje Novos Mandatários”:
139
O Rotary Clube Internacional que tem em Marechal Cândido Rondon
uma extensão social, formada por pessoas que gozam do melhor
prestígio de nosso meio, tem realizado por diversas vezes campanhas
altamente meritórias, levadas unicamente pelo desejo de servir à
comunidade. O Rotary Clube local, funcionando há vários anos, vem
nesta última gestão contando com o trabalho de linha de frente,
movimentado pelo presidente Nori Pooter e auxiliado diretamente pelo
secretário Ilmar Priesnitz, pelo tesoureiro Saudy Kaefer e tendo no
protocolo o Sr. Roberto Bespalez. [...] O Presidente do Rotary que
assumia hoje em solenidade será o Sr. Ilmar Priesnitz, tendo como
secretário o senhor Saudy Kaefer e na tesouraria o senhor Plínio Schutz
(Rádio Difusora, 4.7.1975 — grifos meus).
Visando complementar esse registro, para melhor compreender a
composição político-ideológica do Rotary Clube de Marechal Cândido Rondon, na
década de 1970, acreditamos ser interessante expor os nomes dos presidentes do
Rotary Marechal que atuaram nessa época e evidenciar quem eram aquelas
“pessoas que gozam do melhor prestígio de nosso meio”:
1969/1970 — Miguel Patino Cruzatti; 1970/1971 — Nori Pooter;
1971/1972 — Harry Feiden; 1972/1973 — Gernot Reuter; 1973/1974 —
Romeu Saatkamp; 1974/1975 — Nori Pooter; 1975/1976 — Ilmar
Priesnitz; 1976/1977 — Roberto Bespalez; 1977/1978 — Egon Wanderer;
1978/1979 — Plínio Ari Schütz (ROTARY MCR, on-line).21
Na década de 1970, Miguel Patino Cruzatti foi médico; Nori Pooter,
profissional liberal e vereador; Harry Feiden, profissional liberal e vereador; Gernot
Reuter, profissional liberal; Romeu Saatkamp, profissional liberal e vereador; Nori
Pooter, profissional liberal e vereador; Ilmar Priesnitz, professor, comissionado na
prefeitura; 22 Roberto Bespalez, profissional liberal; Egon Wanderer, empresário e
irmão de Werner Wanderer, o “alemãozinho bom de voto”;23 Plínio Schütz, profissional
21
Disponível em: <http://www.rotarymcr.org.br/presidentes>. Acesso em: 11.2.2016.
22
Foi o primeiro prefeito eleito após a ditadura. O município, por fazer fronteira com o Paraguai, era
considerado “Área de Segurança Nacional”, de modo que Ilmar Priesnitz foi indicado pela ditadura.
23
Eis uma informação sobre Werner Wanderer: “Ao deixar a Prefeitura, estava financeiramente
quebrado. Havia perdido todo o meu patrimônio devido ao “caso Cirosa”, ocorrido em 1967/68. Cirosa
era uma sociedade anônima constituída por empresários da cidade, que visava a instalação de uma
indústria de extração de óleos vegetais. Para mostrar que se tratava de coisa séria, emprestei meu
140
liberal e vereador. Nota-se, portanto, que a maioria dos membros da diretoria do
Rotary Clube em Marechal Cândido Rondon, na década de 1970, compunha-se de
profissionais liberais (médicos, dentistas, bioquímicos, farmacêuticos, dentre outros),
os quais ou foram vereadores ou tiveram políticos de carreira em sua família. Além
disso, esses membros não se limitaram à carreira de empresário, na medida em que
compuseram uma entidade “sem fins lucrativos e filantrópica”, participando,
efetivamente, do Estado restrito. Assim, propostas e projetos do “aparelho”
passariam a ter o aval público para sua realização. Ampliava-se o Estado para que
os interesses e a visão de mundo de um grupo pudessem sobressair-se aos demais,
diversos ou até mesmo contrários a esse grupo.
Em seu estudo sobre a instituição, Maria Setton aponta algumas importantes
características que acreditamos ser importantes no entendimento do Rotary Clube e
de suas práticas de classe. Segundo ela:
Como resposta a um princípio prático e racional adquirido desde os
seus primeiros anos de socialização, os rotarianos, como
representantes de um segmento da sociedade, parecem agir em
consonância com uma necessidade real de distinguir-se dos demais
grupos sociais. A posse de um título escolar, a “guarra” e a
perseverança, tão valorizadas por eles, parecem não se constituir em
instrumentos suficientes para a sua reprodução. Foi necessário
mudar as estratégias destinadas a reproduzir ou elevar suas posições
sociais. Avaliando, inconscientemente, as condições e as
possibilidades de acesso às posições almejadas ou manutenção das
posições já alcançadas, os rotarianos fizeram-se adeptos de um tipo
de prática de sociabilidade que lhes garante, de certo modo, uma
estabilidade social. Adeptos de um associativismo voluntário, tecem
uma rede de relações duráveis propensa a render-lhes mais uma
fonte de recursos e poder (SETTON, 2004, pp. 15-16).
Desta forma, julgamos adequado entender a distinção que os rotarianos
almejam. Neste sentido, podemos apontar para o fato de o governador do Rotary
Clube estar em Marechal Cândido Rondon, em 1975, promovendo a entidade e sua
nome ao empreendimento. Eu era o diretor-presidente, assinava a papelada, mas outros tocavam o
projeto. A indústria chegou a ser construída, mas estourou pouco antes de entrar em funcionamento.
Como numa S/A o responsável é o diretor-presidente, fiquei com o abacaxi. Eu tinha bens, inclusive
uma propriedade de 170 alqueires, e estava muito bem de vida” (REVISTA OESTE apud KOLING,
2007, p. 357).
141
“filosofia”. Para tanto, solicitou entrar em contato com o prefeito e com a imprensa,
indicando que trataria de um dos temas mais caros ao “aparelho”: a prova quádrupla.
Noticiava o Frente Ampla de Notícias:
Os rotarianos preparam-se para receber o governador Cassio
Bittencourt de Macedo do Distrito 464 ao qual pertence o clube local.
[...] O Sr. Cássio solicitou antecipadamente entrevistas com o prefeito
municipal e representantes da imprensa, oportunidade em que serão
tratados dos objetivos do Rotary. [...] A prova quádrupla, a que
respondem os rotarianos será colocada em evidência e está sendo
agora adotada com sucesso nos negócios, governos e escolas, a volta
ao mundo para aferir-se da incerteza de cada conduta. É A
VERDADE??? É JUSTO para todos os interessados??? Criará BOA
VONTADE e MELHORES AMIZADES??? Será BENÉFICO para todos os
interessados??? São estas as quatro perguntas da prova quádrupla que
sistematizam os trabalhos do clube a serviço da comunidade (Rádio
Difusora, 2.10.1975 — grifos meus).
Tendo em vista as diretrizes da prova quádrupla como norteadoras do Rotary
Clube Internacional e o entendimento de que elas deveriam se estender do
“aparelho” para “negócios, governos e escolas”, é necessário mostrar um outro viés
de interpretação, no intuito de criticar a visão de mundo compartilhada pelos
integrantes do Rotary Clube, nacional e internacional, buscando sair do senso
comum e entender um pouco mais a fundo a prova quádrupla em um contexto
socioeconômico mais amplo.
Para compreender a “prova” há a necessidade de entender minimamente
algumas categorias formuladas por Karl Marx (1983). A “teoria do fetichismo” foi
usada como base das interpretações, pois achamos que traduz a facilidade de
ocultamento do trabalho como referencial sobre produtos, obscurecendo também a
exploração que a burguesia exerce sobre os trabalhadores.24 O fetiche é um ídolo,
um amuleto, algo enfeitiçado, que tem poderes inexplicáveis, de origens misteriosas.
Segundo Marx, a mercadoria tem, em sua aparência, essas características. Esse
fenômeno reside:
24
São juntamente aqueles que não têm trabalho – ou têm e não conseguem sobreviver com o salário
que recebem da força de trabalho – os beneficiados pela “filantropia” rotariana, assim como pelas
demais entidades burguesas de ações “humanitárias”.
142
[...] no fato de que ela reflete aos homens as características sociais
do seu próprio trabalho como características objetivas dos próprios
produtos de trabalho, como propriedades naturais sociais dessas
coisas e, por isso, também reflete a relação social dos produtos com
o trabalho total como uma relação existente fora deles, entre objetos
(MARX, 1983, p. 71).
A parte final do processo pelo qual o trabalho se transforma em capital
corresponde ao momento em que a mercadoria se torna fetiche, pois, graças à sua
capacidade de “mutação”, o trabalho demandado para a sua produção torna-se
ocultado, quando, na verdade, deveria estar disposto como elemento central para a
imposição de valores — de troca, especificamente:
Objetos de uso se tornam mercadorias apenas por serem produtos de
trabalhos privados, exercidos independentemente uns dos outros. O
complexo desses trabalhos privados forma o trabalho social total. Como
os produtores somente entram em contato social mediante a troca de
seus produtos de trabalho, as características especificamente sociais
de seus trabalhos privados só aparecem dentro dessa troca. Em outras
palavras, os trabalhos privados só atuam de fato, como membros do
trabalho social total, por meio das relações que a troca estabeleceu
entre os produtos do trabalho e, por meio dos mesmos, entre produtores
(MARX, 1983, p. 71).
Por isso, o valor das mercadorias parece ser um dado objetivo, considerando
que este valor tem por base o trabalho humano nela objetivado. Dessa forma, é o
trabalho humano despendido em cada mercadoria que lhe estabelece o valor. No
entanto, a economia política clássica tende a não considerar esse trabalho. Karl Marx
mostrou que as relações sociais de produção têm como resultados: mais-valia;
exército industrial de reserva; trabalho alienado; ideologia; mercadoria; lucro;
propriedade privada; dentre outros. Ele comprovou que as relações sociais
capitalistas geram a exploração do trabalhador; consequentemente, geram também
a miséria, a fome, a falta de atendimento médico, a educação técnica-alienante (para
a classe trabalhadora), a exploração da mão de obra, falta de habitação, combate à
reforma agrária, etc. Neste sentido, uma das práticas mais utilizadas pela burguesia
é o não questionamento sobre os mecanismos do mercado, a livre concorrência e a
suposta liberdade (que, por vezes, é uma liberdade formal, jurídica, que se expressa
143
no mercado — liberdade de escolha). Em suma, o que está oculto é que a inserção
dos homens na sociedade capitalista se dá mediante a propriedade privada, tanto
dos meios de produção como do resultado desta produção.
No caso dos rotarianos, o que se transforma, como em um passe de mágica,
do concreto para abstrato, é a exploração do trabalho — e/ou a defesa de um sistema
socioeconômico que tem esta característica em sua essência — em “filantropia”. O
capitalismo necessita de mão de obra sempre abundante e barata,25 no intuito de
que os empresários lucrem mais por meio da mais-valia absoluta ou relativa. Mão de
obra barata significa trabalhadores empobrecidos e dispostos a trabalharem por
qualquer quantia salarial — essa é uma característica fundamental do sistema
capitalista. Sob este enfoque, o Rotary Clube atua, por meio de sua “filantropia”,
buscando minimizar os estragos provocados pelo modo capitalista de produção,
sem, no entanto, questionar a fonte da pobreza e da miséria dos trabalhadores. O
“bem servir” rotariano está, portanto, limitado à comodidade e à manutenção de sua
posição de classe e de sua “distinção social”. Neste sentido, procuramos entender
o outro lado da “filantropia”, quando esta pode ocultar o fato de que a “direita
filantrópica” é também a promotora da mesma miséria que quer aparentemente
minimizar. Em outras palavras, os rotarianos, sejam eles homens, mulheres ou os
filhos deles, unem-se, em dias de frio e/ou festa, para amenizar a pobreza que eles,
direta e indiretamente, proporcionam.
Estaríamos sendo injustos ao aplainar todos os rotarianos em um mesmo
nível. Mas, mesmo sabendo que nem todos os seus membros são pertencentes à
classe dominante, ou melhor, que nem todos os seus membros são proprietários dos
meios de produção e de capital, o que os nivela é o fato de eles estarem vinculados
a uma entidade essencialmente defensora dos valores burgueses. Sendo assim, os
seus membros, pequena ou grande burguesia, defendem o capitalismo (sob
qualquer base política — democrática, ditatorial, etc.) e, através dele, o que se
constata é a cáustica pobreza, miséria, sofrimento e muitas outras dificuldades que
os trabalhadores diariamente enfrentam.
25
Cf. conceito de Exército Industrial de Reserva.
144
A ação do Rotary Clube, objetivando minimizar as mazelas sociais geradas
pelo sistema capitalista, é uma aparente contradição com seus próprios
posicionamentos sociais. No entanto, há a necessidade de “filantropia” para
proporcionar o mínimo de segurança — contendo possíveis ações extralegais
(principalmente aquelas que causam danos à propriedade privada e à segurança
pessoal) — àqueles que estão privados de qualquer tipo de propriedade. Assim,
entendemos que a “direita filantrópica” não quer acabar com a pobreza e a miséria,
as doenças ou a fome, mas amenizá-las, mantendo-se discursivamente sempre
como benfeitora ilibada, quase alheia à expropriação e à exploração dos
trabalhadores.
__________________________
Fontes
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________. Frente Ampla de Notícias, 4.7.1975.
________. Frente Ampla de Notícias, 02.10.1975.
145
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políticos do Oeste paranaense, o deputado federal Werner Wanderer fala sobre seus 26 anos
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REVISTA ROTARY BRASIL. Definição. Disponível em: <revistarotarybrasil.com.br>. Acesso
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<www.google.com.br/search>. Acesso em: 16.2.2016.
do
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Disponível
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ROTARY MCR. Principal. Disponível em: <http://rotarymarechal.blogspot.com.br>. Acesso
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________. Presidentes. Disponível em: <http://www.rotarymcr.org.br/presidentes>. Acesso
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146
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147
Democracia e o pensamento
conspiratório: uma análise sobre a
função das teorias da conspiração
na sociedade a partir das
manifestações anti-PT 2014-2015
Marcos Meinerz1
Após os acontecimentos da última eleição à Presidência da República do
Brasil (2014) e das manifestações exigindo o impeachment da presidente Dilma
Rousseff que ocorrem desde o primeiro semestre de 2015, ficou evidente que as
teorias conspiratórias atingem cada vez mais as pessoas. Acusações sobre a
suposta implementação do comunismo no país, maquinada pelo Partido dos
Trabalhadores (PT), exacerbaram-se durante o período eleitoral, no qual pudemos
observar certo irracionalismo que grassou em nossa sociedade, substituindo as
filosofias da história pelas teorias conspiratórias. Nesse ambiente, podemos
perceber facilmente a existência dos sentimentos de ódio, racismo, xenofobia, e o
preconceito contra pobres.2
1
Doutorando em História pela Universidade Federal do Paraná.
2
Para citarmos alguns exemplos, esses discursos preconceituosos e conspiratórios podem ser
observados em: <www.facebook.com/revoltadosonline>; <http://moralbrasileira.blogspot.com.br>;
<www.youtube.com>. De qualquer forma, é importante ressaltar que a quantidade de sites sobre o
assunto cresce cada vez mais.
148
Teorias da conspiração de vários tipos fazem parte da história humana há
séculos. Desde o final do XX e início do XXI, essas teorias ganharam uma maior
visibilidade e destaque no meio social, tornando-se, desde então, lugar-comum
nos meios de comunicação (literatura, internet, jornais, revistas, cinema e televisão),
o que as transformaram em um fenômeno cultural e de massas.
Embora pouco estudadas, face ao enorme alcance que têm na sociedade,
acreditar em teorias da conspiração tornou-se tema de interesse para sociólogos,
filósofos, psicólogos, historiadores e especialistas em folclore. Como nascem? Como
se espalham? Quais são as suas características? Qual é o perfil de quem as produz?
Quais os seus efeitos na sociedade? Quem as segue e por quê? Estas são as
principais perguntas feitas nos estudos até então publicados.
O que torna esse tipo de pensamento interessante e historicamente
importante de se estudar, é que, em determinados períodos, ele frequentemente
afeta milhares de pessoas, sendo difundido entre amplos setores da sociedade.
Neste sentido, há uma necessidade de estudarmos as teorias da conspiração de
uma forma teórica, metodológica e empírica adequada. Nesse estudo, portanto,
abordamos as principais características das teorias conspiratórias, o seu caráter
corrosivo na democracia, como elas se apresentam ao público, bem como a sua
influência sobre as massas, ou seja, de que maneira as pessoas se deixam seduzir
ou não por elas.
História
Somos todos sofredores da história, mas o [conspiracionista] é um
duplo sofredor, uma vez que ele está aflito não só pelo verdadeiro
mundo, como o resto de nós, mas por suas fantasias também.
Richard Hofstadter, 1964, p. 86
De acordo com Micah Issit (2012), algumas das teorias da conspiração mais
persistentes da história se originaram antes do século XVIII. Muitas delas
influenciaram vários acontecimentos históricos, sendo até mesmo aceitas como uma
descrição precisa da realidade por um grande número de pessoas de todos os
estratos sociais, incluindo chefes de Estados. Para alguns historiadores, segundo
Issit, o medo de uma suposta conspiração tramada pela elite judaica com o objetivo
149
de tomar o controle da Europa cristã desempenhou um papel importante na formação
dos sentimentos dos cidadãos europeus, motivando-os a fazerem parte das
Cruzadas entre 1095 e 1291. Essa mesma teoria teria sido usada mais tarde pelos
nazistas para justificar o Holocausto e tem sido utilizada no século XXI por alguns
grupos antissemitas radicais para justificar a desconfiança ou ódio pelo povo judeu
(ISSIT, 2012).
Durante e após a Revolução Francesa (1789-1799), surgiram suposições de
que vários grupos poderosos estavam instigando a violência revolucionária com o
objetivo de influenciar mudanças no governo francês. Foi também durante este
período que os Maçons e os Iluminatis ganharam infâmia e alcunha como duas das
sociedades secretas mais poderosas do mundo. Nos séculos XVIII e XIX, o panorama
político dos EUA já estava repleto de teorias da conspiração. Desde o processo de
Independência até a Guerra Civil, muitos políticos e cidadãos acreditavam que
algumas lideranças europeias estavam tentando se infiltrar no país para provocar a
queda do governo norte-americano, a fim de governá-lo. Segundo Issit, alguns norteamericanos também comparavam a Igreja Católica a uma monarquia estrangeira, em
que o Papa servia como um soberano. Havia a suspeita de que os católicos, agindo
em nome do pontífice, prejudicariam ou tentariam derrubar o governo que era
dominado por funcionários protestantes. A crença na conspiração católica levou ao
desenvolvimento de várias políticas anticatólicas que tiveram um substancial impacto
na política interna do país em meados do século XIX (ISSIT, 2012).
Durante a Guerra Fria, muitos americanos acreditavam na existência de um
complô entre líderes comunistas empenhados em controlar o governo dos EUA por
meio de agentes secretos disfarçados como cidadãos norte-americanos. Nas
décadas de 1940 e 1950, o senador Joseph McCarthy decretou uma série de
projetos de lei que visavam descobrir e penalizar aqueles que tivessem algum
envolvimento com atividades comunistas nos EUA (política que ficou conhecida
como Macartismo). Nesse período, milhares de norte-americanos foram detidos e
interrogados por suspeita de participação em operações antiamericanas. Anos mais
tarde, as medidas políticas adotadas por McCarthy tornaram-se símbolo de como as
teorias conspiratórias podem levar à paranoia e à perseguição (ISSIT, 2012).
150
Outras tantas teorias conspiratórias pululam o imaginário ocidental: óvnis e
extraterrestres, Nova Ordem Mundial, 11 de setembro, Protocolos dos Sábios de
Sião, John Kennedy, Elvis Presley, Área 51, IV Reich. 3 Basta fazer uma rápida
pesquisa na internet que você encontrará centenas dessas teorias. Para termos uma
ideia mais geral, Michael Newton publicou, em 2006, o livro The Enciclopedia of
conspiracies and conspiracy theories (NEWTON, 2005), uma enciclopédia com mais
de 400 páginas, na qual o autor descreve as mais famosas teorias conspiratórias
existentes, envolvendo países, instituições e pessoas. No Brasil, não podemos
esquecer que um dos motivos para que o golpe civil-militar — ocorrido no dia 31 de
março 1964 — acontecesse, como nos lembra Carlos Fico (2014), foi o medo
existente em uma grande parcela da população de que o presidente Jango Goulart,
com suas reformas de base, estaria conspirando para implementar o comunismo no
país. Esse “perigo comunista” ou “perigo vermelho” serviu como justificativa para o
golpe de 1964 e, dessa forma, foi um dos elementos que precederam o evento.
No que diz respeito à presença das teorias conspiratórias nas manifestações
que estão ocorrendo no Brasil desde 2014, seja nas ruas ou nas redes sociais, uma
pesquisa coordenada por Pablo Ortellado, filósofo e professor do curso de Gestão
de Políticas Públicas da USP, e Esther Solano, professora de relações internacionais
da Unifesp, revelou que a maioria dos manifestantes de São Paulo que estiveram na
Avenida Paulista no dia 12 de abril de 2015, exigindo o impeachment da presidente
Dilma Rousseff, acreditam em teorias conspiratórias. Segundo a pesquisa, que ouviu
571 pessoas: 64% acham que o PT quer implantar um regime comunista no Brasil;
56% creem que o Foro de São Paulo quer criar uma ditadura bolivariana no Brasil;
53% acham que o Primeiro Comando da Capital (PCC) é um braço armado do PT; e
42% concordam que o PT trouxe 50 mil haitianos para votar na Dilma nas últimas
eleições. 4 Além disso, há os que acreditam que o programa do governo federal
chamado “mais médicos” financia uma ditadura cubana e que os médicos que
3
Sobre as teorias conspiratórias envolvendo a ideia da formação do IV Reich na América Latina, cf.:
Meinerz (2013).
4
A pesquisa completa, que teve o objetivo de analisar a confiança no sistema político e as fontes de
informação, está disponível em: <www.lage.ib.usp.br/manif> e <www.pragmatismopolitico.com.br>.
Acesso em: 13.5.2015.
151
trabalham no país são espiões comunistas empenhados em ajudar o governo a
implementar o comunismo no Brasil.
Uma rápida pesquisa no “Google imagens” sobre o assunto revela centenas
de cartazes confirmando essas estatísticas:
“Não ao Foro de São Paulo. Comunismo no Brasil Jamais”.5 Esse cartaz,
segurado por uma criança, apresenta as duas letras “o” da palavra
“comunismo” com pequenos chifres e caudas, simbolizando o diabo.
“Contra a ditadura bolivariana e o comunismo. Intervenção militar já!
Exército queremos nosso país de volta”.6
“We don’t want communism in Brazil”.7
“Comunismo é o império do mal. PT é a estrela da morte. Dias Tofolli é o
advogado do diabo”.8
“Não à ditadura comunista no Brasil”.9
“Comunista é bom morto. Dilma, maduro, Hugo, Fidel, Cristina, Lula —
Lixo do Mundo”.10
Nesse ambiente, onde as teorias conspiratórias se propagam, o discurso de
ódio e o clima de intolerância ganham força, passando a coexistir com as
reivindicações que clamam pela saída do governo petista do comando do país. Não
somente nas ruas, mas principalmente na internet e nas redes sociais que ajudam a
disseminar tais discursos, expandem-se ideias, antes à sombra, e amplificam-se
polarizações políticas, sociais e culturais existentes. Importante atentarmos para o
fato de que o ódio e a intolerância não se restringem ao governo e seus partidários,
mas contibuem para amedrontar, por exemplo, um frentista haitiano que ocupa o
emprego de um brasileiro, devido a uma suposta maquinação do PT para cooptar
pessoas que ajudariam a implementar o comunismo no país. 11 Pode-se observar
5
Disponível em: <http://aluizioamorim.blogspot.com.br>. Acesso em: 24.3.2016.
6
Disponível em: <http://g1.globo.com>. Acesso em: 24.3.2016.
7
Disponível em: <www.dw.com>. Acesso em: 24.3.2016.
8
Disponível em: <http://noticias.uol.com.br>. Acesso em: 24.3.2016.
9
Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br>. Acesso em: 24.3.2016.
10
Disponível em: <http://brasilligado.com.br>. Acesso em: 24.3.2016.
11
O caso ocorreu na cidade de Canoas, no Estado do Rio Grande do Sul. Cf.: <http://g1.globo.com>.
Acesso em: 24.3.2016.
152
mais discursos com essas características em várias redes sociais, como Facebook,
Twitter, blogs, dentre outras. A esse respeito, destaca-se uma postagem sobre uma
empregada doméstica e o PT. Em seguida, um comentário anônimo divulgado em
um blog de direita:
Acabei de demitir a empregada [eleitora da Dilma], que era boazinha
mas muuuuito (sic) ruim de serviço e não dava conta da casa. Sabe
como eu justifiquei a dispensa dela, dentre outras coisas? Disse que,
com a reeleição da Dilma, haverá uma recessão tão grande que pessoas
como eu não terão mais condições de ter uma empregada doméstica
[...]. Daqui pra diante vai ser assim. Sempre que eu tiver oportunidade
vou fazer essas pessoas sentirem na pele a consequência da merda que
estão fazendo. Caridade daqui pra frente? Não faço mais para eleitores
do PT. Não voluntariamente, pois já sou obrigada a sustentar muitos
deles durante todo o ano. Essa é a única língua que eles entendem?
Então vou fazer a minha parte para fazê-los entender. E não venham
vocês, petistas, com esse mimimis (sic) de menos ódio e mais amor. O
ódio entre as classes e raças foi disseminado pelo PT, só que vocês
estão cegos demais para enxergar isso.12
Devemos dar ao petismo goles homeopáticos do seu próprio veneno até
que ele mora ou perceba que seu ‘inimigo’ acordou para a vida. Sou
prático e vou lhe dar um exemplo. Sou servidor público e trabalho com
processos. Tem um advogadozinho (sic) petista que desde o dia 27/10
não faz outra coisa no balcão da Vara onde trabalho a não ser falar mal
da era FHC. Isso porque o PT está há doze anos no poder e com
perspectiva de ficar mais quatro. Pois bem, toda petição desse imbecil
que vem na minha mesa entra em processo errado, todo processo dele
que precisa ser despachado, vai para o fim da pilha, todo alvará que
precisa ser liberado para ele, vai para daqui a 15 dias ou um mês.
Entendeu como se luta no dia a dia. Bandido tem que receber tratamento
para bandido! Chega!!! Esse bando ganhou eleição porque é sujo!!
Chegou a hora de jogar sujo. Pra cima deles!! Eu quero ver petista
pegando fogo pra eu apagar com gasolina!!! Coturno na canela pra
rachar!!!13
Sob a perspectiva dessa conjuntura social atual, devemos compreender
como as teorias conspiratórias funcionam e agem na sociedade, quais suas
principais características políticas e culturais e o que leva as pessoas a acreditarem
em tais teorias.
12
13
Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br>. Acesso em: 21.3.2016.
Disponível em: <http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br>. Acesso em: 21.3.2016.
153
Características das teorias conspiratórias
Em caráter nacional, as pesquisas sobre esse tipo de fenômeno ainda são
relativamente poucas, quase inexistentes. 14 Em âmbito internacional, nas últimas
duas décadas, teóricos ingleses, franceses e norte-americanos têm-se debruçado
cada vez mais nas influências das teorias conspiratórias em sociedade. Dentre os
estudos publicados, podemos destacar autores como: Richard Hofstadter (1964),
Michael Barkun (2003) e Raoul Girardet (1987).15
Um dos primeiros a se preocupar em estudar as teorias da conspiração foi o
historiador norte-americano Hofstadter que, em 1964, publicou o ensaio “The
Paranoid Style in American Politics” (O estilo paranoico na política americana), na
edição de outubro da revista Harper’s Magazine. Para Hofstadter existe uma ligação
entre conspiração e paranoia, possuindo duas origens inter-relacionadas: a primeira
origem, e mais geral, diz respeito à semelhança entre os sistemas delirantes de
paranoias e as tramas imaginadas por teóricos da conspiração; a segunda origem
demonstra que, ao contrário do paranoico clínico, o paranoico político acredita que
o complô não é dirigido somente contra si, mas contra uma nação, uma cultura, um
modo de vida, a milhões de outros.
As teorias da conspiração apresentam uma explicação alternativa para
qualquer acontecimento histórico, desmentindo a versão oficial e tentando, de certa
forma, desmascarar os intentos malévolos e ocultos de certos indivíduos. Segundo
Issit (2012), alguns historiadores têm sugerido que as teorias da conspiração são
uma consequência natural de um desejo de explorar e descobrir facetas da
experiência humana que permanecem sem explicação. Outros sugerem que tais
teorias são o produto de frustrações relacionadas à natureza secreta de algumas
organizações e operações políticas, sociais e históricas.
De acordo com Michael Barkun (2003) — especialista em extremismo político
e na relação entre religião e violência —, adeptos às crenças conspiratórias possuem
14
Por exemplo: Meinerz (2013); Samways (2014); Castro (2014).
15
Além dos autores utilizados ao longo deste ensaio, ainda há muitos outros, como: Dentith (2012);
Byford (2011); Fenster (2008); Camp (1997); Brion (1971); Graumann (1987); Moscovici (1987); Pipes
(1995).
154
visões de mundo que podem ser caracterizadas como maniqueístas, ou seja, eles
entendem o mundo como uma luta mítica entre a luz e as trevas, entre os reinos do
bem e do mal, e acham que esta polarização persistirá até o final da história, quando
o mal finalmente será derrotado. Em seu mais amplo significado, as teorias da
conspiração veem a história como controlada por enormes forças ocultas e
demoníacas. O conspirador, ou seu grupo, é visto como alguém dotado de grande
poder, capaz de influenciar, através de seus planos, um acontecimento, o
funcionamento de um sistema, ou uma totalidade (BARKUN, 2003).
Uma visão de mundo conspiratória pressupõe um universo governado por
um projeto bastante aleatório que se manifesta em três princípios, os quais são
encontrados em praticamente todas as teorias da conspiração:
(1) Nada acontece por acaso. Conspiração sugere um mundo baseado
na intencionalidade, a partir do qual acidente e coincidência não
existem. Tudo que acontece ocorre porque foi desejado, planejado. Na
sua forma mais extrema, o resultado é um mundo de fantasia, muito mais
coerente do que o mundo real.
(2) Nada é como parece. As aparências enganam, porque os
conspiradores querem enganar a fim de disfarçar suas identidades ou
as suas atividades.
(3) Tudo está conectado. Porque no mundo dos seguidores das teorias
da conspiração não há espaço para acidentes e coincidências, o
complô está em toda parte, ainda que escondido da vista (BARKUN,
2003, p. 3).
Apesar de as teorias da conspiração compartilharem essas características
gerais, elas podem ser distinguidas, principalmente, por seu escopo. Barkun as
caracteriza em três diferentes tipos, por ordem crescente de abrangência:
(1) Eventos conspiratórios: aqui, a conspiração é considerada
responsável por eventos discretos ou conjunto de eventos.
(2) Conspirações sistêmicas: acredita-se que seus objetivos são
concebidos para garantir o controle sobre um país, uma região, ou até
mesmo o mundo inteiro. O maquinário conspiratório geralmente é
simples: uma única organização maligna implementa um plano para se
infiltrar e subverter as instituições existentes.
155
(3) Superconspirações: este termo refere-se a construções
conspiratórias em que várias conspirações estão ligadas
hierarquicamente. Eventos e sistemas conspiratórios estão unidos em
complexas maneiras, de modo que as conspirações são encaixadas
uma dentro da outra. No cume da hierarquia uma distante, mas todopoderosa força do mal, manipula toda a conspiração (BARKUN, 2003,
p. 6).
Uma dada teoria da conspiração também tenta explicar fatos históricos que
deixaram lacunas, cuja explicação não consegue ou não dá conta de nos fazer
compreender eventos que fogem à racionalidade humana, como, por exemplo, o
nazismo. Por tudo o que representou o governo de Hitler para a história, o simples
término desse governo e as duvidosas causas da morte do Führer suscitam maiores
questionamentos dos predispostos a acreditar em conspirações envolvendo o
regime nazista, antes e após a guerra. A explicação simples e causal não é suficiente
para essas mentes. Deve haver algo maior por trás de acontecimentos como a
Segunda Guerra Mundial. Barkun afirma que essas pessoas preferem aceitar uma
complicada teoria conspiratória em vez da explicação oficial, desejando desvendar
os mistérios e segredos por trás das explicações geralmente aceitas de processos
históricos (BARKUN, 2003, p. 6).
Sandra Silva também afirma que as teorias da conspiração associam-se à
criação de uma explicação fantasiosa para um fato, habitualmente fundamentada em
um juízo que contesta a versão oficial de um acontecimento passado ou atual. A
despeito de essas versões serem sustentadas por instituições e profissionais
respeitáveis, os criadores e adeptos das teorias conspiratórias observam com
ceticismo algumas explicações dadas à sociedade, atribuindo outro significado e
interpretação a determinado evento (SILVA, 2010, p. 10). A conspiração, neste
sentido, parece ser poderosa a ponto de controlar praticamente todos os meios
através dos quais as informações são disseminadas — universidades, escolas, mídia
e assim por diante. Noutros termos, os seguidores dessas teorias distanciam-se
ostensivamente das instituições tradicionais do saber, desprezando e desconfiando
da academia e da intelectualidade, pois argumentam que elas controlam a mente
das pessoas, fazendo-lhes lavagem cerebral. Do mesmo modo, tais seguidores
156
desconfiam dos meios de comunicação como falsificadores e encobridores da
verdade, considerando-os como parte da conspiração, ou seja, uma ferramenta
controlada pelos conspiradores a fim de iludir o público (BARKUN, 2003, p. 6). Esses
fatores explicam, em parte, a escolha por conhecimentos que contrariam os fatos
comumente aceitos. Diante disso, o intelectual perde espaço porque detém o saber,
ao passo que o mentiroso (ou a conspiração) é mais bem-aceito.
Sobre a mentira na política, Wolfang Heuer afirma que a tentação de inventar
uma história que se pretende real costuma ser potencializada pelo fato de que a
mentira, ao contrário da verdade, possui uma força criativa (HEUER, 2006). Sobre
esse assunto Heuer cita Hannah Arendt que, por ocasião das discussões e
polêmicas em torno do seu livro Eichmann em Jerusalém, delineou o que de fato é a
verdade e quais são as vantagens da mentira sobre a verdade. Segundo Heuer, a
autora distingue três tipos de discurso: mentir, dizer a verdade, e destacar
determinadas realidades em favor do interesse de um grupo:
No primeiro caso, segundo Arendt, o mentir sempre constitui “em
primeiro lugar, uma ação”, enquanto o dizer a verdade não o é. O dizer
a verdade é algo totalmente independente, e por isso sua posição dentro
da discussão pública e da política é complicada. Pois, “na vida política
praticamente não existe um tipo de humano que desencadeie dúvidas
tão fortes sobre sua veracidade quanto aquele que deve dizer a verdade
por razões profissionais, que sugere representar uma harmonia
preestabelecida entre interesses e verdade. Em contrapartida, aquele
que mente não precisa recorrer a meios tão duvidosos para atingir seus
fins políticos. Ele tem a vantagem de estar sempre em meio à política.
Seja lá o que ele disser, não se trata apenas de algo dito, mas de uma
ação. Ele diz o que não é, porque deseja modificar aquilo que é. Ele é o
grande beneficiário do inegável parentesco entre a capacidade humana
de modificar as coisas e a misteriosa capacidade de dizer ‘o sol brilha’,
enquanto lá fora está chovendo aos cântaros”. Não se acredita naquele
que diz a “verdade por profissão”, porque tanto a verdade quanto o dizer
a verdade correm perigo tão logo interesses entram em jogo. A aparente
harmonia entre verdade e interesse é praticamente impossível — e isso
não acontece só na esfera política [...] (HEUER, 2006, p. 46).
O fato é que, para Arendt, o enganador (ou quem inventa teorias
conspiratórias) transforma-se mais facilmente em vítima de suas próprias mentiras
157
quão mais bem-sucedida for sua propagação pelo mundo. Ademais, justamente por
crer nas suas próprias mentiras, ele parece merecer muito mais credibilidade e
confiança do que quem afirma uma inverdade de forma consciente e soberana,
provocando com isso sua própria armadilha (HEUER, 2006, p. 46). Nas próprias
palavras da autora:
Nossa apreensão da realidade depende da nossa partilha do mundo
com os outros homens. Por outras palavras, quanto mais o mentiroso
tem êxito, mais verossímil é que seja vítima de suas próprias invenções.
De resto, o brincalhão preso na sua própria mentira, que embarca no
mesmo navio que as suas vítimas, parecerá infinitamente mais digno de
confiança que o mentiroso de sangue frio que se permite saborear a sua
farsa exterior. Só o engano de si é suscetível de criar uma aparência de
credibilidade e, num debate sobre os fatos, o único fator persuasivo que
tem, por vezes, uma possibilidade de prevalecer sobre o prazer, o medo
e o interesse, é a aparência pessoal (ARENDT, 2013, p. 314).
Seguindo esse raciocínio de Arendt sobre a dicotomia verdade/mentira,
podemos afirmar que esse é um dos motivos da enorme audiência e popularidade
das teorias conspiratórias na sociedade. Ao questionarem as versões oficiais dos
fatos, essas teorias questionam a verdade estabelecida ou a pessoa investida dessa
verdade, o que contribui para que pareçam muito mais aceitáveis do que a realidade.
Outro efeito da descrença nos meios de comunicação, nos intelectuais e nas
instituições tradicionais do saber, é que os crentes nesse tipo de teoria assimilam a
internet como o meio mais seguro para adquirir informações e, neste sentido, ela
torna-se o meio de excelência para a difusão e permanência das teorias
conspiratórias na sociedade contemporânea. Para Barkun, a internet é atraente em
virtude de sua grande audiência, do baixo investimento necessário para a sua
utilização e, em especial, da ausência de intermediários que podem censurar o
conteúdo das mensagens, ou seja, não há editores e produtores entre o conteúdo e
a distribuição da mensagem (BARKUN, 2003). De acordo com Silva, sem barreiras à
entrada, acessível a uma enorme quantidade de pessoas no mundo e aberta à
publicação de qualquer conteúdo, a internet é considerada a grande impulsionadora
158
das teorias da conspiração (SILVA, 2010).16 Aquele cuja visão de mundo é construída
em torno da ideia da conspiração dificilmente busca informações que contrariam as
suas convicções. Desse modo, limita-se a comunidades virtuais da internet que
estejam em sintonia com suas ideias e sua mente.
Outra característica, segundo Hofstadter, é que a literatura conspiratória, se
não totalmente racional, é, pelo menos, intensamente racionalista. Tal literatura
pretende ser empiricamente relevante, ou seja, a fim de fundamentar as suas
alegações, elabora e acumula provas tangíveis que, muitas vezes, imitam a
metodologia de citação de fonte, bem como a apresentação de evidências
encontradas em estudos científicos (HOFSTADTER, 1964). Por outro lado, quanto
mais a história é contada e quanto mais as pessoas a escutam, mais provavelmente
irão acreditar nela. O resultado é que as mesmas fontes são repetidas várias vezes,
produzindo uma espécie de pseudoconfirmação — se a fonte é citada muitas vezes
“deve ser verdade”.
Aqui chegamos a um ponto importante: a distinção do senso comum entre
fato e ficção se derrete no mundo conspiratório. De acordo com Barkun, muitas vezes
os conspiracionistas alegam que aquilo que o mundo considera como fato é, na
verdade, ficção, ao passo que aquilo que se apresenta como ficção é realmente
verdade. Neste sentido, a verdade toma forma de ficção (através da literatura, do
cinema e da televisão), porque uma representação direta da realidade seria muito
perturbadora, precisando, assim, ser envolta em uma ficção. Em outros casos, a
ficcionalização da verdade é considerada parte da campanha dos conspiradores
visando doutrinar ou preparar um público ingênuo para algum desenvolvimento
futuro importante (BARKUN, 2003).
Nenhum autor até agora citado abordou a teoria da conspiração como parte
de um imaginário político-social. Por isso, o estudo do historiador francês Raoul
Girardet torna-se imprescindível para a compreensão desse fenômeno, pois
introduziu a teoria conspiratória no cerne dos mitos políticos presentes no imaginário
de nossa sociedade.
16
Não podemos nos esquecer da enorme produção literária, jornalística, cinematográfica e televisiva
existente sobre o tema.
159
O imaginário político-conspiratório
Para Girardet, são quatro os principais mitos políticos presentes no
imaginário de nossa sociedade: (1) o mito da Conspiração maléfica que tende a
submeter os povos à dominação de forças obscuras e perversas; (2) o mito do
Salvador ou apelo ao chefe salvador, restaurador da ordem ou conquistador de uma
nova grandeza coletiva; (3) o mito da Idade de Ouro — na qual convém redescobrir
a felicidade — ou de uma Revolução redentora que permite à humanidade entrar na
fase final de sua história e assegurar para sempre o reino da justiça; (4) o mito da
Unidade, ou seja, a ideia de uma sociedade coesa, feliz e igualitária (GIRARDET,
1987, p. 11). Para os propósitos desse trabalho, focaremos a atenção apenas no Mito
da Conspiração.
Um imaginário conspiratório possui todo um jogo simbólico que podemos
identificar. Nos seus discursos existe algo que podemos chamar de “bestiário do
complô”: reúne tudo o que rasteja, infiltra-se, esconde-se; tudo o que é ondulamente
viscoso; tudo o que é tido como portador de sujeira e da infecção como a serpente,
o rato, a sanguessuga, o polvo; o subterrâneo ou seu equivalente (cripta, jazigo,
quarto fechado) (idem, ibidem). Esse imaginário carrega consigo um fluxo de
imagens, de fantasmas e de representações simbólicas:
Medo dos porões tenebrosos, das paredes sem saída que se fecham,
das fossas escuras de onde não se sob de novo, medo de ser
entregue a mãos desconhecidas, de ser roubado, vendido ou
abandonado, medo, enfim, do ogro, dos dentes carniceiros dos
animais de presa, de tudo o que tritura, despedaça e devora. [...] O
inimigo opera subterraneamente, clandestinamente versátil,
inapreensivel, capaz de infiltrar-se em todos os meios, sua habilidade
suprema é a da manipulação; suas tropas invisíveis mas presentes
em todas as partes (GIRARDET, 1987, p. 57).
Também encontramos a demonização do homem do complô, isto é, o
“príncipe das trevas” permanece, em pessoa, como o herói privilegiado de uma vasta
literatura, inspirando pavor, fascínio e, no mínimo, curiosidade. Como assegura
Girardet (1987, p. 48), “a multidão de seus fiéis é ainda suficientemente numerosa
para permitir escroques diversos prosseguir com lucrativas mistificações”. Quaisquer
que sejam a natureza e a aparente motivação da conspiração, tratam-se sempre de
160
corresponder a uma inesgotável vontade de poder e de retornar o sonho eterno da
construção de um Império em escala universal, da unificação do globo sob uma
única e total autoridade. Uma construção mitológica conspiratória pode ser
interpretada como uma resposta a uma ameaça ou, pelo menos, como uma reação
quase automática a tal sentimento:
Não há complô cuja descoberta não se apresente como uma descida
progressiva para longe da luz, ali onde as trevas se fazem mais e mais
densas. É quase sempre a noite que os conjurados escolhem para se
reunir, dispersando-se com o nascer do dia. E envoltos em vestimentas
sombrias que os representa geralmente o abundante conjunto de
imagens que lhes é consagrado (GIRARDET, 1987, p. 42).
Os homens do complô serão antes de tudo instruídos a esconder-se. Eles
praticam a corrupção, a depreciação dos costumes, a desagregação sistemática
das tradições sociais e dos valores morais. Nas narrativas conspiratórias, é sentida
a presença de certa angústia,
[...] a dos alçapões bruscamente abertos, dos labirintos sem esperança,
dos corredores infinitamente longos e de suas duras paradas,
impenetráveis e lisas. Homens da sombra, os homens do complô
escapam por definição às regras mais elementares da normalidade
social. Constituem, no interior de toda comunidade consciente de sua
coerência, um corpo exógeno obscuramente submetido às suas
próprias leis, obedecendo apenas a seus próprios imperativos ou a seus
próprios apetites. Surgidos de outra parte ou de parte alguma, os
fanáticos da conspiração encarnam o Estrangeiro no sentido pleno do
termo (GIRARDET, 1987, p. 42).
Girardet afirma que um discurso mítico está inserido em um meio social no
qual já exista certa situação de disponibilidade, certo estado precedente de
receptividade. O que significa que, em sua estrutura, para ter alguma possiblidade
de eficácia, a mensagem a ser transmitida deve corresponder a certo código já
inscrito nas normas do imaginário e do real:
Nenhum dos mitos políticos se desenvolve, sem dúvida, no exclusivo
plano da fábula, em um universo de pura gratuidade, de transparente
abstração, livre de todo contato com a presença das realidades da
história. Mas, no que diz respeito à mitologia do Complô, aceita-se de
161
boa vontade que a carga de densidade histórica se revela, com toda
evidência, particularmente pesada: com efeito, nenhuma, ou quase
nenhuma, de suas manifestações ou de suas expressões que não possa
ser relacionada mais ou menos diretamente com dados factuais
relativamente precisos, facilmente verificáveis em todo caso, e
concretamente apreensíveis (GIRARDET, 1987, p. 51)
Conforme o autor assinala, a denúncia de uma conspiração, de um complô,
não deixa de se inscrever em um clima psicológico e social de incerteza,
insegurança, temor ou angústia. São nos “períodos críticos” da sociedade que os
mitos se afirmam e aparecem com maior clareza, impõem-se com mais intensidade
e exercem com mais violência seu poder de atração. É ao longo das linhas das mais
fortes tensões sociais que se desenvolvem os mitos políticos. Não há nenhum dos
sistemas mitológicos — idade de ouro, revolução redentora ou complô — que não
se ligue diretamente a fenômenos de crise: “aceleração brutal do processo de
evolução histórica, rupturas repentinas do meio cultural ou social, desagregação dos
mecanismos de solidariedade e de complementaridade que ordenam a vida coletiva”
(GIRARDET, 1987, p. 180). Todos eles se relacionam a conjunturas de vacuidade,
inquietação, angústia ou contestação.
Na mesma linha de raciocínio, Issit (2012) afirma que as teorias da
conspiração são historicamente mais comuns em períodos de agitação ou mudança
social. Em tempos de crise e incerteza, as teorias da conspiração podem surgir entre
grupos que acreditam estar em desvantagem política ou social em comparação com
outros grupos, julgados por possuírem um status social superior.
Os apelos dos mitos políticos de nosso tempo, em sua multiplicidade e em
suas contradições, podem refugiar em nós mesmos “virtualidades de resposta, já
que foi em nós mesmos, por nós mesmos, na banalidade de nosso inconsciente, que
encontraram sua primeira expressão, manifestaram suas primeiras exigências”
(GIRARDET, 1987, p. 186). Deste modo, um mito, um imaginário, antes mesmo de
ser coletivo, é individual:
O nascimento do mito político situa-se no instante em que o traumatismo
social se transforma em traumatismo psíquico. É na intensidade secreta
das angústias ou das incertezas, na obscuridade dos impulsos
162
insatisfeitos e das esperas vãs que ele encontra sua origem. [...] Os
grandes mitos políticos das sociedades contemporâneas não podem
deixar de aparecer como uma das formas de expressão de bom número
das principais constantes psicológicas inerentes à pessoa humana. A
denúncia do complô é libertadora do medo, do ressentimento e da
cólera (GIRARDET, 1987, p. 181).
Aqui cabe uma pergunta: por que as pessoas acreditam em teorias
conspiratórias? Compartilhamos da ideia de que a crença em uma dada teoria da
conspiração, em última análise, torna-se uma questão de fé, crença e sentimento,
em detrimento de alguma prova empírica.
A crença em teorias conspiratórias
Teorias conspiratórias sempre florescem, quando as pessoas
se sentem excluídas do processo político. A ascensão da
classe política e a distância cada vez maior entre as elites e o
eleitorado ajudam a estimular a crença em conspirações.
Nicholas Goodrick-Clarke, 2004, p. 381
Teorias conspiratórias são atrativas porque elas surgem como um grão de
verdade envolto em crenças sociais preexistentes. Em entrevista ao Portal Terra,
Barkun afirma que uma necessidade de explicar o mundo está por trás das teorias
conspiratórias, e que existem muitas razões para a sua aceitação:
[...] mas eu acredito que a maior razão é para tentar atribuir um sentido
ao mundo. Obviamente, as pessoas querem que o mundo faça sentido,
elas querem ser capazes de entendê-lo, e uma das coisas que as teorias
conspiratórias fazem é simplificar o mundo. Elas pegam uma realidade
que pode parecer caótica e complicada, e dizem que há uma causa
simples. Então elas estabelecem uma causa para eventos que as
pessoas não conseguem explicar satisfatoriamente de outra forma. E
isso fornece um benefício psicológico para as pessoas que acreditam
nessas teorias (BARKUN, on-line)17
17
Disponível em: <http://noticias.terra.com.br>. Acesso em: 10.11.2014.
163
Porém, ao mesmo tempo em que as teorias conspiratórias tentam explicar o
mundo, simplificando-o, elas parecem ser construções mentais bastante complexas.
Barkun acredita que essas teorias complexas são criadas quando as pessoas têm
dificuldade de aceitar a explicação oficial de um determinado evento. Isso acontece
porque a relação entre os efeitos (as coisas ruins que aconteceram) e a causa que
foi dada oficialmente não é considerada aceitável ou plausível (BARKUN, 2011).
Desse modo, torna-se mais fácil para essas pessoas aceitar uma elaborada teoria
conspiratória do que aceitar a explicação oficial. Barkun crê que o mesmo se aplicou:
às teorias conspiratórias que tratam sobre o assassinato do presidente
John Kennedy, em 1963, onde você tem esse presidente jovem e
dinâmico assassinado por Lee Harvey Oswald, que era um ninguém, um
perdedor, um preguiçoso, e a ideia de que esse presidente dinâmico
pudesse ser assassinado por alguém assim era algo, de novo, que eu
acho que para muitas pessoas foi difícil de aceitar, e foi mais fácil para
elas acreditar que alguma organização o havia matado, fosse o crime
organizado, fossem os comunistas, ou outros. Então, há situações em
que pode ser mais satisfatório aceitar uma complexa teoria conspiratória
do que uma simples (BARKUN, 2011).
O que nos leva a crer que é verdadeiro o que vemos ou lemos em teorias
conspiratórias? Para Steve Clarke (2002, p. 11), isso é facilitado pelos sentimentos e
emoções que elas despertam e provocam no público. David Hume — no livro
Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral (HUME
apud SILVA, 2010, p. 11) — verificou que a paixão de surpresa e admiração
provocada por milagres, essa uma emoção afável, contribui para que as pessoas se
sensibilizem com esses eventos, bem como afirmou que isso acontece com as
teorias da conspiração. “Por mais fantasiosos que os milagres, as ficções, ou as
teorias conspiratórias possam parecer, as pessoas tendem a acreditar nelas pelas
boas sensações que experimentam quando tomam conhecimento dos mesmos”
(SILVA, 2010, p. 11). Soma-se a isso o fato de as teorias conspiratórias serem
passíveis de despertar nos indivíduos a sensação de posse sobre algo secreto e não
acessível a todos, de modo que se sintam especiais e privilegiados. Para Clarke, as
pessoas acreditam em tais teorias baseando-se em mínimas evidências, provando
que é plausível admitir que elas são “emocionalmente atraídas” por esse tipo de ideia
(CLARKE, 2002, p. 11).
164
Qual o grupo que mais acredita em teorias conspiratórias? O senso comum,
o público em geral e as massas são os que mais facilmente se deixam seduzir e
influenciar pelas teorias da conspiração. Silva assegura que muitos estudiosos
defendem que as teorias conspiratórias são direcionadas para as massas e somente
por elas aceitas, acreditando que as elites intelectuais são mais imunes aos seus
efeitos (SILVA, 2010). Clarke, no mesmo norte, defende que os criadores destas
teorias formam ideias que geralmente são bastante populares perante as massas.
Para ele, as ideias promulgadas pelos conspiradores são muito impopulares no seio
dos intelectuais:
As teorias da conspiração há muito que têm sido favorecidas por
políticas populistas, que são quase invariavelmente anti-elitistas e,
portanto, anti-intelectuais também. As teorias da conspiração são mais
populares entre os membros do público em geral, que são, talvez,
afectados por subculturas de teóricos da conspiração. A juntar ao facto
de que as teorias da conspiração serem muitas vezes baseadas em
convicções, sem uma comprovação prática e objectiva, bem como algo
fantasiosas, os intelectuais sentem vergonha de admitir que acreditam
nelas (CLARKE apud SILVA, 2010, p. 13).
Neste sentido, é evidente que as massas e o senso comum (vistos como
propensos a fantasiar e fáceis de manipular) são os maiores fomentadores dessas
teorias, cuja aceitação tende a aumentar nas épocas de tensão social. Silva explica
que, nesses períodos, as teorias da conspiração podem moldar a opinião das
pessoas, considerando que toda a aura de secretismo intimamente ligada a tais
teorias fundamenta-lhe a crença, popularidade e grande alcance. Além disso, há
uma tendência de elas parecerem cada vez mais credíveis, elaboradas, lógicas e
bem fundamentadas (fato que não podemos ignorar).
Como as teorias conspiratórias são amplamente difundidas pelos meios de
comunicação, trata-se da necessidade de reconhecê-las e compreendê-las como
meios que operam, de forma crescente, com uma racionalidade produtora e
organizadora de sentidos, afetando e produzindo sentimentos, aspirações, medos,
angústias e inseguranças. Em consequência, atuam como uma instância que
configura a realidade social, interferindo nas memórias e nos imaginários produzidos.
Como afirma Douglas Kellner, em uma cultura contemporânea dominada pela mídia,
165
os meios dominantes de informação e entretenimento contribuem para moldar nosso
comportamento, pensamento, crenças, desejos, temores, dentre outras coisas. Além
disso, influenciam o modo como as pessoas pensam e se comportam, como se veem
e veem os outros e como constroem sua própria identidade (KELLNER, 2001). De
acordo com Denise Cogo (2011), é importante entender como os meios de
comunicação convertem-se em cenários cotidianos de reconhecimento social, na
medida em que se encarregam de construir, expressar, oferecer e selecionar
imaginários sociais relacionados a modos de ser, expectativas, medos, desejos,
esperanças, os quais passam a ser reconstruídos pela memória. Isso posto, a
memória histórica atua não só como algo crucial para a internalização dos
imaginários, mas também como processo decisivo de fixação e seleção dos fatos
veiculados pelos meios de comunicação. Como afirma Bronislaw Baczko, a influência
dos imaginários sobre a mentalidade coletiva depende da sua difusão e dos meios
que garantem tal difusão. Sob este enfoque, os meios de comunicação de massa,
principalmente desde as primeiras décadas do século XX, possuem grande poder
de controle sobre os imaginários políticos e sociais existentes, pois possibilitam que
um determinado imaginário atinja uma ampla audiência (BACZKO, 1985).
Considerações finais
Os teóricos da conspiração estão corretos sobre uma coisa: o
status quo não é aceitável. Conspiradores têm entendido com
precisão que existem desigualdades de poder e privilégio do
mundo que precisam ser corrigidas. O que falta aos teóricos da
conspiração é o desejo ou a capacidade de seguir as regras
básicas da lógica e da pesquisa investigativa.
Chip Berlet, 2009, p. 4
Por iniciativa própria ou involuntariamente, verifica-se que há várias pessoas
expostas a teorias conspiratórias. Constatamos que, no Brasil, desde a década de
1960, elas já estavam presentes na sociedade, tanto é que influenciaram o golpe
civil-militar ocorrido em 1964. A partir de 2014, elas exacerbaram-se no país de uma
maneira nunca antes vista, sendo disseminadas nas manifestações populares
ocorridas nas ruas de várias cidades e, em especial, nas redes sociais da internet.
166
Devemos entender que o fato de uma teoria da conspiração ser absurda ou
esdrúxula não pressupõe que muita gente não acredite nela e, dada a sua
permeabilidade no corpo social, não é seguro deixar passar qualquer teoria sem uma
análise racional. Conforme assinala Hofstadter, o caráter corrosivo das teorias
conspiratórias no debate público e político é que, na medida em que elas prejudicam
a capacidade de diálogo dentro da sociedade, transformam adversários em inimigos
e, consequentemente, ameaçam a ordem democrática. Se o adversário conspira, as
ferramentas da democracia não funcionam, formando um crescente discurso que
gera
ressentimentos,
18
podendo
produzir
violência,
ódio
e
intolerância
(HOFSTADTER, 1964), o que, de fato, estamos observando no Brasil atualmente.
Segundo
Chip
Berlet,
as
pessoas que
acreditam
em
alegações
conspiratórias às vezes agem sobre essas crenças irracionais, o que tem
consequências concretas no mundo real. As conspirações e fantasias, por mais
excêntricas que possam parecer, podem ter e, frequentemente, têm implicações na
realidade. Pensamentos conspiratórios são, para o autor, sintomas de atritos sociais
e, como tal, são perigosos para ignorar. Estas teorias são ferramentas que podem
ser usadas por certos líderes políticos para mobilizar uma massa de seguidores ou
para justificar a perseguição a determinados grupos, criando um ambiente em que o
racismo, o fanatismo, o antissemitismo e outras formas de preconceito e opressão
podem florescer. Assim sendo, o autor considera as teorias conspiratórias tóxicas à
democracia (BERLET, 2009).
Do mesmo modo, Jeffrey Bale afirma que as teorias da conspiração formam
ilusões coletivas que, no entanto, refletem medos reais e problemas sociais
verdadeiros. Para ele, a crença em teorias da conspiração contribui para que as
pessoas deem sentido a uma realidade inóspita e confusa, racionalizem as suas
dificuldades atuais e aliviem parcialmente seus sentimentos de impotência. Neste
sentido, não são diferentes de qualquer número de crenças religiosas, sociais ou
políticas e, por isso, são merecedoras de um estudo sério (BALE, 2007).
18
Para se ter uma ideia de como o ressentimento é uma força latente na história e que suas
manifestações interferem nas dinâmicas sociais e econômicas, cf.: Ferro (2009).
167
As teorias conspiratórias, para além de mera produção da fantasia humana,
também são um fenômeno político, social e cultural. Elas não sugerem apenas uma
falsificação, invenção ou imaginação da realidade, mas contribuem expressivamente
para intervenções no real. São produtoras de opiniões, sustentando identidades,
valores, ações de sujeitos e grupos sociais, assim como exercendo determinadas
funções explicativas que nos auxiliam a compreender como as pessoas pensavam e
sentiam o passado, bem como o presente.
Portanto, as ideias desprezadas pelos historiadores — por serem
consideradas “mentirosas” e por não originarem reconstituições históricas
verdadeiras dos fatos pesquisados — são capazes de conter dimensões simbólicas
importantíssimas, podendo revelar um rico e fértil terreno à análise histórica.19 Como
nos lembra Marc Ferro (1992, p. 86), “aquilo que não aconteceu (e por que não aquilo
que aconteceu?), as crenças, as intenções, o imaginário do homem, são tão História
quanto a História”, ou seja, formam discursos sobre a sociedade que as produz,
ressaltando as suas tensões e ambiguidades.
__________________________
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19
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170
Golpe de Estado e luta de classes:
o caso argentino de 1976
Marcos Vinicius Ribeiro1
Em 24 de março de 1976, a Argentina foi alvo de um golpe militar
protagonizado pela junta de comandantes em armas. Tratava-se de uma intervenção
capitaneada pelos seguintes militares: Jorge Rafael Videla (1925-2013), general do
Exército; Orlando Agosti (1924-1997), almirante da Força Aérea; e Eduardo Massera
(1925-2010), brigadeiro da Marinha (BORGES, 2015).2 Segundo Borges,
Logo nas primeiras horas após o golpe, a Junta Militar tomou os prédios
do governo e o Congresso Nacional. Pouco tempo depois os militares se
apropriaram das estações de rádio e televisão de Buenos Aires e das
principais cidades do interior. Em seguida, através dos principais meios
de comunicação de massa, o país foi informado que uma Junta de
Comandantes das três armadas havia decidido pôr fim ao agonizante
exercício das atividades civis e assumia o poder político em nome do
autodenominado Processo de Reorganização Nacional (BORGES,
2015).
1
Doutorando em História pela Universidade do Oeste do Paraná. E-mail: marquinhos_
[email protected]
2
O presente artigo é uma síntese da dissertação de mestrado em História, intitulada De Perón a Videla:
revisão histórica e historiográfica do Terrorismo de Estado na Argentina (1973-1978), realizada na
Unioeste, Campus de Marechal Cândido Rondon, e defendida em 2009. Disponível em:
<www.dominiopublico.gov.br>.
171
Os anos de 1970 apresentaram especificidades em relação ao antagonismo
no terreno da luta de classes dos países latino-americanos. A hegemonia
estadunidense articulou o projeto de financeirização das economias periféricas com
uma exigência complementar: tratava-se de acirrar o controle de contenção aos
movimentos sociais, contenção que foi reestruturada sob a perspectiva da imposição
da superexploração da força de trabalho, com o objetivo claro de fraturar a
resistência à imposição do projeto de recuperação de capitais, presente no binômio
segurança/desenvolvimento, característico da adesão à Doutrina de Segurança
Nacional (DSN).
Movimentos sociais de trabalhadores, a exemplo de associações, sindicatos
e partidos, sofreram forte intervenção dos aparatos repressivos do Estado, tendo em
vista sua desarticulação para a formação de um “tipo humano”, necessário à
reestruturação do Estado e do capitalismo, reestruturação em consonância com o
projeto do capital financeiro sob a hegemonia estadunidense. Na relação com a
sociedade, diversos mecanismos repressivos foram ampliados aos mais diversos
âmbitos da vida social.
María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, foi derrubada após uma
mobilização que oscilou entre as medidas de desestabilização na segurança
pública, os atentados propalados pela extrema-direita através da atuação da Aliança
Anticomunista Argentina (Triple A) e o caos econômico, reflexo da extrema
instabilidade gerada pela passagem de seis ministros da Fazenda em curtíssimo
espaço de tempo, no ano de 1976.
A sistematização do golpe foi antecedida por um lockout empresarial,
proferido e organizado pelas principais associações de representação da classe
burguesa argentina organizadas na Assembleia Permanente de Entidades Sindicais
Empresariais (Apege). Havia o consenso de que o “caos” econômico instalado a
partir da morte de Perón, em 1 de julho de 1974, e a consequente renúncia de Jose
Ber Gelbard, junto ao Ministério da Economia, representavam uma conjunção de
fatores que “obrigou” a paralisação geral. Gelbard era uma figura que atraía os
interesses dos grupos econômicos mais influentes da Argentina para o apoio do
172
governo de Perón. Gelbard, ademais, foi fundador da Confederação Geral
Econômica (CGE) que agrupou parcela significativa da pequena e média burguesia.
A crise atingiu seu ápice com o “Rodrigazo”, em 4 de julho de 1975, quando
Celestino Rodrigo, ministro da Economia de Isabelita, adotou medidas de promoção
da inflação e desvalorização do peso. As inclinações da classe empresarial no
contexto que se desenhou tornaram-se claramente golpistas. Acusavam o governo
Isabelita de ser manipulado por Lopez Rega, “El Brujo”, ministro do Bem-Estar Social,
e o tronco sindical da direita peronista havia se manifestado radicalmente contrário
às manobras da guerrilha e do peronismo combativo, cuja aparição causou certo
frisson, já no retorno de Perón de seu exílio em Madrid.
Sob o governo de Isabelita, a crise econômica se refletiu em tentativas
frustradas de construir uma base mínima de apoio durante a passagem de seis
ministros pelo Ministério da Economia, a saber: Gerbald, Gómez Morales, Celestino
Rodrigo, Pedro Bonanni, Antonio Cafiero e Emilio Mondeli. Todos eles passaram
fugazmente pelo cargo e, todos juntos, não somaram mais do que 100 dias de
gestão. Caíram por pressão organizada dos grupos econômicos que se alternavam
na tentativa de imposição de sua pauta para a economia argentina, uma
reestruturação que passava pelo alinhamento ao capital financeiro. Tratava-se de
uma crise sem precedentes, pois a economia cresceu por 11 anos consecutivos.
Panorama teórico
Ao discutir os efeitos progressivos do “Americanismo” e do “Fordismo” nas
sociedades contemporâneas, o comunista italiano Antônio Gramsci perscrutou a
forma de reestruturação econômica, social e cultural necessária ao projeto de
acumulação do fordismo racionalizado pelo americanismo, um modo de vida, da
seguinte forma,
Na América, a racionalização determinou a necessidade de elaborar um
novo tipo humano, adequado ao novo tipo de trabalho e de processo
produtivo: esta elaboração está até agora na fase inicial e, por isso,
(aparentemente) idílica. É ainda a fase de adaptação psicofísica à nova
estrutura industrial, buscada através dos altos salários; ainda não se
173
verificou (antes da crise de 1929), salvo talvez de modo esporádico,
nenhum florescimento de tipo “superestrutural”, ou seja, ainda não foi
posta a questão fundamental da hegemonia. A luta se dá com armas
tomadas do velho arsenal europeu e ainda abastardadas, que são,
portanto, “anacrônicas” em relação ao desenvolvimento das “coisas”
(GRAMSCI, 2007, p. 248).
Com base nos argumentos do autor, pode-se relacionar a operação das
ditaduras latino-americanas nas décadas de 1960-1970 a um processo de
implantação do ideário americanista, porém com especificidades concernentes às
diversas formações sociais, o que abriu caminho para uma miríade de soluções
arbitrárias e repressivas, cujo escopo fora articulado através dos diversos serviços
de inteligência.
A passagem da chamada “fase idílica” — marcada pelos “altos salários”,
como forma de promoção da conciliação — esgotou-se, promovendo consequências
para a resistência que foi brutalmente perseguida. Pode-se dizer que, no caso
argentino, a fórmula peronista do pós-guerra — cujo escopo centrou fogo no projeto
de redistribuição de renda promovido pelo Instituto Argentino de Promoção do
Intercâmbio (Iapi) — esgotou-se em virtude do definhamento das remessas de lucros
conseguidos com a venda de carne congelada para os países em guerra,
principalmente para a Inglaterra, parceiro comercial histórico da Argentina.
Apresentou-se uma crise de hegemonia, avaliada por Gramsci da seguinte
forma,
A crise se apresenta, praticamente, na dificuldade cada vez maior para
formar os governos: ela tem sua origem imediata na multiplicação dos
partidos parlamentares e nas crises internas permanentes de cada um
destes partidos (ou seja, verifica-se no interior de cada partido o que se
verifica no Parlamento como um todo: dificuldades de governo e
instabilidade de direção) (GRAMSCI, 2007, p. 96).
Embora o parlamento argentino tenha sido dissolvido imediatamente após o
golpe de março de 1976, é significativo entender que o projeto terrorista da ditadura,
no âmbito de sua direção, deu-se sob o predomínio da força. Não tomamos a
indicação de Gramsci como um elemento a mais, identifica-se nele uma aproximação
174
com o processo argentino. Neste sentido, o intelectual italiano Antonio Gramsci, nos
Quaderni, indica que quando a crise se acirra, ela se torna um elemento a mais; no
caso da Argentina, elemento crucial da crise de hegemonia que perpassou todo o
contexto anterior ao golpe de 1976, contexto representado pelo comprometimento
com ações ilegais, se tomadas do ponto de vista do Estado de direito. Gramsci
indica, neste momento, uma relação que aparentemente se torna personalista e se
materializa nos acordos para a sustentação do regime.
As formas deste fenômeno são também, em certa medida, de corrupção
e dissolução moral: cada fração de partido acredita possuir a receita
infalível para deter o enfraquecimento do partido como um todo e recorre
a todos os meios para assumir sua direção ou, pelo menos, para
participar da direção, do mesmo modo como, no Parlamento, o partido
pensa que deve ser o único a formar o governo para salvar o país, ou
pelo menos pretende, para dar apoio ao governo, participar dele do
modo mais amplo possível; disso resultam acordos cavilosos e
minuciosos, que não podem deixar de ser personalistas a ponto de
parecer escandalosos e que, frequentemente, são inconfiáveis e
traiçoeiros. Talvez, na realidade, a corrupção pessoal seja menor do que
parece, já que todo o organismo político está corrompido pelo
esfacelamento da função hegemônica (GRAMSCI, 2007. p. 96).
No contexto argentino mais amplo, por seu turno, radicalizado em termos de
resistência ao imperialismo desde o início do século XX, há um itinerário de greves e
lutas sociais que vão desde as greves patagônicas (também conhecidas como
“Patagonia
Trágica”
ou
“Patagonia
Rebelde”,
protagonizadas
pelos
anarcosindicalistas); a constituição do projeto peronista nos anos de 1940-1950; a
radicalização da esquerda marxista com a estruturação das guerrilhas rurais e
urbanas, já no ano de 1959, com a experiência dos Uturuncos (primeira guerrilha
rural da Argentina inspirada na Revolução Cubana); até a implantação, já em meados
de 1970, da ditadura de Terrorismo de Estado (TDE) — a solução final praticada pelo
Estado, que, a fim de conter e reprimir os movimentos de massas que foram
irradiados por todo o subcontinente, elaborou novas diretrizes. Segundo Enrique
Padrós,
175
[…] enquanto sistema estatal, o TDE implementou uma variada gama de
mecanismos administrativos, propagandísticos, psicológicos e jurídicos
que deram suporte às atividades, clandestinas ou não, das unidades
específicas de inteligência, informação e controle, assim como de
repressão física explícita (PADRÓS, 2006, p. 15).
Desse modo, o TDE foi uma política extraoficial que se caracterizou pelo
estabelecimento de uma relação social entre Estado e sujeitos mediada a partir do
terror irradiado pelo Estado. No caso argentino, o TDE foi a marca fundamental da
ditadura, na medida em que, com a atualização da subalternização imposta pela
DSN, instituiu a prática de desaparição forçada, os sequestros e intimidações, a
estruturação de Centros Clandestinos de Detenção (CCD’s) e a apropriação de filhos
(crianças ou bebês) de detidos/desaparecidos.
Ainda segundo Enrique Padrós, um dos elementos característicos do TDE é
a implantação da “cultura do medo”
Trata-se do cenário do silêncio, da desconfiança, da alienação, da
autocensura e de um clima de temor permanente. A “cultura do medo”
não deve ser confundida com a “pedagogia do medo”, entendida como
a instrumentalização da aplicação das modalidades repressivas de
impacto mais direto, a função “pedagógica” de ensinar e lembrar que,
havendo transgressão das atitudes, comportamentos e limites
permitidos, haverá duríssima punição. Neste sentido, o temor obtido
funciona como fonte de obediência compulsiva ou, na menor das
hipóteses, como desmobilização e paralisação militante ou de
manifestações pública de descontentamento. A “pedagogia do medo”,
organizada desde o aparato estatal e disseminada por todo o território
nacional, impõe, através da violência — direta ou irradiada, institucional,
cultural, psicológica —, o entorpecimento do raciocínio, o bloqueio da
capacidade de compreensão e a acentuação do estresse,
condicionamentos presentes no cenário da “cultura do medo” (PADRÓS,
2006, p. 18).
A imposição do medo, portanto, é característica central das experiências do
TDE e objetiva difundir atitudes de paralisia, desconfiança, resignação, silenciamento
e indiferença da sociedade civil diante dos grandes problemas da realidade
denunciados pela militância e pelo ativismo político. Pode-se dizer que se trata de
176
um elemento estruturador da Revolução Passiva, estudada por Gramsci. A
combinação entre exploração econômica, repressão física, rigoroso controle dos
espaços de atuação política e social e desinformação predominante intensifica a
incerteza e a insegurança.
A militarização das sociedades e a eliminação das oposições foram
combinadas a um projeto ajustado pela Central Intelligence Agency (CIA). Sobre a
economia dos anos de 1970, Ramirez avaliou que,
Es bien conocido que el mundo entró en crisis en febrero de 1972,
cuando el gobierno del presidente norteamericano Richard Nixon
desvalorizó el dólar, quebrando así las reglas de juego establecidas en
Breton Woods y más directamente los acuerdos de Ginebra de aquel
año, que reglamentaban el precio internacional del petróleo. […] Las
crisis como tales no son sucesos contingentes, manifiestan tensiones
inherentes a principios organizativos de una formación social. En este
caso era el fordismo, es decir, un tipo particular de acumulación
capitalista que entraba en crisis al no poder hacer frente a la disminución
creciente de la tasa de ganancias, la competencia entre las distintas
fracciones de la burguesía internacional, industriales e financieras, y a
una fuerte disputa entre los bloques de naciones, que inician su
formación y comienzan a equilibrar el poder mundial y corroer la
hegemonía norteamericana (RAMÍREZ, 2007, p. 169-170).
Alguns documentos do Departamento de Estado estadunidense, hoje
desclassificados, relacionam a atuação de funcionários do Estado à desestabilização
de governos nacionais na região. Suas funções foram “desviadas”, tendo em vista
certa atuação orgânica na elaboração, implementação e qualificação de ideologias
golpistas (COMBLIN, 1983). Compromissos de cooperação entre quadros
disciplinadores ativos na corporação militar estadunidense e latino-americana foram
estabelecidos para qualificar, aparentemente, o desmantelamento das guerrilhas
atuantes na região.
Em um documento do ano de 1976, mais especificamente do mês de março,
em que se pode observar a coordenação ativa entre brasileiros, argentinos e
estadunidenses na contenção e consequente eliminação da oposição argentina, a
intenção de “proteger” pode ser qualificada como seletiva. Conforme observamos:
177
The two major urban guerrilla organizations in Argentina are de the
People’s Revolutionary Army (Marxis-Leninist — “ERP”) and the
nominally “Peronist” Montoneros. The two groups are estimated to have
approximately 2,500 combatants each, and they attract the active
support of some 12,00 sympathizers. Both groups have demonstrated a
high degree of coordination in the kidnapping of business executives
and commando raids on small towns and military garrisons.
Occasionally, they engage in actions with combined forces 3
(DEPARTMENT OF ESTATE USA, 1976).
Com o acirramento da vigilância justificada pela atuação das guerrilhas no
contexto argentino, buscou-se ampliar o plano de reestruturação das relações
sociais com base na adoção de um novo padrão de acumulação de acordo com o
capital financeiro. É certo que os Montoneros, por exemplo, protagonizaram diversas
ações e atentados, assim como o Exército Revolucionário Popular (ERP). Porém, a
título de reestruturação das relações sociais, o plano dos militares açambarcou o
conjunto da sociedade. Embora a medida de intervenção golpista tenha sido
justificada pelos militares e por boa parte da imprensa burguesa como uma medida
de contenção da corrupção e da ameaça comunista, o que se viu na prática foi uma
ditadura de Terrorismo de Estado que matou mais de 30 mil pessoas.
Argentina, 1976
A despeito de o último golpe de Estado assumidamente civil-militar ter
ocorrido em 24 de março de 1976, o histórico golpista da Argentina revela a
tendência intervencionista da inteligentsia cívico-militar na dinâmica política. Podese afirmar que o século XX argentino é caracterizado pelo binômio avanço/retrocesso
e/ou mobilização popular/golpe de Estado. Todos os seis golpes militares foram
seguidos de repressão planificada, seletiva e retroativa, em uma espécie de
revanche à mobilização, com consequente alijamento do elemento popular da
3
“As duas principais organizações de guerrilha urbana na Argentina são as do Exército Revolucionário
Popular (marxista-leninista – “ERP”) e o nominalmente “Peronista” Montoneros. Os dois grupos estão
estimados em cerca de 2.500 combatentes cada e atraem o apoio ativo de cerca de 12,000
simpatizantes. Ambos os grupos demonstraram um alto grau de coordenação no sequestro de
empresários e incursões de comandos em pequenas cidades e guarnições militares. Ocasionalmente,
eles se envolvem em ações com forças combinadas”.
178
política. A tendência dominante e histórica dos golpes foi alijar o exercício da política
ou a possibilidade de Revolução social das classes subalternizadas.
Para Pilar Calveiro, o golpe de 1976 foi uma medida retroativa,
Quando os grupos economicamente dominantes do país perderam a
capacidade de controlar o sistema político e de ganhar as eleições — o
que se deu com o surgimento do radicalismo e se aprofundou com o
peronismo —, as Forças Armadas, em especial o Exército, passaram a
ser consideradas um meio para alcançar o governo, através das
quarteladas. Assim, transformaram-se em receptáculo dos ensaios de
diferentes frações do poder que buscavam recuperar certo consenso e,
acima de tudo, manter seu domínio. (CALVEIRO, 2013, pp. 23-24)
Ao todo, foram registrados seis golpes de Estado durante o século XX
argentino, com a seguinte cronologia: 1930, 1943, 1955, 1962, 1966 e 1976.
Entretanto, a história dos dois últimos, ocorridos em 1966 e 1976, revela a adesão da
DSN como mola propulsora do binômio “desenvolvimento”/repressão, visto que
possuía como horizonte o disciplinamento da classe trabalhadora, bem como a
reestruturação da economia e do Estado e, de maneira mais ampla, da sociedade
ou das relações entre as classes sociais. Para Pilar Calveiro, a novidade da ditadura
de 1976, com a imposição do TDE, antes mesmo do golpe de Estado durante o
período do terceiro governo peronista desde 1975, foi a institucionalização do
desaparecimento (Calveiro, 2013).
Esta tendência se acirrou com o golpe de 1976, pois, conforme revela a
Comissão Nacional pelo Desaparecimento de Pessoas (Conadep) — tendo em vista
o documento oficial da Junta Militar composta das três armas —, para o golpe e,
consequentemente, para a ditadura terrorista, tratava-se de uma intervenção seletiva,
pois, segundo a Comissão, a Operação Piloto, no âmbito industrial, foi substituída
pelo Decreto Secreto nº 504/77, intitulado Continuação da Ofensiva Contra a
Subversão.
O Exército agirá seletivamente sobre os estabelecimentos industriais e
empresas do Estado, em coordenação com os organismos estatais
relacionados ao âmbito, para promover e neutralizar as situações
conflitivas de origem trabalhista, provocadas ou que possam ser
exploradas pela subversão, a fim de impedir a agitação e a ação
179
insurrecional de massas, e contribuir para o eficiente funcionamento do
aparelho produtivo do País (CONADEP, 1993, p. 28).
A seletividade mencionada possuía como horizonte certa revanche contra
uma base social mobilizada por intensas transformações no mundo do trabalho. O
sindicalismo argentino de base experimentou saltos qualitativos, proporcionados
pela dinâmica da luta de classes que o manteve mobilizado e atuante, mesmo nos
períodos de maior repressão. Essa dinâmica chegou a minar e a derrubar a ditadura
imposta pelos setores conservadores da sociedade, em 1966, no episódio do
Cordobazo, em 1969.
Portanto, para enfrentar a ditadura terrorista de 1976, alguns setores do
movimento operário se encontravam qualitativamente preparados para o confronto,
mas quantitativamente desequilibrados. Os protagonistas desse movimento eram os
militantes dos partidos de esquerda — principalmente do Partido Revolucionario del
Pueblo (PRT), com seu braço armado do Ejercito Revolucionario del Pueblo (ERP) —
, bem como do peronismo, com sua variante armada dos Montoneros. Porém, os
militares e a direita argentina acionaram o arsenal golpista, amplamente superior e
desproporcionalmente truculento, ainda durante o governo de Isabelita Perón.
Segundo Ceferino Reato, “Los militares aprovecharan los últimos tres meses
y medio del gobierno de Isabel Perón para elaborar las listas de personas que serían
detenidas inmediatamente después del golpe de Estado” (Reato, 2012, p. 70). Ainda
segundo Reato, estas listas foram elaboradas com o apoio de políticos e presidentes
de empresas. Entretanto, ao afirmar que os setores dominantes não tinham ideia do
que estava por vir, o autor redime a burguesia argentina com relação ao plano da
ditadura.
Por outro lado, o engodo ideológico irradiado por jornais e revistas durante o
último período do governo de Isabelita Perón alardeava um clima de guerra
psicológica para contribuir/coadunar com a atuação golpista. Segundo Novaro e
Palermo (2007), a questão da informação ficou secundarizada para dar espaço à
campanha pela intervenção militar. Os chamados aparelhos privados de hegemonia
da burguesia argentina, notadamente o Grupo Clarín, La Nación e La Razón, três dos
mais significativos jornais de circulação nacional, por exemplo, envolveram-se com
180
a repressão e desaparição do empresário Luis Gavier, acusado de ligações com a
guerrilha após obter a quase totalidade da Papel Prensa, empresa distribuidora de
papel jornal para os jornais argentinos de circulação diária. Gavier foi eliminado em
um misterioso acidente de avião ocorrido no México e, logo em seguida, os três
jornais em questão fizeram uma campanha difamando o empresário, tornando-se,
assim, os maiores acionistas da Papel Prensa, ou seja, monopolizando a distribuição
de matéria-prima necessária para o funcionamento da imprensa.
Os setores patronais e o preparo do Golpe de 1976
A burguesia argentina usou, frequentemente, toda a força de mobilização de
seus setores para estabelecer a hegemonia sobre os demais setores produtivos e
não produtivos da Argentina, respectivamente, trabalhadores e pequena burguesia.
A correlação de forças no país foi atravessada por repressão em todos os setores da
vida social, sobretudo econômicos, como consequência do aporte da violência,
usada para impor o plano de reestruturação neoliberal sobre todos os aspectos da
luta de classes.
A hegemonia não é apenas repressão, conforme revelam os estudos
produzidos pelo comunista Antonio Gramsci. Pode-se dizer que, mesmo quando os
mecanismos clássicos da hegemonia burguesa demonstram seus limites, os
diversos grupos da vida nacional acionam certa mobilização preparada para a
disputa no terreno social. Os setores patronais argentinos fizeram a leitura
oportunista com relação ao governo peronista e produziram sua pauta tendo em vista
o Estado como agente da reação.
As patronais aderiram à pauta golpista, seguindo a tendência dominante e o
modus operandi da extrema-direita com histórico de fascistização das instituições
dominadas pela pequena burguesia. A fundação de entidades representantes dos
interesses da alta burguesia adotou um significado distinto no contexto do golpe.
Algumas foram acionadas no intuito de manter a aura idônea de outras entidades
históricas.
A Apege, por exemplo, foi uma dessas entidades responsáveis por organizar
os lockouts que precederam o golpe, atuando de forma orgânica, ou seja,
181
produzindo e qualificando a unidade de ação da direita empresarial para o golpe.
Com estrutura de ação fugaz e alinhada ao contexto explosivo que precedeu o golpe,
a Apege foi particularmente necessária na guerra de movimento.
Fundada pelos setores patronais em 1975, essa entidade reuniu boa parte
da burguesia argentina e unificou a pauta hegemônica do bloco econômico da alta
burguesia em torno de pontos fundamentais para a atuação política. Dentre as
entidades que lhe aderiram, encontramos a Sociedade Rural Argentina (SRA), o
Conselho Econômico Argentino (CEA), a Confederação de Associações Rurais de
Buenos Aires (Carbap), Câmara da Construção e do Comércio, Câmara de
Importadores e Exportadores e as Câmaras de Bancos da Argentina.
A Apege foi um importante órgão unificador da pauta da grande burguesia
argentina, servindo como bureau tanto para a organização da pauta política de
pressão do setor empresarial quanto para o preparo do golpe. A pauta dessa
entidade não pode ser resumida, ainda que, talvez, seu foco principal fosse a
supressão de todos os atributos legais considerados entraves para a ampliação dos
lucros das grandes empresas argentinas, no quadro mais geral de superexploração
da força de trabalho ou do circuito ampliado da exploração capitalista. Tratava-se,
enfim, de atuação na guerra de posição contra os fortíssimos sindicatos argentinos,
antecipando a verdadeira rapina multinacional associada e a quebra de direitos
trabalhistas típicos do contexto neoliberal.
O presidente da CEA, Jose Alfredo Martínez de Hoz, era membro de família
abastada e da oligarquia terrateniente argentina, sendo um autêntico representante
histórico dos interesses da alta burguesia dependente e associada ao imperialismo.
De certa forma, vinculava-se também à fundação da SRA, visto que seu bisavô, Jose
Martínez de Hoz, foi membro fundador da entidade. As duas organizações, cujos
líderes históricos eram os Martínez de Hoz, lançaram, no mês de setembro de 1975,
um chamado à paralisação geral dos produtores agrários.
Durante os eventos que envolveram tal paralisação, ficou clara a posição da
Apege a favor do golpe. A paralisação abrangeu, principalmente, o setor ganadero
— representado tanto pela SRA quanto pela Carbap. O ataque direto ao governo se
ampliou em várias frentes de atuação, enquanto a produção industrial caiu
182
consideravelmente, em uma ação planificada do que mais tarde seria qualificado
como “Terror Econômico”, o que obrigou o governo a tentar atrair as classes
fundamentais do capitalismo argentino em direção a um acordo de grandes
proporções.
Isso indica uma tendência bonapartista ou cesarista regressiva que
encontrou paralelo na atuação histórica do peronismo, pois os trabalhadores
avançaram e produziram certo salto qualitativo desde os eventos que envolveram a
luta callera durante o Cordobazo (1969), o que demonstrou, sobretudo, uma
organização autônoma dos trabalhadores em relação ao peronismo proscrito à
época.
A pressão exercida pelos membros da Apege se acirrou em novembro de
1975, quando a entidade dirigiu a segunda paralisação do setor agropecuário
argentino. A partir de então, a pauta interna da entidade determinava aos seus
membros que parassem de pagar suas dívidas no exterior, o que acabou por
amofinar as iniciativas governamentais de rearticular uma saída para a crise
econômica dos anos de 1970. Em realidade, o peronismo nunca produziu uma
solução autônoma. Toda a estrutura dependente sequer foi alterada durante os três
primeiros governos peronistas, ou seja, o aparato ampliado do Estado argentino foi
aparelhado pelos militares, tendo em vista as possibilidades construídas,
reconstruídas ou reelaboradas pelo próprio peronismo.
Por exemplo, o financiamento da Triple A — órgão paramilitar criado no intuito
de caçar e exterminar a oposição — provinha do Ministério de Bem-Estar, sob as
ordens de seu ministro, Lopez Rega, “El Brujo”. As ações da Triple A se acentuaram,
ditando o tom dos anos de 1973 e representando a segunda fase do terceiro governo
peronista. A Triple A seguiu a normativa encontrada, após o golpe, na ação das
chamadas “patotas”, patrulhas militares à paisana que agiam no sequestro e
desaparição forçada de militantes de oposição.
A Aliança Aticomunista Argentina, a Três A, fundada pouco depois de
iniciar-se o governo de Perón por seu ministro de Bem-estar Social, José
Lopez Rega, e outros grupos de igual inspiração fascista, como o
Comando Libertadores da América (formado e conduzido a partir do II
183
Corpo do Exército, com assento em Córdoba, foi ele que criou, em 1975,
o primeiro centro clandestino de detenção nessa unidade), colaborou
ativamente na escalada de violência que se viveu desde 1973, e com
maior intensidade ao longo de 1975; e também, em grande medida, na
desarticulação e desmobilização das expressões políticas e sindicais da
esquerda. Em dois anos e meio, entre fins de 1973 e princípios de 1976,
esses grupos paramilitares perpetraram não menos de novecentos
assassinatos (alguns estudos elevam essa cifra a mais do dobro, porém
sem muitos fundamentos) (NOVARO & PALERMO, 2007, p. 104).
Noutros termos, a Triple A foi uma estrutura clandestina que, pautando-se
pela linha da ultradireita argentina, atuou no plano nacional com a incumbência de
exterminar fisicamente não só pessoas suspeitas de militar em movimentos de
esquerda, mas também aquelas que representassem ameaça. Dentre as ações de
repressão perpetradas pela Triple A, destaca-se o saldo de aproximadamente mil
mortes oficializadas entre os anos de 1973 e 1976, ou seja, durante o triênio do
terceiro governo peronista.
Concomitante à atuação das milícias terroristas da Triple A, o governo
peronista, a fim de conter o descontentamento dos setores patronais, tomou algumas
medidas de desvalorização da moeda argentina, o que permitiu certo salto qualitativo
no processo de acumulação capitalista via setor agroexportador. Tais medidas
naufragaram no episódio conhecido como “Rodrigazo”, uma referência a Celestino
Rodrigo, ministro da Economia do terceiro governo peronista.
Foi então que, sob a liderança da entidade patronal Apege, alguns dos
principais setores agrários ligados ao ramo da exportação produziram um episódio
que encontra paralelo no lockout chileno, cujo intuito foi desabastecer o Chile e
derrubar o socialista Salvador Allende. Na Argentina, porém, o episódio ocorreu,
segundo Muleiro, da seguinte forma,
La patronal campera se había anticipado con cinco paros nacionales en
1975, el primero el de 3 de marzo, convocado por la Sociedad Rural
Argentina, Confederaciones Rural Argentina y Coninagro, ya al que,
luego de algunas desavenencias se sumó la Federación Agraria
Argentina […] La confluencia patronal ampliada — La APEGE — se
presentó en público con el pronunciamiento de agosto de 1975. Allí
decía que “la Nación está atravesando una de las más graves crisis de
184
la historia” y condenaba “la inflación, desenfrenada, desabastecimiento,
virtual cesación de pagos en el sector externo, quiebra empresaria,
desocupación, paralización de la inversión y, sobre todo, una gangrena
corruptiva que invade todas las expresiones de la relación social
argentina” ante lo cual se imponían “soluciones genuinas, fundadas en
normas de conducta económica que tiene universal e invariable validez”.
Pero ello se constituía la APEGE “regida por los principios de la libertad
de asociación, la defesa de la iniciativa privada y la dignidad de lo ser
humano” (MULLEIRO, 2012, p. 128-129).
A paralisação do setor agrário argentino foi o prelúdio de uma paralisação
maior comandada pela Apege, em fevereiro de 1976. Esta paralisação, que reuniu
90% da burguesia argentina, representou um sinal evidente da retirada do apoio ao
governo de Isabelita. Ademais, os envolvidos ocupavam um espaço de pressão
deixado pela Confederación General Económica (CGE), que deixou de se constituir
em uma entidade de representação empresarial.
De sua parte, as classes altas, a grande burguesia financeira, industrial
e latifundiária, embora se encontrasse na defensiva no cenário de 1973,
tiveram margem de manobra mais do que suficiente para transgredir —
por exemplo, por meio de um jogo inflacionário cujas regras não escritas
conheciam melhor do que ninguém — todas as tentativas de
organização econômica — em si mesmas pouco viáveis — que
afetassem em alguma medida seus interesses. E desde meados de
1975 (por meio da inflamada e livre cambista Assembléia Permanente
de Entidades Sindicais Empresariais — APEGE) já trabalhavam
decididamente na ofensiva golpista, exacerbando o quadro de
ineficácia e paralisia governamental (NOVARO & PALERMO, 2007,
p. 29).
A partir de então, estava concluída uma etapa que fundamentou as bases
para o golpe de 1976. A despeito da avaliação conservadora de Novaro e Palermo,
o bloco de poder que apoiou o terceiro governo peronista, na verdade, entrou em
decadência, acompanhado de perto pelo fenecimento da legalidade na luta contra
a violência da ultradireita, enquanto as entidades sindicais combativas, em vias de
decapitação e/ou desmantelamento das principais lideranças que foram caçadas ou
185
exterminadas e, em alguns casos, eliminadas, travaram uma luta sem tréguas em
busca da defesa de seus interesses corporativos,
No último lance deste périplo, evaporar-se-ia, finalmente, de forma
quase completa, a capacidade do governo e a garantia estatal da
ordem. Os grupos armados, integrados pelos militares, as forças
policiais, as organizações guerrilheiras, as cúpulas sindicais,
empresários e setores políticos de extrema-direita, multiplicaram o medo
e a desordem. A isso se somaram a deserção das figuras mais
expressivas do governo peronista — à fuga de Lopez Rega, se seguiu o
“estou fora” (“me borre”) de Casildo Herreras, secretário-geral da CGT,
que se refugiou em Montevidéu — e o desânimo de uma classe política
que admitia já não ter soluções (como expressou Balbín), enquanto os
sindicatos se encerravam mais e mais em extenuantes tentativas de
proteger seus interesses imediatos (NOVARO & PALERMO, 2007, p. 29).
As principais lideranças do sindicalismo verticalista seguiram o mesmo
caminho: “Encurralada pela violência e o desvario governamental, a vida pública
afundou num marasmo do qual os atores sociais optaram por escapar, à espera de
que passasse o temporal” (Novaro & Palermo, 2007, p. 39). O equilíbrio relativo de
forças foi se afirmando com a participação/intervenção militar nos assuntos políticos,
o que se tornou uma variável constante desde 1930.
Avaliamos a discussão de Novaro e Palermo sobretudo em virtude dos fatos
narrados, pois a interpretação dos autores sobre os mecanismos do Estado para
conter, de forma insuficiente, os ataques da ultradireita paramilitar parece
desconstruir a ação dos sujeitos em torno da resistência ao projeto. Contra tais
argumentos, pode-se questionar, por exemplo, o grau de envolvimento do próprio
peronismo nas ações de Terrorismo de Estado ou, ampliando a análise da relação
histórica estabelecida por estes setores com o Estado, questionar sobre a
possibilidade realmente existente de o peronismo ter freado o aparelhamento que ele
mesmo criou.
A partir de 1943, com a ascensão meteórica de Perón, que soube articular a
seu favor a conjuntura política do pós-guerra, o peronismo se transformou na
expressão política que preponderou sobre as demais e até mesmo secundarizou
tendências revolucionárias. Neste sentido, a partir de 1955, a política, para os setores
186
peronistas, se transformou em exclusão pela ameaça constante que a organização
do movimento peronista representou aos setores da classe dirigente conservadora
na Argentina.
O golpe de 1976, portanto, estabeleceu a chamada Disposición Final (Reato,
2012). Tratava-se da planificação do terror com a imposição das torturas e
desaparição, método organizado pela corporação militar que já estava presente
antes do golpe, conforme mencionado anteriormente, no caso das listas de
eliminação tecidas pelos militares em conluio com as lideranças políticas e
empresariais.
Os setores conservadores da sociedade argentina — que, em sua grande
maioria, encontravam apoio no setor recalcitrante da Igreja Católica abalada pelas
interpelações dos setores progressistas da instituição — conduziram a Argentina ao
golpe, que surgiu de um processo repressivo sistematicamente planejado e
conduzido pelos setores civis e militares. O Terrorismo de Estado já fazia parte da
cena política argentina mesmo antes do golpe. O golpe de 1976 foi a conclusão e
ampliação do aparato conservador, demarcando a conquista do Estado. Martínez de
Hoz, nesse contexto, foi nomeado ministro da Economia, representando uma das
principais figuras de sistematização do golpe.
A partir dos eventos que antecederam o golpe de 1976, ficou claro que o
ataque à oposição revolucionária, a exclusão política do peronismo conjugada à
mobilização dos setores patronais — com a adesão das teses implícitas na DSN por
parte do militarismo argentino apoiado pela mobilização dos setores conservadores
— e a atuação das milícias de extermínio paramilitares ganharam contornos
repressivos e terroristas: “Gestou-se, desse modo, uma sensação angustiante que
combinava o terror ante a repressão, a atribuição de culpas pelas frustrações e
‘enganos’ sofridos, e também a autoacusação mais ou menos indiscriminada de uma
sociedade descarrilada” (NOVARO & PALERMO, 2007, p. 39).
Ao tomar o poder, os militares colocaram em marcha um plano de
reestruturação geral do Estado e da vida social. Os principais traços da intervenção
militar de 1976 são destacados pelo historiador conservador Luis Romero: “Os
comandos militares concentraram toda a ação em suas mãos, e os diversos grupos
187
parapoliciais que tinham operado nos anos anteriores se dissolveram ou se
subordinaram a eles” (Romero, 2006, p. 197). Os grupos parapoliciais mencionados
eram os que possuíam ligação com a extrema-direita do peronismo, como a Triple A.
É conhecida a frase do general de divisão do exército argentino, Santiago
Omar Riveros, perante a Junta Interamericana de Defesa: “Fizemos a guerra com a
doutrina na mão” (CONADEP, 1993, p. 2), para justificar a ideia de uma guerra interna
na Argentina. Com ela, os militares de alta patente, a partir dos julgamentos que
buscavam acertar contas com o passado repressivo do país, tentaram fugir da
responsabilidade pelos acontecimentos no contexto da ditadura.
Romero assinala a responsabilidade dos militares de alta patente e de baixa
patente pela dimensão repressiva bancada a partir do Estado,
As ordens desciam pela cadeia de comando até chegar aos
encarregados da execução, as Forças-Tarefas — formadas
principalmente por jovens oficiais e alguns suboficiais, policiais e civis
—, que também tinham uma organização específica. A execução
também exigiu um complexo aparato administrativo, pois devia
acompanhar o movimento — entradas, translados e saídas — de um
número muito grande de pessoas. Cada preso, desde o momento em
que era considerado suspeito, era registrado em uma ficha e em um
prontuário. Em seguida, era feito um acompanhamento e uma avaliação
de sua situação, e tomava-se uma decisão final que sempre provinha do
mais alto nível militar. A repressão foi, em suma, uma ação sistemática
realizada pelo Estado (ROMERO, 2006, p. 197).
A estrutura burocrática criada pelo processo consistia na ideia básica de que
a difusão de informações sobre as investidas militares acerca do Terrorismo e sobre
as operações destinadas à prisão e tortura dos envolvidos com a oposição
comprometeria o maior número de responsáveis devido, dentre outros aspectos, à
pulverização da ação repressiva sistematizada em diversos órgãos e instâncias do
Estado. Porém, a historicidade da repressão durante a ditadura e o desdobramento
posterior dos julgamentos e punição aos responsáveis pelos crimes de lesahumanidade revelaram uma dimensão mais ampla do que o jogo restrito da cadeia
de comando verticalizada da corporação militar.
188
Além disso, a referência a uma determinada pessoa que se encontrava
detida devia ser apagada como forma de assegurar impunidade aos envolvidos na
detenção, o que garantiria o sucesso do trabalho em longo prazo. O principal ponto
de atuação dos Grupos de Tarefas consistia na execução de planos, pois “Tratou-se
de uma ação terrorista, dividida em quatro momentos principais: sequestro, tortura,
prisão e execução” (ROMERO, 2006, p. 197). As tarefas que compunham esses
pontos fundamentais dos operativos realizavam-se, usualmente, no período noturno,
envolvendo uma grande mobilização de contingentes como garantia de sucesso da
investida contra o alvo escolhido.
A partir de 1976, houve, nas relações entre o patronato argentino e os
trabalhadores organizados em classe, o estabelecimento de novos parâmetros,
marcados pela ativação da política do Terrorismo de Estado. Os dois lados deviam
ceder para a passagem adiante do projeto civil-militar da ditadura terrorista, com
características intrínsecas aos questionamentos levantados durante a conjuntura de
crise gestada durante os anos que compreendem a segunda metade da década de
1970. Noutros termos, a crise econômica foi usada como mecanismo de
convencimento para a chamada Disposição Final. Esta hipótese de trabalho nivela a
responsabilidade do patronato argentino com seus parceiros econômicos
multinacionais.
O Estado, enquanto instituição, na visão dos golpistas, dentre eles,
destacamos, o ministro da Economia da ditadura, Martínez de Hoz, devia “pairar
acima dos conflitos” e negá-los, ainda que estes não deixem, em hipótese alguma,
de existir. Tal assertiva foi utilizada em benefício de um projeto de recuperação de
capital, mesmo que isso não fosse revelado por seus ideólogos. A leitura em
perspectiva histórica do processo revela a amplitude dos mecanismos de terror
experimentados no próprio parque produtivo das multinacionais que atuavam na
Argentina em sintonia com os interesses multinacionais.
O plano de Martínez de Hoz, a desnacionalização das indústrias e/ou
desmonte do Estado, possuía como prerrogativa básica a extinção de toda
resistência operária ao plano da direita livre-cambista, nos termos de Novaro e
Palermo, ou, em termos marxistas, a direita neo ou ultraliberal. Para conseguir tal
189
êxito, o controle sobre os trabalhadores nas fábricas se estendeu de modo
sistemático para fora delas.
A extinção dos postos de trabalhos, que era parte do projeto de
desindustrialização, certamente mobilizou parcela significativa dos sindicatos que
optaram por não estabelecer nenhum tipo de acordo frente ao panorama que se
instaurou. Sobre o saldo deste embate, é importante apresentar os números
recolhidos pela Conadep em relação aos trabalhadores mortos durante a ditadura
terrorista de 1976, “30,2% dos detidos desaparecidos denunciados à Comissão
Nacional Sobre o Desaparecimento de Pessoas são operários, e 17,9%, empregados
(dos 21% que representavam os estudantes, um em cada três, trabalhava)”
(CONADEP, 1993, p. 280).
A planificação da repressão voltada para o disciplinamento dos
trabalhadores, como consequência da adesão ao projeto da ditadura por parte dos
setores patronais, foi responsável pelo aparelhamento da repressão nos locais de
trabalho e nas vilas operárias. Nas plantas industriais da Mercedes Benz e da Ford
Motors, por exemplo, houve ampla atuação da repressão com o saldo de centenas
de desaparecidos. A motivação da desaparição assemelhou-se ao castigo exemplar.
Tratava-se de eliminar os focos de tensão entre empresas e trabalhadores; portanto,
em sua grande maioria, os desaparecidos foram escolhidos em virtude do trabalho
que realizavam no sindicalismo.
Entretanto, cabe destacar que a forma de atuação de tais operativos foi
possibilitada pela apropriação da doutrina contrainsurgente subsumida pelo Exército
argentino durante o golpe de março de 1976. O ministro do Trabalho, general Horácio
Thomas Liendo, em uma entrevista veiculada pelo jornal La Nación, no dia 12 de
novembro de 1977, afirmou que com “respeito à subversão no âmbito fabril, sabemos
que ela tenta desenvolver uma intensa e ativa campanha de terrorismo e intimidação
a nível do setor trabalhista” (CONADEP, 1993, p. 281).
O protagonismo da repressão ao setor fabril, no âmbito do sucesso do
processo de “redenção”/refundação da sociedade argentina, foi fundamental para
os interesses do setor agroexportador e multinacional associado. Não menos
explicativo, ao continuar sua explanação acerca da Doutrina por Liendo, no que
190
concerne aos interstícios do ativismo sindical nas fábricas, o general diz que “É
necessário conhecer o modo de agir da subversão fabril, para combatê-la e destruíla” (CONADEP, 1993, p. 281). Neste ponto, a confluência de ações relacionadas ao
Terrorismo de Estado manifestou-se em seu discurso da seguinte forma:
Isto se manifesta por alguns dos procedimentos seguintes: o
doutrinamento individual e de grupo, para a conquista das classes
operárias, colocando-se à cabeça de falsas reivindicações desse setor;
a criação de conflitos artificiais para conseguir o confronto com
dirigentes empresários e o desprestígio dos autênticos dirigentes
operários (CONADEP, 1993, p. 281).
Se havia uma conduta tática estabelecida para decapitar o movimento
operário em seu nascedouro, havia, por outro lado, objetivos pedagógicos tangíveis
a tais ações que se relacionavam com a panorâmica difusão do Terrorismo de Estado
enquanto política sistematizada em mecanismos específicos, com um fim imediato,
contínuo e de longo prazo.
Como indicou o general Liendo, referindo-se ao objetivo das ações de
“doutrinamento” e “eliminação” dos quadros dirigentes do movimento sindical:
“Frente a isso, o governo e as Forças Armadas comprometeram seus meios e seu
máximo esforço, para garantir a liberdade de trabalho, a segurança familiar e
individual de empresários e trabalhadores e o aniquilamento desse inimigo de todos”
(CONADEP, 1993, p. 281).
Desta forma, buscou-se difundir um projeto que, nos dizeres do general,
aparecia conjugado ao interesse do “bem-estar coletivo”. Como se as ações de
extermínio, de fato, atendessem ao conjunto mais geral da sociedade, continua o
general Liendo:
Mas cabe a reflexão de aqueles que se distanciam do desenvolvimento
do “Processo”, procurando o benefício individual ou do setor,
convertem-se em cúmplices dessa subversão que devemos destruir, do
mesmo modo de que aqueles que não se atrevam a assumir a
responsabilidade que esta situação impõe (CONADEP, 1993, p. 281).
191
Com isso, procurou-se estabelecer uma dimensão ampliada da vigilância
castrense, que contou com a adesão do setor executivo-empresarial, em uma
espécie de aliança Terrorista, cujo objetivo final era a pátria redimida e a implantação
da pátria financeira. Por isso, a massiva ação de terror direcionada aos setores
sociais da produção tinha objetivos de longo alcance: mais do que estabelecer a
vitória da ditadura terrorista, tratava-se da eliminação de toda uma geração de
militantes comprometidos com a revolução.
Considerações finais
A ditadura reacionária e terrorista na Argentina, a partir de 1976, possui
especificidades sem paralelo com a história dos projetos de crise e de recuperação
do capital em termos mundiais. Embora articulada ao projeto capitalista dos anos de
1970, o plano da ditadura foi terrorista. Seus efeitos foram retroativos, no que se
refere ao estabelecimento de uma indústria nacional na periferia, e de longo prazo,
com relação à lúpem-proletarização e privatização.
Os casos ainda sem veredicto efetivo ou manifestação judicial sobre a
repressão nas fábricas argentinas, cujos casos paradigmáticos abrangem empresas
multinacionais como Acindar, Astarsa, Dálmine Siderca, Ford, Ledesma e Mercedes
Benz, denotam ampla possibilidade de intervenção no tempo presente das
organizações da sociedade civil. Trata-se de um processo inconcluso que foi
retomado recentemente por diversas publicações. São casos que revelam a
especificidade do projeto imposto com o golpe de 1976.
No intuito de superar a “teoria dos dois demônios” — descrita por Reato
(2012, p. 20) como “hubo dos terrorismos, uno de izquierda (las guerrillas) y otro de
derecha (el Estado), que creían que la violencia era un recurso legítimo para alcanzar
objetivos políticos de poder” —, que justificou e equiparou o golpe e a atuação da
ditadura à luta das organizações de esquerda, contrárias à imposição do projeto
neoliberal, é necessário, por um lado, buscar na trajetória dos militantes dos anos de
1970 um contraponto ao projeto ditatorial. Por outro lado, pela especificidade de
atuação/repressão neoliberal no contexto latino-americano, torna-se mais do que
necessário, além de trajetórias, recuperar projetos que foram derrotados, não como
forma de balanço histórico, mas como necessidade de enfrentamento ao capital.
192
Fontes
DEPARTAMENT OF STATE. Sumary of Argentine Law and Pratice of Terrorism. USA, 1976.
Disponível em: <https://issuu.com>. Acesso em: 20.8.2015.
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ROMERO, L. A. História contemporânea da Argentina. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
193
Reflexões sobre a teologia do livre
mercado: democracia e livre
mercado segundo o Instituto
Ludwig von Mises Brasil
Raphael Almeida Dal Pai1
O Instituto Ludwig von Mises Brasil (IMB) surge2 em meio a um período de
intensos questionamentos sobre a forma de organização e reprodução metabólica
do capital, desencadeados pela crise financeira de 2008. Neste sentido, observouse, nos EUA e na Europa, uma série de manifestações, cujos temas foram: os efeitos
da crise sobre a população (demissões e ordens de despejos nos EUA); as medidas
impostas para atenuar a crise (a exemplo do pacote de medidas de austeridade, o
Troika, aprovado na Grécia e possuindo grande repercussão na mídia mundial); e as
lutas contra os regimes ditatoriais no Oriente Médio, conhecidas como “Primavera
Árabe”.
Na América, tendo os EUA como epicentro da crise financeira, presenciamos
a erupção de uma série de manifestações, nas quais os cidadãos da maior potência
econômica e militar do globo lutavam para tomar o controle de seus destinos, dos
bancos e centros financeiros; tirar de Wall Street e devolver a Main Street, ou melhor,
ocupar Wall Street.
1
Mestrando em História pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná e professor da Secretaria de
Estado da Educação do Paraná.
2
A data exata de surgimento é um tanto confusa, mas é seguro definir como entre final do ano de
2007 e início de 2008.
194
No Brasil, manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público se
espalharam por todo o país, passando a ser conhecidas como Jornadas de Junho
de 2013. Obviamente que reduzir as jornadas a uma questão de aumento sobre uma
tarifa é tirar-lhes toda a riqueza de questões. O cerne da questão articulada pelo
Movimento Passe Livre sugere o próprio acesso e direito à cidade, ou seja,
democratizar o uso da cidade àqueles que não podem usufruir dos espaços que
ajudaram a construir.
Essas manifestações ocorrem, de fato, em resposta a um processo
relativamente recente de implementação de um projeto econômico neoliberal.
Apesar de as motivações serem diversas, assim como os resultados e
desdobramentos, as questões impostas por tais manifestações permeiam a
reivindicação de direitos que foram sistematicamente retirados ao longo dos anos.
Ademais, a efetivação das mudanças solicitadas altera conceitos de forma que estes
estejam não apenas em consonância, mas também reforcem o projeto desejado.
A esse respeito, é preciso adotar uma forma de convencimento que
transforme — ou pelo menos transvista — interesses específicos de classe em
interesses gerais. Sob este enfoque, merecem reflexão tanto as articulações e os
esquemas dos teóricos visando tornar liberdade sinônimo de livre mercado, como
suas concepções sobre democracia. Apesar de não parecer, à primeira vista, estes
conceitos se encontram interligados, já que têm o mesmo propósito: apresentar o
livre mercado como a melhor alternativa — muitas vezes a única — para o pleno
desenvolvimento da humanidade.
Diante disso, num primeiro momento, esse texto propõe discutir — a partir
de escritos dos economistas Milton Friedman, Ludwig von Mises e artigos
selecionados do IMB — como esses teóricos construíram — e, no caso do Instituto,
ainda constroem — suas argumentações sobre democracia e livre mercado; em
seguida, as formas de apropriação do IMB, que, partindo da teoria “libertária”
alicerçada nos escritos da chamada Escola Austríaca de Economia (EAE), procura
instrumentalizar a direita no Brasil, dando “nova roupagem” a velhas teorias.
O uso dos escritos de Friedman procura relacionar as argumentações do IMB
no esforço de destacar diferenças e semelhanças entre a perspectiva
195
anarcocapitalista e a tradição neoliberal. Ao tratar sobre democracia, Friedman e o
IMB partilham de concepção semelhante, evidenciando que, de acordo com Ellen
Wood, limitar o conceito de democracia ao processo de desvalorização da cidadania
já era uma preocupação desde o surgimento do conceito moderno de democracia
(WOOD, 2011, p. 185).
O presidente e fundador do IMB, Hélio Beltrão,3 é sócio-herdeiro do Grupo
Ultra e afiliado ao Mises Institute localizado na cidade de Auburn, EUA. De acordo
com breve biografia contida no site do Instituto Millenium (IMIL), Beltrão é graduado
em finanças com MBA pela Universidade de Columbia; trabalhou como executivo do
Banco Garantia, da Mídia Investimentos e da Sextante Investimentos; foi fundador e
membro do conselho consultivo do IMIL; integrou o conselho administrativo do Grupo
Ultra, da Le Lis Blanc e da Artesia Investimentos, além do conselho consultivo da
Ediouro Publicações e da Lab SSJ (IMIL, on-line).4
O IMB se identifica como “uma associação voltada à produção e à
disseminação de estudos econômicos e de ciências sociais que promovam os
princípios de livre mercado e de uma sociedade livre”, tendo como objetivos: 1)
promover a teoria da EAE; 2) restaurar a importância da teoria em detrimento do
conhecimento empírico; 3) “defender a economia de mercado, a propriedade
privada, e a paz nas relações interpessoais, e opor-se às intervenções estatais nos
mercados e na sociedade” (IMB, on-line).5
No intuito de alcançar tais objetivos, o IMB realiza diversas ações,
destacando-se: divulgação nas redes sociais de livros e escritos de intelectuais
“libertários”; promoção de palestras e cursos em regime de Educação à Distância
(EAD); publicação semestral da Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e
Economia (o último exemplar foi publicado em 2013);6 venda de livros impressos
publicados pelo IMB; e promoção da Conferência de Escola Austríaca, cuja 4ª edição
3
Filho do ex-ministro da ditadura civil-militar brasileira, também chamado Hélio Beltrão.
4
Disponível em: <http://www.institutomillenium.org.br>. Acesso em: 3.4.2016.
5
Disponível em: <http://mises.org.br>. Acesso em: 3.4.2016.
6
Cf. <http://www.mises.org.br/Product.aspx?product=74>.
196
foi realizada em 2014, na sede da Federação do Comércio de Bens e Serviços do
Estado de São Paulo (Fecomercio), na cidade de São Paulo (idem, ibidem).
Em agosto de 2015, a fim de divulgar novidades e mudanças no instituto, o
IMB promoveu o evento “Premiére Mises Brasil”, realizado no Teatro da Fecomercio,
em São Paulo. Uma dessas novidades foi a criação do curso de pós-graduação em
Escola Austríaca, realizado nas dependências do Centro Universitário Ítalo Brasileiro
(Uniítalo), em São Paulo, e a oferta do Mises Summer School, curso que durou quatro
dias, quando os candidatos puderam ficar alojados na pousada onde o evento
ocorreu (IBM, on-line).7
Os intelectuais do IMB, assim como os demais intelectuais que reivindicam
os pressupostos da EAE, intitulam-se “libertários” porque defendem o fim do Estado,
entendendo o livre mercado como regulador e única entidade apta a resolver os
conflitos da vida em sociedade. Autoproclamam-se, neste sentido, defensores do
anarcocapitalismo.
Pensamento de Friedman sobre livre mercado e democracia
Ao propor a discussão sobre liberdade econômica e liberdade política, Milton
Friedman (1984, p. 17) estabelece que o campo econômico e o político estão
intimamente relacionados, assinalando que separar os dois é “puramente ilusório,
que existe uma relação íntima entre economia e política, que somente determinadas
combinações de organizações econômicas e políticas são possíveis”. Friedman
acrescenta que “uma sociedade socialista não pode também ser democrática, no
sentido de garantir a liberdade individual”. O economista estadunidense ainda afirma
que liberdade econômica é precondição para a liberdade política, pois:
[...] a organização econômica é importante devido ao seu efeito na
concentração ou dispersão do poder. O tipo de organização econômica
que promove diretamente a liberdade econômica, isto é, o capitalismo
competitivo, também promove a liberdade política porque separa o
poder econômico do poder político e, desse modo, permite que um
controle o outro (FRIEDMAN, 1984, p. 18).
7
Disponível em: <http://mises.org.br>. Acesso em 3.4.2016.
197
Tendo em vista esses apontamentos de Friedman, nota-se um dissenso. O
economista articula sua argumentação demonstrando que a única ligação entre os
planos político e econômico deve ser concebida a partir da subordinação do primeiro
ao segundo. Além de contradizer sua afirmação de que existe uma relação íntima
entre os dois campos, Friedman ainda estabelece uma inter-relação hierarquizada
entre eles. O autor, por outro lado, afirma que “a relação entre liberdade política e
econômica [é] complexa e de modo algum unilateral”, dizendo que, no início do
século XIX, alguns intelectuais acreditavam que, caso o direito ao voto se estendesse
a mais pessoas, estas votariam propostas ampliando o laissez-faire. Entretanto, esse
pensamento liberal “No século XIX na Inglaterra foi seguido por uma reação que
levou a uma crescente intervenção do governo nos assuntos econômicos. [...] O
bem-estar, em vez da liberdade, tornou-se a nota dominante nos países
democráticos” (FRIEDMAN, 1984, pp. 19-20).
Pode-se perceber duas críticas muito sutis na explanação de Friedman.
Primeiramente, ao estabelecer uma oposição entre bem-estar e liberdade, ele
procura sugerir que o bem-estar é contrário à liberdade (leia-se liberdade
econômica). Ora, se para o economista estadunidense, a plena liberdade tem como
precondição a não intervenção do Estado na economia, chega-se à conclusão de
que livre mercado e liberdade plena são sinônimos. Para que a lógica fosse
minimamente o contrário de uma relação unilateral, como pontua Friedman
anteriormente, não deveria haver uma relação de subordinação. No que tange à
segunda sutileza, o economista estadunidense acaba afirmando que um Estado
democrático não leva necessariamente ao estabelecimento de um regime econômico
de livre mercado. Retomaremos a questão sobre livre mercado e democracia mais
adiante. No momento, a questão é compreender como a teoria da Economia liberal
transformou liberdade plena e liberdade econômica em sinônimos.
De certa forma, compreender o livre mercado enquanto sinônimo de
liberdade plena perpassa o próprio entendimento do Estado como uma instituição
não natural criada para conter a natureza humana caracterizada pelo “todos contra
todos”. Neste sentido, como bem assinalado por Virgínia Fontes (2010), o Estado, de
acordo com a teoria contratualista, surge a partir de um pacto para conter a natureza
198
violenta da humanidade. Segundo ela, “[...] esse pacto derivado do sofrimento da
natureza humana é não natural ou, mais propriamente, antinatural. Ele é um acordo
entre os homens contra a natureza humana. A vida social seria, portanto, algo de
antinatural”. Isso posto, ao compreender a humanidade como essencialmente má,
este contrato firmado pela humanidade “[...] reuniria em si próprio o pior da natureza
humana, sendo, por isso mesmo, um permanente monstro a espreitar cada um, mas
um monstro necessário, capaz de conter, por sua natureza monstruosa, as pequenas
monstruosidades que habitam em cada um (FONTES, 2010, pp. 124-125).
Friedman (1984, p. 19), da mesma forma, parte de um entendimento
contratualista da natureza humana ao afirmar que “o estado típico da humanidade é
a tirania, a servidão e a miséria. O século XIX e o início do século XX no mundo
ocidental aparecem como exceções notáveis da linha geral do desenvolvimento
histórico”.
Para o neoliberal estadunidense, o Estado precisa ser contido pelo livre
mercado, embora em suas formulações não fique claro se ele parte do entendimento
de livre mercado e propriedade privada como naturais e inerentes à humanidade. De
qualquer forma, Friedman assinala que o livre mercado proporciona à civilização um
molde “harmonioso” e “ordeiro”:
A evidência histórica fala de modo unânime da relação existente entre
liberdade política e mercado livre. Não conheço nenhum exemplo de
uma sociedade que apresentasse grande liberdade política e que
também não tivesse usado algo comparável com um mercado livre para
organizar a maior parte da atividade econômica (FRIEDMAN, 1984,
p. 19).
Ao dispor do crivo da comprovação histórica (apesar de não apresentar
nenhuma evidência concreta), Friedman pretende dar um tom de verdade e
naturalidade às suas suposições, usando a história como o grande juiz que determina
a veracidade de suas afirmações. Apesar de indicar um certo andamento natural na
relação entre liberdade econômica e política, ele não demonstra claramente sua
compreensão de livre mercado como parte da condição humana. Ainda assim, é
possível perceber em seus posicionamentos a ideia de que, como o Estado não é
199
algo natural, deve ficar fora das relações entre os indivíduos, ocupando a função de
juiz:
A existência de um mercado livre não elimina, evidentemente, a
necessidade de um governo. Ao contrário, um governo é essencial para
a determinação das “regras do jogo” e um árbitro para interpretar e pôr
em vigor as regras estabelecidas. O que o mercado faz é reduzir
sensivelmente o número de questões que devem ser decididas por
meios políticos — e, por isso, minimizar a extensão em o que o governo
tem que participar diretamente do jogo (FRIEDMAN, 1984, p. 23).
Como um “árbitro”, a função do Estado seria apenas garantir o andamento
normal do “jogo”, interferindo o mínimo possível em seu resultado. Este “jogo”,
obviamente, seria o livre mercado, e o Estado, estando fora deste certame,
asseguraria apenas que as leis do livre mercado fossem cumpridas e mantidas
enquanto os indivíduos estabelecessem relações entre si. Noutros termos,
justamente por ser criado para conter a natureza humana, o Estado não pode ser
compreendido como parte dela, agindo como o “observador de fora”. Portanto,
apesar de não colocar de forma clara o livre mercado como algo inerente à condição
humana, pode-se perceber, a partir da própria lógica argumentativa de Friedman,
que ele parte deste entendimento. Desse modo, para a teoria liberal, o capitalismo
sempre existiu como parte da essência humana. Sob este enfoque e de acordo com
Friedman, o Estado é um “observador de fora” ou — tendo em vista as considerações
sobre a concepção de Estado segundo a tradição liberal apresentada por Fontes
(2010) — uma entidade que restringe a natureza humana.
Ao exclamar “a propensão a intercambiar, permutar ou trocar uma coisa pela
outra” como algo inerente à condição humana, Adam Smith (1996, p. 73),
considerado o pai da economia moderna, nega a historicidade do processo histórico
de surgimento do capitalismo, maquiando que, apenas sob condições específicas
de produção e reprodução humana, “intercambiar, permutar ou trocar uma coisa
pela outra” fazem parte do que veio a ser conhecido como capitalismo. Em síntese,
a transformação racional e consciente da natureza é essencial para a condição
humana. Porém, apenas sob condições históricas específicas (extração de mais
valor, trabalho assalariado, divisão da sociedade em classes, etc.) é que
200
“intercambiar, permutar ou trocar uma coisa pela outra” se tornam práticas
capitalistas.
Voltemos, então, para a questão sobre a relação entre livre mercado e
democracia. Se o Estado é pensado como algo artificial e externo à natureza humana,
suas formas de ação e intervenção também não podem ser naturais. Diante desta
lógica, Friedman insere, de forma pontual e sutil, sua crítica à democracia:
O aspecto característico da ação política é o de exigir ou forçar uma
conformidade substancial. A grande vantagem do mercado, de outro
lado, é a de permitir uma grande diversidade, significando, em termos
políticos, um sistema de representação proporcional. Cada homem
pode votar pela cor da gravata que deseja e a obtém; ele não precisa
ver que cor a maioria deseja e então, se fizer parte da minoria, submeterse (1984, p. 23).
Para Friedman, o mercado pode oferecer uma saída para as questões
políticas sem forçar o que é interpretado por Tocqueville (1987) como “tirania da
maioria”, de forma impessoal e imparcial. Sendo assim, o economista entende que
“o papel do mercado [...] é o de permitir unanimidade sem conformidade e ser um
sistema de efetiva representação proporcional”. Ao contrário do que seria “o aspecto
característico da ação através de canais explicitamente políticos, que é o de tender
a exigir ou reforçar uma conformidade substancial” (FRIEDMAN, 1984, p. 29). A
democracia, neste sentido, não conseguiria suprir plenamente os anseios do
indivíduo em detrimento do livre mercado, que, além de diversificar o campo de
possibilidades, consegue prover exatamente o que os indivíduos esperam. O
economista acrescenta ainda que devido ao “fato de o produto final ter que ser em
geral uma lei aplicável a todos os grupos, em vez de atos legislativos separados para
cada ‘parte’ representada [chega-se à conclusão de] que a representação
proporcional em sua versão política não só impede unanimidade sem conformidade
como também tende à fragmentação e à ineficiência” (idem, ibidem).
Logo, não surpreende que a própria noção de democracia seja muitas vezes
compreendida apenas como uma medida de tomada de decisões por maioria
simples, considerando que a única forma de igualdade “é a igualdade mercantil, que
repousa sobre a exploração cínica e brutal, sobre a desigualdade fundamental da
201
relação entre o ‘prestador’ do serviço trabalho e o ‘cliente’ que compra sua força de
trabalho”. Sendo assim, é “possível transformar o reino da exploração em reino da
igualdade e identificar sem nenhuma cerimônia a igualdade democrática com a
‘troca igual’ mercantil” (RANCIÈRE, 2014, pp. 30-31).
Desta forma, fica a cargo das decisões políticas apenas suprir os pontos que
o mercado não tem capacidade para resolver. “Há, evidentemente, determinadas
questões com relação às quais a representação proporcional efetiva [leia-se decisão
pelo livre mercado] é impossível. É precisamente a existência destes assuntos
indivisíveis [que impediria] que se possa contar, exclusivamente, com a ação
individual através do mercado” (FRIEDMAN, 1984, p. 30). Portanto, é possível
perceber que não é apenas uma questão de “diminuir” o Estado, mas também a
participação dele na tomada de decisões sobre as relações sociais.
Ludwig von Mises sobre liberdade e democracia
As questões que envolvem liberdade e democracia são tratadas de forma
diferente por Ludwig von Mises. O economista ucraniano discorre mais sobre
liberdade e igualdade. Ao falar de liberdade, estabelece, primeiramente, que ela é
fruto do liberalismo: “Embora o fato seja frequentemente esquecido hoje em dia, tudo
isto foi conquista do liberalismo. O próprio nome ‘liberalismo’ deriva de liberdade”
(MISES, 2010, p. 51). O economista, neste sentido, expõe que a defesa de liberdade
não é uma questão de moral, humanitária ou mesmo ética, mas basea-se no simples
entendimento de que o trabalho livre é a única forma capaz de fazer com que os
indivíduos alcancem suas plenas potencialidades produtivas. Afinal,
Via de regra, o tratamento dos escravos por seus senhores era humano
e suave [...] Contra esta objeção a favor da escravidão, há apenas um
argumento que pode e, de fato refuta todos os outros: o de que o
trabalho livre é incomparavelmente mais produtivo que o trabalho
escravo. O escravo não tem interesse em esforçar-se ao extremo.
Trabalha na medida do necessário, para escapar à punição, resultante
da incapacidade de executar a tarefa mínima. O trabalhador livre, por
outro lado, sabe que, quanto mais trabalhar, mais bem remunerado será.
Esforça-se, ao máximo, para aumentar sua renda (MISES, 2010, p. 5152).
202
A preocupação com o trabalho escravo nem mesmo passa por uma questão
moral ou humanitária, já que, segundo Mises, o tratamento dado aos escravos não
era violento. Ademais, ele considera excepcionais os casos “em que servos e
escravos haviam sido cruelmente tratados” (p. 51). Para ele, a preocupação dos
economistas não é de ordem humanitária, mas de produção e produtividade:
O liberal não lhes oporá argumentos de modo algum, uma vez que seu
raciocínio em favor da liberdade para todos, sem distinção, é de
natureza totalmente diferente. Nós, liberais, não afirmamos que Deus ou
a natureza tenham destinado à liberdade todos os homens, porque não
nos instruímos pelos desígnios de Deus e da natureza, e evitamos, em
princípio, colocar Deus e a natureza nas discussões sobre questões
humanas. O que afirmamos é que somente um sistema baseado na
liberdade para todos os trabalhadores garante a maior produtividade do
trabalho humano, e é, por conseguinte, de interesse de todos os
habitantes da terra (idem, p. 52).
Para Mises, a preocupação dos liberais com a defesa da liberdade é bem
clara: importa-lhes apenas a melhor e mais efetiva forma de produzir, ou seja, os
meios utilizados nesse processo não importam, desde que se utilize a forma mais
eficaz de aumentar, consideravelmente, a produtividade. Desse modo, subordinar a
liberdade à produtividade seria a verdadeira preocupação de toda a humanidade. A
maneira como o economista ucraniano entende liberdade dispensa muitas
explicações. Para ele, em suma, o trabalho livre deve apresentar os melhores
resultados para a produção, mesmo em detrimento das condições de vida dos
trabalhadores.
Sobre a igualdade, Mises (2010, p. 57) também escreve de forma direta,
revelando que a única coisa que torna os homens e mulheres iguais é a constituição
do espírito: “O que é imperecível no homem — seu espírito — sem dúvida é o mesmo
no rico e no pobre, no nobre e no plebeu, no branco e no preto”. Neste ponto, o autor
encerra a a discussão sobre igualdade, defendendo com veemência o caráter
naturalmente desigual da humanidade e demonstrando que é impossível alcançar a
igualdade real:
203
No entanto, nada mais infundada do que a afirmação da suposta
igualdade de todos os membros da raça humana. Os homens são
totalmente desiguais. [...] Cada homem que nasce de sua fábrica traz
consigo a marca do indivíduo, único e irrepetível. Os homens não são
iguais e a exigência da igualdade por lei não pode, de modo algum,
basear-se na alegação de que tratamento igual é devido a iguais (idem).
É, por conseguinte, bastante injustificável arguir de imperfeição a
maneira pela qual o liberalismo defende o postulado da igualdade,
baseando-se em que o liberalismo tenha criado apenas a igualdade
perante a lei, e não a igualdade real. Todo poder humano seria incapaz
de tornar os homens realmente iguais. Os homens são e permanecerão
sempre desiguais. São considerações sensatas e úteis, tais como as
que aqui apresentamos, que constituem o argumento em favor da
igualdade de todos os homens perante a lei. O liberalismo nunca
almejou algo além disso, nem exigiu mais que isso. Está além da
capacidade humana tornar o negro num branco (idem, p. 58).
Mises desvia-se da questão sobre igualdade de condições, entendendo
igualdade em termos biológicos. Relativiza essa questão, afirmando que a igualdade
plena é simplesmente inatingível, dada as complexidades que envolvem a
personalidade (cada indivíduo pensa e age de forma única). Assim, o economista
desconsidera totalmente a igualdade em relação à detenção e ao controle dos meios
de produção, ao uso do aparelho estatal, à propriedade, às condições de obtenção
de ensino e alimentação de qualidade, enfim, às condições que proporcionam as
formas desiguais da existência humana.
As formas de entender essas desigualdades recaem sobre o que ele
considera um privilégio — um arranjo institucional que favorece alguns indivíduos ou
um certo grupo, às custas dos demais. O privilégio existe, embora beneficie somente
aqueles para os quais foi criado. Todavia, Mises assinala que esse raciocínio apenas
pode ser aplicado se o privilégio não beneficiar, de modo algum, a população em
geral. Dito de outra maneira, o privilégio não deve corresponder às vantagens obtidas
por um certo grupo, classe ou pessoa, mas aos benefícios obtidos pelo público em
geral (MISES, 2010, p. 59). Tendo em vista essas constatações, a posição de um
grande empresário — cujo padrão material de vida é drasticamente mais elevado
que do operário assalariado por ele contratado — não equivale a privilégio, na
204
medida em que a riqueza proporcionada por ele, através de sua indústria, por
exemplo, beneficia todos.
Ainda segundo o economista ucraniano, a democracia é entendida apenas
como uma ferramenta de decisão, por maioria simples, sobre a escolha ou deposição
de um governante e/ou governo:
A democracia é a forma de constituição política que torna possível a
adaptação do governo aos desejos dos governados, sem lutas
violentas. Se, num estado democrático, o governo não mais se
conduz, segundo o desejo da maioria da população, não é
necessária uma guerra civil para colocar, no governo, quem deseja
governar segundo a maioria. Por meio de eleições e acordos
parlamentares, processa-se a mudança de governo de modo suave
e sem fricções, sem violência e sem derramamento de sangue (idem,
p. 69).
Mises pensa democracia apenas como uma forma de evitar conflitos que
possam causar danos à propriedade privada e às vidas humanas. Conflitos como “a
Revolução Francesa em 1789, representa[m] pesadas perdas em vidas e
propriedades. Nossa atual economia não mais poderia suportar tais convulsões”
(idem, p. 68). Impossível não deixar de notar como a democracia entendida aqui por
Mises se assemelha muito com a visão que defende as manifestações “ordeiras”, ou
seja, aquelas que não causam prejuízos ao patrimônio público e/ou privado.
A importância de um olhar sobre os intelectuais neoliberais reside em
perceber como o IMB remodela e constrói uma noção sobre o conceito de
democracia e sua relação com o livre mercado. Apesar de Mises e Friedman
apresentarem a democracia como “necessária”, deixam bem claro seus limites de
ação, até mesmo, no caso do economista estadunidense, podendo ser substituída
por uma atuação mais ampla do livre mercado.
IMB sobre liberdade e democracia
Mas o que dizer sobre como o IMB, partindo da tradição liberal, mais
especificamente, do economista ucraniano que lhe confere o nome, aborda estas
questões e as apresenta ao Brasil?
205
A ideia de relegar ao livre mercado todas as funções do Estado já estava
presente nos escritos de Friedman, quando ele assinalava, por exemplo, que o livre
mercado oferece a todos os indivíduos os serviços essenciais, sem que a vontade
da maioria seja imposta. No entanto, o economista estadunidense evidenciou a
necessidade de existência do Estado ao escrever que “o liberal consistente não é
um anarquista” (FRIEDMAN, 1984, p. 39). É justamente a partir deste ponto que os
“libertários” rompem com os liberais. Vale ressaltar que, embora em poucas palavras,
Friedman expõe de forma veemente a necessidade de os liberais serem
“consistentes” e não “flertarem” com uma concepção de “anarquia de livre mercado”.
Isso pressupõe que a proposta dos autoproclamados “libertários” já poderia estar
em pauta na década de 1970. Segundo a biografia de Murray Newton Rothbard,
considerado o “pai do libertarianismo moderno”, ele fundou, em 1977 (data muito
próxima de quando Friedman ganha o Nobel em Economia), o Journal of Libertarian
Studies “em um esforço para alargar a influência do pensamento libertário no mundo
acadêmico” (GORDON, on-line).8
Mises não foi “libertário”. Conforme demonstram os escritos dele aqui
analisados, este conceito é ao menos citado. Murray N. Rothbard, por outro lado,
partindo das ideias de Mises, dedicou-se a formular e a defender a ideologia
“libertária”, criticando a posição de Mises sobre a democracia.
Mises entende que a democracia é a forma de constituição política que torna
possível a adaptação do governo aos desejos dos governados, sem lutas violentas.
Segundo o economista ucraniano, guerras e disputas prejudicam a produção — seja
em virtude do dispêndio de mão de obra que poderia ser empregada nas indústrias,
seja em virtude dos possíveis danos à propriedade privada causados pelos conflitos
(MISES, 2010, p. 69). A esse respeito, Rothbard faz uma crítica:
Se utilizarmos o argumento de que os votos substituem o combate físico
e geram o mesmo resultado, não há qualquer justificativa para dar o
poder do voto a [...] grupos fisicamente delicados. E não apenas eles
teriam de ser impedidos de votar, como também o mesmo critério teria
de ser aplicado a todos os cidadãos que não passassem em um teste
de aptidão para o combate (ROTHBARD, on-line).9
8
Disponível em: <http://mises.org.br/Article.aspx?id=37>. Acesso em: 7.6.2015.
9
Disponível em: <http://www.mises.org.br/ArticlePrint.aspx?id=771>. Acesso em: 30.9.14.
206
Rothbard ainda assinala que nem todas as pessoas estariam dispostas a
combater por algum candidato e/ou partido, no caso de uma eleição em que a
maioria dos votantes fossem indiferentes:
Suponha que 60% da população de um país seja indiferente ou
ligeiramente favorável ao atual governo ou ao atual partido político que
está no governo, ao passo que os 40% restantes são contra. Suponha
também que esses 40% são realmente contra o atual governo e o atual
partido que está no poder, de maneira intensa e inflamada, pois são eles
que estão tendo de arcar com as benesses e com os privilégios que o
governo distribui para seu eleitorado cativo. Na ausência de
democracia, esses 40% estariam muito mais dispostos a entrar em
combates físicos (idem, ibidem).
Vale ressaltar que o texto em questão foi publicado em 30 de setembro de
2014, ou seja, cinco dias antes de serem realizadas as votações de primeiro turno
para presidente e governador do Brasil. Este detalhe é importante, tendo em vista o
contexto das eleições brasileiras, pois, pela primeira vez no país, viu-se, nas redes
sociais, uma difusão intensa da ação partidária conservadora.
Dando continuidade ao pensamento de Rothbard, percebe-se uma nítida
sucessão de “erros” — induzidos ou não. Primeiramente, partindo de um conceito de
democracia que a compreende apenas como uma tomada de decisões por maioria
simples (entendimento presente tanto em Mises como em Friedman), Rothbard
chega à conclusão de que o mercado poderia ser uma solução mais eficaz e pacífica
do que um regime democrático, opondo-se, inclusive, ao grande expoente do
pensamento ultraliberal na atualidade, Ludwig von Mises. Rothbard conclui o artigo
colocando que “ou esse argumento [a democracia evita derramamento de sangue]
é abandonado — e inventa‐se outro —, ou todo o sistema deve ser abandonado”
(idem, ibidem).
Mas como os membros do IMB reproduzem o pensamento de Rothbard
sobre democracia? Para melhor compreensão, cabe analisar as publicações de
alguns deles. A exemplo disso, no intuito de colaborar com as “manifestações
conservadoras” que aconteceram no Brasil, em especial com a do dia 13 de abril de
207
2015, Luciano Rocha10 publica, no site do IMB, um artigo sobre a democracia. Ele
nem mesmo aborda a reflexão de Rothbard, argumentando que a democracia
equivale a uma “ditadura da maioria”, ou seja, a democracia, neste sentido, prejudica
os direitos individuais. Mais adiante, aponta que o conceito tem “um caráter divisor
(o famoso ‘nós e eles’)”. Mais especificamente:
Um regime que vê na “vontade da maioria” um exemplo de
modernidade, prosperidade e respeito aos direitos individuais é, na
melhor das hipóteses, incoerente; na pior, representa um atentado aos
direitos de propriedade, inclusive dos mais pobres.
Na democracia, sempre haverá aqueles que quererão que seus
estudos, sua saúde, sua segurança, seu transporte, seus subsídios, seu
assistencialismo seja pago “pelo estado”, o que, na prática significa “por
outros que não eu” (ROCHA, on-line).11
Rocha (idem, ibidem), em uma linha de raciocínio que parece ser muito
semelhante à de Friedman (1984, p. 23), compreende a democracia como algo que
suprime direitos. Ademais, ao dizer que a política força uma “conformidade
substancial”, acaba relacionando a democracia a uma noção de assistencialismo
enquanto expropriação de propriedade privada: “o Estado faz caridade com o
dinheiro dos outros”.
Um dos evidentes problemas desta intepretação é a própria noção que ela
cria sobre o que é direito. De uma perspectiva neoliberal, o papel do Estado deve
ser reduzido ao mínimo possível (ao menos em teoria), limitando-se a assegurar a
propriedade privada aos indivíduos. Porém, Rocha vai além ao afirmar que o dever
do Estado em garantir a segurança é sinônimo de assistencialismo. Isso evidencia
um ponto no qual os chamados “libertários” se diferem dos liberais que os
precederam: a privatização da garantia à propriedade, já que, nem mesmo o papel
de assegurar a propriedade privada, via seus aparelhos repressores, deve ser
conferido ao Estado.
10
Diretor da Lynx Coach (empresa de assessoria financeira de João Pessoa), atuando como coach
financeiro com ênfase em solução de dívidas e investimentos. Cf.: <http://lynxcoaching.com.br>.
Luciano Rocha também é coordenador estadual do Estudantes Pela Liberdade (EPL) no Estado da
Paraíba. Segundo o próprio site oficial, o EPL tem como missão dar poder a líderes estudantis
“libertários”. Neste sentido, trata-se de uma organização com várias sedes pelo mundo com o objetivo
de formar estudantes e lideranças estudantis na defesa do anarcocapitalismo
11
Disponível em: <http://mises.org.br/Article.aspx?id=2072>. Acesso em: 16.5.2015.
208
Para evidenciar como um regime democrático não é capaz de atender aos
anseios de todos os indivíduos, Rocha usa a metáfora de uma pessoa condenada à
morte, cuja execução é decidida por maioria simples; por outro lado, a decisão sobre
a forma de aplicação da pena de morte contraria apenas o condenado. Desse modo,
o autor ressalta que “o mais assustador da metáfora […] é que ela é muito mais
branda do que a nossa realidade democrática”, pois, segundo ele, a decisão afetaria
apenas o condenado. Todavia, Rocha segue dizendo que:
[…] no nosso sistema democrático, tanto os que não votam quanto
aqueles que votam e perdem sofrem as consequências da eleição de
alguém que não queriam. Não apenas sua propriedade é afetada, mas
também se tornam obrigadas a viver sob políticas das quais discordam
— e muitas vezes abominam. […] a única maneira de o patíbulo
democrático deixar de produzir resultados que são contra a vontade da
maioria das pessoas [...] é convencendo essas pessoas a se separar
desse regime. E a solução mais viável é a secessão” (ROCHA, on-line).12
Frank Karsten — fundador da More Freedom Foundation na Holanda e autor
do livro Além da democracia, escrito em parceria com Karel Beckman — publica um
artigo assinalando que a adoção de regimes democráticos seria uma das principais
causadoras dos problemas econômicos:
Embora quase todos os países democráticos sofram com governos
inchados, excesso de regulamentação, altos impostos e uma enorme
dívida pública, poucas pessoas conseguem vislumbrar a relação causal
entre estes problemas e o próprio sistema democrático”. […] para a
maioria [das pessoas], a solução para estes problemas é mais
democracia, e não menos. […] os próprios princípios da democracia
dão origem a processos que conduzem a sociedade para o oposto da
liberdade e da prosperidade (KARSTEN, on-line).13
Os princípios democráticos elencados seriam apenas três: “você tem o
direito de votar, você tem o direito de concorrer a um cargo público, e a maioria
decide”. Noutros termos, seriam princípios relativos à chamada democracia
12
Disponível em: <http://mises.org.br/Article.aspx?id=2072>. Acesso em: 16.5.2015.
13
Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1287>. Acesso em: 10.7.2015.
209
representativa, em que as pessoas têm o direito de eleger seus representantes por
maioria simples e concorrer a um cargo de representação. Além disso, Karsten
pontua cinco problemas causados pela adoção de regimes democráticos: 1)
comportamento imediatista; 2) conflito social e parasitismo; 3) intromissão; 4)
coletivismo e passividade; 5) corrupção e abuso (idem, ibidem).
O comportamento imediatista vincula-se ao fato de que o cargo para o qual
o candidato foi eleito é ocupado por ele apenas temporariamente. Nas palavras de
Karsten, “os políticos democraticamente eleitos ficarão apenas temporariamente no
cargo, e eles não são os proprietários dos recursos à sua disposição”. Em virtude
disso, serão “acometidos de um irrefreável incentivo para gastar dinheiro público em
projetos que os tornem populares, desconsiderando as consequências futuras de tal
ato”. Os eleitores também partem de uma visão imediatista no momento de votação,
pois tendem a eleger candidatos que irão beneficiá-los com “benesses e privilégios”,
de modo que “a conta seja entregue a outras pessoas”. Em suma, Karsten partilha
da ideia de que a democracia, inerentemente, contribui para um “imediato conflito
grupal”, evidenciando, como Luciano Rocha, a tensão entre o “nós contra eles”
(idem, ibidem).
A associação que Karsten estabelece entre democracia a parasitismo fica
mais clara em outro artigo escrito com Karel Beckman. 14 Sobre isso, os autores
afirmam que, além das pessoas ligadas ao Estado (funcionários públicos, políticos,
dentre outros), “há um outro grupo de pessoas que se safa muito bem no sistema
democrático: aquelas pessoas que comandam empresas e instituições que devem
sua existência à generosidade do governo ou a privilégios especiais” (BECKMAN &
KARSTEN, on-line).15
Os autores adicionam à lista das instituições beneficiadas pela democracia
as “organizações sociais — sindicatos, movimentos raciais e sexuais, instituições
culturais, a televisão pública, as agências assistenciais, os grupos ambientais e
assim por diante — que recebem dinheiro diretamente do governo”. Observam, em
14
Escritor e jornalista, fundador e editor-chefe do site Energy Post, foi editor-chefe da European Energy
Review e trabalhou como jornalista para o Financieele Dagblad.
15
Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1571>. Acesso em: 9.7.2015.
210
seguida, que a grande maioria das pessoas que “comandam tais organizações não
apenas têm empregos lucrativos e estáveis, como também possuem ligações íntimas
com a burocracia estatal e com políticos, algo que garante vários privilégios e muito
poder a estas organizações” (idem, ibidem).
Karsten ainda afirma que esse contexto não seria possível em uma
sociedade em que o capitalismo segue sem amarras. Dito de outra maneira,
[em uma] sociedade livre, baseada em direitos individuais, indivíduos
com diferentes visões e objetivos não se tornam potenciais inimigos
mútuos. Eles podem colaborar entre si, comercializar uns com os outros,
ou simplesmente se isolar e não se intrometer na vida de ninguém. [Em
nenhum momento, os indivíduos] terão meios coercivos com os quais
obrigar outros cidadãos a satisfazer seus próprios fins (KARSTEN, online).16
Ainda segundo Karsten, quando os indivíduos estabelecem relações dentro
dos parâmetros do livre mercado não lhes interessam as orientações religiosas e
políticas ou mesmo questões étnicas: “Nada disso importa no curso de sua
interatividade diária com as pessoas. Por meio do comércio e da cooperação, cada
pessoa ajuda as outras a alcançar suas aspirações” (idem, ibidem).
Mais adiante, a fim de estabelecer uma relação entre democracia e
“intromissão”, Karsten demonstra a intervenção dos governos democráticos em
várias esferas da sociedade. O autor argumenta que “[eles] continuamente intervêm
em transações voluntárias entre vendedores e compradores, empregadores e
empregados, professores e alunos, médicos e pacientes, inquilinos e proprietários,
prestadores de serviços e clientes etc.”. Continuando seu raciocínio, o autor afirma
que a “intromissão” desses governos também se manifesta nas escolhas pessoais,
na medida em que regula “a sua escolha de fumar, de usar drogas, de se envolver
em profissões específicas (para as quais você não possui uma ‘licença’), de
‘discriminar’ (isto é, de escolher com quem você quer se associar)” (idem, ibidem).
A forma como o IMB trata a discriminação racial, étnica, religiosa, dentre
outras, é extensa e fugiria dos objetivos deste artigo. Nesse momento, é importante
16
Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1287>. Acesso em: 10.7.2015.
211
observar, em especial, que a ideia mascarada por trás da “intromissão” é a de
relacionar regime democrático ao conceito de regime totalitário, de modo que o leitor
seja induzido a associar a democracia ao totalitarismo.
Sobre o coletivismo e passividade, Karsten defende que a possibilidade, em
teoria, de que qualquer pessoa possa se candidatar e assumir uma posição no
Estado permite que os indivíduos respeitem a decisão da maioria, mesmo que esta
não lhes agrade: “Isto faz com que as pessoas acreditem que elas devam se
submeter à regra da maioria. Elas podem não concordar com leis e regulamentos
específicos, mas elas sentem que devem cumpri‐los” (idem, ibidem). O coletivismo
é relacionado à própria necessidade de as decisões serem efetivadas por maioria
simples, o que, segundo as formulações do autor, direciona a ação da sociedade
para a “vontade de uma maioria”.
A corrupção e o abuso seriam resultado do grande poder que a democracia
concentra nas mãos do governo eleito: “Dado que o governo eleito tem poder
virtualmente ilimitado e controla praticamente todos os recursos da sociedade, todos
os tipos de grupos de interesses e lobistas irão trabalhar nos bastidores para
influenciar o governo a criar e modificar leis para seu proveito próprio” (idem, ibidem).
Além do abandono da democracia, existe uma outra possibilidade defendida
pelo IMB: uma democracia aristocrática que é concebida de acordo com a forma
que os “pais fundadores dos EUA tinham em mente” (CHRISTOFF-KURAPOVNA, online).17 O artigo de Lew Rockwell18 — publicado no site do IMB e intitulado “O que é
liberalismo clássico” — elucida a forma desta democracia aristocrática. Para tanto, o
autor inicia suas formulações descrevendo um sonho com o período de eleições,
o presidente é apenas uma figura representativa, sem autoridade real;
um símbolo, que é quase invisível para mim e para minha comunidade.
[...] Ele não administra ministérios reguladores. [...] também [é] um
homem de caráter excepcional, bem respeitado pelas elites naturais da
sociedade. [...] sua autoridade é principalmente social, e deriva da
17
Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1840>. Acesso em: 11.7.2015.
18
Chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama; editor do website
“LewRockwell.com”.
212
respeitabilidade que ele tem perante as elites naturais da sociedade
(ROCKWELL, on-line).19
O resultado do processo eleitoral, neste sentido, não importaria, tendo em
vista que os direitos de propriedade não seriam afetados, independente de quem
vencesse o certame (idem, ibidem).
Parece ser um elemento chave para o entendimento da sociedade idealizada
por Rockwell o conceito de “elites naturais”. No artigo em questão, inclusive, há um
link que conduz o leitor a um outro artigo que define essas “elites naturais”:
[...] o estado é o fruto do crescimento das elites naturais: o resultado
natural de transações voluntárias entre donos de propriedade privada é
algo não igualitário, hierárquico e elitista. Em todas as sociedades,
alguns poucos indivíduos adquirem o status de elite através do talento.
Devido às suas conquistas superiores em termos de riqueza, sabedoria
e bravura, esses indivíduos ganham o reconhecimento de autoridade
natural, e suas opiniões e julgamentos passam a gozar de vasto respeito.
[...] É para os chefes dessas famílias, que têm longos e firmados
históricos de conquistas supremas, sagacidade e conduta pessoal
exemplar, que os homens comuns levam suas queixas e conflitos contra
outros homens (HOPPE, on line).20
Essas “elites naturais” seriam compostas de sujeitos excepcionais, cujas
posições são garantidas devido ao “grande sucesso” alcançado. Neste sentido, é
apenas natural que poucos alcancem tamanha posição, limitando-se a uma questão
em que o mais apto, por natureza, deva reinar sobre o inapto. Mises possui uma
argumentação parecida, quando afirma que “numa sociedade capitalista, o
desenvolvimento dos meios de produção está sempre em mãos dos mais bem
qualificados” (MISES, 1987, p. 68).
Para Rockwell, a capacidade de votar deveria ser prerrogativa de um
pequeno número de pessoas, ou seja, daquelas que conhecem a importância do
voto e são realmente afetadas pelas decisões governamentais:
19
Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=34>. Acesso em: 24.10.2014.
20
Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=82>. Acesso em: 16.2.2015.
213
[...] Os que podem realmente votar, uma pequena porcentagem da
população, são aqueles que verdadeiramente têm em mente os
melhores interesses da sociedade. Esses indivíduos são aqueles que
são donos de propriedades, chefes de famílias, e os realmente
instruídos (ROCKWELL, on-line).21
O
cerceamento
da
participação
do
processo
eleitoral
ligado
ao
neoliberalismo não é algo novo no Brasil. Henry Maksoud, na década de 1970,
também pregava um modelo de democracia limitada semelhante ao conceito de
“demarquia” (CEZAR JUNIOR, 2011).
Considerações finais
De acordo com Ellen Wood (2011, p. 177), o conceito moderno de
democracia não surge para conferir status civil às classes subordinadas, “mas da
afirmação pelos próprios senhores de sua independência em relação às
reivindicações da monarquia”. Sob este enfoque, é preciso compreender a chamada
“aristocracia democrática”, que, segundo os intelectuais do IMB, é compreendida
como “direito das elites naturais”. Wood também assinala que isso não representa
algo novo para o pensamento liberal, tendo, provavelmente, sido o ideal dos
federalistas do recém EUA. O processo de independência das “Treze Colônias”,
nesse contexto, acabou criando uma população politicamente ativa, o que dificultaria
a exclusão da política. “Os criadores da constituição se engajaram na primeira
experiência de criação de um conjunto de instituições políticas que corporificariam,
e simultaneamente limitariam, o poder popular, num contexto em que já não era
possível manter um corpo exclusivo de cidadãos”. O ideal federalista foi “a criação
de uma aristocracia que combinasse riqueza e virtude republicana [...] mas a tarefa
prática era manter uma oligarquia proprietária com o apoio eleitoral da multidão
popular” (idem, p. 185).
21
Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=34>.Acesso em: 24.10.2014.
214
Os ideais defendidos pelo IMB, neste sentido, visam abandonar ou limitar a
democracia, tanto a democracia liberal, como a democracia representativa. Do
mesmo modo, Christoff-Kurapovna (on-line) 22 — defensora de uma democracia
aristocrática — diz que “a democracia igualitária, […] justamente essa que criamos
e na qual vivemos, [...] está nos colocando em perigo”. Reforçando essa ideia, a
autora demonstra o porquê de tamanha temeridade com relação à democracia em
seu estado atual:
Se, [...] as coisas continuarem como estão, a democracia irá cada vez
mais assumir características totalitárias e culminar naquilo que Thomas
Jefferson rotulou de “despotismo eletivo”, em que uma suposta vontade
popular será incorporada em um governante que, por sua vez, irá
subjugar completamente uma população impotente, indefesa e
desarmada (idem, ibidem).
A preocupação da autora é, na verdade, com a conjuntura de manifestações
desencadeadas a partir da crise financeira de 2008. Segundo ela, esta “tendência
ao totalitarismo [leia-se, socialismo no seu entendimento] pode ser vista no
relativamente recente modismo de querer ‘transformar’ o capitalismo em algo que ele
não é e que jamais deveria se tornar”. Evidenciando seu ponto de vista, ChristoffKurapovna chama a atenção para as “alterações sutis na terminologia [que]
começaram a ganhar força desde o início da crise financeira, e só se intensificaram
de lá para cá”. Além disso, de acordo com ela, teria se tornado comum intelectuais
clamando por um “socialismo de mercado”, ou por um “mercado
socialmente regulado”, ou por um “capitalismo comunitário”, ou por um
“capitalismo social”, ou por um “empreendedorismo mais includente”,
[tornando-se cada vez mais recorrentes os apelos] para se acabar com
algo que chamam de “capitalismo excludente” ou “capitalismo
selvagem” (idem, ibidem).
Diante disso, os ataques à democracia representativa se inserem em um
quadro de contestação do neoliberalismo, ou seja, o apelo por “menos democracia”
se relaciona com a necessidade de conter as manifestações contrárias ao avanço
22
Disponível em: <http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1840>. Acesso em: 11.7.2015.
215
das práticas neoliberalistas. As manifestações que reivindicam maior participação
popular nas decisões contestam diretamente a forma de reprodução do capital no
atual bloco histórico, demonstrando o esgotamento do projeto neoliberal, de modo
que é necessária uma reformulação desse pensamento. Em outras palavras, a
chamada “crise de representatividade democrática” (CASTRO & MONTEIRO, 2008)
é causa direta da crise do atual projeto, tendo em vista que a democracia burguesa
começa a exibir sinais de fadiga na contenção e subordinação passiva das camadas
populares.
O neoliberalismo avança no Brasil na mesma proporção em que se
intensificam os ataques à democracia liberal, considerada, segundo os intelectuais
da EAE e os articuladores do IMB, um entrave ao acirramento das relações
capitalistas de produção. Vale reiterar que isso não é um dado novo, já estando
presente, como foi demonstrado aqui, não apenas nos escritos de teóricos
neoliberais do século XX (Ludwig von Mises e Milton Friedman, por exemplo), mas
desde o surgimento do conceito moderno de democracia (WOOD, 2011).
A crise financeira de 2008 lança aos “teólogos do livre mercado” a
necessidade de retomar antigos posicionamentos sobre a democracia e livre
mercado (este compreendido como “liberdade plena”), no intuito de apresentar
alternativas, dentro da própria lógica do capital, face ao esfacelamento de
economias ao redor do globo.
__________________________
Fontes
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217
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WOOD, Ellen Meiksins. Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo
histórico. São Paulo: Boitempo, 2011.
218
O Instituto Brasileiro de Filosofia:
contrarrevolução e justificação
ideológica da autocracia
burguesa (1964-1965)
Rodrigo Jurucê Mattos Gonçalves1
Neste artigo analisaremos obras publicadas por intelectuais ligados ao
Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF) e à Revista Brasileira de Filosofia (RBF),
particularmente A consciência conservadora no Brasil (1965), de Paulo Mercadante,
e Imperativos da Revolução de Março (1965), de Miguel Reale. Ao lado da liderança
de Reale à frente do IBF, Mercadante foi responsável por desenvolver da forma mais
acabada a concepção ibeefeana da história. Interessante notar que a publicação de
seus livros se deu no ano imediato ao golpe de 1964, no contexto de afirmação das
ideias conservadoras no Brasil.
Diferentes autores identificam o IBF como uma instituição representativa do
pensamento conservador no Brasil. Paulo Eduardo Arantes (1994, pp. 88-107)
identifica, nos anos 1950 e 1960, três diferentes posições filosóficas e suas
respectivas posições ideológicas: 1) a “esquerda transcendental” que se
estabeleceu em torno do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP), para a qual técnicas
filosóficas mais rigorosas corresponderiam a posições políticas mais avançadas; 2)
1
Doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás e professor do Curso de História da
Universidade Estadual de Goiás. E-mail: [email protected]
219
o “nacionalismo existencialista” que se desenvolveu na órbita do Instituto Superior de
Estudos Brasileiros (ISEB) e que, partindo de conceitos provenientes principalmente
da filosofia existencialista, buscava formular um fundamento filosófico para o projeto
nacional-desenvolvimentista; e 3) a “direita” representada pelo IBF que propunha
uma análise positiva do nosso passado histórico, evitando a crítica da formação
histórica do Brasil, conforme desenvolvia as duas concepções anteriores.
No mesmo sentido, Leandro Konder (1998, pp. 355-374), em sua análise
sobre os intelectuais brasileiros nos anos 1950 e 1960, apresenta uma tipologia em
que ressalta a importância das opções filosóficas e das posições teórico-políticas
das diferentes tendências intelectuais, principalmente dos historiadores: 1) a
“perspectiva conservadora” — citando, por exemplo, Djacir Menezes, 2 um dos
fundadores do IBF — caracteriza-se, segundo Konder, por uma despudorada
apologia das forças que comandaram nossa história; 2) a “tendência nacionaldesenvolvimentista” — agrupada no IBESP 3 (que originou o ISEB) — tem por
princípio um projeto intelectual comprometido com a promoção do desenvolvimento
nacional autônomo; e 3) a “perspectiva marxista” é marcada por duas tendências: o
“marxismo ortodoxo doutrinário”, por um lado, e, por outro, a corrente representada
por dois intelectuais socialistas independentes: Antônio Cândido e Florestan
Fernandes. Konder chama a atenção para um importante grupo de jovens
professores da USP que formaram um seminário, no intuito de estudar O Capital de
Karl Marx.
Além da questão do conservadorismo, nossa análise se baseia em dois
conceitos fundamentais: “aparelho de hegemonia filosófico” 4 (AHF), desenvolvido
2
Djacir Menezes defendia a dimensão da continuidade do processo histórico brasileiro, em prejuízo
da importância de qualquer ruptura histórica. Isso não era gratuito, pois, dessa forma, ele afirmava o
seu estreito compromisso com a ordem – concepção esta que marcou fundamentalmente a história
do pensamento filosófico nacional desenvolvida pelo IBF.
3
Instituto Brasieliro de Economia, Sociologia e Política.
4
Segundo Buci-Glucksmann (1990, p. 484), o aparelho de hegemonia filosófico (AHF) “busca a
difusão de uma filosofia, de uma concepção geral da vida”, é “uma organização material que visa a
manter, defender, desenvolver a ‘frente teórica e ideológica’. O AHF, portanto, faz parte ‘do formidável
complexo de trincheiras e fortificações da classe dominante’”.
220
por Christine Buci-Glucksmann, e “intelectuais orgânicos”,5 de Antonio Gramsci. A
noção de “autocracia burguesa”, desenvolvida por Florestan Fernandes (2006),
integra nosso trabalho e permite-nos problematizar os aspectos teóricos,
ideológicos, políticos e sociais, em suma, paradigmáticos, da classe dominante, de
acordo com as “relações de força e poder” (FERNANDES, 2006; LENIN, 1978 e
1979).
O Instituto Brasileiro de Filosofia
O IBF foi criado na cidade de São Paulo, em outubro de 1949. Desde 1951,
publica a RBF, periódico trimestral de circulação nacional e internacional. O instituto
já contou com diversas seções estaduais (em 1976, chegaram a somar 13 nos
Estados do Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste). O Estatuto do IBF revela algumas
de suas finalidades:
Art. 2º - O Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF) tem por fim:
a) promover o desenvolvimento da cultura filosófica em nosso país [...];
b) promover congressos regionais, nacionais e internacionais para
discussão de problemas filosóficos;
c) publicar uma revista trimestral de filosofia [...];
e) patrocinar a publicação de obras de filosofia [...];
j) colaborar com os poderes públicos, as entidades universitárias, e as
associações culturais, em tudo que se refira à obra de soerguimento
intelectual de nossa gente (RBF, 1951a, p. 562).
Reale nos apresenta a RBF assim que ela é lançada, em 1951:
[...] O IBF inicia a publicação dessa Revista, cuja finalidade primordial é
reunir, em uma obra impessoal e objetiva, os esforços criadores de
quantos, em nossa terra, se dedicam aos problemas da Filosofia. Nestas
páginas encontrarão acolhida todas as tendências do pensamento
contemporâneo. [...] Anima-nos, no entanto, uma robusta confiança em
5
Segundo Gramsci (2004, p. 15), “todo grupo social, nascendo no terreno originário de uma função
essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, organicamente, uma ou
mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não
apenas no campo econômico, mas também no social e político”.
221
nossa capacidade de pensar ou de repensar criadoramente os grande
problemas, sem nos atribuirmos a tarefa inglória de receber, da Europa
ou da América do Norte, a Filosofia como pensamento pronto para ser
distribuído cuidadosamente em fichas. [...] Cultores da Filosofia e da
Filosofia do Direito e da Sociedade encontrarão nestas páginas uma
fonte de referência e contraponto (REALE, 1951, pp. 1-2).
Conforme demonstram os dois registros acima, o IBF buscava transmitir uma
imagem plural, aberta a todas as tendências do pensamento. Todavia, não se pode
inferir, a partir destes fragmentos, uma posição política e ideológica além daquela
que privilegia certa autonomia, no âmbito da filosofia, em relação à Europa e aos
EUA. Desse modo, o que se observa ao longo da história desta organização é um
posicionamento definido, distante e hostil ao marxismo. Neste sentido, Bruno
Bontempi afirma que:
[...] entre os colaboradores efetivos da RBF não figuram filósofos
reconhecidamente marxistas. [...] Além disso, embora o instituto
recomende a seus membros “serena objetividade na apreciação das
doutrinas de que divergem”, Marx e os marxistas sofrem restrições
evidentes, quando abordados em artigos e resenhas (BONTEMPI, 2003,
p. 4).
É certo, porém, que não havia, nos anos 1950 e 1960, uma contribuição dos
marxistas brasileiros para o campo da filosofia, com exceção de pouquíssimas obras.
A esse respeito, destacam-se as obras de Caio Prado Jr., Dialética do conhecimento
(1952) e Introdução à lógica dialética (1959), nas quais um rol relativamente pobre
de categorias marxistas foi empregado (COUTINHO, 1989, p. 116). Isso posto, não
havia muitas condições para que os marxistas figurassem entre os autores do IBF.
Mas não se pode ignorar o fato de que o antimarxismo representa —
indubitavelmente — uma das características centrais de inúmeros artigos e resenhas
da RBF. De acordo com Roland Corbisier (1978, p. 80), “Fundado e mantido pela
classe patronal, o Instituto [Brasileiro de Filosofia] só poderia ter uma diretriz
conservadora”.
É importante salientar que, em relação ao filósofo e professor da USP, João
Cruz Costa (1904-1978), conhecido por suas concepções distintas dos ibeefeanos e
222
por sua simpatia ao nacional-popular, alguns adeptos do IBF mantiveram uma
relação de afastamento e, até mesmo, de hostilidade aberta. 6 Além disso, nas
dezenas de fascículos da RBF, nota-se a publicação de apenas um artigo de Cruz
Costa.7 Não é exagero afirmar que pontos de vista — filosóficos e ideológicos —
antagônicos são o pano de fundo da rivalidade.
O elenco dos principais intelectuais que compunham o IBF é outra variável a
ser considerada, no intuito de estabelecer as tendências que dirigiram o AHF. No
ano de sua fundação, o IBF congregava, majoritariamente, intelectuais identificados
com o conservadorismo (liberal ou autoritário) e com o pensamento católico; a
minoria dos integrantes simpatizava com o fascismo. Dentre os membros do instituto,
podemos enumerar: o líder Reale (1910-2006); Luiz Washinton Vita (1921-1968,
secretário do IBF); Teófilo Cavalcanti Filho (1921-1978); João de Scantimburgo
(1915-2013); Renato Cirell Czerna (1922-2005); Vicente Ferreira da Silva (1916-1963);
Hélio Jaguaribe (1923-); Cândido Motta Filho (1897-1977); e Djacir Menezes (19071996). Alguns deles tinham vínculos com as oligarquias estaduais, como Reale,
ligado à oligarquia paulista, e Armando Pereira Correia da Câmara (1898-1975),
ligado à oligarquia gaúcha. Ex-integralistas, como Reale e Roland Corbisier (19142005), também compunham o instituto. Além disso, é importante sublinhar a
participação de intelectuais que eram conhecidos por posições não conservadoras
ou de esquerda, como Corbisier, Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda (18921979) e Glaucio Veiga (1923-2010).
Reale — considerado um dos principais teóricos do movimento integralista8
— foi o presidente do IBF, de 1949 até seu falecimento, atuando como seu principal
líder e intelectual. Ademais, ocupou cargos públicos importantes, como a reitoria da
USP (entre agosto de 1949 e julho de 1950 e entre 1969 e 1973); em 1943, passou a
integrar o Departamento Administrativo estadonovista, em particular a Pasta do
6
Por exemplo, Luís Washington Vita (1958, p. 337) calunia Cruz Costa e afirma que ele é “filosofante
extravagante e esquisito, que não se propõe nenhuma construção sistemática”. Reale (1961, p. 125),
por sua vez, agride abertamente o professor da USP, o chamando de “menino”.
7
CRUZ COSTA, João. História das ideias e valores, In: Revista Brasileira de Filosofia, v. 10, n. 4, 1960,
pp. 527-530.
8
No período integralista, Reale publicou, dentre outras, obras como ABC do Integralismo (1935) e
Perspectivas Integralistas (1935).
223
Trabalho; em 1951, foi incumbido pelo presidente Vargas para representar o Brasil
na 34ª Reunião da Organização Internacional do Trabalho (OIT); em 1963, publicou
Pluralismo e liberdade, obra conhecida por marcar sua adesão ao liberalismo. No
momento do golpe de 1964, Reale, também reconhecido como um importante jurista,
pertencia ao grupo executivo ligado ao Banco Finasa de Investimento, que era
associado à organização golpista Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES)
(DREIFUSS, 2006, pp. 830-833).
Mercadante (1923-2013) é o autor de um dos clássicos do conservadorismo
brasileiro, A consciência conservadora no Brasil. Embora não tenha tido a mesma
repercussão de outros conservadores históricos, como Oliveira Viana e Gilberto
Freyre, ele cumpriu o importante papel de sistematizar a concepção histórica do IBF.
O autor passou pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), com o qual acabou
rompendo, em 1956, em conjunto com outros intelectuais (Antonio Paim, Osvaldo
Peralva, Porto Ferraz, Inácio Rangel). Foi a partir desse rompimento, inclusive, que
Mercadante passou a se aproximar de Reale e do IBF. Ademais, ele foi um dos
fundadores do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, na cidade de Lisboa.
Diante
destas
considerações,
percebe-se
a
primazia
da
diretriz
conservadora da intelectualidade do IBF, ainda que alguns intelectuais não
conservadores ou de esquerda tenham integrado o AHF. Sobre os intentos
hegemônicos do IBF, faremos uma abordagem a partir dos fragmentos a seguir.
Lucas Nogueira Garcez, governador do Estado de São Paulo entre 1951 e
1955, em discurso pronunciado durante a inauguração da sede do IBF na capital
paulista, em 18 de dezembro de 1952, afirma o seguinte:
São Paulo é o centro do pensamento nacional, pois revela a maturidade
da nossa cultura. O que desejamos realizar no Instituto, doravante,
atravessará as fronteiras, não pelo seu valor material, mas, sim,
espiritual. De hoje em diante, o Instituto Brasileiro de Filosofia, graças ao
auxílio que recebe do governo do Estado, e à dedicação de seus
componentes, estará presente a todas realizações filosóficas mundiais,
afirmando os resultados de nossa experiência mental. [...] a Filosofia é
um utensílio, um instrumento, uma arma (GARCEZ, 1953, pp. 170-172).
224
Garcez, que era um destacado membro da oligarquia paulista e do grupo
executivo do Banco Mercantil de São Paulo e da Cie. Financiére Eternit (DREIFUSS,
2006, pp. 830-834), ambas associadas às articulações do IPES para a tomada do
Estado em 1964, tanto reafirma a “centralidade” de São Paulo, cujo governo
financiava o IBF, como anuncia o uso da filosofia como uma “arma”. O IBF surge,
assim, como ponta de lança da difusão da cultura paulista. Além de Garcez, Reale
fornece uma importante informação quando diz, em entrevista, que a fundação do
IBF está de acordo com os institutos congêneres fundados por Benedetto Croce
(Itália), Ortega y Gasset (Espanha) e Jean Wahl (França):
Desnecessário é dizer que vivemos em um país de reduzida elite,
chamada a participar de múltiplos setores de nossa vida social e
econômica. O desenvolvimento vertiginoso da vida econômica de São
Paulo não pode deixar de interferir no âmbito universitário, conclamando
os seus mestres para uma contribuição positiva. É esta a missão de
ordem prática que estabelece um liame muito útil e fecundo entre a
Universidade e os grupos da produção econômica (REALE apud RBF,
1951b, p. 325).
Assim, Reale conecta diretamente a filosofia ibeefeana com a oligarquia
paulista (“reduzida elite”), além de conceber um papel empresarial da universidade
e de seus mestres, dizendo que há um vínculo (“liame muito útil”) destes com o
empresariado (“grupos de produção econômica”). A partir destes fragmentos que
demonstram as falas de Garcez e de Reale, percebemos os aspectos orgânicos da
filosofia que tinha no IBF seu centro de desenvolvimento e difusão. Sob esta
perspectiva, o conceito do AHF permite a seguinte problematização: a filosofia
ibeefeana não era neutra, tampouco desinteressada. Ao tomar a filosofia como o seu
nicho, o IBF desenvolveu um conteúdo anterior e mais profundo da atividade
intelectual humana, em direção aos fundamentos do conhecimento, fornecendo uma
importante — e imprescindível — base para o poder intelectual, como fundamento
da hegemonia da “autocracia burguesa” (FERNANDES, 2006). O IBF, em síntese,
constiuiu-se em legítimo AHF da oligarquia paulista e, ao expandir-se para outros
Estados da Federação, de outras oligarquias estaduais e da autocracia burguesa no
Brasil.
225
O IBF e o Golpe de 1964
O golpe de 1964 desencadeou uma onda repressiva sem precedentes na
história
do
Brasil.
A
contrarrevolução
buscou
eliminar
toda
dissidência,
principalmente aquela que estava ao lado das classes populares. Desse modo, até
mesmo os intelectuais foram perseguidos. Contra as “classes perigosas” valia tudo
para a paranoia reacionária, inclusive reprimir intelectuais ditos “subversivos”,
forçosamente distanciados do povo explorado e oprimido por um precipício de
analfabetismo, cujos índices eram absurdos.9 Casos emblemáticos são relatados por
Nelson Werneck Sodré (MORAES, 2000).
Recentemente, passados 50 anos do golpe, pouco se falou sobre o
terrorismo cultural, marcado por prisões arbitrárias de intelectuais como Astrojildo
Pereira, Carlos Heitor Cony (que escapou de uma tentativa de sequestro por agentes
da repressão), Florestan Fernandes, Ênio Silveira (editor da Civilização Brasileira),
Sodré,
dentre
outros.
Ademais,
foram
registradas,
naquele
contexto,
aproximadamente 5 mil demissões. Entre os demitidos estavam os renomados Celso
Furtado, Josué de Castro e Darci Ribeiro. O regime ditatorial almejava destruir “a
intelectualidade que marcou a cultura política brasileira durante quase duas
décadas” (SODRÉ, 1986, p. 70). Alguns intelectuais — a exemplo de Maurício Martins
de Mello, Pedro Alcântara Figueira e Joel Rufino dos Santos — foram presos,
sequestrados e desaparecidos, reaparecendo dias depois. Outros se exilaram, como
Paulo Freire, cujo método de alfabetização foi abolido. Bibliotecas foram fechadas
ou expurgadas, em virtude das obras acusadas de “comunismo”. A sede do ISEB foi
depredada, como relata Sodré:
Nos primeiros dias de abril de 1964, como é sabido, o ISEB foi invadido
e depredado: os autores da depredação não deixaram inteiro um móvel,
um quadro, um objeto. O cenário de vandalismo foi completo, rasgaram
livros e quadros, estriparam poltronas, quebraram mesas e cadeiras,
arrombaram portas e gavetas, subtraíram livros e carregaram tudo
aquilo que poderia servir de informação da vastíssima conspiração
comunista, orientada diretamente de Moscou, que se pretendeu depois
9
No início da década de 1960, o índice de analfabetismo correspondia a 39,6% da população.
Disponível em: <www.artigonal.com>. Acesso em: 25.5.2015.
226
provar ter ali sede. No Departamento de História, o que não foi destruído,
foi carregado, inclusive textos das monografias da História Nova em
elaboração. De contrapeso, os saqueadores levaram para o DOPS os
três funcionários do ISEB ali encontrados: o copeiro, o zelador e o
contínuo. [...] Até hoje [1986], no olhar desses homens, permanece a
singular nota de espanto pelo que sofreram (SODRÉ, 1986, p. 122).
O caso mais emblemático de perseguição aos intelectuais é o de Vladimir
Herzog, jornalista assassinado em 25 de outubro de 1975, mais de dez anos após o
golpe, nas dependências do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, algumas horas
depois de ter se apresentado para depoimento. Interessante notar que os intelectuais
do AHF/IBF não sofreram quaisquer desses abusos relatados, tampouco tiveram
destruída a rica sede na cidade de São Paulo, doada, em meados dos anos 1950,
pelo governo daquele Estado. Esses fatos revelam não só o que acontecia com os
intelectuais não alinhados ao regime ditatorial, mas também como seus apoiadores
mantinham-se incólumes.
Ao lado da força material do Estado, que recaiu com seu poderio repressivo
sobre as vozes dissonantes, era necessária a justificação moral e filosófica do golpe
e da autocracia burguesa, levando a contrarrevolução ao plano intelectual. Nesse
momento, surge o IBF e seus intelectuais conservadores liderados por Reale.
Ao passo que o ISEB (TOLEDO 1982 e 1986) pretendia criar um pensamento
(a ideologia do nacional-desenvolvimentismo) que visasse o desenvolvimento e a
autonomia nacional, o IBF formulava uma ideologia conservadora travestida de
“pensamento brasileiro”, a chamada “consciência conservadora”, uma de suas
principais criaturas; o principal criador, Paulo Mercadante. Mesmo que o ISEB fosse
útil à burguesia, seu congênere — o IBF — era visivelmente mais conservador, elitista
e avesso ao nacional-popular.
227
Paulo Mercadante e A consciência conservadora no Brasil (1965)
A impressão de que a sociedade, o povo, os grupos sociais, as
pessoas pouco ou nada representavam era negada pelas medidas de
controle e repressão que o governo punha em ação. Diante das forças
sociais não representadas no bloco de poder, em face da rebeldia
latente ou aberta contra os interesses dos senhores de escravos, nos
engenhos de açúcar e fazendas de café, o poder monárquico agia de
forma cada vez mais repressiva. A força, a sistemática e a
preeminência dos interesses dos grupos e camadas dominantes
representados no aparelho estatal eram de tal porte que alguns
intelectuais e políticos imaginavam que a sociedade fosse amorfa e o
Estado organizado; como se este pudesse existir por si. Não
percebiam o protesto do escravo, a insatisfação do branco pobre no
meio rural, as reivindicações de artesãos, empregados e funcionários
na cidade. Sem saber — talvez — escreviam a crônica dos
vencedores.
Octavio Ianni, 1984, p. 13 — grifos nossos.
N’A consciência conservadora no Brasil, Mercadante analisa a história do
Brasil sob a perspectiva da “conciliação” de classes, que se tornou um conceito de
grande valia para os intelectuais ibeefeanos, ou seja, a medida que nega a luta de
classes. Essa interpretação pode ser construída porque há um escamoteamento
deliberado das lutas sociais que permearam a história do Brasil no século XIX. A obra
de Mercadante, com quatro edições 10 e mais de 50 anos de história, tem boa
recepção entre os diversos intelectuais conservadores. Para Olavo de Carvalho
(2001), a obra é “um clássico da ‘história das mentalidades’”. João Alfredo de Souza
Montenegro a elogia, destacando-lhe:
[o] arrojo renovador de abordagem da mentalidade insistentemente
subjacente na evolução sócio-cultural brasileira, a ponto de, em
momentos de crise, de impasse da Nação, sem levantar em
protagonismos exacerbados, forçando recuos, aparando arestas
progressistas, e plantando o gradualismo com pretensões de absorver
os conflitos sociais, visualizados como impertinências demoníacas pela
ótica da ética dominante (1978, p. 234).
10
As edições são: 1ª ed. (Rio de Janeiro: Saga, 1965); 2ª ed. (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1972); 3ª ed. (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980); e 4ª ed. (Rio de Janeiro: Topbooks, 2003), com a
qual trabalhamos neste texto.
228
Por sua vez, Antonio Olinto (2004) diz em 1965: “Saiu afinal o livro de Paulo
Mercadante, A consciência conservadora no Brasil, que representa um aferimento
denso e tranquilo da situação brasileira de ontem e, até certo ponto, de hoje”. Nelson
Mello e Souza, prefaciador da quarta edição dessa obra, assinala que a “conciliação”
de Mercadante é a descoberta da “imantação histórica”, do sentido da história do
Brasil, caracterizada pelo fato de que as classes subalternizadas teriam aceitado,
por vontade própria, sua condição social. O conservadorismo brasileiro seria, nas
palavras de Mercadante (2003, p. 40), “avesso a revoluções, desconfiado do Estado
forte, propenso a garantir as liberdades individuais contra o autoritarismo, inclinado
a aceitar a lógica gradualista da história e o lento evoluir da base de valores; o
conservadorismo ‘no’ Brasil assumiu perfil conciliatório”. Souza diz que Mercadante
teria desvendado a “dialética da conciliação” na história do Brasil.
A obra em questão é uma das maiores expressões intelectuais que
culminaram com o golpe de 1964 e com os anos de chumbo da Ditadura. Noutros
termos, é a negação da luta de classes e a aceitação do prisma imposto pela classe
dominante. Ainda que seja expressão da onda conservadora que assolou o país, a
obra de Mercadante é coesa e muito bem construída, objetivando estabelecer uma
visão alternativa aos intelectuais ligados ao PCB, sobretudo Caio Prado Jr. e Nelson
Werneck Sodré.
Neste sentido, o autor não emprega termos e noções de mero reacionarismo
político. Ao contrário, resgata a ação habilidosa da classe dominante, que, segundo
ele, desde a Independência, mantinha na política uma “tendência de centro,
moderada e oportunista” (MERCADANTE, 2003, p. 96). Essa política seria a
reafirmação do “grande fazendeiro, espécie de gentry de caráter territorial”, que, por
sua vez:
É dúplice econômica e mentalmente: vive numa fazenda de escravos de
látego em punho enquanto se empolga pelas ideias liberais correntes
nos países europeus já libertos do feudalismo; revolucionário, quando
analisa as suas relações de produção com o mercado externo, e
conservador, quando reage a quaisquer ideias de abolição. Seu
caminho é necessariamente o compromisso entre a escravatura e o
liberalismo econômico (MERCADANTE, 2003, p. 105 — grifos nossos).
229
Assim, Mercadante busca amainar as interpretações sobre a classe
dominante, além de trazer o aspecto culturalista da “mentalidade” que faria do
proprietário rural um “revolucionário”. Caio Prado (2006, pp 57-81), contrariamente,
busca mostrar que, diante das lutas das classes populares, ainda que incipientes do
ponto de vista ideológico e organizativo, a classe dominante adotou um pragmatismo
que não raro a levou à traição. Interessante, neste sentido, notar a maneira pela qual
o autor caracteriza os Andradas:
Em março de 1832 fundam a Sociedade Conservadora, núcleo do
partido restaurador, o “caramuru”, como foi chamado. Figuravam entre
eles os Andradas, inclusive José Bonifácio [...] que, de nativistas
vermelhos antes da Independência, passam, com D. Pedro no trono do
Império, a palacianos. Evoluem daí, quando enxotados do ministério, a
ultrademagogos. Os discursos de Antônio Carlos na Constituinte ficaram
como modelos de retórica demagógica. Depois de 7 de abril, tornaramse, “restauradores”, ultrarreacionários (PRADO JR., 2006, p. 70).
Ainda que Mercadante fale da classe dominante como um todo, e Caio Prado
dos irmãos Andrada, que também pertenciam à classe dominante, é notável como
os autores apresentam um enfoque diferenciado: enquanto que a visão crítica
caiopradiana busca revelar a farsa e o pragmatismo reacionário, Mercadante sugere
uma classe dominante hábil e moderada, ora revolucionária, ora conservadora.
Nelson Werneck Sodré, por sua vez, aponta a necessidade prática que tinha
a classe senhorial de exercer e manter seu domínio sobre toda extensão territorial da
ex-colônia: “A Independência é, assim, uma empresa capitaneada pela classe
dominante colonial, que a configurou de acordo com seus interesses, entre os quais
o de ‘manter intacta a estrutura de produção’, nela incluída ‘a continuação do trabalho
escravo’, e a opção de aliar-se à burguesia europeia” (SODRÉ, 1971, p. 189 apud
BROCCHI, 2008, p. 117).
Em relação à “moderação”, Mercadante (2003, p. 98) argumenta que esta
seria o “lastro de sábia prudência”, já que teria evitado a revolução de escravos,
como ocorrera em 1804, no Haiti:
230
O temor à revolução teria sido um dos esteios do movimento pela
independência. [...] Todos acabariam acordando com a forma de arranjo
político, pelo qual se operaria o movimento, e do mesmo modo
conformados com a ausência de participação popular. O povo fora
advertido [...] de que sua atuação nos acontecimentos importantes
sempre poderia proporcionar um doloroso saldo de tragédia
(MERCADANTE, 2003, pp. 107-108).
Mercadante expressa, assim, uma das principais caraterísticas do
“moderantismo conservador”, conforme Gramsci (2006, p. 291): “temor pânico dos
movimentos jacobinos, de qualquer intervenção ativa das grandes massas populares
como fator de progresso histórico”. No entanto, Mercadante não traz isso de forma
crítica, tampouco reflete sobre as consequências sociais do apassivamento do povo.
Ademais, apresenta a participação das classes populares como negativa e
indesejada, neutralizando o interesse de classes. Do mesmo modo, o autor se
abstém de considerar as consequências sociais contemporâneas, limitando- se a
questões sobre a ordem conservadora. De outro ponto de vista, Sodré (2002, p. 14)
aponta a “contemporaneidade do não coetâneo”, ou seja, de antagonismos muitas
vezes profundos e de contrastes que sobrevivem mesmo com a extinção do
escravismo. Sodré aponta ainda o interesse classista dos senhores:
A Maioridade tem uma significação mais profunda do que mostra a
decisão formal de antecipar o governo de um príncipe conservado em
reserva para utilização oportuna. Do ponto de vista exterior, o golpe
importa na sequência de fidelidade da classe senhorial às instituições
monárquicas, que assemelham a ex-colônia aos países do ocidente
europeu. Tal fidelidade persistirá até fins do século XIX e está vinculada
ao desejo de evitar alterações políticas — que é um traço característico
da classe senhorial brasileira, na época. Não corresponde, entretanto,
senão ao aspecto formal do problema. No fundo, para aquela classe,
tratava-se de exercer o seu domínio sobre a extensão territorial que
recebera da Colônia (SODRÉ, 1971, p. 189 apud BROCCHI, 2008, p.
223 — grifos nossos).
Diante dos autores comunistas, Caio Prado Jr. e Nelson Wernéck Sodré,
Mercadante apresenta uma visão alternativa. A partir da perspectiva da chamada
“Escola Culturalista”, o autor ibeefeano busca as idiossincrasias da classe
231
dominante. Mas essa não é uma escolha eventual, pois reflete o interesse do
historiador em privilegiar determinadas características e, pelo menos, abrandar os
interesses de classe e os antagonismos e contradições da sociedade senhorial
escravista. É certo que o autor obtém elevado grau de sucesso com seu livro, a ponto
de ele ser considerado a obra mais acabada da historiografia ibeefeana. Para nós,
trata-se de um clássico do conservadorismo brasileiro que não surgiu por acaso.
Publicada um ano após o golpe de 1964, A consciência conservadora no Brasil surge
em um momento marcado por intensos debates sobre a questão nacional brasileira,
debates suscitados por autores cujas obras tornaram-se clássicas.
Com relação à obra de Caio Prado Jr., Evolução política do Brasil (1933),
cabe mencionar que a segunda edição, publicada em 1947, tinha-se esgotado.
Desse modo, a obra foi reeditada duas vezes pela editora Brasiliense: em 1961 (3ª
ed.) e 1963 (4ª ed.). Apesar de transcorridos 30 anos desde sua primeira edição, em
1933, era um clássico que se aproximava da ótica do PCB, pois destacava as lutas
políticas e sociais, bem como apontava a ausência de programas políticos e de
direção política, o que resultou no ímpeto difuso e desordenado das lutas regenciais
(SECCO, 2008, p. 163). Este processo permeado de lutas políticas e populares era
visto como uma “revolução”, a cuja concepção Prado Jr. se manteve fiel por toda
vida (idem, p. 115). Além disso, o historiador marxista coloca em pauta a questão da
democracia durante a Independência, que, do ponto de vista das classes pobres, foi
representada por projetos que abrangiam completas transformações sociais e
divisão igualitária de toda a riqueza social; já do ponto de vista dos democratas
radicais (representantes das classes populares), a Independência visava remover a
ordem vigente herdada da colônia (PRADO, 2006, pp. 58-59).
Nos anos 1960, a questão da democracia era candente e assim
permaneceria por muitos anos — até o fim da Ditadura Militar, em 1985. A partir do
golpe de 1964, entretanto, tornou-se uma questão explosiva. Por isso, a obra
caiopradiana, um clássico, preservou sua atualidade. Sua opção pela classe
trabalhadora se confirmaria pouco tempo depois, ou seja, em 1966, quando
publicava A revolução brasileira, na qual defendia, em coerência com o que já vinha
fazendo na Revista Brasiliense, “uma estratégia defensiva para os trabalhadores,
232
mas ao mesmo tempo independente a centrada em objetivos concretos” (SECCO,
2008, p. 115).
Em 1962, Nelson Werneck Sodré publica A formação histórica do Brasil,
resultado de um curso ministrado no ISEB, onde, desde 1956, lecionava uma
disciplina homônima. Na época, o autor era um “intelectual politicamente ativo na
cena brasileira, vinculado a posições que buscavam uma solução nacionalista e
democrática para os graves problemas do país”. Além disso, seu livro “apresenta um
argumento político e uma visão lúcida das possibilidades de resolução da questão
nacional e democrática em favor do Brasil e de seu povo” (GAIO, 2008, pp. 111 e
113). Na conclusão de sua obra, Sodré faz uma crítica radical à ordem vigente,
sinalizando as “perspectivas da revolução”, conforme denominou o derradeiro
capítulo:
O sistema em que o imperialismo, o latifúndio e os empresários
nacionais a ele associados encontra ainda as suas amplas
possibilidades de assegurar um rendoso domínio. A manipulação de
seus mecanismos, entretanto, torna-se ostensiva, já não tem
condições para dissimular-se, para apresentar-se como uma
fatalidade. [...] Torna-se ostensiva quando se opõe a uma política
externa independente, a uma política de paz, a uma política de
soberania nacional, a uma política de desenvolvimento industrial, a
uma política de libertação do campo, a uma política de elevação do
nível de vida do povo, a uma política de elevação de seu nível de
cultura (SODRÉ, 2002, pp. 438-439).
Sodré assume uma posição aberta de crítica e confronto ao imperialismo e
aos setores da classe dominante a ele associados. Em 1963, publica uma edição
ampliada de Introdução à revolução brasileira, que havia aparecido em 1958.
Esses historiadores marxistas eram comprometidos com as classes
exploradas e oprimidas, do passado e do presente. Independente da crítica a que
estão submetidos e dos equívocos do PCB, eles concordavam com a linha do partido
(Sodré mais do que Caio Prado, que mantinha certo distanciamento) de que “era
tarefa dos comunistas integrar uma frente nacionalista, com um programa de
emancipação nacional e de implementação da revolução democrático-burguesa”
(SECCO, 2008, p. 105). Paulo Mercadante responderá com um posicionamento
233
diametralmente oposto. Por exemplo, quando analisa a sociedade escravista do
século XIX demonstra que:
Quase toda a população, aproximadamente noventa por cento, vivia nos
domínios, e dessa massa apenas os senhores formavam um grupo
social definido, embora restrito. Os demais moradores dos latifúndios
ressentiam-se da falta de homogeneidade. Escravos, em sua maioria
pessoas atrasadas e ignorantes, arrancadas com violência de seu meio
e com mínimas condições de se organizarem socialmente. A
instabilidade era também de outras camadas de moradores do campo.
Os agregados das fazendas e engenhos, os sitiantes, pequenos
proprietários com suas engenhocas primitivas, ligados todos a produtos
secundários de economia agrícola — por sua dependência em relação
aos senhores do domínio, e pela dispersão, não constituíam
agrupamentos sociais estáveis. [...] Na enorme área dos latifúndios
agrícolas, só os grandes senhores rurais existem. Fora deles, tudo é
rudimentar, informe e fragmentário (MERCADANTE, 1978, p. 35).
Assim, diferentemente dos autores comunistas, Mercadante faz uma análise
de cunho sociológico na qual não há contradições, bem como escreve uma história
que prescinde dos momentos de luta das classes populares e dos momentos de
ruptura. Cotejando-se o trecho acima com a epígrafe deste tópico, de autoria de
Octavio Ianni, percebe-se que o autor produziu uma crônica dos vencedores, cuja
trajetória é contada como uma epopeia. Em um dos trechos finais de sua obra,
Mercadante demonstra a franqueza de pensador conservador, concluindo que: “A
escola da autoridade é a única legítima, porque é a única realizável; um governo filho
da revolta não pode marchar um só dia em virtude de seu princípio, e expira, se o
não combate” (MERCADANTE, 2003, p. 290). O autor não vislumbra nenhuma
ruptura com a ordem vigente, concebida por ele como acachapante.
Miguel Reale e os Imperativos da Revolução de Março (1965)
O Estado jurídico é uma miragem que muito convém à burguesia, uma
vez que substitui a ideologia religiosa em decomposição e esconde
aos olhos das massas a realidade do domínio da burguesia.
Evgny Pachukanis, 1988, p. 100.
234
A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte [...]
a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si
mesma. [...] Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder
Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada
pela normatividade anterior à sua vitória [...] Os processos
constitucionais não funcionaram para destituir o governo, que
deliberadamente se dispunha a bolchevizar o País. Destituído pela
revolução, só a esta cabe ditar as normas.
Ato Institucional nº 1, 9.4.1964 — grifos nossos.
Em 1965 surgiu outra importante obra ibeefeana: Imperativos da Revolução
de Março, de Miguel Reale. Escrita poucos meses após o golpe, entre junho e
outubro de 1964, a obra representaria um dos primeiros esforços intelectuais dos
golpistas, visando tanto justificar a tomada do Estado como sistematizar alguns
princípios
ideológicos
fundamentais
para
o
sucesso
dessa
empreitada.
Primeiramente, o que chama a atenção é que — assim como o livro de Mercadante
aqui analisado — a obra é lançada no início da Ditadura Militar (que ainda duraria
longos 20 anos), confirmando o autor como um dos intelectuais conservadores mais
relevantes do Brasil no século XX. De acordo com Diogo Cunha (2014), Reale
“engajou-se [em alguns dos] grandes movimentos políticos e embates ideológicos
do século XX; paralelamente construiu uma importante carreira como jurista, atuando
também em outros campos do saber”.
A obra em questão reúne, além da introdução do autor e da nota do editor,
nove textos, uma entrevista e a transcrição de Reale da “Proclamação de Primeiro de
Abril”. Esta foi difundida por rádio, momento em que o então secretário da Justiça do
Estado de São Paulo colocou-se como articulador do “movimento” golpista e
assegurou que “fora de dúvida é a vitória da causa da democracia e da liberdade”
(REALE, 1965, p. 117). Isso comprova, de fato, a real adesão do jurista paulista ao
golpismo.
A publicação dos Imperativos surge em um contexto histórico específico,
definido pela correlação de forças políticas e sociais, nas quais as lideranças civis e
intelectuais orgânicas tinham um papel importante na consecução do golpe e do
regime dele oriundo. Sob este enfoque, Reale, um intelectual orgânico renomado da
direita, desempenhava uma função não menos importante. Segundo David Maciel
235
(2004, pp. 42-43), as lideranças civis tiveram um papel decisivo na articulação do
golpe, já que “possuíam um contato político-ideológico estreito com empresários,
políticos conservadores e lideranças da sociedade civil”. Portanto, as lideranças civis
foram fundamentais na construção do consenso em torno da tomada do Estado e,
conforme analisaremos a seguir, na articulação ideológica.
Gostaríamos de salientar a construção ideológica que o líder do IBF faz na
obra, dando projeção de longo curso à Ditadura que estava em processo de
instauração, antecipando uma “reforma moral” de extensa trajetória. O autor, como
abordaremos a seguir, procede duas operações: por um lado, põe em limites
estreitos à revolução, concebida como reordenamento jurídico, não permitindo que
ela avance além dos marcos burgueses, rumo à “revolução proletária”. Por outro
lado, expande a ordem jurídica por meio do aggiornamento (reformulação e
atualização) jurídico da autocracia burguesa. Neste segundo momento, projeta uma
reforma moral balizada por normatização autoritária, que passa a englobar o todo,
visando estabelecer novas relações de força e poder mais favoráveis à classe
dominante. Como veremos, estas duas operações são unificadas pelo autor.
Nos Imperativos, o jurista paulista constrói uma concepção de revolução em
sintonia com o movimento golpista — esta é a primeira operação de sua construção.11
Por duas razões isso é crucial: por um lado, a ideia e questão da revolução brasileira
eram decisivas na ótica dos intelectuais da esquerda (como vimos anteriormente
com Caio Prado e Nelson Werneck); por outro lado, conceber a tomada do Estado
de 1964 e o regime dele oriundo como “revolução” permitia escamotear o fato de
que se tratava de golpe e ditadura. Neste sentido, é interessante notar o fragmento
a seguir:
11
Interessante notar as fontes que o autor recorre para fundamentar sua concepção de revolução. Ele
cita Alfredo Rocco (Trasformazione dello Stato, 1927) e Plínio Salgado (Psicologia da revolução, 3º.
ed., 1937) (REALE, 2000, p. 86). Rocco foi responsável por desenvolver a teoria do corporativismo,
que fundamentou a política econômica e social do governo fascista na Itália. Salgado é amplamente
conhecido como principal líder do movimento integralista. Reale diz ainda que Lênin e Trotsky
concordam com essa concepção, mas isso é jogo de pura retórica dissuasiva do autor, não
condizendo com a realidade. As raízes integralistas do pensamento jurídico de Reale já foram
apontadas por Athanis Rodrigues (2014).
236
Uma Revolução, que surge sem uma ideia diretora, deve constituí-la
através de um trabalho de exegese, que desça serenamente até os
refolhos da alma popular. [...] Se me perguntarem qual o sentido mais
decisivo a atribuir-se a esta Revolução, direi que é o da “honestidade”
ou da “seriedade”, não apenas como valor ético, como exigência
moral, mas também como pressuposto de ordem intelectual, como
imperativo de opção no plano político e administrativo (REALE, 1965,
p. 12 — grifos nossos).
O autor qualifica a “Revolução” de forma positiva, com o “valor da ‘seriedade’
e da ‘honestidade’” (REALE, 1965, p. 26), em contraposição à “corrupção” do
“governo [de João Goulart] convertido em mestre e senhor da mazorca”. Segundo
Reale, vinha se sucedendo “a deterioração da autoridade e a subversão dos valores
hierárquicos” (REALE, 1965, p. 95). Na exposição da “revolução”, o jurista paulista
estabelece importante diretriz ao movimento golpista, que é a da “reforma dos
costumes” até as partes mais profundas (“refolhos”) da “alma popular”, fazendo da
contrarrevolução não apenas um processo político e militar, mas também elevandoa à totalidade, ao englobá-la aos aspectos sociais e culturais.
A outra operação realizada por Reale diz respeito ao aggiornamento jurídico
(das normas e da Constituição) da autocracia burguesa. Segundo ele, diante da
“solerte propaganda comuno-janguista, […] o ato revolucionário por si já implica a
ruptura do ordenamento jurídico vigente”. O autor expressa a necessidade de
reformular a Constituição de 1946, que teria “se mostrado incapaz de opor uma
barreira ao desmando e às maquinações do comunismo internacional” (REALE,
1965, p. 99).
Um dos motes principais dos estratos sociais golpistas era o anticomunismo.
Segundo David Maciel (2004, p. 43), “o anticomunismo era uma noção ampla o
suficiente para abarcar os setores políticos vinculados à tradição comunista ou ao
marxismo, bem como toda e qualquer ação ou articulação desestabilizadora da
ordem social numa perspectiva contra-hegemônica”. Assim, muito além de uma
questão ética ou moral, a pregação anticomunista era um fator estratégico de
desmobilização das forças contra-hegemônicas, podendo ser uma alternativa à
autocracia burguesa, bem como justificação dos rumos enveredados pela Ditadura
logo nos primeiros meses do regime.
237
O Ato Institucional nº 1 (AI-1) é fundamental na construção do jurista paulista.
Segundo Reale (1965, p. 101), “O Ato Institucional foi [...] o caminho certo encontrado
pela revolução”. Afirma ainda que “toda revolução, como escrevi em meu livro Teoria
do Direito e do Estado, alberga uma ordem jurídica potencial, por ser a ruptura de
uma ordem jurídica tendo em vista a instauração de um sistema novo, acompanhado
necessariamente de correlativa mudança espiritual do povo” (REALE, 1965, pp. 101102), e que “toda revolução assinala o início de uma nova fase na vida do direito,
possuindo valores que justificam a emanação de normas de caráter excepcional, [...]
para prevenir outros atentados ao regime que se quer preservar e aperfeiçoar” (idem,
pp. 105-106).
O autor concebe a revolução truncada de forma unificada com a expansão
da ordem jurídica, visando a reforma moral. Seguindo a indicação que o autor fornece
nos Imperativos (REALE, 1965, p. 101), na obra Teoria do Direito e do Estado (1940),
ele afirma que a revolução “é sempre ruptura de uma ordem jurídica tendo em vista
uma ordem jurídica nova” (REALE, 2000, p. 86), o que pressupõe um limite estreito
ao que venha ser uma revolução, evitando que esta seja associada à ruptura do
sistema capitalista, mas, antes disso, seja não mais do que o aggiornamento dos
aspectos jurídicos da autocracia burguesa.
Além desse limite que trunca a revolução, enquadrando-a nos marcos da
autocracia burguesa, Reale coloca a questão da Ditadura em termos de quebra da
velha ordem jurídica e da necessária e subsequente reforma jurídica do Estado, com
a construção de nova ordem jurídica. Isso permite ao regime a fórmula da “miragem
jurídica” (PACHUKANIS, 1988, p. 100) que visa escamotear o domínio burguês, sob
o manto de um “necessário” reordenamento jurídico articulado por normas
apresentadas como objetivas e impessoais.
A partir da contribuição de Pachukanis (1988), é possível problematizar
teoricamente o autoritarismo dos juristas burgueses. O jurista paulista reafirma o AI1 e coloca de forma mais acabada o autoritarismo dos juristas burgueses quando
propõe uma “reforma moral”, apreendida em termos de “reforma dos costumes” e de
“mudança espiritual do povo” (REALE, 2000). Além disso, os representantes da
“revolução” são apresentados como “a autoridade suprema” que “formula as normas
238
e engloba o todo” (PACHUKANIS, 1988, p. 19), fazendo da norma uma “prescrição
imperativa” (idem, p. 60) para reforma da moral. Desta forma, Reale acaba por
conceber a “norma como regra de conduta, formulada autoritariamente” (idem, p.
51).
Por fim, não podemos ignorar o fato de que por trás da “reforma moral” que
deveria descer “até os refolhos da alma popular” havia o AHF/IBF, que, conforme a
definição, “busca a difusão de uma filosofia, de uma concepção geral da vida”
(REALE, 2000). Tal projeto surge em conformidade com a função orgânica do
AHF/IBF, que visa orientar os fundamentos da civilização burguesa, colocando-a sob
o influxo da autocracia burguesa e dando um folego de duas décadas à Ditadura.
Considerações finais
A autocracia burguesa é incapaz de sustentar-se pelo uso da força sem o
respaldo fundamental do consenso. Neste sentido, a construção da hegemonia
(GRAMSCI, 2002, p. 95) 12 e do consenso não pode prescindir de intelectuais
orgânicos que dão à classe dominante consciência da própria função no campo
econômico, social e político. Noutros termos, conforme assinala Gramsci (2004, p.
21): “Os intelectuais são os ‘prepostos’ do grupo dominante para o exercício das
funções subalternas da hegemonia social e do governo político”. No entanto, a
atuação orgânica dos intelectuais não é obra individual de intelectuais isolados, visto
que ela se consolida em estruturas orgânicas do poder burguês, dando-lhe
homogeneidade, desenvolvimento e difusão. Neste sentido, cumpriu papel
fundamental o IBF, desenvolvendo fundamentos e pressupostos no plano da
ideologia e da filosofia, pressupostos indispensáveis à direção moral e intelectual da
autocracia burguesa. Dessa maneira, identificamos no instituto um verdadeiro
“aparelho de hegemonia filosófico”. Portanto, o IBF e sua intelectualidade cumpriram
uma importante função para a autocracia: elaborar a consciência conservadora,
12
Gramsci define que “O exercício ‘normal’ da hegemonia, no terreno tornado clássico pelo regime
parlamentar, caracteriza-se pela combinação da força e do consenso, que se equilibram de modo
variado, sem que a força suplante em muito o consenso, mas, ao contrário, tentando fazer com que a
força pareça apoiada no consenso da maioria, expresso pelos chamados órgãos da opinião pública
- jornais e associações -, os quais, por isso, em certas situações, são artificialmente multiplicados”.
239
capaz de justificar, nos planos moral, intelectual e ideológico, a ditadura de classe,
que — uma vez naturalizada pela tradição conservadora remendada pelos
ibeefeanos — reforçou o consenso que criou em torno de si. O IBF e seus intelectuais
foram um dos responsáveis pela expansão autocrática nos planos intelectual, moral
e espiritual. Ao passo que Mercadante ofereceu à autocracia burguesa secularidade
e perenidade, disponibilizando uma releitura das interpretações dos intelectuais
comunista, Reale, por sua vez, camuflou o autoritarismo em formulações jurídicas
que aparecem sob a roupagem de normas objetivas e imparciais, uma vez que a
subordinação da classe trabalhadora ao capital e sua coação não podem “surgir sob
forma não camuflada” (PACHUKANIS, 1988, p. 98). Em ambos os casos, vê-se, por
parte desses intelectuais conservadores, a projeção de longo curso, mirando
passado, presente e futuro.
__________________________
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