Terra Livre erra Livre - Associação dos Geógrafos Brasileiros

Anuncio
Terra Livre
CRISE, PRÁXIS E AUTONOMIA
ESP
AÇOS DE RESISTÊNCIA
ESPAÇOS
E DE ESPERANÇAS
Desde 1934
Associação
dos
Associação dos
Geógrafos
Brasieliros
Geógrafos Brasileiros
1
Associação dos Geógrafos Brasileiros
Diretoria Execut
va Nacional
Executiva
Gestão 2008/2010
Presidente
Alexandrina Luz Conceição - AGB Aracaju
Vice Presidente
Nelson Rego - AGB Porto Alegre
Secretaria
Djoni Roos - AGB Marechal Cândido Rondon
Tesouraria
Sinthia Cristina Batista - AGB Cáceres
Coordenação de Publicações
Edvaldo César Moretti - AGB Dourados
Alexandre Bergamin Vieira - AGB Presidente Prudente
Mestres de Edição
Hindenburgo Francisco Pires
Pedro Henrique Oliveita Gomes
Tiago Bassani Rech
Representação junto ao Sistema CONFEA/CREA
Titular: Cristiano Silva da Rocha – AGB-Porto Alegre
Suplente: Victor Alberto de Souza Junior
Representação junto ao Conselho das Cidades
Arlete Moyses Rodrigues – AGB - São Paulo/SP
Suplente: Yure Silva Lima
Correio eletrônico: [email protected]
Página na internet: http://www.agb.org.br
2
ISSN 0102-8030
Terra Livre
Publicação semestral
da Associação dos Geógrafos Brasileiros
ANO 26 – V
ol. 1
Vol.
NÚMERO 34
Terra Livre
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 1-281
Jan-Jun/2010
3
TERRA LIVRE
Conselho Editorial
Adauto de Oliveira Souza (UFGD)
Ailton Luchiari (USP)
Aldomar Arnaldo Rückert (UFRGS)
Alexandrina Luz Conceição (UFS)
Anselmo Alfredo (USP)
Amélia Cristina (AGB-RJ)
Álvaro Luiz Heidrich (UFRGS)
Ana Fani Alessandri Carlos (USP)
Ângela Massumi Katuta (UEL)
Antonio Carlos Vitte (UNICAMP)
Antonio Nivaldo Hespanhol (UNESP/Pres. Prudente)
Arlete Moysés Rodrigues (UNICAMP)
Arthur Magon Whitacker (UNESP/Pres. Prudente)
Beatriz Ribeiro Soares (UFU)
Bernadete C. Castro Oliveira (IGCE/UNESP)
Bernardo Mançano Fernandes (UNESP/Pres. Prudente)
Charlei Aparecido da Silva (UFGD)
Cristiane Cardoso (AGB-RJ)
Diamantino Alves Correia Pereira (PUC/SP)
Dirce Maria Antunes Suertegaray (UFRGS)
Douglas Santos (PUC/SP)
Eliseu Saverio Sposito (UNESP/Pres. Prudente)
Flaviana Gasparotti Nunes (UFGD)
Francisco Mendonça (UFPR)
Genilton Rocha (AGB-RJ)
Hindenburgo Francisco Pires (AGB-RJ)
Horácio Capel Sáez (Universidade Barcelona/Espanha)
João Cleps Júnior (UFU)
João Edmilson Fabrini (UNIOESTE/M. C. Rondon)
Jones Dari Goettert (UFGD)
Jorge Montenegro Gómez (UFPR)
José Daniel Gómez (Universidade de Alicante/Espanha)
Larissa Mies Bombardi (USP)
Marcelino Andrade Gonçalves (UFMS/Nova Andradina)
Marcelo Dornelis Carvalhal (UNIOESTE/M. C. Rondon)
Marcelo Rodrigues Mendonça (UFG/Catalão)
Márcio Cataia (IG/UNICAMP)
Marcos Bernardino de Carvalho (PUC/SP)
Maria Franco García (UFPB)
Maurício A. de Abreu (UFRJ)
Mirian Cláudia Lourenção Simonetti (UNESP/Marília)
Nélson Rego (UFRGS)
Paulo Roberto Raposo Alentejano (UERJ/São Gonçalo)
Pedro Costa Guedes Vianna (UFPB)
Rafael Straforini (AGB-RJ)
Regina Célia Bega dos Santos (IG/UNICAMP)
Renato Emerson dos Santos (AGB-RJ)
Ricardo Antunes (UNICAMP)
Rogério Haesbaert da Costa (UFF)
Selma Simões de Castro (UFG)
Sérgio Luiz Miranda (UFU)
Silvio Simione da Silva (UFAC)
Valéria De Marcos (USP)
Virgínia Elisabeta Etges (UNISC)
Wiliam Rosa Alves (UFMG)
Xosé Santos Solla (Univ. Santiago de Compostela/Espanha)
Editores responsáveis: Alexandre Bergamim Vieira (AGB-Presidente Prudente) e
Edvaldo César Moretti (AGB - Dourados/MS)
Editoração e formatação eletrônica: Tiago Bassani Rech (AGB– Porto Alegre/RS)
Arte da capa: Tiago Bassani Rech (AGB – Porto Alegre/RS)
Fotografia capa: Silvana Ap. Lucato Moretti (AGB-Dourados)
Tiragem: 300
Impressão: Solidus Gráfica e Editora ([email protected])
Av. Antônio de Carvalho, 2079 cep: 91430-001 - Porto Alegre - RS
Endereço para Correspondência:
Associação dos Geógrafos Brasileiros (DEN)
Av. Prof. Lineu Prestes, 332 - Edifício Geografia e História - Cidade Universitária
CEP: 05508-900 - São Paulo / SP - Brasil - Tel. (0xx11) 3091 - 3758
ou Caixa Postal 64.525 - 05402-970 - São Paulo / SP
e-mail: [email protected]
Ficha Catalográficca
Terra Livre, ano 1, n. 1, São Paulo, 1986. São Paulo, 1986 – v. ils. Histórico
1986 – ano 1, v. 1
1987 – n. 2
1988 – n. 3, n. 4, n. 5
1989 – n. 6
1990 – n. 7
10. Geografia – Periódicos
10. AGB. Diretoria Nacional
1991 – n. 8, n. 9
1992 – N. 10
Revista Indexada em Geodados
www.geodados.uem.br
ISSN 0102-8030
1992/93 – 11/12 (editada em 1996)
1994/95/96 – interrompida
1997 – n. 13
1998 – interrompida
1999 – n. 14
2000 – n. 15
2001 – n. 16, n. 17
2002 – Ano 18, v.1, n. 18; v.2, n. 19
2003 – Ano 19, v.1, n. 20; v. 2, n. 21
2004 – Ano 20, v.1, n. 22; v. 2, n. 23
2005 – Ano 21, v.1, n. 24
2005 – Ano 21, v. 2, n. 25
2006 – Ano 22, v. 1, n. 26
2006 – Ano 22, v. 2, n. 27
2007 – Ano 23, v. 1, n. 28
CDU – 91 (05)
2007 – Ano 23, v. 2, n. 29
2008 – Ano 24, v. 1, n. 30
2008 – Ano 24, v. 2, n. 31
2009 – Ano 25, v. 1, n. 32
2009 – Ano 25, v. 2, n. 33
2010 – Ano 26, v. 1, n. 34
Solicita-se permuta / Se solicita intercambio / We ask for echange
4
SUMÁRIO
EDITORIAL
09
ARTIGOS
15
REDES
AS E GEOGRAFIA EM REDE: AS NOV
TIV
SOCIAIS COLABORA
TIVAS
COLABORATIV
NOVAS
AS
FORMAS DE APROPRIAÇÃO DO CONHECIMENTO SOCIAL NO SÉCULO
XXI
17 - 36
HINDENBURGO FRANCISCO PIRES
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESP
ACIAL. FETICHE DO CAPIT
AL E
SPACIAL
APITAL
SOCIABILIDADE CRÍTICA.
37 - 62
ANSELMO ALFREDO
A TRAJETÓRIA DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: UMA BREVE
INTERPRETAÇÃO
AÇÃO
INTERPRET
63 - 68
ROBERTO LOBATO CORRÊA
AS CIDADES E
A URBANIZAÇÃO NA CONTEMPORANEIDADE. CRISE
NAS CIDADES OU CRISE DAS CIDADES?
69-78
REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS
“DESIMAGINANDO” O MUNDO PELAS MARGENS DO “DESMUNDO”:
AÇO EM “DOBRAS” DA LITERA
TURA E DO CINEMA
ESPAÇO
ITERATURA
PENSANDO O ESP
JONES DARI GOETTERT
79-108
ENSINAR A GEOGRAFIA OU ENSINAR COM A GEOGRAFIA? DAS
PRÁTICAS E DOS SABERES ESP
ACIAIS À CONSTRUÇÃO DO
ESPACIAIS
CONHECIMENTO GEOGRÁFICO NA ESCOLA
109-124
MARCOS ANTÔNIO CAMPOS COUTO
GEOGRAFIA,
RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS E EDUCAÇÃO: A DIMENSÃO
AS NO ENSINO
TIV
ESPACIAL
TIVAS
AFIRMATIV
ACIAL DAS POLÍTICAS DE AÇÕES AFIRMA
ESP
125-140
ALEX RATTS
ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO: QUESTÕES A PARTIR DA LEI
10.639 141-160
RENATO EMERSON DOS SANTOS
VÍDEOS, RRESISTÊNCIAS
E GEOGRAFIAS MENORES LINGUAGENS E
MANEIRAS CONTEMPORÂNEAS DE RESISTIR
WENCESLAO MACHADO
DE
OLIVEIRA JR
161-176
5
LINGUAGEM
E PRODUÇÃO DE SENTIDOS NO ENSINO DE
GEOGRAFIA
SHOKO KIMURA
COMPLEXIDADE DO ESP
AÇO AGRÁRIO BRASILEIRO: O
ESPAÇO
AGROHIDRONEGÓCIO E AS (RE)EXISTÊNCIAS DOS POVOS
CERRADEIROS
MARCELO MENDONÇA
A DESCONTRUÇÃO DA
VIMENTO NO
DOUTRINA DO DESENVOL
DESENVOLVIMENTO
ESPÍRITO SANTO - BRASIL
PAULO CÉSAR SCARIM
NOT
AS
NOTAS
CONSELHO DAS CIDADES – UMA AVALIAÇÃO
177-188
189-202
203-220
221
ARLETE MOYSES RODRIGUES
223-230
RELA
TÓRIO DA COMISSÃO DE TRABALHO DE
RELATÓRIO
CAMPO XV ENG - 2008
231-252
DIETER HEIDEMAN
FERNANDA PINHEIRO
LÉA MALINA
MAÍRA PINHEIRO
MARCELA DIAS
RESENHA.
253
A DOBRA – LEIBNIZ E O BARROCO 255-258
DELEUZE,, GILLES. A DOBRA – LEIBNIZ E O BARROCO.
CLÁUDIO BENITO O. FERRAZ
NORMAS
NORMAS
PARA PUBLICAÇÃO
261-266
COMPÊNDIO
267
COMPÊNDIO
6
259
DOS NÚMEROS
269-280
SUMMAR
Y/SUMARIO
SUMMARY/SUMARIO
FOREWORD/EDITORIAL
11
ARTICLES/ ARTÍCULOS
15
REDES SOCIALES DE COLABORACIÓN Y GEOGRAFÍA EM RED: NUEV
AS
UEVAS
FORMAS DE APROPIACIÓN DEL CONOCIMIENTO SOCIAL EN EL SIGLO XXI
COLLABORA
OLLABORATIVE
TIVE SOCIAL NETWORKS AND GEOGRAPHY IN THE N ET: NEW
FORMS OF SOCIAL APPROPRIA
Y
PPROPRIATION
ENTURY
TION OF KNOWLEDGE IN THE XXI CENTUR
HINDENBURGO FRANCISCO PIRES
17 - 36
IMMANENT CRISES, SPATIAL ABSTRACTION. FETISH OF CAPIT
AL AND CRITICAL
APITAL
SOCIABILITY
ANSELMO ALFREDO
THE
TRAJECTOR
Y OF THE BRAZILIAN GEOGRAPHY
TRAJECTORY
TRA
RAYECTORIA
YECTORIA DE LA G EOGRAFÍA B RASILEÑA
ROBERTO LOBATO CORRÊA
37 - 62
63 - 68
THE
CITIES AND URBANIZA
TION IN CONTEMPORAR
Y TIMES. CRISIS CRISIS IN
URBANIZATION
CONTEMPORARY
CITIES OR TOWNS?
LAS CIUDADES Y LA URBANIZACIÓN EN LA ÉPOCA CONTEMPORÁNEA. CRISIS DE
LA CRISIS EN LAS CIUDADES O PUEBLOS?
REGINA CÉLIA BEGA DOS SANTOS
“DE-IMAGINING”
BY THE MARGINS OF “DE-WORLD”: THINKING THE
TURE AND C INEMA
ACE IN FOLDS OF THE LITERA
ITERATURE
SPACE
SP
EL MUNDO POR LAS IMÁGENES DEL “DESMUNDO”: PENSANDO
ACIO EN “DOBLAS” DE LA LITERA
TURA Y DEL C INEMA
ESPACIO
ITERATURA
EL ESP
JONES DARI GOETTERT
THE
“DESIMAGINANDO”
69-78
WORLD
PRÁCTICAS Y CONOCIMIENTO DEL ESP
ESPACIO
ACIO A LA
CONSTRUCCIÓN DEL DE CONOCIMIENTO GEOGRÁFICO EN LA ESCUELA
PRA
RATIQUES
SAVOIR
ESPACE
TIQUES ET DU SA
VOIR DE L’ESP
ACE A
LA CONSTRUCTION DES CONNAISSANCES GÉOGRAPHIQUE À L’ÉCOLE
MARCOS ANTÔNIO CAMPOS COUTO
79-108
109-124
GEOGRAPHY, ETHNIC-RACIAL RELA
TIONS AND EDUCA
TION: THE SP
RELATIONS
EDUCATION
SPA
ATIAL
DIMENSION
TIVE ACTION POLICIES IN EDUCA
TION
AFFIRMATIVE
EDUCATION
OF AFFIRMA
GÉOGRAPHIE, RELA
TIONS ETHNIQUE- RA
TIALES ET ÉDUCA
TION: LA DIMENSION
RELATIONS
RATIALES
ÉDUCATION
TIVES DANS L’ENSEIGNEMENT
AFFIRMATIVES
SPA
SP
ATIALE DES POLITIQUES D’ACTIONS AFFIRMA
ALEX RATTS
125-140
THE TEACHING OF GEOGRAPHY AND CURRICULUM: MA
MATTERS
TTERS FROM THE LAW
10.639
LA ENSEÑANZA DE LA GEOGRAFÍA Y EL CURRÍCULO: CUESTIONES A PARTIR DE LA
LEY 10.639 141-160
RENATO EMERSON DOS SANTOS
VIDEOS, RESISTENCES AND MINOR GEOGRAPHIES: LANGUAGES AND
Y WAYS OF RESISTING
CONTEMPORARY
CONTEMPORAR
VIDEOS, RESISTENCIAS Y GEOGRAFIAS MENORES
LENGUAJES Y
FORMAS CONTEMPORÁNEAS DE LA RESISTENCIA
161-176
WENCESLAO MACHADO DE OLIVEIRA JR
7
LANGUAGE AND PRODUCTION OF MEANING IN THE TEACHING OF GEOGRAPHY
LANGUE ET PRODUCTION DU SENS DANS L’ENSEIGNEMENT DE LA GÉOGRAPHIE
SHOKO KIMURA
177-188
COMPLEJIDAD DEL ESP
ACIO AGRARIO BRASILEÑO: EL
ESPACIO
(RE)EXISTENCIAS DE LOS PUEBLOS CERRADEROS
COMPLEXITY OF THE BRAZILIAN AGRARIAN SP
ACE: THE
SPACE:
AGROHYDROBUSINESS AND THE (RE)EXISTENCES OF THE CERRADEIROS
PEOPLES
M
ENDONÇA
MARCELO
189-202
THE DECONSTRUCTION OF DEVELOPMENT DOCTRINE IN ESPÍRITO SANTO BRASIL
LA DECONSTRUCCIÓN DE LA DOCTRINA DEL DESARROLLO EN EL ESPÍRITO
SANTO - BRASIL
PAULO CÉSAR SCARIM
203-220
AGROHIDRONEGOCIO Y LAS
NOTES/NOT
AS
NOTES/NOTAS
COUNCIL OF THE CITY - AN EV
ALUA
TION
EVALUA
ALUATION
CONSEJO DE LA CIUDAD - UNA EV
ALUACIÓN
EVALUACIÓN
ARLETE MOYSES RODRIGUES
COMMISSION REPORT OF FIELD WORK XV ENG - 2008
INFORME DE LA COMISIÓN DE TRABAJO DE CAMPO XV ENG
- 2008
DIETER HEIDEMAN
FERNANDA PINHEIRO
LÉA MALINA
MAÍRA PINHEIRO
MARCELA DIAS
RESENHAS
221
223-230
231-252
253
THE PAIR - LEIBNIZ AND THE BAROQUE
LA PAREJA - LEIBNIZ Y EL BARROCO 255-258
DELEUZE,, GILLES. A DOBRA – LEIBNIZ E O BARROCO.
CLÁUDIO BENITO O. FERRAZ
ST
ANDARDS/NORMAS
STANDARDS/NORMAS
259
STANDARDS FOR PUBLICATION
NORMAS PARA PUBLICACIÓN
261-266
COMPENDIUM/COMPENDIO
COMPENDIUM OF THE PREVIUS NUMBERS
COMPENDIO DE LAS ANTERIORES
8
267
269-280
EDITORIAL
Estamos finalizando nossa Gestão (2008-2010) com a certeza do dever cumprido.
Nossa certeza está fundamentada na luta contínua para o pensar e o fazer uma AGB em
Movimento. A nossa Associação tem basicamente a mesma origem do Curso de Geografia
no Brasil, e durante os 76 e 78 anos que se distanciam no tempo e espaço da resistência por
uma geografia comprometida com o conhecimento científico, a Revista Terra Livre é fruto
desse processo.
Estamos publicando a Revista Terra Livre número 34. Temos também a satisfação de
ter garantido a colocação no sítio-web da entidade de forma digitalizada de praticamente
todos os números da nossa Revista. Neste último número, nosso objetivo foi o de trazer
debates que se apresentam no XVI ENG, que se realiza na cidade de Porto Alegre, e que
têm como temática central: “CRISE, PRÁXIS E AUTONOMIA: ESPAÇOS DE RESISTÊNCIA E DE ESPERANÇAS”.
A proposta do tema é fomentar a discussão da CRISE. O que vemos hoje é uma
sociedade paralisada e atônita, que tomou como natural a pobreza, o analfabetismo, a indigência, o agronegócio, a monocultura, a falta de terra, a falta de moradia, a falta de comida,
a falta de ar puro, a falta de trabalho. Dentro deste contexto, que não é só mundial, mas é
também regional e local, propomos que a Geografia sirva de instrumento para balizar esta
discussão.
Nessa dimensão, é que remetemos à PRÁXIS do geógrafo, à sua formação, experiência; AUTONOMIA que se expressa em uma dimensão latente nas diferentes escalas de
atuação dos/as geógrafos/as e nas diferentes concepções sobre o conhecimento geográfico.
Produzir significa pensar e analisar o existente, ir além dele como idéia e práxis, produzir
é praticar as utopias. É dialogar com o indeterminado; o que surge como expressão de
práticas, na luta nos ESPAÇOS DE RESISTÊNCIAS, e na busca
dos ESPAÇOS DE ESPERANÇA.
Convidamos para apresentar esta discussão todas/os palestrantes das Mesas do XVI
Encontro Nacional de Geógrafos. Desses, 12 atenderam nossa solicitação enviando seus
textos para serem publicados, que colocamos à disposição nesse número 34 da TL.
É compreendendo que a AGB é o campo de força da práxis, que trazemos também
neste número 34 a publicação de um texto relatando a importante e motivadora atividade
do Trabalho de Campo realizado no XV ENG, na cidade de São Paulo em 2008, como também o texto CONSELHO DAS CIDADES – UMA AVALIAÇÃO, texto elaborado por Arlete
Moysés Rodrigues, nossa Representante da AGB no segmento Entidades Acadêmicas, Profissionais e de Pesquisa, com a contribuição dos colegas da Coordenação Executiva da 4ª.
Conferência das Cidades (2010), em especial pela comissão de sistematização.
É com as palavras escritas que cantam o Grande Sertão: Veredas, que afirmamos,
“[...] tudo não acabava sem um fim”.
COLETIVO DA DIRETORIA EXECUTIV
A NACIONAL GESTÃO 2008 - 2010
XECUTIVA
9
10
EDITORIAL
Our Management (2008-2010) is about to come to an end and we are sure to have
fulfilled our duty. This confidence is based on our constant struggle in order to think and to
make an AGB in Motion. Our Association has basically the same origin of the Geography
Course in Brazil, and during the 76 and 78 years that come apart due to time and space of
the resistance to the Geography which is compromised with the scientific knowledge, the
Magazine Terra Livre (Free Land) is the fruit of this process.
We are publishing the Magazine Terra Livre (Free Land), number 34. We also have
the satisfaction to have guaranteed that all the editions of our Magazine are now available
in the website in a digital format. In this last edition, our aim was to bring to light the
debates that were presented in the XVI ENG, which happened in the city of Porto Alegre,
and whose central thematic was “CRISES, PRAXIS AND AUTONOMY: SPACES OF
RESISTANCE AND OF HOPES “.
The proposal of the theme is to initiate the discussion about CRISES. What we see
today is a paralyzed and thunderstruck society that understands aspects as poverty,
illiteracy, indigence, agrobusiness, monoculture, and lack of land, lack of housing, lack of
food, lack of fresh air, and lack of employment as something natural. Within this context –
that is not only a worldwide one, but also a national and local one –, we suggest that
Geography should play the role of an instrument that is to lead such discussion.
In this dimension, we address the PRAXIS of the geographer, their formation,
experience; AUTONOMY that is expressed in a latent dimension in the different performance
scales of the geographers and in the different conceptions of the geographic knowledge.
Producing means thinking and analyzing what exists. It is going beyond as idea and praxis.
Producing is going for utopias. It is talking with the uncertain. Hence, this comes about as
the expression of the practices, in the struggle in the SPACES OF RESISTANCE, in the
quest for the SPACES OF HOPE.
We invited all the lecturers in the Boards of the XVI National Geographers’ Meeting
to present this discussion. Among those, 12 have complied with our request by sending
their texts to be published, and these are available in this number 34 of our magazine.
By understanding that the AGB is the force field of the praxis that we also bring in
this number 34 a text reporting an important and motivating activity in the field work
performed in the XV ENG, in the city of São Paulo in 2008, as well as the text CITIES
COUNCIL – AN EVALUATION, a text written by Arlete Moysés Rodrigues, our AGB
representative in the segment ‘Academic, Professional and Research Entities’ with a
contribution from the colleagues from the Executive Coordination from the 4th Cities
Conference (2010), specially by the systematization commission.
And with the words sung in Grande Sertão: Veredas, that we state, “[...] tudo não
acabava sem um fim” – “[...] everything never finishes without an end”.
BOARD OF
THE
NATIONAL EXECUTIVE DIRECTORSHIP / MANAGEMENT 2008
- 2010
11
12
EDITORIAL
Estamos finalizando nuestra Gestión (2008-2010) con la seguridad de deber cumplido.
Nuestra seguridad está fundamentada en la lucha continua para el pensar y el hacer de
una AGB en Movimiento. Nuestra Asociación tiene básicamente el mismo origen del Curso
de Geografía en Brasil, y durante los 76 y 78 años que se distancian en el tiempo y espacio
de la resistencia por una geografía comprometida con el conocimiento científico, la Revista
Terra Livre es fruto de ese proceso.
Estamos publicando la Revista Terra Livre numero 34. Tenemos también la
satisfacción de haber garantizado la colocación en el sitio de la entidad de forma digitalizada
de prácticamente todos los números de nuestra Revista. En este último número, nuestro
objetivo fue traer debates que se presentaban en el XVI ENG, que ha sido realizado en la
ciudad de Porto Alegre, y que tuvo como temática central: “CRISIS, PRAXIS Y AUTONOMIA: ESPACIOS DE RESISTENCIA Y DE ESPERANZAS”.
La propuesta del tema es fomentar la discusión de la CRISIS. Lo que vemos hoy es
una sociedad paralizada y atónita, que tomó la pobreza como algo natural, el analfabetismo, la indigencia, el agronegocio, el monocultivo, la falta de tierra, la falta de vivienda, la
falta de comida, la falta de aire puro, la falta de trabajo. En este contexto, que no es solo
mundial, pero también regional y local, proponemos que la Geografía sirva de instrumento
para balizar esta discusión.
Esa dimensión es la dimensión en que remetemos a la PRAXIS del geógrafo, a su
formación, experiencia; AUTONOMÍA que se expresa en una dimensión latente en las diferentes escalas de actuación de los/las geógrafos/as y en las diferentes concepciones sobre el
conocimiento geográfico. Producir significa pensar y analizar lo que ya existe, ir más allá
de su propio significado como idea y praxis, producir es practicar las utopías. Es dialogar
con lo indeterminado; lo que surge como expresión de prácticas, en la lucha en los ESPACIOS
DE RESISTENCIAS, y en la búsqueda de los ESPACIOS DE ESPERANZA.
Invitamos a presentar esta discusión a todas/os conferenciantes de las Mesas del XVI
Encuentro Nacional de Geógrafos. De estos, 12 atendieron nuestra solicitud enviando sus
textos para publicación, y ellos están disponibles en ese numero 34 de la TL.
Es comprendiendo que la AGB es el campo de fuerza de la praxis, que traemos también
en este número 34 la publicación de un texto relatando la importante y motivadora actividad
del Trabajo de Campo realizado en el XV ENG, en la ciudad de São Paulo en 2008, y también
el texto CONSEJO DE LAS CIUDADES – UNA EVALUACIÓN, texto elaborado por Arlete
Moysés Rodrigues, nuestra Representante de la AGB en el segmento Entidades Académicas,
Profesionales y de Investigación, con la contribución de los compañeros de la Coordinación
Ejecutiva de la 4ª Conferencia de las Ciudades (2010), en especial por la comisión de
sistematización.
Es con las palabras escritas que cantan el Grande Sertão: Veredas, que afirmamos,
“[...] tudo não acabava sem um fim” - “[...] todo no terminaba sin un fin”.
COLECTIVO DE
LA
DIRECCIÓN EJECUTIV
A NACIONAL G ESTIÓN 2008 - 2010
JECUTIVA
13
14
ARTIGOS
15
16
REDES SOCIAIS
AS E
TIV
TIVAS
OLABORATIV
COLABORA
GEOGRAFIA EM
REDE: AS NOV
AS
OVAS
FORMAS DE
APROPRIAÇÃO DO
CONHECIMENTO
SOCIAL NO SÉCULO
XXI
REDES SOCIALES DE
COLABORACIÓN Y
GEOGRAFÍA EM RED:
NUEV
AS FORMAS DE
UEVAS
APROPIACIÓN DEL
CONOCIMIENTO
SOCIAL EN EL SIGLO
XXI
COLLABORA
OLLABORATIVE
TIVE
SOCIAL NETWORKS
AND GEOGRAPHY IN
THE NET: NEW
FORMS OF SOCIAL
APPROPRIA
PPROPRIATION
TION OF
KNOWLEDGE IN THE
XXI CENTUR
Y
ENTURY
HINDENBURGO
FRANCISCO PIRES
UERJ
http://www.cibergeo.org
Resumo: A difusão do conhecimento científico da área de Geografia, na
Internet, vem sendo efetuada através de revistas eletrônicas e online, e
também a partir da apropriação e do uso, de sítios de entidades e
instituições, redes sociais e acadêmicas, espaços públicos eletrônicos
(listas), blogs, cursos e materiais didáticos, banco de dados, livros
eletrônicos (e-Books) e bibliotecas digitais, etc. Esta pesquisa financiada
pela FAPERJ - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de
Janeiro, tem os seguintes objetivos: a) debater os conceitos de saber
vivo e trabalho imaterial na formação da razão contra-hegemônica ao
capitalismo; b) analisar a participação das redes sociais colaborativas
no processo de apropriação pública do conhecimento científico; c)
contribuir para fortalecer as pesquisas sobre a Geografia em Rede; d)
revelar como a criação de Geotecnologias surge da práxis colaborativa
de seus desenvolvedores; e) evidenciar o papel da Educação na nova
economia do conhecimento. Nessa pesquisa, foram propostas algumas
perspectivas metodológicas para os estudos sobre a apropriação social
do conhecimento através de redes sociais colaborativas, para organização
e difusão do trabalho científico e para articulação de ações colaborativas
e educacionais.
Palavras chaves: Redes Sociais Colaborativas - Geografia em rede Saber Vivo -Trabalho Imaterial - Revistas Eletrônicas.
Resumen: La difusión de los conocimientos científicos en el campo de la
geografía, en la Internet, se lleva a cabo a través de revistas electrónicas
y online, y también de la apropiación y uso de los sitios web de
organizaciones e instituciones, redes sociales en colaboración y redes
académicas, espacios públicos electrónicos, blogs, cursos y material
didáctico, bases de datos, libros electrónicos (e-Books) y bibliotecas
digitales, etc. Esta investigación financiada por FAPERJ - Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, tiene los siguientes
objetivos: a) examinar los conceptos de saber vivo y el trabajo inmaterial
en la formación de la lucha contra-hegemónica, b) analizar la
participación de redes sociales en el proceso de colaboración para la
propiedad pública de los conocimientos científicos, c) contribuir a
fortalecer la investigación en la Geografía en Red, d) explicar cómo la
creación de Geotecnologías surge de la práctica de colaboración de sus
desarrolladores; e) poner de relieve el papel de la educación en la nueva
economía del conocimiento. En este investigación, proponemos algunas
perspectivas metodológicas para el estudio de la apropiación social del
conocimiento a través de redes de colaboración social, para la compilación
y difusión del trabajo científico y de la articulación de acciones educativas
y de colaboración.
Palabras clave: Redes Sociales de Colaboración - Geografía en Red Saber Vivo -Trabajo Inmaterial - Revistas Electrónicas.
Abstract: The dissemination of Geography scientific knowledge on the
Internet has been carried out by means of electronic journals online
and also by the appropriation and use of entities and institutions sites,
social and academic networks, electronic public spaces (lists), blogs,
courses and teaching materials, data banks, e-Books and digital libraries
etc. This research funded by FAPERJ - Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado do Rio de Janeiro intends: a) to debate the concepts of live
knowledge and immaterial work in the formation of capitalism counterhegemonic reason; b) to analyze the participation of collaborative social
networks in the process of public appropriation of knowledge and in the
promotion of Geography in the Net: c) to contribute to strengthen
researches on Geography in the Net; d) show as the creation of
Geotechnologies emerges from collaborative praxis of its developers; e)
to highlight the role of Education in the new knowledge-ruled economy.
In this research, some methodological perspectives were proposed for
the studies about the social appropriation of knowledge through
collaborative social networks, so that the scientific work can be organized
and disseminated and collaborative educational actions can be
articulated.
Key words: Collaborative Social Networks – Geography in the Net –
Live Knowledge – Immaterial Work – Electronic Journals
Terra Livre
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 17-36
Jan-Jun/2010
17
PIRES, H. F.
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa1 é originária da necessidade de se investigar temas complexos que se
articulam com a Geografia, tais como: internet, geografia do ciberespaço, redes sociais
colaborativas, trabalho imaterial, economia do conhecimento, softwares livres, computação em nuvens ou “cloud computing” 2, inovações tecnológicas e acadêmicas, entre outros.
O estudo em conjunto de todos esses fatores reflete a necessidade de atualização do
pensamento geográfico brasileiro, frente aos desafios colocados para o fortalecimento de
uma práxis colaborativa, que assegure a apropriação pública da produção social do conhecimento no limiar do século XXI.
Neste sentido, torna-se crucial também pesquisar como os atores dessas redes
interagem (Markusen, 2005, p.58)3, utilizam e governam o ciberespaço enquanto mosaico
de redes sociotécnicas4 interligadas (Dias, 2004 p.167; Cohen Egler, 2007, p.34) por redes
de telecomunicações, computação em nuvens, interfaces e bancos de dados (Pires, 2009b).
Assim este artigo tem como propósitos: a) debater os conceitos de saber vivo e trabalho imaterial na formação da razão contra-hegemônica ao capitalismo; b) analisar a participação das redes sociais colaborativas no processo de apropriação pública do conhecimento científico; c) contribuir para fortalecer as pesquisas sobre a Geografia em Rede; d) evidenciar o papel da Educação na nova economia do conhecimento.
Nessa pesquisa, também foram propostas algumas perspectivas teóricas e
metodológicas para o estudo do processo de apropriação pública do conhecimento através
de redes sociais colaborativas, para organização e difusão do trabalho científico e para
articulação de ações colaborativas e educacionais.
SABER VIVO E FORMAÇÃO DA RAZÃO CONTRA-HEGEMÔNICA
No artigo que escrevi, em 1992, “As “Metamorfoses” Tecnológicas do Capitalismo no
Período Atual”, inspirado em leituras que havia efetuado dos Grundrisse (manuscritos) de
Karl Marx (1857-1858), fiz uma breve reflexão sobre o processo de negação do trabalho vivo
ocasionado pelos avanços da ciência e pelas inovações tecnológicas.
Nessas leituras, constatei assim como também o fez André Gorz (2005, p.15-16), baseado na leitura de Marx, que a participação da ciência, enquanto modalidade de produção
do conhecimento social (Social Knowledge), havia alterado a composição do trabalho, do
valor e do capital, dentro do processo produtivo capitalista. E que às conquistas produzidas
pelas inovações oriundas do avanço técnico-científico acentuaram
“em nome de um pretenso progresso científico, o processo de apropriação privada do caráter
social da produção científica, convertendo-a mais em ameaça do que em benefício para a forma
material da produção social ... O uso de técnicas científicas no processo de produção capitalista,
1
Essa pesquisa recebe o apoio do Programa de Bolsa de Estudos para Estágio Pós-Doutoral no Exterior da
Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
2
Na Web 2.0, as nuvens computacionais constituem uma convergência complexa de hardwares e softwares,
estruturada em um ambiente virtual colaborativo, que pode ser utilizado para congregar atividades e serviços a
serem operados em multiplataformas por empreendedores, usuários e consumidores.
3
Segundo Ann Markusen, no artigo: “Mudança econômica regional segundo o enfoque centrado no ator” (2005,
p.58): “Em narrativas causais, os atores foram substituídos por processos, tais como aglomeração. Em vez de
atores dando forma à geografia econômica, atribuem-se papéis causais a fenômemos subteorizados tais como
‘aprendizagem’ e ‘redes’.”
4
Leila Christina Dias, no artigo: “A importância das redes para uma nova regionalização brasileira: Notas para
discussão.” (2004, p.167), apoiada nas idéias de Milton Santos, também procurou destacar o papel dos atores na
modelagem das redes: “... a interação entre as redes e os territórios pressupõe reconhecer que estamos diante de
duas lógicas distintas. De um lado, a lógica das redes, definida pelos agentes hegemônicos que desenham, modelam
e regulam. Parece essencial conhecer suas ações, identificando as estratégias dos agentes e a maneira como as
redes são desenhadas e administradas. De outro lado, a lógica dos territórios, aqui concebidos como arenas ...”
18
Terra Livre - n. 34 (1): 269-280, 2010
muitas vezes, foi condicionado pelos investimentos em pesquisa, pela busca constante de obtenção de lucros, competitividade, produtividade e poderio bélico”. (Pires, 1992)
Nos Grundrisse também constam anotações referentes ao uso do conhecimento como
a principal fonte de riqueza na produção. Nestes manuscritos, Marx afirmou que trabalho
vivo iria, por conseqüência, deixar de ser a medida da riqueza criada e esta por sua vez
prescindiria do tempo de trabalho e do quantum de trabalho despendido; ela passaria a
depender cada vez mais do emprego da ciência e dos avanços nas técnicas de produção. A
apropriação privada do caráter social da produção científica é processo lógico da acumulação capitalista.
No período atual, as tecnologias de informação revalorizaram as imprescindíveis
formas do saber, pois elas são inerentes a cada ser humano, são subjetivas: “o saber da
experiência, o discernimento, a capacidade de coordenação, de auto-organização e de comunicação” (Gorz, 2005). Esse conjunto de subjetividades forma o saber vivo que se transforma em capital humano nas empresas.
O incremento do saber vivo e do conhecimento social acumulado no processo de produção, Marx chamou de composição de trabalho abstrato, hoje a produção de bens não
tangíveis requer uma composição de trabalho abstrato ou imaterial constituído sob a forma
de software 5.
No limiar do século XXI, o que presenciamos, é um momento potencialmente diferenciado de emergência de uma razão contra-hegemônica, em que a sociedade através de
suas redes sociais passa a se re-apropriar da produção social do conhecimento e do saber
vivo. Segundo André Gorz:
“O saber em princípio não aceita ser manipulado como mercadoria. Os custos de sua produção
muitas vezes não podem ser determinados, e seu valor mercantil não pode ser auferido de
acordo com o tempo de trabalho necessário que foi gasto em sua criação”. (Gorz, 2005)
Este movimento de apropriação social do conhecimento livre está fortalecendo ações
contra-hegemônicas em favor da socialização do conhecimento, essas ações são efetuadas
voluntariamente através de redes sociais colaborativas, não comerciais, formadas eminentemente por educadores, cientistas, artistas e leigos, que trabalham em pró da produção do
software livre ou código aberto.
A computação em nuvens ou “cloud computing” agrega sistemas, serviços e ambientes virtuais que ampliam as possibilidades do trabalho colaborativo. Outra importante forma de redes sociais colaborativas são as comunidades de espaço coletivo. Designers de
várias regiões do mundo utilizam esta forma de produção coletiva, o exemplo mais notável
é o Cargo Collective (http://cargocollective.com/).
A adesão de inúmeros cientistas e pesquisadores a esta forma de produção coletiva,
não competitiva, constitui o princípio motor do novo paradigma da colaboração (Dowbor,
2008).
PERSPECTIV
AS TEÓRICAS RECENTES
ERSPECTIVAS
SOCIAL DO CONHECIMENTO
SOBRE
REDES SOCIAIS
E
APROPRIAÇÃO
Na área da Sociologia, os estudos sobre rede social representam um campo de investigação de longa tradição. O aperfeiçoamento das pesquisas e a análise de suas relações
ajudaram a fundamentar a Teoria das Redes.
Alguns estudos e pesquisas, nesta direção, na área da sociologia e da economia refor5
Os autores do Livro “Capitalismo cognitivo: trabalho, redes e inovação, no Prefácio sobre a importância do
software no período atual, destacaram:
“o software funciona como elo estratégico entre essa base operacional e as formas de cooperação social que se
estabelecem entre os usuários, principalmente os produtores de informação e conhecimento. Daí o forte embate
do movimento do software livre contra a propriedade intelectual e corporativa dos recursos operacionais dos
computadores”. (Cocco et al, 2003, p. 9)
19
PIRES, H. F.
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
çaram o escopo das reflexões sobre o tema ao tratar do surgimento da economia do conhecimento, do trabalho imaterial e das relações de trabalho nas redes sociais de colaboração
ou de cooperação (Sáez, 2004; Sádaba, 2009).
Na área da Geografia, os estudos atinentes à rede social fortaleceram as pesquisas
sobre a Geografia das Redes (Pires, 2009b) e, mais recentemente, estão aprimorando as
pesquisas sobre a Geografia em Rede (Pires, 2004; 2009a; Capel, 2009, 2010).
Ao longo de sete anos de trabalho ministrando a disciplina “Ciberespaço e Sociedade
da Informação” no mestrado de Geografia da UERJ (2003-2010), tive a possibilidade de
desenvolver estudos e pesquisas na área de pesquisa da Geografia do Ciberespaço. O resultado desse trabalho tem sido apresentado em eventos acadêmicos nacionais e internacionais e tem se concretizado através de um conjunto de publicações que se inter-relacionarem e se complementam (Anexo, Quadro1).
O conjunto dessas pesquisas é fruto de estudos que venho efetuando para o aprimoramento dos conteúdos referentes ao campo de conhecimento da disciplina Ciberespaço e
Sociedade da Informação, o fato de ter participado e ter debatido com colegas em vários
eventos nacionais e internacionais, conduziram-me à necessidade de investigar temas complexos que se articulam com a Geografia como: ciberespaço, redes, trabalho imaterial, economia do conhecimento, inovações tecnológicas e acadêmicas.
REDES ACADÊMICAS E PESQUISAS DA GEOGRAFIA DO CIBERESP
AÇO
IBERESPAÇO
Existem duas perspectivas metodológicas para os estudos da Geografia do Ciberespaço:
a primeira, a Geografia das Redes, que está relacionada ao estudo da gênese da implantação e do planejamento urbano das redes tecnológicas que compõe o ciberespaço; a segunda,
a Geografia em Rede, que estuda a apropriação e o uso sociais dessas redes para organização e difusão do trabalho científico e para articulação de ações colaborativas e educacionais.
Nesta pesquisa, nosso objeto de estudo tem sido a Geografia do Ciberespaço, que é ao
mesmo tempo uma resultante do aprimoramento e da fusão destas duas perspectivas de
enfoques metodológicos da Geografia: a Geografia das redes e a Geografia em Rede.
A diversidade da produção na área da Geografia do Ciberespaço6, para além da representação de uma alucinação, já foi evidenciada por Martin Dodge e Rob Kitchin7. Esta
subárea de pesquisa, denominada, por várias instituições internacionais, de Geografia do
Ciberespaço, também foi chamada de Geociberespaço, por Henry Bakis (2001),
Cibergeografia, por David Horn (2003) e Tecnoespaço por Angelo Turco (2002). Esses estudos constituem um esforço recente que vem se expandindo principalmente pela necessidade de se estabelecer as bases conceituais e metodológicas que expliquem como se organizam, no território, as redes de: telecomunicações, computadores, programas, interfaces,
bancos de dados e como essas redes vêm se modificando pela dinâmica da expansão da
internet
O esquema teórico (Quadro 2) a seguir revela e delimita como estes dois enfoques ou
perspectivas formam e articulam os cenários da pesquisa que iremos desenvolver.
6
O termo ciberespaço foi utilizado pelo autor de ficção científica William Gibson, no livro Neuromancer, para
descrever a experiência cognitiva (alucinação) vivenciada diariamente por bilhões de indivíduos, em todas as
nações, extraída dos bancos de dados de todos os computadores do sistema humano (Gibson, 2008, p. 69). O
ciberespaço de Gibson nos remete à Internet enquanto “dimensão” virtual abstrata, cuja natureza aparentemente
é “não-territorial”, “pós-orgânico”, “imaterial”, presente na experiência de seus usuários.
7
Consultar na Internet “The Geography of Cyberspace Directory”:
http://personalpages.manchester.ac.uk/staff/m.dodge/cybergeography/geography_of_cyberspace.html
20
Terra Livre - n. 34 (1): 269-280, 2010
Quadro 2
Perspectivas Teóricas e Metodológicas da Geografia do Ciberespaço
1º Perspectiva - Geografia das Redes
a) Estudos e pesquisas sobre:
1. Gênese e tipologia das redes;
2. Técnica e tecnologia empregadas;
3. Arquitetura e topologia de rede;
4. Políticas públicas e planejamento da rede
nacional de pesquisa.
2º Perspectiva - Geografia em Redes
a) Estudos e pesquisas sobre:
1. Redes sociotécnicas;
2. Redes sociais colaborativas;
3. Redes acadêmicas e científicas;
4. Práxis nas redes: colaborativas e
pedagógicas;
5. Usos sociais das redes: produção, difusão e
apropriação do conhecimento.
b) Enfoque ontológico – conhecimento do
b) Enfoque epistemológico – conhecimento do
saber ser.
ser.
- análise da natureza das relações.
- análise do significado/ análise do discurso.
c) objeto – o em si, (ênfase na techné e na
c) objeto – o para si, a representação, o
physis).
significado e seus sujeitos (ênfase no logos).
- forma, estrutura, organização.
- conteúdo, processo, articulação, colaboração.
d) A cibergeografia das redes tecnológicas, d) A cibergeografia nas redes acadêmicas de
acadêmicas e de pesquisa tem por objetivo Geografia tem por objetivo estudar como se
analisar e desvendar suas origens, articula e organiza o saber geográfico através
articulações, relações e fluxos (Geografizar de uma rede (Geografizar em rede).
a rede).
Esquema Teórico: Elaborado pelo autor, 2010.
Embora as pesquisas sobre a geografia das redes estejam sendo realizadas e já esteja
acontecendo a Geografia em redes no Brasil, a institucionalização da Geografia do
Ciberespaço ainda está para ser realizada na grande totalidade das Instituições de Ensino
Superior - IES - que possuem curso de Geografia nas suas unidades acadêmicas.
O ciberespaço brasileiro é hoje um complexo territorial articulado de redes sóciotecnológicas em conexão e em permanente expansão.
A história da “informatização do território”, da implantação de estruturas virtuais de
acumulação ou da formação do ciberespaço brasileiro é fruto da ação de sujeitos sociais, dos
avanços tecnológicos, da evolução das redes acadêmicas (Gráfico1) e também da
espacialização dos pontos de presença (pops) no backbone da RNP. (Pires, 2010).
21
PIRES, H. F.
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
No Brasil, a Geografia das Redes possui uma extraordinária diversidade de enfoques
teórico-metodológicos (Quadro 3), a maioria desses enfoques busca compreender a origem,
a forma, a estrutura, a função e a organização das redes no território. Essa diversidade é
representada pelos seguintes pesquisadores e campos temáticos: Pedro Pinchas Geiger:
evolução da rede urbana brasileira (1963); Roberto Lobato Corrêa: rede urbana (1988, 1994);
Helena Kohn Cordeiro: rede nacional de telex e mudanças na localização das sedes bancárias no centro de São Paulo (1989, 1992); Milton Santos: urbanização brasileira, redes
sociotécnicas e a geografia das redes (1993, 1996); Milton Santos e Maria Laura Silveira:
redes e estruturas de engenharia do Brasil (2001); Leila Christina Dias: redes sociotécnicas,
rede de telecomunicações e redes bancárias (1996, 2004, 2005). Entretanto, os estudos sobre redes, desde o período de Pedro Pinchas Geiger (1963) a Milton Santos (1993, 1996),
trabalharam em um contexto diferente do atual, por isso é necessário propor outras teorias, métodos e procedimentos para a investigação das novas formas de produção e de apropriação do conhecimento geográfico em redes no século XXI.
22
Terra Livre - n. 34 (1): 269-280, 2010
Quadro3
Enfoques teórico-metodológicos da Geografia das Redes
Enfoques teóricos-metodológicos
Evolução Da Rede Urbana Brasileira
Redes Territoriais de Comunicação
Redes Urbanas e de Gestão
Serviços, Firmas, Bancos
Redes Sociotécnicas; Redes Técnicoinformacionais, Sistemas de Engenharia,
Acréscimos
Redes Técnicoinformacionais
Sistemas de Engenharia, Acréscimos
Redes Transacionais
Política, Economia
Redes Geográficas
Estudos sobre origem das Redes
Redes Urbanas e Econômicas
Serviços, Petróleo
Redes Sociotécnicas:
Estudos sobre origem das Redes, Bancos,
Telecomunicações
Redes Técnicas:
Bancos, Ciberespaço, Estruturas Virtuais de
Acumulação, Redes de Sociais e
Acadêmicas
Redes Técnicas e Redes Urbanas
Autores
Pedro Pinchas Geiger
Helena Kohn Cordeiro
Correa, Roberto Lobato
Ano
1963
1989
1989
Santos, Milton
1995
Silveira, Maria Laura e
Santos, Milton
Machado, Lia Osório
2001
1998
Ribeiro, Miguel Angelo
2000
Egler, Claudio Antônio
& Pires do Rio, Gisela
Dias, Leila Christina
2003
2004
Pires, Hindenburgo
Francisco
2005
Spósito, Eliseu Savério
2005
Quadro: Elaborado pelo autor, 2010
A pesquisa “Planejamento Urbano do Ciberespaço: A formação territorial de redes
comunitárias acadêmicas” (Pires, 2010) segue a orientação do enfoque metodológico da
Geografia das Redes, que desenvolvemos recentemente se caracteriza pelos estudos sobre:
gênese e tipologia das redes; técnica e tecnologia empregadas (techné); arquitetura e
topologia de redes (physis); políticas públicas e planejamento de redes no território. Nesta
pesquisa já foram efetuados o estudo histórico sobre as cinco fases de estruturação do
ciberespaço no Brasil e a pesquisa sobre a implantação das Redes Comunitárias de Ensino
e Pesquisa – Redecomep em Belém, Recife e Rio de Janeiro.
O SURGIMENTO
DA
ECONOMIA
DO
CONHECIMENTO
“A economia do conhecimento que atualmente se propaga é uma forma de capitalismo que
procura redefinir suas categorias principais - trabalho, valor e capital – e assim abarcar novos
domínios”. (Gorz, 2005) 8
Para André Gorz, o capital do conhecimento, reconhecido como a principal forma do
capital humano, é tão antigo quanto o capitalismo industrial, e com as sucessivas inovações
tecnológicas que atualmente se processam em intervalos de tempo menores no mundo, o
emprego desse tipo de capital, ganha cada vez mais ênfase no atual processo de acumulação capitalista, pois exige mais empenho do saber vivo, do conhecimento técnico, realizado
8
Citação extraída do livro André Gorz “O Imaterial: Conhecimento, Valor e Capital”, p.09.
23
PIRES, H. F.
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
através do trabalho imaterial.
O valor das mercadorias deixou de ser mensurado em unidades de tempo por produto. A criação de valor passou a ser regida e impulsionada cada vez mais por uma composição relativa de trabalho imaterial.
A hegemonia da economia do conhecimento, baseada no trabalho imaterial, transformou o conhecimento e a ciência em motores do processo de acumulação.
A inteligência, a criação, o saber vivo e a imaginação são as bases da nova economia
do conhecimento. Segundo André Gorz “o coração, o centro da criação de valor, é o trabalho
imaterial”.
O modelo de produção no capitalismo informacional ou cognitivo passou a requisitar
trabalhadores com uma bagagem cultural mais ampla, proveniente de habilidades desenvolvidas fora do ambiente de trabalho e adquiridas com softwares, jogos, esportes, artes,
etc. As empresas passaram a considerar vários fatores e externalidades para a estruturação
e a composição de seu “capital humano”, pois a inteligência, a imaginação e o saber, juntos,
constituem esse capital humano
ECONOMIA
DO
CONHECIMENTO
E
REDES SOCIAIS
Na nova economia do conhecimento em rede, o trabalho passou perversamente a se
autoproduzir ou a produzir a si próprio. Este processo está pondo em risco a formalização
das relações de trabalho e o assalariamento, que aparentemente estão em vias de extinção.
Segundo André Gorz, no auto-emprendimento:
“A pessoa deve, para si mesma, tornar-se uma empresa; ela deve se tornar, como força de
trabalho, um capital fixo que exige ser continuamente reproduzido, valorizado. Nenhum constrangimento lhe deve ser imposto do exterior, ela deve ser sua própria produtora, sua própria
empregadora e sua própria vendedora, obrigando-se a impor a si mesma constrangimentos
necessários para assegurar a viabilidade e a competitividade da empresa que ela é. Em suma,
o regime assalariado deve ser abolido”.(Gorz, 2005, p. 23)
Segundo, Lazzarato e Negri, o advento do trabalho imaterial representa a superação
da divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho material, e nos revela a criatividade
como processo social sob dois aspectos:
“a) O trabalho se transforma integralmente em trabalho imaterial e a força de trabalho em
“intelectualidade de massa” (os dois aspectos que Marx chama General Intellect).
b) A intelectualidade de massa pode transformar-se em um sujeito social e politicamente
hegemônico.” (Lazzarato & Negri, 2001, p.27)
Esta criatividade subversiva sob a forma de General Intellect se manifesta hoje através das redes sociais colaborativas. Segundo Giovanni Alves:
“A constituição de uma inteligência coletiva, através das redes digitais, é uma dimensão particular, qualitativamente nova, do processo de virtualização, que é intrínseco a todas as formas
sócio-históricas de cooperação social.” (Alves, 2002, p. 113).
Uma nova forma de produção coletiva está fortalecendo a produção autônoma de
conhecimento através de redes sociais de colaboração. São exemplos desta nova práxis as
seguintes iniciativas (Figura 1): Wikipédia; SourceForge; Comunidade Linux; Public
Knowledge Project - PKP; YouTube; Flickr; Projeto Genoma; Indimedia; Skype; Second
Life; Joomla, Moodle; etc.
24
Terra Livre - n. 34 (1): 269-280, 2010
FIGURA 1
Essas redes sociais de colaboração e as redes sociais de relacionamento (Figura 2),
em todas as áreas, se expandiram de forma impressionante entre os países 9.
Figura 2
9
O mapa de Manyeyes da IBM mostra detalhadamente a concorrência das empresas pelo controle e liderança
dessas redes em escala global e como se dá a distribuição das redes sociais mais populares na Internet: <http://
manyeyes.alphaworks.ibm.com/manyeyes/visualizations/most-popular-social-media-networks>
25
PIRES, H. F.
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
No que se refere à área de Geografia, pode-se encontrar uma vasta produção de
revistas eletrônicas, sítios de entidades e instituições, redes sociais e acadêmicas, espaços
públicos eletrônicos ou listas (Lemos, 2002, p.34), blogs, cursos e materiais didáticos, banco
de dados, teses, bibliotecas virtuais, etc. Esta modalidade de produzir a Geografia, aos
poucos, está se fortalecendo e se formalizando nas instituições de ensino superior e nas
redes sociais relacionadas à área de Geografia. Esse universo do ciberespaço tornou-se o
objeto de estudo da Geografia em rede.
Assim, a Geografia em rede está sendo definida, a partir dessa pesquisa, como a
Geografia que se faz com uso de recursos de mediação tecnológica disponíveis na Internet
e das novas mídias. Ela vai se constituir a partir de um enfoque metodológico mais orientado à compreensão da natureza dos processos que interferem ou possibilitam a organização,
a apropriação social e a difusão do conhecimento em rede.
A partir desses estudos é possível a verificação do padrão dominante para a promoção e desenvolvimento de novas redes colaborativas com maior articulação.
GEOTECNOLOGIAS
E PRÁXIS COLABORA
TIVA
COLABORATIV
A
TIV
Outra importante rede social colaborativa é a que promove o desenvolvimento das
Geotecnologias. Esta rede é resultante da práxis colaborativa de seus desenvolvedores.
As Geotecnologias é um conjunto de tecnologias que possibilita a obtenção, a representação de dados e o tratamento de informações georreferenciadas a serem empregadas
para a análise geográfica e o planejamento ambiental. As áreas mais fortemente vinculadas ao uso e ao estudo das geotecnologias são: Cartografia; Geomática; Engenharia dos
Transportes; Computação Aplicada; Geofísica; Geografia Física.
As tecnologias mais utilizadas nesta rede social colaborativa são: Softwares; SIGS;
GPS; Imagens de satélites; Google Maps, Google Earth e do WikiMapia, etc.
As ações desenvolvidas pelas redes sociais colaborativas e as políticas públicas são
essenciais para universalização do acesso à internet, mas têm sido dificultadas pelos custos
tanto dos hardwares quanto dos softwares.
As dificuldades econômicas enfrentadas pela maioria dos países Asiáticos, Africanos
e da América Latina, para pagarem as taxas exigidas para introduzirem softwares proprietários10 em seus sistemas produtivos e educacionais, principalmente no uso das
Geotecnologias (Figura 3), estão praticamente induzindo e forçando às nações que desejam
se inserir minimamente na era digital a adotarem softwares de código aberto ou livre.
Figura 3
10
Os principais softwares proprietários e de código aberto, baseados na plataforma Windows da Microsoft, utilizados
na área das Geotecnologias são: ArcGIS; AtlasGis; Idrisi; Autocad, etc.
26
Terra Livre - n. 34 (1): 269-280, 2010
A busca pela liberdade de criação e disseminação solidária de aperfeiçoamentos dos
softwares livre e de código aberto (Figura 4)11, entre eles o Linux, foi o impulso necessário
e vital para o crescimento, o amadurecimento e o desenvolvimento das redes sociais
colaborativas na área de Geotecnologias.
Figura 4
A Produção do Conhecimento Geográfico em Rede e Revistas Eletrônicas
A produção do conhecimento vem se consubstanciando principalmente através das
revistas eletrônicas. No Brasil, 598 revistas eletrônicas brasileiras de diferentes áreas (Gráfico 2) adotaram como sistema padrão o software Open Journal Systems (open sources),
desenvolvido pelo Public Knowledge Project, da Universidade British Columbia, traduzido
para o Português, pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT),
com o nome de SEER.
11
Os principais softwares livres e abertos baseados na plataforma Linux – GNU, utilizados pela área das
Geotecnologias são: Quantum GIS (QGIS); Spring (1991); gvSIG (Generalitat Valencia - Espanha - Java); PostGIS
(British Columbia, Canadá); OSGeo - Mapserver (The Open Source Geospatial Foundation); FreeGis, etc. O
Projeto Sistema de Informação Geográfico Livre (FreeGis) já reúne hoje, no sítio-web, mais 351 softwares para
uso público e gratuito: http://www.freegis.org/database/?cat=0 (Free Geographic Information Systems)
27
PIRES, H. F.
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
A partir de um levantamento preliminar no banco de dados Qualis Periódicos da
Capes, elaborado em 2007, constatamos que, na área de geografia, já há mais 35 revistas
eletrônicas (Anexo, Quadro 4) que utilizam o SEER como sistema de editoração eletrônica.
Existe uma difusão regional (Grafico 3) assimétrica do SEER entre as IES brasileiras, 74%
desta difusão está concentrada nas regiões Sudeste e Sul.
Constatamos também em um levantamento preliminar, a partir de uma pesquisa
prévia nos sítios de outras revistas eletrônicas de Geografia, que aproximadamente mais
de 21 revistas eletrônicas e online (Anexo, Quadro 5) não utilizam o SEER como padrão de
editoração, mas trabalham com outros sistemas de indexação compartilhada 12, tais como:
a) Rede Pergamon, com o sistema Indexação Compartilhada de Artigos de Periódicos- ICAP, que possui 34 IES cadastradas, 120 periódicos, 13.146 artigos e 4.746 artigos online. Nesta rede existem mais de 220 artigos online da área de Geografia;
b) Sistema GeoDados de Indexação, que possui 33 revistas indexadas na área de
Geografia, mas poucas on-line, e 13 Programas de Pós-Graduação com sua produção acadêmica indexada;
c) Sistema Integrado de Bibliotecas da USP - SIBi/USP, que possui uma biblioteca
virtual, Florestan Fernandes, com um acervo gigante de publicações na área de geografia;
d) Rede Scielo Brazil, que possui mais de 210 artigos com temas relacionados à área
de Geografia e vários artigos de áreas correlatas;
e) Portal de Periódicos da CAPES, que possui 15.475 periódicos13 indexados nas várias áreas de conhecimento, dos quais 618 revistas nacionais e internacionais são da área de
Geografia.
12
Consultar os endereços dessas redes na Internet em:
a)
Rede Pergamon - ICAP, In: http://www.pergamum.pucpr.br/icap/titulo.php;
b)
Sistema GeoDados de Indexação, In: http://www.geodados.uem.br/pesquisa.php3;
c)
Sistema Integrado de Bibliotecas da USP - SIBi/USP, In: http://www.geodados.uem.br/pesquisa.php3;
d)
Rede Scielo Brazil, In: http://www.scielo.br/;
e)
Portal de Periódicos da Capes, In: http://www.periodicos.capes.gov.br/portugues/index.jsp
13
Consultar esta informação, na Internet, em: http://www.capes.gov.br/servicos/sala-de-imprensa/36-noticias/
2984-portal-ultrapassa-marca-dos-15-mil-titulos.
28
Terra Livre - n. 34 (1): 269-280, 2010
A maioria dessas revistas surgiu na versão impressa, em formato papel, depois migrou para a versão online e, atualmente, a maioria dessas revistas online passou a ser
revista eletrônica com editoração eletrônica e indexação compartilhada.
Livros Eletrônicos e Difusão do Conhecimento
Vários foram os fatores que ajudaram o processo de difusão do conhecimento e da
cultura, em escala planetária:
a) O processo de automação da digitalização do acervo de importantes bibliotecas
nacionais e internacionais, como a Biblioteca Brasiliana Digital e o surgimento da Biblioteca Digital Mundial da ONU - World Digital Library, etc.;
b) A expansão de tecnologias P2P e Bluetooth, principalmente em celulares 3G;
c) O surgimento de leitores de livros eletrônicos (e-Books) capazes de interpretar
diferentes formatos de codificação (AZW, DOC, DOCX, PDF, HTML, TXT, RTF, JPEG, GIF,
PNG, BMP, PRC, FLASH, EPUB, MP3, MP4, etc.), como: Kindle da Amazon, Ipad da Apple,
Nook Barnes and Noble, Sony Reader Touch PRS 900, E-Reader ASUS DR-950, etc.;
d) A padronização dos sistemas de codificação e editoração eletrônica no formato
EPUB.
Quase todos os leitores de livros digitais utilizam o Kernel do Linux (2.6.10) nos seus
sistemas operacionais14. Atualmente existe uma extraordinária quantidade de softwares
livres dedicados à produção e ao consumo de livros eletrônicos, são exemplos destas
tecnologias: Calibre, Adobe Digital Editions, Reader Library da Sony, etc.
Com o crescimento do uso dos de leitores de livros eletrônicos, a venda de livros
eletrônicos aos poucos começa a superar a venda de livros em formato de papel.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA NOV
A ECONOMIA DO
OVA
CONHECIMENTO
Na economia do conhecimento, a educação tem papel de destaque quando se apropria do novo espaço do saber no ciberespaço, e quando consegue estimular, através de políticas públicas, novas formas informatização do processo mediação pedagógica.
No Brasil e em vários países de cultura anglo-saxônica na Europa e nos Estados
Unidos é muito comum o uso de redes sociais colaborativas e de Blogs para construção de
ambientes de interação, mobilização e cooperação. As redes sociais colaborativas em plataforma online que permitem a criação de ambientes virtuais de aprendizagem possibilitam
a professores de vários países a utilização de tecnologias de groupware mescladas com
mídias online como: Youtube, Slideshare, Slideboom.
Existe uma grande diversidade de plataformas de gestão de sistemas de conteúdos
de códigos abertos (PHP-NUKE, DRUPAL, JOOMLA, SEER/OJS, MOODLE, DJANGO),
de tecnologias de groupware e a maioria está disponível no mais importante provedor de
desenvolvedores de softwares de código aberto e colaborativo do mundo, a SourceForge.net,
que tem por objetivo controlar e manter o desenvolvimento de softwares de código aberto,
atuando como o maior repositório de códigos fontes, com mais de 230.000 projetos de
softwares e 2 milhões de usuários, em 2008.
No período atual de hegemonia e consolidação do trabalho imaterial, torna-se crucial
a alteração do paradigma educacional, a migração digital dos modelos de educação e interação
está se tornando um imperativo.
Segundo Léa Fagundes, as Instituições de Educação que têm como meta a inclusão
digital na nova economia do conhecimento, devem promover, nesta direção, as competências de seus educadores, dos alunos, da própria escola e de suas comunidades.
É preciso incentivar os processos de apropriação e de familiarização com geotecnologias
e novas tecnologias de informação, bem como promover o debate sobre a importância des14
Consultar esta informação, na Internet, em: http://en.wikipedia.org/wiki/Comparison_of_e-book_readers
29
PIRES, H. F.
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
sas NTICs nas escolas e nas IES. É importante também cotidianizar o uso de novas
tecnologias e fortalecer os instrumentos de comunicação em rede sociais colaborativas,
para que as famílias possam melhor interagir com os seus membros.
As redes sociais colaborativas constituem uma forma inovadora e poderosa de fortalecimento da identidade dos grupos de estudo e pesquisa, portanto devem se tornar parte
da precondição para a formação de educadores e para o desenvolvimento de uma aprendizagem colaborativa, ou seja, estas devem ser incentivadas e consideradas como essencial
para a formação de uma cibercultura educacional (Pires, 2009a).
É preciso também incentivar a criatividade e estimular a autoria intelectual de novos materiais (TV, CD-Rom) e de conteúdos na WEB, através do YouTube.
Há um enorme desafio de consolidar e promover as novas alternativas de mediação
pedagógicas e educacionais, utilizando as novas tecnologias de informação e de comunicação no cotidiano da escola e do trabalho.
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REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
Sítios-Webs pesquisados
http://www.freegis.org/database/?cat=0 (Free Geographic Information Systems)
http://www.geoprocessamento.net/
http://geoparalinux.wordpress.com/ (Linux/Ubuntu)
http://www.gvsig.org/web/ (Linux/Java)
http://www.qgis.org/ (Linux)
http://www.dpi.inpe.br/spring/ (Open Source)
http://www.i9geo.com.br/ (Adriano Hantequeste Gomes)
http://www.opengeospatial.org/ (International Industry Consortium, com 398 companhias, governos, agências e universidades)
http://www.opengis.es/ (Universidad Sevilla)
http://www.osgeo.org/ (The Open Source Geospatial Foundation)
http://cargocollective.com/
Blogs Pessoais consultados
Edmar Moretti - http://edmarmoretti.blogspot.com
Luis Sadeck - http://geotecnologias.wordpress.com/
Luis Lopes - http://geoluislopes.blogspot.com/
http://labgeo.blogspot.com/ (panorâmico)
http://tecgeoweb.blogspot.com/
ANEXOS
32
Terra Livre - n. 34 (1): 269-280, 2010
33
PIRES, H. F.
34
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
Terra Livre - n. 34 (1):17-36, 2010
35
PIRES, H. F.
36
REDES SOCIAIS COLABORATIVAS E GEOGRAFIA EM REDE...
CRISE IMANENTE,
ABSTRAÇÃO
ESP
ACIAL. FETICHE
SPACIAL
AL E
DO CAPIT
APITAL
SOCIABILIDADE
CRÍTICA.
Resumo: A crítica ao capital exige um pensamento sobre a crise,
porque nele se expressa a negatividade. Para tal as contradições
do capital são categorias identificadas pela contradição simultânea
e intemporal, de modo a se porem, tais contradições, como a
negatividade do tempo, isto é, espaço. A extensão da crise, contudo,
fetichiza as contradições e, na perda da substancialidade do capital,
forma uma consciência prática que é a reposição da falta de
substância, também enquanto prática, tornando esta,
contraditoriamente, teórica. Põe-se, assim, o desafio de compreender
onde está o alvo da crítica. Elementos sobre a crise de 2008 busca
fundamentar os sentidos de uma teoria prática que carece construirse como prática-teórica.
Palavras chave
chave: Crise, crítica, espaço, teoria prática e prática
teórica.
IMMANENT CRISES,
SPATIAL
ABSTRACTION.
FETISH OF CAPIT
AL
APITAL
AND CRITICAL
SOCIABILITY
Abstract: The critic to the capital demands thinking about the crises
because the negativity is expressed in this thinking. For that the
contradictions of the capital are categories identified through the
simultaneous and no-time contradictions. These put themselves
as negativity of the time, it means, the space. The extension of the
crises fetishizes these contradictions and, in the loss of
substantiality of the capital, forms a practical conscience becoming
(this conscience) theoretical, however. This put a challenge: to know
where the target of the critic is. Some elements of the crises in
2008 tries to fundament the meanings of a practical-theory that
needs to built itself as theoretical-practice.
ANSELMO ALFREDO
Key words: Crises, critic, space, practical-theory and theoreticalpractice
DG-FFLCH-USP
USP
Terra Livre
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 37-62
Jan-Jun/2010
37
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
INTRODUÇÃO
Crise e crítica são formas distintas de expressar um mesmo processo, quando se
refere à modernização. Para Marx, a relação entre termos contraditórios e identitários
desta sociabilidade, efetividade de uma razão irracional detém a necessidade de se mostrar
oposta a sua forma de ser. Resultado disto está o delinear de uma relação entre sujeito e
objeto em que a subjetividade é a consciência objetiva e objetivada de uma i-razão que se
mostra, nesta forma de consciência, como estrita racionalidade. Tal coisificação, fetichismo,
é a forma de consciência necessária que possibilita a efetividade da contradição porque
aparece como não-contradição. A crítica à economia política levada a cabo por Marx, entretanto, é uma distinção entre o ser e o aparecer ser do capital, sendo um e outro determinações contraditórias de sua efetividade. Se se acentua a contradição identitária do capital
entre acumulação e crise, tal contradição deve aparecer como mera reprodução ampliada,
não revelando a sua identidade negativa posta pela crise que, entretanto, se põe como
imanência e não como vazia contingência do conceito. Nesta medida, a crítica ao moderno
coincide com a exposição da crise do capital, esta não somente como acaso histórico de sua
efetividade, mas como êmbolo lógico de seu ser e aparecer.
CRISE
E
CRÍTICA. ASPECTOS
DA
ABSTRA
TA S IMUL
TANEIDADE E SP
ACIAL
BSTRAT
IMULT
SPACIAL
Isso eu chamo o fetichismo que adere aos produtos de trabalho, tão logo são produzidos como
mercadorias, e que, por isso, é inseparável da produção de mercadorias.
Marx
A leitura sobre a modernização remete, necessariamente, ao pensamento marxiano,
pois que analisou não só o capital em sua totalidade contraditória, mas incorporou nesta a
relação entre as dimensões concretas e o próprio pensamento, efetivada, tal relação, sob
uma lógica profundamente específica, aquela da contradição entre concreto e abstrato, determinações da dialética do capital e de O Capital. Não que se depreenda daqui uma analogia entre abstração e pensamento. Nem mesmo Hegel, em sua Ciência da Lógica, considerava o pensamento como o abstrato, pois que a forma de pensar a contradição era o que se
lhe apresentava como a concretude do próprio Real. Antes, a contradição entre as determinações abstratas e concretas desta sociabilidade, para Marx, se apresenta fetichizada como
forma específica de pensamento, o que remete a uma nova leitura da relação entre sujeito
e objeto, onde o concreto, ainda que posto, é pressuposto para efetivar-se como fetiche de
uma sociabilidade determinada por abstrações, por metafísicas. É desta maneira que se
torna necessário, na exposição de O Capital, delinear os sentidos do fundamento ou da
substância social, a força de trabalho, como trabalho abstrato. Ou seja, a expressão abstrato que se coloca aparentemente adjetivando trabalho, tão somente observa a condição inevitável que trabalho adquire como substância do processo social e moderno. Não se trata de
mera contraposição ao trabalho concreto, mas de expressar que na sua inevitabilidade
abstrata, o concreto fetichiza a sua própria substancialidade de modo que a necessidade de
expressá-lo desta maneira é mais determinada pelo fetichismo de concretude, que incorpora o fetiche da mercadoria e do capital, do que pressupor uma distinção entre trabalho
abstrato e trabalho concreto como formas de atividade entre trabalhador e meios de produção. Desta maneira, em acordo com Ruy Fausto (1997), a lógica de O Capital não põe uma
contraposição entre trabalho concreto e trabalho abstrato, mas entre trabalho abstrato e
matéria, porque é na materialidade física da mercadoria, enquanto forma fenomênica de
ser da abstração trabalho, que se tem uma forma de consciência sobre um processo que não
se apresenta enquanto processo, mas tão somente como valor-de-uso. É através deste que a
abstração trabalho se põe como forma fenomênica e, entretanto, é nesta e como esta
concreticidade que o trabalho se apresenta, aparece [erscheint]. Diante de tal analogia,
tem-se, assim, uma consciência invertida a respeito do modo de ser desta produção social –
38
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
sendo a consciência fetichista sobre ela mesma determinação de seu modo e de sua reprodução – em que, como bem expressa Marx, no primeiro parágrafo de sua obra madura, o
capital aparece como uma monstruosa [ungeheure] produção de mercadorias. Esta, em sua
condição coisificada1 de valor-de-uso é o que determina a consciência objetivada da subjetividade, sob o capital. Em última instância, trata-se de, nesta consciência concreta, não se
permitir observar a crise de valorização do valor, porque o aumento de tal monstruosa
coleção aparece como mero crescimento da riqueza e da capacidade de o capital acumular.
A contradição basilar entre acumulação e crise, nesta consciência coisificada, tão somente
se apresenta como crescimento material do capital.
A sociedade posta pela e para a valorização do valor traz em si a necessidade de sua
expressão sem a qual não põe a possibilidade de se efetivar enquanto sociabilidade, já que
demanda uma forma de consciência subjetiva para tal. Isto porque a sociedade do valor
socializa a reposição de seus pressupostos no processo de troca, onde a mercadoria, enquanto forma, carece do fetichismo para sua socialização. Nesta medida, a valorização do
valor, posta enquanto processo produtivo é uma forma de linguagem (GIANNOTTI, 2000)
que inclui não somente o modo pelo qual as categorias se relacionam na realização da
valorização do valor, mas que para tal é necessária uma forma de consciência – fetichista –
que medeie a própria contradição como não contraditória. Não sem motivos, Marx salienta
o quanto há a necessidade de o guardião das mercadorias passar a língua na mesma para
fixar o seu preço, ao mesmo tempo em que expõe um diálogo hipotético entre as mercadorias, cujo resultado é a formação de uma linguagem criptografada, em hieróglifos.
O valor de ferro, linho, trigo etc., embora invisível, existe nessas coisas mesmas; ele é imaginado por sua igualdade com ouro, uma relação com o ouro que, por assim dizer só assombra suas
cabeças. O guardião das mercadorias tem, por isso, de meter sua língua na cabeça delas ou
pendurar nelas pedaços de papel para comunicar seus preços ao mundo exterior. Como a expressão dos valores das mercadorias em ouro é ideal, aplica-se nessa operação também somente ouro ideal ou imaginário. (MARX, 1988, 87)
Ou seja, o passar a língua pode ser compreendido como o passar o valor a uma forma
de linguagem cuja expressão integra sua forma de ser. Em outros termos, não se é possível
ver o valor a não ser na forma pela qual o mesmo se expressa e, através desta expressão se
faz como sociabilidade ao mesmo tempo em que se a repõe. A forma valor, portanto, apresenta-se como a expressão fenomênica da substância valor, e por isso mesmo não coincide
com ela, mas coisifica-a identificando-se objeto com a forma objetiva e coisificada da consciência subjetiva e moderna. A mercadoria enquanto objeto é uma forma de pensamento que,
assim não percebido, torna o pensamento coisificado.
Já que posta sob a contradição entre forma equivalente versus forma relativa, tal
contradição se expressa pela equivalente de modo que as determinações abstratas do trabalho, do valor e do tempo de trabalho, a sua medida, se apresentam qualitativamente
através do valor de uso, resultado material do processo produtivo. Mas é necessário considerar ainda que Marx está constituindo o modo pelo qual valor se transforma em preço,
este é o processo abstrato e real que se define como resultante desta passagem. Ainda que
se apresente a possibilidade de o preço se definir como condição de uma relação de valor, o
problema que nos interessa, entretanto, é observar a relação desta forma preço - a régua
que busca expressar a medida de sua substância, o valor - e a originalidade desta medição.
Tal originalidade está em que o fetiche da mercadoria – mediação da contradição entre
valor de uso e valor de troca – esconde a crise imanente desta medida como condição objetiva da própria identidade do capital.
A monstruosidade do capital enquanto forma de sociabilidade se põe como sua identidade, não como equívoco de sua operacionalidade lógica e social. Não obstante, trata-se
1 Coisificação, ou consciência coisificada, não se pode confundir aqui com consciência sobre os objetos. Tal noção
advém da lógica hegeliana, em que a contradição ou dupla determinação é observada unicamente através de um
de seus pólos, tomando por coisa aquilo que é relação identitária pelo negativo. Se isto, no capital, passa pela
consciência da mercadoria como objeto, e não como contradição entre valor-de-uso e valor-de-troca, o próprio
objeto, enquanto materialidade, é uma forma de consciência, mas não objeto mesmo que, então, é mercadoria.
Isto é, faz parte do modo de ser da mercadoria a consciência que dela se toma como objeto e não como identidade
pela contradição, que a desobjetificaria.
39
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
de uma das inversões da dialética marxiana em relação à dialética hegeliana, referente,
aliás, à doutrina do ser. Em primeira instância diga-se que a passagem formal do capital
pressupõe uma forma, o valor, para outra forma, a própria forma-valor que é, a reiteração
de uma forma sobre ela mesma, expressa fenomenicamente na reiteração do dinheiro como
condição e resultado do processo social, isto é, D-M-D’. Diante desta identidade lógica, o
capital é a égide da forma em detrimento do conteúdo, onde a alteridade formal, própria da
lógica hegeliana, não efetivada, não permite uma relação entre forma e conteúdo, a não ser
de modo negativo, ou seja, a forma é o conteúdo dela mesma, sendo o valor e sua valorização condição e resultado do processo social. Dada esta i-racionalidade (inversão da razão
hegeliana) não se define, enquanto capital, uma determinação qualitativa do ser do capital
em que a sua variação quantitativa, que lhe dá a qualidade de ser capital, seja definida por
uma medida efetivando aquilo que, na Ciência da Lógica, evita a determinação qualitativa,
ou seja, a extensão da quantidade independente de uma medida que, para Hegel, e isto
coincide com Marx, é a monstruosidade. O fato é que para Marx isto se põe como sociabilidade efetivada.
Se em Hegel a passagem de uma dada quantidade – acima ou abaixo de determinada
medida – é uma mudança de qualidade, porque muda a medida que rege tal variação e,
entretanto, permanece-se a variabilidade quantitativaXqualitativa no interior de uma nova
medida, em Marx, a medida do capital, posta pela reiteração da forma para a forma, sem
passagem de conteúdo, é a ascensão numérica e quantitativa que, para ser capital, isto é,
D-M-D’, a sua qualidade de ser é a negação de toda e qualquer medida, é a posição negativa, no entanto, da própria qualidade. Ser determinado pelo quantitativo, entretanto, é a
qualidade de ser do capital que, assim posto, inevitavelmente, prescinde da medida para
efetivar a sua identidade contraditória enquanto medida que qualifique uma dada formação social. A média social, abstração generalizada e determinante da sociabilidade capitalista (POSTONE, 2003), é tão somente a expressão fetichista de uma régua cuja expressão
é o fetichismo de sua medida, pois que se faz descartando tempos sociais que a efetivaram
enquanto média, mas que, na consumação da mesma, ficam além dela.
É na força de trabalho posta como tempo social médio de trabalho que se coloca a
contradição entre trabalho individual e trabalho social. A socialização dos trabalhos individuais, posto que se tem uma sociedade da troca, se realiza no comércio de mercadorias, o
que implica numa troca entre todos os tempos de trabalhos individuais, ainda que expressos pela forma-valor, ou forma-preço. Os tempos individuais dos distintos capitais postos
na mercadoria, ao se definirem equalizados na troca põem o tempo de trabalho, em sua
média, como abstração de segundo grau. Não se abstrai somente a condição qualitativa e
concreta dos trabalhos individuais como tempo de trabalho, mas o próprio tempo individual, abstração, se abstrai na média determinante da trocabilidade pressuposta (porém, enquanto tempo individual) ainda não posta. A posição desta trocabilidade, entretanto, é crítica, já que se tem a formação de uma medida a posteriori dos trabalhos individuais que,
assim, podem não realizar o pressuposto de sua trocabilidade. A média, enquanto esta
abstração determinante da sociabilidade capitalista, é uma forma lógica que retroage determinando a validade daqueles trabalhos que tornaram possível a sua própria forma de
média que, neste caso, coincide com mediação social. A formação desta medida, que nada
mais é do que a passagem do valor à condição de preço é a efetividade da desmedida enquanto aquilo que dá a qualidade a-qualitativa do ser capital. A-qualitativa não somente
porque a qualidade em sua condição de valor-de-uso subordina-se à determinação do valor
de troca na relação entre forma relativa e forma equivalente, mas porque é uma forma
negativa de ser da qualidade, pois que esta negativa qualidade é a configuração de um ser,
cuja qualidade é a quantidade não determinada pela medida. Tem-se aqui uma nova forma
de expressão do fetichismo da mercadoria. Aquilo que se põe como a régua mensurante do
processo social, o preço, que deve expressar o valor, é redução niveladora das diferenças
que, em sua expressão média, não revela os tempos sociais realmente existentes em cada
mercadoria, mas faz aparecer este preço como se fosse o valor. O fetiche, na medida em que
sua determinação é não revelar o que nele aparece, adquire a potência de substituir a
apresentação essencial pela própria essência, destituindo a existência enquanto contradi-
40
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
ção entre essência e aparência de modo que ele mesmo se efetiva enquanto a essencialidade
reprodutora do modo de ser do moderno. Em última instância, a concorrência entre os
capitais se apresenta, quando muito, como qualidade distinta de consumo das diferentes
mercadorias no mercado e a acumulação, enquanto tal, não se apresenta, pois que o preço,
enquanto essa expressão fetichista do valor, esconde a transferência de mais valia entre os
distintos capitais possibilitado por esta forma média que atinge o trabalho como tempo de
trabalho.
Não obstante, à medida que tal média mostra tão somente a trocabilidade, sem sua
contradição (a não trocabilidade como resultado e pressuposto da troca) incorporada na
condição material (valor de uso) da mercadoria, o preço aparece como que da natureza da
mercadoria e a contradição interna entre valor de uso e valor de troca ao se externalizar na
forma preço (entre forma equivalente e forma relativa) fetichiza o seu fundamento, isto é,
os trabalhos e seus respectivos tempos, e se coloca como contradição e fetiche do capital e
não estritamente da mercadoria, pois que a não trocabilidade como forma antitética e
identitária da trocabilidade, leva a uma crise da valorização do valor.
A formação do tempo médio, abstração e simultaneidade espacial de segundo grau, é
determinada pela crise de efetividade dos tempos individuais que se expressa pela falência
dos capitais que não atingiram este tempo médio, ou ainda, pela incorporação destes capitais aos capitais mais lucrativos. A medida, formada a posteriori dos trabalhos individuais
que serão por ela medidos, põe cada produção individual determinada pela crise de sua
efetividade, o que, aliás, define a necessidade de maior economia de tempo de trabalho
para cada trabalho individual, já que o processo, como diz Marx (1988), passa às costas dos
sujeitos sociais. Cada tempo individual de trabalho, entretanto, é uma desmedida em relação à medida que se efetivará. Não obstante, tal medida é tão somente a forma de ser social
que remete à crítica reprodução determinada pela possibilidade de uma ampliação da capacidade social de produzir. Tal medida posta a posteriori não resolve a contradição entre
qualidade e quantidade, ao contrário, fundamentada pela concorrência entre os capitais,
leva à possibilidade de um novo padrão de desmedida, dado pelo necessário desenvolvimento das forças produtivas que daí se origina. A posição da média, no entanto, é o alicerçar
contraditório de um novo padrão de crise da própria medida, visto que os capitais que se
realizaram enquanto tais se o fazem retirando os tempos de trabalho individuais menos
produtivos que contribuíram na formação da última média. Assim, a formação da nova
medida, uma vez mais, é desconhecida e a crise da efetividade dos capitais que desta formação decorrerá é o que move uma nova redução do tempo social médio de produção posto
como necessidade da reprodução ampliada do capital. Resulta que, estar na medida, exige
produzir mais em menor tempo, sua formação a posteriori é determinação a priori.
O desenvolvimento das forças produtivas, entretanto, é determinado por esta média
que, formada a posteriori, retroage para definir a validade dos trabalhos que a formaram.
Tem-se, assim, a imanência da crise como categoria condicionante da reprodução ampliada
do capital. É só nesta condição abstrata e negativa do tempo, enquanto negação da sucessão, que o espaço, tal qual esta negação, se põe duplamente. Em primeiro lugar expressa-se
a forma lógica através da qual a contradição torna-se forma de conhecimento, isto é, a
forma pela qual a contradição pode ser conhecida. Neste sentido, é a intemporalidade da
identidade posta pelos contrários que faz do espaço a negatividade do tempo. Em segundo
lugar, resultante disto, o espaço determina-se como método e não estritamente como objeto
de análise. O espaço, enfim, é a forma da contradição obscurecida pela dimensão temporal
do próprio pensamento.
A contradição em Marx, numa importante inversão de Hegel, não é o plano do estritamente racional, mas de uma razão irracional, na medida em que nega, como primeira
negação, a Lógica de Hegel, cuja resultante é uma i-racionalidade social, já que se tem na
lógica de O Capital uma dimensão abstrata posta como sociabilidade. Diante de tal identidade, o fetichismo de razão, através de um pensamento temporal, posto como consciência
da troca simples e na forma valor é a mediação necessária da contradição entre razão e
irrazão.
Não seria possível para Marx, entretanto, tecer sua significativa crítica à economia
41
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
política se não se observasse o ser do capital posto na identidade pela contradição entre o
modo de ser e o de sua apresentação. É nesta distinção que se torna possível observar, aliás,
a imanência da crise que destitui, como forma lógica e operacional de o capital, os seus
próprios fundamentos. A crise dos tempos de trabalhos individuais sendo a efetividade
desta destituição. Isto leva Marx a expressar em O Capital, a efetividade de uma lógica
negativa do capital. É de se perguntar, aliás, como construir os pressupostos de uma crítica
ao moderno e à modernização se não reconhecer a crise do capital para com ele mesmo
como forma de sua negatividade? Ou ainda, como tecer tal crítica se o pressuposto da análise é de que o capital acumula independente de sua determinação crítica? Isto levaria
necessariamente ao argumento da condição indelével do próprio capital enquanto tal. Não
sem motivos é oportuno considerar que o velho Marx é um teórico da crise, mas como a
acumulação é o seu par dialético, é necessário expressar como que a crise aparece, no tempo, como acumulação de capital, e só em determinados momentos da história do capital é
que seria possível efetivar a própria crise. É, entretanto, suprimindo o tempo, pondo crise
e acumulação como simultaneidades contraditórias e espaciais, que se torna possível considerar a crítica ao capital. Simultaneidade, aliás, que, negada no plano analítico, se colocou
como economia política na periferia do capital, expressa em sua versão desenvolvimentista
(ALFREDO, 2008).
Neste processo lógico é de se considerar, nos termos de Adorno (1975), que a subjetividade que se forma como forma de consciência é resultado de um processo social e, entretanto, a sua forma de ser de liberdade – posta como livre arbítrio, a partir da Critica da
Razão Prática, de Kant – nada mais é do que a reprodução daquilo que nega a sua própria
condição de indivíduo. Ser indivíduo livre é deter esta contradição enquanto sua identidade, portanto, negativa. A razão prática não se configura a não ser como forma de repor esta
identidade que é a pujança do social subjetivada como indivíduo e livre arbítrio que, tão
somente, se põe para a reprodução de sua negação, o social. Se este se põe como a condição
objetiva que passa às costas dos sujeitos sociais, como pressuposto da efetividade de uma
dada sociabilidade chamada capital, a liberdade e o indivíduo só podem se pôr como negação sendo isto tão somente a sua possível efetividade. A ilusão de sujeito, aliás, advém deste
fetichismo da subjetividade moderna que não se compreende como subjetivação necessária
da objetividade posta como capital.
A crítica, entretanto, inevitavelmente remete a uma crítica da razão prática porque
esta detém, ela mesma, esta dimensão negadora daquilo que se pretende afirmar, se pondo
como o contrário daquilo a que se propõe efetivar. Isto porque, como dito, toda prática é o
âmbito de uma ação que busca preservar o social. Assim posta, resulta dela tão somente a
forma negadora do indivíduo e de sua própria liberdade posto que tal ação leva necessariamente à reposição do que está posto – o social - e ser indivíduo livre é tão somente a sua
ilusão de sujeito, sendo esta ilusão a efetividade da liberdade individual e do próprio indivíduo enquanto consciência fetichizada. A teoria prática, entretanto, propositiva, é
identificada por uma contradição que nega aquilo a que se propõe afirmar. Neste particular
aspecto, é necessário inverter os termos daquilo que se propõe, num viés pro-positivo, a
relação entre teoria e prática. Não se põe entrementes a necessidade de uma teoria prática,
mas de uma prática teórica, que permita reconhecer não a potência da ação de um sujeito
ilusoriamente volitivo, mas os limites e as contradições desta ação que se quer o contrário
do que é. Cabe, portanto, se questionar: Onde está o alvo da crítica?
A crise imanente do capital, como delineamos um dos seus principais aspectos mais
acima, é uma negatividade do capital para com ele mesmo. O problema de uma consciência
crítica leva necessariamente ao reconhecimento de que a lógica categorial do capital define
uma relação necessária cuja efetividade é a negação de sua condição categorial, sendo a
crise do trabalho a forma mais expressiva desta razão irracional. A crítica objetiva do capital carece subjetivar-se enquanto forma de consciência prática em que o capital não detém
esta negatividade para com ele mesmo. A busca de uma forma posterior de sociabilidade
não se configura como crítica, visto que isto evita o conhecimento da forma pela qual a
contradição e a negatividade do capital para com ele mesmo se expressa, inclusive não
revelando a sua crise imanente. A busca do dever ser é a expressão cuja verdade é a carên-
42
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
cia de verdade, como bem analisou Hegel em sua Fenomenologia do Espírito. Deste modo,
é na negatividade categorial (KURZ, 2007) e em seu reconhecimento que se fundam os
termos de uma crítica à economia política e ao capital, visto que nesta a crise coincide com
a expressão crítica do capital. É teoricamente que se faz, entretanto, uma crítica prática, ao
mesmo tempo em que se reconhecem os limites de nossa capacidade crítica como, contraditoriamente, profundidade da crítica.
Não se põe isto, meramente, como um jogo de palavras. É de se notar que a crise
categorial do capital é o realizar de uma contradição em que as categorias – ainda que
fetichistas – capazes de explicitar o movimento do real, posto como capital, se destituem
sem que necessariamente se apresentem outras categorias sociais que se façam, ao mesmo
tempo, como formas de pensamento. Afinal, é em sua condição negativa que as categorias
do capital ganham em efetividade na reposição de uma sociedade determinadas, no entanto, pelo capital. O não-trabalho, sejamos claro, não é o fim do trabalho, mas a condição
antitética e identitária do próprio trabalho, isto é, o trabalho é trabalho e não-trabalho,
sendo esta contradição a identidade da categoria substancial da modernização. Numa perspectiva temporal, a realização do trabalho é sua destituição. Ao apresentar-se pelo negativo (através da precária noção de desemprego), como forma de ser de sua posição social,
recobra, sob o fetichismo categorial do capital, não somente um pensamento propositivo
dado o praticismo como ilusão de sujeito; mas tem-se a necessidade de reconhecer que a
própria crítica está posta no limite da compreensão de negação a que atingem, neste momento histórico, as categorias do capital posta pela relação contraditória que lhes dá identidade. Ou seja, a identidade categorial do capital é sua negação categorial. Isto leva, necessariamente, à destituição das formas propositivas como ilusão de superação. Em outras
palavras, a crise desvela, não como história do capital, mas como sua imanente lógica, que
a propositividade reconstituinte das categorias negadas do capital pelo próprio capital é
uma forma de contradição nos próprios termos, porque busca repor o que, caso reposto, se
remeteria a sua imanente lógica negadora, visto que esta é a identidade das categorias que
se busca repor. A crítica, entretanto, negativa, não (pro)positiva, expressa uma necessidade
teórica porque só a partir dela se põe o limite tanto da crítica como, especialmente, o da
prática. É na crise do capital que se põe o fundamento da crítica.
SOBRE A QUEDA TENDENCIAL DA TAXA DE LUCRO
A produção capitalista engendra uma infinidade de contradições, não sem motivos as
suas categorias só se o fazem na medida em que a identidade das mesmas se realiza por
relações antagônicas. Ser uma categoria do capital deve necessariamente identificar-se por
uma contradição definida por uma relação de necessidade. Nesta medida, valor de uso e
valor de troca são a contradição identitária da mercadoria; valor é a relação necessária à
desvalorização, lucro identifica-se pela contradição entre taxa de mais valia e massa de
mais valia, trabalho é tão somente a forma antitética e identitária de não trabalho, postos
pela relação contraditória entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo, dentre outras.
A lógica fundante destas categorias que faz destas uma identidade na diferença é a mais
que conhecida contradição capital trabalho. Tão conhecida quanto desconsiderada para se
refletir a contradição identitária do próprio capital identificado positivistamente como reprodução ampliada. O repetir e bafejar esta contradição aqui e acolá, deu-nos a ilusão de
que sua pertinência teria sido esgotada, porque confundida com a forma pouco pertinente
que se a pronunciava, tornando-a inócua, vazia de sentido. A expressão, como é próprio do
fetichismo que paira sobre nós como forma de consciência, se confundiu com o expressado e
a inocuidade da teoria bafejadora iludiu tal contradição como destituída de pertinência.
Marx, em passagens tanto de O Capital, quanto dos Grundrisse, expressa as determinações críticas de uma sociedade que se identifica pela contradição entre trabalho individual e trabalho social. O capitalismo da Grande Indústria, como o denominou, advindo
daquilo que se faz como o capital em seu conceito, isto é, o desenvolvimento das forças
produtivas, é um momento em que há uma intensificação da contradição capital trabalho.
Advindo desta ele intensifica-a, pondo-a como pressuposto e resultado do capital sendo isto
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ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
o posicionar do capital em seu conceito. O resultado deste processo, do ponto de vista do
capital variável como momento do capital, é o trabalhador se pôr como mero vigia do processo produtivo, em que as forças produtivas já teriam atingindo tal desenvolvimento que
a força de trabalho se o fazia como desnecessidade de trabalho.
O desenvolvimento das forças produtivas, observe-se, ganha estatuto categorial, na
medida em que a razão movente de sua efetividade nada mais é do que desenvolver as
forças produtivas. Na medida em que isto é substituição do trabalho vivo em detrimento do
trabalho morto, ou seja, aumento da composição orgânica do capital, produtividade e
improdutividade do capital se fazem como formas contraditórias e simultâneas de sua própria identidade: tão mais produtivo é o capital, quanto menos capaz é de produzir valor. Se
o seu sentido, isto é, estar em seu conceito, é desenvolver as forças produtivas, a
improdutividade é a forma de ser de sua condição produtiva.
Se isto se remete ao expressar da contradição entre taxa de mais valia e massa de
mais valia, o capitalismo da Grande Indústria leva-a a sua forma mais profunda e contundente. A redução da massa de mais valia não mais é compensada pela extensão de sua taxa,
resultado necessário daquilo que se põe como desenvolvimento das forças produtivas, o que
faz, aliás, que capital seja capital. Afinal, a expansão da taxa de mais valia, é a forma pela
qual o capital se mantém no processo de valorização de valor mediado pela concorrência
entre os capitais.
Neste aspecto, há dois processos daqui resultantes. Um primeiro é o de que a redução da massa de mais valia (em seu contradizer identitário está a expansão da taxa de mais
valia) leva à necessidade de que esta relação contraditória mova o capital a se expandir
geométrica e inversamente proporcional à redução da quantidade de trabalho vivo que tal
contradição põe. A forma ilusoriamente possível de se superar esta contradição sem de fato
deixar de ser uma sociabilidade capitalista – tautologia real do capital - é expandir os
investimentos em capitais de modo que se promova a formação da classe trabalhadora na
mesma medida em que o desenvolvimento das forças produtivas a dispensa. Um segundo é
que, contudo, dado o grau de desenvolvimento das forças produtivas, cada expansão, numa
duplicação destas forças, isto é, numa redução pela metade da classe trabalhadora necessária no processo imediato de produção, significa a necessidade de quatro vezes mais investimentos para repor a mesma massa de mais valia anteriormente relacionada ao capital.
Contudo, se isto já se faz sob uma composição orgânica maior de capital, tanto mais o
próprio capital produz, como identidade contraditória desta relação, a superpopulação relativa, a ponto que a sobreposição da dispensabilidade da força viva de trabalho sobre sua
incorporação torna impertinente a noção de exército industrial de reserva. Pensando o
mesmo pelo caráter da valorização do valor: tanto mais produtivo o capital quanto menos
possível é o mesmo de produzir um valor que possa se colocar como sua auto-valorização.
Tem-se aqui, no entanto, determinações da simultaneidade espacial do capital (negação da
sucessão) que, postas sob uma consciência coisificada do antes e do depois, fetichiza a contradição como vazia razão e, entretanto, racionalismo.
O desenvolvimento do capitalismo em sua forma de Grande Indústria é a capacidade
que atinge o capital de investir em forças produtivas que, contraditoriamente, advém de
um excedente de acumulação que está, portanto, acima daquilo que se pode destinar para
repor a relação capital trabalho nos termos do processo de produção imediata do capital,
isto é, como produção de mais valia. Quanto maior a produtividade do capital, tanto mais
tempo disponível (disposable time) tem o próprio capital na medida em que se pode esperar
um tempo maior para que se invista no processo produtivo mesmo. Isto porque, em dada
produtividade, há uma contínua redução do tempo necessário de trabalho, de modo que
cada vez mais o capital necessita de menos tempo de trabalho para produzir o tempo necessário, tal contradição pode assim ser observada: quanto mais produtivo o capital menos
tempo necessário a sua disposição. Em contrapartida e simultaneamente há cada vez mais
excedente de tempo de mais trabalho. Dado que o capital é reprodução ampliada de si
mesmo, e que esta depende da redução dos custos de produção, posto pela forma crítica de
sua medida discutida mais acima, este tempo disponível na forma de capital ocioso (porque
o tempo necessário tende a desaparecer e não mais ser apropriado na relação entre traba-
44
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
lho necessário e mais trabalho) é necessariamente investido na produção de meios de produção, isto é, em trabalho futuro.
Quanto maior a disponibilidade de investimentos do capital em desenvolvimento das
forças produtivas, em máquinas, em infra-estrutura, transportes, etc. tão mais ocioso e tão
mais determinado pelo tempo disponível está o capital. Tempo disponível é carência de
tempo de produção de mais valia, em relação à capacidade de investimentos do próprio
capital, daí a sua condição ociosa. Resulta que ao capital cabe incorporar este tempo de não
trabalho em sua forma positiva como trabalho e o desenvolvimento das forças produtivas
em sua forma infra-estrutural: transportes, rodovias, aquedutos, oleodutos, energia nuclear, ciência e tecnologia dentre outros, se faz como desenvolvimento social das forças produtivas, constituindo um trabalho social que nada mais é do que a crise de seu anteposto, o
trabalho individual, seja este personificado na subjetividade trabalhador ou nos capitais
propriamente individuais. Não se tem somente esta intensificação das forças produtivas
em capitais produtivos. Ao contrário, generaliza-se uma sociedade que em todas as suas
instâncias carece solucionar a insolucionável contradição entre trabalho individual e trabalho social e cujo resultado é o desenvolvimento social das forças produtivas, não mais
deste ou daquele capital. A crise do capital aparece, fetichizada, como acessibilidade da
sociedade às pretensas benesses da modernização. O fato é que, com os investimentos postos no desenvolvimento das forças produtivas a contradição entre capital fixo e circulante
(fluido) desencadeia a necessidade de a sociedade como um todo se pôr como excessivamente consumidora, pois, a redução relativa da massa de mais valia produzida carece passar o
valor do capital fixo num volume cada vez maior de produção de mercadorias, forma única,
mas impossível, de o capital valorizar o valor posto como máquinas e bens de produção
(capital fixo). Desta maneira, quanto maior a proporção de capital fixo na sociedade da
Grande Indústria, tanto maior a necessidade de matérias primas (capital fluido) para passar este valor do fixo nas mercadorias que lhe retornarão o valor investido. Diante desta
exacerbação quantitativa, a sociedade capitalista deixa de se determinar pela produção
para se produzir pelo consumo. Nos termos de Marx:
Quanto maior sejam, pois, a parte do capital composta de capital fixo – ou seja, quanto mais
atue o capital no modo de produção que lhe é adequado, com maior aplicação de força produtiva
produzida, e quanto mais duradouro seja o capital fixo, isto é, quanto mais prolongado seja
para o mesmo o tempo de reprodução, quanto mais corresponda seu valor de uso e sua definição-, com tanto maior freqüência a parte do capital que está determinada como circulante terá
que repetir o período de sua rotação e tanto mais prolongado será o tempo total requerido pelo
capital para recorrer a órbita de sua circulação total. (...) Mas no capital fixo a interrupção,
enquanto seu valor de uso se aniquila no ínterim necessariamente, e de maneira relativamente improdutiva, isto é, sem substituir-se como valor, é destruição de seu valor original mesmo.
Não é, portanto, senão com o desenvolvimento do capital fixo que a continuidade do processo
produtivo, correspondente ao conceito do capital, é posta como conditio sine qua [non] para sua
conservação; daí, assim mesmo, a continuidade e o crescimento contínuo do consumo. (1997,
247 [607])
O tempo disponível, entretanto, deve ser incorporado à reprodução crítica do capital
tanto na sua exacerbada forma de consumo como no desenvolvimento das ciências que
tornam o próprio pensamento uma força produtiva. Neste momento a sociedade é uma
força produtiva geral e toda forma de ser da reprodução social sob o capital é uma economia
de trabalho, aprofundando em seu contradizer a crise da valorização do valor. Quando todo
trabalho individual participa da reprodução como trabalho social, o capital realiza a sua
condição conceitual e valorização e desvalorização mostram a sua unidade contraditória. O
tempo disponível, como força produtiva e como consumo é, entretanto, a negatividade do
trabalho e não o oposto.
Se o pressuposto do capital em investir em forças produtivas é ampliar a massa de
mais valia, devido, contraditoriamente, ao aumento da taxa de mais valia, isto é, de sua
produtividade que dispensa trabalho, toda expansão das relações de produção do capital
são já uma negatividade do trabalho, o que torna a produção de mais valia mesmo uma
impossibilidade ao capital. Todo investimento, seja infra-estrutural, seja na base de investimentos financeiros se coloca como mera promessa de trabalho.
Um aspecto determinante desta realidade, tanto do ponto de vista de suas relações
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ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
quanto da forma pela qual as mesmas se formam enquanto pensamento, é a forma simultânea de fenômenos necessariamente contraditórios. Se a expansão do capital é fundamentada pela crise e, assim, crise e expansão são faces de uma só unidade, é de se pressupor que
a simultaneidade, como negação do tempo, é a forma espacial de ser do capital enquanto
forma da contradição. Deste ponto de vista, o espaço se põe mais como método, isto é, a
forma pela qual se torna possível pensar a contradição identitária do capital, do que propriamente um objeto.
A simultaneidade posta como produtividade e improdutividade do capital repõe, nos
termos de Ernest Mandel (1985) e Robert Kurz (1993) a extensão do trabalho improdutivo
sobre o produtivo. Isto implica não somente na extensão de serviços, em detrimento do
setor produtivo, devido à necessidade de o capital rotar-se a si mesmo, mas de um capital
monetário e creditício que não mais encontra a possibilidade de expandir a sua reprodução
nos termos da exploração produtiva do trabalho. Isto especialmente após a terceira revolução industrial posta pela microeletrônica (MANDEL, 1985; KURZ 1993) em que toda expansão do capital se põe como forma de expansão de sua crise, dada a restrição definitiva
de trabalho vivo no processo produtivo, tanto em termos absolutos como relativos. Desta
maneira, há um descolamento da base creditícia e monetária em relação à substância valor
produzida pela sociedade. Na redução desta, todas as formas de riqueza monetária se tornam excedentes e encontram na circulação financeira a forma fetichizada de sua remuneração. Toda produção de valor é reduzida em relação aos investimentos necessários para
esta mesma produção. A produção de mais valia daí resultante não mais paga estes mesmos investimentos tornando o lucro tanto mais reduzido (em sua queda tendencial) quanto
maior a mais valia relativa que este capital produz, ou seja, o aumento relativo de mais
valia é relativamente cada vez menor àquilo que se necessita para remunerar os investimentos postos para produzi-la. Resulta uma migração dos capitais do setor produtivo para
a circulação financeira.
CAPIT
AL FICTÍCIO, FETICHISMO DO DINHEIRO
APITAL
FICCIONALIZADA.
E
CONSCIÊNCIA
A queda tendencial da taxa de lucro, entretanto, desloca o dinheiro de sua base substancial, o valor, o que leva a que toda expressão monetária de valor se coloque como uma
ficção do valor, na medida em que se põe como crédito, isto é, promessa de trabalho, numa
sociedade cujo tempo de trabalho é o tempo zero de trabalho, isto é, a sua plena
improdutividade.
Não obstante, retomemos aqui a compreensão marxiana do dinheiro enquanto equivalente geral. Sua forma de equivalente se põe na relação entre a massa de valor realmente produzida e a quantidade de dinheiro necessária para expressar, representar um valor
que é o tempo de trabalho existente para a produção de mercadorias. Nesta medida o valor,
isto é, o tempo de trabalho social, a substância do capital, está nas mercadorias que o
dinheiro tão somente representa, expressa. A dessubstancialização do capital, entrementes,
é - desde que o tempo de trabalho, ainda que zero, seja a abstração determinante da busca
da valorização ainda que a mesma não ocorra – a posição de toda e qualquer soma de
dinheiro, em suas diferentes expressões, como um excesso de capital. De modo claro, Marx
(1988) explicita que o valor não está no dinheiro, mas nas mercadorias e que aquele tão
somente é a forma de expressão, enquanto preço, do valor que há nelas. O problema é que
ao se colocar como expressão do valor, em sua forma de preço, toma o lugar do expressado
e assim o dinheiro adquire a condição fetichista daquele que tem o valor, esta é a expressão
mais acabada do que Marx (1988) se propõe considerar como o enigma da forma equivalente, cujo sentido é a sua forma sem sentido posta como dinheiro, o equivalente geral. Já que
posto nesta condição de geral, equivale a tudo, incluindo à equivalência do valor numa
sociedade posta negativamente como produtora de valor. Se em condições produtivas o
fetiche do dinheiro se põe como fetichização do valor que não está nele – ou seja, o dinheiro
não tem valor – mas que aparece como sendo dele, na crise deste fetichismo é necessário
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Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
fetichizar a posição de um valor que se nega.
A circulação monetária, entretanto, é tanto resultante da produtividade do capital
social, geral, quanto da necessidade sempre crescente, na redução de sua capacidade de
produzir mais valia, de pôr o crédito como o substituto da mesma que não é produzida. Ou
seja, a intensificação da necessidade de o capital investir cada vez maiores montantes de
valor no processo produtivo, decorrente do desenvolvimento das forças produtivas, faz com
que o crédito, na redução necessária da massa de mais valia daí resultante, seja mero
substituto da sua produção, redobrando-se o endividamento e a massa de capital financeiro
como a determinação contraditória da própria produção de valor. Isto implica em que circular o dinheiro torna-se menos desvantajoso do que torná-lo produtivo, pois a demanda por
créditos aumenta o preço do dinheiro e torna os juros mais rendosos do que a própria taxa
média de lucro, o que leva a uma imposição do capital a juros na reprodução crítica de uma
sociedade fundamentada na produção do valor. Os juros, originalmente determinados pela
produção, isto é, pelo lucro, substituem o mesmo na medida em que produzir valor é a
determinação negativa do capital produtivo. O mercado de capitais, dada a sua ociosidade
produtiva, é maior do que o mercado de capitais produtivo, de modo que o primeiro se
independe do segundo e o capital se torna capital especulativo, isto é, capital que espreita
a sua valorização não mais posta na relação capital trabalho, mas na própria oferta e demanda de capitais, ações, dívidas públicas e privadas dentre outras formas de capitais
propriamente financeiros. A produção de valor atinge o seu grau mais desenvolvido, isto é,
a sua forma mais crítica em que a valorização do valor é meramente fictícia, pois o tempo
zero de trabalho posto por esta produtividade torna todo trabalho concreto um trabalho
improdutivo. Se o capital a juros se põe, mesmo enquanto capital produtivo, como a forma
mais abstrata e fictícia do capital, como expressa Marx (1988, Vol. III), na improdutividade
crítica do capital em seu maior grau de desenvolvimento das forças produtivas, os juros
devem ficcionalizar o próprio trabalho numa sociedade do não trabalho.
NEGÓCIOS IMOBILIÁRIO E ESPECULAÇÃO FINANCEIRA
TOS DA CRISE DE 2008.
DO
CAPIT
AL. ELEMENAPITAL
Marx observara os sentidos contraditórios entre expansão da taxa de mais valia e a
redução de sua massa, sendo uma necessariamente determinada pela outra, constituindo
isto a identidade contraditória do próprio lucro. A expansão do dinheiro e a inserção dos
negócios imobiliários como forma prevalecente da reprodução do capital, a partir dos anos
1970, é uma das formas de ser da determinação da crise da valorização do valor. A análise
de alguns dados sobre a economia norte americana talvez nos ajude a compreender os
fundamentos da ficcionalização da consciência enquanto indivíduo moderno.
Não obstante a extensão mundial do dinheiro em circulação, a economia norte americana, numa ascensão do número de postos de trabalho entre os anos 1964 e 2008, acresce
de 58.391 mi de empregos totais (indústria e serviços) para 136.167 mi em 2008. Contudo,
no primeiro ano deste período 33,79% constituíam empregos na indústria, contra 68,21%
de empregos no setor de serviços. A passagem da década de 50 para a 60 constitui o momento de transposição do setor de serviços por sobre o ramo propriamente industrial. Para
ficarmos com o extremo deste processo, observe-se que, em 2008, a relação é de apenas
15,36% de trabalhadores industriais, contra 84,64% em serviços (ERP, 2009).
Intensifica-se a contradição identitária do capital se observarmos, ainda, dois fenômenos relacionados. Um primeiro, que é a redução dos postos de trabalhos na indústria
simultaneamente a um significativo aumento da produção física industrial. Para o mesmo
período, considerando-se 2002 o índice 100, a produção industrial de 1964 é de 32,1 sendo
15,13 o número índice de empregados na indústria (equivalente a 19.733 mi de trabalhadores). Este índice, numa seqüência qüinqüenal de 1964 a 2008 varia: no ano de 1964 15,13;
seguindo 17,50; 17,9; 19,17; 17, 90; 18,40; 17,40; 16,70 e 16,00, em 2008. Isto implica que
variou de 19.733 mi de trabalhadores em 1964 a 20.920 mil em 2008, sendo o ano de maior
ascendência de trabalhadores industriais da seqüência o de 1979, com 24.997 mil de ocupados na indústria. Nesse sentido, com uma curva descendente de número de postos de traba-
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ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
lhos industriais há uma significativa ascensão da capacidade produtiva dessa mesma indústria. Assim, em 1964 tem-se o índice para a produção industrial de 32,1; 1969 = 43,3;
1974 = 50,2; 1979 = 57,8; 1984 = 60,5; 1989 = 69,1; 1994 = 76,8; 1999 = 99,5; 2004= 103,8;
2008 = 107,3 (Ver Gráficos 1 e 2). A curva, no entanto, tende ao inversamente proporcional,
mostrando que cada vez mais o capital carece de menos trabalho para produzir uma massa
maior de produção material e, do ponto de vista de sua composição de valor, cada vez mais
menos trabalhadores movem uma massa cada vez maior de valor posto na forma de capital
constante, resultando tanto numa produção menor de valor quanto numa distribuição cada
vez mais fragmentada, em cada mercadoria produzida, deste valor reduzido. A ascensão
dos investimentos no setor de microeletrônica de alta tecnologia, aliás, determina uma
redução absoluta da massa de mais valia na medida em que a redução do volume de capital
variável pela micro-eletrônica – segundo a série de 1974 a 2008, com índice 100 para 2002
– é estrutural do ponto de vista da economia mundial. Ou seja, o tempo médio de trabalho
socialmente necessário é aquele definido pela determinação do não-trabalho sobre o próprio trabalho, isto é, há uma dilatação do trabalho improdutivo sobre o produtivo. Se em
1974 este índice da produção microeletrônica está a 0.5 a sua contínua ascensão até 2008
chega a 267.3. Isto tudo numa contraposição aos índices de produção industrial como metais primários, borracha e plástico, para ficarmos com alguns (gráfico 3). (ERP, 2009)
Some-se a isso um encarecimento – ascensão dos preços – de matérias primas industrializadas que atingem especialmente os químicos e metais (ERP, 2009)2, encarecendo a
produção industrial para os produtos finais. Tal capacidade produtiva, que vai necessariamente junto com a redução da capacidade relativa e absoluta de o capital produzir valor,
fundamenta uma necessária desvalorização do valor que se expressa através de uma economia inflacionária. Isto, aliás, analisamos mais pormenorizadamente para os anos 1950
nos EUA (cf. ALFREDO, 2008). Este processo inflacionário, em outros termos, está determinado por esta forma negativa de valorização do valor que leva não só à extensão do setor
de serviços que torne capaz de circular o capital, dada a sua estabilização em sua figura de
mercadoria M...M, como redunda num aumento do volume monetário, isto é, de capitais
monetários excedentes. A contínua necessidade de maiores investimentos na renovação da
capacidade produtiva exige montantes sempre maiores de fundos de reservas que, postos
sob a custódia do capital bancário e financeiro, reúnem-se na forma de capital de empréstimos que acabam por reduzir o tempo de investimentos na renovação dos capitais produtivos. Especialmente quando, devido à concorrência e ao desenvolvimento do departamento
I da economia (produtor de bens de produção) esta inovação se faz necessária antes mesmo
da rotação total do capital constante. A ascensão do volume de dinheiro e crédito (Gráfico 4)
juntamente com a queda tendencial da taxa de lucro – expressão que categoriza o fenômeno estatístico aqui apresentado – conduz, no mínimo, à equalização da taxa de lucro à taxa
de juros, tornando a transferência do capital produtivo para o setor financeiro uma resultante. Deslocando-se do setor produtivo para o setor financeiro carece ao capital encontrar
formas de sua auto-remuneração, determinada, contraditoriamente, pelo tempo zero de
trabalho necessário.
2
Economic Report of the President, documento do governo norte americano.
48
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
Gráfico 1 - Estados Unidos da América
índice de Emprego e Produção Industrial (2002=100)
Fonte: ERP, 2009
Organizador: Anselmo Alfredo, 2010.
Gráfico 2 - Estados Unidos da América - Emprego Industrial e em Serviços
1964-2008
Fonte: ERP, 2009
Organizador: Anselmo Alfredo, 2010.
49
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
Gráfico 3 - Estados Unidos da América - Índice de Produção Industrial (2002=100) 1974 - 2008
Fonte: ERP, 2009
Organizador: Anselmo Alfredo, 2010.
Gráfico 4 - Unidos da AméricaEstoque de Dinheiro e Crédito
1969-2008
E
adots
Fonte: ERP, 2009
Organizador: Anselmo Alfredo, 2010.
50
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
A ascensão do setor imobiliário como um dos principais ramos de investimento do
capitalismo mundial, a partir dos anos 1970, constitui parte integrante da independência
do dinheiro em relação ao setor propriamente produtivo. Na exposição de Mandel (1990)
De novo, não há nada de acidental nessas bancarrotas espetaculares. O boom de 1972/1973
havia sido essencialmente especulativo. A especulação imobiliária – da mesma forma que a
especulação de matérias-primas – é um produto inevitável da inflação acelerada. Quanto mais
o investimento produtivo se enfraquece ou estagna e quanto mais os bancos dispõem de uma
abundância de liquidez, buscam alocações lucrativas em outro lugar, portanto também nos
negócios imobiliários. A crise da indústria de construção civil foi – com a crise da indústria
automobilística – o detonador da recessão de 1974/1975. Ela devia forçosamente provocar um
desmoronamento dos preços de terrenos para construção e, portanto, a insolvabilidade de numerosas sociedades especializadas no financiamento imobiliário. É a própria lógica do sistema
que conduz a essas falências em cadeia. (67)
Neste sentido, há uma ascensão mundial do setor imobiliário na medida em que o
capital excedente derivado de sua alta produtividade não encontra parâmetros
remunerativos em seu investimento propriamente produtivo, ou naquilo que a economia
política chama de capital real. O setor imobiliário é especulativo não necessariamente porque visa, na ascensão do preço do imóvel, a uma valorização, mas porque a sua forma de
operacionalizar permite uma circulação do capital financeiro.
A crise imobiliária dos anos 1990, com sua deflagração em 2008, nos Estados Unidos,
advém somada por uma característica peculiar na crise da valorização do valor em nível
mundial. Os países da periferia do sistema capitalista, especialmente da Ásia e Oriente
Médio constituíram importantes reservas financeiras na expectativa de se livrarem de uma
possível nova crise interna, reunindo-se para esta possibilidade a alta do preço do petróleo.
Parte considerável desta poupança se constitui em investimentos nos EUA e aumenta os
ativos do Tesouro Americano (títulos pretensamente de baixos riscos) que acabaram por
aumentar significativamente tal oferta reduzindo, assim, a taxa de juros que os mesmos
ofereciam. Isto especialmente àqueles que tinham como lastro as hipotecas imobiliárias
das maiores investidoras mundiais do setor, as norte americanas Fannie Mae e Freddie
Mac (ERP, 2009, 63). É certo que tais transferências não são a causa da baixa da taxa de
juros de tais títulos, mas tão somente resultadas de uma sociedade em que o setor propriamente produtivo não significa uma remuneração de menor risco que o setor financeiro
mesmo.
De qualquer maneira, tal barateamento do dinheiro levou a economia americana, ao
longo da década de 90, a restringir significativamente a expansão do crédito através dos
títulos dos ativos do tesouro, como forma de conter a queda da taxa de juros. Em última
instância, os considerados países em desenvolvimento, reuniam-se ao centro do capitalismo mundial através de uma impossibilidade de valorizar o valor, participando, entretanto,
da mesma ciranda financeira que era a do capitalismo mundial.
A disponibilidade de capital fictício, entretanto, ao mesmo tempo em que diminui a
taxa de retorno, leva à necessidade de se investir em títulos hipotecários de mais alto risco,
que oferecem maior retorno, compensando a queda geral desta remuneração junto aos
títulos mais seguros. O resultado é uma extensão significativa do setor imobiliário financiado pelas hipotecas que permitem uma passagem dos empréstimos entre agências bancárias de vários formatos. Empresas como as “Fannie” acima citadas, produzem títulos dos
empréstimos imobiliários que são vendidos aos bancos, ao mesmo tempo em que repassam
o dinheiro às instituições financeiras para serem cedidos, na forma de empréstimos, aos,
finalmente, compradores ou mutuários. Os títulos bancários são negociados na forma de
crédito e ações no mercado financeiro mundial ampliando a base fictícia do capital. Em tal
circulação está inclusa a solvabilidade da produção e comercialização de mercadorias tanto
no plano do consumidor final – crédito para consumo de bens duráveis, por exemplo - quanto no plano das trocas entre nações. Tudo tendo como lastro a solvabilidade insolvável do
setor imobiliário.
A circulação deste capital financeiro é, entrementes, dividido em empréstimos de
curto e de longo prazos, ampliando a base fictícia de tais montantes que é, então, circulada
através do setor bancário em nível mundial. Contudo, a expansão dos empréstimos a longo
51
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
prazo – no setor produtivo, por exemplo - têm como lastro fictício os pagamentos de curto
prazo que permitem (tais empréstimos) uma constante renovação de dívidas e novos empréstimos, incrementando a oferta imobiliária. É o volume de capital ocioso que acresce a
demanda do setor imobiliário que, assim, é fundado por um capital improdutivo, pois o
volume produzido de imóveis advém como demanda de capitais improdutivos e não através
da demanda dos salários.3 Efetivamente, o crescimento do preço se dá por esta demanda
que, inevitavelmente, está acima daquilo que se põe como necessidade solvável pela sociedade, pois tais investimentos são já oriundos de uma produtividade contradizente à valorização do valor no setor propriamente produtivo. Resultam, no entanto, de uma impossibilidade de se tornarem salário, dado o desenvolvimento das forças produtivas e a contradição entre taxa e massa de mais valia. Tal volume, enfim, é resultante da forma como os
salários e, então, a relação capital trabalho, já está posta. A promessa de trabalho que
efetiva a sua forma de crédito é uma contradição nos próprios termos. São expressão da
insolvabilidade do capital enquanto capital e não da insolvabilidade da sociedade a essa
expansão das hipotecas, ainda que desta maneira apareça. Este processo não se põe, assim,
como crise de consumo, mas de superprodução em seu sentido categorial, que leva à desvalorização do valor pelo excesso de capacidade produtiva.
A massa de créditos cedidos à sociedade mundial e americana em particular advém
não de uma falta de regulamentação do setor financeiro. Ao contrário, do excesso de capitais produtivos que, ao restringirem a oferta governamental de tais títulos teve de se fazer
através de uma expansão dos títulos não garantidos por seguros e com baixíssima exigência do controle sobre a possibilidade de seu pagamento pelos mutuários, expressando-se,
na ascensão do risco de tais ativos, a insolvabilidade do capital enquanto capital. A oferta
destes ativos – os famigerados subprimes - cresce através de uma série de facilidades de
acesso, a ponto que as hipotecas dos mutuários torna-se maior do que o valor de suas próprias casas, além de uma série de facilidades de pagamentos, em parcelas das prestações,
que incentivam a expansão da circulação fictícia deste capital. A ascensão do preço dos
imóveis, dada por esta fictícia demanda, torna ilusória a possibilidade de que, em qualquer
dificuldade, a venda do imóvel, com preço ascendente, poderia permitir uma satisfação dos
compromissos hipotecados. Contudo, com excesso da oferta do setor imobiliário o preço dos
imóveis começa a variar e os bens hipotecados tornam-se menores do que a dívida que por
eles são garantidas. Os mutuários se indentificam numa situação “underwater” (ERP, 2009,
65-66), isto é, de submersão nas dívidas, e tendem a desfazer-se de seus bens incrementando
ainda mais a oferta e restringindo, abruptamente, a expansão de novos investimentos em
construção imobiliária (ERP, 2009, 69-70) (cf. gráfico 05). A inadimplência (cf. gráfico 06) é
tão somente a expressão da ficcionalidade do preço em relação ao valor. Isto evidencia a
ficcionalidade de tais capitais e desvaloriza títulos e ações lastreados nesta ficcionalidade
que circulam os negócios mundiais. Tem-se, assim, uma crise que ascende à reprodução do
próprio capital fictício, não mais do capital produtivo que se tornou financeiro e os próprios
bancos não são capazes de solver os créditos por eles emprestados porque os pagamentos de
curto prazo não mais ocorrem. A circulação do capital fictício pôs-se uma autolimitação
lógica, revelando que a expansão do setor imobiliário não é a fronteira salvadora dos capitais ociosos, visto que não se baseia numa valorização do espaço, tornando, aliás, tal categoria um fetichismo em relação à forma crítica pela qual se dá a reprodução das relações
sociais de produção. A produção do espaço urbano não é, entretanto, a tábua de salvação do
capital, como pretende Harvey (2009). Tal categoria se põe, assim, conservadora, porque
não desvela a crise que carece ser observada.
3
As determinações da demanda imobiliária pelo volume de capitais ociosos foram observadas também por Robert
Kurz (1993), especialmente no capitulo O fracasso da modernização.
52
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
Gráfico 5 - Estados Unidos da América - Débito Imobiliário Hipotecário a Prestação
1949-2008 - em US$ bi
Fonte: ERP, 2009
Organização: Anselmo Alfredo, 2010.
Gráfico 6
Fonte: ERP, 2009
Organização: Anselmo Alfredo, 2010.
53
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
O sentido será, entretanto, uma produção imobiliária, tal qual o processo produtivo
industrial, que é desvalorização do valor. É este capital excedente que, nas mãos dos mutuários, simula, ficcionaliza salários, isto é, trabalho necessário, mas cuja resultante é a circulação de capital que põe um preço cuja relação com o próprio valor é negativa. A queda
dos preços é própria desta lógica, pois, a médio prazo, o resultado é um crescimento do setor
imobiliário que põe uma oferta que, na queda inevitável dos preços, revela que a capacidade produtiva representada por este dinheiro põe o setor como desvalorização de capital
ocioso e é, assim, desvalorização da desvalorização.
A condição especulativa se dá, justamente, porque a ascensão dos preços imobiliários
se faz descolada da própria produção do valor e como mera circulação de créditos. Tal fenômeno, aliás, se expressa quando a oferta do setor imobiliário conjuntamente com o crescimento das dívidas não pagas faz com que o preço geral dos imóveis se torne menor do que
as dívidas adquiridas pelos mutuários evidenciando que o lastro do suposto valor posto
pelas hipotecas é criticamente menor que o montante de crédito advindo deste mesmo
lastro.
Tem-se, entretanto, uma independência do dinheiro e do crédito em relação ao processo produtivo, efetivando os sentidos que deu Marx (1988, vol. III) à noção de capital
fictício. Para Marx, esta forma de ser do capital ficcionaliza a sua relação substancial, isto
é, a produção de valor. Para tal, expande a base monetária e creditícia para além daquilo
que a valorização do valor teria condições de remunerar. Resulta que há uma ficcionalização
da relação categorial que só em sua determinação ilusória tem possibilidade de pôr o processo de circulação de capital. Tal circulação, enquanto circulação geral do capital, isto é, o
capital enquanto capital circulante, se o faz sem se pôr em sua figuração de capital produtivo e é a forma fetichista de ser do capital que se faz como potência de sua própria reposição, ainda que crítica. A ficcionalização da substância valor é, entretanto, a ficcionalização
de tudo, pois aquilo que está em tudo é o que dá a identidade de substância, sendo a ficção
a forma de ser desta substancialidade é de se compreender que a substância é a ficção.
Contudo, o indivíduo, ou melhor, a consciência individual, se faz enquanto tal no
desenvolver da forma crítica da reprodução do capital. Na ficcionalização substancial do
capital, a sua forma de ser enquanto indivíduo é uma consciência invertida ao processo
ficicionalizado e, portanto, fetichista. Tal processo, ao ser a dessubstancialização do valor
tem de aparecer invertidamente na subjetividade individual moderna como produção de
valor, isto, aliás, é ser indivíduo em sua contraposição ilusória ao social. Não somente porque, caso contrário, não se faz sentido falar em ficção, afinal, a noção de capital fictício
remete, necessariamente, a uma dimensão da consciência para que o mesmo se efetive
enquanto tal. Mas especialmente porque esta ficção se lhe permite mover a reprodução do
capital sob a égide de seu conceito ainda que lhe falte a substancialidade que dá fundamento às categorias que o formam. Neste aspecto, que dizer da substancialidade de um pensamento crítico? A própria ação prática não se configuraria como a resultante teórica de uma
sociedade ficcionalizada em seus fundamentos?
O Contra-senso de uma T
eoria Prática e a Necessidade de uma Prática
Teoria
Teórica.
O que dizer da prática? Kant, em sua Metaphysique des Moeurs (Metafísica dos
Costumes), buscava não somente os caminhos de uma prática, mas que, para tal, era necessária a construção de uma crítica. Isto se configura em sua exposição como a forma de
desvelar a necessidade de se antepor o próprio pensamento à ação que então conformava
uma inversão em relação àquilo que se compreendia ser a ação. O conceito de liberdade e de
moral teriam de se fazer como a determinação regente da própria ação. A pré-posição do
pensamento em relação à ação que, para Kant, constitui o a priori de liberdade, ou o princípio universal do direito é a forma de definir a liberdade segundo uma determinação
mentada que pré-dispõe, contudo, a ação dos indivíduos a sua realização, ainda que não
atingida, desde que a ação prática não se relacione destituindo o sentido de liberdade que
fundamente este a priori. Em última instância, a indeterminação de liberdade, isto é, a sua
54
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
determinação negativa, ou seja, o fato de ela não se pôr como forma de ação prática dos
indivíduos entre si, deve, necessariamente, guiar a postura e ação interindividuais de modo
que esta não recuse ou negue a forma idealizada a que liberdade se nos remete. O imperativo categórico - sintético e não hipotético-, entretanto, estrutura a ação prática que, assim,
é determinada idealmente, poderíamos dizer: teoricamente. A crítica advém do reconhecimento de uma não liberdade, mas que, posta pela negativa, define o sentido da ação
interindividual da luta de todos contra todos a um sentido que não negue este pressuposto
de liberdade. Mediada por uma dimensão abstrata e mentada, teórica, diríamos, o sentido
deste interagir se leva, necessariamente, a uma concepção que conduz, nos termos de À
Paz Perpétua, a reunião da realidade à letra.
Mas posta sobre o imperativo categórico segundo o qual “‘É justa toda ação que pode
ou cuja máxima pode deixar coexistir a liberdade do arbítrio de cada um com a liberdade de
todo o mundo segundo uma lei universal’” (KANT, s/d, 479), a negatividade da condição de
liberdade anteposta, tão somente permite efetivar o oposto daquilo a que se pretende. O
livre arbítrio posto como a forma prática desta liberdade nada mais é do que uma determinação formal de justiça que limita a ação segundo os pressupostos que põem a condição de
indivíduo e de sujeito numa contradição insolúvel, ao contrário da racionalidade em que
esta doutrina kantiana se fundamenta. A liberdade individual nada mais é do que a reposição no indivíduo do processo social, sendo esta contradição a condição identitária e fetichista de indivíduo. Ao que pese a necessidade de se desenvolver ainda este aspecto, acrescente-se que não se faz a apologia do indivíduo contra a sociedade, mas que o livre arbítrio
assim posto é uma coação que leva, necessariamente, à sobredeterminação do social sobre
o individual, tornando inócua a própria posição do indivíduo nesta constelação lógica e
social, a não ser como fetichismo de sujeito e da própria ação. Deter, aprioristicamente, os
limites da ação é, na ante-sala, dizer sobre os limites a que estão condicionadas as ações
individuais, sendo estas, entretanto, tão somente a reprodução social contra o indivíduo.
Ser indivíduo, entretanto, é deter a consciência fetichista de sujeito e de ação. Nestes estritos termos, a própria condição de liberdade e de indivíduo deve estar sujeitada a esta condição fetichista e só nestes termos pode-se falar tanto em liberdade como em sujeito. Na
expressão de Adorno (1975, 232), “Toda causalidade que proceda da liberdade, corrompe a
esta convertendo-a em obediência.”
Desdobrar a liberdade, entretanto, como a prática individual e subjetiva, aquilo que
poria um sentido de sujeito no e do processo social, condiciona o apriori de liberdade a se
colocar como as tábuas da lei, isto é, como as categorias determinadas da ação individual
que nada mais são do que a reposição das mesmas expressas em liberdade individual. A
ação prática assim posta é a vontade que se faz determinada pelas formas pré-concebidas
da sociabilidade cuja necessidade objetiva desta reprodução põe-se subjetivada como consciência individual. A razão prática, entretanto, na medida em que se faz em sua relação
necessária com o social, isto é, com as leis gerais de reprodução do social é, tão só e contraditoriamente, a forma subjetiva da objetividade do Real moderno. O indivíduo é a ilusão
como efetividade, posto pelo e pressuposto do social.
Desenvolvendo-se o aspecto segundo o qual: a liberdade individual nada mais é do
que a reposição no indivíduo do processo social, sendo esta contradição a condição identitária
e fetichista de indivíduo, a cisão entre sujeito e objeto, entretanto, se define segundo o
pressuposto da modernização em que a objetividade da forma de ser da reprodução das
relações sociais deve conter uma dimensão da consciência como momento – no sentido
hegeliano, isto é, intemporal – da reposição geral destas mesmas relações. O indivíduo e
sua concepção de liberdade individual, que leva à consciência da ação, é tão somente a
forma necessária de consciência fetichizada como fundamento da cisão entre sujeito e objeto. Ser esta cisão, que se define, do ponto de vista do pólo subjetividade como a ação ou a
prática, é esta forma de consciência e não outra. O objeto, entretanto, não está lá, como o
ser em si fora de mim, mas já que forma de pensamento (KANT, 1980) é, ao mesmo tempo,
- na superação hegeliana da estética transcendental kantiana - o pensamento enquanto
seu próprio objeto, superado idealmente no conceito; concebe-se o ser lá tão somente como
momento negativo do pensamento e não o ser lá inatingível. Na pretensão prática, aliás,
55
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
reside uma contradição entre prática e teoria que leva necessariamente a considerar a
prática em sua forma estritamente fetichista. Se ação prática é ela mesma pressuposta
pelas categorias abstratas da sociedade a que está sujeita, de per si, sua ação e posição no
Real assim definido nada mais é do que uma forma teórica de expressar-se fetichistamente
enquanto tal, isto é, como prática. A ação prática em sua forma inevitavelmente fetichista,
entretanto, leva a uma concepção de que o fazer se contrapõe ao não fazer quando em
realidade a ação se faz como a reprodução das determinações abstratas, categoriais da
sociedade moderna e, inconscientemente, é realização teórica porque objetiva, subjetivação
da objetividade da forma de ser da sociedade moderna. Ser o indivíduo é contradizê-lo, na
medida em que ele é posto e reposição pelo e do social. Isto, contudo, não implica que
estamos na dimensão de uma prática teórica, mas na dos sentidos fetichistas de uma teoria
prática, pois que esta não se compreende como a reprodução daquilo que se pretende contra. Desvela-se, em verdade, as contradições insolúveis de uma pretensão prática diante de
uma sociedade em que tal consciência prática é condição de sua própria efetividade, justamente porque não se faz como prática. Se o pressuposto da ação individual é uma lei geral
que resulta numa reposição do social a própria individualidade é uma contradição que
fetichiza o indivíduo, subjetivação da objetividade contra a qual busca se posicionar. A ação
prática, assim posta, é teórica, mas a militância, encarnando a ontologia da ação posta no
movimento de nervos e músculos, como aquilo que transhistoricamente se faz como ação,
não se permite observar como uma forma teórica e abstrata de ser, na medida em que seu
resultado é a reposição das categorias abstratas que determinam esta forma invertida de
consciência como momento do Real. Considere-se, inclusive, que trabalho humano abstrato, trabalho humano, desgaste de nervos, cérebro e músculo, postos na leitura de Marx
(1988), primeiro volume de O Capital, são já formas abstratas de ser da própria atividade,
enquanto trabalho produtivo e ação e, assim, realização de uma forma teórica de prática
que Marx, buscando explicitar esta síntese contraditória, por bem denominou-a de abstração real. Se isto se subjetiva enquanto ação individual, a noção de personificação, posta por
Marx no primeiro prefácio de O Capital (MARX, 1988), nada mais é do que a forma de
compreender a relação entre sujeito e objeto como uma consciência invertida das determinações objetivas compreendidas como determinação do sujeito.
Tal cisão se põe tão somente se invertida estiver. Pensar as determinações sociais
como oriundas da ação do sujeito, ao invés de se compreender a ação individual (ou de
sujeitos coletivos) como a consciência subjetivada (fetichista) da objetividade social, isto é a
relação sujeito objeto. A inversão, isto é, o indivíduo e o sujeito postos como ilusão de
indivíduo e de sujeito, é a coisificação do social que, posto lá, fora de mim, porque em mim
estariam as determinações individuais do social, coisifica o Real. Isto implica em
desconsiderar o Real no âmbito de suas contradições em que o pensamento lhe é uma de
suas determinações. Desta maneira, a própria inversão é uma coificação, pois que, só deste
modo, cindindo o social entre sujeito e objeto é que tal relação se põe e, entretanto, a sua
inversão é uma ilusão, pois que desinvertida não se forma mais a própria cisão sujeito
objeto. Dizer, nos termos de Marx, o capital, ou o dinheiro é o sujeito do processo social,
nada mais é do que identificar a objetivação completa do processo social em que a subjetividade, nos termos da relação entre forma e conteúdo (na alteridade de forma mais acima
elaborada) é uma ilusão de alteridade. Não há a passagem entre sujeito e objeto nos mesmos termos da Fenomenologia hegeliana, em que, o objeto posto como forma de pensamento é já um momento do pensamento a ser superado enquanto tal. Na consciência fetichizada
do indivíduo moderno, o objeto, ao se identificar com a materialidade objetual do processo
social coisifica o pensamento e, assim, não permite a compreensão disto como forma de
pensamento. Disto resulta que o indivíduo, materialidade coisificada em carne e osso, é o
osso do espírito, segundo Hegel (1991), é indelével, do ponto de vista da consciência moderna.
Para Adorno (1975), a relação sujeito objeto assim posta não se faz meramente como
um fetichismo reprodutor. A dilatação do social, cindida entre indivíduo e sociedade, é não
só uma forma contundente de expressar um limite classista na compreensão do Real e de
consciência sobre o mesmo, mas que esta relação entre o Universal (social) e o particular
56
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
(individual) se faz numa contradição em que a identidade negativa de sua dialética não se
resolve na conservação identitária do próprio conceito. Sem considerar aqui as questões de
método a que isto remete, não implica necessariamente em desconsiderar o conceito como
regência, mas tão somente de explicitar que só negativamente está posto. Deste modo, a
sua regência é ilusória, ainda que efetiva como ilusão, e a conciliação dos contrários na
unidade do conceito, do ponto de vista de uma dialética materialista, implica numa passagem do social para o individual cuja alteridade entre a forma individual e a social é tão
somente a ilusão de passagem, pois se reitera a forma abstrata social como ilusão de individual. Seguindo os passos da dialética hegeliana, que fundamenta a inversão marxiana na
forma valor, não se tem aqui uma passagem entre forma e conteúdo. A forma é o conteúdo
dela mesma e o conteúdo, enquanto esta alteridade formal necessária é mera ilusão, daí o
fetichismo como necessidade intransponível numa sociabilidade posta por esta cisão.
A ação prática e a condição subjetiva como algum sentido de alteridade, entretanto,
é inevitavelmente uma ilusão necessária. Contudo, a negatividade do conceito – nos termos
de uma dialética negativa - que se faz como a reiteração do social como social leva a uma
consciência homogênea e de igualdade que se põe como a consciência necessária para uma
sociedade que reduz as diferenças pela forma mercantil da equivalência. Eis a expressão
prática, se se quiser, destas determinações abstratas, teóricas e sociais: nesta homogeneidade
cada um é a substituibilidade do outro, cujo resultado é a vicariedade, a trocabilidade de
todos no processo social, pois que cada um é o mesmo do outro e não o outro de si mesmo,
como se tece a dialética hegeliana. A forma individual do social é tão somente esta
prescindibilidade, pois o indivíduo é a ilusão de indivíduo, esta é a sua efetividade. Nesta
razão i-racional, a expressão de Adorno (1975, 364) é significativa, “... a culpa de viver se
chegou a fazer irreconciliável com a vida”, pois que estar vivo, nesta sociedade, é já um
contrapor-se à liberdade e ao livre arbítrio, porque depõe o pressuposto da prescindibilidade
a que todos estamos institucionalmente subjugados4, como condição da própria reprodução
social. Isto fundamenta, aliás, a reflexão adorniana da ascensão do número de suicídios no
século XX, mas não é só isto. A compreensão daquilo que significa o estar vivo, ainda que
isto não seja uma ontologia, é uma análise dos sentidos da morte. A expressividade da
violência formal do capital passada à violência física5 - assassinatos, chacinas, estupros,
reclusão carcerária, genocídios que acompanham desde sempre o civilizatório moderno,
etc. - mas banalizada, vivenciada diariamente sob a égide da espetacularização, nada mais
é do que forma ilusória de indignação que esconde o reconhecimento de que ninguém falta.
A condição vicária no processo social é de todos e tal forma de indignação mais revela aquilo
mesmo que quer esconder, a naturalização e localização da morte. Em sua espetacularização
os sentimentos se resolvem como forma de consciência. O clamar pela rigidez legal como
forma de coibição de uma realidade cuja crise é a intensificação física e formal da violência
de cada um sobre todos reafirma a contradição de liberdade individual a que ela se propõe,
afinal, a lei é a reposição do social sobre o individual sendo, a sociedade civil, entretanto, o
obscurecer desta contradição, ao mesmo tempo que a realiza. A pena de morte é expressão
máxima de que esta banalização é um aceitar da prescindibilidade do outro e de cada um,
iludida pela defesa de uma liberdade individual que não seja o mesmo que se está recusando. Afinal, não é a nação mais liberal do planeta que a exerce em nome do livre arbítrio? A
4
A formação do trabalhador e de seu respectivo trabalho é a forma institucional, enquanto sociedade civil e
fetichismo de igualdade, fundamento dela, desta prescindibilidade de todos e de cada um. Em última instância,
a concorrência de cada trabalhador em relação ao outro pode ser compreendida do ponto de vista de que o mesmo
subjetivou como sucesso pessoal – caso consiga se manter e ascender na ordem do trabalho – aquilo que é a forma
de subjetivação da objetividade da forma trabalho que se fez na ruptura do trabalho complexo ao trabalho
simples. A passagem da manufatura para a maquinofatura e, posteriormente, à grande indústria - para ficarmos
na expressão industrial deste problema - é a destituição das condições artesanais do trabalho para uma forma
automatizada do processo social em que as tarefas pré-postas pela mecanização do trabalho define a atividade do
trabalhador tornando as habilidades pessoais uma barreira que o capital superou na sua forma social tautológica
posta como valorização do valor. Neste percurso, forma-se o mercado de trabalho que é a homogeneidade de
todos e, assim, a necessidade de cada um a não ser como mediação para a sua própria vicariedade.
5
Uma análise desta violência sob a justificativa ecológica pode ser vista na Livre Docência de Amélia Luísa
Damiani (2008).
57
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
eliminação dos julgados de morte, ainda que se faça em nome da liberdade individual, é
determinada pela expressão que está neles da i-racionalidade que esta mesma liberdade se
põe para com ela mesma, pois que o criminoso tão somente exacerba esta personificação
quando do ato de seu crime. É, no entanto, a revelação da contradição entre liberdade e
prescindibilidade, posta na figura do condenado, forma de ser do livre arbítrio, que a pena
de morte mata. A pena fatal em defesa do livre arbítrio fetichiza a contradição que defende:
cada indivíduo será a lei social que é a vicariedade de todos, quando revelada, mata-se; eis
a liberdade do indivíduo, eis o resultado de sua ação prática, ou seja, da defesa de uma
legalidade posta como manutenção das categorias do capital.
Se “Auschwitz confirma a teoria filosófica que equipara a pura identidade com a
morte” (ADORNO, 1975, 362), o terrorismo, entretanto, não é uma razão posta num tempo
e num espaço, mas é a forma social de ser do moderno, a sua expressão no holocausto dos
anos 1940 é o momento da integração absoluta posta pela homogeneização (ADORNO,
1975, 362), pela forma mercadoria que, enquanto uma das mediações sociais, põe o terrorismo como próprio do moderno.
“Quando no campo de concentração os sádicos anunciavam a suas vítimas: ‘amanhã te serpentearás no céu como fumaça dessa chaminé’, eram expoentes da indiferença pela vida individual
a que tende a história. De fato, o indivíduo é já em sua liberdade formal tão disponível e
substituível como o foi logo sob as patadas de seus liquidadores.” (ADORNO, 1975, 362)
Revela-se a classe como limite da opressão que o capitalismo concorrencial punha
como inconsciência social. A subjetivação moral desta forma social terrorista como prática
e liberdade individuais, não só se generaliza, ao longo do século XX, através da expansão
imperialista do capital monopolista e sobrepõe o indivíduo sobre as classes sociais (desdobramento de uma só violência). Mas a crise desta reprodução intensifica tal lógica terrorista, expressão de sua impossível eternidade quase desvelada pela crise. Expressão disto é a
exacerbação da violência. Nesta medida, diante da equivalência, redução da dialética entre
igualdade e diferença, a crise carece do fetichismo da permanência, negação de sua identidade como passagem, no sentido intemporal de essência (gewesen) em Hegel (1968).
A ontologia, passível de não mais ser considerada como algo próprio do homem, ou
mesmo da sociedade, tende a uma des-ontologização, na medida em que a crise é uma crise
das relações categoriais que formam a consciência fetichizada do indivíduo enquanto indivíduo. Nesta medida, é necessário um aprofundamento daquilo que se põe como naturalização das relações às quais especificam as condições sociais do próprio individual. Não se
fala tão somente da ontologia do trabalho, este compreendido como sendo da natureza do
humano, mas da ontologia da existência que, enquanto posta como a forma de ser do capital, torna-o insuperável, daí um fetichismo do existencialismo. Na crise do fundamento do
capital, em sua possível desnaturalização enquanto forma de consciência, torna-se ainda
mais premente a dicotomia não dialética entre o orgânico e o inorgânico, nos termos da
Fenomenologia do Espírito de Hegel (1991).
A natureza (orgânico) posta como o além-lá é o impensado, existente de per si e
assim, o indelével, intocável pela consciência que é prescindível para explicitar aquilo que,
nesta forma, prescinde da mesma. É tão somente a necessária prescindibilidade da consciência na compreensão do natural (orgânico) que faz da natureza a própria natureza. Neste
sentido, na Fenomenologia do Espírito, o ser do natural nada mais é do que uma forma de
pensamento – como o que não detém o pensamento, ou mesmo a razão – que não se compreende como tal. O natural é esta inconsciência de um momento do pensamento que o identifica e, assim, constitui parte de sua própria razão. Para Hegel (1991), entretanto, tudo o
que é impensado se torna natureza. Contudo, a negação do pensamento, como o natural,
nada mais é, para Hegel (1991), que o reconhecimento do próprio pensar. Sendo assim, o
natural se conserva enquanto tal, na medida em que é um momento da razão, contradição
entre orgânico (natural) e inorgânico (espírito). O orgânico, como o observável, o que se
contempla, se põe como momento da reflexão, na medida em que observar é o reconhecimento de que a razão se faz negativa a si mesma na forma da contemplação e, assim, a
identifica como razão, pondo o refletir como necessidade. Neste movimento, há uma refle-
58
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
xão dela para com ela mesma, sendo o natural, ou o orgânico, unidade identitária entre
racional e irracional, de modo que a razão é a desnaturalização da natureza. Em última
instância, para Hegel, não existe natureza, a não ser como momento do pensamento a ser
superado.
Contudo, não é esta a dialética que se faz enquanto forma de sociabilidade posta pelo
sentido tautológico do próprio capital. O que se coloca, nos termos de Lukács (2003), é a
naturalização das relações sociais de produção, de modo que o próprio capital se torna algo
que identifica a natureza do homem. As leis sociais, assim, se colocam como que da natureza e, portanto, imutáveis, impensadas. Resulta-se uma cisão entre tais processos cegos, na
expressão de Marx (1988, vol I), e aquilo que personifica os mesmos, isto é, o indivíduo.
Personificado o processo social como natureza humana, ou mesmo humano, a irracionalidade
que é do não pensamento sobre tais processos se constitui numa interpretação orgânica do
indivíduo socializado pela mercadoria, enquanto que o processo que o personifica é tido
como pura racionalidade. O indivíduo personifica a natureza tornando irracional o homem
e racional os processos sociais, não se compreendendo que esta é uma distinção aparente,
porque posta como forma de consciência necessária e integrante do processo social de onde
é oriunda e, ao mesmo tempo, partícipe. Neste pressuposto, a cisão entre o orgânico e o
inorgânico se faz numa distinção entre humanidade e natureza, que retoma, de modo
precarizado, a clássica questão filosófica sobre o que distingue o homem de outros animais.
Distinção que se apresenta ao indivíduo fetichizado de modo, portanto, invertido. O irracional humano (biológico e natural) se identifica versus o racional natureza (espírito) que,
sob muitos aspectos, tal inversão se desvela na espúria versão científica de ação antrópica.
Se o capital é da natureza do homem, ao mesmo tempo, personificado enquanto natureza
no homem faz deste o irracional (porque o impensado, o vazio posto) e, ao contrário de ser
personificação do irracional social, a sua contraposição ao natural (porque humano) é tão
somente o expressar de algo que está fora de sua natureza, ou seja, da racionalidade estrita
da valorização do valor. O equilíbrio ecológico fetichiza as contradições do capital nesta
forma tornando tanto natureza como capital, como homem, uma extensividade do natural.
Nada aqui é objeto da reflexão e tudo é posto em sua estrita e insuperável positividade.
Nesta inversão, cujo cabimento só se faz pelo fetichismo a que se presta, o ecologismo
se fundamenta numa contradição in adjecto, ou seja, a razão é o natural que, enquanto tal,
só pode ser a forma de pensamento cujo fundamento é a ausência de razão – porque dada e
pronto, dádiva - que a identifica enquanto tal, isto é, natureza ou orgânico e, portanto, não
pode ter nem ser razão. Como resultado, a totalidade é a natureza, isto é, tanto o humano
como o natural. A distinção entre natural e artificial é puro fetichismo ecológico, pois que
tudo posto na forma natural do positivo impensado. O ecologismo é, exatamente, o oposto
do que se pretende ser. Mas é em nome desta i-racionalidade que tudo se justifica, por isso
mesmo, a defesa naturalista é o fetichismo da diferença, o romantismo facista e totalitário
de um capital que precisou esmagar a distinção entre razão e irracionalismo para tornar a
irracionalidade do capital a única forma de extermínio aceitável diante de uma possível
des-ontologização histórica da modernização. Em nome do verdismo burocrático, econômico e estatista, tudo se justifica. Mas, em última instância, é a eliminação do que se pressupõe considerar como “homem” que fundamenta toda a justificativa. É em nome desta morte
que se busca preservar a vida, porque posta a razão no inorgânico (o que não detém o
pensamento) é o irracional (humano) que deve ser eliminado. Neste particular aspecto, é a
pura identidade formal do racional (ou seja, o não tensionamento entre razão e irracional)
como meramente racional que se resguarda e, portanto, a morte. O romantismo em sua
versão ecológica no colapso da modernização é o holocausto de nossos dias. Na distinção
entre humano e racionalidade, não se observa que aquilo que aparece como racionalidade
posta numa concepção de natureza é uma totalização da irracionalidade como forma de
pensamento, afinal, o natural é o meramente posto, o ser em si lá e, assim, o impensado. Se
a natureza aparece como uma totalidade sistêmica que independe do pensamento para ser
o que é, seu pressuposto é o irracional, porque nela não se pode ter o pensamento, como se
razão por natureza fosse e, nesse nonsense, defende-se a irracionalidade do capital – que é
esta consciência do natural - como se fosse a defesa de uma razão natural do social. Assim,
59
ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
é o puro impensado que carece ser preservado. Contudo, é só como forma de pensamento
que se faz como impensado, posto, positividade inquestionável. É justamente isto que tal
crítica ecológica não se permite compreender. A crítica de Hegel (1968 e 1991) ao ser-em-si,
lá, kantiano é tão mais atual quanto mais antiquada se a queira fazer. A natureza, entretanto, não se faz como uma forma social de se pensá-la. Isto é o que parece, porque sob este
pressuposto ela continua positiva, é o ser-em-si-lá. Antes, a natureza é uma forma social de
se pensar a própria sociedade, inversão que desvela o totalitarismo posto neste novo romantismo verde da passagem do século XX para o XXI. Não se pode negar que esta é mais
uma das formas de ser de uma teoria prática, afinal, não é no apelo de se trocar as
borrachinhas de nossas torneiras que se prima pela preservação do irracional? Subjetivismo
facista quanto mais tosco se o faça!
Mas não é a crise mesmo que se põe como o fundamento deste praticismo? Tanto
mais exigido quanto mais crítica a reprodução dos pressupostos da modernização! A crise
da reprodução se põe como aprofundamento da crise do pensamento sobre a crise, desvelando-se o que Henri Lefebvre (2009) busca considerar como um estado crítico, isto é, uma
situação generalizada de crise em que, fundamentada por uma crise econômica, todos os
aspectos da reprodução, dentre eles o próprio pensamento, se colocam impossibilitados de
reflexão. A restrição, entretanto, do pensamento, como crise da reflexão tanto deste como
das categorias do moderno, leva à necessidade de um pensamento cujo limite é a busca de
repor as categorias em crise, sendo este, aliás, o limite da crítica numa situação em colapso
da modernização (KURZ, 1993), tornando-se ela (a crítica) uma inocuidade prática, porque
estritamente teórica.
Na condição fictícia da reprodução social é de se notar que esta se afirma como uma
ficcionalização da consciência, como já expusemos, em que a existência (enquanto uma
ontologia) das categorias do capital regulam o pensamento no sentido de pôr como
inquestionável a reprodução daquilo que perece. Nesta ação prática, enquanto algo transformador, a ilusão é de se tratar de prática, porque ela mesma é uma ficção, visto que o
sentido negativo das categorias é o que não se pode evitar e é este mesmo evitar que faz da
consciência uma consciência prática. Resgatando a potência da estética transcendental de
Kant (1980), o apriori é a forma de ser da consciência moderna em que as categorias do
presente são o limite de nossa reflexão sobre o real moderno, segundo Adorno (1975). Neste
sentido, a própria ação é sua ficção cujo vazio a que inevitavelmente leva é fundamentada
(a ação) pelo fetichismo do dinheiro que, em sua condição de equivalente geral, ficcionaliza
o valor e faz tudo parecer como se estivéssemos assentados numa fundamentação hegeliana
da contradição. Deste modo, há uma ficcionalização da prática porque, posta sob os pressupostos categoriais do moderno a ação é anterior ao pensamento, porque ela está pré-moldada pela consciência categorial do moderno. Sua ação é, assim, teórica. São os termos do que
Robert Kurz considerou chamar de “práxis-teórica”, ou seja, uma condição teórica da própria ação, porque enquanto ação é uma forma de consciência fetichista posta como reposição categorial daquilo que se imagina ser contrário, sem o ser. A ação está sob pressupostos
abstratos que a determinam. Na crise categorial intensificada, a ficcionalização da prática
é duplicada, pois ficcionaliza uma reposição não mais possível, a não ser como fetiche.
Contudo:
Enquanto reflexão separada ‘sobre’ a totalidade social transmitida em si, bem como sobre as
partes e aspectos desta, ela é teoria da práxis e, na verdade, de toda a práxis dominante,
inclusive de si mesma (isto é, também como meta-reflexão afirmativa sobre o caráter da teoria
em tais circunstâncias, da teoria enquanto aspecto separado da práxis social). (KURZ, 2007,
07)
A contradição do capital leva, contundentemente, à necessidade de se reconhecer os
limites do pensamento crítico como momento de um pensamento negativo. Na crise
categorial, não deixamos de ter nosso pensamento limitado aos pressupostos do moderno,
contudo, a crítica, ou melhor, o pensamento negativo, é a análise e a explanação desta crise.
É nesta que se conforma a perda da ilusão de prática, ilusão a que o pensamento reformador
remete. A prática, entretanto, é teórica, não se trata de uma teoria prática. Daí a pertinência
da afirmação adorniana:
60
Terra Livre - n. 34 (1): 37-62, 2010
Contudo, quando é impossível fazer nada sem que ameace a redundar em mal ainda querendo
o bem, há que limitar-se ao pensamento. Tal é sua justificação e a da felicidade espiritual. Seu
horizonte não tem por que ser de modo algum o da clara relação a uma práxis possível no
futuro. (...) (ADORNO, 1975, 244)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A contradição não resolvida entre sujeito e objeto leva fundamentalmente à necessidade de se pensar os sentidos de uma teoria prática que, posta sob a perspectiva da manutenção social é teórica, porque busca manter o perecível, cuja essência é a sua passagem.
Neste sentido, reconhecer os termos de uma prática teórica é contraponto necessário de um
pensamento reflexivo.
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ALFREDO, A.
CRISE IMANENTE, ABSTRAÇÃO ESPACIAL...
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POSTONE, Moishe. Time, labor and social domination. A reinterpretation of Marx´s critical theory.
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62
A TRAJETÓRIA DA
GEOGRAFIA
BRASILEIRA:
UMA BREVE
AÇÃO
INTERPRET
INTERPRETAÇÃO
THE
Y OF
TRAJECTORY
TRAJECTOR
THE BRAZILIAN
GEOGRAPHY
TRA
RAYECTORIA
YECTORIA DE LA
GEOGRAFÍA
BRASILEÑA
ROBERTO LOBA
TO
OBATO
CORRÊA
PPGG/UFRJ
UFRJ
Resumo: Este estudo focaliza a trajetória da geografia brasileira
de 1934 ao final da primeira década do século XXI. Está organizado
em três partes, complementares entre si. A primeira aborda as
continuidades e descontinuidades na geografia brasileira, relativas
aos periódicos, núcleos
de pesquisa, temas e sub-temas. A segunda discute a crescente
complexificação de paradigmas na geografia brasileira que, nascida
sob influência francesa, torna-se progressivamente mais complexa,
plural. Os anos de 1969, 1978 e do início da década de 1990
constituem marcos
temporais dessa complexificação. A terceira apresenta a geografia
da geografia brasileira a partir da difusão da geografia acadêmica
pelo espaço brasileiro. É possível construir um
mapa da geografia produzida no Brasil. O texto termina com
proposições de pesquisa sobre a geografia brasileira.
Palavras-Chave: continuidades, descontinuidades, paradigmas,
difusão, centros e relações.
Abstract
Abstract: This study focuses on the trajectory of the Brazilian
geography from 1934 until the end of the first decade of the 21st
century. It is organized in three parts in which one complements
the other. The first approaches the continuities and the
discontinuities in the Brazilian geography relative to the
newspapers, research nuclei, themes and sub-themes. The second
part discusses the increasing complexification of paradigms in the
Brazilian geography which – born under the French influence –
has progressively become more complex and plural. The temporal
milestone of this complexification were in 1969, 1978 and in the
beginning of the 90s. The third part presents the geography of the
Brazilian geography based on a diffusion of the academic geography
all over the Brazilian space. It is possible to construct a map of the
geography produced in Brazil. The text ends with some propositions
for further research about the Brazilian geography.
ords: continuities, discontinuities, paradigms, diffusion,
Key W
Words:
centers and relations.
Resumen
Resumen: Este estudio centra en la trayectoria de la geografía
brasileña desde 1934 hasta el fin de la primera década del siglo
XXI. Él está organizado en tres partes, que se complementan
mutuamente. La primera cubre las continuidades y
discontinuidades en la geografía brasileña sobre los periódicos,
núcleos de investigación, temas y subtemas. La segunda analiza el
crecimiento cada vez más complejo de paradigmas en la geografía
brasileña, nacida bajo la influencia francesa, y que se
progresivamente convierte en algo plural y más complejo. Los años
de 1969, 1978 y principios de los noventa constituyen marcos
temporales de esta complexificación. La tercera muestra la geografía
de la geografía brasileña desde la difusión de la geografía académica
por todo el espacio de Brasil. Es posible construir un mapa de la
geografía producida en Brasil. El texto termina con proposiciones
de investigación de la geografía brasileña
Palabras Clave: continuidades, discontinuidades, paradigmas,
difusión, centros y relaciones.
Terra Livre
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 63-68
Jan-Jun/2010
63
CORRÊA, R. L.
A TRAJETÓRIA DA GEOGRAFIA BRASILEIRA...
A trajetória da geografia brasileira pode ser analisada de diversos modos, mas qualquer que seja será sempre seletiva, sendo apresentados e discutidos aqueles pontos julgados pertinentes por aquele que a apresenta. A interpretação de um processo ou objeto é, em
realidade, uma construção. Entre os modos possíveis há um que é rejeitado. Trata-se da
narrativa cronológica, na qual são apresentados uma sucessão de eventos, instituições,
autores, paradigmas, práticas e suas relações, que ocorreram entre 1934, quando se dá a
institucionalização da geografia, e 2010. A rejeição se dá porque a narrativa cronológica
pode levar a uma visão teleológica, na qual são os fatos passados que determinam os fatos
seguintes e assim por diante, negando a relativa autonomia de cada presente.
No texto que se segue a trajetória da geografia brasileira será apresentada segundo
três eixos não independentes entre si, cada um focalizando um angulo dessa trajetória,
angulos avaliados como importantes para se compreender pontos significativos dessa trajetória. Os três eixos são os seguintes: continuidades e descontinuidades de matrizes, procedimentos operacionais e temas; crescente complexidade paradigmática; e a geografia
da geografia brasileira. Diferenças de percursos, acumulação de conhecimentos e o olhar
geográfico são crenças e modo de ver que justificam os três mencionados eixos. Nas considerações finais algumas sugestões para investigação serão enunciadas, muitas delas diretamente vinculadas aos pontos aqui tratados.
CONTINUIDADES
E
DESCONTINUIDADES
A trajetória de um dado campo do conhecimento científico não é descrita por meio de
uma linha regular e ascendente, mas por meio de linha irregular, que pode apresentar
continuidades, descontinuidades, podendo desaparecer. A trajetória, por outro lado, pode
ser longa ou curta, ou ter momentos de ascensão e momentos descendentes. Isto se verifica
não apenas ao se considerar um dado campo do conhecimento, mas também face aos seus
sub-campos.A trajetória variável, não previsível de antemão, deriva de uma combinação de
condições externas ao campo de conhecimento, de condições locais de pesquisa, das motivações dos pesquisadores e das relações entre condições externa, interna e interpessoais, que
incluem relações de poder. A variabilidade da trajetória se dá ao se considerar o conjunto do
campo em escala nacional e em escala local. As continuidades e descontinuidades são evidências do desigual e combinado processo de produção de conhecimento científico. A trajetória da geografia brasileira evidencia isto.
Continuidades e descontinuidades manifestam-se de diferentes modos, incluindo a
continuidade de periódicos, a exemplo do GEOSUL e do Boletim de Geografia Teorética ou
ainda do Boletim Paulista de Geografia, e o desaparecimento da Revista Brasileira de Geografia (1939 a 1995) ou ainda as trajetórias de núcleos locais da AGB, exemplificado
com o do Rio de Janeiro.
Continuidades e descontinuidades se fazem sentir em sub-campos e seus temas. A
geografia urbana constitui-se em exemplo de sub-campo marcado por continuidade ascendente, sendo o mais bem organizado da geografia brasileira. Contudo, em seu interior, há
descontinuidades quando se compara os estudos sobre a rede urbana e aqueles voltados
para o espaço urbano. O primeiro deles exibe descontinuidade, enquanto o segundo, mais
recente, caracteriza-se pela continuidade. A geografia econômica, por outro lado, apresenta-se como um sub-campo marcado por descontinuidades, a despeito da importância das
transformações econômicas que o país vem passando, sobretudo a partir de meados da
década de 1950. É verdade que muitos estudos de geografia agrária poderiam ser enquadrados como de geografia econômica e, nesse sentido, a observação se aplica mais aqueles
estudos voltados para a geografia das indústrias e do comércio.
A denominada geografia teorético-quantitativa é outro significativo exemplo. Entre
1968 e 1977 aproximadamente, a revolução teorético-quantitativa no Brasil gerou grupos
de pesquisa em Rio Claro (UNESP) e no Rio de Janeiro (IBGE) tendo sido criados na primeira cidade uma associação (AGETEO – Associação de Geografia Teorética) e um periódico (Boletim de Geografia Teorética). Contestada que foi os geógrafos desta perspectiva produziram muito, mas a partir dos anos 80 verificou-se uma diminuição no impacto, chegan-
64
Terra Livre - n. 34 (1): 63-68, 2010
do mesmo a desaparecer entre os geógrafos do IBGE. A descontinuidade se faz presente
quando, a partir dos anos 90 surge e se desenvolve, sem as severas críticas feitas aos geógrafos
de Rio Claro e do IBGE, o SIG (Sistema de Informação Geográfica), um conjunto de técnicas associadas a programas de computação, que realiza inúmeras operações geograficamente referenciadas. Trata-se, assim, entendemos, de um renascimento da tradição
positivista e neo-positivista na geografia. Muitos que adotam o SIG desconhecem suas raízes
e o aplicam sem preocupações teóricas, como meras, inocentes e úteis ferramentas.
O movimento crítico na geografia brasileira, iniciado em 1978, perdeu o fôlego na
década de 1990, mas reaqueceu mais recentemente com a criação de grupos de estudos
dedicados aos movimentos populares, a exemplo do NUPED (Núcleo de Estudos e Pesquisas de Desenvolvimento) no Rio de Janeiro, e do grupo dedicado ao estudo do gênero e sua
espacialidade, tema escassamente considerado anteriormente.
As continuidades e descontinuidades manifestam-se de diversos modos, como já afirmado, necessitando de estudos acurados e profundos sobre os diferentes sub-campos da
geografia brasileira. As reflexões sobre esta temática nos permitiram sugerir uma tipologia
de continuidades e descontinuidades:
·
continuidade ativa e ascendente;
·
continuidade sem expressão, à margem;
·
descontinuidade fragmentada, com inúmeros hiatos;
·
descontinuidade temporária, com uma única interrupção.
A sugestão acima, muito provisória, procura descrever a intensidade e o ritmo do
processo de produção do conhecimento.
CRESCENTE COMPLEXIDADE PARADIGMÁTICA
A trajetória da geografia brasileira caracterizou-se por crescente complexidade de
paradigmas, na qual matrizes distintas, antagônicas ou complementares, foram sendo incorporadas, gerando no começo do século XXI, um nítido e enriquecedor pluralismo. Reconhecemos que este pluralismo é saudável e nele residem, em parte, motivações para o
debate e a possibilidade de avanços na geografia brasileira. O monismo paradigmático é
nefasto e tende a levar à decadência aquele campo da ciência que se manteve atrelado a um
único paradigma, incontestável e não raras vezes transformado em retórica da verdade.
Em outras palavras e resumidamente, as diferenças são bem-vindas.
Sob a influência da geografia francesa a geografia brasileira nasceu com o propósito
de ser vidaliana. Tanto na USP (1934) como na atual UFRJ (1936) ou no IBGE (1939) foram
geógrafos franceses, Pierre Monbeig, Pierre Deffontaines e Francis Ruellan, que fundaram
a geografia brasileira.
O monismo vidaliano, apreendido sem a densidade da proposta de Paul Vidal de la
Blache, foi largamente dominante até 1956. O Congresso da UGI (União Geográfica Internacional) realizado na cidade do Rio de Janeiro, colocou os geógrafos brasileiros em contato
com outros modos de ver a geografia, ainda que predominantemente francesa. Jean Tricart,
Pierre George e Michel Rochefort, entre outros, trouxeram novos aportes à geografia urbana e econômica. A complexidade se põe em marcha.
A partir de 1970, aproximadamente, verifica-se um progressivo movimento de
complexificação paradigmática na geografia brasileira, já em processo de diversificação
iniciado após 1956. Com cerca de 15 anos de atraso a denominada revolução teoréticoquantitativa desembarca no Brasil. Polêmica que foi, a inovação tardia possibilitou uma
crítica à perspectiva vigente, marcada por uma visão excepcionalista, e a adoção de métodos matemáticos e estatísticos. O uso de modelos formais e a preocupação com leis, princípios e conceitos constituíram-se em avanços e em pontos de discordância. O Boletim de
Geografia Teorética é uma criação desse movimento em Rio Claro.
A década de 1970 veria também o desenvolvimento de uma perspectiva crítica, fortemente influenciada pelo materialismo histórico e dialético. Este movimento de
complexificação se dará no final da década, tendo como marco o Congresso da AGB em
Fortaleza em 1978, congresso no qual Milton Santos reaparece após longa ausência desde
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CORRÊA, R. L.
A TRAJETÓRIA DA GEOGRAFIA BRASILEIRA...
1964, quando da realização do congresso da AGB em Poços de Caldas.
Os dois movimentos, nascidos em contextos políticos distintos e com propostas antagônicas, estão inscritos na história da geografia brasileira. Ambos não têm mais a força que
cada um teve a seu tempo. A geografia teorético-quantitativa sobrevive sobretudo por intermédio de um mais pobre descendente, o Sistema de Informação Geográfica, enquanto a
denominada geografia crítica apresenta muito mais uma postura crítica, de esquerda, do
que análises solidamente alicerçadas na teoria marxista. Mas ambas compõem o quadro de
complexidade paradigmática da geografia brasileira atual.
Com atraso também da ordem de 15 anos, no começo da década de 1990 emerge a
geografia cultural, sub-campo de longa tradição nos Estados Unidos. Na década de 1970
tanto lá como na Inglaterra emerge uma renovação que se caracteriza por privilegiar a
cultura “como mapas de significados”. É na cidade do Rio de Janeiro, na UERJ, que é criado
o NEPEC (Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura), que desenvolve pesquisas sobre a dimensão cultural do espaço. Como inovação o movimento, à semelhança da
geografia teorético-quantitativa e da geografia crítica, foi submetido a inúmeras críticas,
mas difundiu-se e hoje compõe o perfil plural da geografia brasileira.
Paradigmas alicerçados no positivismo (na maioria dos casos não se poderia falar em
neo-positivismo), no materialismo histórico e dialético (em muitos casos um marxismo superficial) e na heterotopia que caracteriza a geografia cultural (nem sempre o conceito de
cultura é clarificado, caindo-se no senso comum), definem, basicamente, a crescente complexidade paradigmática da geografia brasileira, rica, polêmica, alimentada pelos embates
entre estas três visões distintas.
Não se pode falar em “Escola Brasileira de Geografia”, que tem como um suposto a
natureza monotônica de seu pensamento, de suas análises alicerçadas em um único
paradigma. Pode-se falar em Geografia Brasileira, que teve uma trajetória que partiu do
monismo para chegar ao pluralismo. Neste pluralismo convivem, em maior ou menor grau,
conceitos e formulações teóricas advindas de fontes diversas, expressas nas contribuições
de autores, entre outros, Bakhtin, Barthes, Cassirer, Castoriadis, Deleuze, Dilthey,
Durkheim, Eliade, Engels, Foucault, Geertz, Gramsei, Hall, Heidegger, Lefébvre, Lenin,
Marx, Merleau-Ponty, Panofsky, Weber e Williams. A lista está longe de ser completa, mas
os nomes aqui mencionados eram desconhecidos, senão por todos, pela grande maioria dos
geógrafos brasileiros anteriormente a 1970. Há mesmo textos que fazem aquilo que Geertz
denominou ‘mistura de gêneros’, isto é, co-existência em um mesmo texto de matrizes e
autores distintos mas que, na perspectiva rizomática da ciência, possibilitam
complementaridades enriquecedoras.
A GEOGRAFIA DA GEOGRAFIA BRASILEIRA
Uma dada trajetória não envolve apenas o tempo, uma diacronia. Envolve também o
espaço, adquirindo assim uma espacialidade. A trajetória é simultaneamente temporal e
espacial, sendo dotada de uma espaço-temporalidade. Mas a lógica desta espaçotemporalidade é complexa, revelada por complexos mapas de difusão espacial, no qual os
pontos de irradiação e recepção apresentam tamanhos e densidades distintos, assim como
datações que não seguem nenhum modelo pré-estabelecido.
Este eixo justifica-se com base na crença de que “a geografia está em toda parte”,
conforme disse Denis Cosgrove, embora nem sempre sejamos suficientemente geógrafos
para assim perceber, acrescentaríamos, parafraseando Bruno Latour.
Dois focos iniciais, São Paulo e Rio de Janeiro, as duas maiores cidades do país, a
primeira em ascensão econômica e a segunda a capital política do país, constituíram-se nos
pontos de partida da espacialidade da geografia brasileira. A irradiação foi lenta, tendo
como base a formação de geógrafos nestes dois centros que em breve iriam participar senão
da criação de outros departamentos, como membros do corpo docente paulistano e carioca.
Neste processo de difusão a preponderância da USP é inconteste, em parte, devido à existência, já em 1945, do curso de doutorado nessa universidade. A difusão a partir da USP
prossegue nos anos subseqüentes, dada a força de seu quadro docente. Criam-se departa-
66
Terra Livre - n. 34 (1): 63-68, 2010
mentos de geografia a partir de geógrafos formados por aqueles que 10 ou 20 anos antes
estudaram na USP. Há, assim, uma temporalidade na espacialidade da geografia brasileira, podendo-se falar em focos iniciais, centros de primeira geração e centros de segunda
geração.
O Rio de Janeiro aparece como foco inicial secundário, cuja força é menos intensa e
mais recente. Isto se deve, em parte, à mais tardia criação de seu curso de doutorado apenas em 1992. Há, contudo, focos criados autonomamente, independentes de São Paulo e
Rio de Janeiro. Salvador e Recife são os melhores exemplos.
A difusão de cursos de Geografia prosseguiu para outras metrópoles e capitais estaduais, a seguir espraiando-se para cidades menores, capitais regionais em muitos casos.
Dois períodos caracterizam essa difusão. O primeiro, de 1934 a 1968, foi lento, enquanto o
segundo, após a reforma universitária de 1968, caracterizou-se por enorme rapidez. Esta
rapidez, por outro lado, caracterizou a criação de programas de pós-graduação em Geografia, que teve grande salto a partir dos anos 90. Neste processo metrópoles regionais, capitais regionais e mesmo centros menores foram beneficiados com cursos para os quais nem
sempre estavam adequadamente preparados. Manaus, Santa Maria e Maringá são exemplos de metrópoles (Manaus) e de capitais regionais (Santa Maria e Maringá) beneficiados.
A difusão dos cursos de pós-graduação também beneficiou cidades menores, a exemplo de
Francisco Beltrão, Paranavaí, Catalão e Três Lagoas. Os efeitos qualitativos desse processo de difusão estão para ser avaliados, para isto não se prendendo aos modelos de avaliação
do CNPq e da CAPES.
Levanta-se a temática da formação de redes de geógrafos, a exemplo do GEU (Grupo
de Estudos Urbanos) do grupo que estuda as cidades médias, do NEPEC (Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura) e NEER (Núcleo de Estudos sobre Espaço e Representação). Que espacialidades foram criadas e o que significam? Estas redes são as substitutas das conexões regionais que haviam na geografia brasileira? Qual a estrutura de poder que alicerça estas redes?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A interpretação acima apresentada não é a única possível. A perspectiva
construcionista, que dá forte crédito à imaginação, viabilizando a polivocalidade, possibilita outras interpretações nem melhores nem piores, mas enriquecedoras pelas diferenças
que cada uma contém. A trajetória da geografia brasileira pode e deve ser pensada por
diversas vozes, revelando que a objetividade aparente transforma-se em inúmeras subjetividades, produzindo interpretações que traduzem olhares diferentes e mutuamente
enriquecedores.
Indiquemos, para finalizar este pequeno texto, alguns pontos da trajetória da geografia brasileira que julgamos pertinentes de análise. Outros pontos podem ser apontados.
·
O papel dos estrangeiros na formação, consolidação e mudanças na geografia
brasileira.
·
As condições, atores e meios pelos quais mudanças paradigmáticas ocorreram
na geografia brasileira.
·
A contribuição de Milton Santos para a geografia brasileira.
·
A trajetória específica de sub-campos da geografia, a exemplo da geografia
econômica, geografia política, geografia do turismo e geografia cultural.
·
O confronto entre Rio de Janeiro e São Paulo pela hegemonia na geografia
brasileira.
·
O embate pelo controle da geografia brasileira, ou o papel de ‘coronéis’,
‘mandarins’ e ‘gurus’.
·
Os impactos da política de incentivos do CNPq e CAPES sobre a produção
geográfica brasileira.
·
O papel da Associação dos Geógrafos Brasileiros e da ANPEGE na construção
da geografia brasileira.
·
As relações entre a geografia da academia e a da formação do cidadão comum.
67
CORRÊA, R. L.
68
A TRAJETÓRIA DA GEOGRAFIA BRASILEIRA...
AS CIDADES E A
URBANIZAÇÃO NA
CONTEMPORANEIDADE.
CRISE NAS CIDADES
OU CRISE DAS
CIDADES?
THE CITIES AND
URBANIZATION
URBANIZA
TION IN
CONTEMPORAR
Y
CONTEMPORARY
TIMES. CRISIS CRISIS
IN CITIES OR TOWNS?
LAS CIUDADES Y LA
URBANIZACIÓN EN LA
ÉPOCA
CONTEMPORÁNEA.
CRISIS DE LA CRISIS
EN LAS CIUDADES O
PUEBLOS?
REGINA CÉLIA BEGA
DOS SANTOS
Unicamp
[email protected]
Terra Livre
Resumo
Resumo:: A re-estruturação das forças produtivas é uma das
possibilidades encontradas pelo capital e seus empresários para o
enfrentamento das chamadas crises cíclicas ou estruturais do
capitalismo. Ocorre com o aprofundamento do processo de
concentração e centralização de capitais. A crise também é das
cidades, e pode ser vista no cotidiano de seus moradores pelo
recrudescimento da exclusão e da segregação sócioespacial. Há, no
entanto, uma articulação da diversidade de ações responsáveis pelos
usos do território, sendo, portanto, fundamental compreender o
significado dessas ações empreendidas pelos diversos agentes e
sujeitos e como as mesmas subordinam-se ou não às formas
hegemônicas de regulação contemporâneas. A dialética de
reestruturação das cidades compreende não apenas as formas
hegemônicas de produção do espaço urbano, mas, também outras
possibilidades, relacionadas aos agentes e sujeitos não-hegemônicos
e mesmo às subjetividades e que, embora subordinadas aos
processos estruturais, têm também um importante papel no
desenvolvimento de formas de uso e, portanto de reorganização
dos lugares, a partir das “cotidianidades” estabelecidas, muitas
vezes relacionadas ao surgimento dos chamados “contra-poderes”.
Palavras-chave: Crise, re-estruturação produtiva e espacial,
sociedade civil, participação popular, resistência.
Abstract
Abstract: The restructuring of the productive forces is one of the
possibilities found by capital and its entrepreneurs to face the socalled structural or cyclical crises of capitalism. Occurs with the
deepening of the process of concentration and centralization of
capital, so with. Cities capitalists also participate in this process,
which is also a crisis of cities, and can be seen in everyday life of its
residents, the recrudescence of exclusion and spatial segregation.
There is, however, an articulation of the diversity of responsible
actions by the uses of the territory, and is therefore essential to
understand the significance of these actions taken by various
players and how the same subject and subordinate to or not to
hegemonic forms contemporary regulation. The dialectical
restructuring of cities includes not only the hegemonic forms of
production of urban space, but also other possibilities related to
the agents and subjects and even non-hegemonic subjectivities and,
although subordinated to the structural processes have an
important role in developing ways to use and therefore
reorganization of places, from “everyday” set, often related to the
emergence of so-called “counter-powers.”
Resumé: La restructuration des forces productives est l’une des
possibilités trouvé par le capital et ses entrepreneurs à faire face
aux crises dites structurelles ou conjoncturelles du capitalisme. Se
produit avec l’approfondissement du processus de concentration et
centralisation du capital. La crise est aussi dans les villes, et peut
être vu dans la vie quotidienne de ses habitants par la résurgence
de l’exclusion et la ségrégation spatiale. Il ya, cependant, une
articulation de la diversité des actions responsables par les
utilisations du territoire, et il est donc essentiel de comprendre
l’importance de ces mesures prises par les différents acteurs et
comment le même sujet et qui lui sont subordonnées ou non
contemporaine formes hégémoniques de la réglementation. La
restructuration dialectique des villes comprend non seulement les
formes hégémoniques de la production de l’espace urbain, mais
aussi d’autres possibilités liées à des agents et des sujets et même
non hégémonique subjectivités et, bien que subordonné aux
processus structurels ont un rôle important dans le développement
des moyens à utiliser et donc la réorganisation des lieux, de «tous
les jours” set, souvent liées à l’émergence de ce qu’on appelle «contrepouvoirs.”
Mots-clés
Mots-clés: crise, de restructuration et de l’espace productif, la
société civile, la participation populaire, la résistance.
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 69-78
Jan-Jun/2010
69
SANTOS, R. C. B.
AS
CIDADES E A URBANIZAÇÃO
...
APRESENT
AÇÃO
PRESENTAÇÃO
Este artigo foi escrito para a Mesa Redonda que tem por título: Por uma Leitura
Crítica sobre as Cidades Contemporâneas e será apresentado durante o XVI Encontro
Nacional de Geógrafos, organizado pela Associação dos Geógrafos Brasileiros, em Porto
Alegre, em julho de 2010. A Mesa em questão faz parte do Eixo o2: Escalas da Crise:
Fragmentação e T
otalidade. O tema geral do Encontro é: “CRISE,
CRISE, PRÁXIS E AUTONOTotalidade.
MIA: ESP
AÇOS DE RESISTÊNCIA E DE ESPERANÇAS”
ESPAÇOS
INTRODUÇÃO:
ALGUMAS QUESTÕES TEÓRICAS
Quando pensamos ou indagamos sobre as cidades na contemporaneidade ou sobre as
tendências na estruturação das mesmas nos ocorre algumas hipóteses sobre a articulação
entre a reorganização, a regulação e o uso do território com a re-estruturação das forças
produtivas para acirrar ainda mais a centralização, a acumulação e a concentração de
capitais. Esta re-estruturação é uma das possibilidades encontradas pelo capital e seus
empresários para o enfrentamento das chamadas crises cíclicas ou estruturais do capitalismo. A re-estruturação bem sucedida, na ótica do capitalismo, ocorre com o aprofundamento
do processo de concentração e centralização de capitais, portanto com muitas baixas entre
o empresariado dos setores produtivo ou financeiro e com graves consequências para a
população trabalhadora, com a diminuição dos níveis de emprego e de salários.
As cidades capitalistas participam deste processo de re-estruturação produtiva e as
diversas faces da crise - que é também crise das cidades - bem como, as consequências de
seu enfrentamento pelos grupos hegemônicos, podem ser vistas no cotidiano das cidades,
através do recrudescimento da exclusão e da segregação sócioespacial, para ficarmos apenas com alguns exemplos.
Contudo, há uma solidariedade contraditória na estruturação dos espaços das cidades, que se realiza pela articulação da diversidade de ações responsáveis pelos usos do
território. É fundamental compreender o significado dessas ações empreendidas pelos diversos agentes e sujeitos e como as mesmas subordinam-se ou não (possibilidades de resistência) às formas hegemônicas de regulação contemporâneas.
A dialética de reestruturação das cidades compreende não apenas as formas
hegemônicas de produção do espaço urbano, mas, também outras possibilidades, relacionadas aos agentes e sujeitos não-hegemônicos e mesmo às subjetividades e que, embora subordinados aos processos estruturais, têm também um importante papel no desenvolvimento de formas de uso e, portanto de reorganização dos lugares, a partir das
“cotidianidades” estabelecidas, muitas vezes relacionadas ao surgimento dos chamados “contra-poderes”.
Milton Santos (1994) entende o espaço geográfico como um sistema indissociável e
solidário de objetos e de ações mediatizados por normas.. Este entendimento pode nos ser
útil., pois as normas (socialmente produzidas: hegemônicas ou não) conduzem as ações
realizadas pelos indivíduos. Os objetos geográficos são, não apenas os instrumentos utilizados pelos indivíduos para o agir, mas são também produzidos ou reproduzidos pela sociedade, a partir de determinadas intenções, tendo, assim, determinadas funções, relacionadas
àquelas intenções, ou podem ter suas formas refuncionalizadas, representativas de novas
funções, modificadas através de processos relativos a uma determinada estrutura sócioeconômica, que, sendo capitalista, será, portanto, sempre contraditória e produtora e
reprodutora de crises conjunturais e/ou estruturais.
Assim, o espaço geográfico pode ser visto como o lugar onde as relações homemobjeto tomam forma. Estamos falando da relação dialética entre trabalho-morto e trabalho-vivo. “O trabalho morto, sobre o qual se exerce o trabalho vivo, é a configuração geográfica e os dois, juntos, constituem exatamente, o espaço geográfico.” (Santos, 1994, p.115)
O que estamos querendo frisar aqui é o entendimento do espaço geográfico como
70
Terra Livre - n. 34 (1): 69-78, 2010
instância social, isto é, como um dado do próprio processo social, atuando ou interagindo
para que se dêem as transformações na sociedade.
Como questiona Harvey (2005), qual é o papel da urbanização na transformação
social sob as relações sociais e de acumulação capitalistas? De acordo com este autor, a
paisagem física e social da urbanização é moldada por critérios capitalistas distintos, o que
impõe limites ao desenvolvimento capitalista. Harvey trabalha com a ideia de relação
entre reciprocidade e dominação, isto é, o processo de criação da cidade é, ao mesmo tempo,
produto e condição dos processos sociais que conduzem às transformações recentes no mundo
contemporâneo.
O espaço geográfico é, assim, a materialização da sociedade, a partir das transformações produzidas pela mesma no próprio espaço, a partir de uma base territorial pré-existente (historicamente determinada). Materialização de formas e de tempos históricos, produzindo uma formação sócio-espacial, na qual diversos tempos estão inscritos em um mesmo momento histórico e resultante do desenvolvimento desigual e combinado das forças
produtivas e das transformações nas relações sociais de uma dada sociedade.
A formação sócio-espacial concretiza-se no lugar
lugar,, isto é, no território circunscrito em
um lugar. “É o lugar que oferece ao movimento do mundo a possibilidade de sua realização
mais eficaz. Para se tornar espaço
espaço, o Mundo depende das virtualidades do Lugar.” (Santos,
1996, p. 271)
O tratamento geográfico da cidade passa por esta revisão teórica. A cidade é, assim,
compreendida como uma situação espacial caracterizada pela concentração de uma dada
sociedade em um lugar, de modo a maximizar no mesmo a densidade e a diversidade de
interações. (Levy, 1999)
A cidade é fundamentalmente um conceito espacial. É uma configuração geográfica
particular fundada na copresença, ou seja, é o lugar onde ocorre a concentração de uma
dada sociedade, maximizando a densidade e a diversidade de interações sociais, estabelecendo-se diferentes níveis de urbanidade (Levy, 1999). Isto permite que a cidade seja um
lugar privilegiado onde o exercício da cidadania pode ser aprimorado, já que ela é o meio de
existência para a maior parte das pessoas (Santos, 1987).
A compreensão da dimensão espacial da vida em sociedade permite desvendar os
segredos da cidade, que pode ser vista como uma estrutura produtiva, em fase com as
outras estruturas produtivas.
Por isso é importante considerar a forma diferenciada e combinada com que o processo de acumulação incorpora o campo. Daí a importância da economia política que nos ajuda
a desvendar estes processos. (Santos, 1996)
A partir de sua configuração produtiva, a cidade inserida em uma determinada divisão sócio-territorial do trabalho, estabelece uma dinâmica de relacionamento com os demais lugares. A cidade deve ser compreendida como um fenômeno dentro de uma dinâmica
regional,, ou seja, se estrutura e se relaciona com as demais cidades em diferentes escalas:
local, regional, nacional e mesmo internacional e participa de uma dinâmica da sociedade
que interage com esta estrutura urbana, a partir dos diferentes tipos de solidariedade que
se estabelecem relacionados à divisão sócio-territorial do trabalho.
As ações solidárias e contraditórias se estabelecem na constituição dos lugares a
partir de relações hegemônicas e hegemonizadas, em parceria ou em luta contra as primeiras. As ações hegemonizadas ocorrem no chamado espaço banal, assim denominado por
François Perroux, referindo-se às contiguidades, em contraposição às redes, domínio das
relações hegemônicas. A esse respeito, Santos (1996), alerta que: “Além das redes, antes
das redes, apesar das redes, depois da redes, com as redes, há o espaço banal, o espaço de
todos, todo o espaço, porque as redes constituem apenas uma parte do espaço e o espaço de
alguns.” (Santos, 1996, p.16).
Este mesmo autor argumenta que os mesmos lugares constituem-se no “espaço das
redes” ou no “espaço banal”, mas têm diferentes funções, às vezes divergentes e até opostas. As ações ou as possibilidades de empreendimento de ações pelos grupos subordinados
pela opressão causada pela hegemonia da ordem capitalista ocorrem no espaço banal – o
espaço de todas as pessoas, de todas as empresas e de todas as instituições. (Santos, 1996).
71
SANTOS, R. C. B.
AS
CIDADES E A URBANIZAÇÃO
...
O espaço banal é o da relação comunicativa entre os lugares e as pessoas. Já o espaço
das redes corresponde a imposição de arranjos organizacionais baseados em racionalidades
de origem distantes vindas através da informação, sobretudo. No primeiro caso, os lugares
se organizam a partir da solidariedade, no segundo a solidariedade é produto da organização.
Estas argumentações corroboram a ideia de que a crise é, também, a crise das
cidades inseridas no processo de urbanização capitalista. Fazem parte das crises estruturais inerentes ao desenvolvimento contraditório do capitalismo, relacionadas aos limites
para a realização do capital. Nas cidades prevalecem os interesse dos grupos empresariais
que detém o monopólio sobre a produção do espaço urbano. A solidariedade capitalista atua
no sentido da valorização da terra urbana, o que faz com que o acesso à mesma, a partir
das leis do mercado, seja reprodutor das desigualdades, aprofundando a segregação urbana ou socioespacial. É este o nome que devemos dar à crise das cidades inseridas no modo
de produção capitalista.
APROPRIAÇÃO
DO ESP
ESPAÇO
AÇO URBANO E POSSIBILIDADES DE RESISTÊNCIA
Contudo, há outras formas de apropriação do espaço da cidade, por meio das ações de
grupos não hegemônicos, ou socialmente excluídos, criando novas espacialidades/
territorialidades, como as ocupações de terrenos ociosos públicos ou privados, ou mesmo as
favelas.
A cidade é, assim, o lugar privilegiado para ocorrer a convergência de momentos,
com a condensação de interesses convergentes e divergentes que se concretizam em ações.
Estas ações relacionam-se com os modos de vida, com a precariedade ou não das condições
de existência, com a forma como os indivíduos vivem o seu cotidiano e podem interpretar
estas situações – de forma individual ou coletiva. As experiências vividas no presente,
redefinidas por acontecimentos vivenciados anteriormente, devem apontar para o futuro.
Com relação às experiências, vale a pena frisar que não se trata de mera somatória de
experiências anteriores: as lutas do passado são referencias importantes, mas o presente
apresenta algo de novo quando se redefinem as forças sociais, gerando espaços para desdobramentos futuros.
Por isso, é preciso politizar o discurso sobre o urbano, com o alargamento da esfera
do político, para se poder entender a dinâmica transformadora. As possibilidades de atuação dos diversos agentes e sujeitos produzem esta dinâmica. Estes agentes fazem parte do
governo, e da sociedade civil. Mas o que é exatamente a sociedade civil? Quais as diferenças
entre Estado, governo e sociedade civil?
E de que Estado estamos falando? O Estado democrático? Mas o que é democracia? É
preciso redefini-la? Refundar a democracia? Democracia renovada? Democracia
participativa? Com participação popular? Quais as possibilidades para a mesma? Quais os
limites para o alargamento da esfera do político?
Na análise que propomos, baseando-nos em Gramsci (1972), o Estado, não é considerado um instrumento, nem a encarnação de uma classe, mas a condensação material e
histórica de relações de força, que possibilitam a concretização de conjunturas políticas
diversas, que levam às diferenciações regionais e locais. O que está em discussão é o deslocamento da base histórica do Estado. A sociedade pode conservar ou perder a sua hegemonia
na luta contra o novo, ou como expressão do novo, para destruir as resistências que encontra em seu desenvolvimento. Esta concepção constata que a força por si só não basta para o
exercício do poder. Só é possível exercê-lo se, além das relações de força, a classe dominante
obtém o consenso dos grupos sociais que lhe estão próximos ou são seus aliados. A hegemonia
realiza-se dentro de um determinado “bloco histórico” (Macciochi, 1977).
Propomos uma reflexão sobre o cotidiano dos moradores da cidade referenciado também pelas ações do Estado e do governo, enfatizando que estes termos não são sinônimos. A
identificação liga-se à confusão que se faz entre sociedade civil e sociedade política. Nesse
sentido, o Estado é maior do que o governo, pois representa a sociedade política juntamente
com a sociedade civil, sendo que a hegemonia da sociedade política sempre aparecerá
72
Terra Livre - n. 34 (1): 69-78, 2010
revestida de coerção.
A sociedade política procura exercer a direção e manter a liderança ideológica sobre
a sociedade civil. Através da ideologia enfim, se exprime o poder de uma classe. O reino da
ideologia “é uma prisão de mil janelas... cuja força reside menos na coerção que no fato de
que suas grades são tanto eficazes, quanto menos visíveis se tornam. É esse ato da vida do
Estado que Gramsci busca elucidar.” (Macciochi, 1977, p. 151).
Existe uma ética da sociedade civil na concepção burguesa que é a do mercado, que
pode cumprir da melhor maneira possível o papel de regulador universal das atividades
entre os homens. Portanto, a sociedade civil reproduziria a relação social que assegura a
superioridade da classe hegemônica, isto é, da burguesia.
“Isto permite canalizar institucionalmente a demanda social de grupos e de classes
fragilizadas e de fragmentá-las. É fácil cooptar certas organizações voluntárias, religiosas
ou laicas, sobretudo nas ações de alívio à pobreza.” (Houtart, 2003, p. 312).
a concepção popular de sociedade civil, a chamada sociedade civil de baixo, a mesNa
ma é representada pelos grupos sociais mais desfavorecidos ou oprimidos. Para esta concepção a sociedade é entendida através das relações sociais que produzem as desigualdades. As instituições e organizações existentes na sociedade podem representar interesses
de classes divergentes.
Os grupos dominantes, por exemplo, agem mundialmente, utilizando os Estados para
controlar as populações e a sociedade civil. Isto pode ser feito através de limitações dos
fluxos imigratórios provenientes de países pobres para os mais ricos, ou dos apoios aos
tratados de livre mercado, às privatizações da seguridade social e dos serviços de saúde, às
reformas jurídicas do ensino, à diminuição de subsídios para a pesquisa social e de apoio às
organizações populares, à imposição de tutela sobre as ONGs etc. (Houtart, 2003).
Esta sociedade civil de baixo está na base das resistências que, atualmente, se organizam e se mundializam. Luta pela cidadania para aqueles que foram dela excluídos.
Boaventura Souza Santos (1999) é de opinião que, na contemporaneidade, a sociedade civil parece estar, por toda parte, a reemergir do jugo do Estado e a autonomizar-se em
relação a ele, capacitando-se para o desempenho de funções que antes estavam confiadas
ao Estado.
É delegada à sociedade civil a organização dos novos movimentos sociais (ecológicos,
antinucleares, pacifistas, feministas). Seria uma sociedade civil pós-burguesa e
antimaterialista. Esta última concepção de sociedade civil não foi pensada através da distinção Estado/ sociedade civil tal como esta se constitui historicamente.
Este autor pergunta como foi possível a noção do “econômico” como um domínio separado e autônomo e das correspondentes noções do “político” e do “jurídico” como atributos exclusivos do Estado? Discute que no capitalismo o trabalho necessário e o sobretrabalho
reproduzem-se por si, na esfera privada da fábrica. Parece assim que, não compete ao
Estado e à política lidar com as relações de produção que seria uma questão econômica e
privada entre indivíduos privados dentro da sociedade civil.
Esta seria a origem da concepção liberal de separação entre Estado e sociedade civil.
Para ele, a separação entre o político e o econômico permitiu, por um lado, a naturalização
da exploração econômica capitalista.
A SOCIALIZAÇÃO DAS
POLÍTICAS NA LUT
LUTA
A PELO DIREITO À CIDADE
No atual momento, o de mundialização da economia capitalista, evidencia-se o caráter hegemônico das empresas transnacionais, e as fronteiras deixam de ser uma barreira
para as relações econômicas. Esta nova dinâmica de funcionamento das empresas permite
que se formule perguntas em relação ao destino do Estado-nação, na contemporaneidade.
(Santos, 1994).
Inúmeras vezes vimos o setor estatal auxiliando o setor privado através da concessão de subsídios, liberações de impostos e taxas ou, mesmo, particularmente no período
néo-liberal, promovendo privatizações de empresas públicas que podem ocorrer de acordo
com critérios facilitadores para o grande capital, definidos pelo Estado. Com isso, muitos
73
SANTOS, R. C. B.
AS
CIDADES E A URBANIZAÇÃO
...
dos serviços públicos (principalmente na área de infraestrutura) que tradicionalmente eram
oferecidos pelo Estado, tornaram-se responsabilidades de empresas particulares, passando
a ser administrados pela ótica do lucro e não pela do atendimento das necessidades sociais
não-mercantis.
A conscientização a respeito de direitos sociais não garantidos pode criar as possibilidades para se lutar por eles, levando à uma maior inserção da sociedade no setor estatal
– a socialização da política, que pressiona para mudanças na orientação das políticas públicas. O seu oposto, isto é, contentar-se com a garantia de direitos individuais representa
a manutenção do status quo, ou seja, não há perspectivas para mudanças sociais.
Os direitos individuais são aqueles considerados fundamentais e relacionados à cidadania cívica e política na democracia representativa (direito à propriedade, igualdade
perante a lei, direito de ir e vir, direito de expressão, livre-escolha, votar e ser votado). Sem
dúvida, são importantes, e caracterizam a sociedade efetivamente democrática. Representam a garantia de uma sociedade burguesa separada do Estado – de acordo com os ideais
liberais das revoluções burguesas do século VXIII. É através da luta por direitos sociais –
relacionados à cidadania social – que a sociedade penetra no Estado. É a partir da transformação da questão social em questão de direito que ocorre a integração do Estado com a
sociedade civil.
O aprofundamento das contradições urbanas pode contribuir para acirrar as pressões exercidas pelas camadas populares contra o Estado. Contudo, isso não significa que
elas estejam, por si só, na origem dos movimentos sociais. A relação não é linear ou mecânica, se assim o fosse, toda situação de carência de serviços, de bens ou de infraestrutura
geraria uma reação de pressão que poderia, no limite, conduzir a transformações sociais.
Graves problemas urbanos sempre existiram. Em muitos países latino-americanos com
desenvolvimento industrial igualmente tardio o processo de crescimento econômico não foi
acompanhado de desenvolvimento social, e conseqüentemente, urbano. Em alguns casos,
como em São Paulo ou Bogotá a situação piorou a partir da década de 50. Kowarick (2000)
analisa que as lutas urbanas não podem permanecer isoladas no âmbito da acessibilidade
aos bens de consumo coletivo, acesso à terra ou à habitação. É preciso relacioná-las à
pauperização proveniente das relações de trabalho. São situações que se encontram e desse
encontro pode ocorrer a fusão de conflitos e de reivindicações.
A segregação socioespacial pode exemplificar bem esta discussão – a da transformação da questão social em questão de direito. Uma política urbana para ser eficiente em
relação a seus objetivos sociais deve alterar os mecanismos da dinâmica especulativa responsável pela escassez social da terra urbanizada. Através da produção elitizada, o capital
imobiliário produz e vende a escassez. A segregação socioespacial é, assim, gerada pela
disputa por espaços da cidade, aqueles onde as condições urbanas de vida são melhores,
serão os mais caros. A política da escassez social da terra é produzida pela lógica fundiária
e relaciona-se à venda da diferenciação material e simbólica do espaço urbano, baseadas na
existência de uma profunda desigualdade social, aprofundada com o encarecimento da terra e da moradia.
A pauperização e a espoliação urbana (Kowarick, 2000) abrem possibilidades para
novas frentes de luta como aquelas pelo direito ao espaço geográfico ou à cidade, tendo em
vista que, invariavelmente, as intervenções do poder público são realizadas de acordo com
os interesses de grupos hegemônicos. Portanto, como bem interpreta Saule Jr. (1993), a
tendência é de não se priorizar investimentos sociais e não se implementar políticas públicas, conforme as necessidades sociais e em áreas essenciais como saúde, saneamento, educação, habitação e transporte, a não ser quando estes investimentos convergem com os
interesses dos grupos empresarias. O poder público tende a reproduzir um modelo de gestão centralizador e tecnocrático, que privilegia o atendimento a setores detentores de poder
econômico, especialmente o capital imobiliário.
Harvey (2005) analisa este mesmo processo, a partir da mudança do gerenciamento
para o empresariamento ocorrida dos anos 60 para os anos 70/80, em uma onda
neoconservadora, relacionada às dificuldades que atingiram as economias capitalistas a
partir de 1973, o que acarretou a desindustrialização, os desempregos estruturais, a auste-
74
Terra Livre - n. 34 (1): 69-78, 2010
ridade fiscal, e fortes apelos à racionalidade do mercado e à política de privatizações: as
cidades passam a possuir um comportamento empresarial em relação ao desenvolvimento
econômico, formulando-se políticas urbanas e estratégias de crescimento urbano, com o
intuito de se beneficiarem de novos investimentos.
O espaço urbano produzido por este modelo guarda as marcas da exploração da força
de trabalho e da não fixação de uma efetiva política social. Os discursos de necessidade de
modernização ou de ajustes econômicos macro-estruturais (como os realizados por exigência do FMI e do Banco Mundial) tentam justificar as opções. Talvez porque, uma das tendências marcantes desta fase contemporânea seja a redução progressiva da parcela da
economia controlada de dentro do país. O comando externo é cada vez maior em virtude da
ampliação do campo de ação das transnacionais, e o Estado precisar desenvolver pesados
esforços para contrariar essa influência desagregadora. (Santos, 1979)
Nesta mesma direção, Harvey (2005) pondera sobre a maior ênfase na ação local
relacionada também ao declínio do poder do Estado-Nação no controle do fluxo monetário
multinacional, negociados entre o Capital financeiro internacional e os governos locais, os
quais procuram maximizar a atratividade local. Para ele a urbanização deveria ser considerada como
“um processo social espacialmente fundamentado, no qual uma amplo leque de atores, com objetivos e compromissos diversos, interagem por meio de uma configuração específica de práticas sociais entrelaçadas. Em uma sociedade vinculada por classes, como a
sociedade capitalista, estas práticas sociais adquirem um conteúdo de classe definido, o
que não quer dizer que todas as práticas sociais possam assim ser interpretadas,” (HARVEY,
2005, p. 170).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sob o capitalismo há que se considerar a questão da hegemonia, que está com as
classes relacionadas à circulação do capital, à reprodução da força de trabalho e das relações de classe e à necessidade de controle da força de trabalho. Para a reversão deste quadro é necessário o envolvimento da sociedade civil em um projeto de modificação radical da
realidade social.
No Brasil, com o Estatuto da Cidade, que reconheceu como direito subjetivo o direito
à moradia de quem estiver na posse de uma área urbana pública atendendo os mesmos
requisitos do usucapião urbano, o poder público passou a dispor de vários instrumentos
para a reforma urbana, disciplinando o regime de propriedade, intervindo para que o exercício desse direito esteja voltado para beneficiar a coletividade, com base no princípio da
função social da propriedade.
Nesse sentido, a reforma urbana pode contribuir para a efetivação da cidadania, que
só ocorrerá com a execução de uma política urbana comprometida em assegurar a todo
cidadão condições de vida digna e justiça social. A execução desta política urbana dependerá de como evoluirão as relações entre poder público e sociedade-civil. Mesmo porque conforme ressalta o Fórum Nacional de Reforma Urbana, no Texto Base para a 3ª Conferência
Nacional das Cidades, Desenvolvimento Urbano com Participação e Justiça Social: Avançando na Gestão Democrática das Cidades, de 2007, estas conquistas são importantes para
o movimento pela reforma urbana brasileira que tem como principais bandeiras a garantia
e a institucionalização da participação popular na gestão democrática das cidades e a garantia do acesso a terra urbanizada com base no princípio da função social da propriedade
imobiliária.
Mas os resultados destas conquistas ainda são pequenos, em termos de mudanças
significativas na qualidade de vida da população, na cultura política e na forma de gestão
das cidades brasileiras com participação popular, e expressam um processo em construção
e com muito a ser aperfeiçoado.
Há, portanto, um evidente descompasso entre aquilo que é proposto e executado e o
resultado final. Este resultado é a síntese de múltiplas determinações, ou seja, no espaço as
contradições entre os objetivos, as propostas e as ações dos diferentes agentes se materia-
75
SANTOS, R. C. B.
AS
CIDADES E A URBANIZAÇÃO
...
lizam nas diferentes formas de uso e ocupação. A realidade, ou em outras palavras, a dinâmica da sociedade para sermos mais precisos, acaba se impondo a médio e a longo prazos.
As ações dos técnicos e daqueles que exercem os poderes econômico e político, muitas vezes
de cunho apenas tecnocrático, podem se sobrepor, num determinado período de tempo,
permitindo supor que o exercício desses poderes é inquestionável e nada mais nos resta –
enquanto sociedade civil – a não ser nos curvarmos diante de tão fortes desígnios.
Desígnios que utilizam o planejamento para moldar o espaço geográfico, já que este
possui uma forma que se pretende adequada a um determinado processo de organização,
que é sempre político. O planejamento é um instrumento importante para essa adequação.
Muitos crêem se tratar de um instrumento meramente técnico, o que é um equívoco. Pois,
a forma que se pretende é definida ideologicamente dentro de um determinado bloco histórico, que corresponde à hegemonia de uma determinada classe social, sendo que esta definição deve se dar na esfera pública, que é o lugar de mediação entre interesses privados e
a totalidade social.
A palavra hegemonia está sendo usada de acordo com o sentido dado por Gramsci
(1972), que foi o teórico marxista que melhor elaborou este conceito, inicialmente utilizado
por Lênin para indicar liderança política na revolução democrática. Gramsci desenvolve o
conceito de forma mais completa nos Cadernos do Cárcere, aplicando-o ao modo como a
burguesia estabelece e mantém a sua dominação.
Bottomore, utilizando as ideias gramscianas esclarece que: “Nas condições modernas (...) uma classe mantém o seu domínio não simplesmente através de uma organização
específica da força, mas por ser capaz de ir além de seus interesses corporativos estreitos,
exercendo uma liderança moral e intelectual e fazendo concessões, dentro de certos limites,
a uma variedade de aliados unificados num bloco social de forças (...) bloco histórico. Este
bloco representa uma base de consentimento para uma certa ordem social, na qual a
hegemonia de uma classe dominante é criada e recriada numa teia de instituições, relações
sociais e idéias.” (Bottomore, 2001 p. 177)
Ou seja, é no âmbito do Estado, portanto, que se estabelecem os relacionamentos
entre interesses divergentes que darão o conteúdo para as formas espaciais. Elas poderão
ser mais ou poderão ser menos excludentes, ou segregacionistas dependendo das características daquele “bloco histórico”.
Portanto, o que está sendo ressaltado aqui é que as formas de ocupação do solo nas
cidades e mesmo a definição de políticas habitacionais decorrem da intermediação de diferentes interesses: dos proprietários fundiários, das empresas de construção civil, do “promotor imobiliário”, do incorporador, do poder público, da população envolvida através de
movimentos organizados, ou não.
Encerramos lembrando a proposição de Boaventura Souza Santos (1999), a respeito
da “repolitização global da prática social” no rumo para a democracia renovada com participação popular por meio dos movimentos organizados, que podem abrir um canal de comunicação com o poder público e os seus técnicos, permitindo que o planejamento urbano
reflita a ampliação do campo do político, a partir de relações de autoridade partilhada. Só
assim poderemos enfrentar e vencer a crise das cidades, ou seja a produção e a reprodução
de formas espaciais segregacionistas.
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MACCIOCHI, M. A favor de Gramsci. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
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77
SANTOS, R. C. B.
78
AS
CIDADES E A URBANIZAÇÃO
...
“DESIMAGINANDO”
MUNDO PELAS
O
MARGENS DO
“DESMUNDO”:
AÇO
PENSANDO O ESP
ESPAÇO
EM “ DOBRAS” DA
LITERA
TURA E DO
ITERATURA
CINEMA
“DE-IMAGINING” THE
WORLD BY THE
MARGINS OF “DEWORLD”: THINKING
SPACE
ACE IN FOLDS
THE SP
OF THE LITERA
ITERATURE
TURE
AND CINEMA
“DESIMAGINANDO”
EL MUNDO POR LAS
IMÁGENES DEL
“DESMUNDO”:
PENSANDO EL
ESPACIO
ESP
ACIO EN “DOBLAS”
DE LA LITERA
ITERATURA
TURA Y
DEL CINEMA
JONES DARI GOETTERT
AGB DOURADOS
FCH-UFGD
[email protected]
Terra Livre
Resumo: Um texto em margens e dobras. Partindo de narrativas e
de imagens da Literatura e do Cinema (em especial dos livros “Livro
de pré-coisas”, “O deus das pequenas coisas” e “O último voo do
flamingo”, e dos filmes “Babel”, “Caché” e “Terra vermelha”),
procuramos “desimaginar” o Mundo “Maiusculinizado” do Modo de
Produção Capitalista: sua Cultura, seu Tempo, seu Espaço e seu
Corpo. Em contrapartida, misturamos margens e dobras de
culturas, de tempos, de espaços e de gentes de “desmundos”, em
movimentos de palavras e de imagens, em escrituras elas mesmas
em margens, em dobras. O movimento do movimento, porque, aqui,
em um processo de dobrar, desdobrar e redobrar práticas e
representações de mundos, começos e fins se misturam em meios
que esperamos continuem, sempre, abertos, dobráveis.
Palavras-chave
Palavras-chave: Mundo; Espaço; Imagens; Representações; Dobras.
Abstract: A text in margins and folds. Starting from narratives
and images from Literature and Cinema (especially from the books
“Livro de pré-coisas”, “O deus das pequenas coisas” and “O último
voo do flamingo”, and from the films “Babel”, “Caché” and “Terra
vermelha”), we tried to “de-imagine” the “Capital-Letter-Manned”
World (“Maiusculinizado” World) from the Capitalist Production
Mode: their culture, their time and their body. As a contrast, we
mixed margins and folds as for culture, times, spaces and people
from “de-worlds” in motion of words and images, in scriptures about
themselves in margins, in folds. The movement of the movement
since here in a process of folding, unfolding and refolding practices
and representations of the worlds, beginnings and endings are
mixed together by means of what we expect to continue always
open, foldable.
Key words
words: World; Space; Images; Representations; Folds.
Resumen: Un texto en márgenes y doblas. Partiendo de narrativas
y de imágenes de la Literatura y del Cinema (en especial de los
libros “Livro de pré-coisas”, “O deus das pequenas coisas” y “O último
voo do flamingo”, y de los filmes “Babel”, “Caché” y “Terra
vermelha”), buscamos “desimaginar” el Mundo “Maiusculinizado”
del Modo de Producción Capitalista: su Cultura, su Tiempo, su
Espacio y su Cuerpo. Por otro lado, mezclamos márgenes y doblas
de culturas, de tiempos, de espacios y de personas de “desmundos”
en movimientos de palabras y de imágenes, en escrituras ellas
mismas en márgenes, en doblas. El movimiento del movimiento,
porque, aquí, en un proceso de doblar, desdoblar y redoblar prácticas
y representaciones de mundos, empiezos y fines se mezclan en
medios que esperamos que sigan, siempre, abiertos, plegables.
Palabras-clave
Palabras-clave: Mundo; Espacio; Imágenes; Representaciones;
Doblas.
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 79-108
Jan-Jun/2010
79
GOETTERT, J. D.
ASP
AS NÃO
SPAS
“DESIMAGINANDO”
SE FECHAM...
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
ABREM.
Primeiras aspas
Começar pelas palavras talvez não seja coisa vã.
As relações entre os fenômenos deixam
marcas no corpo da linguagem.
(Alfredo Bosi)
O “[...] narrador não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva”, “É que
a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção”, escreveu Walter Benjamin
(1993 [anos 1930], p. 197) há já um bom tempo. Mas o narrador, de que fala Benjamin, teria
desaparecido de qual Mundo? Do Mundo do Centro, daquele no qual a História Única tornou revogáveis todas as estórias não-História? Não teria sido possível “desmapear” aquele
mesmo Mundo e “ruar” sem destino, como escreveria décadas depois Mia Couto (2005, p.
101 e 114), que, “Para afastar as más nuvens, sugeri que ruássemos por ali, desmapeados e
sem destino”, para “ir lá onde não sombra, nem mapa”?
“Deus está morto”, escreveu Friedrich Nietzsche (1995 [1882...]) antes mesmo do fim
do narrador, de Benjamin. Mas era, pensaria Nietzsche, porque o Deus daqueles séculos e
até milênios todos ia anunciando que, para construir a Religião do Centro, a única alternativa era a crença nas Grandes Coisas e a ocultação da vida nas coisas pequenas? Não teria
sido possível apenas que um deus das pequenas coisas “desgovernasse” aquela Metamorfose horrenda, que deixava as gentes pequenas com uma carcaça grande segurando três
patinhas enfileiradas em cada lado (“Não há nada mais grotesco, pensou, “do que acordar
cedo. O ser humano precisa dormir o suficiente” [Kafka, 2003, p. 9]), para, em seguida, ver
reproduzir “Onde ancestrais pálidos com unhas dos pés duras e hálito cheirando a mapas
amarelados sussurravam sussurros de papel. [...] Onde lagartos translúcidos viviam atrás
de pinturas a óleo. [...] Onde sonhos eram capturados e ressonhados”? (Roy, 2008, p. 315).
Sem narrador e sem Deus, tudo virou economia, até o Homem: homo economicus,
fazendo todo Espaço e todo Tempo à sua imagem e semelhança (Marx, 1975)... Mas não
haveria sequer cacos de espaço e de tempo meio resistentes à economia do homem, nem
que fosse, “perdão”, no oco do mundo, lá de onde veio Bernardo? “Venho do oco do mundo.
Vou para o oco do mundo. [...] Porque já desde nada, o grande luxo de Bernardo é ser
ninguém. Por fora é um galalau. Por dentro não arredou de criança. É ser que não conhece
ter. Tanto que inveja não se acopla nele” (Barros, 2007, p. 47-48).
Porque se a esperança virou ideologia, é necessário “desesperançar” o Mundo para
fazer das dobras/margens desse mesmo Mundo os “desmundos” de tempos e espaços de
esperança (cf. Harvey, 2004). “Desmundar” o Mundo pelas margens da linguagem, das
imagens, das representações e das poesias da literatura e do cinema. Do “moçombicano”
Mia Couto (seus vôos [2005]). Do “deslimitado pantaneiro” Manoel de Barros (suas précoisas [2007]). Da “indiazinha indiana” Arundhati Roy (suas pequenas coisas [2008]). De
“Babel”, sua “polifonia dos espaços” (em aproximação a Guattari, 1992, p. 157) e dos tempos. De “Caché”, suas “clarividências” e “ocultações”. De “Terra vermelha”, como de a terra
das gentes saíste e às gentes voltará...1
Arrisco apenas, agora, anunciar o Encontro. E não dizer Adeus. Para que, assim
como quiseram todas e todos acima, fique tudo meio aberto, entrecortado, como uma dobra
para redobrar, desdobrar. Até porque, se as aspas não se fecham, abrem, então que este
texto seja um grande “entreaspas”. Sem limites, “deslimitado”. E que possa ajudar a
“desimaginar” o Mundo, a “desglobalizar” a Globalização... e a “dessonhar” o Sonho do
Progresso e em seu lugar sonhar outros sonhos, outros espaços, outros tempos e outras
gentes, para além dos Indivíduos que consomem, para além dos Sonhos de Consumo. Existo, logo sonho.
1
No final do texto, em “Apêndice” e em referências, apontamos com maior precisão os três filmes e os três livros
que “suleiam” este texto
80
Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
“DESEMENT
AR” A
ESEMENTAR
2
EMENTA
A
EMENT
Dizer o mundo é condição necessária para agir no mundo.
Digo. Ajo. Enuncio. Anuncio. Digo, logo existo. Ajo, logo mundo. Log-in. Plugo.
Conecto. Estou na rede: existência ou “des-existência”? Usuário e senha. “Tem alguma coisa pra dá?” “Vc ta afim de sair hoje sim não eu to ou quer fazer sexo na rede :&”. Mas, de
qual mundo eu digo, tu diz, ele diz, nós dizemos, vós dizeis, eles dizem? Do mundo entre a
grade de minha casa de um lado o guaranizinho e de outro, eu? 3 Ou o mundo
webgooglehotmailblogonlineonpagesite.com.mundo? Respondo, no mundo primeiro: “Tem”.
Respondo, no mundo segundo: “Fui”... Que mundo?
Sim. Diferentes formas de linguagens, representações e tecnologias revelam e
ocultam dizeres sobre o mundo. O Modo de Produção Capitalista produz e reproduz suas
linguagens, representações e tecnologias. A linguagem do consumo: compro, logo existo. A
representação da vida: nascimento sem passado, a existência no trabalho, a dignificação no
futuro e o epitáfio derradeiro que ninguém mais tem tempo de ler: “Devia ter amado mais/
Ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito
o que eu queria fazer...” (“Titãs”, 2005). A tecnologia do poder: cada pessoa é um “panóptico”
(em aproximação a Foucault [1996; 2008]). Um indiozinho Guarani produz e reproduz suas
linguagens, representações e tecnologias. A linguagem dos velhos: a língua guarani silenciada. A representação pelo outro: “meu cachorro sumiu, só pode ter sido levado pelos índios”.
A tecnologia da sobrevida: “o quilo de mandioca ta um e cinquenta”.
Linguagens, representações e tecnologias que dizem o mundo. Ouvimo-las,
quais? Como são as linguagens, representações e tecnologias utilizadas/reinventadas para
dizer o mundo a partir da vontade de resistir e reapresentar as diferenças que o modo único
de pensar procura ocultar? Mundo, mundos. Os vasos comunicantes entre-mundos, comunicam-se? Comunicam? Não comunicam? Ou seria o caso de pensar – e dizer – em processos de “descomunicação”? É preciso, pois, “descomunicar” o Comunicado Oficial do Mundo.
É preciso uma “deslinguagem” para “desdizer” o Dito, “desrezar” a Oração Sagrada,
“dessacralizar” as Liturgias Canônicas e “desdesfazer” os “mal-ditos” Civilizatórios. É preciso “desdizer” o Mundo Único “desrepresentando-o” através da representação dos mundos
ocultados, escondidos, à margem/às dobras da temporalidade e da espacialidade lineares
do Progresso ad infinitum. “Deslimitar” o Mundo. “Destecnologizar” os processos de morte
em nome de tecnologias sociais “desracionalizantes”... “dessonhando” e re-sonhando o Mundo... em mundos.
Mas como “desdizer”, imaginar ou representar os mundos com os dizeres, imaginações e representações do nosso Mundo? Talvez seja o momento de “desembrenhar”
palavras, “descomer” frases, “descompor” poemas e “desengravidar” metáforas para “desdizer” o Mundo, pois, como ensinou Mia Couto (2005, p. 9), “o que passou só pode ser contado por palavras que ainda não nasceram”, ao passo que, digo eu, tudo o que está por
“desnascer” merece “despalavras” para nomear o “desnomeado”, “desdizendo” o jeito único
de dizer o Mundo.
Mia Couto (2005) “vocabolia”, “instantania”, “gentania”, “bazarinha”, “desfala”,
“labirintoa”, “desirmana”, “destece”, “metafisica”, “descapota”, “descompara”, “desmeretriza”,
“despoeira”, “nhenhenha”, “acachorra”, “desfarrapa”, “desmazela”, “desilusiona”,
“desmunda”, “desvive”, “apequenina”, “desacontece”, “terreia”, “tresandarilha”, “remoreja”,
“desconsegue”, “desilumina”, “inautoriza”, “varandeia”, “irrequieta”, “cabritrotea”,
“maldispunha”, “desconsegue”, “desdita”, “pedinchora”, “rua”, “desmapeia”, “desacrê”, “si2
Ementa para a mesa-redonda “Linguagens, Representações, Tecnologias e Resistência” (XVI ENG – Porto
Alegra – 2010): “Dizer o mundo é condição necessária para agir no mundo. O que diferentes formas de linguagens,
representações e tecnologias revelam e ocultam nos seus dizeres sobre o mundo? O que se quer dizer do mundo?
Como são as linguagens, representações e tecnologias utilizadas/reinventadas para dizer o mundo a partir da
vontade de resistir e reapresentar as diferenças que o modo único de pensar procura ocultar?”
3
Como em praticamente todas as ruas da cidade de Dourados (MS), a cada dia, em quase todas as horas.
81
GOETTERT, J. D.
“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
lhueta”, “desminage”, “indomestida”, “descomporta”, “devagarzita”, “desnegocia”, “redesiste”,
“desfinca”, “urgenta”, “despromove”, “enduvida”, “remoça”... Como “O último voo do
flamingo”, Mia Couto “desmia” e “descoita” palavras que “desnascem” para contar o “descontado” (, mas, curioso: o “descontado” de uma Geografia e de uma História reta, linear,
fragmentada e hegemônica; ou o “descontado” do que ainda está para ser contado, e cantado?).
Seus sujeitos narrados são “desgraciosamente” “desnomeados”, como a insistir que a
obviedade do Colonialismo (do poder, do saber, da civilização, da pedagogia, da psicopatalogia,
do espaço e do tempo) não passa disso mesmo, ou seja, a Colonização de tudo o que não for
ainda Mundo para ser, também o que ainda não é, um Mundo à imagem e semelhança do
Mundo de Deus, do Hemisfério do Alto, do Tempo do Capital, do Espaço Preso em Si Mesmo. Daí que a prostituta “só” pode ter o nome de Ana, mas não de uma Ana Sozinha – até
porque é de companhia – e sim de uma “Ana Deusqueira” – como a ser querida por todos os
homens, e sendo à imagem e semelhança do Deus do Mundo, também querida e desejada
por Ele. Daí que o “pai” de Tizangara (de Moçambiques, de Áfricas, de Margens...) “só” pode
ser, por ser do Sul, “Sulplício” – o suplício mais suplicante que o suplício mais suplicado:
“Homens perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez” (Saramago, 1991), quando Jesus suplica aos Homens para perdoarem Deus, Aquele que não sabe o que fez... E o velho rosto
grudado em um jovem corpo “só” pode ser “Temporina”, que guarda o tempo de antes marcado pelo tempo de agora, como a “desdizer” o tempo do porvir monolítico: para outro futuro é preciso “desprecisar” o passado, agora. E o Zeca, meio só, mas ainda feiticeiro das
gentes pobres, é o “Zeca Andorinho”: sem lugar e com todos os lugares ao mesmo tempo.
Mas, “só”, não faz verão...
Manoel de Barros (2007, p. 31 e 33) “transfaz” o Mundo, pelas margens do “desmundo”,
na medida em que “As coisas que acontecem aqui, acontecem paradas. Acontecem porque
não foram movidas. Ou então, melhor dizendo: desacontecem” (idem a Mia Couto), “Porque
a maneira de reduzir o isolado que somos dentro de nós mesmos, rodeados de distâncias e
lembranças, é botando enchimento nas palavras. É botando apelidos, contando lorotas. É,
enfim, através das vadias palavras, ir alargando os nossos limites”. “Encher” as palavras
para “deslimitar”, como também ensinou Manoel: “transfazer”, “insetar”, “existidurar”,
“desorbitar”, “desenxergar”, “desnobrer”, “descoisar”, “deseducar”, “desformar”, “desuteizar”,
“desteorizar”, “desescrever”, “deventar”, “lesmar”, “despertencer”, “descomer”, “deslimpar”
e “desgovernar”, como o jeito de “desajuntar” os pedaços de um Mundo que se quer Único.
Quando “Sente-se pois então que árvores, bichos e pessoas têm natureza assumida igual. O
homem no longe, alongado quase, e suas referências vegetais, animais. Todos se fundem na
mesma natureza intacta. Sem as químicas do civilizado. O velho quase-animismo” (Barros,
2007, p. 34).
A narrativa barrosiana fala de um mundo feito de “desmundos” vários, que vivem e
morrem, vivendo e morrendo. Mas, cuidado quando as intenções se prestarem a ver coisas
demais nas vidas e mortes feitas de árvores, bichos e pessoas: “(Acho que estou querendo
ver coisas demais nestas garças. Insinuando contrastes – ou conciliações? – entre o puro e
o impuro etc. etc. Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos? Que Deus
os livre!)” (Barros, 2007, p. 94).
E de longe vem chegando Arundhati Roy (2008, p. 9 e 134), que com suas pequenas
coisas leva/traz um rio que “encolhe, e corvos pretos se banqueteiam com belas mangas em
árvores imóveis, verde-empoeiradas. [...] Varejeiras dissolutas zunem vagabundas no ar
perfumado. [...] As noites são claras, impregnadas de preguiça e de calma expectativa”.
Para depois, no tempo da História vinda de fora, fazer do “mesmo” rio apenas aquele que
leva de lugar nenhum para lugar nenhum: “Houve tempo em que tinha o poder de evocar
medo. De mudar vidas. Mas agora seus dentes haviam sido arrancados, seu espírito exaurido. Era apenas uma fita verde viscosa que carregava lixo fétido para o mar. Sacos plásticos brilhantes voavam sobre a superfície cheia de algas, como flores subtropicais voadoras.
[...] Os degraus de pedra que um dia levavam banhistas até a água, e Gente Pescadora à
pesca, estavam inteiramente expostos e levavam de lugar nenhum para lugar nenhum”...
Também palavras de Arundhati Roy (2008) “desdevolvem”, para o Mundo de sacos
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Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
plásticos brilhantes, mundos de pequenas coisas no qual algumas coisas podem ser ditas, e
outras não: “doceenjoativo”, “quefoisso? Oqueaconteceu?”, “calaboca ou váprafora. Prafora
ou Calaboca”, “docepegajoso”, “limãolimãodemais”, “óleodecabelo”, “paracáeparalá”,
“verdeondulante”, “grossolíquida”, “empelotada”, “claroclaro”, “laranjalimão”,
“coméseunome”, “parecomissou”, “desguardada”, “A Cordada”, “A Tenta”, “A Lerta”,
“mundoestação”, “resonhar”, “plantabarco”, “floresbarco”, “frutasbarco”, “mundobarco”...
Prendendo-se às pequenas coisas.
Pequenas coisas que parecem nascer de pequenas gentes, em pequenos espaços –
como o da barriga de uma mãe – e que vão se tornando grandes e “tornando” as gentes –
agora grandes também – bordas, fronteiras, divisas, margens e limites como que moldadas
por um torno que torna separado o que era junto...
Naqueles primeiros anos amorfos, em que a memória tinha apenas começado, em que a vida
era cheia de Começos e sem Fins, e Tudo era Para Sempre, Esthappen e Rahel pensavam em si
mesmos juntos como Eu, e separadamente, individualmente, como Nós. Como se fossem uma
rara espécie de gêmeos siameses, fisicamente separados, mas com identidades conjuntas. [...]
Seja como for, ela [Rahel] agora pensa em Estha e Rahel como Eles, porque, separadamente,
ambos não são mais o que Eles eram ou jamais pensaram que Eles seriam.
Jamais.
Suas vidas agora têm uma forma e uma dimensão. Estha tem a dele, e Rahel a dela.
Bordas, Fronteiras, Divisas, Margens e Limites apareceram como um bando de gnomos em
seus horizontes individuais. Criaturas baixas com sombras longas, patrulhando o Final Fora
de Foco. Suaves meias-luas formaram-se debaixo dos olhos deles e têm a idade de Ammu [a
mãe] quando morreu. Trinta e um.
Nem velhos.
Nem moços.
Mas uma idade morrível viável.
(Roy, 2008, p. 11)
Porque talvez, neste Mundo Moderno de costas para as suas próprias margens/dobras, seja mesmo preferível morrer nessa idade morrível viável, como fez a mãe de Chieko
em “Babel”, como fizeram as guaranis e o guarani nem velhos nem moços em “Terra Vermelha”, e que uma vez mais fez Majid em “Caché”. Todas e todos a perguntar: “vale a pena
viver em um mundo só?” Elas e eles optaram “desviver”, “desmundar”... Talvez para que
eu, tu, ele, nós, vós e eles “desvivêssemos”, “desmundando” o Moderno Mundo para
“desmundar” a “desvida” no Mundo Moderno.
Para “desmundar” o Mundo.
Para “desculturar” a Cultura.
Para “desistorizar” a História.
Para “deslimitar” o Espaço.
E para “desimaginar” e “desmargear” gentes e espaços “invisíveis”...
“Ementando” e emendando mundos virados aqui , em um texto que se quer
“desimaginado” e “desmargeado”. Dobrado.
“DESMUNDANDO”
O
MUNDO
– Vocês, homens, vem para casa.
Nós somos a casa.
(Mia Couto)
Como assim, “desmundando” o Mundo?
Nossas imagens e representações sobre o Mundo, moldadas pela Modernidade, tendem, hegemonicamente, à projeção de um Mundo dividido e fragmentado, mas que, com o
Processo Civilizador (cf. Elias [1993; 1994]), tender-se-ia a se ajuntar, “desdividir” e
desfragmentar o que antes se fazia em pedaços, pelo poder tempo-espaço – hoje – da
“globalização” (em aproximação a Massey [2007]) (e parece-me razoável pensar que nos
últimos cinco séculos participamos de mais de um processo de globalização).
Como projeto civilizacional, ancorado sobre práticas e concepções que se foram
gestando ao mesmo tempo em que nascia a Europa (e seus outros), fomos levados a crer
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GOETTERT, J. D.
“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
(matemática-física-filosófica-científica-racionalmente) na existência de uma “máquinamundo” – ou de um “mundo-máquina” – guiada por forças naturais (físico-químico-biologicamente) arranjadoras de um movimento Perfeito e, portanto, de um Mundo à sua imagem
e semelhança.
À concepção medieval do Mundo (universal, católica) foi contraposta uma concepção
que se queria e se quer Moderna (igualmente universal, mas não necessariamente católica,
mas antes um seu desdobramento: a “ética protestante”... e o “espírito do capitalismo” [cf.
Weber, 2002]). Articulando monopólios territoriais, de tributação, da força, da política e da
economia, a Modernidade também se projetou na monopolização de um seu jeito de pensar,
conceber, compreender, sonhar e imaginar o Mundo pelo Homem de si, em si e para si.
Uma das mais persistentes tendências da filosofia moderna desde Descartes, tem sido uma
preocupação exclusiva com o ego, em oposição à alma ou à pessoa ou ao homem em geral,
uma tentativa de reduzir todas as experiências, com o mundo e com outros seres humanos, a
experiências entre o homem e si mesmo (Arendt, 2000, p. 266).
É esse Mundo da Modernidade que é preciso “desmundar”, se “desocidentar” e
se “desorientar”.
“Desmundar” o Mundo Ocidental como vôos de flamingos com Mia Couto (2007,
49): “Habitamos assim: a vida a oriente, a morte a ocidente. A morte, a morte mais sua
inexplicável utilidade! Minha mãe partira na curva da chuva, saindo a habitar a estrela de
nenhumas pontas”...
O Mundo Moderno, saindo de uma Europa que germinava sob o Mercantilismo,
a Colonização, a Evangelização e a Civilização, foi inventando a Si na mesma medida que
em foi inventando o outro. Inventaram a América. Inventaram o índio... Dos outros “bárbaros” das margens dos monopólios centrais dos Estados em formação, na beirada do Atlântico europeu, outros “selvagens” (“bons” ou “maus”, pouco importa) foram, a princípio, os
outros sem almas, desalmados. Era preciso alma-los (e não amá-los, que logo observemos).
E “almar” com uma alma só, porque se herege era a gente com alma maligna ou sem alma
nenhuma, impossível seria, da mesma forma, aceitar a gente com duas almas ou mais.
“Vantagem de um estranho é que confiamos essa mentira de termos uma só alma”, segredou a si mesmo o narrador-tradutor de Tizangara, em conversa com o italiano detetive
(Couto, 2005, p. 41 e 82).
Os outros, com o tempo e já pouco a ver com marcações das antigas, devem se
orientar, o que também depois aprendemos que deve, mesmo, é se nortear. O caminho
pautado pela Modernidade segue, assim, a “orientação ocidental” (!), pouco importando, já
agora, de onde o sol nasce ou para onde ele se esconde (isso é coisa de flamingos do oriente,
ou do sul... de um “Sulplício”, como parece querer insistir Mia Couto).
Ficamos ali horas trocando nadas, simplesmente adiando o tempo. Alongando o milagre de
estarmos ali, na margem da floresta. Já entardecia, ela me avisou:
- Volte para a vila, há-de acontecer tantíssima coisa.
- Antes de ir, mãe, me lembre a estória do flamingo.
- Ah, essa estória está tão gasta.
- Me conte, mãe, que é para a viagem. Me falta tanta viagem.
- Então, senta, meu filho. Vou contar. Mas primeiro me prometa: nunca siga pelos carreiros
onde seguiam aqueles homens que você espreitava há um bocadito.
- Prometo.
Então, ela contou. Eu repetia palavra por palavra, decalcando sobre a voz cansada dela. Rezava: havia um lugar onde o tempo não tinha inventado a noite. Era sempre dia. Até que, certa
vez, o flamingo disse:
- Hoje farei meu último voo!
As aves, desavisadas, murcharam. Tristes, contudo, não choraram. Tristeza de pássaro não
inventou lágrima. Dizem: lágrima dos pássaros se guarda lá onde fica a chuva que nunca cai.
Ao aviso do flamingo, todas as aves se juntaram. Haveria uma assembleia para se conversar o
assunto. Enquanto o flamingo não chegava, se escutavam os pios em rodopios. Se acreditava
em tais ditos? Podia-se e não. Fosse ou não fosse, todos se demandavam:
- Mas vai voar para onde?
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Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
- Para um sítio onde não há nenhum lugar.
O pernalta, enfim, chegou e explicou – que havia dois céus, um de cá, voável, e um outro, o céu
das estrelas, inviável para voação. Ele queria passar essa fronteira.
- Porquê essa viagem tão sem regresso?
O flamingo desvalorizava seu feito:
- Ora, aquilo é longe, mas não é distante.
Depois ele foi internando-se nas árvores sombrosas do mangal. Demorou. Só apareceu quando
a paciência dos outros já envelhecia. Os bichos de asa se concentraram na clareira do pântano.
E todos olharam o flamingo como se descobrissem, apenas então, a sua total beleza. Vinha
altivo, todo por cima da sua altura. Os outros, em fila, se despediam. Um ainda pediu que ele
desfizesse o anúncio.
- Por favor, não vá!
- Tenho que ir!
A avestruz se interpôs e lhe disse:
- Veja, eu, que nunca voei, carrego as asas como duas saudades. E, no entanto, só piso felicidades.
- Não posso, me cansei de viver num só corpo.
E falou. Queria ir lá onde não há sombra, nem mapa. Lá onde tudo é luz. Mas nunca chega a
ser dia. Nesse outro mundo ele iria dormir, dormir como um deserto, esquecer que sabia voar,
ignorar a arte de pousar sobre a terra.
- Não quero pousar mais. Só repousar.
E olhou para cima. O céu parecia baixo, rasteiro. O azul desse céu era tão imenso que se vertia
líquido, nos olhos dos bichos.
Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante,
se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem, adiante,
não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro
ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de
repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros,
roxos e liliáceos. Tudo se passando como se um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente.
Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou naquela terra.
Era o ponto final. No escurecer, a voz de minha mãe se desvaneceu. Olhei o poente e via as aves
carregando o sol, empurrando o dia para outros aléns.
Aquela era minha última noite desse retiro nos matos. Manhã seguinte eu já entrava na vila,
como quem regressa a seu próprio corpo depois do sono.
(Couto, 2005, p. 113-115)
Orientação Cristã, Ocidental, Civilizacional e Moderna... Vê se te orienta, menino...
A centralidade cartesiana orienta o Mundo e “desorienta” tudo o que não for gravidade,
relatividade e caos ordenados. Impossível, então, imaginar aves carregando o sol.
Em “Terra vermelha”, a orientação de que a terra Branca deve ser/estar orientada
para “Produção Sim, Demarcação Não”4.
Em “Babel”, a orientação definidora dos lados de cá e de lá para Amélia, a mexicana
que insiste em sair de seu (devido) lugar para ameaçar o Mundo Branco “não mestiço” do
lado de lá.
Em “Caché”, a orientação desde criança para que Majid, o argelino “inoportuno” na
França fundadora da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, permaneça eternamente oculto
ou escondido, porque sua presença desorienta o centro certinho do Branco Georges, crítico
literário de uma literatura que permite o outro apenas como forma de letra em “alfaebeta”
de abcdefghijklmnopqrstuvwxyz, desde que não escreva nem por linhas retas e muito menos por linhas tortas.
Em “O deus das pequenas coisas”, a orientação transmitida por uma antena parabólica.
[...] um novo amor. Baby Kochamma instalara uma antena parabólica no telhado da Casa
Ayemenem. De sua saleta, ela dominava o Mundo pela TV via satélite. A impossível excitação
que isso engendrou em Baby Kochamma não era difícil de entender. Não foi algo que aconteceu
aos poucos. Aconteceu do dia para a noite. Loiras, guerras, fomes, futebol, sexo, música, golpes
de Estado, tudo chegava no mesmo trem. E em Ayemenem, onde antes o som mais alto que se
4
Slogan que tem aparecido com certa frequencia em faixas em frente de casas de bairros nobres e em adesivos de
camionetas novas, em Dourados, em protesto do agronegócio contra os processos de identificação e demarcação
de terras indígenas em Mato Grosso do Sul.
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GOETTERT, J. D.
“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
ouvia era a buzina musical de um ônibus, agora guerras inteiras, fomes, massacres, pitorescos
e Bill Clinton podiam ser convocados como se fossem criados. E assim, enquanto seu jardim
ornamental murchava e morria, Baby Kochamma acompanhava os jogos da liga NBA norteamericana, partidas de críquete de dia inteiro e todos os torneios do Grand Slam. Nos dias de
semana, ela assistia The bold and the beautiful e Santa Barbara, onde loiras quebradiças de
batom e penteados duros de laquê seduziam andróides e defendiam seus impérios sexuais.
Baby Kochamma adorava suas roupas brilhantes e os diálogos espertos e perversos. Durante o
dia, trechos desconexos voltavam-lhe à mente e ela ria (Roy, 2008, p. 35).
Em “O último voo dos flamingos”, a orientação para que aquele povo mítico de
Tizangara acredite “no poder de o trabalho criar futuro”, de que a estória de “amor pelos
vivos” e de “respeito pelos mortos” não passe de pretexto para a negação do Progresso, pois
o importante é ocupar tudo, desde a “puta” Ana Deusqueira à toda a gente tizangarana: “O
que fizeram esses brancos foi ocuparem-nos. Não foi só a terra: ocuparam-nos a nós, acamparam no meio de nossas cabeças. Somos madeira que apanhou chuva. Agora não acendemos nem damos sombra. Temos que secar à luz de um sol que ainda não há. Esse sol só pode
nascer dentro de nós” (Couto, 2005, p. 154). Daí, a orientação sempre dada, pela “Razão de
Estado” (em aproximação a Foucault [2008]), pelo “sol físico”, redondo e da mais intensa
claridade: o Iluminismo nos guiando e orientando para a Razão, para a Luz (nada de sombras, já advertiam Sócrates, Glauco e Platão... e Deus).
Em “Livro de pré-coisas”, a (des)orientação para que o menino deixe de ver “bunda”
onde só existe um morro: “- Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem – o menino
falou”, ao mesmo instante em que também devem se (des)orientar as gentes a inibirem-se
de imaginar que “Os homens deste lugar são uma continuação das águas” (Barros, 2007, p.
13). Que arrebentação, achar que homens são águas e que águas são homens. E achar, do
mesmo jeito, que “a terra é um ser: carece de família, desse tear de entrexistências a que
chamamos ternura” (Mia Couto, p. 110).
Porque, afinal de contas , o Modo de Produção Capitalista (como a própria
Modernidade) é também um modo de pensar, imaginar, sonhar, dançar, andar, viver, comer, sorrir, desejar... em um modo de subjetivação capitalístico (em aproximação a Guattari
& Rolnik, 2005).
“Desmundar” o Mundo é “desmargeá-lo” de sua “Maiusculinidade” e fazê-lo mundos
em outros encontros possíveis, outras imaginações, outras gentes, outros sonhos. E demos
ouvidos a Ana Deusqueira (em Couto, 2005, p. 173): “Não me basta um sonho. Eu quero ser
um sonho”.
“DESCUL
TURAR”
ESCULTURAR
A
CUL
TURA
ULTURA
Quando meus olhos estão sujos da civilização...
(Manoel de Barros)
É curioso como, conjuntamente à Modernidade e talvez ainda mais junto ao “meio
técnico-científico-informacional” (cf. Milton Santos, 2004), tenhamos feito de Cultura a oposição à Natureza, a tudo o que é natural. “Cultura-me”, logo existirei. A linha da Modernidade
carrega em seus extremos a Barbárie, em sua parte inferior, e a Civilização, em sua parte
superior. De um lado ainda o folclore, as lendas, os mitos, o artesanato e os cocares; e, de
outro, Van Gogh, Picasso, Mozart, Fellini, von Trier, Niemeyer... e Bill Gates. Quanto mais
“aculturados”, mais próximos estamos do Mundo Abstrato e menos carregados do Mundo
da Natureza.
Frantz Fanon (2008 [1952]) já denunciava, em meados do século passado, que o nosso estado atual de Cultura “desculturaliza” o outro ao passo que “desnaturaliza” o Branco:
“Ter a fobia do preto é ter medo do biológico. Pois o preto não passa do biológico. É um
animal. Vive nu. E só Deus sabe...” (p. 143).
A civilização européia, no seio do que Jung chama de inconsciente coletivo, caracteriza-se pela
presença de um arquétipo: expressão dos maus instintos, do lado obscuro inerente a qualquer
ego, do selvagem não civilizado, do preto adormecido em cada branco. [...] O preto infalivel-
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Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
mente permanece no seu canto. Na Europa, o preto tem uma função: representar os sentimentos inferiores, as más tendências, o lado obscuro da alma. No inconsciente coletivo do homo
occidentalis, o preto, ou melhor, a cor negra, simboliza o mal, o pecado, a miséria, a morte, a
guerra, a fome. Todas as aves de rapina são negras (Fanon, 2008, p. 159 e 161).
E aves de rapina, como qualquer ser unicamente instintivo, é “aculturado”,
sem cultura. Criamos – e inventamos e imaginamos, nos termos de Said (2007), Hobsbawm
(1997) e Anderson (2008) – o nosso outro. Se a Cultura é nossa, ela não pode pertencer a
mais ninguém. Ao homo occidentalis, cabe a missão de orientar.
[...] É [o Orientalismo – a invenção do Oriente pelo Ocidente] a distribuição de consciência
geopolítica em textos estéticos, eruditos, econômicos, sociológicos, históricos e filológicos; é a
elaboração não só de uma distinção geográfica básica (o mundo é composto de duas metades
desiguais, o Oriente e o Ocidente), mas também de toda uma série de “interesses” que, por
meios como a descoberta erudita, a reconstrução filológica, a análise psicológica, a descrição
paisagística e sociológica, o Orientalismo não só cria, mas igualmente mantém; é, mais do que
expressa, uma certa vontade ou intenção de compreender, em alguns casos controlar, manipular e até incorporar o que é um mundo manifestadamente diferente (ou alternativo e novo); é
sobretudo um discurso que não está absolutamente em relação correspondente direta com o
poder político ao natural, mas antes é produzido e existe num intercâmbio desigual com vários
tipos de poder, modelado em certa medida pelo intercâmbio com o poder político... [...] Na
verdade, o meu argumento real é que o Orientalismo é – e não apenas representa – uma
dimensão considerável da moderna cultura político-intelectual e, como tal, tem menos a ver
com o Oriente do que com o “nosso” mundo. [...] Se isso estimular uma nova maneira de lidar
com o Oriente, na verdade, se eliminar completamente o “Oriente” e o “Ocidente”, teremos
avançado um pouco no processo do que Raymond Williams chamou de “desaprender” o “modo
dominador inerente” (Said, 2007, 40-41 e 60).
“Desaprender” a Cultura. Apreender as culturas... O que não parece fácil.
Ao que parece, quase todos os grupos humanos tendem a perceber determinados outros grupos
como pessoas de menor valor do que eles mesmos. O grau de estigmatização pode variar de um
caso para o outro, e as ações que devem tornar claro para o grupo outsider o fato de seus
membros serem um objeto de maior desprezo podem ser ruidosas e bárbaras, ou aparecerem
em uma tonalidade mais amena. Seja como for, relações estabelecidos-outsiders têm sempre
algo em comum (Elias & Scotson, 2000, p. 199).
A Cultura Moderna é, como muitas outras, uma cultura das dicotomias, das
ambivalências, das dualidades, dos maniqueísmos e dos jogos de oposições. Eu/Outro. Nós/
Eles. Branco/Negro. Branco/Índio. Ocidente/Oriente. Passado/Futuro. Perto/Longe. Erudito/Popular. Homem/Mulher. Belo/Feio. Dentro/Fora. Moderno/Arcaico. Novo/Velho. Adulto/Criança. Evolução/Atraso. Civilização/Barbárie. Sociedade/Natureza. Homem/Meio.
Humano/Físico. Puro/Impuro. Cultural/Natural...
Por vezes, como aqui, é então preciso recorrer a certa etimologia e epistemologia do
pertencimento. Delas, passamos a saber que cultura, culto e colonização derivam todos do
verbo latino colo: eu moro, eu ocupo a terra (Bosi, 1999, p. 11). Porém, qual é a condição
Moderna do eu moro, eu ocupo a terra?
Condição, que condição?
Condição toca em modos ou estilos de viver e sobreviver. [...] Condição traz em si as múltiplas
formas concretas da existência interpessoal e subjetiva, a memória e o sonho, as marcas do
cotidiano no coração e na mente, o modo de nascer, de comer, de morar, de dormir, de amar, de
chorar, de rezar, de cantar, de morrer e ser sepultado (Bosi, 1999, p. 26-27).
O Modo de Produção Capitalista é apenas um modo de como as marcas do
cotidiano no coração e na mente se fazem. Nascemos e morremos de um modo: “do pó
viestes e ao pó voltarás”, ou, se quisermos, da terra viestes e à terra voltarás...
Não, talvez não!
Invertamos a condição: a terra, das gentes saíste e às gentes voltará.
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“DESIMAGINANDO”
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MUNDO PELAS MARGENS ...
“TERRA VERMELHA”
(Fotograma [1h23min40s])
Em “Terra Vermelha”, o cacique Nádio come a terra, menos para fazer-se terra, mais
para “desrefazer” a terra, Guarani. A terra, por isso, não pode ter dono, apenas colo. Não
porque é mãe, mas porque é embalada na memória e nas práticas das gentes que nela
deixaram os seus mortos. “Cultus é sinal de que a sociedade que produziu o seu alimento já
tem memória. [...] O morto é, a um só tempo, o outro absoluto fechado no seu silêncio
imutável, posto fora da luta econômica, e aquela imagem familiar que ronda a casa dos
vivos: chamada, poderá dar o consolo bem-vindo nas agruras do presente” (Bosi, 1999, p. 13
e 19).
“Do pó ao pó ao pó ao pó ao pó” (Roy, 2008, p. 15). Porque, no mesmo embalo, mais que
a terra fazer as gentes, são as gentes que fazem a terra. Porque se nos fazemos, fazemos o
mundo todo à nossa imagem e semelhança.
Em “Caché”, a terra de Majid é seu sangue. E o sangue se fez Majid. Oculto e ocultado, sua terra não tinha lugar no Mundo Francês da “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”.
Era “preciso” morrer, fazendo da terra estrangeira, sangue, terra Majid.
“CACHÊ”
(Majid, um outro, morrendo)
(http://www.cinephileonline.com/... [acessado em 24/05/2010])
“Por isso às vezes sei que necessito/Teu colo,/teu colo,/eternamente teu colo” (Pablo
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Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
Minanés & Chico Buarque, 1983). O direito ao colo. O direito à terra... Do colo e da terra
que cada gente faz como seu, como sua. A terra fazendo-se colo. A terra sendo feita gente.
Daí as margens do colo, da terra e das gentes. Nas margens/dobras do “desmundo”,
bolhas saltam, sóis explodem... Que as bolhas explodem e que os sóis brilham já sabemos,
mesmo assim temos que continuar insistindo na “desculturação” da Cultura, para que, em
vez de uma Maiúscula Única, possamos fazer da terra colos minúsculos multiplicados, não
para crescer e multiplicar, mas para multiplicar crescendo os colos da terra, que são gentes,
que são terra.
Cada cultura prolifera em suas margens. Produzem-se irrupções, que designamos como “criações” relativamente a estagnações. Bolhas saltando do pântano, milhares de sóis explodindo e
se apagando na superfície da sociedade. No imaginário oficial, elas figuram como exceções ou
marginalismos (Certeau, 1995, p. 242).
É preciso, então, e novamente, “desmargear” e “desmarginalizar”. O imaginário oficial é apenas um, e não o. E por que como aceitamos, assim simplesmente, a “servidão
voluntária” (cf. La Boétia, 1982) se diante de um somos mil, milhões?
5 – “DESISTORIZAR” O TEMPO
Os dentes novos de Rahel estavam esperando dentro de suas gengivas,
como palavras dentro de uma caneta.
(Arundhati Roy)
– E eu não sei viver no seu mundo?
– Não, não sabe. [...]
– Sabe o que devia fazer? Contar a sua estória. Nós esperamos que vocês, brancos, nos contem
vossas estórias.
– Uma estória? Eu não sei nenhuma estória.
– Sabe, tem que saber. Até os mortos sabem. Contam estórias pelas bocas dos vivos.
(Couto, 2005, p. 105 e 106)
Um Mundo Único só pode inventar uma História Única. Tudo o resto virou lenda,
mito, miragem, fantasia, misticismo, estória. A História Maiúscula define o caminho entre
a origem a o destino. A Idade Moderna rompe com a Idade das Trevas do medievo. Deus dá
lugar ao Homem. O Teocentrismo cede ao Antropocentrismo. A Razão rouba a História
assentada nas crenças ao eleger o Fato como definidor da Verdade. Fonte, logo existo. A
Verdade Matemática. A Verdade Moderna. A Moderna Verdade.
A Verdade Moderna criou o seu Tempo. Todos os outros tempos são avassalados (porque vassalos) pelo Tempo do Mercado. Historicizado, o Tempo Moderno vira História Moderna e depois História de Cada Habitante da Terra, a História Contemporânea. Mas também, como Modernos que somos, criamos o passado de antes da Modernidade: da PréHistória passando pela História Antiga e pela História Medieval. Inventamos o nosso Passado (assim, com Maiúscula): se nem Tudo é pré, pelo menos Tudo é antes, antigo, do meio
e nunca junto de Nós, pois no meio está o medievo. Não que o Moderno se inicie necessariamente com a História Moderna, mas que a História Moderna fora imprescindível para a
produção do Moderno, suas relações, suas coisas, sua Gente, sua Razão. É nisso que Cremos.
A questão central aqui é, então, quando a História Moderna toma para si a História
do Mundo e a faz, outra vez, à sua imagem e semelhança. Uma História e um Mundo que
definem os seus processos: Evolução, Progresso, Desenvolvimento, Modernização... Fora
deles, a aceitação das possibilidades de narrativas outras é subjugada à “folclorização” do
desencaixado.
Assim se resume o tempo sob o capitalismo, segundo Nicos Poulantzas (1990, p. 126,
129 e 131):
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“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
O maquinismo e a grande indústria, o trabalho em série implicam um tempo segmentado,
serial, dividido em momentos iguais, cumulativo e irreversível pois orientado para o produto e,
através dele, para a reprodução ampliada, a acumulação do capital: em suma, um processo de
produção e de reprodução que tem uma orientação e uma finalidade, mas não tem fim. Um
tempo mensurável e estritamente controlável pelos relógios, cronômetros dos contra-mestres,
pelos relógios de ponto e calendários precisos. Tempo que, aqui também, estabelece, por sua
unificação e sua universalização: dominar o tempo ao relacionar as temporalidades múltiplas
como uma medida homogênea e única, que não reduz as temporalidades singulares (tempo
operário e tempo burguês, tempo do econômico, do social, do político) salvo se codifica seus
intervalos. Mas cada temporalidade traduz as características de uma mesma matriz: e mais
ainda (e é isso que escapa a inúmeros autores que insistem na “universalização” do tempo
capitalista), é esta matriz temporal que estabelece, pela primeira vez, as temporalidades singulares como temporalidades diferenciais, ou seja como variações de ritmo e de escansão de
um tempo serial, segmentado, irreversível e cumulativo. Tempo cujos momentos se encadeiam
e se sucedem, se totalizam num resultado, sendo o presente uma transição do antes para o
depois. A historicidade moderna é assim de tipo evolutivo e progressivo, a de um tempo que
transcorre na medida em que ele se percorre, cada momento produzindo o outro no sentido
irreversível, num encadeamento de acontecimentos voltados para um futuro sempre renovado.
[...]
O Estado moderno materializa igualmente essa matriz na adaptação dos sujeitos sobre os
quais seu poder se exerce e nas técnicas de exercício de poder, notadamente nos procedimentos
de individualização do povo-nação. [...] A formação social capitalista, o Estado-nação, é também
um processo homogeineizado pelo Estado. [...]
Dominar e unificar o tempo ao constituí-lo como instrumento de poder, totalizar as historicidades
ao apagar as diferenças, serializar e segmentar os momentos para orienta-los e reuni-los,
dessacralizar a história para englobá-la, homogeneizar o povo-nação ao forjar e ao apagar seus
próprios passados: as premissas do totalitarismo moderno existem na matriz temporal inscrita
no Estado moderno, já implicada pelas relações de produção e pela divisão social capitalista do
trabalho.
O Tempo é o tempo do produto, da mercadoria, ilimitadamente, sem fim. Produção,
distribuição, circulação e consumo. Consumido, tudo volta outra vez, para uma nova volta,
na linearidade-circular da vida.
O Tempo Moderno é, quando muito, fragmentado nos Tempos dos Estado-nações,
não porque são estes que dominam aquele, mas porque aquele define o ritmo destes:
[...] os economistas liberais não podiam operar sem o conceito de “economia nacional”, pois era
fato inegável que havia o Estado com o monopólio da moeda, com finanças públicas e atividades fiscais, além da função de garantir a segurança da propriedade privada e dos contratos
econômicos, e do controle do aparato militar de repressão às classes populares. Os economistas
liberais afirmavam por isso que a “riqueza das nações” dependia de estarem elas sob governos
regulares e que a fragmentação nacional, ou os Estados nacionais, era favorável à
competitividade econômica e ao progresso. [...] o desenvolvimento da nação era o ponto final de
um processo de evolução, que começava na família e terminava no Estado. A esse processo deuse o nome de progresso (Chaui, 2000, p. 17-18).
Fora da Ordem das Nações, tudo e todos são desordem.
Fora da Ordem do Progresso, tudo e todos são aniquilados pela oposição Estabelecidos/Outsiders.
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Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
“BABEL”
(fronteira México-Estados Unidos)
(Fotograma [0h32min31s])
A História do Mundo como a História dos Estado-nações.
A fragmentação temporal-espacial de um Mundo que se repete para o destino
teleologicamente definido, o Progresso, em primeiro Metrópoles e Colônias, depois Dependentes e Independentes, Países de Primeiro, Segundo e Terceiro Mundo, Países Desenvolvidos e Subdesenvolvidos, Países Desenvolvidos e Em Desenvolvimento, “Emergidos”,
Emergentes... e “Imergidos”. A Ordem. Para aquém ou além das contradições Capital/Trabalho, todas as estórias e causos foram subsumidos à História Única, apenas multiplicadas
em suas versões correlatas, Nacionais, mas, sempre, Únicas.
O início do Brasil foi a Descoberta em 1500.
O início dos Estados Unidos foi a Migração e Colonização das Colônias do Nordeste,
coroados com a Independência em 1776.
A Inglaterra Gloriosa em 1688.
A França Revolucionária em 1789.
A Alemanha Unificada em 1971.
A Itália, idem.
E etc...
Assim, a Ordem das Nações é a Ordem do Mundo, distribuída em História Mundial
feita de Histórias do Brasil, dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França, da Alemanha,
da Itália etc...
No Brasil, o Tempo Histórico é aquele do processo de Miscigenação das Três Raças:
Branca, Negra e Índia. Os tempos todos, dos imigrantes portugueses aos imigrantes chineses e senegaleses, dos bantos aos Guarani e Ashaninka, todos se inserem Naquela de letras
Maiúscula, a História. Em desdobramento, todos os tempos são enquadrados no Quadro
Geral da História, que começa com o Mundo da Natureza e termina com o Mundo do Progresso. O presente é apenas o tempo magicamente neutro que une as duas pontas da História. Historicismo e Futurismo, mediados pelo Presentismo, definem o caminho sem volta.
Brasil: o País do Futuro.
Assim, o passado não interessa (que o digam os velhos e moribundos). O presente
não pode parar. E o futuro é o ponto sempre de chegada. A trajetória definida a priori e
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GOETTERT, J. D.
“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
nada mais sendo necessário para o Progresso, que não deve parar. “Todas as estórias de
progresso unilinear, modernização, desenvolvimento, a sequência de modos de produção...
representavam essa operação[:] A Europa Ocidental é “avançada”, outras partes do mundo
encontram-se “um pouco atrás” (Massey, 2008, p. 107).
A Evolução, o Progresso, o Desenvolvimento e a Modernização transcendem a História e se alojam como Trajetória do Homem Inteiro, do início ao fim do Mundo.
(opinioesdetodoseasminhas.blogspot.com/2009... (acessado em 10/04/2010)
Uma Humanidade Inteira que cabe dentro dos Continentes e Países, igualmente
Inteiros.
(doidagenteboa.wordpress.com/2010/03/15/evolucao/ (acessado em 10/04/2010)
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Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
O Mundo Evolui, Progride, se Desenvolve e se Moderniza em uma Linearidade basilar
da qual todas as outras linearidade se desdobram...
Porém, é preciso “desorientar” o Mundo, “desistoricizando” o tempo, desordenando
“[...] assim o tempo da linha ou a linha do tempo” (Derrida, 2004, p. viii). Talvez devêssemos
“desdesenvolver”, como acentuou Ruy Moreira (2006), “De volta ao futuro”: “deslinear” o
tempo puxando os clássicos do passado para seguirmos o futuro: o devir começa lá trás...
Mas também mulheres e homens, índios e negros, nas margens/dobras do Tempo da
História do Mundo e do Brasil, voltam para o futuro ao “deslinear” a linha do tempo quando
reivindicam a identificação, a demarcação e o reconhecimento de suas terras a partir do
passado. Para comunidades índias e negras, o futuro depende das memórias, das estórias e
das práticas imemoriais cravados no passado. O futuro passa pelo passado, que passa pelo
presente. Não pode haver, para índios e negros, futuro que não seja ele mesmo a parabólica
temporal que “dialetiza” tempos e se sintetize em seus territórios. Territórios Indígenas e
Territórios Quilombolas (como processos de “dissemiNação”, nos termos de Homi K. Bhabha
[1998]).
Tempos temperando espaços e espaços temperando tempos. De todos eles – tempos e
espaços – outras trajetórias se fazem para além da linearidade sempre Certa, sempre
Iluminista, sempre Moderna, sempre Linha e sempre a Ordem passadopresentefuturo.
“Desistoricizar” o tempo para “desimaginar” o Mundo e sua sempre Trajetória Única.
“Desimaginar” a Trajetória Única e imaginar outras, muitas outras trajetórias...
Da linearidade do tempo para a dialética e “fenomenologia do redondo” (Bachelard,
2000, p. 235)... O ser é redondo, é uma bola, por isso ciranda.
Ciranda
José Pancetti (1941)
(29fragmentos.blogspot.com/ [acessado em 12/04/2010])
Da História do Mundo para “o espaço como uma simultaneidade de estórias-atéagora” (Massey, 2008, p. 29). Em canto, encanto e em “c(h)oro”...
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GOETTERT, J. D.
“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
Chorinho
Candido Portinari (1942)
(schetini.wordpress.com/.../18/sambinha-chorado/... [acessado em 12/04/2010])
Imaginando outras trajetórias, talvez possamos sentar e contar nossas outras estórias.
Mas eu não sei nenhuma estória.
– Sabe, tem que saber. Até os mortos sabem. Contam estórias pelas bocas dos vivos.
... De volta ao futuro... A passagem pelo passado.
“Deslimitar” o espaço
O Espaço Moderno é uma “reinvenção”, nos termos de Douglas Santos (2002, p. 185186).
Num lento (para os parâmetros de hoje) mas seguro processo de exclusão/inclusão, ampliam-se
as fronteiras do cristianismo, das línguas européias, dos estados nacionais, da propriedade
privada, do novo ritmo de trabalho: do ponto de vista da dimensão espacial, esses movimentos
estruturais são o que efetivamente poderíamos chamar de globalização. É uma nova geografia
que se constitui, tanto do ponto de vista do entendimento do significado da planetaridade
quando da própria prática dos percursos e estabelecimentos (os fluxos e os fixos de Milton
Santos?) dos processos de produção, circulação e gestão.
E “fez-se” o “espaço métrico” (cf. D. Santos, 2002, p. 30).
A medição do tempo correspondeu à medição do espaço. Mas como espaço é produção
e reprodução, mais que a medição do espaço (pois como o tempo não é apriorístico, mas
relações e processos) é a medida das relações humanas – as gentes são a medida de todas as
coisas. A Terra metrificada em coordenadas de meridianos e paralelos, de longitudes e
latitudes, de linhas, retas e pontos, em x, y e z, é a própria e necessária medição das relações demasiadamente humanas capitalista, matemática e racionalmente produzidas,
fetichizadas em “relações do Capital” (como se o Capital – e o Trabalho – pairasse acima de
nossas cabeças como uma “superestrutura” sobre uma “infra-estrutura”! “Desculpe, a franqueza não é fraqueza: o marxismo seja louvado, mas há muita coisa escondida nestes silêncios africanos. Por baixo da base material do mundo devem de existir forças artesanais que
não estão à mão de serem pensadas...” [em Couto, 2005, p. 74]).
A metrificação do espaço é correspondente, portanto, à quantificação das relações
humanas: “Quanto vale ou é por quilo?” (2005). As “relações capitalistas” são essas mesmas
relações feitas corpos e mentes que agem e pensam capitalisticamente. Assim, se “tempo é
dinheiro”, é porque o espaço é dinheiro, as gentes são dinheiro... com todo o risco de uma
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sempre super desvalorização cambial, que é, ela mesma, uma desvalorização de nossas
relações de troca. Negociar: eis o verbo que se fez carne e habitou entre nós. Se negociamos
tudo é porque também negociamos a vida: tudo é negócio. O Mercado, mais que apenas
assumir o Centro, tomou de assalto a condição nossa, humana (cf. Arendt, 2000).
E para que nada fique de fora do espaço capitalista, como modo de produção espacial
para o Capital, o Estado-nação Moderno funciona como um grande, senão o maior, “panóptico”
do Grande Olho.
Nicos Poulantzas (1990, p. 118-123) apresenta nos termos seguintes o que define por
“matriz espacial capitalista”:
[...] um espaço serial, fracionado, descontínuo, parcelário, celular e irreversível... [...]
O espaço moderno nasce: um espaço no qual desloca-se infinitamente ao se transpor as separações, em que cada lugar se define por seu isolamento dos outros, espaço sobre o qual expandese ao assimilar-se novos segmentos que ele homogeneíza deslocando as fronteiras. [...]
[...] o Estado tende a monopolizar os procedimentos de organização do espaço. O Estado moderno materializa nesses aparelhos (exército, escola, burocracia centralizada, prisões) esta matriz
espacial. Ela adapta por sua vez os sujeitos sobre os quais exerce seu poder: a individualização
do corpo político em monadas idênticas, porém separadas diante do Estado, releva da ossatura
do Estado inscrita na matriz espacial implicada pelo processo de trabalho. Os indivíduos modernos são os componentes do Estado-nação moderno: o povo-nação do Estado capitalista é o
ponto de convergência de um espaço cujas fronteiras são os contornos pertinentes das tomadas
de poder materiais e de seus sustentáculos. [...]
Separar e dividir para unificar, fracionar para enquadrar, celularizar para englobar, segmentar para totalizar, estabelecer balizas para homogeneizar, individualizar para suprimir as
alteridades e as diferenças, as raízes do totalitarismo estão inscritas na matriz espacial materializada pelo Estado-nação moderno, já presente nas suas relações de produção e na divisão
social capitalista do trabalho.
E assim se cartografa a vida em suas mais triviais relações. E nos fazemos e nos
imaginamos enquadrados, hoje, primeiro, pelas geometrias de poder tempo-espaço da
globalização, e, segundoterceiroquarto... pelas geometrias de poder sobre o corpo ao adequálo às roupas da moda, e não a moda ao corpo. Uma Moda de Produção. Um Modo de Produção. Um jeito de ser... moderno. Em “Babel”, Amélia, em corpo mestiço, índio e mexicano, é
“não-moda” e “sem-modo” quando fala: seu inglês travestido de espanhol denuncia sua
condição de estrangeiridade em terra da Estátua da Liberdade. Também em “Babel”, a
menina Chieko, em Tóquio, ao não falar e ouvir devido à mudez-surdez se faz mundo quando se despe diante dos meninos da paquera, do policial preocupado e do pai viúvo pelo
suicídio da mulher. Amélia e Chieko: voz, mudez, surdez e nudez participando de um Mundo de paradoxos assombrosos: se falo, prisão; se calo, solidão... Seres modernos.
A Modernidade: de Sacrobosco a Newton e de Newton a... “Esses são os nomes pelos
quais chamamos os milhões de homens e mulheres que foram mudando a maneira de viver,
sufocando velhos desejos em nome do desejo de modernidade, em nome do progresso, em
nome de uma promessa que os mapas T-O escondiam: o caminho de um paraíso, geometricamente traçado e, portanto, materialmente conquistável” (D. Santos, 2002, p. 78).
Ao reinventarmos o espaço e o tempo, re-imaginamos o Mundo enquadrando
tortuosidades humanas e curvas planetárias em linhas retas (como um Deus a escrever por
linhas tortas).
Desde a invenção do cronômetro, em 1761, por John Harrison, que permitiu o cálculo exato das
longitudes, a superfície curva de todo o planeta havia sido submetida a uma grade geométrica
que enquadrava os mares vazios e as regiões inexploradas dentro de quadriculados medidos
com precisão. A tarefa de, por assim dizer, “preencher” esses quadriculados ficava a cargo de
exploradores, topógrafos e soldados. No Sudeste Asiático, a segunda metade do século XIX foi
a idade de ouro dos topógrafos militares-coloniais e, pouco depois, tailandeses. Eles se mobilizaram para deixar o espaço sob a mesma vigilância que os recenseadores tentavam impor às
pessoas. Triangulação por triangulação, guerra por guerra, tratado por tratado, assim avançava o alinhamento entre o mapa e o poder (Anderson, 2008, p. 239).
No entanto, os desejos da cartografia colonialista muito longe andavam das cartografias do desejo, daquele desejo de “desmapear-se” para longe dos mapas do poder. Pois,
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“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
mapear significava também, de alguma forma, “desmapear” as gentes de seus desejos em
terras pertencidas, em comidas conhecidas, em festas de abraçar os tempos e em danças de
driblar os “maus olhados”. Cartografar: uma forma de olhar.
É preciso “deslimitar” o olhar para “deslimitar” o Espaço. E “descartografar” os Territórios de Poder, cartografando territórios da autonomia e territórios alternativos (em
aproximação a Souza [2007] e Haesbaert [2002]).
Em espaços “heterotópicos” reais e virtuais5, ou “vice-versamente” (cf. Couto, 2005,
p. 96). Em territórios de bocas que não falem sós, mas que falem línguas compreendidas
como línguas tocantes logo a seguir a um piscar de olhos.
– Sabe, filho? A boca nunca fala sozinha. Talvez na terra desse branco. Mas aqui não.[...]
– Aprenda uma coisa, filho. Na nossa terra, um homem é os outros todos.
(Couto, 2005, p. 140).
Territórios dos outros todos, das outras todas.
Antes que as “heteronomias” tomem conta dos mundos todos ao passo de “desviver”
as gentes todas, menos um...
[...] relatar a realidade com que confronto: que todo este imenso país [Tiganzara] se eclipsou,
como que por golpe de magia. Não há território, nem gente, o próprio chão se evaporou num
imenso abismo. Escrevo na margem desse mundo, junto do último sobrevivente dessa nação
[de Massimo Risi, italiano, em relatório à ONU] (Couto, 2005, p. 219).
“Deslimitar” o Espaço hegemônico como a denunciar que as Certezas de Agora não
passam de apenas certezas. E que o que É, Como É e Onde É são relações completamente
inacabadas... Como um cágado.
[O cágado] É cheio de vestígios do começo do mundo, por isso nos parece inacabado. Mas quando metade da terra estava por decidir se seria de pedra ou de água – já estava decidida a sua
desforma. E quando ainda ninguém ousava de prever se o inseto nasceria de uma planta ou de
uma larva – já ele estava deformado e pronto. O cágado é pois uma coisa sem margens; feio por
igual; feio sem defeito (Barros, 2007, p. 50).
Se o cágado é “desmargeado”, porque os outros espaços todos não podem sê-lo?
“DESIMAGINANDO”
E
“DESMARGEANDO”
GENTES E ESP
ESPAÇOS
AÇOS
“INVISÍVEIS”
Tinha que chegar antes que ela desmundasse.
(Mia Couto)
Imaginar o Mundo Moderno é imaginar um mundo feito margens, pedaços recortados de um espaço desigual, mas combinado. Pedaços para cada País, Povo para cada um
deles. Fora disso, a invisibilidade6 paira, prepondera e hipostazia Um Espaço, Um Tempo,
Uma Sociedade, Uma Cultura, Um Mundo.
É preciso imaginar outras gentes e outros espaços; espacializar e temporalizar outros espaços e outros tempos, e outras gentes. Pois os espaços não se fazem espaços quando
habitamos neles, mas quando os espaços passam a habitar em nós.
Em tempo menor que a passagem da geração de nossos avós para à de nossos filhos
(talvez até bem menos que isso, pois “O mundo não muda mais de dez em dez anos, mas de
ano em ano”, como apontou Félix Guattari [1992, p. 159]), desabitamos uma condição de
comunidade dada pela família ampliada para habitar a fábrica e dali para habitar a casa
com a televisão e o computador e, neste, para viver em segundas vidas – virtuais – em
5
Com base em Anselmo Peres Alôs (2009). Partindo de base referencial foucaultiana, o autor ressalta que “No
cenário teórico contemporâneo, não seria abusivo afirmar que a internet ganha espaço como uma das mais
potentes heterotopias a produzir identidade. [...] Compreender a estruturação desta heterotopia virtual possibilita
compreender melhor as identidades que nela nascem e morrem. Em tempos de individualismo e consumo massivo,
a velocidade das redes digitais possibilita novos arranjos de poder e novas maneiras de se contestar o status quo
sem a necessidade de que o indivíduo saia de sua própria casa” (p. 243-244).
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mundos virtuais, como em “Second Lite” ou em “World of Warcraft”. (“Virtuais” disposta em
itálico tem o seu sentido: ao pensarmos a vida e o Mundo em “dobras”, já nos é difícil a
separação entre o ontem, o hoje e o amanhã, entre o aqui, lá e acolá... e entre, dentre outros
entres, o que imaginamos como real e como virtual.)
“Deixando” as segundas vidas de lado, mesmo que temporariamente, naveguemos
por instantes em um dos sistemas de busca mais presentes em nossas tentativas de
“achamento” atuais e virtuais, o “Google”. Ali, por alguns instantes, o invadimos para trazer à mostra gentes como a gente. Em busca de algumas gentes, fomos observando as cem
primeiras imagens (“Google Imagens”), como que querendo compreender como vão se dispondo as imagens, por exemplo, daquilo que a História do Brasil identificou como o “melting
pot” brasileiro: a mistura de brancos, negros e índios. Assim, um tanto que meio
desconfiadamente, navegamos em imagens que podem mostrar pouco e ao mesmo tempo
muito, mesmo sabendo que mudam a toda hora, pois, como no Mundo Real, o virtual é
inundado velozmente por novas imagens, nem que apenas para re-mostrar o que já estava
mostrado.
Vejamos, então, os nossos brancos (“branco” e “brancos”), negros (“negro” e “negros”)
e índios (“índios”... e “caboclos”)” imaginados no mundo das imagens “Google Imagens” (a
busca se deu sobre as cem primeiras imagens de cada grupo).
Google Imagens
Pessoas
Animais
Obj etos/Mercad orias
Imagen s Abstratas
Pais agens
Quadrinhos/Piad as
Conflitos étnicos
“Uniões” b ranco /negro
Doenças/ dramas
Pênis/Sexo -sensual
Imagem “antiga”
(“história”)
Racism o
Desenhos/Lendas/
Imagen s/Folclore
Violência “do í ndio”
Protesto indí gena
Out ros
“Branco”
(683 mil)
“Bran cos”
(177 mil)
“Ne gro”
(4,73 mi)
“Negros”
(566 mil)
“Índios”
(209 mil)
“Caboclos”
( 39,6 mil)
11
20
31
19
8
2
-
36
20*
30
2
1
2
1
-
26
9
-**
12
22***
7
7
4
1*****
-
51
3
-**
3
7
2
8
70
-
2 ** ** *
14
10
13
3** **
-
-
-
-
1
-
10
74
9
8
12
9
3
1
6
10
(http://www.google.com.br/images (acessado em 10 e 11/04/2010)
* Gatos, tigres, cavalos, leões...
** Para “preto”: 65% para imagens abstratas e objetos/mercadorias.
*** 14 “buracos negros”.
**** Casas de palha.
***** Para “mulatos”: 19% para sensual-sexual.
As imagens destacadas para “branco” e “brancos” mostram um considerável número
de imagens que classificamos por “animais” e “objetos/mercadorias” (20% e 30,5%, respectivamente).
Para o primeiro grupo (“animais”), é elucidativa a mostra de imagens de animais
brancos e, em muitos casos, de pequenos animais (gatinhos, cachorrinhos, passarinhos...).
6
Da invisibilidade pública: “desaparecimento intersubjetivo de um homem no meio de outros homens”, expressão
de dois fenômenos psicossociais, a humilhação social e a reificação. A humilhação social “É expressão da
desigualdade política, indicando exclusão intersubjetiva de uma classe inteira de homens do âmbito público da
iniciativa e da palavra, do âmbito da ação fundadora e do diálogo, do governo da cidade e do governo do trabalho”.
A reificação “configura-se como processo pelo qual, nas sociedades industriais [mas também pós-industriais], o
valor (do que quer que seja: pessoas, relações inter-humanas, objetos, instituições) vem apresentar-se à consciência
dos homens como valor sobretudo econômico, valor de troca: tudo passa a contar, primeiramente, como mercadoria”
(Costa, 2004, p. 63-64).
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“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
Talvez trivial, porém, a brancura nos (a)parece bastante associada às coisas puras, à
docilidade, à inocência e à luz...
“Brancos”
(http://inusitatus.blogtv.uol.com.br/img...)
Semelhante leitura podemos fazer em relação às imagens “objetos/mercadorias”, que,
se apenas em “branco” e “brancos” elas aparecem, é porque também a relação é íntima
entre “Mundo Branco” e “Mundo do Mercado”. (Como todas as ressalvas possíveis, mas
podemos dizer que para cada “raça” existem os seus “objetos/mercadorias”, na medida em
que “O sistema mundo moderno-colonial, e sua Geografia, se conformou por meio da discriminação racial” [Porto-Gonçalves, 2007, p. 11], ao mesmo tempo em que a idéia de “raça”
participa da “base da divisão mundial do trabalho e do intercâmbio, e na classificação social
e geocultural da população mundial” [Quíjano, 2007, p. 49], também tende a se construir
uma participação desigual das “raças” em uma divisão mundial do consumo.)
“Brancos”
(pt.dreamstime.com/fotografia-de-stock-royalty...)
Para “negro” ou “negros”, os “animais” e os “objetos/mercadorias” praticamente desaparecem. Chamou-nos a atenção, por outro lado, além do maior número de imagens que
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relacionamos à “pessoa”, o expressivo número de imagens em “paisagens”, com catorze
“buracos negros”, quatro imagens de “doenças/dramas”, três de “pênis/sexo-sensual” (aumentando consideravelmente se buscamos imagens para “mulatos”), e catorze imagens
para “imagem ‘antiga’ (‘história’)”.
Se são negros os buracos, é natural que sejam “buracos negros”...
Mas, se em “branco” e “brancos” não apareceu nenhuma imagem relacionada ao que
classificamos como “doenças/dramas”, na busca de “negro” e “negros” elas começam a aparecer. Uma, em especial, foi ao mesmo tempo marcante e chocante.
“Negro””
(http://ci.i.uol.com.br/noticias/2009/06/mangue-negro-560-div.jpg)
E do grupo “pênis/sexo-sensual”...
“Negros””
(attambur.com/Noticias/20033t/negros_de_luz.htm)
Entendemos que (como também observaremos em relação aos grupos “índios” e “caboclos”) se a Modernidade elegeu o Futuro, a Evolução, o Progresso, o Desenvolvimento e a
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“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
Modernização como seus substantivos mais ricos, seria de se supor que “negro” e “negros”
aparecessem expressivamente em “imagem ‘antiga’ (‘história’)” (com catorze imagens contra nenhuma para essa classificação em “branco” e “brancos”)...
A volta a Frantz Fanon (2008 [1952], p. 160 e 138) é inevitável:
O negro, o obscuro, a sombra, as trevas, a noite, os labirintos da terra, as profundezas abissais
[os “buracos negros”], enegrecer a reputação de alguém; e, do outro lado: o olhar claro da
inocência, a pomba branca da paz, a luz feérica, paradisíaca. [...]
Diante do negro, com efeito, tudo se passa no plano genital. [...] eles têm a potência sexual.
Pensem bem, com a liberdade que têm em plena selva! [“imagem ‘antiga’ (‘história’)”] Parece
que dormem em qualquer lugar e a qualquer momento. Eles são genitais.
Com a “liberdade sexual”, talvez tenhamos deixado de lado nossas fantasias e
“desfantasias” sexuais imputando a um Outro a condição de “genitais”. Talvez, com o desenfreado “retorno” à Natureza e ao seu endeusamento ancorado por práticas discursivas
ambientalistas, Ela, a Natureza, agora é espiada, visitada e inundada pelo nosso prazer
civilizacional de Viver a Natureza como o “paraíso perdido”, fazendo-nos mulheres e homens azul-esverdeados como os Navi, em “Avatar”.
Assim, de possa do Sexo e da Natureza, e sempre tendo à frente o Futuro do Mundo
do Corpo e do Corpo do Mundo, perfeitos, harmônicos e “hormônicos”, atribuímos a outros
não mais a condição de “perversão sexual” ou de “estado de selvageria”, mas de seres históA clarividência
ricos, ou melhor, de gentes que ficaram na História e de lá não saíram.
do “Google Imagens” em “índios” (e também em “caboclos”), de trazê-los para a História
(para um Passado o quanto mais distante, melhor), é expressiva e elucidativa. Se para a
classificação “Imagem ‘antiga’(‘história’)”, “índios” aparecem dez vezes, para “Desenhos/
Lendas/Imagens/Folclore”, os “caboclos” são imaginados setenta e quatro vezes (o número
de setenta imagens para “pessoas”, para o grupo “índios”, também não é exceção à regra...).
Os índios, as crianças e a Infância.
“Índios””
(http://www.fmc.am.gov.br/port/Fotos_am/Imagens/indios.jpg)
A caravela, os índios e tapando as suas vergonhas.
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“Índios””
(http://www.grupoescolar.com/a/b/41B48.jpg)
Os “caboclos”, o Velho...
“Caboclos””
(http://www.doutorbasilio.com.br/userimages/caboclos-de-umbanda.jpg)
E a perpetuação do Exótico.
Há pouco tempo, viajávamos para a Europa, por exemplo, e a nós só eram dirigidas, no cotidiano dos encontros, perguntas relativas às nossas praias, ao nosso futebol, ao nosso carnaval, ao
nosso candomblé e à nossa macumba. Hoje, as perguntas mudaram: só é questão dos nossos
meninos de rua, da violência de nossas ruas, dos arrastões, do extermínio dos índios, da dizimação
de nossas matas, da anomia de nossa sociedade. Há pouco tempo, um psicanalista francês em
visita ao Brasil me dizia emotivamente: “eu não poderia dormir com todas essas crianças abandonadas nas ruas”. Só pude responder devolvendo-lhe a pergunta implícita em sua observação:
“como então você consegue dormir?!” (Souza, 1994, p. 194).
É nas gentes, e em seus corpos, que a reprodução da invisibilidade do outro vai se
fazendo como condição para a visibilidade de corpos bem alinhados, de roupas bem costuradas e de carros do último ano com modelos já do ano que vem...
101
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“DESIMAGINANDO”
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O corpo, essa “estratégia de acumulação” (Harvey, 2004, p. 135).
O corpo, esse “território da cultura” e “exercício da territorialidade” (Castro & Bueno,
2005, p. 10).
O corpo, esta “mímesis”, esta “intangibilidade”, esta “integralidade”, este “fragmento” (Takahashi, 2003, p. 147).
O corpo, estas “geografias imaginativas” (Greiner, 2005, p. 104).
“Não existem coisas nem espíritos, só existem corpos...” (Deleuze, 1987, p. 91).
O corpo, em dobras: “A dobra do corpo sobre si mesmo é acompanhada por um desdobramento de espaços imaginários” (Guattari, 1992, p. 153).
O corpo, dentre outros corpos, como “um projeto inconcluso” (Harvey, 2004, p. 136)
porque um corpo político, um corpo que (também) pode.
O corpo, estas experiências (cf. Sennett, 2008, 374)...
“Desimaginemos”, pois, por um brevíssimo instante, o corpo índio Branco e
“desmargeemos” o corpo índio Guarani, tirando-o da “invisibilidade” e trazendo-o ao nosso
lado, como “El cuerpo que habla”, nos dizeres de Mark Münzel (2009, p. 27).
O corpo Guarani que tem ele mesmo uma geografia, donde o conhecimento (séculos
XVI, XVII e XVIII) sobre “os órgãos externos e as partes externas do corpo superam em
quantidade às que se referem aos órgãos internos...”7 (Chamorro, 2009, p. 150). O tempo é
“outro” e hoje, parece-nos, continuamos a ver apenas a externalidade/aparência indígena,
na qual os corpos ainda estigmatizados se reproduzem.
Na rua de casa, em corpos de carroças e roupas velhas.
“Tem alguma coisa pra dá?”” (Índios Guarani)
(Foto de Jones Dari Goettert [2009] – rua do Parque Alvorada – Dourados – MS)
Em corpos de papel dependurados por cordas de “tirar o fôlego”.
“Mais
Dourados”
Mais um índio se suicida em Dourados
(sábado, 13 de março de 2010)
(Foto de Osvaldo Duarte [http://www.opantaneiro.com.br/noticias/policial/95156/mais-um-indio-se-suicida-emdourados])
7
Tradução livre: “[...] los órganos externos y las partes externas del cuerpo superan en cantidad a los que se
referen a los órganos internos”.
102
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Peritos da Polícia Civil de Dourados identificaram há pouco o índio que se suicidou na aldeia
Jaguapiru, reserva indígena de Dourados. [...] De acordo com informações de familiares, o
jovem tinha problemas com bebida e havia se separado da esposa há alguns dias (de Dourados
News, do mesmo site da foto acima).
Mas o espaço, em dobras, desdobras e redobras, se mostra e se oculta simultaneamente. O corpo, idem. O corpo como dobras, tem suas dobras ajeitadas, desajeitadas, rejeitadas e re-ajeitadas a todo instante, em todo lugar. O corpo Guarani se vê pelo menos
duplamente dobrado: dobrado para a interioridade de si mesmo, Guarani; e dobrado para a
exterioridade, não-indígena.
O corpo Guarani (como espaço, como qualquer outro espaço), em dobras, é mais que
a oposição como em “dedo sempre em riste” a mirar e minar o inimigo. O corpo, os espaços,
os lugares, os territórios, são agora (como certamente sempre foram) híbridos, hibridizados
e “hibridizantes”, sempre em processos de verdade e nunca a verdade ela mesma pronta e
acabada.
O “verdadeiro” é sempre marcado e embasado pela ambivalência do próprio processo de emergência, pela produtividade de sentidos que constrói contra-saberes in media res, no ato mesmo
do agonismo, no interior dos termos de uma negociação (ao invés de uma negação) de elementos oposicionais e antagonísticos (Bhabha, 1998, p. 48).
Em Dourados, para aquém-além do cotidiano do “Tem alguma coisa pra dá?” e dos
suicídios, quatro jovens Guarani fizeram do corpo a dobradura radical de um entre-lugar
entre a necessidade e o desejo de se mostrarem Guarani, como alma-e-corpo, e a possibilidade de serem “desinvizibilizados” em um ritmo-e-poesia fundado entre gentes “periféricas” da cidade e da aldeia, como corpo-e-alma RAP.
Eu comecei a ouvir RAP foi mais na escola, quando a professora da cidade trouxe um CD do
Fase Terminal, do Higor. A professora ajudou a fazer uma letra e eu então cantei na escola. Um
dia apareceu aqui o Higor, e eu pensei que ele fosse um daqueles cantores de música REGGAE.
Depois chegaram o Clemerson, o Kelvin e o Charles. Daí, formamos o “BRÔ MC’s”. “Brô” de
Bruno, porque eu sou Bruno, mas “Brô” também de “brother”, porque nós somos os brothers do
“BRÔ MC’s”. Se não estivéssemos no grupo e nem cantando, certamente seríamos mais quatro
índios cortadores de cana para as usinas da região. Agora somos “BRÔ MC’s”, e todo mundo
daqui gosta, até já fizemos vários shows. Os velhos e rezadores também incentivam, porque o
nosso RAP mistura o português com o guarani, e é uma forma de continuar assim como nós
somos, índios Guarani. Meus pais no início estranharam, até com essas calças que diziam que
era pra roubar melancia, de tão largas que são (em conversa com Jones Dari Goettert, em 21/
05/2010).
Corpos índios viraram corpos índios-rappers. Os corpos Guarani invadiram o RAP e
o RAP invadiu os corpos Guarani. Dobrados, os corpos índios-rappers “desdobram” as dobras do corpo, e o espaço Guarani todo é partícipe de uma “multi/transterritorialidade” (em
aproximação a Rogério Haesbaert [2004; 2009]), sendo cada vez mais complexa precisar o
limite entre índio e rapper, entre interioridade e exterioridade.
“Deslimitado”, o espaço “BRÔ MC’s” vira batida, letra, canto, break e CD a partir da
socialização de tecnologia desenvolvida pela grupo Fase Terminal, e disseminada também
através de oficinas desenvolvidas pela Central Única das Favelas – CUFA – de Dourados.
103
GOETTERT, J. D.
“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
“BRÔ MC’s””
(Capa do CD [http://cufadouradosms.blogspot.com/] – em 20 de maio de 2010)
Eles vivem na segunda maior reserva indígena do país, cantam rap misturando guarani e
português, uma inusitada mistura que soa diferente aos ouvidos num primeiro momento, mas
logo depois você se acostuma e fica bem interessante essa mistura genuinamente brasileira.
[...] Estou falando do grupo Brô, um grupo de jovens indígenas. Eles Vivem na Aldeia Jaguapiru,
em Dourados – MS. A Reserva possui hoje mais de 30 mil habitantes e esses jovens, através das
oficinas de hip hop ministradas pelo MC Higor Marcelo, do grupo Fase Terminal, se identificaram com as letras de protesto do rap nacional e decidiram criar seu próprio estilo com composições em português e em sua língua nativa. [...] No começo era só mais uma lição das aulas,
mas depois que viu as letras, Higor decidiu que o rap dos meninos não poderia ficar confinado
àquela aldeia, ele tinha que ganhar o mundo e foi assim que surgiu o projeto do primeiro cd de
um grupo de rap indígena do Brasil. [...] Em dezembro [2009] foi o lançamento do cd, no festival
Conexão Hip Hop, realizado pela CUFA Dourados e os meninos, minutos antes de subir no
palco, estavam apreensivos, ansiosos, com medo até de esquecer a letra, mas segundo eles, foi
só subir no palco que tudo passou, foram muito aplaudidos pelo público local e no fim todo
mundo queria saber de onde vinham aquelas palavras incompreensíveis aos nossos ouvidos,
eles só diziam “é a língua verdadeira do Brasil”. [...] Hoje as poucas cópias feitas de maneira
artesanal já andam pela cidade de Dourados e alguns lugares do país, instigando e encantando
aqueles que curtem o rap e também por aqueles que se interessaram por esse modo novo de
cantar a realidade de onde eles vivem, o amor, o protesto (do mesmo site da foto acima).
“DESMARGEANDO-SE”...
...
DE ONDE VINHAM AQUELAS PALAVRAS INCOMPREENSÍVEIS AOS NOSSOS OUVIDOS...
“Desmargeando” as margens, “desdesdobrando” as dobras
O corpo como dobra. O corpo que dobra. O corpo índio dobrado break. O RAP
“corporeando” o corpo Guarani.
O relato “BRÔ MC’s” é o relato do mundo. De que lugar fala? Da aldeia para o mundo, do
mundo para a aldeia, da aldeia para Dourados, de Dourados para a aldeia... De que lugar fala
o “BRÔ MC’s”? Das margens do mundo, e como de margens o mundo é feito, fala, Mano, do
mundo (Higor Marcelo Lobo Vieira – grupo RAP Fase Terminal – Dourados [27/05/2010, durante II Semana dos Geógrafos e III Expogeo – UFGD]).
Fala o mundo. Fala para o Mundo e para os mundos, para fora e para dentro dele,
deles... O corpo que se dobra, desdobra e redobra para fora de si e para si mesmo. Para o
mundo e para aldeia. Da escala do corpo à escala global.
Um corpo “nômade”: “[...] o [nômade é] homem da terra, o homem da
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Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
desterritorialização – ainda que ele seja também aquele que não se move, que permanece
agarrado ao meio, deserto ou estepe” (Deleuze, 1977, p. 162).
“Desterritorializado” ou territorializado em mais de um lugar, em mais de um tempo? Como corpo participante de modos de subjetivação (que também se fazem em modos de
objetivação), a condição de “multiterritorialidade”/”transterritorialidade” é a simultaneidade sempre inconclusa dos processos de territorialização-desterritorializaçãoreterritorialização (a partir de Haesbaert [1997; 2004]).
É toda uma geografia do pensamento que se coloca em movimento e o nômade é aquele que,
mesmo sem sair do lugar, foge para todos os lados, para não se deixar capturar pelas armadilhas do instituído. [...]
A dobra deleuziana é a curvatura ou a inflexão destas linhas [temporais e espaciais] infinitamente móveis que percorrem o plano da imanência cuja superfície é povoada por singularidades anônimas e nômades. A dobra exprime a desaceleração deste movimento infinito, produzindo a convergência das singularidades em um dado momento, criando assim um dentro que
é coextensivo a um fora, e que é a condição para que um mundo comece. A dobra é, portanto, a
expressão de um mundo possível. Este mundo possível não corresponde ao melhor dos mundos, segundo a forma leibniziana, mas significa que o mundo mesmo é acontecimento, é produção contínua do absolutamente novo. Partir do mundo, da série infinita que é o mundo, implica
traçar um plano de imanência – cujo pressuposto é a multiplicidade – e inventar um personagem conceitual – o nômade – que possa habitar esta multiplicidade e montar sua tenda em
qualquer lugar (Silva, 2004).
Mas “deixemos”, por aqui, as dobras deleuzianas...
Pensamos que Milton Santos (2002), em “o espaço é a acumulação desigual de tempos”, já indicava o espaço como dobras, em certa dialética das dobraduras. Os tempos se
acumulam em dobras de espaço, ao passo que o próprio espaço também se acumula em
dobras no tempo. Porém, como dobras, o espaço é ele mesmo tempo como um “nômade”
entre-lugar, pressupondo, assim, a quebra da dicotomia espaço/tempo. E como “acumulação desigual de tempos”, o espaço como dobras é processo indefinido a cada novo rearranjo
espacial, pois cada movimento a dobra dobra tudo o resto.
E “Pelo espaço”, também pensamos que Doreen Massey (2008, p. 28), em “o espaço
como uma simultaneidade de estórias-até-agora”, apresenta um modo de compreender o
espaço como dobras. (Mas não estamos querendo dizer, nem para Doreen Massey e nem
para Milton Santos, que haja neles uma filiação deleuziana...) As “estórias” como dobras
em simultaneidade, que podem ser entendidas como os tempos desigualmente acumulados. Em cada momento, as dobras (tempos, estórias) se rearranjam, produzindo novas/
outras acumulações desiguais de tempos, produzindo novas/outras simultaneidades de estórias-até-agora.
*
É preciso “transfazer” os verbos hegemônicos (ou dominantes). Menos que negá-los,
talvez o importante seja metamorfoseá-los em movimentos nunca lineares, sempre dialéticos,
“dialetizados” e “dialetizantes”. “Desprogredir” em vez de progredir. “Desevoluir” em vez
de evoluir. “Desdesenvolver” em vez de desenvolver, “Desmodernizar” em vez de modernizar... Porque a questão é mais que não-desenvolver, mas “desdesenvolver” imaginando e
fazendo um novo envolvimento, em misturas de tempos e em misturas de espaços...
“Desimaginar” o Mundo. As margens/dobras do “desmundo”. Tomarmos, para nós, a condição humana...
Em “Babel”, Chieko reencontra o pai.
Em “Livro de pré-coisas”, Bernardo “aplaina as águas”.
Em “Terra vermelha”, a terra reencontra Guarani.
Em “O deus das pequenas coisas”, os gêmeos Rahel e Estha se reencontram como
“estranhos que haviam se encontrado por acaso”, mas que já “se conheciam antes da Vida
começar”.
Em “Caché”, Pierrot e o filho de Majid se encontram marcando um novo encontro.
Em “O último voo do flamingo”, os ossos de Sulplício reencontram o corpo “na margem de um infinito buraco”.
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GOETTERT, J. D.
“DESIMAGINANDO”
O
MUNDO PELAS MARGENS ...
“Desimaginar” o Mundo. Imaginar os mundos...
Um encontro entre Sulplício e o grupo “Brô”, entre Ana Deusqueira e Bernardo,
entre o vespral de arraia e Temporina, entre Chieko e Pierrot, entre Rahel e o Guarani...
Como espaços de simultaneidade de trajetórias de estórias-até-agora ou de (des)acumulações
múltiplas de tempos.
Com “Todos os nomes”, pois “[...] que o tempo, ainda que os relógios queiram convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda a gente” (Saramago, 1997, p. 47).
... Nem o espaço.
“Babel””
(um abraço)
(Fotograma [2h15min08s])
APÊNDICE
Terra vermelha
vermelha. Dourados, Mato Grosso do Sul, Brasil. Depois de (mais) dois suicídios de jovens Guarani, o cacique Nádio e seu grupo resolvem ocupar terras de um antigo
Tekoha. Por entre conflitos, tensões e negociações, o grupo sofre uma emboscada e Nádio é
morto. É a vitória do fazendeiro?
Babel
Babel. Marrocos, Estados Unidos/México e Japão. Um incidente na África se desdobra, desigualmente, para vidas e gentes de perto e de longe. Fronteiras formais, étnicoculturais e corporal-subjetivas se adensam em pequenos/grandes dramas humanos.
Caché
Caché. França. Georges e a esposa Anne recebem fitas de vídeo com imagens feitas
em frente de casa; depois, junto a desenhos estranhos. Quem enviava? Pouco a pouco, um
espaço oculto de Georges vai tomando o centro ao (des)invibilizar o argelino Majid.
O último voo do flamingo
flamingo. Tizangara. De um lugar fictício moçambicano-africano,
soldados da ONU explodem, só restando intacto e visível o pênis. Um italiano detetive é
deslocado para investigar as causas, mas a comunicação entre Mundo Colonizador e os
mundos de Sulplício, Ana Deusqueira, Zeca Andorinha e Temporina parecem impossíveis.
Livro de pré-coisas
pré-coisas. O Pantanal “deslimitado”. Mundos em “transfazimento” são o
próprio Pantanal se fazendo, desfazendo e refazendo. Ali, águas, bichos e árvores viram
gente, e gentes viram tudo outra vez em um espaço “mundofágico”.
O deus das pequenas coisas
coisas. Ayemenem, Índia. Irmã e irmão gêmeos nascem e vivem os primeiros anos como Nós, em identidades juntas. Separados, vivem os seus Eus.
Agora, mais de vinte anos depois, voltam e se reencontram em mundos indianos marcados
pelas tradições e por estrangeiridades, que mais se excluem que se aproximam.
106
Terra Livre - n. 34 (1): 79-108, 2010
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O
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108
ENSINAR A
GEOGRAFIA OU
ENSINAR COM A
GEOGRAFIA?
DAS PRÁTICAS E DOS
ACIAIS
SABERES ESP
ESPACIAIS
À CONSTRUÇÃO DO
CONHECIMENTO
GEOGRÁFICO NA
ESCOLA
PRÁCTICAS Y
CONOCIMIENTO DEL
ESPACIO
ESP
ACIO A LA
CONSTRUCCIÓN DEL
DE CONOCIMIENTO
GEOGRÁFICO EN LA
ESCUELA
PRA
TIQUES ET DU
RATIQUES
SA
ESPACE
SAVOIR
ACE A
VOIR DE L’ESP
LA CONSTRUCTION
DES CONNAISSANCES
GÉOGRAPHIQUE À
L’ÉCOLE
Resumo
Resumo: O objetivo é debater a metodologia do ensino de geografia
através do entrecruzamento e articulação das práticas e dos saberes
espaciais dos alunos aos conceitos geográficos; que permita conformar
uma didática da construção de conceitos na escola. O texto desenvolvese na seqüência sugerida à prática pedagógica: exposição dos significados
das práticas e dos saberes espaciais, seus desdobramentos psicopedagógicos; e apresentação do conceito de produção do espaço e seu
conteúdo no presente momento histórico, que permita pensar o papel
da geografia na escola e a relação entre os conceitos e os conteúdos.
Propõe-se à metodologia do ensino da geografia o processo de ascensão
do abstrato ao concreto em que o ponto de partida constitui-se dos
conhecimentos prévios dos alunos (resultantes de sua prática social) e,
simultaneamente, da maneira como a geografia questiona os problemas
desta prática. Tanto os conhecimentos prévios quanto os conhecimentos
geográficos são abstrações (de um concreto) com qualidades distintas
que, conjugadas, devem conduzir à reprodução, no pensamento, do
concreto como síntese de muitas determinações.
Palavras-chave: ensino de geografia; práticas espaciais; consciência
espacial; conhecimento geográfico; construção de conceitos.
Resumen: El objetivo es discutir la metodología de la enseñanza de la
geografía a través de la intersección y articulación de las prácticas y los
conocimientos de los estudiantes a conceptos geográficos espaciales, lo
que permite la construcción de conformar una conceptos didácticos en
la escuela. El texto se desarrolla en la secuencia sugerida de la práctica
pedagógica: exposición de los significados de las prácticas y espacio de
conocimiento, su evolución psico-pedagógico; la presentación del concepto
de producción del espacio y sus contenidos en este momento histórico,
para sugerir el papel de la geografía en la escuela y la relación entre los
conceptos y el contenido. Se propone la metodología de la enseñanza de
la geografía del proceso de ascensión de lo abstracto a lo concreto en
qué punto se es la puesta en marcha de ‘antes conocimiento de los
estudiantes (como resultado de su práctica social) y, simultáneamente,
la forma en la geografía piensa los problemas esta práctica. Tanto los
conocimientos previos sobre los conocimientos geográficos son
abstracciones (de hormigón), con cualidades distintas que, en conjunto,
deberían conducir a la reproducción, la idea del concreto como síntesis
de múltiples determinaciones.
Palabras-clave: enseñanza de la geografía; las prácticas del espacio; la
conciencia espacial; el conocimiento geográfico; la construcción de
conceptos.
MARCOS ANTÔNIO
CAMPOS COUTO
AGB-Niterói
Dgeo FFP-UERJ
[email protected]
Título da Mesa 16 - EIXO 06 - A
EDUCAÇÃO
COMO
INSTRUMENTO
DE
AUTONOMIA E LIBERDADE – do
XV Encontro Nacional de
Geógrafos. Porto Alegre-RS: AGB,
2010.
Terra Livre
Résumé : L’objectif est de discuter de la méthodologie de l’enseignement
de la géographie dans l’intersection et l’articulation des pratiques et
des connaissances des élèves à l’espace des concepts géographiques,
permettant la construction de se conformer certains concepts didactiques
à l’école. Le texte est développé dans la séquence proposée de la pratique
pédagogique: exposition de la signification des pratiques et de l’espace
des connaissances, de ses développements psycho-pédagogique; la
présentation de la notion de production de l’espace et son contenu dans
ce moment historique, de proposer le rôle de la géographie à l’école et la
relation entre les concepts et les contenus. Il est proposé à la
méthodologie de l’enseignement de la géographie du processus
d’ascension de l’abstrait au concret dans lequel le point de départ est
composé de »avant les connaissances des étudiants (issus de leur pratique
sociale) et, simultanément, la façon dont la géographie pense que les
problèmes cette pratique. Les connaissances a priori sur les
connaissances géographiques sont des abstractions (en béton) avec des
qualités distinctes qui, pris ensemble, devraient conduire à la
reproduction, la pensée du béton comme une synthèse de nombreuses
déterminations.
Mots-clés: enseignement de la géographie; les pratiques spatiales;
conscience de l’espace; les connaissances géographiques; la construction
de concepts.
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 109-124 Jan-Jun/2010
109
COUTO, M. A. C.
ENSINAR A GEOGRAFIA OU ENSINAR COM A GEOGRAFIA?...
INTRODUÇÃO
Desde pelo menos o 1° Fala Professor (Brasília, 1987) se propõe à pesquisa sobre o
ensino de geografia e à prática dos professores a compreensão do espaço como produto do
trabalho social - produzido pela sociedade ao longo de sua história -, considerando a realidade e os saberes dos alunos, seus espaços de vivência e outros espaços
Desta proposição distinguimos três temas para análise e articulação, considerando a
sua potencialidade questionadora da metodologia do ensino da geografia na escola:
1.
O da produção social do espaço, do seu conteúdo no presente momento histórico e do sistema de conceitos que permitam sua interpretação;
2.
O da consciência espacial, saber geográfico produzido na prática social do espaço;
3.
O da prática espacial, prática social mediada por imposições espaciais.
A reflexão sobre a produção do espaço permite definir os objetivos gerais da geografia na escola neste momento histórico, tanto nos níveis de ensino quanto nos anos escolares, bem como estabelecer os critérios de seleção dos conceitos e conteúdos – o que é fundamental ensinar e aprender na atual conjuntura histórica. A consciência espacial é reveladora
do universo cultural, dos conhecimentos prévios e do nível de compreensão da realidade
que os alunos possuem. A prática espacial dos alunos permite contextualizá-la nas relações
sócio-espaciais do capitalismo.
A articulação dos três temas sugere uma prática pedagógica que se inicia e se conclui
com a problematização das práticas e dos saberes espaciais, intermediada pelo processo de
construção do conhecimento geográfico.
Na renovação do discurso geográfico, Milton Santos (1986) defendeu a idéia de que é
necessário reconhecer um objeto à geografia - bem como suas categorias fundamentais.
Para ele, “trata-se da produção do espaço” (p. 111): são os fatos referentes à gênese, ao
funcionamento e à evolução do espaço [tal qual ele se apresenta, como um produto histórico] que nos interessam em primeiro lugar” (p. 117). Esta historicidade do espaço significa
que a geografia deve ocupar-se em investigar “como o tempo se torna espaço” (p. 105).
O autor combatia o empiricismo abstrato e o caráter descritivo e fragmentário do
método de investigação e de ensino, marcantes na história de uma geografia a serviço de
um projeto imperial. Esta concepção, por um lado, transforma as relações entre os homens
em relações entre objetos, e, por outro, substitui – na pesquisa e no ensino - o espaço real
das sociedades em seu devir, pela história dos historiadores, pela natureza natural e pela
economia neoclássica (Santos, 1986, p. 83 a 93).
No ano de 1986 foi publicado o livro A geografia do aluno trabalhador – caminhos
para uma prática de ensino (Resende, 1986)1, cujo conteúdo foi o resultado da investigação
da consciência espacial, isto é, do “saber geográfico pré-escolar do aluno trabalhador, com
vistas a seu aproveitamento pelo ensino sistemático de geografia” (Resende: 1989, p. 83),
apontando para uma renovação prático-pedagógica que trabalhe os conteúdos de maneira
crítica, considerando alunos e professores como produtores de conhecimento.
Resende (1989, p.84) criticava a idéia, que se reproduz nas práticas de ensino, de que
o aluno é “um ser neutro, sem vida, sem cultura, sem história... entidade alheia ao momento histórico e aos espaços geográficos determinados”, cuja conseqüência é não reconhecer
potencialidades de sua ação de produção e transformação da história e da geografia,
desconsiderando-o como sujeito do processo de conhecimentos e portador de um saber espacial.
No livro A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, publicado
no Brasil em 1988, Yves Lacoste (1988) faz a crítica da neutralidade científica da geografia
1
Este livro está esgotado e parece que não houve outra edição.
110
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dos professores e propõe a tese da espacialidade diferencial, conteúdo central das práticas
espaciais da geografia do capitalismo.
Combatendo o caráter aparentemente neutro, desconectado da prática social, ingênuo e enfadonho da geografia dos professores, Lacoste (1988) põe o discurso geográfico e o
mapa no cerne da prática social, explicitando o significado político dos saberes e das práticas espaciais no contexto da sociedade capitalista.
Desde a década de 1980 estes temas desenvolveram-se na pesquisa em geografia em
pelo menos dois âmbitos: no campo da epistemologia, do questionamento dos significados
do que seja a geografia, seu sistema de conceitos a partir da produção social do espaço, seus
métodos de pesquisa e ensino; outra direção seguida foi o da crítica pedagógica, envolvendo
as teorias da aprendizagem e as pesquisas da psicogênese do pensamento através da construção de conceitos.
O objetivo do presente texto é debater a metodologia do ensino de geografia através
da identificação, entrecruzamento e articulação das práticas e dos saberes espaciais dos
alunos aos conceitos geográficos; que permita conformar uma didática da construção de
conceitos na escola.
Tal empreitada exige o difícil esforço de (re)construir a unidade dos aspectos
epistemológicos e psico-pedagógicos que fundamenta teórico-metodologicamente a pesquisa em ensino e a prática de ensino de geografia. Esta unidade permite responder àquelas
perguntas permanentes dos professores de geografia - O que ensinar? Porque ensinar? E
como ensinar geografia? (Almeida: 1991) e Como aprender geografia? – indispensáveis a
uma prática pedagógica consciente e crítica.
Hegel (1995) estabeleceu o que ele denomina de um fio condutor para uma nova
elaboração da filosofia conforme um método idêntico ao conteúdo. O que se propõe, então,
é partir da problematização do conteúdo das práticas sociais/espaciais do presente momento histórico para, de sua análise teórica, debater caminhos para a metodologia de ensinoaprendizagem.
O texto desenvolve-se na mesma seqüência sugerida à prática pedagógica, cujo ponto de partida é o conhecimento dos alunos. Em primeiro lugar, são expostos os significados
das práticas e dos saberes espaciais, sua problematização a partir do enfoque psico-pedagógico. Em seguida, é apresentado o conceito de produção do espaço - os conceitos correlatos
– e seu conteúdo no presente momento histórico; que sirva à definição dos objetivos da
geografia na escola, como critério da seleção dos conceitos e conteúdos e ao questionamento
dos problemas das práticas e saberes espaciais dos alunos.
DAS
PRÁTICAS ESP
ESPACIAIS
ACIAIS AOS SABERES GEOGRÁFICOS
Por fazer parte do cotidiano, a geografia é uma forma de saber que goza de muita
popularidade. Isto decorre da presença dos mapas, do contado com as paisagens, e das
práticas espaciais, isto é, do “fato de que todo dia fazemos nosso percurso geográfico, de
casa para o trabalho, do trabalho para a escola, da escola para o trabalho, pondo a geografia
na própria intimidade das nossas condições de existência” (Moreira: 2010, p. 45). As práticas espaciais se inscrevem na relação homem-meio e na luta pela sobrevivência. A continuidade - e acúmulo dos produtos - das práticas espaciais “vai levando o homem a distinguir os melhores locais” para o cultivo e criação para prover-se cada vez melhor dos meios
de sobrevivência. Esse processo envolve experimentações, sistematização de experiências,
comparações, abstrações, transformações das práticas, ou seja, um conjunto de saberes
sociais/espaciais.
Yves Lacoste (1988) inicia suas reflexões sobre as práticas e representações espaciais
quando explica o grande interesse pelos fenômenos geográficos dos estados-maiores militares e das corporações financeiras. Para ele tal interesse é conseqüência das diversas representações de espaço que são/estão diretamente ligadas ao conjunto das práticas sociais
e da importância estratégica e econômica dos fenômenos de localização.
Das mudanças que ocorreram ao longo da história nas práticas sociais em relação ao
espaço, Lacoste caracteriza as práticas e representações espaciais.
111
COUTO, M. A. C.
ENSINAR A GEOGRAFIA OU ENSINAR COM A GEOGRAFIA?...
Nas primeiras sociedades, a prática social era inscrita no quadro de um mesmo espaço, relativamente limitado e em muitos casos percorrido a pé, onde os indivíduos reconheciam seus pontos de referência com muita facilidade; um espaço contínuo cuja representação era marcada pela experiência pessoal e concreta. Conhecer o terreno e os seus limites
(da comuna, da paróquia, etc): “A maioria das práticas espaciais habituais (deslocamentos
para os trabalhos agrícolas e para a caça, por exemplo) do grupo aldeão (e mesmo de cada
família) se inscreve num pequeno número de conjuntos espaciais de dimensões relativamente restritas e encaixadas umas nas outras” (Lacoste, 1988: p. 21).
As práticas sociais dos chefes de guerra ou príncipes alteraram esse quadro, pois foi
preciso representar outros espaços, territórios dominados ou a dominar, que exigiram a
produção de conhecimentos sobre estradas, distâncias, regiões distintas. Da experiência
pessoal - do espaço percorrido e do olhar que alcança a paisagem -, foi necessário avançar
para a representação dos espaços em diferentes escalas: “O imperador deve ter uma representação global e precisa do império, de suas estruturas espaciais internas (províncias) e
dos Estados que o contornam” (p. 20).
A geografia existe, pelos menos, desde que existe o Estado e seus aparelhos, sendo
percebida como um saber estratégico a serviço do poder. Com “o auxílio das cartas” os
Oficiais decidem “a sua tática e a sua estratégia”. Os burocratas estruturam o “espaço em
províncias, departamentos, distritos”. Os exploradores “preparam a conquista colonial e a
‘valorização’” decidindo sobre a localização de investimentos nos níveis regional, nacional e
internacional. Esta geografia é um “conjunto de representações cartográficas e de conhecimentos bem variados, visto em sua relação com o espaço terrestre” (p. 12).
No contexto das sociedades mercantis, com o aparecimento das grandes cidades e
expansão do comércio e, atualmente, com o desenvolvimento do capitalismo ao nível mundial, as pessoas se referem a muitas representações do espaço, resultante das mais diferentes práticas sociais. Relações sociais que funcionam sobre distâncias mais ou menos amplas; em que alguns constroem “uma idéia precisa de sua extensão e de sua configuração”
(por exemplo, a delimitação da influência de uma empresa ou produto ao nível local, regional, nacional e internacional), enquanto a maioria os ignora. O espaço, as “diferentes redes
não se dispõem com contornos idênticos, elas “cobrem” territórios de portes bastante desiguais e seus limites se encavalam e se entrecruzam” (p. 20). Hoje as práticas sociais se
realizam sobre distâncias cada vez mais consideráveis; pessoas percorrem trajetos de espaços ignorados e conhecem apenas os pontos de partida e de chegada. Além do vai-e-vem
diário (casa-trabalho-escola-casa), há ainda os deslocamentos de fins de semana ou dos
feriadões, em que muita gente sai dos grandes centros urbanos em direção às áreas de
veraneio, na praia ou na serra. Com os automóveis, “as ligações rodoviárias a distâncias
mais ou menos grandes se multiplicaram e se intensificaram, e as práticas espaciais se
estenderam e se diversificaram socialmente” (p. 22); ou seja, se multiplicaram as práticas
sociais mediadas por práticas espaciais. Por isso, agora a “diversidade das práticas espaciais... podem se traduzir sobre a carta num grande número de conjuntos espaciais, com
contornos e dimensões bem diferentes uns dos outros. Ou seja, “as diversas práticas sociais
têm, cada qual, uma configuração espacial particular.... uma superposição de conjuntos
espaciais que se interceptam uns aos outros” (Lacoste: 1988, p. 22).
No cotidiano se faz referência a representações do espaço de tamanhos muito diferentes ou conjuntos espaciais superpostos: “As práticas sociais se tornaram mais ou menos
confusamente multiescalares” [...] Hoje, nossos diferentes “papéis” se inscrevem cada um
em migalhas de espaço, entre os quais nós olhamos sobretudo nossos relógios, quando nos
fazem passar, a cada dia, de um a outro papel (p. 23). São deslocamentos sonâmbulos.
Assim, afirma o autor, vive-se “numa espacialidade diferencial feita de uma multiplicidade
de representações espaciais, de dimensões muito diversas, que correspondem a toda uma
série de práticas e de idéias, mais ou menos dissociadas” (p. 23).
A partir desta nova realidade, Lacoste reconhece a razão de existir da geografia:
A impregnação da cultura social por um amontoado de representações espaciais heteróclitas
faz com que o espaço se torne cada vez mais difícil de ser ali reconhecido, mas também cada vez
112
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mais necessário, pois as práticas espaciais têm um peso sempre maior na sociedade e na vida
de cada um. O desenvolvimento do processo de espacialidade diferencial acarretará, necessariamente, cedo ou tarde a evolução a nível coletivo de um saber pensar o espaço, isto é, a
familiarização de cada um com um instrumento conceitual que permite articular, em função de
diversas práticas, as múltiplas representações espaciais que é conveniente distinguir, quaisquer que sejam sua configuração e sua escala, de maneira a dispor de um instrumental de ação
e de reflexão. (Lacoste: 1988, p. 24)
Ao colocar a geografia no cerne da práxis social, Lacoste propõe a articulação das
práticas e das representações espaciais à familiarização de um instrumental conceitual,
que permita – pela sua interpretação – a transformação da realidade.
Resumidamente, as práticas espaciais são práticas sociais de: localização e de reconhecimento de pontos de referência; deslocamentos e fenômenos que conformam um determinado conjunto espacial com configuração e limites próprios; conquista e domínio de territórios; representação dos espaços em diferentes escalas; delimitação de espaços e
interligação entre eles; entrecruzamento de diferentes conjuntos espaciais.
As representações espaciais têm o sentido amplo de apropriação de mundo pelo pensamento, impregnado de significados geográficos, o que inclui percepções e imagens de
muitas cidades e de diferentes ambientes do mundo, pontos de referências, cartografias do
viver e de diversos lugares, etc, conformando uma determinada consciência espacial.
Márcia Maria Spyer Resende (1986, 1989) investigou a percepção e a consciência
espacial que emerge da vivência prático-social do espaço de alunos-trabalhadores de Belo
Horizonte-MG.
Esta consciência espacial - um saber geográfico pré-escolar – é mediada pela inserção dos alunos nas relações de trabalho no contexto da luta pela sobrevivência: “Subordinada à lógica do trabalho, essa percepção do espaço está visceralmente ligada à experiência
vivida, a um espaço que, de certa forma, a experiência vivida seleciona e ordena” (Resende,
1989, p. 86).
Resende identifica alguns eixos de interpretação da experiência espacial dos alunos,
a partir de seus relatos de vida.
Para os alunos-trabalhadores de origem rural, a integração natureza/trabalho tem o
espaço familiar camponês como ponto de partida: “espaço de trabalho, onde os códigos da
criança e do adolescente estão, de certa forma, já subordinados ao mundo adulto do trabalho e da sobrevivência” (p. 87). As primeiras recordações de seu espaço de origem “são
automaticamente descritos através do trabalho dos pais” (p. 88) na roça, as vezes como
meieiro numa fazenda, na lida com animais, na zona da mata, no município tal, etc. Esta
origem de trabalhador rural faz emergir um conjunto de conhecimentos sobre os fenômenos naturais: as estações do ano – época de plantio e de colheita; as mudanças do clima –
momentos de cheia e de seca; as características do terreno – viabilidade ou não para a
lavoura; conhecimentos diretamente ligados à (re)produção da sobrevivência2. Desta forma, a natureza é “percebida de maneira dinâmica em relação à dialética com o trabalho do
homem”, em que “o espaço ganha uma dimensão eminentemente social... ele nunca é neutro, aberto, sem divisões, sem donos” (Resende: 1989, p. 95)3.
Para alunos que nasceram e foram criados em Belo Horizonte, a percepção dos fenômenos naturais quase desaparece, pois a natureza já não se configura diretamente como
fonte do trabalho e da sobrevivência. O espaço urbano é um lugar do existir:
Trata-se muito mais de um cenário (até porque móvel e substituível, como tudo enfim na vida
urbana), que de um ambiente stricto sensu, um espaço do qual se guardam – e se mencionam
– certos acidentes geográficos que impregnaram a consciência. E isto não se dá, obviamente,
porque as vivências, no meio urbano, sejam menos intensas do ponto de vista psicológico ou
2
“... se o rio permite, a boiada segue; se chove, a lavoura resiste; se não chove, não haverá o que comer; se alaga,
a carroça não passa; se é setembro, começa o plantio...“. (Resende: 1989, p. 100, 101).
3
Resende informa que dos alunos que nasceram na roça, 80% do relato de vida ocupa-se do convívio familiar do
trabalho nas áreas rurais e do íntimo convívio com os fenômenos naturais; sobre o espaço urbano, apenas um
punhado de frases.
113
COUTO, M. A. C.
ENSINAR A GEOGRAFIA OU ENSINAR COM A GEOGRAFIA?...
afetivo. Ao contrário, até onde se possa especular, a vida urbana tende a oferecer experiências
psicológicas e afetivas se não mais profundas... pelo menos mais variadas. No entanto, justamente essa mobilidade de vida, essa qualidade instrumental e descartável do espaço, tornado
agora apenas invólucro da vivência e não mais um elemento ativo dela, quase um co-sujeito,
como acontecia na roça, faz com que o homem, o trabalhador, se olvide da natureza, reduzindose esta a pura e simplesmente um local onde as coisas acontecem, por onde se passa, onde se
mora e de onde se muda, sem que isso altere grande coisa. (Resende: 1989, p. 100)
Entretanto, o trabalhador de origem urbana não está alheio à lógica produtiva e ao
seu trabalho no contexto da luta pela sobrevivência; porém suas primeiras impressões do
espaço e de sua organização se manifestam de forma distinta dos trabalhadores urbanos de
origem rural.
Na cidade, desde o início, afirma Resende (1989) “o espaço para o aluno
trabalhar é sobretudo o lugar de moradia, articulado por sua vez com o lugar de trabalho”.
O empregado não vive no trabalho, necessitando “lutar pela moradia” (Resende: 1989, p.
103, 104)4. E nesta luta por emprego e moradia – que une trabalhadores oriundos da
cidade e do campo -, os alunos percebem - mesmo que de forma incompleta - a divisão social
do espaço (bairros dos pobres, bairros dos ricos, favelas no centro, condomínios em áreas
verdes, etc) e o caráter privado da reprodução do espaço urbano. Assim, o espaço é político,
pois “é sempre percebido como ‘cercado’, dividido, possuído ou não, mas de qualquer forma
nunca um espaço inteiriço e universal, pelo qual a sociedade se distribuiria mais ou menos
aleatoriamente” (p. 95).
No livro de Resende (1986) estão reproduzidos os conteúdos das entrevistas realizadas com os alunos-trabalhadores, onde é possível explorar outros aspectos desta consciência espacial produzida na prática social do espaço. Embora ricos de significados geográficos - por reproduzir uma concepção integrada da relação sociedade-espaço-natureza -, nem
sempre estes raciocínios conseguem realizar toda a potencialidade do jogo do particular e
do universal, do próximo e do distante, do visível e do invisível, do todo e da parte; jogo que
caracteriza o movimento dos conceitos científicos.
Antes de ser teórico, todo conhecimento é prático; é um fato que nasce das práticas
sociais e da relação dos seres humanos com a natureza (Lefevbre: 1987). A escola não deve
prescindir deles, mas elevá-los para níveis maiores de universalidade; o que requer uma
prática pedagógica que os levem em consideração e os transformem em conhecimento teórico-científico.
DA PROBLEMA
TIZAÇÃO DA PRÁTICA ESP
ACIAL À PEDAGOGIA DA CONSTRUÇÃO
PROBLEMATIZAÇÃO
ESPACIAL
DE CONCEITOS
O que se propõe é traduzir esta prática/saber espacial em problematização da prática
social - ponto de partida e de chegada do processo de ensino-aprendizagem.
A partir da crítica da pedagogia tradicional e da pedagogia escolanovista de resolução de problemas, mas também dos limites das teorias critico-reprodutivistas, Dermeval
Saviani (1984) propõe uma pedagogia histórico-crítica em que o ponto de partida e de chegada seja a prática social. De Saviani (1984) e de Gasparin (2007) traduziu-se os 5 passos
para uma didática baseada no método dialético:
·
1° passo: o conhecimento da prática social, práticas/saberes espaciais do universo cultural e do contexto sócio-espacial dos alunos.
·
2° passo: a problematização das práticas/saberes espaciais; transformação em
problemas significativos do ponto de vista de quem aprende – oriundos de sua prática
social -, mas também do ponto de vista dos processos espaciais/sociais-naturais do mundo
globalizado.
·
3° passo: a instrumentalização, isto é, a construção e apropriação de instrumentos teóricos e práticos, de ferramentas culturais e científicas, indispensáveis ao
4
Nas próprias condições de moradia, os fenômenos naturais “reaparecem”, ‘cobrando’ a sua fatura, pois são nos
momentos das tempestades que as encostas – e as favelas – desmoronam, os rios transbordam e alagam as vias
de transporte e as casas que se localizam nas partes baixas do terreno.
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equacionamento dos problemas levantados das práticas e saberes espaciais.
·
4° passo: a catarse, isto é, a
·
síntese superior a partir dos saberes sincréticos, sua transformação em sínteses de muitas determinações da realidade concreta.
·
5° passo: a prática sócio-espacial, como ponto de chegada da unidade teoria e
prática, sua compreensão mais consciente e sua possibilidade de transformação por parte
dos alunos.
O que se propõe é que o ponto de partida da prática pedagógica não seja nem a
preparação dos alunos cuja iniciativa seja a do professor e nem apenas a atividade que seja
iniciativa exclusiva dos alunos (Saviani, 1984, p. 73). Da mesma forma, a problematização
se inicia com a prática social e não com os problemas lógicos, epistemológicos, propostos a
partir da lógica da ciência ou do conteúdo das disciplinas escolares. A aprendizagem de
novos conceitos e conteúdos serve a reflexão dos problemas oriundos das práticas sociais/
espaciais dos alunos no contexto da produção capitalista do espaço, da unificação e fragmentação dos lugares, do processo de urbanização da vida, da desterritorialização/
reterritorialização, enfim dos problemas da universalização perversa.
Desta forma, o conteúdo das práticas de ensino da geografia se aproxima das práticas espaciais reais e se desenvolve a partir dos percursos dos alunos, sem distorcer o objeto
de estudo a ser ensinado. Isto supõe o diálogo do ensino com a aprendizagem, de quem
ensina com quem aprende (Weisz, 2007), reconhecendo o conhecimento que os alunos já
possuem e estabelecendo pontes com os conteúdos a serem ensinados.
O tópico anterior serviu a reflexão do primeiro e do segundo passos - o conhecimento
da prática e do saber espacial. Veja a seguir o processo de instrumentalização e de catarse,
cujo cerne é o processo de construção de conceitos.
O conceito científico: o concreto-pensado
Na terminologia da psicologia da aprendizagem (Piaget, Vygotsky) os saberes préescolares são considerados conceitos espontâneos, enquanto na escola são os conceitos científicos que deve(ria)m ser construídos. Lana de Souza Cavalcanti (1998) escreveu um importante livro sobre a transformação dos conceitos espontâneos em científicos, com destaque para a representação dos conceitos da geografia dos alunos e dos professores do
ensino fundamental5.
Antes de verificar como o processo de construção de conceitos transforma tanto a
forma como o conteúdo do raciocínio dos alunos, é necessário apresentar o que se entende
por conceito.
Na produção teórica do conhecimento o pensamento deve elevar-se do abstrato para
o concreto e da forma para o conteúdo, de maneira a reproduzir o concreto no pensamento
como concreto-pensado (Marx: 1986). O veículo deste caminho é o conceito (Hegel: 1995).
Superando, pela reflexão dialética, as oposições entre forma e conteúdo, mediato e
imediato, abstrato e concreto, o conceito, para Hegel, é uma forma (abstração) que “em si
encerra, e ao mesmo tempo deixa sair de si, a plenitude de todo” o conteúdo (concreto): o
conceito é a abstração de um concreto, é um concreto-pensado (ibidem: p. 292, 293). Por
isso, podemos incluir, como momentos do conceito, a abstração e a essência, contanto que
fundamentadas na atividade prática dos seres humanos (Lefebvre: (identidade), da particularidade (diferença) e da singularidade (fundamento), como unidades inseparáveis. Esta
conexão necessária significa a unidade do abstrato com o concreto, do geral com o particular, do imediato com o mediado, da forma com o conteúdo, do visível com o invisível. Este
conjunto de conexões - sínteses de muitas determinações - é o conteúdo das formas lógicas,
dos conceitos científicos.
5
Cavalcanti (1998) entrevistou alunos de 5ª e 6ª séries e professoras do ensino fundamental de 1ª à 4ª e de 5 ª à
8ª séries. A forma como todos compreendem os conceitos da geografia é rica de significados e seu conhecimento
é fundamental para sua reconstrução pelo trabalho pedagógico.
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COUTO, M. A. C.
ENSINAR A GEOGRAFIA OU ENSINAR COM A GEOGRAFIA?...
Tratando-se dos conceitos geográficos, este movimento do abstrato para o concreto
supõe uma abordagem dos conceitos/conteúdos da geografia no ensino a partir das conexões e contradições da universalidade (espaço global) com a singularidade (práticas espaciais dos indivíduos), mediadas pela particularidade (escalas intermediárias do espaço geográfico). Isso também implica em abordar o espaço, a paisagem, o território, o lugar, a
região, a rede, a escala6 a partir dos significados que estes conceitos possuem na vida concreta das pessoas nos dias atuais. Ou seja, pensar a geografia (globalização) que existe no
meio social e com o qual o aluno toma contato através de sua própria participação em atos
que envolvem sua espacialidade, isto é, em práticas sociais mediadas pelas práticas espaciais.
Este movimento da forma para o conteúdo e do abstrato para o concreto também é o
movimento da teoria para o método. Da teoria da produção social do espaço, destacam-se
os conceitos de território e paisagem. O método deve esclarecer o movimento destes conceitos na captura do conteúdo geográfico da história. Inspirado em Pierre George (Os
métodos da geografia), Moreira (2007) propõe o caminho que vai do visível ao invisível, e do
invisível ao visível. No primeiro caso, parte-se da indagação dos arranjos da paisagem,
passando por sua análise em termos de recortes de domínio (territórios), para chegar ao
espaço enquanto conteúdo de organização da sociedade. No caminho inverso, parte-se do
conteúdo mais profundo e estrutural da (re)produção do espaço até retornar à paisagem
como uma rica totalidade de determinações e relações diversas. Neste vai-e-vem dialético
entre a paisagem, o território e o espaço, propõe-se tornar o mundo em concreto-pensado.
Entretanto, o conceito não é apenas produzido pelos cientistas e métodos da ciência,
mas também construído pelo sujeito em sua relação com o mundo.
A construção de conceitos: o processo de generalização
Do ponto de vista dos processos psicológicos, o conceito é uma generalização, na medida em que encarna a articulação dos momentos da universalidade (geral) com o da singularidade, passando pela particularidade. Interpretado como “uma parte ativa do processo
intelectual, constantemente a serviço da comunicação, do entendimento e da solução de
problemas” (Vygotsky: 1989, p. 46), o conceito, enquanto forma (de um conteúdo), é plasmado no significado das palavras; e enquanto processo é a generalização. Generalizar é
estabelecer significado às coisas do mundo e do viver humanos. Neste processo, o pensamento (e o agir, a práxis) sintetiza impressões desordenadas, estabelece relações entre o
geral e o particular (e vice-versa), distingue e agrupa objetos/fenômenos, examina “elementos abstratos separadamente da totalidade da experiência concreta de que fazem parte”
(ibidem, p. 55), estabelece relações lógicas e abstratas entre os fenômenos, articula análise
à síntese, forma ao conteúdo, imediato ao mediado.
A partir da interpretação dos aspectos tipicamente humanos do comportamento, baseada em três perspectivas de análise (a relação dos seres humanos com seu ambiente, o
processo de trabalho, e a relação do uso de instrumentos com o desenvolvimento psicológico), Vygotsky distingue o comportamento humano através das funções mentais superiores
(a consciência, a abstração e o controle), comportamento superior que faz referência a combinação entre o uso do instrumento e o signo (desenho, escrita, leitura, uso de sistema de
números) na atividade psicológica. As funções mentais superiores caracterizam-se essencialmente pela estimulação autogerada (e não do ambiente, mas na relação com ele), coerente com a perspectiva de auto-criação do homem pelo processo do trabalho. Trabalho é troca
metabólica entre a natureza-homem e a totalidade da natureza, em que o homem transforma a natureza ao mesmo tempo em que se transforma. Todas as funções da consciência
surgem originalmente da ação, mas as funções mentais superiores fundamentam-se nas
relações reais entre indivíduos humanos. Por isso Vygotsky conclui que a “internalização
6
Citei as categorias da geografia, mas este método também serve aos conceitos/conteúdos do espaço geográfico:
agrário, urbano, natural, político, etc.
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Terra Livre - n. 34 (1): 109-124, 2010
das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto
característico da psicologia humana” (1989a, p. 65); em conseqüência, a construção do conhecimento é um processo essencialmente social e histórico. As funções mentais superiores permitem aos alunos centrar a atenção, abstrair, sintetizar, simbolizar e resolver problemas e, com isso, construir a consciência de estar consciente, base para o controle do
ambiente e para o auto-controle do comportamento.
Vygotsky apresenta o desenvolvimento das funções mentais superiores no processo
de formação de conceitos, em que:
.... todas as funções [intelectuais] existentes são incorporadas a uma nova estrutura, formam
uma nova síntese, tornam-se partes de um novo todo complexo; as leis que regem esse todo
também determinam o destino de cada uma das partes. Aprender a direcionar os próprios
processos mentais com a ajuda de palavras ou signos é uma parte integrante do processo da
formação de conceitos. A capacidade para regular as próprias ações fazendo uso de meios
auxiliares atinge o seu pleno desenvolvimento somente na adolescência. (Vygotsky: 1989, p.
51)
Portanto, a formação de conceitos modifica tanto a forma de raciocínio quanto o conteúdo do pensamento das crianças.
Ao responder ao que acontece na mente da criança com os conceitos científicos que
lhe são ensinados na escola, Vygotsky (1989, p. 71/72) esclarece que quando uma palavra
nova é apreendida pela criança, o seu desenvolvimento percorre um longo processo, pois o
“desenvolvimento dos conceitos, ou dos significados das palavras, pressupõe o desenvolvimento de muitas funções intelectuais: atenção deliberada, memória lógica, abstração, capacidade para comparar e diferenciar”. Por isso, conclui o autor, o ensino direto de conceitos é infrutífero e impossível. Tolstoi (apud Vygotsky) afirma que o fundamental é criar
oportunidades “para adquirir novos conceitos e palavras a partir do contexto lingüístico
geral”:
Quando ela ouve ou lê uma palavra desconhecida numa frase, de resto compreensível, e a lê
novamente em outra frase, começa a ter uma idéia vaga do novo conceito: mais cedo ou mais
tarde ela... sentirá a necessidade de usar essa palavra – e uma vez que a tenha usado, a
palavra e o conceito lhe pertencem.... (Tolstoi apud Vygotsky: 1989, p. 72)
Daí a idéia de construção e não de assimilação de conceitos. Em seus estudos
(Vygotsky: 1989, 1989a) há indicações metodológicas inspiradoras de procedimentos pedagógicos para a construção de conceitos pela criança, entre as quais se destacam:
1.
O método de dupla estimulação, em que dois conjuntos de estímulos são apresentados ao sujeito: “um como objetos da sua atividade, e outro como signos que podem
servir para organizar essa atividade” (1989, p. 49). Nas tarefas pedagógicas isto pode significar a descrição de uma paisagem para compreensão e definição das formas de vida
naquele lugar, a localização e a relação de fenômenos num mapa, a leitura de um texto para
relacionar acontecimentos ocorridos em diferentes lugares, etc.
2.
A proposição de problemas que exijam a aquisição de novos conceitos para
serem solucionados. A problematização da prática e dos saberes espaciais, um
questionamento, uma tarefa a ser resolvida, etc, para constituir-se em proposta pedagógica, deve exigir do estudante a aprendizagem de novo conteúdo para sua solução; e, para
isso, deve contar com atividades em que o aluno utilize o seu aparato de percepção e palavras (conceitos).
3.
Dirigir a ação pedagógica sobre a zona de desenvolvimento proximal, situação
em que o aluno está quase conseguindo realizar uma determinada tarefa. O processo de
ensino-aprendizagem dos conteúdos escolares deve caminhar à frente do desenvolvimento
mental - se convertendo nele -; criando desafios que sejam difíceis e ao mesmo tempo possíveis de serem realizados pelos alunos e que tais dificuldades só sejam superadas através
da aprendizagem de novos conteúdos. Aqui também se explicita a mediação social da produção do conhecimento, na medida em que a transformação do desenvolvimento proximal
117
COUTO, M. A. C.
ENSINAR A GEOGRAFIA OU ENSINAR COM A GEOGRAFIA?...
em real depende da colaboração de um amigo que o ajuda ou do professor que lhe propõe
problemas.
4.
O desenvolvimento de um sistema hierárquico de inter-relações que caracterizam os conceitos científicos impulsiona a consciência reflexiva, o pensamento abstrato e o
controle deliberado e intencional do comportamento (funções intelectuais superiores). A
inter-relação significa que o conceito de espaço, por exemplo, possa se converter em território, lugar, paisagem, etc, permitindo compreendê-los, incluindo os seus conteúdos concretos; ou reversivamente, que a compreensão do primeiro exija sua relação com os demais; e
assim, sucessivamente.
Resguardadas as singularidades próprias, indicou-se as similaridades entre a
produção teórica de conhecimento e o processo de aprendizagem e construção de conhecimento na escola. Os materiais de estudo e as atividades pedagógicas devem estar a serviço
de uma prática conceitual, pois os estudantes dominam o conceito quando e porque aprendem a atuar conceitualmente, por que sua práxis torna-se conceitual (Leontiev in Davydov:
1982). Isto sugere que as situações didáticas devem:
·
Permitir a apropriação do mundo como concreto-pensado através das tarefas
do processo de ascensão do abstrato ao concreto7.
·
Incluir os propósitos, conteúdos e conceitos da geografia, através dos quais
problematiza os modos de viver, amar, sofrer e de transformar a vida.
OS
CONCEITOS GEOGRÁFICOS: AS FORMAS-CONTEÚDO DA GEOGRAFIA DO PRE-
SENTE
As práticas e os saberes espaciais dos alunos devem ser questionados pelo
conhecimento geográfico8.
Vygotsky compreende que grande parte do caráter científico dos conceitos –
que impulsiona a consciência reflexiva - vem de sua trama de conexões na forma de um
sistema hierárquico.
Por outro lado, a tradição descritiva, taxonômica e fragmentária da ciência fez
(ou faz) da geografia um armário repleto de conteúdos fragilmente conectados. Além disso, o formalismo pedagógico faz com que se abordem a paisagem, o espaço e o território,
mas nem sempre os arranjos paisagísticos vividos pelos alunos, a espacialidade de sua
prática e as territorialidades que disputa.
Daí a importância de definir os conceitos-sínteses da geografia, ou melhor, os
significados das formas geográficas para compreensão dos modos de vida da história humana e, assim, estabelecer a razão de ser/estar do ensino de geografia na escola. E, da
forma geográfica, analisar o seu conteúdo no presente momento histórico, sinalizador da
coerência dos conceitos que o analisam.
9
A produção do espaço
Quanto aos significados da geografia, os marxistas têm respondido com a idéia
de produção do espaço, a forma geográfico-espacial de reprodução das sociedades.
De acordo com Milton Santos (1986), a produção do espaço é um “verdadeiro
campo de forcas”, é uma forma-conteúdo: “um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e do presente e por uma estrutura representada por relações sociais
7
As tarefas constituem os movimentos (teóricos e práticos) dialéticos da forma para o conteúdo, do imediato ao
mediado, do abstrato para o concreto; mas também os movimentos dos diferentes momentos da totalidade, desde
a universalidade até a particularidade e a singularidade.
8
Da mesma forma que o conhecimento geográfico deve ser questionado pelas práticas e saberes espaciais dos
sujeitos.
9
Ou o enfoque geográfico do mundo do homem.
118
Terra Livre - n. 34 (1): 109-124, 2010
que estão acontecendo diante de nossos olhos e que se manifestam através de processos e
funções” (p. 122). Como ser e como existência, o espaço expressa o jogo dialético entre o
conteúdo (ser) e a forma (existência): enquanto o ser é a estrutura social (a totalidade), a
forma é a existência. O tempo é processo e função. Para Santos, a totalidade e o tempo são
as categorias fundamentais do estudo do espaço.
Como forma-conteúdo, o espaço é materialidade: a “casa, o lugar de trabalho, os
pontos de encontro, os caminhos que unem entre si estes pontos, são elementos passivos
que condicionam a atividade dos homens e comandam a prática social” (Santos: 1986, p.
137). Por sua condição de materialidade, as formas geográficas são resistentes ao tempo10.
Daí a idéia de permanência (inércia) das formas geográficas em diferentes tempos, mesmo
que num contexto de mudanças (dinâmica) de seus conteúdos (funções, processos, estrutura social). Utilizando-se do conceito de prático-inerte de Jean-Paul Sartre11, Santos vai
definir a especificidade do espaço por sua inércia dinâmica, ou seja, pelo fato de que “as
formas são tanto um resultado como uma condição para os processos” (ibidem, p. 148). A
mesma forma com diferente conteúdo significa uma mudança na história e, assim, um novo
espaço, uma nova forma-conteúdo.
Desta maneira:
O papel específico do espaço como estrutura da sociedade vem, entre outras razões, do fato de
que as formas geográficas são duráveis e, por isso mesmo, pelas técnicas que elas encarnam e
as quais dão corpo, isto é, pela sua própria existência, elas se vestem de uma finalidade que é
originariamente ligada, em regra, ao modo de produção precedente ou a um de seus momentos.
Assim mesmo, o espaço como forma não tem, de modo algum, um papel fantasmagórico, pois os
objetos espaciais são periodicamente revivificados pelo movimento social. (Santos: 1986, p.
149)
Embora resistentes ao tempo, as formas espaciais não são fixas e congeladas, não
dispõem de autonomia de comportamento, embora possuam autonomia de existência (ibidem,
p. 150). Desta forma, através do espaço, a “história se torna, ela própria, estrutura,
estruturada em formas. E tais formas, como formas-conteúdo, influenciam o curso da história, pois elas participam da dialética global da sociedade” (p. 152).
Como sugeriu Henri Lefebvre é preciso explicar o espaço a partir de sua produção:
“Só através de sua produção é que o conhecimento do espaço é atingido” (Santos: 1986, p.
128). O ato de produzir é simultaneamente um ato de produzir espaço, pois ao se tornar
produtor, o “homem se torna ao mesmo tempo um ser social e um criador de espaço” (ibidem,
p. 4), impondo uma forma particular de arrumação dos objetos e instrumentos através dos
quais ele transforma a natureza (Santos: 1986, p. 162). Desta forma, “o espaço geográfico
é a natureza modificada pelo homem através do seu trabalho” (p. 119).
Essa práxis, processo de troca metabólica entre o homem (historia social) e natureza
(histórica natural), está na origem de uma dialética do espaço, movimento em que uma
forma de natureza (primeiro momento) está sempre prestes a se transformar em outra
(segundo momento), uma dependendo da outra para se realizar. Assim, a “concepção de
uma natureza natural... cede lugar a idéia de uma construção permanente da natureza
artificial ou social, sinônimo de espaço humano” (Santos, 1986, p. 119).
Como forma-conteúdo, o espaço ou o meio geográfico é um meio de vida, um híbrido
de materialidade e relações sociais, uma realidade objetiva. A significação geográfica dos
objetos resulta “do papel que, pelo fato de estarem em contigüidade, formando uma extensão contínua, e sistematicamente interligados”, desempenham na história humana (Santos: 2004, p. 63). De produto das relações sociais de produção, o espaço torna-se reprodutor
10
Santos usa o verbete rugosidade para se referir a esta persistência das formas espaciais: “as rugosidades são
o espaço construído, o tempo histórico que se transformou em paisagem, incorporado ao espaço. As rugosidades
nos oferecem, mesmo sem tradução imediata, restos de uma divisão de trabalho internacional, manifestada
localmente por combinações particulares do capital, das técnicas e do trabalho utilizados“ (Santos: 1986, p. 138).
11
Retirado do livro Critica da Razão Dialética. Sartre, Jean-Paul (2002). São Paulo: DP&A.
119
COUTO, M. A. C.
ENSINAR A GEOGRAFIA OU ENSINAR COM A GEOGRAFIA?...
e regulador da história, interferindo em seus rumos: “efeito de ações passadas, ele permite
ações, as sugere ou as proíbe” (Lefevbre apud Santos: 1986, p. 15212). Como meio de vida,
híbrido de materialidade e relações sociais e produto da história, o meio geográfico “é a
cristalização da experiência passada, do indivíduo e da sociedade, corporificadas em formas sociais [espaço] e, também, em configurações espaciais [território] e paisagens” (Santos: 2004, p. 32613).
Para Ruy Moreira (1987) a sociedade não apenas produz, organiza ou se relaciona
com o espaço: a sociedade é espaço. A partir da sugestão de Yves Lacoste, Moreira (2005,
2008) propõe o conceito de geograficidade como o ser-estar espacial do homem no mundo.
O espaço é uma das formas de realização da sociedade, correspondente à organização espacial do homem, resultante do processo de transformação da natureza em sociedade através
do processo de trabalho. Por isso este meio geográfico é a própria sociedade, realizando-se
por intermédio do arranjo espacial, resultado da ação que impulsiona, regula e controla o
intercâmbio do homem e deles com a natureza (Moreira: 2005).
O espaço é uma coabitação dos contrários, unidades geográficas construídas pelo ser
humano diante de um mundo formado pela diversidade (Moreira, 2008, p. 167-168). Daí a
tensão entre diferença e identidade como constituidora da ontologia do espaço. Este “ser
do espaço”, fundamentado na “hominização do homem pelo próprio homem através do
metabolismo do trabalho”, configura-se “enquanto essência da existência deste homem nos
diferentes espaços geográficos da superfície terrestre” (Moreira: 2005, p. 7, 8). O resultado
é a geograficidade, o ser-estar espacial do homem no mundo (Moreira, 2005, 2008).
Esta geograficidade é criação e criadora da construção espacial das sociedades, levada a cabo por intermédio das práticas espaciais14 (Moreira, 2005, 2007). Categorias do
empírico, as práticas geográficas são mediações que fazem da compreensão do espaço a
compreensão da sociedade e da teoria do espaço uma teoria da sociedade (e vice-versa).
As práticas espaciais - e os saberes espaciais que lhes são correspondentes - conformam a reprodução geográfica das sociedades. Sua compreensão requer princípios lógicos,
conceitos e categorias, entre os quais se destacam o espaço, o território e a paisagem.
Ao longo da história, a humanidade experimentou diferentes modos de vida, modos
de produção da existência, cada qual produzindo e exigindo um determinado arranjo espacial, uma forma espacial de arrumação da sociedade. O método exige a articulação do
caráter geral – a produção social do espaço – com suas características específicas e particulares de cada modo de produção. A seguir é exposto o conteúdo das formas geográficas
neste momento da história.
A produção capitalista do espaço e o conteúdo das práticas espaciais
Milton Santos (2004, p. 114/115) assinala a emergência, se não de um espaço global,
mas de espaços da globalização, a partir da noção de totalidade que “permite um tratamento objetivo”, pois hoje se convive com uma “universalidade empírica”, que nos permite examinar “as relações efetivas entre a Totalidade-Mundo e os Lugares”. Num mundo difícil de
apreender, de muitos deslocamentos, de fluidez, de velocidade e de alusão a diferentes e
distantes lugares, o corpo e seu entorno tornam-se lugares seguros. Daí este confronto da
Universalidade com a particularidade, cujo produto (síntese) é a singularidade. O confronto da universalidade com a localidade é a própria totalidade em movimento, entendida
como trama e como acontecer solidário, próprio do processo espacial, que inclui a escala.
12
13
Passagem de Henri Lefebvre do livro ‘La production de l’espace (1974). Paris: Ed. ANTHROPOS, pág. 88-89.
O prático-inerte de Sartre.
14
Segundo Ruy Moreira (2005), as práticas espaciais são ações humanas que combinam a localização e a
distribuição. A localização transforma-se em distribuição e a circundância se arruma como uma rede diferenciada
de distribuição de localizações. A combinação localização-distribuição da origem a extensão, constituindo a
unidade geográfica do mundo do homem.
120
Terra Livre - n. 34 (1): 109-124, 2010
Para Santos (2004), o ponto de partida na análise da geografia do presente é a compreensão do sistema técnico atual, dado que o seu conhecimento é fundamental ao entendimento da estruturação, do funcionamento e da articulação dos territórios. Movida pela
produção de uma mais valia planetária, a técnica tornou-se forma de fazer (produção),
forma de ser (ação humana), forma de informação (discurso, interlocução), mas também
território. Desde os macrossistemas (barragens, aeroportos, telecomunicações, etc) até os
produtos da chamada revolução científico-técnica (rádios, televisores, microcomputadores,
máquinas fotográficas, etc.), o atual sistema técnico se difunde rapidamente, implanta-se
de forma integrada e sem necessidade de articulação com heranças culturais locais, tornando-se indiferente ao meio e elemento exógeno para a maior parte da humanidade.
Sua tese central, a respeito deste período geográfico da história, é a de que “a marcha
do processo de racionalização, após haver (sucessivamente) atingido a economia, a cultura,
a política, as relações interpessoais e os próprios comportamentos individuais, agora, neste
fim de século XX, estaria instalando-se no próprio meio de vida dos homens, isto é, no meio
geográfico” (p. 290). O resultado é a incorporação ao chão que se pisa no dia-a-dia do
“casamento” da ciência com a técnica, na forma de produção de um meio técnico-científico
(Santos: 1994, 2004).
A unicidade técnica, a unicidade do tempo e a unicidade do motor da vida econômica
e social são as manifestações de uma inteligência planetária produzida pelo atual sistema
técnico: essas “três unicidades são a base do fenômeno de globalização e das transformações contemporâneas do espaço geográfico” (Santos, 2004, p. 189).
De acordo com Ruy Moreira (1994), este meio geográfico - mais denso de ação e de
história - tem um fundamento paradigmático, alicerçado num tempo-espaço15 métrico,
inorgânico e universal que sincroniza as ações e produz um sincronismo espacial, através
do qual unifica e disciplina os ritmos de vida e trabalho, regularizando o cotidiano e a
comunidade. Trata-se da uniformidade do mundo pela técnica num espaço globalizado, em
que a superfície terrestre é integrada num conjunto espacial em que se fundem os meios de
circulação de objetos e os meios de circulação do pensamento. Dissociado do ambiente local
em função de seu conteúdo cada vez mais universal, uniforme e tecnificado, o homem é
desenraizado territorial e culturalmente, na escala de mundo. Este desenraizamento é um
processo que se inici(a)ou com a expropriação do campesinato e sua transformação em
trabalhador “livre” (proletariado moderno), e que atualmente significa os desligamentos
freqüentes de sua territorialidade, vida de flutuação e de mobilidade territorial campocidade, campo-campo, cidade-cidade e no interior das grandes metrópoles. A metrópole – o
moderno processo de urbanização dos meios de vida - é a constituição corpórea desta
espacialidade, um meio geográfico impessoal em que as personalidades dos homens e mulheres se fragmentam em múltiplos pedaços espaciais (espaços da moradia, do trabalho, do
lazer, do saber, da política, da saúde, etc.), fazendo do cotidiano um vai-e-vem permanente.
Com isso, se reproduz uma vida urbana de horários corridos, de uma racionalidade
instrumental, na cidade e no campo, fazendo do espaço uma vigorosa fonte de alienação dos
homens, processo do qual um elemento essencial é a grande mobilidade das pessoas que
mudam de lugar como turistas, desempregados, imigrantes.
A cultura e a política reagem a esta unificação dos espaços pela técnica e pelo Estado,
confrontando esta universalização perversa (Santos: 1986). Esta racionalidade hegemônica
que permite maior fluidez do território tem conseqüências, que também podem ser vistas
como os seus limites. A crise ambiental é a quebra dos nexos locais, a obediência a uma
lógica extra-local de frações do território. O desastre ecológico significa e resulta de um
esvaziamento político dos sujeitos locais (lugar), regionais (região), nacionais (Estado-nação), em detrimento dos agentes da mais-valia global, que “impõe” investimentos públicos,
projetos de infra-estrutura e regulamentações que permitem a sua livre circulação. Outro
limite é a produção de uma grande exclusão, o empobrecimento agudo e generalizado de
uma grande parcela da humanidade; pobreza econômica que é a conversão/tradução da
15
Abstrato, matemático; do mecanismo do relógio.
121
COUTO, M. A. C.
ENSINAR A GEOGRAFIA OU ENSINAR COM A GEOGRAFIA?...
pobreza espiritual dos homens nesta forma de sociabilidade. Entretanto, a escassez e a
discriminação são, também, fontes de outras racionalidades, forjadas na relação com o
outro, na contigüidade, na cooperação, na comunicação, no por em comum as situações da
vida (Santos: 2004). Por outro lado, a escassez e a opressão também são produtoras da luta
e organização política e sindical dos trabalhadores que ao lutarem por seu estatuto de
sujeitos e por melhores condições de vida e trabalho, acabam por lutar pelo direito a cidade
(ao espaço urbano, H. Lefebvre) e pelo direito a terra, o que pode significar um novo
enraizamento cultural e territorial (Moreira, 1994).
Por isso, então, que se o mundo globalizado torna-se o lugar do engano, o lugar pode
revelar-se como arma para a construção de outras formas de viver.
As práticas espaciais e os saberes correspondentes se realizam neste contexto de
produção capitalista do espaço, ora se conformando, ora reagindo a ele, mas de qualquer
forma vivenciando todas as tensões postas por este projeto de sociedade.
CONCLUSÃ
O
ONCLUSÃO
O movimento que vai das práticas e saberes espaciais à construção dos conceitos
geográficos exige o caminho inverso, aquele em que a teoria social do espaço permite compreender melhor e transformar a prática e reconstruir os saberes. A aula constitui-se das
duas direções, simultaneamente.
Propôs-se à metodologia do ensino da geografia o processo de ascensão do abstrato ao
concreto. O ponto de partida constitui-se dos conhecimentos prévios dos alunos (resultantes de sua prática social, de seu universo cultural) e, simultaneamente, da maneira como a
geografia16 permite refletir sobre os problemas desta prática social. Tanto o primeiro (conhecimentos prévios) quanto o segundo (conhecimentos geográficos) são abstrações (de um
concreto) com qualidades distintas que, conjugadas, devem conduzir à reprodução, no pensamento, do concreto como síntese de muitas determinações, na forma de concreto-pensado.
Nesta proposta é indispensável explicitar os significados das formas geográfico-espaciais de compreensão do modo de vida dos alunos e de suas famílias, pressuposto de uma
visão integrada (não fragmentada) dos conteúdos e articulada com a realidade dos sujeitos
da aprendizagem. Para isso, o papel dos conceitos (geográficos) é fundamental, na medida
em que articula o universal, o particular e o singular, a forma ao conteúdo, o visível ao
invisível, o abstrato ao concreto, permitindo problematizar os conteúdos das práticas espaciais dos alunos no contexto da produção capitalista do espaço.
Territorializar-se coletivamente (na escola, no bairro, no campo, na cidade, no país e
no mundo...) talvez seja o convite para que os alunos sintam-se sujeitos (e não apenas
produtos) da história e da produção de conhecimentos. A conquista da sobrevivência no
contexto da universalidade perversa significa o resgate do enraizamento territorial e cultural, a luta contra a opressão e a exploração; pelo direito a terra, ao trabalho, a cidade e ao
lugar. A história do lugar também é o lugar de cada um na história. Por isso, como canta o
sambista, pra se entender tem que se achar.
Buscou-se articular dois eixos de investigação. Por um lado, o que propõe uma
metodologia do ensino que articule as práticas e saberes espaciais aos conceitos geográficos. E, por outro, uma pedagogia da problematização da prática social, intermediada pela
instrumentalização teórico-científico-cultural. A intenção é continuar debatendo uma didática da construção de conceitos no ensino de geografia.
O que se propõe, afinal, é ensinar e aprender a geografia na escola a partir da (e com
a) geografia da vida dos alunos.
16
Essa forma constitui-se dos elementos do raciocínio geográfico: o mapa, os conceitos e métodos da geografia, a
paisagem, o espaço, o território, a escala, etc.
122
Terra Livre - n. 34 (1): 109-124, 2010
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124
GEOGRAFIA,
RELAÇÕES ÉTNICORACIAIS E EDUCAÇÃO:
ACIAL
A DIMENSÃO ESP
ESPACIAL
DAS POLÍTICAS DE
AS
TIV
AÇÕES AFIRMA
TIVAS
AFIRMATIV
NO ENSINO
GEOGRAPHY,
ETHNICRELATIONS
RACIAL RELA
TIONS
TION: THE
AND EDUCA
EDUCATION
SP
ATIAL DIMENSION
SPA
OF AFFIRMA
AFFIRMATIVE
TIVE
ACTION POLICIES IN
EDUCATION
EDUCA
TION
GÉOGRAPHIE,
RELATIONS
RELA
TIONS ETHNIQUERA
TIALES ET
RATIALES
ÉDUCATION
ÉDUCA
TION: LA
ATIALE
SPA
DIMENSION SP
DES POLITIQUES
D’ACTIONS
AFFIRMATIVES
AFFIRMA
TIVES DANS
L’ ENSEIGNEMENT
Resumo: O mito de um país formado harmonicamente por três raças
– indígena, branca e negra – é uma “ideologia geográfica” que
permeia as interpretações da nação e do território brasileiros, desde
aos anos 1930. Um paulatino aparecimento político de negros,
quilombolas e indígenas no cenário nacional marca o debate público
e os estudos acadêmicos desde os anos 1970 e levou à adoção de
políticas de Ações Afirmativas no século 21. No que diz respeito à
Geografia e ao ensino da disciplina, nota-se o crescimento do
interesse acerca desses temas bem como em situações que
perpassam da escala local à mundial: conflitos fundiários,
segregação espacial, e constituição de lugares étnicos (expressões
espaciais da identidade negra, indígena, quilombola, cigana) num
mundo racializado.
Palavras-chave: geografia, educação, relações étnico-raciais, ações
afirmativas
Abstract: The myth of a country formed harmony by three races –
indigenous, black and white – is a “geographical ideology” which
permeates the interpretations of the nation and Brazilian territory,
since the 1930s. A gradual emergence of political black, Maroon
and indigenous national marks landscape public debate and
academic studies since the 1970s and led to the adoption of
Affirmative Action policies in the 21st century. In the field of
Geography, with indications for teaching discipline, noted the
growth of interest about these themes as well as in situations that
extend from local scale to global scale: land conflicts, spatial
segregation, and constitution of ethnic places (spatial expressions
of black, indigenous, Maroon, Gypsy identity) in a world racialized.
Keywords
Keywords: geography, education, ethnic-racial relations, affirmative
actions
Instituto de Estudos
Sócio-Ambientais /
Universidade Federal
de Goiás - UFG
Résumé: Le mythe d’un pays formé harmonieusement par trois
races - indigène, blanche et noire - est une « idéologie géographique »
sur laquelle se fondent les interprétations de la nation et du
territoire brésiliens, depuis aux années 1930. Une emergence
politique progressive des noirs, des quilombolas et des indigènes
dans le scénario national, marque le débat public et les études
académiques depuis les années 1970 et conduit à l’adoption des
politiques d’Actions Affirmatives dans le siècle XXI. En ce qui
concerne la Géographie et l’enseignement de cette discipline, on
remarque un intérêt croissant relatif à ces sujets ainsi qu’aux
situations qui s’étendent de l’échelle locale a l’échelle mondiale:
conflits agraires, ségrégation spatiale, et constitution de lieux
ethniques (expressions spatiales de l’identité noire, indigène,
quilombola, gitane) dans un monde racialisé.
[email protected]
Mots-clés : géographie, éducation, relations ethnico-raciales, actions
affirmatives
ALEX RATTS
Terra Livre
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 125-140 Jan-Jun/2010
125
RATTS, A.
INTRODUÇÃO:
GEOGRAFIA, RELAÇÕES
O MITO DAS
3 RAÇAS
ÉTNICO-RACIAIS E EDUCAÇÃO...
E OUTRAS IDEOLOGIAS GEOGRÁFICAS
O mito de um país formado harmonicamente por três raças – indígena, branca e
negra – é uma “ideologia geográfica” (MORAES, 1988) que permeia as interpretações da
nação e do território brasileiros, desde aos anos 1930. Tal mito que parece inclusivo, mas
que não abriga ciganos, asiáticos, árabes e latino-americanos que também formam a sociedade brasileira, corresponde a uma explicação de mundo para determinada coletividade
(HISSA, 2002). É narrado de maneira fragmentada e é “acionado” quando alguém expõe as
diferenciações e desigualdades étnico-raciais seja no plano local, regional ou nacional. Para
alguns essa narrativa nos tranqüiliza face a outras formações socioespaciais em que o racismo ou o etnocentrismo parecem mais rígidos na vida e no espaço social. Podemos dizer
que essas representações se encaixam numa “geografia imaginativa”, expressão com a qual
Edward Said (1990) caracteriza o orientalismo, o conjunto erudito e de longa duração e
formação de discursos acerca do Oriente, que aqui se estende para a África e a América,
para africanos, ameríndios e afro-americanos.
Outros sujeitos, originários de grupos étnico-raciais historicamente subalternizados
(e mais alguns a eles solidários) formulam outras ideologias geográficas, outros discursos
acerca do território. Um paulatino aparecimento político de negros, quilombolas e indígenas no cenário nacional marca o debate público e os estudos acadêmicos desde os anos
1970. No que concerne ao marco legal, fruto dessas mobilizações, destaca-se, de um lado, a
Constituição Federal de 1988, que criminaliza o racismo e reconhece direitos de indígenas
e quilombolas, e de outro, a lei 10639/03, que altera a Lei de Diretrizes e bases da Educação
(LDB) e institui a obrigatoriedade do ensino da história e cultura africana e afro-brasileira
(Brasil, 2003). No século que se inicia, o prolongamento de um quadro de diferenciações e
desigualdades raciais, reconhecido inclusive por órgãos governamentais como IBGE e IPEA
e apontado por organismos internacionais como PNUD/UNESCO, tornou-se também alvo
de análises e proposições acadêmicas e políticas, entre as quais se ressalta a adoção de
ações afirmativas dirigidas sobretudo para a população negra, mas também para indígenas e quilombolas.
No campo da Geografia, com desdobramentos para o ensino da disciplina, nota-se o
crescimento do interesse acerca desses temas conquanto tem implicações diretas na
reinterpretação da formação étnica, racial, social e territorial brasileira, bem como de situações que perpassam da escala local à mundial, passando por conflitos fundiários, segregação espacial, e constituição de lugares étnicos (expressões espaciais da identidade negra,
indígena, quilombola, cigana, migrante) num mundo cada vez mais racializado.
O
APARECIMENTO
ARECIMENTO DE NEGROS E ÍNDIOS NAS PÁGINAS GEOGRÁFICAS
AP
Desde as navegações européias da passagem entre os séculos XV e XVI vimos o capitalismo, enquanto modo de produção e de existência, tornar-se hegemônico em todo o planeta, processo que pode ser considerado como o “branqueamento da terra” (SORRE apud
DAMIANI, 2004, p. 61-62), tendo, por exemplo, homens europeus e eurodescendentes à
frente da maior parte das instituições econômicas, políticas e culturais centrais nas formações socioespaciais americanas. No mundo antigo há indicações de um proto-racismo (Moore,
2007), constituído no contato entre africanos, árabes e europeus, mas seguramente a
racialização do mundo é elemento constituinte da modernidade.
As transformações sociais da segunda metade do século XIX podem ser vistas em
uma correlação que inclui o declínio do tráfico negreiro, a formação dos estados-nações
europeus, a revolução industrial, a abolição da escravidão nas Américas e a recolonização
da África. É nesse quadro que a Geografia Moderna se constitui pelo pensamento de autores – homens de ciência (Schwarcz, 1993) – que compartilham de teorias racialistas da
época, o que não é possível analisar aqui, mas pode ser identificado nitidamente no pensamento de Ratzel, de La Blache, de Reclus estendendo-se a geógrafos posteriores como Max.
126
Terra Livre - n. 34 (1): 125-140, 2010
Sorre. Raça e etnia eram noções de ampla utilização na geografia tradicional e podem ser
encontradas nos livros didáticos que se coadunam com suas idéias. 1
Outras transformações também inter-relacionadas e que são interpretadas como póscoloniais se processam por todo o século XX, especialmente na sua segunda metade: a segunda guerra mundial, a emergência dos Estados Unidos como potência mundial, a independência de países africanos, a formação de movimentos negros na diáspora africana (Estados Unidos, Caribe, América Latina, Brasil) e de outros movimentos de emancipação, a
exemplo das mulheres e do feminismo.
Os ares dos anos 1960, que seguem os ventos da mencionada descolonização africana
e do movimento pelos direitos civis negros nos Estados Unidos, são marcados por uma face
plural – jovem, hippie, universitária, popular, feminina, feminista, homossexual – e tocam
por dentro e por fora as fronteiras disciplinares acadêmicas. Lefebvre (1970) trata este
processo como uma passagem da particularidade à diferença e também como constituição
de forças diferencialistas.
No cenário brasileiro, a ditadura militar (1964-1985) se opõe à expressão de comunistas e socialistas, de operários e estudantes, de intelectuais e educadores(as), mas também de mulheres, negros e homossexuais, muitas vezes tratados como subversivos. A repressão ideológica persegue particularmente proposta educacionais críticas e
emancipatórias.
É nesse cenário mundial e nacional que se delineia, nos anos 1970, um novo paradigma
que se denominou de crítico ou radical na Geografia brasileira e mundial. Neste campo,
alguns trabalhos tocaram mais ou menos diretamente a questão étnico-racial, tendo em
vista um horizonte político e se voltando para o campo da educação ou mesmo do ensino da
disciplina.
Milton Santos, ao tratar dos cidadãos incompletos que ele denomina de “mutilados”,
menciona, de passagem, a população negra no quadro da educação, com base em estudos
da PNAD e do economista Ladislau Dowbor:
Dos brasileiros sem instrução até 30 de idade, cujo montante nacional era de 54%, em 1982,
uma repartição segundo a cor mostra que eram 18,1% entre os amarelos; 44,4% entre os brancos; 66,9% entre os considerados mestiços e 68,6% entre os negros (L. Dowbor, 1986, p. 53) Mas
os negros não ultrapassavam em 1980, os 45% da população (Santos, 1987, p. 20).
Notamos que a população negra – composta pela categorias censitárias de pardos e
pretos, que correspondem aos “negros” e “mestiços” do autor, estava sobre-representada
entre a população sem instrução. Em seguida Santos, insere a variável cor no quadro da
desigualdade de renda no Brasil:
Os brasileiros ganhando menos de dois salários mínimos eram 60,9% da população total em
1982, mas o percentual sobe para 70,8% e 77,5% para os pardos e negros2, cuja participação na
população era, então, estimada em 7% e 35% respectivamente. Ao contrário, os que ganhavam
mais de cinco salários-mínimos eram 4,4% do total da população brasileira nesse mesmo ano,
os índices correspondentes a pardos e negros sendo de (0,6% e 0,1% do total respectivamente.
(PNAD, 1982 e L. Dowbor, 1986, pp. 55 e 56) (Santos, 1987, p. 20)
O autor demonstra um quadro perverso que perdura: os sem instrução sendo majoritariamente negros e um cenário de pobreza negra e a riqueza branca. Santos não aprofunda
a introdução da variável cor na análise espacial, mas retoma esse tema posteriormente.
Ao fazer a crítica do ensino de geografia no que tange à formação étnica da população
brasileira, Márcia Spyer Resende (1986) se interrogava acerca do modo como poderia ser
abordada a situação da população negra:
1
Não é possível abordar esse tema no escopo desse artigo. Além dos autores estrangeiros citados, sugerimos
consultar obras de Delgado de Carvalho e Aroldo de Azevedo, dentre outros.
2
Aqui, provavelmente o autor estava mencionando pretos e pardos.
127
RATTS, A.
GEOGRAFIA, RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS E EDUCAÇÃO...
Quem são os negros brasileiros e em que sua cor altera a situação que ocupam no espaço
geográfico que estudamos? Por que as elites dominantes no Brasil são esmagadoramente brancas? Aos negros, enquanto coletivo racial, estão vedados certos espaços sociais? Se tal ocorre,
deve-se ao “preconceito racial” ou a que outro(s) motivo(s)? (p. 38.)
Ciente das argumentações vigentes, a autora continua indagando:
Certo, já prevejo a objeção: “Mas estes são problemas antropológicos, culturais e éticos, não
dizem respeito ao objeto de estudo da Geografia. Afinal, a Geografia não pode estudar/ensinar
tudo”. De fato, a Geografia não pode fazê-lo e seria absurdo exigir-lhe esforço semelhante.
Como focalizar, entretanto, a etnia do brasileiro marginalizando a sua significação social? Esta
atitude equivale pura e simplesmente a destruir o seu sentido por meio da análise que diz
persegui-lo. (p. 38. Grifo da autora).
Observa-se que este excerto de Resende recupera um momento da crítica aqueles
que traziam para a o campo da Geografia Crítica os temas da diferença étnico-racial. Parece-nos que a autora não retomou, naquele período, esse ponto de suas indagações.
Ainda nos anos 1980, outros(as) geógrafos(as) abordam a situação de grupos indígenas brasileiros quando discutiam a questão territorial e/ou Ambiental (PORTO-GONÇALVES, 1989), especialmente quando focalizam a Amazônia (VALVERDE, 1982; SADER, 1986;
BECKER, 1989).
À mesma época, uma outra autora estrangeira realiza pesquisa acerca de índios e
negros nos livros didáticos de geografia veiculados durante a última ditadura militar brasileira. Ladouceur (1992) identificou que estes livros perpetuavam a interpretação de um
país em que negros e índios pouco marcam sua presença no território nacional3:
O Brasil constitui um espaço plurinacional caracterizado por diversas identidades culturais.
Este espaço é dominado por uma ideologia dominante [sic] com elementos brancos
euroamericanos. O Estado brasileiro constrói sua geografia na base da territorialidade desigual estabelecida contra as nações autóctones e a maioria negra (p. 417).
Na sua pesquisa que pode ser considerada um dos principais estudos geográficos da
questão étnico-racial no período, Ladouceur identifica que quase não há uma representação diferenciada de índios e negros no território brasileiro:
Os índios e negros são desterritorializados e dissolvidos na identidade nacional enquanto a
pertença a um território próprio é destruída nas representações geográficas. A territorialidade
dos índios e dos negros elabora-se unicamente a partir das relações inter-étnicas pela conquista do território (...) autóctone e a conquista do sexo feminino (implícito nos Livros) permitindo
a miscigenação.
Encontramos só um mapa que ilustra a presença territorial das nações autóctones, mas nenhum mapa ilustrando a territorialidade negra (p. 420).
No nosso entender, as questões contidas nestes trabalhos tem pouca ressonância nos
debates geográficos e, em específico, no ensino de Geografia, em face do primado de certas
leituras do marxismo em que a classe social é considerada a principal variável, senão única
da desigualdade socioespacial. Além disso, na análise do conflito entre capital e trabalho
havia pouca ou nenhuma condição de incluir a variável raça, mesmo se tratando de uma
sociedade como a brasileira em que as relações de trabalho restauraram uma forma précapitalista de produção como o escravismo, apoiada, sobretudo, na mão de obra africana e
afrodescendente.
Olhando para a geografia brasileira, podemos dizer que na vertente crítica que se
tornou hegemônica, o que era rarefeito quase desaparece. Dizendo de outra maneira, os
estudos acerca de grupos étnicos ficam restritos e tratam sobretudo da questão territorial.
No entanto, no que se convencionou denominar de virada cultural ou humanista, os temas
concernentes a negros, índios e outros segmentos étnico-raciais, assim como a mulheres e
3
Artigo síntese da tese Brésil: espace pluriculturel et géographie nationale, 1964-1985. Tese de Doutoramento.
Université Laval, 1990. 473 p.
128
Terra Livre - n. 34 (1): 125-140, 2010
homossexuais, também quase não entraram em cena.
O aparecimento político (MARTINS, 1993) de coletividades negras, quilombolas é
um emergir espacializado e não é recente:
A emergência dos povos originários e dos afro-latino-americanos na luta política se inscreve
como das mais importantes quando analisamos seu potencial emancipatório posto que trazem
consigo a própria constituição contraditória do sistema mundo moderno-colonial. Esclareça-se
logo que não se trata de um protagonismo que se inicia agora, mas sim de um protagonismo
que ganha visibilidade agora. (Porto-Gonçalves, 2007, p.8)
No caso do ensino de geografia, havia sinais de que a questão étnico-racial merecia
tratamento adequado, quer se tratasse da formação étnico-racial da sociedade brasileira,
das áreas indígenas ou da presença negra urbana e rural.
REDESENHANDO
O MAP
MAPA
A ÉTNICO-RACIAL BRASILEIRO: NEGROS, QUILOMBOLAS
E O TERRITÓRIO NACIONAL
Como dissemos, nossos “antigos” livros didáticos de geografia do Brasil, tratam
de brancos, negros e índios na composição étnica do país, trazendo fotografias, índices
populacionais e, algumas vezes, mapas.
Nesta geografia imaginativa, considerada não como falsificação, mas como representação, os índios se situam em aldeias muito distantes dos centros urbanos, como se seu
ambiente próprio se reduzissem a florestas e matas. São como “orientais” numa terra
ocidentalizada. Os negros são igualmente originários de um distante, vasto e misterioso
território: a África. No Brasil, parte do Novo Mundo, igualmente exótico, misterioso e
distante dos olhos europeus. Neste imaginário o pais seria, de modo genérico, mais indígena no Norte e Centro-Oeste, negro ao Nordeste e parte do Sudeste e branco ao Sul. No
entanto, no senso comum geográfico praticamente não existiria mais índios nas regiões
Nordeste (com exceção do Maranhão), no Sudeste e no Sul. Nas duas últimas regiões mencionadas a existência da população negra e quilombola era posta em questão (LEITE, 1996).
Este quadro começa a ser revisto pela permanência por vezes incômoda dos “diferentes” e
pelo reconhecimento muitas vezes tardio que alguns atores sociais hegemônicos fazem das
identidades de grupos subalternos.
Um mapa da população negra por faixas percentuais e com dados recentes nos mostra sua distribuição geral nos estados e regiões brasileiras.
129
RATTS, A.
GEOGRAFIA, RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS E EDUCAÇÃO...
Mapa 1 – Brasil, População negra por estado - 2004
Desde os anos 1960, e, sobretudo, a partir de 1970, estudiosos(as) das relações raciais
passam a fazer análises mais sistemáticas das desigualdades entre negros e brancos4. No
entanto, a expressão espacial dessas diferenciações e assimetrias raramente era colocada
em discussão. Mesmo após a retomada da variável cor/raça no censo de 19805 poucos estudiosos empreendiam levantamentos e análises da dimensão espacial dos segmentos étnicoraciais. Alguns órgãos públicos como a FUNAI (Fundação Nacional de Amparo ao Índio),
costumeiramente produziam mapas das áreas indígenas no Brasil, o que passa a ser feito
em outras bases por ONGs como o ISA (Instituto Socioambiental) que elaborou a Enciclopédia dos Povos Indígenas e cujo sítio eletrônico traz uma seção de cartografia e mapas6.
O curto capítulo referente aos índios inserido na Constituição Federal que traz é
fruto de toda uma mobilização indígena e indigenista que pode ser considerado um
enfrentamento territorial em várias escalas, desde o local ao nacional. Um segmento étnico
que passou por processos de escravidão, extermínio, assimilação e tentativas autoritárias
de integração, teve o reconhecimento de “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.” (Brasil, 1988).
É no mesmo marco legal que pela primeira vez se reconhece a existência e o direito
de “remanescentes de comunidades de quilombos” no Artigo 68 das Disposições Constitucionais Transitórias: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocu4
Referimo-nos aos estudos dos sociólogos Florestan Fernandes, Carlos Hasenbalg e Nelson do Vale e Silva,
assim como das intelectuais e ativistas negras Beatriz Nascimento (RATTS, 2007) e Lélia Gonzalez (RATTS &
RIOS, 2010).
5
As categorias de identificação de “cor ou raça” são branco, preto, pardo, amarelo e indígena. O termo pardo,
para o IBGE, abriga aqueles que se autodenominam mulatos, morenos e outras denominações para os mestiços.
Os estudiosos do tema agregam pretos e pardos e os classificam como negros.
6
http://www.socioambiental.org/inst/index.shtm
130
Terra Livre - n. 34 (1): 125-140, 2010
pando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os
títulos respectivos” (BRASIL, 1988). No mesmo sentido.
No caso do estado do Ceará que estudamos nas décadas de 1980 e 1990, o discurso
acerca de etnicidade, raça e território, dizia que não havia índios nem negros. Como
contraponto (quase um contra-senso), diversas comunidades negras rurais e indígenas estavam em processo de aparecimento político e sendo notados por pesquisadores e repórteres (Ratts, 1996). Cabe ressaltar para o município de Aquiraz, onde fora sediada a primeira
capital cearense, a identificação por um grupo de geógrafos de localidades brancas (a sede
municipal e distrital), indígenas (um grupo da lagoa da Encantada que posteriormente foi
apresentado pelo etnônimo de Jenipapo-Kanindé) e negras (NUGA-UECE, 1982). Posteriormente, estudamos essas localidades (Ratts, 2001).
Um dos primeiros mapeamentos de quilombos realizado por Anjos (2000) e divulgado em 2000 assinalava 843 localidades, em todas as regiões, mas ausentes nos estados de
Roraima, Amazonas, Acre e Rondônia, além do Distrito Federal. Em 2005, o mesmo autor
aponta a existência de 2228 localidades quilombolas, incorporando aquelas situadas nos
estados de Amazonas e Rondônia, o que expressa um aumento de mais de 250% (Mapa 2).
Nestes dois trabalhos Anjos contou com uma “base informacional oriunda de organismos
oficiais das esferas federal, estadual e municipal, documentos provenientes de entidades
negras representativas e das pesquisas existentes nas principais universidades brasileiras” (Anjos, 2005). Dentre os órgãos federais, destacamos o INCRA que desde 2003 é responsável pela regularização fundiárias das áreas quilombolas. No entanto, para os órgãos
oficiais este número fica aquém do que pesquisadores(as) e os movimentos sociais apontam.
Mapa 2 – Brasil, Municípios com comunidades quilombolas - 2005
É esse processo que do ponto de vista dos sujeitos ligados a instituições como universidades e órgãos políticos e midiáticos que denominamos de “longa descoberta dos quilombos”
(Ratts, 2000). No entanto, podemos considerá-lo um processo de “aparecimento político”
131
RATTS, A.
GEOGRAFIA, RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS E EDUCAÇÃO...
(Martins, 1993), posto que esse emergir é cercado de demandas sociais, territoriais, educacionais específicas.
No caso das regiões Norte e Sul, há outro processo referente à desconstrução da idéia
de que não foram áreas de escravidão africana e, portanto, não seriam áreas negras nem
quilombolas. Já na segunda metade dos anos 1990 historiadores (Reis & Gomes, 1996) e
antropólogos (Leite, 1996) voltaram suas atenções para estas regiões.
Todavia, é necessário ressaltar o surgimento, em todo o país, de um movimento
quilombola (especialmente a Comissão nacional de Articulação dos Quilombos – a CONAQ),
em parte diferenciado do movimento negro, composto em geral por militantes de áreas
urbanas, ainda que alguns integrantes sejam originários de zonas rurais e/ou quilombolas.
No caso das regiões Centro-Oeste e Nordeste tem crescido os estudos de geógrafos, a
exemplo dos estados de Goiás (Paula, 2003; Leite, 2008) e da Paraíba, (Marques, 2009;
Moreira, 2009). Ainda em Goiás podemos destacar os estudos que têm como foco a questão
ambiental e o uso de espécies vegetais do cerrado por quilombolas (Almeida, 2010). Para o
sudeste, destacamos o estudo de Carril (1996) que se iniciou no Vale do Ribeira, São Paulo.
Há ainda situações que tem visibilidade relativamente recente para órgãos públicos
e instituições acadêmicas como os chamados quilombos urbanos e os índios na cidade. No
caso dos quilombos situados em áreas urbanas, podemos destacar os casos identificados em
Belém, São Luís, Salvador, Recife, Rio de Janeiro (ANJOS, 2009: p. 124-125) e os noticiados
para Belo Horizonte e Porto Alegre7.
A inclusão de negros e quilombolas, mas também de indígenas e ciganos constitui-se
num redesenho do mapa étnico do país, na reformulação de nosso discurso acerca do território e da formação da população brasileira, além de ser um tipo de reparação para estes
grupos étnico-raciais historicamente subalternizados.
AÇÕES AFIRMA
AS
TIV
TIVAS
FIRMATIV
ÉTNICO-RACIAIS NO ENSINO SUPERIOR
A educação formal no Brasil colonial e imperial se fez no sentido da integração (ou
assimilação) de indígenas e sem voltar-se diretamente para populações pobres, negras e
femininas. Bacharéis negros (médicos, engenheiros ou advogados), quase todos homens,
costumam ser citados por autores como Freyre (1998) como exceções, permitidas pelo mito
da democracia racial, e como exemplos de mérito individual. Somente em tempos recentes,
nos anos 1960 e 70 é que tomou vulto o “protesto negro”, na expressão de Florestan
Fernandes, e a análise de estudiosos apontando as desigualdades raciais neste âmbito.
Em se tratando do reconhecimento de processos de desigualdades que atingem grupos específicos – étnicos, raciais, etários, de gênero e outros, alguns países, desde os anos
1940, aplicaram medidas compensatórias que vieram a ser denominadas de Ações Afirmativas ou de “discriminação positiva”, a exemplo de Índia, Malásia e posteriormente estados
Unidos (MOORE, 2005).
Um dos primeiros grupos a tratar das cotas raciais no Brasil foi o comitê Pró-Cotas
para Negros na Universidade de São Paulo que teve atuação entre 1995 e 1996, formado
por estudantes negros de distintos cursos de graduação e pós-graduação daquela instituição. No âmbito governamental o Ministério da Justiça promoveu em Brasília, em 1996, o
seminário internacional “Multiculturalismo e racismo: o papel das ações afirmativas nos
Estados democráticos contemporâneos.”
Uma das questões centrais das Ações Afirmativas é a utilização da variável raça em
políticas públicas, o que, para seus opositores, indicaria uma ação racista ou uma espécie
de “racismo às avessas”. A raça aqui considerada não é uma categoria biológica, advinda do
mundo natural. É, sobretudo, uma construção social da diferença baseada em marcadores
de corporeidade, em traços fenotípicos como a cor da pele, a textura do cabelo, o formato de
nariz e lábios, elementos que não constituiriam um grupo social, mas contribuem, por exem7
Os Tambores de um quilombo. Brasíila, 15/08/2006. Fonte: http://www.irohin.org.br; Quilombo dos Silva: um
marco na luta quilombola . Coletivo Catarse, 28/01/2010. www.coletivocatarse.com.br
132
Terra Livre - n. 34 (1): 125-140, 2010
plo, para a identificação racial de quem é negro ou branco no Brasil. A diferença racial,
assinalada desta maneira, compõe e agrega ônus ou bônus à trajetória sócio-espacial dos
indivíduos racializados.
Paulatinamente agregando adesões, em face da demonstração das desigualdades
raciais na educação, particularmente no ensino superior, e superando as restrições ao uso
das variáveis étnicas e raciais nos seus processos seletivos, muitas Instituições de Ensino
Superior (IES), notoriamente públicas, adotaram processos seletivos diferenciados para
estudantes egressos de escolas públicas e/ou negros, além de indígenas, quilombolas e portadores de necessidades especiais. O salto foi de 4 IES em 2002, para 85 no início de 2010,
inaugurando uma nova etapa no âmbito universitário8.
No quadro abaixo, mais à frente sintetizado em um mapa, temos uma visão da adoção de processos seletivos diferenciados para estudantes egressos de escola pública, negros,
indígenas e quilombolas. Ìnicialmente identificamos que o acesso para estudantes negros(as),
se faz muitas vezes de forma combinada com a origem social dos estudantes na escola
pública.
8
As IES aqui compreendem Universidades Federais e Estaduais, Institutos Federais (antigas Escolas Técnicas)
e Faculdades Municipais.
133
RATTS, A.
GEOGRAFIA, RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS E EDUCAÇÃO...
Quadro 1 – Ações Afirmativas Sociais e Étnico-Raciais nas Instituições
Públicas de Ensino Superior – 2010
Região Norte
UF
AM
AP
PA
RR
TO
UF
AL
BA
MA
PB
PE
PI
RN
SE
UF
DF
GO
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MS
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IES
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IES
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UESP
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UERN
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UFSE
IES
UnB
ESCS
UEG
UFG*
UNEMAT*
UEMT
UEMS
UFGD*
Escola Pública
•
Negros
Indígenas
•
•
Quilombolas
•
•
Região Nordeste
Escola Pública Negros
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
Indígenas
Quilombolas
•
•
•
•
•
•
•
•
•
Re gião Ce ntro-Oeste
Escola Pública Negros Indígenas
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
Quilombolas
•
IES que tem curso de licenciatura para estudantes indígenas com processo seletivo próprio.
Região Sudeste
134
Terra Livre - n. 34 (1): 125-140, 2010
UF
ES
MG
RJ
SP
UF
PN
RS
SC
IES
UFES
UEMG
UFJF
UFMG ∗∗
UFSJ
UFVJM
UNIMONTES
IFRJ
FAETEC
UFF
UENF
UERJ
UEZO
FAMERP **
FATEC **
UNIFABC
Uni-FACEF
UFSCar
UNICAMP **
UNIFESP
USP **
IES
UEL
UEM
UEPG
UFPR
UNIOSTE
UTFPR
Várias∗∗∗
UERGS
URFGS
UFSM
Unipampa
USJ
UFSC
Região Sudeste
Escola Pública Negros
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
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•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
Região Sul
Escola Pública Negros
•
•
•
Indígenas
Quilombolas
•
•
•
•
•
•
•
•
Indígenas
Quilombolas
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
•
Fonte: Sítios eletrônicos das IES. Organização: VAZ, L. F. & RATTS, A. 2010.
**
IES que aplica um bônus na nota do vestibular para estudantes egressos de escola pública ou que se declarem
pretos e pardos.
***
15 faculdades estaduais paranaenses que reservam vagas para integrantes das sociedades indígenas do estado.
135
RATTS, A.
GEOGRAFIA, RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS E EDUCAÇÃO...
Ao sintetizarmos estas informações em um mapa, podemos fazer outras inferências.
Numa primeira visada observamos que em todas a s regiões brasileiras e em quase
todos os estados vem sendo adotadas ações afirmativas no ensino superior público, o que
indica que estão sendo superados os obstáculos à adoção de políticas diferenciadas de acesso com base no pertencimento étnico ou racial do(a) estudante. Não identificamos a adoção
de Ações Afirmativas nos estados de Acre, Rondônia e Ceará.
As ações afirmativas para a população negra, seja na modalidade cotas (reserva de
vagas) ou bônus (para pretos e pardos), seguem apenas parcialmente o mapa racial brasileiro. Em todos os estados do Centro Sul brasileiro há ações afirmativas que utilizam a
variável racial para o ingresso de estudantes nos cursos de graduação. No entanto, sua
ausência é notória em parte significativa das regiões Norte (Acre, Amazonas, Pará, Rondônia,
Roraima e Tocantins) e Nordeste (Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do
Norte) onde há um contingente de população negra. Pode-se considerar que as IES que não
adotaram cotas ou bônus com base no pertencimento racial, mas tenham feito cotas para
egressos(as) de escolas públicas, tenham presumido que estas últimas bastariam para elevar a representação negra em seu quadro discente, discurso utilizado sobejamente na reação à reserva de vagas para estudantes negros.
As políticas de Ações Afirmativas voltadas para a população indígena no ensino superior estão presentes em todas as regiões brasileiras o que pode ser interpretado como um
reconhecimento da presença destes grupos étnicos e de suas demandas educacionais em
todo o país. No entanto, estão ausentes também em estados de quatro regiões que tem
populações indígenas em áreas delimitadas ou demarcadas: Norte (Acre, Amazonas, Pará e
Rondônia), Nordeste (Alagoas, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte), Sudeste (Espírito Santo) e Sul (Santa Catarina). Para estudantes quilombolas somente
duas IES tem acesso diferenciado: a UESC e a UFG.
As ações afirmativas, no entanto, não se resumem à modalidade cotas, pois compreendem políticas do conhecimento. No caso daquelas que se voltam para a população negra
136
Terra Livre - n. 34 (1): 125-140, 2010
é reivindicação de intelectuais e pesquisadores(as) negros(as) a introdução da temática
étnico-racial em todas as áreas do conhecimento, a exemplo do que se pode observar com a
expansão e consolidação de áreas como etnobotânica, etnomatemática e dos estudos de
saúde da população indígena e negra. No caso da ciência geográfica, torna-se relevante a
abordagem dos temas tratado nas seções anteriores deste artigo.
Ao contrário de sistemas racistas que marcam explicitamente o uso do espaço e/ou
as normas jurídicas nos Estados Unidos e na África do Sul, consideramos que há no Brasil
um racismo institucional (Silvério, 2002) em que indivíduos negros (e outros considerados
não brancos, a exemplo de indígenas) acumulam ônus em seus deslocamentos sócio-espaciais ao longo da vida, resultando em limitadores de sua ascensão e emancipação social.
Neste sentido, ocorre entre nós o racismo acadêmico (Carvalho, 2005) em que a população
negra ainda está sub-representada nos corpos discente, na graduação e sobremaneira na
pós-graduação, e na composição do corpo docente.
É no campo da cidadania que poderão ser percebidos os efeitos dessas políticas: uma
universidade pública mais diferenciada étnica e racialmente, com uma atuação em termos
de ensino, pesquisa e extensão que mantenha trocas com a diversidade étnica, racial, cultural e social do país, considerando negros, indígenas, quilombolas e outros segmentos
sociais como sujeitos de conhecimento.
LUGARES
ÉTNICOS E MUNDOS RACIALIZADOS: A QUESTÃO ÉTNICO-RACIAL E OS
PLANOS ESCALARES
Os estudos geográficos referentes à questão étnico-racial podem ser desenvolvidos
em vários planos escalares. Desde a formação das sociedades africanas da antiguidade ao
tempo presente e tendo em vista a triangulação entre Europa, África e América denominada de Atlântico Negro, que se constituiu num patamar de interações políticas e culturais
(GILROY, 2001), temos um quadro extenso de estudos e pesquisas. A diáspora africana nas
Américas que produziu fenômenos nacionais e transnacionais como os quilombos (ou
maroons, na área de colonização inglesa e cimarrónes, palenques e cumbes na área de
colonização espanhola), as religiões afro-americanas (a exemplo do vodu no Haiti, santería
em Cuba; mina, candomblé, xangô, batuque e umbanda no Brasil).
No quadro nacional pode ser listada uma gama de possibilidades de pesquisa que
correlacionem a questão étnico-racial e o ensino de geografia: a abordagem das terras e
territórios indígenas, quilombolas e de outros grupos étnicos; a relação entre etnicidade,
raça e a dimensão regional.
No plano local, podem ser considerados lugares a aldeia (ou a Terra Indígena que
pode conter várias aldeias), o quilombo (urbano ou rural), o terreiro das religiões de matriz
africana, o bairro onde jovens do movimento hip-hop se aglutinam como espaço de apresentações de break ou do exercício do grafitti, assim também onde uma congada se territorializa
a partir das casas de referência de capitães ou “donos” de ternos (RODRIGUES, 2008).
Categorias geográficas como território e mobilidade espacial se mostram profícuas
para os estudos geográficos étnico-raciais. Grupos negros e indígenas qualificam o espaço,
produzem territórios, fixos ou móveis (RATTS, 1996; RATTS, 2003; RATTS, 2004). A mobilidade espacial pode ser estudada desde a perspectiva étnica e/ou racial: os deslocamentos
de pessoas originárias de agrupamentos negros entre o rural e o urbano e entre regiões do
país (RATTS, 2001), as trajetórias sócio-espaciais de professoras negras (SOUZA, 2007) ou
domésticas (LOPES, 2008). É nessa movimentação que a corporeidade negra (SANTOS,
2000) aparece como dado da pesquisa em sua relação com o espaço.
Em se tratando de estudos de geógrafos contemporâneos, cabe mencionar nominalmente além dos trabalhos de Rafael Sanzio Araújo dos Anjos (UnB), as pesquisas e
publicações de Renato Emerson dos Santos (2007) e Andrelino Campos (2005) da UERJ, os
estudos e orientações de Maria de Fátima Ferreira Rodrigues (UFPb) e Paulo Scarin (UFES)
acerca de quilombos e de Jeovah Meireles (UFC). relativos ao racismo e justiça ambiental.
137
RATTS, A.
GEOGRAFIA, RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS E EDUCAÇÃO...
Considerações finais: traços étnicos e marcas raciais na Geografia
Em princípio todos/as os/as brasileiros/as em fase de formação escolar e também os/
as que são educadores, na sua formação continuada, tem idéias a respeito de raça e etnia,
de indígenas, negros, brancos, ciganos, árabes e “orientais”. De um lado, como sujeitos,
estamos informados/as pela “geografia imaginativa” a que aludimos. De outro, também
como sujeitos, estamos em processo de abertura para o reconhecimento da diversidade
étnica, racial e cultural no país e no mundo, abordando-a nos contextos de desigualdade e
de reparações de situações históricas de subalternidade.
Nos marcos da geografia contemporânea, o que compreende as “viradas” crítica e
cultural, delineia-se uma abordagem teórica, metodológica e política, uma geografia humana, humanista, que focaliza indivíduos e coletividades desumanizadas pelo racismo e outras formas de discriminação, a exemplo do sexismo e da homofobia. É uma pedagogia
política que se faz com o objetivo da emancipação dos sujeitos colonizados e subalternizados.
A ciência geográfica e a Geografia Escolar tem amplo potencial de reflexão e intervenção
neste cenário.
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140
ENSINO DE
GEOGRAFIA E
CURRÍCULO:
QUESTÕES A PARTIR
DA LEI 10.639
THE TEACHING OF
GEOGRAPHY AND
CURRICULUM:
MATTERS
MA
TTERS FROM THE
LAW 10.639
LA ENSEÑANZA DE LA
GEOGRAFÍA Y EL
CURRÍCULO:
CUESTIONES A PARTIR
DE LA LEY 10.639
RENA
TO EMERSON
ENATO
SANTOS
DOS
FFP/UERJ
[email protected]
Terra Livre
Resumo : A Lei 10.639 é um instrumento do Movimento Negro na
luta pela promoção de uma educação para a igualdade racial. Ela
expressa a atuação do movimento como um ator social na disputa
pela construção do currículo. A partir dela, diversas pautas se
impõem no processo de escolarização, e uma delas é mudança nos
conteúdos ensinados, o que representa inserção e revisão de
conteúdos. O artigo discute conseqüências e possibilidades desta
alteração no ensino de Geografia. Partindo do pressuposto de que a
idéia de raça, que regula comportamentos e relações sociais, tem
uma componente espacial de validação, sendo uma referência
geocultural, aponta-se como a Geografia que é ensinada contribui
para hierarquias raciais. Como alternativa, apresenta-se um
conjunto de discussões que podem ser trabalhadas no ensino escolar
de Geografia, um temário que tenta atender às diretrizes de inserir
e rever conteúdos para atender às demandas postas pela Lei 10.639.
Abstract
Abstract: Law 10.639 is an instrument of the Movimento Negro
(Negro Movement) in the fight for the promotion of an education
that promotes social equality. It expresses the action of the
movement as a social actor in the dispute for the construction of
the curriculum. Based on this, several topics are imposed in the
schooling process and one of them is the change in the contents
which are taught, thus this represents the insertion and the review
of the contents. The article discusses the consequences and the
possibilities of this alteration in the teaching of Geography. Based
on the presupposition that the idea of race, which regulates
behaviors and social relations, has a spatial component of
validation, being a geocultural reference, it is possible to show the
way that Geography contributes to the racial hierarchies.
Alternatively, a group of discussion is presented and it may be
worked in the schooling teaching of Geography, a theme that tries
to supply the guidelines in order to insert and review the contents
imposed by the Law 10.639.
Resumen
Resumen: La Ley 10.639 es un instrumento del Movimento Negro
(Movimiento Negro) en la lucha por la promoción de una educación
para la igualdad racial. Ella expresa la actuación del movimiento
como un actor del currículo. A partir de ella, muchas pautas se
imponen en el proceso de escolarización y una de ellas es el cambio
de los contenidos enseñados, y eso representa la inserción y la
revisión de contenidos. El artículo discute las consecuencias y
posibilidades de esta alteración en la enseñanza de Geografía. A
partir del presupuesto de que la idea de raza, que regula los
comportamientos y relaciones sociales, tiene un componente
espacial de validación, siendo una referencia geocultural, es posible
apuntar como la Geografía – que es enseñada – contribuye para las
jerarquías raciales. Como alternativa, se presenta un conjunto de
discusiones que pueden ser trabajadas en la enseñanza de
Geografía, un tema que intenta atender las directrices de insertar
y rever los contenidos para atender a las demandas de la Ley 10.639.
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 141-160 Jan-Jun/2010
141
SANTOS, R. E.
ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
No período recente, processos políticos vêm permitindo que diversos atores sociais
consigam se inserir nas disputas pela educação escolar. Estas disputas vêm tendo impactos
na construção dos currículos escolares. Compreendemos currículo de maneira ampla, como
conjunto de saberes veiculados, difundidos, produzidos e reproduzidos no ambiente escolar
- e que se relacionam com as esferas de construção e regulação da educação, em processos
múltiplos de disputas em diversas arenas, e em torno de diversas pautas. O currículo é,
portanto, um “fluxo”, mais do que um documento, listagem de conteúdos ou um conjunto de
indicações de caráter prescritivo; ele é algo em constante disputa, que aparece nestas
“materializações” e nas práticas cotidianas na escola e na sala de aula, onde também há
atores sociais disputando intensamente o processo de formação humana no seio da
escolarização.
Além do Estado, “comunidades epistêmicas” – que dizem respeito Lopes (2006), às
comunidades disciplinares – disputam a construção curricular, tanto no âmbito das prescrições quanto no das políticas e naquele das práticas efetivadas no cotidiano escolar. Fazemos coro aqui às idéias defendidas por Lopes, de que “tais comunidades fazem circular, no
campo educacional, discursos que são base da produção de sentidos e significados para as
políticas de currículo em múltiplos contextos, em uma constante tensão homogeneidadeheterogeneidade” (pg. 35). Defendemos o alargamento deste conceito de comunidades
epistêmicas para pensar também a atuação de movimentos sociais nas disputas curriculares.
Em particular, nosso olhar se dirige a tensionamentos trazidos pelo Movimento Negro, em sua luta anti-racismo, sobre a construção curricular. Com efeito, a educação sempre foi um dos principais campos de atuação e disputa do Movimento Negro (ver, entre
outros, Santos, SALES; Nascimento, ELISA). Entretanto, a promulgação da Lei 10.639, em
2003, requalifica esta atuação. De conquista, a Lei é transformada pelo movimento social
em instrumento para fortalecimento da luta, e isto lhe coloca novas pautas: articulação e
capacitação de secretarias, escolas e professores, produção de materiais de referência, pesquisa e produção de conhecimento, revisões de currículos, advocacy frente ao não cumprimento da lei, entre tantas outras. Todas estas pautas são articuladas na busca pela construção de uma educação para a igualdade racial, que é o objetivo das lutas do Movimento
Negro no campo da educação.
Buscamos neste trabalho discutir alguns desdobramentos desta disputa curricular
no âmbito do ensino de Geografia. A partir do acompanhamento das práticas de 5 professores da rede pública da região metropolitana do Rio de Janeiro, nossa tentativa é de pensar
possibilidades de inserção e revisão de conteúdos trabalhados pela Geografia, enquanto
saber sobre o mundo, que constrói visões de mundo, de si e do outro, influenciando comportamentos nas relações raciais.
GEOGRAFIA, RAÇA E ENSINO: POR QUE A GEOGRAFIA É IMPORT
ANTE NAS
IMPORTANTE
RELAÇÕES RACIAIS
Está sempre presente nos discursos e no senso comum a idéia de que a Geografia
serve para conhecer o mundo, é um saber sobre o mundo. Mais do que isso, a Geografia
contribui para a formação humana, constituindo referenciais para inserção do indivíduo no
mundo, em seus espaços de socialização.
É por isto que o sentido do aprender e ensinar a Geografia é se posicionar no mundo1.
E, precisamos assumir uma dupla acepção do que chamamos “se posicionar no mundo”: (i)
conhecer sua posição no mundo, e para isto o indivíduo precisa conhecer o mundo; (ii)
tomar posição neste mundo, que significa se colocar politicamente no processo de construção e reconstrução desse mundo. Se posicionar no mundo é, portanto, conhecer a sua posição no mundo e tomar posição neste mundo, agir. Saber Geografia é saber onde você está,
conhecer o mundo, mas isto serve fundamentalmente para você agir sobre esse mundo no
1
Desenvolvemos esta idéia em Santos, 2007.
142
Terra Livre - n. 34 (1): 141-160, 2010
processo de reconstrução da sociedade: se apresentar para participar.
Os conhecimentos que são trabalhados na Geografia permitem aos indivíduos e grupos relacionar o “mundo como um todo” ao seu “mundo vivido”. É por isso que saberes da
Geografia começam a ser trabalhados nas séries iniciais do Ensino Fundamental abordando o espaço vivido do aluno – sua casa, seu trajeto da casa para a escola, seu bairro, o
próprio espaço da sala de aula. Isto serve para a construção de raciocínios de abstração
espacial, que vão permitir que as informações sobre o mundo como um todo – inapreensíveis
à percepção humana – ganhem sentidos e relações com a vivência e a experiência. E, vivemos e experimentamos o mundo construindo-o.
Assim, os conceitos estruturantes do saber geográfico (espaço, território, região, escala, urbano, agrário, centro, periferia, etc.) são, na verdade, referenciais, estruturas analíticas que constroem para cada indivíduo a sua leitura de uma totalidade-mundo. Ao servir para conhecer o mundo e indicar onde você se encontra nesse mundo, esse referencial
serve para nos localizarmos, para nos orientarmos (ou, nos ocidentarmos!) no mundo.
Quando separamos o espaço em rural e urbano, e tentamos mostrar conhecimentos
para que o aluno saiba diferenciar o que é rural e o que é urbano, isto serve para que ele
saiba se posicionar. Quando começamos a tratar das lógicas de construção do processo de
urbanização e conceitos como o de Região Metropolitana, trabalhar a estrutura social e
espacial metropolitana como contendo centros e periferias, contendo centralidades e
perifericidades, estamos apontando que centro e periferia são relações de dominação espacialmente estruturadas - a periferia só é periferia porque existe centro -, estamos mostrando a lógica de construção desse espaço no mundo para que o aluno saiba se está numa área
central ou periférica. Isso informa a sua posição dentro de um espaço físico e material, e
também dentro do espaço social, econômico: se você mora em uma área periférica a sua
perspectiva de encarar o mundo tem de ser diferente de alguém que se encontra na área
central e que ocupa espaços de centralidade desse mundo - centralidade como sendo aí os
lugares de concentração da riqueza e do poder.
Além dos conceitos e categorias fundamentais de análise do espaço, temos que destacar que os mapas também são poderosos instrumentos de construção de visões de mundo e
de posição no mundo. O que eles mostram e o que deixam de mostrar são critérios de
verdade, de construção de existências e não-existências. Se reconhecer, e a forma como se é
representado e se é reconhecido num mapa também é instrumento poderoso de construção
de posturas e tomada de posições. Acostumar a ver o mundo através da projeção de Mercator
- que coloca a Europa no centro, e que além disso confere ao Hemisfério Norte uma área
que é quase sempre pelo menos uma vez e meia o Hemisfério Sul - é um eficaz meio de
reafirmar o eurocentramento do mundo e a superioridade do Norte sobre o Sul. Da mesma
forma, ver ou não o seu grupo social num mapa é uma eficaz política de identidade. Conhecer a sua posição e tomar posição são aspectos vinculados, e para os quais o ensino de
Geografia tem papel pronunciado.
Esta compreensão deve, portanto, ser norteadora (ou suleadora!) da contribuição da
Geografia trabalhada dentro de sala de aula: as noções que aprendemos/ensinamos sobre a
geografia servem para saber interpretar esse mundo, conhecer a sua posição no mundo e
agir neste mundo. Isto implica conceber o espaço geográfico como sendo estrutura – e, a
partir disso, estudar sua organização, seus elementos, seus objetos, etc. -, mas também
como experiência: as posições que os indivíduos e grupos sociais ocupam, bem como as
relações que eles vivenciam, condicionam trajetórias sociais que são, também, trajetórias
espaciais, o que nos permite apontar as inscrições sócio-espaciais de indivíduos e grupos
como sendo experiências espaciais das relações sociais, econômicas e de poder.
A Geografia serve então para a construção de referenciais posicionais do indivíduo
no mundo – e, aqui, falamos de “mundo” como uma noção que atenta para a complexidade
espaço-temporal das relações sociais do/no espaço vivido, relações que o constroem, o influenciam, são influenciadas por ele, enfim, o constituem bem como são por ele e nele constituídas, numa relação de imanência que torna indivíduo e mundo algo tão indissociáveis
quanto estrutura (social, econômica, espacial, etc.) é em relação à experiência. Isto torna a
leitura espacial das relações raciais uma tarefa importante, pois a raça é um princípio
143
SANTOS, R. E.
ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
social de classificação de indivíduos e grupos, construído artificialmente para o ordenamento
de relações de hierarquias e poder. Enquanto tal, ela regula comportamentos e relações,
interfere nas trajetórias de indivíduos e na inserção social de grupos, sendo então um fator
crucial na constituição da nossa estrutura social e espacial. Neste sentido, partimos do que
nos coloca Mesquita (1995, pg. 127):
“Um geógrafo amigo meu me fez notar certa vez, que o estudo do tempo, a história, é (ou pode
vir a ser) a descoberta de nós mesmos através da memória dos que nos antecederam, enquanto
que o estudo do espaço, do território, é (ou pode vir a ser) a descoberta do outro, dos outros.
Aprofundando um pouco esta questão, percebo hoje que o estudo do território também pode
nos auxiliar, através da descoberta do outro, a descoberta ou redescoberta de nós mesmos.”
A autora chama a atenção para o papel da Geografia (bem como de outras disciplinas) na construção de referenciais posicionais. É neste sentido que apontamos aqui que, se
acreditamos que a raça é um elemento que regula as relações sociais, de alguma forma suas
manifestações estão imbricadas na Geografia.
A sociedade brasileira, cujas elites e Estado já tiveram um projeto de branqueamento da população, e que durante muito tempo se proclamou uma democracia racial, vem
cada vez mais admitindo que tem no racismo um de seus persistentes (e, incômodos) pilares. E, isto tem dimensões espaciais. Afinal, como nos diz Carlos Walter Porto-Gonçalves,
“(...) uma sociedade que constitui suas relações por meio do racismo, (...) [tem] em sua
geografia lugares e espaços com as marcas dessa distinção social: no caso brasileiro, a população negra é francamente majoritária nos presídios e absolutamente minoritária nas
universidades; (...) essas diferentes configurações espaciais se constituem em espaços de
conformação das subjetividades de cada qual” (2002, pg. 4).
Existem, portanto, geo-grafias do racismo e das relações raciais: o racismo, ao definir
clivagens sociais e hierarquizar indivíduos e grupos a partir de seus pertencimentos raciais, se expressará na constituição de “lugares” (nos sentidos espacial e social) onde a presença dos desfavorecidos será majoritária (lugares da pobreza, da despossessão, da
subalternidade) e lugares onde a sua presença será minoritária (lugares da riqueza, do
poder, do saber socialmente legitimado, etc.): lugares com as marcas desta distinção social.
Segundo a perspectiva de Porto-Gonçalves, esta construção - que tem o (espaço) material e
o simbólico como indissociáveis - está na própria base da conformação das subjetividades e
das identidades dos grupos.
As relações raciais, o racismo e, evidentemente, as lutas contra este são, portanto,
grafadas no espaço e, no mesmo movimento em que nele se constituem, também condicionadas por ele. Podemos falar, portanto, de “expressões espaciais das relações raciais, do
racismo e das lutas anti-racismo”. A compreensão destas expressões fornece novos temas a
serem trabalhados pela Geografia, na busca de uma educação anti-racista. Exploremos um
pouco as relações entre relações raciais e o espaço.
GEOGRAFIA E RAÇA – ESP
ACIALIZAÇÃO DA RAÇA E DAS RELAÇÕES RACIAIS OU
SPACIALIZAÇÃO
A CONSTRUÇÃO RACIALIZADA DAS RELAÇÕES SOCIAIS NO ESP
AÇO
ESPAÇO
A regulação das relações sociais operada a partir da idéia de raça tem relação direta
com o espaço. Afinal, como bem nos aponta o sociólogo peruano Anibal Quijano (2007),
quando falamos em “negros”, remetemos diretamente à idéia de uma comunalidade, se não
biológica, de origem histórico-geográfica: África. Quando falamos em “brancos”, o mesmo
se repete, com a idéia de uma origem que remete a Europa. O mesmo para “índios”, associados à América; “amarelos”, associados à Ásia. Estes referenciais são absolutamente fruto
de distorções, são construções artificiais que servem para produzir visões de mundo, visões
do outro, orientar e regular comportamentos e relações – e, aqui, estamos mais especificamente falando do padrão brasileiro de relações raciais
raciais.
Relacionamos “negro” a África mesmo sabendo que já há muito tempo boa parte da
África é habitada (também) por grupos que, no padrão de relações raciais brasileiro, não
são classificados como “negros” – a chamada “África branca”, que muitos autores também
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questionam. Sabemos também que indivíduos e grupos que no nosso padrão de relações
raciais seriam classificados como “negros” estão presentes em populações antigas de outras
partes do mundo – como alguns grupos aborígenes na Austrália e algumas castas na Índia.
Mas, aqui, “negro” tem a ver com África, confundimos a origem dos fluxos de escravizados
trazidos para cá como a única região do mundo onde habitavam homens e mulheres de pele
escura antes do tráfico atlântico, como se as relações entre a África e o resto do mundo
fossem inauguradas com as chamadas “Grandes Navegações” – ou, poderíamos dizer para
ser mais explícitos na idéia que nossa visão de mundo constrói, o contato da África com o
mundo começa e se dá pelo protagonismo dos Europeus. Esquecemos que o tráfico atlântico
não é a única, mas sim “mais uma” onda de dispersão populacional a partir da África.
Carlos Moore (2008), falando dessa visão que ele qualifica de “perda de memória histórica”
(tanto nossa quanto de povos descendentes de africanos que hoje habitam Oriente Médio
até a Ásia Meridional - Ìndia, Paquistão e Sri Lanka – e a Oceania), nos mostra como a
presença negros em diversas regiões do mundo remete a uma complexificação da História.
Relacionamos “branco” a Europa, mesmo sabendo que não é apenas lá que habitavam historicamente homens e mulheres com estas características, e também que parte
significativa dos indivíduos que no padrão de relações raciais brasileiro são classificados
como “brancos” não são oriundos do que chamamos de Europa. Aliás, do ponto de vista
geofísico, Europa é muito mais uma península da EurÁsia do que um continente em si – o
processo de individuação espacial que transforma Europa num continente é, em si, uma
distorção sob este ponto de vista. Ásia também não é um continente onde há apenas aqueles que no nosso padrão são chamados de “amarelos”, mas sim, uma diversidade de grupos
que classificamos, dividimos e agrupamos “racialmente”. Ou seja, há um conjunto de associações artificiais que sustentam – tentando, de certa forma, “naturalizar” - o constructo de
“raça”.
Mesmo sendo difundido que biologicamente as divisões raciais não se sustentam,
elas seguem funcionando como critério de verdade, orientando e regulando comportamentos baseados nesta associação de grupos raciais a regiões do planeta. Sérgio Pena, discutindo esta tortuosa e conflituosa polissemia e a multiplicidade de sustentações da idéia de
raça, admite que “Raça pode também denotar origem em uma região do globo, assumindo o
significado de ‘ancestralidade geográfica’ – fala-se então de uma raça africana, raça oriental etc.” (2005, pg. 323).
Estas associações são, eminentemente, geográficas. Raça passa a ser, por esta ótica,
um conceito geográfico, uma noção que se assenta sobre leituras espaciais. A Geografia
está, portanto, de uma forma muito subliminar, na base da construção da idéia, das relações e dos comportamentos baseados no princípio de classificação racial. Assim, raça deixa
de ser um princípio de classificação biológica para ser um princípio baseado em “identidades geoculturais”, identidades baseadas em referenciais espaciais. Aníbal Quijano nos ajuda a compreender esta construção:
“critério básico de classificação social universal da população mundial, de acordo com a idéia de
“raça” foram distribuídas as principais novas identidades sociais e geoculturais do mundo. Por
um lado, “Índio”, “Negro”, “Asiático” (antes, “Amarelos”), “Branco” e “Mestiço”; por outro, “América”, “Europa”, “Ásia”, “África” e “Oceania”. Sobre ela se fundou o eurocentramento do poder
mundial capitalista e a conseguinte distribuição mundial do trabalho e do intercâmbio. E,
também sobre ela, se traçaram as diferenças e distâncias específicas nas respectivas configurações específicas de poder, com as suas cruciais implicações no processo de democratização de
sociedades e Estados, e da própria formação de estados-nação modernos.” (2007, pg. 43)
Segundo esta perspectiva, o constructo “raça” não apenas se assenta sobre bases
espaciais, mas é também instrumento de poder em diferentes escalas: intercontinental,
com o eurocentramento do poder mundial; intra-nacional, com a difusão da dominação por
aqueles que são identificados com a Europa, os “brancos” e, secundariamente em alguns
contextos, “mestiços”. Quem nos informa sobre esta última dimensão da “raça”, construída
a partir de referentes espaciais, servindo como orientador e regulador de relações de poder
– na mesma linha de Quijano – é Ramon Grosfoguel, quando aponta que “a noção de ‘europeu’ nomeia uma localização de poder na hierarquia etno-racial global. Por isso ‘europeu’
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SANTOS, R. E.
ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
aqui se refere não apenas às populações da Europa, mas também às populações de origem
européia em todas as partes do mundo, que gozam dos privilégios da supremacia branca
em relação a populações de origem não-européia. Me refiro por ‘europeus’ aos euronorteamericanos, euro-latinoamericanos, euro-australianos, etc.” (2005, pg. 1).
A “raça” é então um constructo que, ancorado em leituras do espaço, estrutura também relações de poder com o espaço e no espaço. Leituras de espaço estão, portanto, na base
de conformação do nosso padrão de “relações raciais”: primeiro, porque leituras de espaço
orientam a própria constituição e naturalização da idéia de “raça” e as classificações em
grupos raciais; segundo, porque são leituras de espaço que estruturam e autorizam as
hierarquizações entre os grupos raciais – o que confere supremacia aos “europeus” que
qualifica Grosfoguel é, na verdade, uma visão de mundo que aponta a Europa como superior aos outros continentes (melhor dizendo, superior às outras regiões geoculturais do planeta). Onde e como se constrói esta visão de mundo? Quais são os veículos de sua difusão e
reprodução?
Esta visão de mundo, ressalte-se, não é apenas leitura de espaço, mas sim, leitura de
espaço e de tempo. A hierarquia que coloca em situação de superioridade um continente,
uma região geocultural, uma “raça” sobre as outras é resultante de um conjunto articulado
de pressupostos e conclusões constituintes de uma associação cultura-raça-espaço-tempo, e
outros elementos que lhes servem de suporte. Estamos aqui falando daquilo que Boaventura
de Souza Santos chama de “monocultura do tempo linear”, que caracteriza o pensamento
ocidental, uma forma de ler o mundo segundo a qual “a história tem sentido e direção
únicos”, sempre rumo a um futuro que é concebido como progresso, desenvolvimento, revolução, modernização, crescimento, globalização, entre outros.
A tecnologia aqui, desprovida de seus multi-topológicos processos de desenvolvimento histórico, joga papel central como indicador: parece que todo o desenvolvimento tecnológico
do mundo nos últimos séculos deve-se à revolução industrial, e que esta foi gestada exclusivamente na Europa. Nada mais multi-topológico, multi-localizado do que a chamada Revolução Industrial. Ela só foi possível graças ao fato de que as múltiplas formas de relação
colonial que a Europa estabeleceu com as diversas partes do mundo a partir do século XV
eram relações de exploração e apropriação de recursos naturais, de força de trabalho e...
saberes! Conhecimentos, técnicas de fazer, de produzir, de organizar, que foram aprendidos, apreendidos, experimentados por todo o mundo, foram a base da constituição da Revolução Industrial que, nas narrativas hegemônicas, aparece como algo exclusivamente europeu. Mas, ao invés de aprendermos/ensinarmos que os avanços tecnológicos e de conhecimento que constituíram o mundo atual são frutos de saberes de todas as partes deste mundo, o que se reproduz é que este processo é linear, evolutivo e ocorreu na Europa.
Esta concepção linear do tempo e da história – segundo a qual o presente acaba
sendo reduzido a um ponto, comprimido entre um passado dilatado e um futuro infinito –,
transforma culturas, técnicas e formas de relação cujas existências são simultâneas em
elementos sucessivos
sucessivos. Diferenças são transformadas em assimetrias temporais e, no confronto, uma realidade é remetida ao passado, e outra ao presente ou futuro – diz-se de um
contexto ou formação social (lugar, região, país, etc.) que é “atrasado” ou “avançado”, “adiantado”, p.ex., ou “moderno” e “primitivo”, hierarquizando-os. Esta leitura, que transforma
experiências sociais simultâneas, contemporâneas, em experiências sucessivas, tem como
referência crucial os países centrais, estes alçados à condição de única possibilidade de
futuro (projeto) desejável para os não-centrais. Tal lógica é base para a constituição de uma
narrativa (pretensamente) universal da história, mas cuja referência é o eurocentramento
espaço-temporal do mundo. Tudo que não se assemelha a esta referência é alçado à condição de “(...) residualização que, por sua vez tem, ao longo dos últimos duzentos anos, adotado várias designações, a primeira das quais foi o primitivo, seguindo-se outras como o tradicional, o pré-moderno, o simples, o obsoleto, o subdesenvolvido” - como nos diz Boaventura
de Souza Santos (2002, pg. 37).
Assim, culturas, povos, regiões geoculturais são hierarquizadas, através da adoção
de uma visão de mundo, de história e geografia universais, que é uma visão de espaçotempo que transforma simultaneidades em sucessividades. Com isto, a narrativa universal
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do mundo o interpreta a partir de dicotomias hierarquizantes, como nos exemplifica mais
uma vez Ramon Grosfoguel: “Passamos dos povos sem escrita (pictografia no lugar de letras) no século XVI, aos povos sem história no século XVIII, aos povos sem civilização no
século XIX, aos povos sem desenvolvimento em meados do século XX e agora aos povos sem
democracia no começo do século XXI” (2005, pg. 2).
Mais do que isto, esta leitura legitima e “naturaliza” as relações de dominação entre
os grupos que a partir delas se referenciam. Assim, poderíamos também falar de como, no
século XIX, povos sem Estado foram agrupados e divididos ao bel prazer de colonizadores.
Ou seja, os exemplos são múltiplos, mas a dicotomização legitima a dominação – aliás,
como critica Boaventura de Souza Santos (2004, pg. 78), “A relação de dominação é a conseqüência e não a causa dessa hierarquia e pode ser mesmo considerada como uma obrigação
de quem é classificado como superior (por exemplo, o ‘fardo do homem branco’ em sua
missão civilizadora).”
A dominação aparece como algo “natural” e uma “obrigação” daqueles que, segundo
esta visão de mundo, aparecem como “superiores”. Isto se coaduna com a imagem de espaço
decorrente da monocultura do tempo linear permitindo a construção de uma narrativa de
história universal que é apenas a história de uma parte do mundo ou, a história contada a
partir de uma parte do mundo. Nesta, os referenciais temporais (as periodizações, as transformações, os processos, as temporalidades) são todos construídos a partir desta parte que
se torna o centro do mundo, e as outras partes “aparecem e desaparecem” na medida em
que se relacionam com grau de importância com o (ou, para o) centro do mundo/centro da
narrativa.
A história universal eurocentrada é um exemplo disto, mas poderíamos também observar como a narrativa da história do Brasil a partir da Teoria dos Ciclos Econômicos
produz, grosso modo, imagens espaciais semelhantes: durante cada ciclo, apenas a região
produtora da mercadoria – ou seja, aquela alçada à condição de centro dinâmico da economia colonial ou nacional – é mencionada, e as outras regiões parecem estar quase em
“subsidência geológica”, tal seu desaparecimento nas narrativas. Isto é um poderoso instrumento de produção de “não-existências”, de desqualificações que legitimam a dominação. Na verdade, esta narrativa produz a imagem espacial segundo a qual os processos
históricos de “contato” entre a região centro e as demais apareçam como um “transbordamento” de processos internos àquela que é o centro da narrativa.
A narrativa de mundo que aprendemos – pela articulação entre os ensinos de História e Geografia -, que aponta o mundo atual como continuidade e desdobramento de eventos nomeados de “descobertas imperiais européias” a partir das chamadas “grandes navegações”, é talvez o principal exemplo deste caráter parcial e localizado (geográfica e
epistemicamente) de visão de mundo – a visão eurocêntrica. A partir dela, os elementos
constituintes do mundo atual – como o capitalismo, a globalização, a ciência – são únicos e
têm sua gênese na Europa. Este eurocentramento tem, como primeira idéia-força, o discurso do “descobrimento” – contato que, apresentado desta forma, é como uma “via de mão
única”, o que em outro texto Boaventura de Souza Santos também critica2.
Esta leitura de mundo, visão de espaço-tempo, se combina então com uma leitura
das relações de poder e dominação que se estabelecem no mundo, e que é necessário aqui
abordar. Se estamos apontando que a “raça” é um princípio de classificação universal da
população mundial que estrutura relações de poder, e concordamos com Quijano também
2
“Apesar de ser verdade que não há descoberta sem descobridores e descobertos, o que há de mais intrigante na
descoberta é que em abstrato não é possível saber quem é quem. Ou seja, o ato da descoberta é necessariamente
recíproco: quem descobre é também descoberto, e vice-versa. Porque é então tão fácil, em concreto, saber quem
é descobridor e quem é descoberto? Porque sendo a descoberta uma relação de poder e de saber, é descobridor
quem tem mais poder e mais saber e, com isso, a capacidade para declarar o outro como descoberto. É a desigualdade
de poder e de saber que transforma a reciprocidade da descoberta na apropriação do descoberto. Toda a descoberta
tem, assim, algo de imperial, uma ação de controle e de submissão. Este milênio, mais do que qualquer dos que
o precedeu, foi o milênio das descobertas imperiais. Foram muitos os descobridores, mas o mais importante foi,
sem dúvida, o Ocidente, nas suas múltiplas encarnações. O Outro do Ocidente, o descoberto, assumiu três formas
principais: o Oriente, o selvagem e a natureza.” (Santos, 2002)
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SANTOS, R. E.
ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
que este é um dos mais importantes instrumentos de dominação social nos últimos 500
anos, temos que colocar em discussão, juntamente com Grosfoguel, a idéia de “Sistema
Capitalista”, na configuração deste Sistema-Mundo que diversos autores vêm qualificando
como moderno-colonial.
Se a história da Globalização é também a história da construção do Capitalismo (e
das inúmeras lutas contra ele), temos que requalificá-lo, para compreendermos o papel
crucial da “raça” em sua constituição. Além de compreender que o Capitalismo não é um
processo de gênese intra-européia que se difunde para o resto do mundo – como, por exemplo, narrativas evolucionistas baseadas na forma de relação de trabalho fazem crer -, mas
sim um fruto de combinações de diferentes processos e experimentos complementares por
todo o mundo. Podemos exemplificar discutindo a divisão do trabalho, e temos de recordar
que aspectos cruciais para a indústria, como o confinamento de seres humanos num ambiente (espaço e tempo) dedicado exclusivamente ao trabalho, bem como a coletivização em
massa de ritmos de trabalho, foram largamente “testados” nas experiências de escravidão
nas Américas e na África. Não são, portanto, criações exclusivas de “corporações de ofício”
ou de manufaturas européias, como comumente se aponta. Ou seja, temos que alargar e,
como nos diz Grosfoguel, “descolonizar” o conceito de Capitalismo, conferindo a ele a complexidade do cruzamento de múltiplas formas de dominação e exploração que o caracterizam enquanto experiência social.
Ramón Grosfoguel faz um profícuo esforço de descolonização conceitual do Capitalismo. Junto com outros autores (Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Santiago Castro-Gómez,
entre outros), propõe um “giro decolonial” do pensamento, a idéia de que o eurocentramento
do mundo se dá através da imposição de uma relação de dominação batizada de
“colonialidade” (do poder, do saber e do ser). Segundo esta, a modernidade se estabelece
como padrão universal juntamente com uma contra-face, a colonialidade – que, diferente
de colonização, a qual implica a existência de uma administração colonial. A colonialidade
é um padrão de poder que articula diversas dimensões da existência social. Trabalho, subjetividade, autoridade, sexualidade, cultura, identidade, entre outras, são todas dimensões
constituintes das experiências sociais de indivíduos e grupos, e são constitutivas de um
pacote de múltiplas relações de poder que, imbricadas, servem à “colonialidade”. Esta se
vale, portanto, de hierarquias sexuais, políticas, epistêmicas, econômicas, espirituais, lingüísticas e raciais de dominação, operando em diversas escalas, desde a global até as
interações entre dois indivíduos.
Esta conceituação nos auxilia a compreender que, ao pensar o capitalismo, não podemos reduzi-lo ao primado da exploração e dominação no âmbito das relações de trabalho, a
dicotomia capital-trabalho, mas compreender que ele se vale de diversos eixos de dominação e hierarquização para se fazer existir. Grosfoguel nos indica que o capitalismo se vale
de um conjunto de hierarquias enredadas que envolvem:
“1) uma hierarquia de classe, onde o capital domina e explora uma multiplicidade de formas de
trabalho (...); 2) uma divisão internacional do trabalho entre centros e periferias (...); 3) um
sistema inter-estatal global de organizações e instituições político-militares controlada pelos
homens europeus e institucionalizada em administrações coloniais; 4) uma hierarquia étnico/
racial global que privilegia os homens europeus sobre os povos não europeus; 5) uma hierarquia de gênero que privilegia os homens sobre as mulheres e o patriarcado europeu sobre
outras formas de relações de gênero; 6) uma hierarquia sexual que privilegia aos heterossexuais sobre os homossexuais e as lésbicas (...); 7) uma hierarquia espiritual que privilegia os
cristãos sobre as espiritualidades não cristãs ou não ocidentais (...); 8) uma hierarquia epistêmica
onde se privilegiam os conhecimentos ocidentais sobre as cosmologias e conhecimentos não
ocidentais, institucionalizados através do sistema global de universidades (os outros produzem
folclore, mitos, mas nunca teoria ou conhecimentos; 9) uma hierarquia lingüística entre línguas européias e línguas não européias, onde na produção de conhecimentos e na comunicação
se privilegia as primeiras e subalterniza as segundas como criadoras de folclore ou de culturas,
mas nunca de teoria ou de conhecimentos.” (2005, pg. 4, tradução própria)
Carlos Walter Porto-Gonçalves (2007) acrescentaria também a divisão e hierarquia
humanidade-natureza, que autoriza a apropriação destrutiva desta na busca incessante do
lucro, o que também impulsiona e organiza relações de dominação e exploração. Ressalte-
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se que não há, nesta abordagem, hierarquias entre as hierarquias. Uma não é mais importante do que a outra, uma não engloba a outra, a solução de uma não contém automaticamente a solução da outra – diferentemente do que algumas ideologias propõem, por exemplo, ao colocar que a hierarquia capital-trabalho “engloba” todas as outras, e que resolvendo-se esta, estarão resolvidas toda as outras relações de dominação, exploração e
hierarquização. Elas são todas imbricadas, e são diferencialmente sentidas/vividas/percebidas na experiência social de acordo com o lócus do indivíduo ou grupo.
Um homem/branco/europeu/heterossexual/anglófono terá uma experiência de capitalismo distinta de alguém que seja homem ou mulher, mas negro ou mestiço, africano ou
americano do sul, homossexual ou heterossexual, falante da língua do colonizador ou de
uma língua originária, e ambos terão uma experiência distinta de uma mulher, indígena ou
negra, brasileira ou boliviana, aymara ou baiana, praticante do candomblé, falante de
quéchua, etc. Dizer para estes não homens, não brancos, não europeus, não heterossexuais, não falantes de línguas do colonizador (e ainda também há hierarquias entre estas
línguas e dentro delas, pela dimensão regional!), que a única dominação constituinte do
capitalismo é a do capital sobre o trabalho é ignorar as vivências de poder que cotidianamente os oprime constituindo sua experiência.
O Capitalismo precisa de diferentes sistemas de dominação, exploração,
hierarquização, que funcionem como matrizes de conflitos e conflitualidades. Afinal, capitalistas precisam das disputas entre trabalhadores até mesmo para impor a sua ordem.
Que o digam os barões do agronegócio, de quem a expansão da fronteira agrícola se vale em
grande medida de conflitos entre posseiros e índios, quilombolas, ribeirinhos e outras populações tradicionais. Ou, mesmo, de conflitos entre estes próprios grupos. É o racismo, a
desqualificação cultural – “índios são preguiçosos”, “índios não trabalham, não produzem,
não precisam de tanta terra” -, a desqualificação de formas de relação com a natureza que
permitem estas conflitualidades cruciais para o capitalismo.
Não é apenas a relação capital-trabalho que explica as violências sofridas por estas
populações. Reduzir a isto é empobrecer a própria complexidade inerente ao sistema mundo capitalista, que é moderno-colonial (Grosfoguel prefere utilizar “Sistema-Mundo Europeu/euronorteamericano moderno/colonial capitalista/patriarcal”) e não tem estas outras
hierarquias como meros aditivos, mas sim, como elementos e instrumentos cruciais de
dominação e reprodução.
Esta crítica, que aponta a colonialidade como multiplicidade de eixos de poder, nos é
muito fecunda, pois ajuda a compreender a articulação entre os sistemas de dominação
inerentes ao capitalismo, raça e relações raciais, e as visões de mundo, de espaço-tempo
que compõem a geograficidade e a historicidade de indivíduos e grupos. Nos ajuda a pensar
como o ensino de Geografia (e, evidentemente, de História e das outras disciplinas também) é instrumento crucial para a reprodução das hierarquias apontadas, dentre as quais
a racial, ao reproduzir e difundir uma visão eurocentrada do mundo. Sendo um saber que
serve para indivíduos e grupos se posicionarem no mundo (nas múltiplas escalaridades das
relações vividas, percebidas e concebidas), ele é parte inerente aos sistemas de inculcação
de valores que orientam comportamentos, ações. Se vivemos numa sociedade, ou num mundo
ordenado racialmente, a Geografia deve atentar para isto, mas como? Discutiremos algumas notas, de caráter exploratório, na seção seguinte.
EUROCENTRISMO
NO ENSINO DE GEOGRAFIA
Discutimos, anteriormente, as formas como a raça e as relações raciais são princípios
de ordenamento do mundo, de poder, e como isto se reproduz sobre bases espaciais e de
leitura do espaço. Também vimos como estas relações são cruciais para a ordem atual, do
sistema mundo moderno/colonial capitalista. O objetivo foi trazer para a discussão o quanto leituras de mundo trabalhadas, difundidas e reproduzidas no (e, através do) ensino de
Geografia (além de outras disciplinas, é claro) tem papel crucial na reprodução desta ordem. Vale retomar sintetizando alguns pontos.
149
SANTOS, R. E.
ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
O ensino de Geografia é um dos principais veículos :
(i)
Da associação entre grupos raciais e regiões (geoculturais) de origem, que dá
esteio à permanência da idéia de raça4 enquanto reguladora de comportamentos, valores e
relações sociais, econômicas e de poder;
(ii)
Da divisão dicotômica do mundo (desde Ratzel) entre países desenvolvidos e
subdesenvolvidos – e, no meio deles, os países “em desenvolvimento”, o que (a) reforça a
idéia de uma evolução linear cujo futuro único do mundo é seguir o caminho dos chamados
“desenvolvidos”, e (b) confere poder nas relações sociais aos indivíduos e grupos cuja
historicidade, geograficidade e “corporeidade”5 são remetidos à herança e ligação com estes
países e povos ditos “desenvolvidos” e, portanto, superiores;
(iii) Da difusão da monocultura do tempo (espaço) linear, pela forma como se trabalha o papel da técnica como dimensão evolutiva, o que é feito com toda intensidade na
maneira como é trabalhado o conceito de paisagem, através da divisão entre “paisagens
naturais” e “paisagens humanizadas”, estas últimas sendo sempre (evolutivamente) a expressão dos avanços tecnológicos sobre a materialidade terrestre, o que conduz à compreensão de paisagens fruto de experiências simultâneas como sendo paisagens do passado,
paisagens do presente e paisagens do futuro;
(iv) Da separação entre humanidade e natureza, cristalizada na dualidade “Geografia Física” versus “Geografia Humana” – e nem a recente tendência de aproximação da
parte do ensino que trata da chamada “Geografia Física” de uma chamada “Educação
Ambiental”, que em alguns momentos tenta provocar um sentimento de proximidade entre
seres humanos e natureza é capaz de reverter esta separação que é estrutural e estruturante
do ensino da disciplina;
(v)
Da visão do mundo contemporâneo como sendo o transbordamento de processos econômicos, políticos, sociais, militares e culturais da Europa – o que aparece com toda
força na forma como se ensina sobre os outros continentes, cujos referenciais históricos e
espaciais de periodização e regionalização aparecem sempre como resultantes diretos dos
processos e interesses eurocentrados, portanto, como se não houvesse protagonismo neles;
(vi) Da difusão de uma visão tecnicista e cartesiana de mundo, p. ex., pela forma
como ensinamos Cartografia. De uma forma de representação espacial, ela é transformada
em única forma de expressão espacial do mundo, critério de verdade e de existências naturais e sociais, decorrente das possibilidades da racionalidade técnica subjacente ao processo de elaboração dos mapas - que são, melhor dizendo, limitados por esta racionalidade às
formas científico-ocidentais de ver o mundo, de expressar referenciais de espaço, de tempo
e das existências sociais. Esta forma como se trabalha e ensina a Cartografia Escolar dá
aos mapas oficiais um caráter de expressão da verdade que é poderoso instrumento de
poder através da produção de não existências de grupos sociais, conflitos, saberes, experiências e formas de relação com o mundo.
3
3
Falamos de tendências hegemônicas no Ensino de Geografia. Há, evidentemente, textos, professores, escolas e
experiências críticas que tentam romper com estes traços que estamos apontando aqui – algumas das quais
temos acompanhado em nosso grupo de pesquisa através do projeto “A Lei 10.639 e o Ensino de Geografia”.
Entretanto, registre-se que os próprios professores e coordenadores pedagógicos que acompanhamos revelam
suas dificuldades de romper com estes cânones.
4
Aqui falamos em sentido amplo, de permanência da idéia de raça no senso comum, no imaginário social, e
mesmo nas “sociologias espontâneas” e no “senso comum científico”, de que falam Bourdieu, Chamboredon e
Passeron (1999), englobando assim também visões de mundo que exercem influências sobre as próprias
investigações científicas sobre o mundo e sobre as relações raciais – aquilo que os autores denominam “prenoções”:
“(...) opiniões primeiras sobre os fatos sociais [que] apresentam-se como uma coletânea falsamente sistematizada
de julgamentos com uso alternativo. (...) ‘representações esquemáticas e sumárias’ que são ‘formadas pela prática
e para ela’, retiram sua evidência e ‘autoridade’, como observa Durkheim, das funções sociais que desempenham.”
(p. 23-24). Estas povoam os discursos de agentes distintos, que ocupam posições diversas em relação à problemática
em questão, e se apresentam com diferentes acúmulos de reflexão.
5
É importante a menção à corpo-política e à ego-política do conhecimento, de que falam Frantz Fanon e Gloria
Anzaldua (apud Grosfoguel, 2005, 2006).
150
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Todas estas dimensões do Ensino de Geografia contribuem para a construção de
referenciais de leitura do mundo que conferem poder a indivíduos e grupos nas múltiplas
interações e relações. Têm papel crucial nas relações raciais, no racismo e nas desigualdades raciais que se constroem e aparecem no plano das interações cotidianas entre indivíduos e grupos (ver Sansone, 1996), na construção da lógica e comportamento de instituições
(ver Bento, 2002), na definição do acesso aos bens materiais e simbólicos da sociedade (ver
Hintzen, 2007, e Paixão, 2003). Sustentam, também, a naturalização das práticas que configuram o racismo e as suas conseqüências sociais – sobretudo, as chamadas desigualdades
raciais -, com os quais aprendemos e acostumamos a viver e conviver. No caso brasileiro,
esta construção de leituras que naturalizam as práticas cotidianas do racismo em nossas
leituras do social está inclusive, na base de um dos pilares ideológicos da ideia de nação,
através do chamado “mito da democracia racial” (Guimarães, 1999). Leituras criticando as
porosidades desta pretensa democracia racial – indicando, por exemplo, a existência de
desigualdades raciais -, já começam a aparecer em livros didáticos, mas ainda é comum os
capítulos (ou melhor, quase sempre, o subcapítulo) que aborda a formação do povo brasileiro atentar para a diversidade de origens dos brancos e menos dos negros e dos índios. Mais
do que isto, nossas pesquisas vêm indicando que as imagens dos grupos raciais não são em
nada democráticas6.
Alterna
tivas ao eurocentrismo
Alternativas
Para mudar estas diretrizes e contemplar a Lei 10.639, combatendo o eurocentramento
do currículo do Ensino de Geografia, e buscando a desconstrução das narrativas que
estruturam as leituras de totalidade-mundo, tornam-se necessárias revisões conceituais,
o de conteú
dos
revisões de estruturas, enfim: inserção de conteúdos mas também a revisã
revisão
conteúdos
dos,
conforme indicamos anteriormente. Neste sentido, ao longo do ano de 2008, fizemos esforços para a construção de um temário
temário, um conjunto de assuntos que são ou não trabalhados
nas aulas de Geografia, e que acreditamos que podem contribuir nesta tarefa de
descolonização do Ensino desta disciplina. No âmbito das atividades do projeto “A Lei 10.639
e o Ensino de Geografia”, desde o ano de 2008 temos reuniões mensais com um grupo de 5
professores da 5ª à 8ª série (ou, do 6º ao 9º ano) analisando seu currículo praticado, sua
estrutura, seus temas, metodologias, materiais utilizados, seus enfrentamentos cotidianos, etc. A partir deste diálogo e do acompanhamento de suas práticas – e, a partir disto,
dialogando diretamente com o currículo praticado nas aulas de Geografia e, secundariamente, com os programas curriculares oficiais dos PCNs - elencamos seis conjuntos temáticos
num primeiro exercício:
(i) O debate raça & modernidade
modernidade, que aponta como a raça é um princípio regulador
de relações sociais fundamental para a afirmação do capitalismo a partir do século XIX,
permitindo a estruturação de sistemas de dominação em escala internacional e intercontinental (o eurocentramento do mundo), e intranacional e no cotidiano das relações sociais e
sócio-espaciais - a dominação dos brancos, ou, eurodescendentes, que se reproduz ao redor
de todo o mundo (Quijano, 2007; Hintzen, 2007) e a hierarquização racial da força de trabalho permitindo ao capital aumentar as taxas de exploração de grupos raciais discriminados
e também dos aparentemente favorecidos. Tentamos aqui introduzir também a ideia de
uma leitura de totalidade de um sistema-mundo-moderno-colonial, defendida (ou,
construída) por Wallerstein (1991), Quijano (2000, 2005, 2007), Mingolo (2003, 2004) e Porto-Gonçalves (2005, 2007), entre outros.
(ii) O ensino sobre a África
África, marcado hoje pela influência das narrativas
eurocentradas. Os marcos estruturantes do que se fala sobre a África (a colonização, a
“partilha”, a descolonização, os conflitos pós-independência como expressão da disputa entre blocos capitalista e socialista, entre outros) são quase todos remetidos ao contato com a
Europa – o mesmo se aplica às Américas e à Ásia, quando a recíproca não é verdadeira: a
6
Ver Santos (2008).
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SANTOS, R. E.
ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
colonização só é definidora do que são os continentes periféricos, mas o papel dela para as
revoluções industriais, econômicas, sociais e políticas na Europa não é abordada. Esta narrativa é, na verdade, fruto de um conjunto de “generalizações e simplificações que pretendem ‘encaixar’ a África no esquema desenvolvido para explicar linearmente o progresso
civilizacional do Ocidente” (Meneses, 2008, p. 7-8). Omissões, distorções, ausências, fabricações e estereótipos constroem uma narrativa sobre a África onde ela aparece como um
continente desistoricizado e desgeografizado – as referências tanto de periodização quanto
de organização espacial são todas exógenas7. Desconstruir e reconstruir a ideia de totalidade-mundo e fazer o mesmo para a África é, portanto, um exercício fundamental. Como
seria uma periodização e regionalização da África que tomasse como ponto de partida a sua
dinâmica anterior às chamadas “Grandes Navegações”? A África é retratada no ensino
sempre através de seus aspectos pejorativos, tragédias sociais, associação a estereótipos
degradantes (primitivismo, p.ex.), enfim, uma abordagem que referencia num quadro social adverso de África o quadro de inserção social subalternizado e inferiorizado dos descendentes de africanos na experiência da diáspora.
Livros didáticos de Geografia apresentam narrativas sobre a África que se iniciam
pelo quadro natural e, em seguida, para falar dos processos históricos do continente africano, passam diretamente ao século XVI com a construção das rotas de comércio EuropaOriente e o tráfico negreiro. Daí, novo salto é dado até o estabelecimento de administrações
coloniais européias na África, no século XIX, seguido da descolonização no século XX e
algumas realidades atuais sempre socialmente catastróficas. O salto entre a instauração
do tráfico negreiro e o processo de colonização do século XIX acaba sendo, às vezes, justificado pela natureza: o relevo acidentado (as escarpas que dão acesso do litoral ao planalto
africano), a vegetação e outros elementos naturais (como, p. ex., a selvageria dos animais!)
explicam por que o europeu demorou a “conseguir penetrar” na África. Nenhuma menção é
feita a povos, reinos, comerciantes, grupos de poder estabelecidos, com interesses próprios
e com uma geopolítica ou circuitos internos ao continente africano que interferissem na
possibilidade de “penetração” dos europeus entre os séculos XVI e XIX. O papel do fim do
tráfico transatlântico enfraquecendo povos, reinos, comerciantes e grupos de poder africanos consolidados por esta inserção em circuitos comerciais intercontinentais é algo distante. E, dentro do processo de colonização africana, as resistências jamais são mencionadas –
nem o emblemático caso da Etiópia, notabilizado no período do reinado de Hailé Selassié
pela resistência às invasões italianas. O único fator a imprimir resistência à “penetração”
européia é a natureza.
O processo de descolonização é apresentado como uma troca de comandantes de regimes de exceção: da opressão colonial pelos brancos europeus à opressão por ditadores negros africanos, nada muda, nem sequer as linhas de fronteiras, herança colonial que define, na verdade, fragmentações de povos e a união (desastrosa) de etnias em estados nacionais apresentados como (eternamente) sem identidade. O movimento intelectual de construção de um pensamento pós-colonial a partir destes processos de independência, jamais
é mencionado.
As articulações e formulações políticas de lideranças do processo de independência,
berço do Pan-Africanismo, do terceiro-mundismo, utilizando o cenário de disputa da Guerra Fria para se fortalecer, são mostradas ao inverso: a África é que aparece relatada como
transformada em cenário da disputa entre EUA e URSS. Toda a riqueza política e teórica
que forma lideranças como Frantz Fanon, Aimé Césaire, Léopold Senghor e Amílcar Cabral,
entre outros, é apagada, pois as menções feitas são a ditadores como Mobutu (Zaire), Idi
Amin Dada (Uganda), Mugabe (Zimbábwe), entre outros, criações das elites (locais e européias) que lutam para transformar o derrubado colonialismo em colonialidade.
Ensinar sobre as lutas é ensinar a lutar. Ensinar apenas sobre as ditaduras póscoloniais da África, ignorando os processos políticos e intelectuais que articularam africanos e afrodescendentes na diáspora no século XX contribui para a reprodução do racismo
7
Meneses (idem, p. 4) aponta que “As mudanças introduzidas pela história moderna produziram a localização do
sujeito africano num espaço exterior ao desenvolvimento universal”.
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enquanto sistema de dominação mundial. Que leitura sobre as relações raciais teríamos se
nosso ensino mostrasse a importância do Pan-Africanismo, das idéias de líderes
afrodescendentes como W.E.B. Du Bois, Marcus Garvey e o movimento “Volta a África”, sua
influência nos processos de independência na África e mesmo na criação da Organização da
Unidade Africana, em 1963, por Hailé Selassie, imperador da Etiópia? Qual seria a visão
de África se o ensino mostrasse as articulações do Pan Africanismo, sua abrangência no
espaço e no tempo? Falar de uma articulação é falar de relações espaciais, redes
socioespaciais, pontos de vista e de enunciação a partir de lócus distintos e com direções
distintas. Falar do Pan Africanismo é falar das relações políticas de África, Caribe, Europa,
Américas; é mudar o foco do protagonismo no próprio processo de descolonização africana,
que é visto/apresentado como sendo um movimento apenas de relação entre África e Europa - de “saída” das forças coloniais européias dos territórios africanos -, e não um processo
marcado por fortes ligações entre lideranças de África e da diáspora africana.
Esta leitura nos leva a repensar não apenas a imagem que temos sobre a África, mas
sobre as construções políticas no mundo inteiro. A Geografia do século XX não é apenas a
Geo-grafia8 da disputa entre Capitalismo e Socialismo, da afirmação de um modelo de industrialização que instaura centros e periferias - Primeiro, Segundo e Terceiro Mundos -,
ela é também a Geo-grafia de diversas redes políticas - nacionais, internacionais, intercontinentais – de luta contra diversas formas de dominação. Centrar o ensino/aprendizagem
nas lutas é forma de construir outras visões de mundo, voltadas para a transformação.
Desconstruir e reconstruir a idéia de totalidade-mundo e fazer o mesmo para a África é,
portanto, um exercício fundamental.
(iii) Branqueamento da População & Branqueamento do T
erritório - No programa
Território
de Geografia Escolar da 6ª série/7º ano, quase sempre dedicado à Geografia do Brasil, um
dos pontos de conteúdo é a formação do povo brasileiro. Este ponto aparece em quase todos
os livros didáticos, ressaltando a composição racial da população brasileira, suas origens
(européias, africanas e autóctone; alguns falam também de asiáticos) e contribuições culturais dos diferentes grupos que compõem nossa população.
Apesar de falar quase sempre da composição racial de nossa população, normalmente, o que se ensina em Geografia (e, também, em História), não problematiza as relações
raciais na formação do Brasil. Algumas coleções de livros didáticos de Geografia, mais
recentemente, vêm incorporando informações sobre desigualdades raciais, falando sobre
racismo e seus impactos, mas, ao falar disso, não abordam o fato de que as relações raciais
são historicamente um dos pilares ideológicos da idéia de nação no Brasil. Encontra-se até
mesmo em alguns volumes a menção e a crítica à idéia da “Democracia Racial”, mas raramente se aponta sua importância na construção de projetos de país – na verdade, importância da forma como se estruturam as relações raciais. Antes da independência do Brasil
isto já era uma questão posta, que se acentua ao longo do século XIX e ganha centralidade
até hoje, estando nas bases dos projetos e idéias de nação.
O ensino de Geografia não aborda a existência, até praticamente a metade do século
XX, de um projeto de branqueamento da população, que foi levado a cabo através de várias
estratégias, diferenciadas no espaço e no tempo: imigração, utilização de não brancos em
pelotões de guerra (muitas vezes, desarmados!), miscigenação, assimilação e desaculturação,
extermínio através de conflitos violentos, enfim, um leque variado de formas de branquear
a população (Skidmore, 1976). Observe-se que, se estamos falando da construção da nação,
a própria Geografia (enquanto ciência e enquanto narrativa) tem papéis na estruturação
deste projeto.
O ideário de superioridade racial, étnica, cultural, econômica – em suma, civilizacional
-, era um dos pilares da Geografia Ratzeliana, e teve influências fortes também no Brasil.
Se atualmente os livros não utilizam mais tal abordagem, também não podemos afirmar
que ajudam a promover a igualdade racial – o que é bem explorado por Tonini (2002).
8
Tomamos aqui de empréstimo a expressão “geo-grafia”, de Carlos Walter Porto-Gonçalves, que assinala que a
“geografia” também diz respeito ao ato de grafar a terra. Ao transmutar o significado da geografia de descrição
(substantivo) a ato (verbo), ele nos indica configurações associadas diretamente a protagonistas, fenômenos ou
processos, que criam geo-grafias particulares.
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ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
Deixar de falar de superioridade racial, dentro de um contexto de fim da política de branqueamento, não nos parece suficiente para a promoção de uma educação para a igualdade.
Defendemos aqui que esta política, central para a construção do ideário de nação no país,
deve ser objeto de problematização, deve ser trabalhada no ensino de Geografia – não
apenas a política, mas sua dimensão espacial, o que pode revelar o quanto suas conseqüências são atuais e estão grafadas nas dimensões concreta e simbólica do território e das
regiões brasileiras.
A política de branqueamento foi praticada em diversas regiões do mundo, como
aprofundamento da colonização e da colonialidade eurocentradoras. Em cada contexto –
lugar, país ou região -, ela cumpriu funções distintas, e a partir dela foram construídos
distintos padrões de relações raciais. Qualquer comparação, por exemplo, entre o Brasil,
Uruguai, Argentina, ou países andinos da América do Sul, revelará peculiaridades em meio
a similitudes. Paradoxos não faltam – um exemplo é o da miscigenação e da mestiçagem,
fatos biológicos, mas, acima de tudo, sociais e culturais que se definem a cada contexto.
Países onde o projeto de branqueamento logrou êxito relativo maior, como a Argentina e
mesmo o Uruguai, têm expressões culturais originalmente negras entre as suas principais
– p. ex., o tango e o candombe, respectivamente. Este paradoxo na verdade nos indica que
a política de branqueamento da população merece ser compreendida, em realidade, como
uma política de branqueamento do território
território. Isto envolve, como propomos aqui, três dimensões:
a. branqueamento da ocupação do território - que indica a multiplicidade de interesses que entrelaçam o branqueamento às dimensões econômica e geopolítica de gestão do
território. O debate que nos traz Carlos Vainer (1990), ao mostrar que o destino dos imigrantes se alternava entre a diretriz econômica de fornecer “braços para a lavoura” mais
dinâmica e crescente – no final do século XIX e início do século XX, as plantações de café,
principalmente em São Paulo – e a diretriz geopolítica de ocupação de “espaços vazios”, na
verdade, áreas de fronteira de ocupação, alargando a área de controle do Estado e de
hegemonia da civilização ocidental. “Fronteiras Externas” (p. ex, região Sul), “fronteiras
internas” da ocupação (p. ex, o Espírito Santo, mas antes, áreas como Nova Friburgo, no
Rio de Janeiro), configuraram “espaços vazios”, a serem “preenchidos” com imigrantes.
Muitos destes eram áreas em que havia uma ocupação por não brancos, como nos
exemplificam Gioconda Lozada (com o caso de Nova Friburgo, onde havia quilombolas) e
Maurício Selau (com o caso do sul catarinense, onde a imigração se deu, entre outras, em
área dos índios Xokleng). Em ambos os casos, fica evidente que o branqueamento da população era, ao mesmo tempo, o branqueamento da ocupação do território, contra a ameaça
representada pela ocupação não branca;
b. branqueamento da imagem do território – as áreas que passaram pelo processo
de branqueamento da ocupação têm suas histórias, quase sempre, contadas a partir da
chegada dos imigrantes, que são normalmente denominados “colonos” – e, nunca, “colonizadores”. Este artifício discursivo é instrumento de ocultação do conflito como um elemento
do processo de formação dos territórios, e permite a constituição de narrativas que monopolizam a historicidade dos territórios reduzindo-a a chegada do branco – o território aparece, nesta narrativa, como sendo fruto exclusivo dos processos detonados a partir da chegada dos imigrantes, primeiro passo para o branqueamento da imagem do território. A
eliminação da presença de outros grupos enquanto protagonistas dos processos históricos
tem impactos fundamentais sobre a constituição de pertencimentos de indivíduos e grupos
com o território, o que está na própria base da função da Geografia enquanto saber escolar:
eles pertencem ao território e o território lhes pertence. Pertencem ao território – por exemplo, por nascerem nele; “somos do Brasil, somos brasileiros” -, e o território lhes pertence –
“nosso país, nossa pátria e nossa terra”. Este duplo sentido de pertencimento localiza indivíduos e grupos em relações de poder, na definição dos projetos de sociedade que são também, na verdade, projetos de território. Isto faz o branqueamento da imagem do território
um instrumento de exclusão, hierarquização e subalternização social; e
c. branqueamento cultural do território – que diz respeito à construção da primazia
de matrizes, signos e símbolos culturais que constituem e identificam territórios, lugares e
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regiões. É o que aparece no ensino de Geografia quando se fala em “humanização da paisagem”. O maior exemplo é a forma como se trabalha a região sul do Brasil, em que todos os
livros didáticos são enfáticos em mostrar a arquitetura européia (principalmente alemã),
que é normalmente exemplo quando aborda os temas “Paisagem” e “Formação do povo
brasileiro”. A presença e as contribuições indígena e negra são ocultadas destas narrativas.
(iv) As Comunidades Remanescentes de Quilombos – que são, hoje, milhares catalogadas em quase todos os estados do país (Sanzio, 2007). Elas são marcas espaciais
(rugosidades, no dizer de Milton Santos) das resistências dos negros à escravidão, portanto, uma geo-grafia de lutas históricas que ressignificam o que é ser descendente de escravos. Com efeito, a primeira inversão que a promoção e valorização social que o reconhecimento do direito aos remanescentes de quilombo faz é combater a tese – ainda hoje bastante difundida - de que o negro foi escravizado porque se adaptou à escravidão, diferentemente do indígena. Esta tese, que é repetida continuamente no ensino, às vezes afirma que o
índio não se adaptava às condições de trabalho na escravidão (quantidade, intensidade,
ritmo); às vezes aponta que o índio não se acostumava às violências imanentes à escravidão; às vezes aponta que o índio, por ser autóctone do território e, portanto, conhecê-lo,
fugia. Em oposição, esta tese apregoa que o negro se adaptava ao trabalho excedente e
forçado; se adaptava às violências da escravidão; e, não fugia, por isso sua viabilidade no
sistema escravocrata. Ou seja, o negro não resistia à escravidão, é a conclusão automática.
As consequências desta tese na construção de subjetividades, visões de si e do outro, ao
apregoar que o negro se adapta a toda ordem de sofrimentos, são infinitas. Ela legitima e
autoriza violências de ordem psicológica e física no cotidiano escolar e nas relações sociais,
e presta forte contribuição à naturalização e banalização do racismo, da discriminação e
seus impactos.
O reconhecimento de milhares de comunidades remanescentes de quilombos derruba esta tese da adaptação e não resistência dos negros à escravidão. Sempre lembrando
que a quilombagem é apenas mais uma dentre diversas formas de resistência dos negros à
escravidão, a constituição de mapas mostrando a distribuição espacial destes remanescentes pelo território mostra que a resistência é algo presente onde quer que tenha havido
senhores e escravos. E temos que lembrar que estas são remanescentes, o que leva a crer
que durante a vigência das relações escravistas, havia muito mais quilombos. O mapa das
comunidades remanescentes de quilombos, então, é um registro de marcas espaciais
(rugosidades, no dizer de Milton Santos) das resistências dos negros à escravidão, portanricas dos negros – na verdade, rugosidades que atualizam
históricas
to, uma geo-grafia de lutas histó
o passado, muitas vezes esquecido e negado, no espaço presente. São a marca também de
que a luta pela terra hoje tem um componente racial radical (Fernandes et al, 2007).
Acrescente-se a isso o fato de que muitas destas lutas (assim com lutas de indígenas,
ribeirinhos, seringueiros, povos da floresta, entre outras chamadas “populações tradicionais”) não são apenas lutas pela terra, mas lutas por territórios (Arruti, 1999, 2002), o que
envolve a preservação de suas práticas, saberes, heranças culturais, história, formas de
relação com a natureza, enfim, uma complexidade de anseios que configura uma resistência (ou, ao menos, uma tentativa de controle e ressignificação) ao avanço do meio técnicocientifico-informacional de que nos fala Milton Santos, e uma resistência frontal ao
epistemicídio promovido pela onda da modernização eurocêntrica.
(v) As “Experiências de Espaço” de diferentes indivíduos e grupos
grupos, debate que diz
respeito a como a vivência do cotidiano de cada um é influenciada por uma organização
espacial das relações raciais: há contextos (temporal e espacialmente organizados) em que
o dado racial é um elemento mobilizador, como regulador das relações sociais e “contextos
de interação” (Goffman, 1975) onde esse dado não é relevante – ambos podem se dar no
mesmo “cenário” em momentos distintos, ou em distintos cenários ao mesmo tempo. Sansone
(1996) nos fala de “áreas moles” e “áreas duras” das relações raciais, contextos organizados
no espaço e no tempo em que a raça é ou não importante nas relações sociais. Isso impacta
as experiências de espaço, o ir-e-vir, na medida em que indivíduos e grupos subalternizados
causarão, em determinados contextos, sentimentos de espanto, estranhamento e até mesmo repulsa – contextos e lugares onde sua presença é indesejada. Depoimento colhido em
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ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
entrevista que já realizamos com uma das professoras que integram nosso grupo apontou
trabalhar isto com os alunos no momento em que ela discute o conceito de “fronteira”: ela
fala de “fronteiras visíveis” e “fronteiras invisíveis”, sendo estas últimas exatamente aquelas que se impõem através constrangimentos a indivíduos e grupos indesejados em lugares
e contextos determinados. É mais um desafio para a aula de Geografia.
(vi) Toponímia / Marcas Históricas da Presença Negra - A toponímia, definição dos
nomes dos lugares, é algo que normalmente está presente no ensino de Geografia das séries iniciais do Ensino Fundamental. É comum aprender sobre o nome do lugar em que se
vive, sua formação e sua história. Chamamos aqui a atenção para a necessidade de politização
e “desbranqueamento” desta discussão, em diversos contextos.
Aprender a toponímia é aprender sobre a história do território, é algo que informa
sobre a construção do território e, portanto, é elemento constitutivo das narrativas que
elaboram nossos sentimentos de pertencimento em relação a ele. É neste sentido que atentamos aqui para toponímias indígenas e negras como marcas históricas apagadas da construção e formação do nosso território, fruto de narrativas de território “branqueadas”. Dar
nome, nomear, representar, está na base da criação do mundo – é o primeiro ato de poder
sobre o mundo, o poder de representar, que nos informa Bourdieu (1989). São as “(...) lutas
das classificações, lutas pelo monopólio de fazer ver e fazer crer, de dar a conhecer e de
fazer reconhecer, de impor a definição legítima das divisões do mundo social e, por este
meio, de fazer e de desfazer grupos.” (p. 113)
A toponímia revela, portanto, relações de apropriação dos lugares, apropriação que é
reconhecida por quem legitima e reproduz os nomes que são expressão desta apropriação.
Ela é expressão da existência de disputas pela apropriação, portanto, de relações sociais de
poder – relações que conformam a história do território, as histórias dos lugares. Saber
quem nomeou um território ou um lugar é saber quem se apropriou dele, quem disputou e
definiu os critérios do “dentro” e “fora” do lugar, quem disputou a definição dos seus limites.
Em resumo, quem construiu em algum momento a história do território ou do lugar. Esta
reflexão nos leva a pensar as toponímias do território brasileiro, e confrontá-las às narrativas que aprendemos e apreendemos de nossa história, bem como confrontá-las às imagens
de espaço e de sua constituição histórica que fazemos. Nos leva a repensar, por exemplo, o
mito do “descobrimento do Brasil”, em 1500, pelos portugueses, como o marco inicial da
história do nosso território. Afinal, quantos nomes de lugares, quantas toponímias temos
de origem indígena, anterior a 1500? Albuquerque Jr. reflete sobre isto e nos provoca ao
levantar que
“ (...) como diz Michel de Certeau, intelectual francês do século passado, nomear é uma das
primeiras formas que o homem desenvolveu de demarcar e tomar posse de um território, de
dominá-lo, de colonizá-lo. Nomear é dar sentido, é também demarcar diferenças em relação
aos territórios vizinhos, é estabelecer fronteiras. Ao chegar às costas brasileiras, uma das
primeiras preocupações dos portugueses foi dar um nome para a terra recém-encontrada.
Embora o nome cristão e católico que escolheram, Terra de Santa Cruz, não tenha conseguido
se sobrepor ao nome vulgar, o de terra do Brasil, do pau-brasil, madeira que foi a base da
primeira atividade econômica de exploração colonial deste território, a colonização, a dominação, a posse portuguesa se inicia por este ato de nomeação.” (Albuquerque Jr., 2007, p. 8-9)
Este embate é o mesmo que Porto-Gonçalves indica hoje para o que o Ocidente nomeou América, depois de chamar de Índias Ocidentais. Alguns povos autóctones (nomeados pelos Europeus de Indígenas...) nomeavam Abya Yala, denominação que hoje movimentos indígenas vêm retomando. Mas, é na escala do local que a toponímia mais revela
sobre os ocultamentos históricos. Mesmo falando-se (pouco) de “América pré-colombiana”,
aprendemos que nosso marco zero histórico é a chegada dos europeus. Entretanto, na maioria dos lugares, a toponímia é, fortemente, indígena. Como compreender que a história é
contada mostrando um processo civilizatório do europeu sobre os “primitivos” indígenas,
quando os nomes dos lugares guardam marcas de uma apropriação indígena? Chamamos
aqui também a atenção para topônimos relacionados aos negros. Nomes de lugares que
remetem a lutas dos negros; nomes que revelam uma presença histórica negra; e nomes
que remetem a africanidades, também marcas da presença negra. Bernardo Mançano
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Fernandes, estudioso do Movimento dos Sem Terra (MST), ao lançar um olhar sobre
toponímias de assentamentos do movimento, identificou em 19 estados assentamentos cujo
nome se remete à memória do Quilombo dos Palmares. A lista, que ele publicou em Fernandes
(2007, p. 152-153), traz nomes como Zumbi dos Palmares, Quilombo, Dandara, Palmares,
entre outros. Um olhar mais aguçado sobre topônimos dos 1.451 assentamentos que ele
observou, certamente revelaria uma quantidade muito maior de nomes relacionados às
lutas dos negros, sua presença e africanidades. O autor comenta:
Nos mapas verificamos a presença desses assentamentos que carregam consigo a marca dessa
história de resistência da população negra no país, desde o período colonial brasileiro. Esse
levantamento dos assentamentos, elaborado pelo projeto do NERA, denota que a luta pela
terra no Brasil, segundo o imaginário, a cultura e a consciência política transmitida entre os
membros e militantes do MST, remonta ao Quilombo dos Palmares que tem como figura ímpar
neste processo a figura de Zumbi dos Palmares. Essas denominações são significativas, na
medida em que demonstram uma consciência social e uma identidade política com o movimento palmarino do Século XVII.” (p. 152)
O fato de encontrar assentamentos em 19 estados, e em estados onde a presença
negra é apagada do imaginário e da memória coletiva, como Paraná e Santa Catarina
(neste, no município de Fraiburgo, área de colonização alemã, há um assentamento com o
nome de Dandara), nos leva refletir sobre história e consciência social, como Fernandes nos
aponta. Por todo o país encontramos topônimos que revelam a presença negra, remetem às
suas lutas ou a africanidades. Em municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro,
encontramos bairros como Cubango (Niterói), Colubandê, Mutondo e Monjolos (São Gonçalo), nomes que são também de regiões ou cidades na África – ou seja, são marcas de
africanidades na toponímia.
***
Enumeramos aqui apenas alguns ensaios que já iniciamos na construção de um
temário onde deve incidir a inserção e revisão de conteúdos para atender à Lei 10.639.
Muito ainda há para ser discutido, desvendado, proposto, testado, construído, para o pleno
atendimento ao propósito de construção de uma educação para a igualdade racial, e um
ensino de Geografia que não hierarquize o mundo para legitimar a hierarquização de indivíduos e grupos neste mundo é tarefa ainda longa.
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SANTOS, R. E.
160
ENSINO DE GEOGRAFIA E CURRÍCULO...
VÍDEOS,
RESISTÊNCIAS E
GEOGRAFIAS
MENORES
LINGUAGENS E
MANEIRAS
CONTEMPORÂNEAS DE
RESISTIR
VIDEOS,
RESIST
ANCES
RESISTANCES
AND MINOR
GEOGRAPHIES
LANGUAGES AND
Y WAYS
CONTEMPORARY
CONTEMPORAR
OF RESISTING
VIDEOS,
RESISTENCIAS Y
GEOGRAFÍAS
MENORES
LENGUAJES Y FORMAS
CONTEMPORÁNEAS DE
LA RESISTENCIA
Resumo
Resumo: Ensaio escrito a partir de apontamentos acerca da
interface entre resistência e linguagens no contexto da geografia
contemporânea. A ideia de resistência é tomada no sentido de criação
de possíveis modos outros de existir. O texto se divide em três
movimentos: resistências realizadas como subversão à própria
linguagem; resistências na linguagem do vídeo, tomadas como
criação audiovisual, digital ou online; resistências em vídeo-filmes
que inventam geografias menores. São trazidos para compor o texto
muitos autores de escritos e imagens, destacando-se entre eles as
ideias de Gilles Deleuze e Félix Guattari, sobretudo a de minoridade,
e as obras de Lot Amorós, com destaque para o vídeo Cartografando
Gaza. Entrecruzados a eles há poetas das palavras e das imagens,
pensadores dos mais diversos campos do conhecimento que tocaram
as questões da política, da linguagem e do espaço geográfico. Ao
final, o texto cria mais linhas de fuga que sugere certezas.
Palavras-chave
Palavras-chave: Linguagem, vídeo, resistência, geografia menor,
Gaza
Abstract
Abstract: This essay is written from notes about the interface
between resistance and languages in the context of contemporary
geography. The idea of resistance is taken in the sense of creation
of other possible ways of existing. The text is divided into three
movements: resistances as subversion of the language itself;
resistances in the language of the video, taken as audiovisual,
digital or online creation; resistances in video-film that assemble
minor geographies. Many authors’ writings and images are brought
together in order to compose the text, among them, in particular,
the ideas of Gilles Deleuze and Felix Guattari, especially the concept
of minority, and the works of Lot Amorós, especially the video
Cartographing Gaza. Intertwined, there are poets of words and
images, thinkers from various fields of knowledge who have
addressed the issues of politics, language and geographical space.
In conclusion, the text creates more lines of flight than it suggests
certainty.
Key-words
Key-words: Language, video, resistance, minor geography, Gaza
WENCESLAO MACHADO
DE OLIVEIRA JR
OLHO
FACULDADE DE EDUUNICAMP
CAÇÃO/UNICAMP
Resumen
Resumen: Ensayo escrito a partir de notas sobre la conexión entre
resistencia y lenguajes en el contexto de la geografía contemporánea.
La idea de la resistencia es asumida como la creación de otras formas
posibles de existir. El texto se divide en tres movimientos:
resistencias materializadas en la subversión de la propia lengua;
resistencias en el lenguaje del video, tomado como la creación
audiovisual, digital y online; resistencias en video-cine que crean
geografías menores. Son llamados para componer este texto muchos
autores de escritos e imágenes, principalmente Gilles Deleuze y
Félix Guattari, de los cuales tomo la idea de minoridad; así mismo,
tomo aspectos de las obras de Lot Amorós, especialmente el video
Cartografiando Gaza. Entrecruzadas con ellos, están poetas de
palabras e imágenes, pensadores de diversos campos del
conocimiento, que tocan temas de la política, de la lengua y del
espacio geográfico. Entre tanto, el texto crea más líneas de fuga
que certezas.
Palabras-clave: Lenguaje, vídeo, resistencia, geografía menor, Gaza
Terra Livre
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 161-176 Jan-Jun/2010
161
OLIVEIRA JR, W, M.
VÍDEOS, RESISRÊNCIAS R GEOGRAFIAS MENORES...
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Manoel de Barros
Há muitas maneiras de resistir. Há muitas maneiras de gestar resistências, de ser
resistente. De maneira geral, pensamos que há tantas maneiras de resistir quantas forem
as forças que tomamos como contrárias, seja porque elas nos impedem de realizar algo, seja
porque elas nos obrigam a realizar algo.
No entanto, pensar desta maneira geral, nos leva a pensar que resistir é sempre
resistir a algo já existente e este “resistir a algo nos remete a uma relação bipolar de
contraposição direta, termo a termo. Já passamos por esse tempo de criar movimentos de
oposição direta ao Estado, para tomar o Estado, inclusive, tomar o seu lugar”. (Aspis, 2010,
p.9) “Poderíamos dizer que buscamos uma ação política de resistência hoje que fosse uma
ação de recriação, aquilo que poderíamos chamar de resistência afirmativa, aquela que
cria” (idem, p.10) no embate mesmo entre as forças que, para além de se oporem, se capturam e se imiscuem umas nas outras. Resistir tomado como “re-existir, insistir em existir,
conjurar a formação do Estado no pensamento, tornar o pensamento uma máquina de
guerra”. (idem, p.11)
Assumo aqui a “resistência como constante movimento de afirmar a vida que nos
está sendo constantemente subtraída”. (idem, p.11) Vida tomada como aquilo que prolifera
em diferenças de si própria, cada diferença reafirmado a própria vida em sua proliferação.
É esta vida proliferadora que nos está sendo subtraída pelas formas prontas de pensar e
viver oferecidas pelo Estado, pelos capitalistas e demais donos dos poderes dispersos atuais
– televisão, escola, ciência...) como pacotes fechados de modos de subjetivar-se, direcionados
modos de pensar, modelados modos de agir, enfim, empacotados modos de existir.
Neste ensaio, portanto, mobilizado por conceitos de Gilles Deleuze e Félix Guattari,
acima traduzidos nas palavras de Renata Lima Aspis, quero apontar a resistência como
criação, como potência na gestação e experimentação de outras maneiras de existir. Portanto, o foco não será nas maneiras com que lutamos, com e através das linguagens, contra
algo, mas sim a favor de algo. Em outras palavras, estarei deslocado da relação que fazemos entre resistir e negar, uma vez que estarei focado na relação entre as ações de resistir
e proliferar. Resistência assim pensada é toda ação que faz proliferar outras formas de
viver, outras formas de pensar, para além e aquém daquelas formas que já temos vivido e
pensado. Por isto, resistência aqui estará fortemente ligada à ideia de versão ou mesmo de
sub-versão, estando estas duas palavras associadas diretamente à política como ficção e à
poética como verso versado antes submerso na língua.
1. PRIMEIRO MOVIMENTO:
RESISTÊNCIAS NO INTERIOR MESMO DAS LINGUA-
GENS
Inicio esta parte do texto trazendo a negação da ideia de representação como uma
maneira de resistir no sentido que destaquei acima. Digo isto porque ao tomarmos as imagens ou outras grafias quaisquer como sendo representações de algo que não elas mesmas,
estamos evitando lidar com, no mínimo, duas questões que nos fariam mobilizar o pensamento, fazê-lo proliferar vida. Busco aqui dizer que 1) tanto as linguagens nas quais as
obras são elaboradas/grafadas 2) quanto o movimento do desejo nas pessoas que elaboram
estas obras agem no deslocamento da ideia/forma inicial para outro lugar, para uma obra
que é antes uma apresentação de algo e alguém naquela forma final com que a obra se
apresenta ao mundo – com que a obra ganhou existência pública –, do que representação
da ideia inicial ou da realidade captada na imagem. A realidade da obra é sobretudo a
realidade da imagem como produto humano e de suas linguagens, não a do conteúdo impresso ou descrito na obra (mapa, filme, vídeo, texto escrito...).
162
Terra Livre - n. 34 (1): 161-176, 2010
Além disto, toda obra elaborada numa dada linguagem é também a fala daquela
linguagem (uma poesia é a fala da literatura, da língua escrita; um mapa é a fala da linguagem cartográfica; um filme é a fala da linguagem audiovisual), uma vez que as linguagens
têm histórias próprias que lhes dão certa autonomia em relação aos seus “usuários”, os
quais são submetidos a elas – aos seus códigos, aos seus lugares culturais de entendimento
e valorização. Por isto é que podemos dizer, com Arthur Omar (1997), que ao escolher uma
linguagem para dar existência a uma obra qualquer – seja um artigo científico, seja um
mapa, seja um filme ou uma história em quadrinhos –, estamos escolhendo aquela linguagem que tem maior potência de agir na parte da cultura e da sociedade onde visamos atuar,
onde visamos que nossa obra seja acolhida e referendada.
Mas para realizar esta obra podemos nos submeter aos cânones desta linguagem ou
podemos alterá-los na medida mesma que forçarmos esta linguagem a dizer aquilo que ela
se nega a dizer. Pier Paolo Pasolini (1982) chamava cinema de poesia todo filme, todo exercício cinematográfico que buscava ir além dos códigos já estabelecidos pela linguagem cinematográfica. E aqui temos um primeiro tipo de resistência no interior da linguagem, que é
a resistência de não se submeter àquilo que Roland Barthes (2007) diz ser o maior risco em
relação às línguas: o que elas nos obrigam a dizer. Notar que não é uma resistência ao que
a língua nos impede de dizer, mas àquilo que ela nos obriga a dizer para podermos nos
utilizar dela para dar existência a alguma obra.
Como exemplo desta resistência poderia citar aqui os muitos filmes de Pasolini, mas
quero trazer um exemplo da língua escrita e para isto me valho de um escrito do Livro do
desassossego de Fernando Pessoa, que, ao final de um poema, no qual conversa com a
língua portuguesa em sua obrigatoriedade de concordância de gênero masculino e feminino, assim escreve: “eu direi, «aquela rapaz», violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de género, como de número, entre a voz substantiva e a adjectiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da
chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.” (2006, p.19) Ou seja,
justo no momento em que ele não se submeteu à língua ele não mais falou somente (pois
quando falamos é também a língua que fala em nossas palavras) ele, neste momento, disse,
assumiu o controle da língua e a fez dizer o que ele desejava. E também neste exato momento ele fez com que a língua proliferasse a si mesma, fazendo proliferar pensamentos
outros sobre o existir daquela rapaz. Resistir ao falar da língua em nós é justamente alcançar subvertê-la, fazê-la versar versões diferentes de pensar, de viver, enfim fazê-la poesia,
como diria Bachelard (1972), em relação à língua escrita, ou Pasolini (1982), em relação ao
cinema.
É importante notar que a resistência aqui não está no conteúdo do poema, mas sim
no próprio poema, ou seja, nos elementos da língua que se apresentam no e como poema.
Isto distingue esta forma de resistência apontada por Pessoa da que realiza os poemas de
Brecht, onde a resistência se dá no conteúdo revelado no poema dentro dos parâmetros da
língua. A resistência implicada na poesia de Brecht está fortemente ligada em fazer a língua falar de temas antes nunca ditos em forma de poema. O que também é outra forma de
proliferação, outra forma de resistir na poesia, no seio dela mesma.
O que chamei de resistência no poema de Fernando Pessoa tem forte proximidade
com aquilo que Deleuze e Guattari (2003) denominaram como literatura menor em relação
à obra de Franz Kafka. Uma das características salientadas por eles nos escritos do autor
theco é sua utilização da língua alemã fora dos padrões de uso comum desta língua, realizando assim uma ação revolucionária no interior mesmo da língua alemã ao estabelecer
um embate com ela própria, fazendo estirar seus limites, fazendo delirar os sentidos de
suas palavras e de sua gramática, levando-a a proliferar-se a si mesma.
Outro tipo de resistência, que pode ser entendida como uma continuidade da apresentada acima, seria aquela que se nega a tomar uma dada linguagem como sendo aquela
que necessariamente melhor diz de um tipo de conhecimento. Este me parece ser o caso da
geografia e sua histórica aproximação com os mapas e demais obras da linguagem
cartográfica, tomando-a como a melhor linguagem para expor o espaço geográfico, para dar
163
OLIVEIRA JR, W, M.
VÍDEOS, RESISRÊNCIAS R GEOGRAFIAS MENORES...
visibilidade e inteligibilidade a ele .
No meu entender assumir a premissa de que o mapa é a melhor maneira de apresentar o espaço geográfico é uma redução das nossas próprias possibilidades de entender o que
vem a ser o espaço geográfico no mundo contemporâneo. Falo aqui apenas do mapa tomado
como obra produzida dentro das regras – da gramática – da linguagem cartográfica clássica, que seria mais ou menos aquilo que aprendemos na escola e em muitos cursos de graduação em geografia em termos de unificação do olhar a partir de um único foco de projeção,
uma única legenda, uma única escala, uma única forma de localização, uma única referência – as fronteiras estabelecidas pela forma Estado sobre o planeta. Não vou me deter nisto
aqui2.
Para este texto o importante é salientar que assumir a perspectiva canonizada entre
uma grande parte da comunidade dos geógrafos (e que se espalha para uma grande parte
da sociedade por meio do ensino de geografia escolarizado), de que o mapa nos dá a visão do
que é o espaço, sendo ele, o mapa, a representação fidedigna do espaço geográfico, praticamente impede que o mapa seja tido como uma versão deste espaço, como uma obra da
linguagem cartográfica e de uma ou mais pessoais que operaram com esta linguagem para
dar a existência a uma obra que visa dizer do espaço.
Quando e se o mapa passa a ser tomado como algo mais amplo que isto, ou seja, para
além das fronteiras da linguagem clássica da cartografia ocidental, abrindo-se a outras
perspectivas de pensar e grafar o espaço – tal como fizeram inúmeros cartógrafos e geógrafos
que seguiram o caminho de Harley (1991) – temos implementada uma resistência também
no interior desta linguagem e das tecnologias a ela associadas, uma vez que todas as obras
que grafam o pensamento espacial podem ser entendidas como sendo um mapa, e este, por
sua vez, pode ser entendido como uma versão do espaço/mundo e não como o próprio espaço/mundo manifestado em forma cartográfica.
Creio que um dos melhores exemplos disto é o que temos chamado de cartografia
social, desenvolvida por muitos grupos sociais (acadêmicos ou não) em vários países da
América Latina e no Brasil, capitaneados pelo grupo sediado na Universidade Federal do
Amazonas.
Mais radical ainda em relação ao deslocamento do mapa (e das linguagens a ele
vinculadas) de seu lugar habitual me parece ser o que vem fazendo diversos grupos de
pesquisadores e ativistas sociais que expandiram a noção de mapa a partir do conceito de
rizoma, cunhado e desenvolvido por Félix Guattari e Gilles Deleuze. Aproximado do conceito de rizoma, o mapa tem proliferado em muitos escritos e se tornado mais potente como
forma de criar outras maneiras de existir, outras maneiras de pensar. Há muitos coletivos
que atualmente vêm realizando trabalhos, acadêmicos ou não, nesta perspectiva, inclusive
no Brasil. Em especial reconheço o trabalho e as obras cartográficas desenvolvidas pelo
grupo em torno do site www.hackictectura.net, no qual estão envolvidos desde acadêmicos
como José Perez de Lama quanto uma multiplicidade de artistas e ativistas sociais que
visam produzir mapas que alterem nossa relação com as fronteiras atualmente constituídas, notadamente a fronteira entre ricos e pobres, em especial a que se manifesta mais
fortemente no litoral mediterrâneo da costa espanhola. Estas fronteiras, a que se dizer, são
entendidas não somente em suas marcas territoriais, mas também em suas marcas simbólicas3.
Trago a vocês, como mote para a próxima parte deste texto e como exemplo dos trabalhos desenvolvidos por estes coletivos que se organizam em torno de hackictectura.net, o
vídeo Cartografando Gaza (disponível em: http://vimeo.com/7196063). Ele é obra de um
artista, Lot Amorós, com fortes ligações com este grupo. A partir deste vídeo quero chegar
1
1
Uma das intenções deste ensaio é pautar a linguagem videográfica com potente para nos apresentar versões do
espaço geográfico contemporâneo. Explorarei isto nos itens 2 e 3.
2
Sobre este assunto ver artigo de minha autoria Apontamentos sobre a educação visual dos mapas: a (des)natureza
da idéia de representação.
3
Sobre as atividades desenvolvidas por hackitectura.net ver artigo de José Perez de Lama La avispa y la orquídea
hacen mapa en el seno de un rizoma Cartografía y máquinas, releyendo a Deleuze y Guattari.
164
Terra Livre - n. 34 (1): 161-176, 2010
na proposição central deste texto que é a potência da linguagem videográfica nos dias atuais, notadamente quando aglutina numa única obra 1. as estruturas narrativas audiovisuais,
2. os amálgamas de linguagens diversas advindos da digitalidade e 3. a veiculação massiva
proveniente da disponibilização online na internet.
Além disto, neste vídeo penso ficar mais claro a impossibilidade de se falar em linguagem sem falar em tecnologia, uma vez que elas se imbricam radicalmente nos tempos
contemporâneos.
2.
SEGUNDO MOVIMENTO: RESISTÊNCIA A PARTIR DA LINGUAGEM DO VÍDEO
No contexto de escrita deste texto, o de lidar com as formas de resistência, penso que
os escritos sobre o vídeo Cartografando Gaza deveriam ser como um conto ou uma crônica
ou mesmo uma poesia, de modo que o dizer acerca do vídeo chegasse aos leitores como um
personagem conhecendo a Faixa de Gaza através do que o vídeo apresenta desta região. A
resistência estaria em fazer do texto científico-acadêmico literatura, resistindo assim aos
cânones postos entre nós, criando, por assim dizer, proliferações de pensamentos acerca de
Gaza que um texto mais ajustado ao formato científico-acadêmico não teria potencialidade
de realizar em cada um de nós, deste público ao qual ele se destina.
No entanto, desisti da empreitada por absoluta falta de tempo para realizá-la de
modo que também as potências dos três eixos da linguagem videográfica que quero destacar aqui – audiovisual, digital e online – pudessem ser tratadas e percebidas com
tranquilidade.
Deixo ao leitor a proposta de que realize este experiência no contato mesmo com as
imagens e sons do vídeo Cartografando Gaza.
Antes de me dedicar ao vídeo já referido, quero salientar que no livro As extremidades do vídeo, de Christine Mello (2008), há indicações das imensas potencialidades da linguagem videográfica – o vídeo como devir do cinema e da televisão – tanto de produção de
imagens, sons e sensações como de inserção em lugares diversos de escalas variadas. Ali a
autora nos leva a conhecer as múltiplas capturas que o contexto de produção artística
brasileira das últimas décadas fez do vídeo e também as múltiplas contaminações que a
linguagem videográfica e suas tecnologias tiveram deste contexto artístico, muitas vezes
profundamente sintonizado com o contexto político de lutas sociais e territoriais.
Para ficar em apenas uma das características destacadas por Christine Mello, trago
para este ensaio uma das potencialidades para a expansão/aparição do vídeo em pontos
extremos da sociedade: sua, digamos, discrição em relação a outros meios de produção
audiovisual, devido à leveza e tamanho reduzido dos equipamentos necessários tanto para
a captura das imagens quanto para a sua veiculação/disponibilização em telas ou outros
suportes. Além disto, os softwares de edição não linear são de uso cada vez mais corriqueiro
e cotidiano nos computadores pessoais. Não que esta familiaridade tenha levado necessariamente à criação de obras em vídeo que possam alçar à condição de arte, mas certamente
esta familiaridade nos levou a uma alteração do lugar cultural que tanto os equipamentos
de produção videográfica quanto as imagens e sons por eles criados passaram a ter nos
grupos sociais onde eles e elas fazem parte do cotidiano das relações sociais, a ponto de não
serem mais notados ou destacados do fluxo rotineiro da vida. Justamente este apagamento, esta sombra que se projeta sobre os equipamentos e imagens potencialmente produtoras de obras videográficas é um dos seus principais adensadores de poder, principalmente
quando associado ao sentido de realismo que estas obras ganham por serem pensadas como
tendo sido captadas sem intervenção alguma no deslizamento rotineiro do que está sendo
apresentado em suas imagens e sons. O real injetado de ficção. O real como política da
ficção (Pellejero, 2008). Realidades ficcionadas (Oliveira Jr, 2000).
No entanto, do ponto de vista da resistência criativa, é exatamente quando um vídeo
se desloca deste lugar de realismo e naturalidade audiovisual que sua potência aumenta,
uma vez que é aí que seu criador pode lançar mão deste sentido cultural já dado sem se
submeter a ele, fazendo-o oscilar ao se utilizar do realismo projetado pela verossimilhança
e confiabilidade do instrumento de captura das imagens e sons para configurar uma versão
165
OLIVEIRA JR, W, M.
VÍDEOS, RESISRÊNCIAS R GEOGRAFIAS MENORES...
do mundo que se utiliza das estruturas audiovisuais provenientes da ficção cinematográfica e televisiva como captura e identificação do espectador.
Vamos nos aproximar de Gaza pelas mãos e imagens de Lot Amorós, ao mesmo tempo que destacarei cada um dos três eixos já citados que compõem, juntos, a potência do
vídeo como resistência no mundo contemporâneo.
2.1.
O vídeo como obra audiovisual
O vídeo Cartografando Gaza tem sua narrativa organizada em torno de uma ideia
central: colapso. Assistimos, portanto, ao colapso sendo narrado. O enredo é dado pela palavra collapse que circula sobre o globo/círculo que centraliza a tela, e é este colapso que é
narrado, a partir de Gaza, em linguagem audiovisual, numa obra penetrada por outras
obras em diversas linguagens.
Alinhavado pela estrutura narrativa audiovisual, que nos captura com inúmeros
elementos de identificação, os apenas 10 minutos deste vídeo adensam uma enorme quantidade de informações e emoções que nos afetam com intensidade, tendo grande potência
para nos fazer tomar partido no conflito entre Israel e palestinos, que é o pano de fundo
político e social sobre o qual deslizam as imagens e sons do vídeo. Tomar partido aqui é
entendido como mobilizar o pensamento (que é também sentimento) na direção de algo,
que pode ser tanto a injustiça abstrata à qual estão submetidas as populações cercadas
territorialmente, quanto a dor concreta à que está submetida a garotinha que nos fala em
tom irritado e triste de suas limitações na forma de existir pelo simples fato de morar (ter
nascido) em Gaza.
A identificação, portanto, pode ser tributária de algo que remete para a macropolítica
das relações entre Estados ou povos ou algo que remete para a micropolítica dos processos
de subjetivação das pessoas ou ainda, como deseja o vídeo, pode ser tributária de ambas as
identificações, o que potencializa muito a intensidade de engajamento de cada um que for
capturado pela narrativa do colapso em Gaza.
O vídeo, em seu devir audiovisual, tem maior potência porque nos chega como narrativa plena de afeto, não nos chega nunca como um mero relato objetivo, ainda que conserve
sob suas imagens e sons algo da sensação de objetividade e neutralidade trazida para diante de nós pela verossimilhança com as experiências visíveis e audíveis cotidianas. Somos
afetados pelo desfile de exemplos visuais humanos (Pasolini, 1982) que ali se apresentam
conjugados às sonoridades – músicas, silêncios, ruídos etc – que envolvem e intensificam
estes exemplos em sentidos amalgamados em sequências normalmente curtas. Estas, por
sua vez, adensam em torno de poucas imagens e sons todo um contexto social, todo um
pensamento.
Além disto, o vídeo se apóia naquilo que podemos chamar de universalidade da leitura audiovisual, muito marcada no cinema mudo e bem exemplificada na sequência que
finaliza Cartografando Gaza e centraliza o trecho dedicado ao colapso social. Nesta parte
uma menina fala sem parar, ao mesmo tempo que vai mostrando objetos e cômodos bastante degradados de sua casa. Não precisamos entender as palavras ditas por ela em árabe,
pois é o tom com que elas são ditas aliado aos gestos e expressões faciais dela que nos
afetam de maneira mais intensa, que nos encaminham os sentidos mais fortes de identificação com esta criança indignada. A escolha de uma criança como pessoa-personagem da
última aparição e da última fala do vídeo não é um acaso: os sofrimentos impingidos a
crianças têm maior potência para gerar indignação nos adultos. O autor-artista-militante
do vídeo sabia disto e também certamente sabe que a última imagem de uma obra audiovisual
tem força adicional, pois o sentido que nela pulsa – que dela brota em nós – se dobra sobre
todas as demais imagens e sons anteriores (Almeida, 1994).
É neste ponto que as imagens audiovisuais, como linguagem compreensível por grande
parte das pessoas, torna-se mais potente que o inglês para aglutinar desejos, engajamentos
e ações dispersas pelo planeta. Entendemos muito do que nos é apresentado num vídeo ou
filme sem que tenhamos que entender o que está sendo dito ou escrito nas legendas. O tom
de voz da menina, aglutinado às suas expressões e ao cenário apresentado pelas imagens
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(somado ao contexto de colapso em que fomos colocados pelas imagens anteriores do vídeo),
é suficiente para que saibamos ela estar reclamando de uma condição de vida ruim. Não é
preciso nem saber árabe para entender as palavras ouvidas e nem espanhol ou inglês para
ler a tradução disponibilizada nas legendas. O entendimento, aquilo que nos leva a pensarsentir algo em relação ao que está nos sendo apresentado por esta obra, se dá num amálgama
de pensamento e sensações que nos leva a saber se estamos do lado dela ou não, se nos
indignamos com a situação de vida que ela nos expõe ou se isto nos é indiferente ou mesmo
banal. Quanto mais nos indignarmos, tanto mais agiremos (no pensamento, inclusive) para
alterar a situação de vida desta criança, ou seja, tanto mais resistiremos à naturalização da
vida como tem sido imposta por Israel aos palestinos de Gaza.
Ainda que as imagens visuais sejam mais notadas e sejam tomadas como o eixo da
estrutura audiovisual, os sons e palavras – imagens sonoras – são parte indissociável dos
sentidos atribuídos às imagens visuais e às obras tomadas em seu conjunto. O alinhavo das
imagens (e mesmo seu entendimento) muitas vezes se dá na medida mesma em que se
inserem sons (músicas, barulhos, ruídos diversos, silêncios, palavras explicativas) que vão
configurando os sentidos e significados das imagens visuais (Oliveira Jr, 2000). O vídeo
Cartografando Gaza inicia-se com aquele tipo de chiado que nos remete ao som de uma
transmissão de rádio ou de tevê sendo sintonizada, e ouvimos ao longo dele, em meio à
musicalidade que cruza muitas de suas sequências, alguém a dizer “..., from Gaza (fulano,
de Gaza)”. Com isto o vídeo ganha um de seus sentidos mais fortes, o de alguém se comunicando, com dificuldade, a partir de Gaza.
Este alinhavo de sons e imagens se dá sem que nos apercebamos porque a “naturalidade” do produto audiovisual é ser sonoro. Assim ele se configurou como obra cultural e
assim toda obra audiovisual se nos aparece. Quando são por demais silenciosas, nos parecem estranhas, tediosas, improváveis, falaciosas. Não que o sejam mais que as outras, mas
assim nos parecem, e não porque nos apresentam o real de maneira improvável e falaciosa,
mas sim porque a forma como o está apresentando está fora do parâmetro que temos para
assisti-la.
Por fim, a potência das narrativas audiovisuais está também no fato de podermos
tomar cada imagem ao mesmo tempo como única/singular – daquela menina, daquele lugar – e generalizante/conceitual – de qualquer menina, de qualquer lugar no qual possamos encontrar características semelhantes as que estão configurando aquela narrativa.
Isto faz com que as diversas escalas em que a vida se faz existente convirjam e adensem-se
nas obras audiovisuais, configurando maneiras de afetar os espectadores com maior intensidade. Assistindo a vídeos, filmes, novelas somos, a um só tempo, íntimos e espectadores
externos aos personagens e seus cenários – lugares onde vivem, relações que estabelecem.
A potência audiovisual atualmente se torna ainda maior quando temos a possibilidade de criar com muito mais facilidade uma obra híbrida em formato digital. O exemplo da
obra Cartografando Gaza nos faz notar este hibridismo em relação à linguagem cartográfica
– cartografia tomada como criação de rizomas. Isto traz para esta obra a potência de resistência de fazer proliferar a ideia de mapa na direção de outras formas de visualidade, para
outras formas de organização do pensamento em formas visuais, uma vez que este vídeo
nos dá o mapa do colapso a partir do exemplo de Gaza.
2.2.
O vídeo como obra digital
Notemos o que escreveu Lot Amorós sobre sua obra:
“Este trabajo recoge un catálogo de mapas, software y vídeos coordinados de forma
narrativa usando tecnologías avanzadas de descripción del espacio (GIS, Software, Modelado 3D) mostrando aspectos que no serían evidentes en una primera lectura. Pueden ser
extrapolados a territorios y contextos de paz sujetos a tensiones y transformaciones en que
la arquitectura y el urbanismo tengan una importancia relevante.” (disponível em: http://
vimeo.com/7196063)
Apesar de Amorós apontar para a coordenação narrativa – ou seja, baseada numa
estrutura audiovisual de narrar com imagens e sons editados em sequência – é em grande
167
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VÍDEOS, RESISRÊNCIAS R GEOGRAFIAS MENORES...
medida a digitalidade que permite o amálgama entre obras em várias linguagens e
tecnologias.
Para melhor exemplificar isto, notemos que em Cartografando Gaza há, no trecho
dedicado ao colapso de auto-gestão, uma sequência de imagens em vídeo que nos mostra
homens perfurando paredes, percorrendo um túnel estreito, entrando e saindo de buracos
no chão. Destaco esta parte do vídeo porque penso estar nela o momento onde se adensa
com mais nitidez como a invenção de maneiras de existir inusitadas e intensas são configuradas na relação travada com o espaço pelos habitantes de Gaza. A produção de intervenções no espaço (figurada no vídeo pela construção do túnel) e a imaginação/execução de
outras configurações territoriais são tomadas por mim como marcas da produção de vida,
sendo estas ações espaciais a manifestação local mais forte da vida que resiste ao criar
maneiras de se proliferar, maneiras de permanecer no mundo não mais igual ao que já era,
mas diferente, diversa, delirante... num túnel que nos remete ao que Alice caiu para chegar
ao País das Maravilhas.
No vídeo, a imagem que antecede à sequência citada nos mostra uma fotografia aérea na qual é decalcada uma área branca que nos apresenta um lugar chamado Rafah, que
por sua vez é dividido por uma linha amarela, a indicar uma fronteira. De um lado dela
está (escrito) o Egito, do outro a Palestina. Só então, várias linhas cruzam esta fronteira a
indicar percursos ou caminhos. Em seguida, já em formato de vídeo, a imagem nos mostra
uma construção e uma torre. Após esta imagem é que veremos a sequência do túnel. Nela,
sobre as imagens capturadas por uma câmera de vídeo, veremos uma espécie de gráfico em
perfil de um túnel que passa sob a fronteira das duas Rafah, abaixo da superfície o suficiente para que os instrumentos de detecção do exército de Israel não registrem os movimentos
daqueles que por ali passam. Sob o gráfico, vemos imagens de pessoas a andar por um
túnel. A junção dos dois tipos de imagens é feita no espectador, num amálgama complexo
alinhavado pelas palavras lidas e ouvidas, mas também pela associação das duas formas
visuais que nos mostram uma mesma forma espacial em duas linguagens distintas: vídeo e
gráfica.
A sequência se finaliza quando um homem é puxado para dentro de uma casa egípcia. Em seguida, ao som da mesma música, voltamos ao globo/círculo giratório que irá nos
levar ao colapso econômico. A sobreposição e a edição sequencial de imagens de diferentes
linguagens realiza aquilo que se tem chamado de convergência digital.
Esta convergência pode ser notada com muita intensidade nos trechos que se seguem ao colapso econômico, dedicados aos colapsos de circulação, temporal e bélico. Em
todos eles há fortes hibridizações das linguagens e tecnologias, com sobreposições e
paralelismos de imagens em várias linguagens. Em grande medida, esta hibridização,
sobreposição e paralelismo entre as múltiplas linguagens e imagens foram possíveis devido
à digitalidade do suporte em que estas imagens e sequências foram produzidas ou editadas. É na superfície da tela digital que a convergência se dá.
Henrique Parra (2009) nos alerta para a profunda alteração no regime de visibilidade implicada na digitalidade da imagem. Por exemplo, quando temos a criação de imagens
de síntese estas se colocam fora do âmbito da representação e indiciabilidade, coisas estas
típicas do regime anterior, apoiado em imagens analógicas, provenientes principalmente
da fotografia e do cinema-televisão. No regime indicial-analógico de visibilidade, no qual
vivemos desde o século XIX até muito recentemente, a fotografia e o cinema – depois a
televisão e o vídeo – se prestaram a produzir “estudos, documentos, registros com força de
‘verdade’” (Parra, 2009, p. 129) que, devido ao seu funcionamento ‘automático’, forneciam
“o elemento indicial para a prova científica” (idem, ibidem).
O digital, com a co-presença mais radical e indistinta entre as imagens analógicas e
as de síntese, provoca uma ruptura na relação de contiguidade com o real existente nas
imagens provenientes das tecnologias e linguagens pré-digitalidade (indiciais), configurando nos tempos atuais um conflito interpretativo intenso, uma vez que as interpretações
das obras digitais se dão na tensão mesma entre os dois regimes de visibilidade que se
entrecruzam nelas, pois, por uma lado, na maioria das vezes ainda “lidamos com uma
cultura visual herdeira da tradição indicial” (idem, p. 271) e por outro
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“paradoxalmente, ao mesmo tempo em que a imagem em suporte digital permite colocar por
terra o fundamento indicial da imagem técnica [fotografia, cinema], ela produz efeitos de ‘realidade’ em outras bases, a saber: a captura do movimento, o cruzamento de informações dispersas, a produção de bases de dados e sua gestão para o estabelecimento de padrões. (idem, p.
272)
É por isto talvez que podemos dizer que o digital apaga as fronteiras entre as linguagens e obras em vídeo e cinema. O primeiro seria mais vinculado ao novo regime digital e o
segundo ao antigo regime indicial-analógico. Como exemplo deste apagamento de fronteiras, Inês Gil (2006) nos aponta a presença e a potência do digital na superfície do cinema
contemporâneo. Apenas para se ter uma ideia breve do que esta autora nos sugere, pois não
há intenção aqui de adentrar nas complexidades da linguagem cinematográfica (audiovisual)
que ela nos traz, cito passagens que apontam potencialidades e limites do digital:
“A técnica digital permitiu filmar [A arca russa] em continuidade durante uma hora e meia e
sobretudo em SteadyCam, o que teria sido impossível para um operador de câmara analógica
tradicional. A fluidez do movimento ao longo do filme mergulha o espectador num universo
quase onírico. É talvez aqui que se encontra uma das verdadeiras transfigurações do cinema.”
(p. 3)
“O cinema digital, tem uma vertente espacial de superfície (ruído, pixelização) e não de profundidade porque a sua deterioração situa-se na própria matéria digital (a substituição de píxeis
por outros píxeis). Existe um mecanismo interno à superfície da imagem digital que, por natureza, não lhe permite atingir a profundidade do tempo da imagem analógica”. (p. 6)
“A verdadeira transfiguração cinematográfica da realidade encontra-se muito além do processo digital que antecipa a percepção do real em vez de o apresentar.” (p. 8)
De qualquer modo, mesmo sabendo das limitações da digitalidade para uma radical
mudança na linguagem cinematográfica, há uma forte aposta no digital como agende
transfigurador de outras dimensões do mundo contemporâneo, como a do design. Inspirada em Sílvio Gallo (2008), quando distingue o grande estrategista da educação maior do
pequeno militante da educação menor, Fernanda Pestana agrupa os dois agentes apontados por Gallo ao escrever que, na criação de obras pelo design,
“o recurso digital pode ser um grande estrategista, o pequeno ‘faz tudo’ do dia-a-dia, cavando
seus buracos, minando espaços, oferecendo resistências’ pois ativa um lado criativo, um lado
artístico, que propicia liberdade para uma expressão que não se restringe às convenções, às
oposições entre real-ficção, verdadeiro-falso”. (Pestana, 2010, p.3)
As conexões com a tese de Henrique Parra citada acima são muitas, sobretudo quando aponta as mudanças e permanências ocorrendo numa mesma obra, impedindo assim
que as regulações sociais e de poder de definição do que deve ser considerado documento,
verdade ou realidade se interponham sobre ela da mesma forma que antes, quando ainda
estávamos sob o regime analógico de visibilidade. Por isto é que o uso do digital na criação
artística ou mercadológica do design pode vir a ser mais um lugar onde as resistências
podem se configurar.
Retomando para dar continuidade, no plano das linguagens podemos supor que o
audiovisual tem um forte poder de resistência atual por alcançar com grande potência de
identificação (afetação) o maior número de pessoas dispersas pelo planeta. Isto é importante quando as decisões são tomadas pela maioria, dentro do espírito democrático; mas é
ainda mais importante quando se descortina que as mais fortes resistências à política imposta pela visão de mundo globalizado e globalizante (restritiva de qualquer singularidade) têm se dado nos coletivos que se auto-organizam em função de engajamentos, muitas
vezes momentâneos, de cada parte – grupos e pessoas – deste coletivo.
Ora, se as obras audiovisuais – potencializadas pela convergência digital em suas
obras – têm grande potência de afetar as pessoas, de levá-las a certos engajamentos, é certo
que a criação, a organização e a continuidade das ações políticas vinculadas a estes
engajamentos são cada vez mais possíveis devido às redes sociais criadas e/ou potencializadas
no ciberespaço, onde estas obras audiovisuais são disponibilizadas e divulgadas em formato digital. Elas podem visar a contaminação do pensamento de mais e mais gente, se estive-
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VÍDEOS, RESISRÊNCIAS R GEOGRAFIAS MENORES...
rem vinculadas a uma ação que busca afetar a maioria da população; ou podem também
buscar contaminar o pensamento de somente um certo tipo de pessoas, se sua ação for
voltada a um coletivo pequeno, ainda que poderoso em sua multiplicidade e agilidade de
ações possíveis.
2.3.
O vídeo como obra online
Na mesma tese citada acima, Henrique Parra (2009) nos alerta que
“a imagem digital, no contexto de vigilância [das sociedades de controle], dirige-se
prioritariamente para o estudo do comportamento da multidão, objetivando estabelecer padrões no tempo presente, mas apontando para a possibilidade de ações no ‘futuro’” (p. 134)
Isto se dá, em grande medida, por conta da simultaneidade do registro e transmissão
das imagens captadas pelas câmeras digitais distribuídas pelos mais diversos lugares, desde estradas e esquinas, até lojas e estações de metrô, bem como entradas de condomínios
ou mesmo celulares conectados a redes de transmissão em tempo real, ao vivo, online.
Seguindo com este mesmo autor, dizemos que “a imagem fotográfica ou videográfica
digital [...] quando combinadas às redes de comunicação em tempo real vira um importante
recurso para a produção de informações, contribuindo para o estudo dos fluxos e para a
construção de perfis” (idem, p. 138) uma vez que “ela permite associar um determinado
padrão de comportamento a uma manifestação visual” (idem, ibidem), participando ativamente daquilo que é central na chamada sociedade do controle (aquela que vem substituindo passo a passo a chamada sociedade disciplinar), a saber: o estabelecimento de padrões
de comportamento facilmente identificáveis, os quais permitem o controle mais efetivo da
multidão. Aliás, mais que o controle das ações da multidão no presente, o controle das
possíveis ações desta multidão (e de cada um de seus indivíduos) em qualquer futuro. Enfim, um grande programa de direcionamento e, porque não dizer, confinamento das pessoas em certos modos de agir, pensar, viver.
Ainda que a grande parte das imagens em vídeo que temos dispersas pelas organizações sociais contemporâneas, notadamente as ligadas ao Estado e às demais formas de
poder instituído, tenham o sentido de controle salientado nos parágrafos acima, há também diversas experiências de utilização de obras em vídeo ou de imagens videográficas
captadas e/ou transmitidas online que resistem a este controle e buscam proliferar pensamentos outros acerca do mundo.
O site Fé en el caos (http://mcm.feenelcaos.org/), redigido e alimentado por Lot Amorós,
pode nos servir de exemplo para esta afirmação. Ele abre com a expressão em inglês, Massive
Comprehension Machine, que é seguida logo abaixo da frase em espanhol, “una interfaz
audiovisual para cartografiar los medios de comunicación del conflicto palestino-israelí”.
Esta “máquina de compreensão massiva” é uma estrutura online que se apresenta como
“un dispositivo audiovisual de navegación simultánea en dos redes semánticas generadas
en tiempo real que se enfrentan a un mismo concepto: el conflicto palestino-israelí, pero
abordado desde dos visiones opuestas: los medios de comunicación que operan a un lado y
otro de la frontera”. E em seguida se fazem perguntas, “¿Pueden las redes semánticas
cartografiar el pensamiento? ¿Pueden revelar estructuras que reflejen la forma de ver el
mundo?”, ao mesmo tempo que afirmam que este dispositivo-site de participação ativa
“permite la investigación entre las subjetividades e imaginarios de uno y otro bando para,
también desde la subjetividad del visitante, enfrentarse a la complejidad de uno de los
mayores conflictos heredados del siglo XX”.
Mais abaixo, no ítem “¿Por qué cartografiar los medios?”, lemos:
“Al mismo tiempo que se lleva a cabo la guerra por los recursos, como el territorio o el agua,
aparece una nueva batalla mucho más compleja y de difícil representación: la guerra del
pensamiento. Al cartografiar los medios, cartografiamos el conocimiento de miles de personas
que parten de esa información para construir su modelo del mundo, de manera indirecta estamos
cartografiando el pensamiento humano. El escenario de batalla de esta nueva guerra se lleva
a cabo en un escenario muy concreto: el cerebro humano de cada individuo que se posiciona
frente al conflicto.”
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Ao final da página de abertura do referido site está disponibilizado o vídeo
Cartografando Gaza, em definição menor que aquela encontrada no link indicado anteriormente.
O que lemos nas palavras e perguntas de Amorós é a aposta na interface virtual da
internet para agir politicamente no pensamento, para capturar os pensamentos acerca do
conflito – o conflito de pensamentos – em seu próprio movimento de configurar-se no contato com as mídias diversas, o próprio site sendo uma delas, inclusive. Tempo real e simultaneidade são as armas desta ação política de descortinar não só o que se pensa dos dois lados
da fronteira, mas também de que maneira os meios de comunicação de massa atuam nestas maneiras de pensar. E mais, ao estar online, este vídeo tem potencialmente uma escala
mundial de sua ação de engajamento e captura, uma vez que, como foi apontado anteriormente, a linguagem audiovisual não necessita de compreensão linguística completa para
ter seu entendimento configurado no espectador.
Finalizo esta parte destacando que cada obra veiculada em meios massivos de informação agrupa em torno de si um potencial de convencimento para a versão de mundo na
qual ela se engaja, uma vez que ela participa da educação visual da memória (Almeida,
1999; Oliveira Jr, 2009, 2010) a que estamos submetidos pela cada vez mais intensa convivência com as imagens em nossas sociedades contemporâneas.
3.
A
CRIAÇÃO DE VÍDEO-GEOGRAFIAS MENORES COMO RESISTÊNCIA
Uma das grandes potencialidades de um vídeo acerca de um lugar específico, como
este da Faixa de Gaza, é a de fazer notar a todos as singularidades que compõem o espaço
daquele lugar. Seguindo Doreen Massey (2008) em sua perspectiva de politizar o pensamento sobre o espaço, vídeos como este fazem notar as diferentes trajetórias que configuram cada lugar, além de apresentá-las como trajetórias em aberto, em constante devir,
vinculadas e desvinculadas a um só tempo do contexto global atual. Em outras palavras,
vídeos como este têm alta potencialidade de resistir à visão acerca do espaço como superfície sobre a qual se dispõem os objetos, fenômenos e processos geográficos, visão esta muito
utilizada para configurar a perspectiva de que vivemos, neste período de globalização, uma
só e única história de desenvolvimento rumo a um destino comum. Gaza aparece neste
vídeo como um espaço/lugar singular, cujas singularidades o tornam vítima do autoritarismo
tributário do medo israelense, muito apoiado na difusão massiva feita pela grande mídia
americana da visão redutora da associação entre ativismo político árabe e terrorismo.
Mas estas mesmas singularidades tornam Gaza um espaço/lugar de resistências várias ao modelo de globalização e paz que busca se colocar como único possível a todos os
lugares e sociedades.
Escavando túneis, fazendo trocas alternativas dos meios de sobrevivência, lidando
com o caos como potencialmente proliferador de formas de existir singulares, os palestinos
apresentados no vídeo nos dão exemplos de outras formas de vida, as quais nos dão a ver
facetas da vida que eles levam por lá. Mas também podem nos trazer pensamentos acerca
do que vem a ser a vida humana em qualquer parte do planeta, a nossa própria vida, a vida
na vizinhança, a vida no trabalho. Também podem nos trazer pensamentos acerca do que
vem a ser um espaço/lugar colapsado pela opressão de um vizinho mais forte e com medo.
Ao fazer proliferar em nós estes e outros pensamentos, já citados ao longo deste
ensaio, acerca do espaço geográfico e da vida que nele prolifera, esse vídeo nos dá um
exemplo do que tenho chamado de geografia menor, inspirado nos escritos de Gilles Deleuze
e Félix Guattari (2003) e Ana Godoy (2008) acerca da literatura menor e da ecologia menor,
respectivamente. Cartografando Gaza toma os pensamentos e imagens acerca de um lugar
e de um conflito eminentemente territorial e os coloca em movimento, fazendo-os proliferar
em direções múltiplas, em encontros inusitados com os variados modos com que a vida se
faz no espaço, com que a vida ganha existência ao criar territórios onde ela, vida, continue
a proliferar em imaginações e ações espaciais.
Este vídeo se estabelece como uma geografia menor também porque é uma obra de
arte e política que atua no pensamento geográfico sem ter sido criado na comunidade de
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VÍDEOS, RESISRÊNCIAS R GEOGRAFIAS MENORES...
geógrafos e, por isto, se colocar como marca do uso que uma minoria faz de um conhecimento maior, neste caso aquele tributário da ciência geográfica. É menor, além disto, porque se
utiliza de uma linguagem – audiovisual – que não se encontra certificada como uma daquelas com as quais se produz e se diz da geografia maior e por isto faz expandir as fronteiras
desta última ao ter algumas de suas premissas colocadas sob tensão, como é o caso do –
conceito de – mapa, que nesta obra resiste a ser tomado apenas como uma forma tributária
da cartografia clássica, mas ao mesmo tempo faz as formas clássicas de mapa convergirem
e serem mais uma das formas que geraram o rizoma-mapa-vídeo acerca de Gaza. Também
o modo – método? – de se aproximar de um lugar, de conhecê-lo, pode ser tomado como uma
marca da minoridade deste vídeo, uma vez que ele – método indiretamente proposto para
se conhecer Gaza – destoa das formas habituais de se conhecer um lugar indicadas pelos
cânones da geografia maior, já que o vídeo aposta num conhecer mediado fortemente pelas
estruturas ficcionais audiovisuais, desfazendo-se portanto da prerrogativa do documento
crível, sem marcas de qualquer ficcionalização.
Para finalizar este ensaio, trago ao leitor dois exemplos de vídeo-filmes menos voltados a provocar resistência em temas de caráter geográfico, mas que mesmo assim criam
geografias menores ao tocar de maneira poética na dimensão espacial da vida, seja esta
dimensão a cidade, sejam os processos eólicos de erosão e deposição arenosa.
Se, então, as resistências apontadas no vídeo Cartografando Gaza são explicitamente engajadas em ações macropolíticas, as imagens dos vídeo-filmes Acidente, de Cao Guimarães (trailer disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=XUu5Q5ed4c&feature=related; pequeno trecho disponível em: http://www.caoguimaraes.com/page2/
principal_new.php), e Vilas volantes – o verbo contra o vento, de Alexandre Veras (trailer
disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=kxhFuY8JJVs&feature=related), ambos
produzidos com recursos do Programa DOCTV do Governo Federal, atuam mais diretamente como agentes na micropolítica4 dos processos de produção das subjetividades ao
trazer sons e imagens que, a despeito de remeterem à realidade das imagens comuns –
tidas como documentais – de cidades, rompem com esta realidade ao colocar sobre ela
camadas poéticas provenientes dos sons sutis – músicas, ruídos, palavras –, as vezes vinculados às imagens (sons provenientes do mesmo ambiente e do mesmo gesto apresentado
em imagens) e as vezes em franco desacordo com ela (sons de perto, imagem de longe; sons
de vento, imagem de água) e do jogo inusitado entre iluminação e sombras, entre o quadro/
tela e o conteúdo nele apresentado. Poesia em prosa videográfica. Resistência forte ao vídeo
como documento do real, sem que dele retirar esta possibilidade; a realidade ondulando
diante de nós, colocada à deriva no adensamento poético de imagens e sons.
Os vídeo-filmes acima citados podem ser tomados como geografias menores que lidam, burilam, fazem derivar o conceito de cidade para além do pensamento habitual de
serem estas formas geográficas algo com movimento intenso, barulho incessante, além de
permanente e material em sua localização no planeta e no mapa. Em Acidente, a cidade é
lenta, quase parada, plena de sons sutis; em Vilas volantes a cidade é algo que se desloca
4
Sobre a distinção e complementaridade entre os planos da macro e da micropolítica, trago a citação do artigo de
Suely Rolnik Memória do corpo contamina museu: “A operação própria ao ativismo, com sua potência macropolítica,
intervém nas tensões que se produzem na realidade visível, estratificada, entre pólos em conflito na distribuição
dos lugares estabelecida pela cartografia dominante num dado contexto social (conflitos de classe, de raça, de
gênero, etc). A ação ativista inscreve-se no coração destes conflitos, se fazendo a partir da posição de oprimido e/
ou de explorado, tendo por objetivo lutar por uma configuração social mais justa. Já a operação própria à ação
artística, com sua potência micropolítica, intervém na tensão da dinâmica paradoxal entre, de um lado, a cartografia
dominante com sua relativa estabilidade e, de outro, a realidade sensível em constante mudança, efeito da
presença viva da alteridade que não pára de afetar nossos corpos. Tais mudanças tensionam a cartografia em
curso, o que acaba provocando colapsos de sentido. Estes se manifestam em crises na subjetividade, as quais
levam o artista a criar, de modo a dar expressividade para a realidade sensível geradora da tensão. A ação
artística inscreve-se no plano performativo – visual, verbal, musical ou outro –, operando mudanças irreversíveis
na cartografia vigente. Ao tomar corpo nas criações artísticas, tais mudanças tornam as mesmas portadoras de
um poder de contágio em sua recepção. [...] Em suma: do lado da militância, estamos diante das tensões dos
conflitos no plano da cartografia do real visível e dizível (plano das estratificações que delimitam sujeitos, objetos
e suas representações); do lado da arte, estamos diante das tensões entre este plano e o que já se anuncia no
diagrama do real sensível, invizível e indizível (plano dos fluxos, intensidades, sensações e devires). O primeiro
envolve sobretudo a percepção e o segundo, a sensação.”
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com o vento, remetendo-a mais ao mundo da natureza que ao da humanidade; a humanidade retoma aquela cidade pelas palavras, pela memória, ou seja, pela imaterialidade presente nos corpos das pessoas. Também realizam – criam – geografias menores ao fazer
poemas com a simples justaposição de nomes de cidades... outras geografias, acidentalmente.
O importante aqui é salientar que, assim tomados, como potências menores no sentido deleuze-guattariano, estes vídeo-filmes abrem brechas no subjetivar hipnotizado denunciado por Suely Rolnik num mundo aparentemente flexível e diversificado:
“Hoje, o destino mais comum desta flexibilidade subjetiva e da liberdade de criação que a
acompanha não é a invenção de formas de expressividade movida por uma escuta das sensações que assinalam os efeitos da existência do outro em nosso corpo vibrátil. O que nos guia na
criação de territórios em nossa flexibilidade pós-fordista é uma identificação quase hipnótica
com as imagens de mundo veiculadas pela publicidade e pela cultura de massa.” (Rolnik, 2006).
Programas públicos como o DOCTV e coletivos civis como os que se reúnem em torno
do site hackitectura.net têm a potência de resistir a esta identificação hipnótica com os
produtos massivos do cinema, da televisão, da escola. Resistem não propriamente por negálos, mas por criar linhas de fuga a partir de muitos elementos neles presentes. Os negam
em seu interior, não em oposição a eles. Criam na tensão mesma de fazer o pensamento
estar e não estar convivendo com as capturas massivas, tendo que se pautar por elas ao
mesmo tempo que se desfazem delas ao forçar seu deslizamento para algo que não se dobra
às concepções habituais de documento, de cidade, de verdade, de realidade, de ficção, de
fantasia. Estas obras fazem derivar o pensamento.
Daí podermos dizer que resistir seria fazer delirar o pensamento, evitar que ele siga
direcionado pelo já estabelecido, configurar línguas menores no interior de línguas maiores, figurar geografias menores no interior da geografia maior, onde as proposições, os
conceitos, os hábitos e as tradições desta última sejam combatidos, não necessariamente no
intuito de negá-los, mas sim certamente na busca de levá-los aos seus extremos.
O exemplo dos mapas é elucidativo: criar geografias menores pela via da linguagem
do vídeo é levar os mapas a se deslocarem da ideia de representação para a ideia de apresentação, esta última colocando-os sempre como algo novo, como uma nova obra acerca do
espaço, como uma nova obra que visa realizar visualmente um pensamento sobre o espaço,
mas nunca pensar o mapa como uma obra onde o espaço está manifestado como ele próprio
é. Mapa tomado como grafia-pensamento e não como representação, voltado para produção
de devires (de modos de pensar e agir) e não para o passado (mostrar como é uma dada
superfície).
Nesta maneira de resistir, que ao meu ver está fortemente sintonizada com as novas
formas de organização social que caracterizam o espaço-tempo contemporâneo, Gaza não
deixa de ser a Gaza dos telejornais que a apresentam como gueto árabe, pobre e terrorista,
mas sim faz deslizar sobre esta Gaza telejornalística uma outra Gaza que penetra pelos
interstícios da primeira fazendo-a fugir de si mesma ao disponibilizar ao nossos olhos e
ouvidos a vida que lá se inventa, a vida que lá insiste em permanecer viva, a vida que lá
resiste criando vida dos escombros, vida em colapso, vida resistente justamente porque se
prolifera em obras como esta, em vídeo.
Retomando a epígrafe de Manoel de Barros, digo que é preciso saber fotografar o
sobre para que ele não desabe sobre nossa casa. Seria o sobre da paisagem, nos dias de hoje,
a imagem?
173
OLIVEIRA JR, W, M.
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VÍDEOS, RESISRÊNCIAS R GEOGRAFIAS MENORES...
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174
Terra Livre - n. 34 (1): 161-176, 2010
FILMOGR7AFIA CIT
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CITADA:
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Vilas volantes – o verbo contra o vento. Alexandre Veras. DOCTV. Brasil, 2005.
SITES CIT
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CITADOS:
Fé em el caos - http://mcm.feenelcaos.org/
hackitectura.net – http://www.hackitectura.net
Vimeo - http://vimeo.com/7196063
175
OLIVEIRA JR, W, M.
176
VÍDEOS, RESISRÊNCIAS R GEOGRAFIAS MENORES...
LINGUAGEM
E
PRODUÇÃO DE
SENTIDOS NO ENSINO
DE GEOGRAFIA
LANGUAGE AND
PRODUCTION OF
MEANING IN THE
TEACHING OF
GEOGRAPHY
LANGUE
ET
PRODUCTION DU SENS
DANS
L’ENSEIGNEMENT DE
LA GÉOGRAPHIE
Resumo: O ensinar-aprender é uma relação humana e, por isso, é
uma relação entre sujeito e objeto do conhecimento geográfico. Essa
relação acontece mediante a circulação de discursos expressos por
uma variedade de textos, cujos significados contêm tanto o contexto
do “falante” e do “ouvinte” como, ao mesmo tempo, mobilizam os
chamados conteúdos consagrados como conteúdos geográficos.
Não existe discurso sem a existência de signos e, estes, pela sua
constituição originária, estão destinados a falar do mundo, estando
presentes em todos os tipos de textos. Só através dos signos, formas,
figuras, imagens, que são criações incessantes, é que falamos do
mundo.
A enunciação dos diversos discursos é reveladora da multiplicidade
de significados dos textos. Estes contêm a intencionalidade dos
sujeitos envolvidos no processo comunicativo, cuja intertextualidade
é o diálogo dos textos entre si. Buscar seu sentido pode abrir
caminhos para uma re-significação das linguagens no ensino de
Geografia.
Palavras chave
chave: sujeito e objeto do conhecimento – discurso – signos
- conteúdos geográficos - produção de sentidos.
PRODOC – Grupo de
pesquisa sobre a
Condição e Formação
Docente
Summary: Because teaching and learning is a human relationship,
we can also consider it a relationship between subject and object of
geographical knowledge. This relationship takes place through the
circulation of discourses expressed by a variety of texts, whose
meanings include both the context of the speaker and the listener,
and, at the same time, mobilize the so-called classic content as well
as the geographic content.
There is no discourse without the existence of signs which, by their
original constitution, are destined to speak of the world, and are
present in all kinds of texts. Only signs, shapes, pictures and images,
which are never ending creations, allow us to talk about the world
and to name it.
The enunciation of the various speeches reveals the multiple
meanings of texts. These texts contain the intentionality of those
involved in the communicative process, which intertextuality is the
dialogue among the texts themselves. Finding their meaning may
pave the way for a re-signification of different languages in the
teaching of geography.
[email protected]
Keywords
Keywords: subject and object of knowledge - discourse - signs geographic content – production of meaning.
SHOKO KIMURA
Faculdade de
Educação - UFMG
Pesquisadora do
Résumé: L’enseignement-apprentissage est une relation humaine
et, par conséquent, une relation entre sujet et objet de connaissance
géographique. Cette relation se fait à travers de la circulation des
discours exprimé par une variété de textes, dont les significations
exprime à la fois le contexte de l’orateur et l’auditeur, et, en même
temps, mobilisent le contenu soi-disant consacrée et le contenu
géographique.
On ne parle pas sans l’existence de signes et ils, par leur constitution
originale, sont destinées à parler du monde, présents dans tous les
types de textes. Ce n’est que par des signes, des formes, des images,
qui sont une création sans fin, c’est que nous parlons du monde.
L’énonciation des différents discours révèle les multiples
significations des textes. Ceux-ci contiennent l’intentionnalité des
acteurs impliqués dans le processus de communication, et son
intertextualité n’est que le dialogue entre les texts. Obtenez leur
signification peut ouvrir la voie à la re-signification de la langue
dans enseignement de la géographie.
Terra Livre
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 177-188 Jan-Jun/2010
177
KIMURA, S.
LINGUAGEM E
PRODUÇÃO DE SENTIDOS...
INTRODUÇÃO
Sertão, arguém te cantô
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruque meu torrão amado,
Muito te prezo, te quero
E vejo que os teus mistero
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Que o poeta canta, canta,
E inda fica o que cantá.
(...)
(ASSARÉ, 2004: 21)
Esses versos do poema “Eu e o sertão”, de Patativa do Assaré, colocam-nos diante de
muitos dos aspectos sobre os quais pretendemos refletir, dirigindo nosso foco no ensino de
Geografia. É também curioso que esse poema faça parte de um livro chamado “Cante lá
que eu canto cá”. “Lá” e “cá” são palavras que carregam um forte sentido espacial e, imediatamente, nos indagamos a respeito dos lugares, lá e cá, de onde partem as enunciações, os
cantos e evocações que, segundo o poeta, são atemporais. Ao longo de todo o poema (e muito
do livro), o sertanejo dialoga com o espaço, ao qual, enquanto objeto de conhecimento e de
apreciação, vai destinando atributos e, tamanha é a identidade que sujeito e objeto do
conhecimento parecem fundir-se. No entanto, os discursos sobre esse objeto não conseguem ser esgotados, pois são esses muitos atributos que procriam uma multidão de textos,
restando mesmo, sempre, ainda, vários discursos. O poeta canta e canta e ainda fica o que
cantar.
Partimos da assertiva de que o processo discursivo constrói e reconstrói várias linguagens sob a forma de diversos textos. A Geografia lança mãos de muitos deles e, além do
mais, goza do privilégio de ter um grande parentesco com a linguagem cartográfica. Tantas
linguagens, tantos enunciados, tantos textos estão disponíveis no processo comunicativo e,
ainda, somam-se-lhes hoje aqueles filhos da febre da comunicação por meio das tecnologias
da computação.
No entanto, paira um mal-estar que parece uma sensação de lacunas de sentidos no
processo comunicativo. Será esse incômodo fruto de um tempo que não nos permite alçar o
sentido do dito (e do não dito), ou será ele um desdouro das nossas linguagens geográficas
que teriam encontrado dificuldades para sintonizar personagens da fala, da escuta e os
objetos falados e escutados? Essas questões, pensamos, nos põem em uma posição incômoda de encarar frente à frente as linguagens que circulam no ensino de Geografia.
Referir-se ao ensino de Geografia focalizando a linguagem como objeto de análise significa que o ponto de partida tomado é a definição social do professor de Geografia
na sua condição de comunicador. Foram-lhe conferidos um papel e uma vocação no campo
das comunicações, o que torna obrigatório que se debruce sobre as linguagens, referindonos a estas, de maneira bastante simples, como a produção e circulação social de idéias e,
na sua esteira, as implicações e práticas que tornam esse processo de grande complexidade.
No entanto, tal foco e ponto de partida não dispensam que esse início de análise
deixe à margem a necessidade de o professor de Geografia ser visto em um contexto no qual
várias determinações se interpõem. Sem entrar no mérito, neste instante, como entendemos essa comunicação, é o pressuposto inicial de sujeito histórico-social do professor de
Geografia, como todos nós somos, que obriga a trazer à baila vários processos presentes no
seu fazer-se ao longo de um percurso datado, localizado e onde se entrecruzam os vários
condicionantes. Insistimos em usar este termo, embora atualmente ele possa dar margem
a que sujeitos sócio-históricos sejam considerados simplesmente determinações do contexto. A esse tipo de consideração, por outro lado, parece opor-se a tendência também atual dos
sujeitos serem analisados em sua construtividade, agigantando a força da subjetivação
178
Terra Livre - n. 34 (1): 177-188, 2010
como constituinte da própria condição sócio-histórica e obscurecendo os dados da realidade
objetiva. Subjetividade e objetividade passam freqüentemente a ser colocadas como pólos
de um binômio no qual, mesmo pondo em cena a variedade e a interpenetração das suas
relações, ora se elege um, ora outro. Julgamos importante fazer essas reflexões pois podemos incorrer em simplificações às expensas da maneira contraditória em que as determinações tecem a realidade, considerando o ser humano como um feixe de múltiplas injunções
que se colocam também contraditoriamente.
Paulo Freire (FREIRE, 1983), em suas obras mais antigas, referia-se ao condicionamento histórico-cultural, esclarecendo que as restrições impostas pela imediatez dificultam no ser humano a percepção de um plano mais histórico, em que a transitividade da
consciência limita nossa esfera de apreensão, seres inacabados que somos.
É a consideração da própria condição histórica-cultural do professor de Geografia
que nos obriga a fazer o esforço de vê-lo na contradição, em meio aos marcos de sua trajetória acontecida e nas malhas das perspectivas nas quais ele se põe e que, por sua vez, a
sociedade lhe solicita.
Por esses motivos, é inevitável referirmo-nos à condição do professor de Geografia
enquanto um trabalhador, à organização do sistema educacional, à organização do ensino e
da escola, à sua formação inicial e continuada etc. Contudo, não sendo esses aspectos os
focos da presente análise, eles são apenas apontados neste texto e é forçoso fazê-lo porque,
sendo condicionantes e se não vierem à tona, corre-se o risco de ficar suspenso no ar o
discurso sobre o professor. Pode acontecer um mal entendido de que, em seu processo de
comunicação dialógica, basta discutir este processo para que sua instalação e orquestração
teçam os sons, os tons, as formas e uma gama variada de possibilidades de comunicação,
abertos a um ensino de Geografia que articule o sujeito e o objeto do conhecimento. Se fosse
dessa maneira, os textos comunicativos nos informariam sobre os discursos do (im)possível
pendurados no Cirque du Soleil, enfeitiçando com os rodopios que expressam a maravilha
tangente ao romper da lei da gravidade.
A história de vida informa, porém, que o discurso do (im)possível se constrói no próprio contexto, na transversal do tempo, levando algum tempo necessário, sim, e percorrendo um espaço construído a ferro e fogo, pois esse contexto em geral é impiedoso ao colocar
grandes desafios para cuja superação quase sempre as condições não estão postas, pelo
contrário, elas exigem que se faça um grande investimento a contra-pelo.
Ao nos propormos a realizar algumas reflexões acerca do processo comunicativo relacionado ao professor de Geografia no qual a linguagem é a ponte e o trampolim, podemos
dar a entender que iremos enveredar por um campo tão caro à Geografia, que é a linguagem cartográfica. Esta é por excelência uma forma de comunicação tão próxima da Geografia que, quando na expressão comum, faz-se refere a uma, logo a outra surge como se elas
fossem correspondentes, sendo mesmo quase analógicas. Presumimos que nossas reflexões
atualmente em curso sobre a linguagem e a produção de sentidos no ensino da Geografia
significam esforços também na direção de um compreensão possível da linguagem
cartográfica, esforços esses que precisam ser pensados frente a uma vasta e rica produção
existente na Cartografia.
Tratando a relação entre o professor e os enunciados como objeto de discurso, o presente texto empenha-se em traduzi-los inseridos no fazer desse professor, em meio às muitas injunções que o chamam ora para um discurso ora para outro, ora para uma prática
didática ora para outra, ora para uma política educacional ora para outra. Ainda que seja
essa a trajetória do professor, parecendo mesmo que ele joga o jogo da cabra-cega, seu
instrumento de trabalho continua sendo o conhecimento geográfico e as relações entre
sujeito e objeto desse conhecimento, o que precipuamente implica a discussão das linguagens.
Para introduzirmos o tema, afirmamos que o professor de Geografia está engessado
por uma tradição didática, de concepção de ensino-aprendizagem e, mesmo, de hierarquia
de valores no campo do conhecimento. É que existe um nó duro de ser afrouxado principalmente no discurso não só dos professores de Geografia mas no de professores das áreas do
conhecimento intituladas ciências. Estas são consagradas como a abordagem mais fidedig-
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KIMURA, S.
LINGUAGEM E
PRODUÇÃO DE SENTIDOS...
na da realidade e é acompanhada por um discurso que a referenda como a grande reveladora
dos mistérios do mundo e isto exige uma enunciação concreta específica com características próprias. Por exemplo, o uso do verbo na terceira pessoal do singular busca denotar a
seriedade, a imparcialidade e o distanciamento necessários a um conhecimento que se pretende universal e que, segundo as circunstâncias, faz da neutralidade a condição para a
universalidade dos sentidos contidos nesse discurso.
Não queremos, com tal consideração, insinuar que faltam às ciências a seriedade de
que a sua produção é merecedora, queremos apontar que o nó duro a que nos referimos
anteriormente está na grande relação entre o professor de Geografia e os conteúdos que
transitam em seus discursos. Estes, muitas vezes, passam desapercebidos como os caminhos pelos quais são percorridos os conteúdos geográficos.
Também não iremos nos referir centralmente aqui ao aspecto ideológico dos conteúdos tão debatido na Geografia mas a uma condição anterior de que estamos a todo instante,
quando do pleno exercício de construção de discursos, considerando a vasta gama de expressões textuais e sentidos de que eles são portadores.
Outro aspecto que deve ser ponderado refere-se à relação do professor de Geografia
com os conteúdos geográficos. Ela é tão visceral que, com freqüência, ouvem-se expressões
como: “o que vamos dar?”, referindo-se aos tópicos de conteúdos a serem desenvolvidos. É o
que acontece também, quando um planejamento de curso reproduz a preocupação do professor em desenvolver todos os tópicos, com a intenção de dotar o aluno da visão de totalidade que se julga essencial. Ainda que, de maneira lúcida, afirme que “a totalidade não
significa todos os fatos, significa a realidade como um todo estruturado, dialético, no qual o
do qual um fato qualquer (...) pode vir a ser racionalmente compreendido” (KOSIK, 1976: 3,
grifos do autor), a preocupação do professor ainda está no âmbito dos conteúdos, ou seja,
está focado no objeto do conhecimento. Estamos diante do fruto de uma longa tradição em
diversos níveis de ensino em que o que importa é o mundo externo a ser conhecido, deixando em um plano secundário o sujeito do conhecimento.
Tal procedimento assemelha-se às praticas do trabalho acadêmico da pesquisa científica, que buscam realizar a descoberta e a produção do conhecimento e que, na transposição didática para o ensino, esperam que o discente esteja pronto a apropriar-se do objeto do
conhecimento como um pré-suposto inerente à sua condição de aluno universitário. Talvez
porque a universidade coloca a pesquisa como sua vocação principal, ela centralize tal tipo
de relação entre sujeito e objeto do conhecimento. Contudo, sua transposição para outros
níveis de ensino como no Fundamental e Médio acaba reproduzindo uma comunicação que,
podemos dizer, parece uma relação de surdos e mudos sem a compreensão por ambos dos
reais sentidos significativos, às vezes da algazarra, às vezes do mutismo instaurados.
SUJEITO
E OBJETO DO CONHECIMENTO GEOGRÁFICO
Entendemos que, antes de qualquer análise sobre as linguagens e o professor de
Geografia, devemos tecer algumas considerações sobre o processo em que queremos nos
situar. O ponto de partida é o discurso ser dotado de significado, qualquer que seja este,
levando à construção de um sentido. Assim, se o presente texto, que pode ser objeto de
outro tratamento enunciativo, esforça-se em encontrar um diapasão de coloquialidade, isto
resulta da intenção desta autora, professora de metodologias e práticas de ensino, de construir textos para um determinado leitor, o professor de Geografia. Quer dizer, a relação
intertextual deve necessariamente buscar os elos entre aquele que tomamos a liberdade de
chamar de “falante” (denominado por alguns teóricos de emissor do discurso) e o “ouvinte”
(denominado de receptor) que, quando em situação presencial, são também, inversa e respectivamente, “ouvintes” e “falantes”, qualquer que seja o discurso que circule entre eles,
qualquer que seja o enunciado que lhe deu visibilidade.
“Falantes” e “ouvintes” são seres sócio-históricos, com história de vida pessoal e coletiva, e assim, também, o são o professor e o aluno de Geografia. O que eles “falam” e o que
“ouvem” estão carregados de construções sociais e pessoais. Em diversos estudos feitos
sobre o perfil do professor das escolas de ensino básico seus discursos vêm à tona.
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Terra Livre - n. 34 (1): 177-188, 2010
Dentre esses estudos utilizamo-nos de uma vasta pesquisa nacional “O perfil dos
professores brasileiros: o que fazem, o que pensam o que almejam”, patrocinada pela
UNESCO e coordenada por professores de universidades do Rio de Janeiro (2004). O discurso comum é o de o professor situar-se e ser situado como integrante da classe média por
parte da população em geral. Embora, do ponto de vista econômico, cerca de 33,2% dos
professores se auto-classificarem como pobres, tanto do ponto de vista dos seus próprios
rendimentos como da renda familiar, eles, mesmo aqueles de menor renda, em geral não se
colocam como integrantes dos estratos sociais mais pobres, “o que pode estar evidenciando
uma necessidade de preservação da auto-estima e valorização” (2004:66).
Sabe-se que já na universidade se realiza o processo de sedimentação hierárquica,
cabendo os cursos de licenciatura àqueles de menor poder aquisitivo. No entanto, apesar
de todas as condições que têm rebaixado o ensino público, o professor é em geral um sujeito
social em processo de ascensão sócio-cultural. Os dados desse mesmo estudo apontam que
seu processo de escolarização em relação a seus pais/mães associa a construção de uma
carreira docente à possibilidade de mobilidade social . O professor de Geografia não foge a
essa regra.
Assim como os demais professores, o professor de Geografia é portador de um imaginário que contém tanto os atributos da condição de docente como o processo de sociabilidade do qual ele é um agente. Ele está carregado ou vai impregnando-se cada vez mais do que
costuma ser chamado de cultura escolar, seja esta o conjunto de procedimentos socialmente desejáveis, seja ela a depositária da tradição cultural enciclopédica veiculada nos cursos
universitários, esclarecendo-se que com o termo enciclopédia, queremos nos referir ao amplo leque de conhecimentos que almejam dar conta do conhecimento do espaço na sua
totalidade. O saber que a universidade elabora também vai passando por transformações,
porém, será sempre eleito o saber consagrado, e sua transmissão continua sendo responsabilidade do professor.
Embora possa parecer estranho, o professor “veste a camisa” dos conteúdos geográficos e, quando a aprendizagem mostrada pelo aluno é o discurso que referenda a competência docente, vê-se de alguma maneira valorizado, reforçando sua auto-estima e identidade. Por outro lado, ocorre a situação oposta quando não é correspondido. Podemos então,
entender os enunciados concretos a respeito do desempenho do aluno que freqüentemente
ouvimos na sala dos professores, assim como podemos buscar o sentido dos silêncios e indiferenças, que parecem ser o discurso do aparentemente não dito.
Quanto ao aluno, oficialmente o “ouvinte” desse processo comunicativo, deve-se destacar que muitos deles são parte integrante do extrato social que ingressa no Ensino Fundamental, hoje, muitas vezes pelas mãos das políticas públicas de inclusão, via o subsídio
da Bolsa-Família que obriga sua freqüência às aulas. É um aluno presencial dotado de uma
cultura específica, cuja tradição de letramento ainda está por se fazer, cuja oralidade modula diferentes sotaques e significados, cuja corporeidade ainda não se enquadrou entre as
quatro paredes da sala de aula, cuja história de vida é também a história da nossa sociedade. Apesar desse quadro, que parece estar na base da identidade do aluno brasileiro, é
essencial abrir o leque a respeito do discurso sobre o aluno, mais exatamente sobre a infância e sobre a juventude, sendo mais correto referirmo-nos a eles no plural, a começar pelas
características oriundas das diferenças etárias.
É nessas circunstâncias que a cultura da escola e a cultura do aluno realizam um
intercurso textual, “falantes”/ “ouvintes”, “ouvintes”/ “falantes” ao longo da trajetória no
nosso tempo e no nosso mundo dos anos de escolarização, revelando enunciações concretas
dos discursos de fato contemporâneos. Não estamos diante de nenhum anacronismo, do
atraso educacional, de um projeto educacional desalinhavado, estamos diante do mundo
como ele se põe. Quando de meu período de gestão do Ensino Fundamental no Ministério
da Educação – MEC em 2004, qual não foi a surpresa, estupefata diante de uma delegação
oficial do governo espanhol, para quem a questão central era o fenômeno da repetência dos
seus alunos, em uma Espanha com seus novos alunos oriundos do processo migratório
atual. Diante desse fato educacional novo, os técnicos espanhóis tinham vindo buscar subsídios com a experiência brasileira.
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KIMURA, S.
LINGUAGEM E
PRODUÇÃO DE SENTIDOS...
A repetência entre os novos alunos na Espanha permite enfatizar a questão dos entendimentos e dos não-entendimentos, dos discursos que circulam com toda a sua polissemia
e polifonia, das expressões faciais e outros gestos discursivos que abrem os conteúdos dessa
contextualidade vivida na condição cotidiana de comunicação pelos novos enunciadores,
com seus novos significados e novas sonoridades adentrando hoje pelo universo escolar
europeu, até então sedimentado pela estabilidade étnica-populacional. É a busca, agora, de
novos caminhos diante dos novos interlocutores, compostos por professores europeus e alunos de origem não européia. As obras de Bakhtin e seus colaboradores, especialmente “Marxismo e filosofia da linguagem” (2006) fornecem elementos para tecer algumas reflexões
para buscarmos entender a complexidade do mundo escolar contemporâneo não só do Brasil.
Entendemos que a questão central é: quais significados estão contidos nos discursos
interpostos entre “falantes” e “ouvintes” de um contexto que expõe o processo do intercurso
textual que vai do emissor, passa pelos diversos textos e chega ao receptor. Mas, mais do
que isso, são discursos de um contexto que revela a complexidade de seus sujeitos sóciohistóricos, cujos sentidos estão meio que escondidos nos significados de seus discursos.
“FALANTES” E “OUVINTES”
E SUA INTERLOCUÇÃO
A tradição conteudista estabelece que, apropriando-se dos conteúdos geográficos,
obtém-se o passaporte para a escolarização seqüencial. Realmente, é importante que deles
nos apossemos e façamos uso, segundo uma finalidade que pode ser definida social ou
pessoalmente. Porém, como descobrir que os alunos são portadores de conhecimentos geográficos além (ou aquém) daqueles consagrados pela escolarização? Como desvendar os
sentidos em curso no discurso do aluno, quando este não contempla o saber geográfico que
dele esperamos, mesmo na condição de saber inicial prévio?
Se partirmos da premissa de que o ensinar-aprender pressupõe uma relação professor-aluno em que os interlocutores precisam conversar entre si, a compreensão do discurso
torna-se sua porta de entrada. Implica que nos enunciados concretos há um exercício percorrendo meandros bastante complexos na busca do seu sentido, muitas vezes obstaculizada
ou dificultada tanto pela interposição de realidades objetivas como pela construção de diferentes subjetividades entre professores e alunos. Como buscamos apontar anteriormente,
são questões tanto da estrutura objetiva da organização escolar como do labirinto cultural
onde geralmente nos perdemos, ao qual costumamos chamar de condição e formação docente. Esta requer uma fina sintonia com o interlocutor, como gostaríamos de colocar em
destaque através do seguinte enunciado:
“Quandeucrece querose motoristadecamião papassá pocima daspessoa”.
Esta afirmação foi feita por um aluno das então chamadas 5ªs séries do Ensino Fundamental quando desenvolvíamos a temática urbana nas aulas de Geografia de uma escola
municipal de São Paulo, cuja proposta pedagógica de interdisciplinaridade caracterizava a
gestão de Paulo Freire enquanto secretário da educação. Dada a época em que aconteceu, o
exemplo pode ser considerado extemporâneo, mas a questão que ele contém parece-nos
contemporâneo e extremamente didático para as considerações que pretendemos tecer,
uma vez que permite explicitar o labirinto em que os professores se encontram.
É um enunciado concreto que instaura um enunciador, e a forma de enunciá-lo permite abrir mais do que uma relação dialógica, mas uma polêmica que pode ser travada no
mínimo entre duas posições antagônicas. Aos professores que buscam a construção da língua como expressão contendo as regras minimamente colocadas pelo idioma nacional, coloca-se um grande dilema que ainda os dilacera, não sem razão, girando em torno de ensinar
ou não gramática na escola, de que maneira e em que processualidade esse ensino se desenvolveria etc.
É um enunciado que, além de expressar a subjetividade-objetividade do “falante”, ca
e a fragmentação inusitada diante das exigências da construção gramatical oficial.
182
Terra Livre - n. 34 (1): 177-188, 2010
Esse mesmo enunciado contém o que didaticamente buscamos identificar como o
saber geográfico prévio do aluno, importante enquanto ponto de partida para o desenvolvimento dos conteúdos a serem desenvolvidos, colocando-se de imediato como um enunciado
prenhe de sentidos a virem à tona para outras interpretações, na perspectiva da situação
ou do contexto maior em que ele foi emitido.
É um enunciado que abre um vasto leque de outros lugares, bem além daquele pretendido pelo seu autor. São muitos sentidos nele contidos e dentre eles destaca-se um soar
pungente porque, emitido em um lugar que deveria promover a inclusão, revela o grande
processo de exclusão.
Ir ao encontro dos significados dos discursos do aluno abre um vasto caminho ao
professor de Geografia, para o desdobramento de seus conhecimentos específicos a serem
partilhados com esse aluno. Isto quer dizer que os discursos têm sempre seus destinatários, e a situação do professor é ele ser um destes. Esse destinatário tem, também, sua maneira de se colocar frente ao discurso, com sua história de vida que compreende a sua
inserção na educação e no seu campo de conhecimento. Ele é um destinatário concreto e, tal
qual é, põe-se frente aos discursos, aos sujeitos sócio-históricos que são seus alunos. Com
estes, o professor pode até guardar a mesma origem identitária que, no entanto, na trajetória da história de vida, vai se diversificando, até o ponto de distanciar-se e chegando a
colocar-se em campos bastante diferentes, até opostos, em especial em seu imaginário social.
ENSAIOS SOBRE
A IDEOLOGIA E O ENUNCIADO GEOGRÁFICO
Diante da situação acima considerada, devemos entrar na análise da ideologia, ainda que de maneira resumida para podermos minimamente buscar a compreensão das diferenças, das dicotomias, dos antagonismos, dos conflitos, enfim, de relações dialógicas que
não são sempre (aliás, quase nunca) harmoniosas ou concensuais. É importante destacar
que os bakhtinianos não concordam inteiramente com a concepção de ideologia como “falsa
consciência”, conforme a concepção de Marx. Embora consideremos, sob certos aspectos,
insatisfatória a concepção bakhtiniana de ideologia, devemos citá-la tendo em vista que é
um instrumento conceitual que permite dar conta das questões acima apontadas.
Lado a lado, tanto a ideologia oficial como a ideologia do cotidiano tecem a produção
do mundo imaginário. A primeira é mais estável e dominante, sustentada por uma catedral
de poderes, a segunda nasce e renasce diuturnamente nos tempos e espaços, nos encontros
mais constantes, nos encontros fortuitos, ou seja, no cotidiano. Ambas as ideologias, em
uma relação de concretude, constróem/reconstróem dialeticamente um contexto ideológico
de grande complexidade, e é nele que nos fazemos enquanto seres do convívio, da fricção,
de julgamento, de silêncios. Porém, tal constituição ideológica guarda uma grande relação
com a produção e reprodução social e regula as relações histórico-materiais dos homens.
Estas relações, todas elas, são estabelecidas e intermediadas pelos signos que estão presentes necessariamente em todas elas.
Ousamos articular o pensamento bakhtiniano, formulado nos inícios do século XX a
respeito dos signos presentes em todas as relações sociais, com a formulação de Castoriadis,
que referiu-se ao imaginário social negando-lhe a condição de “especular” ou de “fictício”,
mas afirmando que estamos criando incessantemente figuras, formas, imagens e somente
a partir deles que é possível falar-se de ‘alguma coisa’. (CASTORIADIS, 1982: 13). Para
Bakhtin, os signos guardam uma relação direta com a produção e reprodução social mas,
para Castoriadis, as figuras, formas e imagens (ou seja, os signos) são criações
indeterminadas, mesmo que históricas-sociais e psíquicas. Julgamos que não temos o poder de afirmar a vocação desses signos, imagens, formas, figuras, conseguimos apenas identificar sua existência e a maneira como se fazem presentes na constituição do pensamento.
Na relação entre sujeito e objeto do conhecimento, parece-nos mais claro que os
sujeitos, “falantes” e “ouvintes”, estejam manifestando-se no processo comunicativo. É bastante doloroso mas é essencial que coloquemos nesse processo alguns detalhes talvez
esclarecedores do contexto escolar brasileiro atual.
183
KIMURA, S.
LINGUAGEM E
PRODUÇÃO DE SENTIDOS...
Às vezes, o professor refere-se à chamada questão da disciplina escolar afirmando
que “hoje, o pessoal do bolsa-família está impossível”. O “Bolsa-Família” é um signo que
contém não só o atributo da condição de pobreza sócio-econômica mas agora, associado
àquele aluno caracterizado por um enunciado oral, corporal, gestual específico, ele responde socialmente de tal maneira que já é um signo carregado de vários sentidos, um derivado
um do outro. Quem é esse aluno? Será que ele deve ser associado a esses signos construídos?
É que, segundo a ótica bakhtiniana, é através dos discursos que identificamos a existência
dos interlocutores, havendo um embate, no mínimo, entre dois discursos, o do locutor e o do
interlocutor.
O principismo essencialista dificulta que possamos aceitar em falar a respeito da
existência através do discurso, porém, podemos nos indagar: como dar conta de tantos
contextos, ruídos polifônicos, imagens polissêmicas, significados que pululam à revelia,
enfim, como podemos compreender tantos enunciados, em cuja algazarra, em geral, nos
embaralhamos, participando ou não dela? Parece-nos que a compreensão do discurso é um
caminho para a compreensão dos sujeitos, dando maior margem para deixar maior tranqüilidade à pretensão messiânica de compreender o ser humano em sua totalidade.
Os signos, formas, figuras e imagens guardam uma estreita relação com a realidade
espaço-temporal e, nesse sentido, é fundamental reter a sua importância para a constituição dos sentidos. Estes são concretos, freqüentemente são analógicos em sua relação com o
mundo dos entes e das coisas, de tal maneira que destes conseguimos falar segundo um
sentido construído.
A Geografia é pródiga em desvendar a relação analógica dos signos com a realidade
espaço-temporal. Voltando a analisar a frase do menino citada anteriormente, podemos
entendê-la com seus significados bastante concretos. A partir desses significados, todo um
conjunto de muitos meandros, reflexões, sentimentos e projetos podem ser parte de uma
re-significação tanto dos conteúdos que mobilizam o espaço geográfico como do sujeito do
conhecimento posto em movimento.
Que urbano é esse que suscita no jovem citadino o desejo de se estabelecerem relações de força suficientemente fortes para o esmagamento de pessoas? Certamente as condições da realidade objetiva entram nesse jogo de forças, porém, não se pode garantir que,
enquanto sujeito sócio-histórico e psíquico, sua trajetória de vida desemboque
inexoravelmente nas intenções contidas no enunciado. Este afirma o desejo de esmagamento, porém, será que não é o contexto do “falante” que permite inferir tratar-se de uma
relação mimética?
Que sujeitos sociais são esses que desenham relações de semelhança com o urbano
onde estão imersos, escolhendo deste a máquina mais poderosa, o caminhão cuja potência
arrasa e confere ao seu usuário a força da qual parece carecer?
Que sujeitos sociais são esses que, na intertextualidade estabelecida, brandindo um
instrumento da própria cultura da escola – a aula de Geografia. Há na cultura escolar uma
hierarquia confere-lhe a condição de verdade, aquela que condena a violência, prega a
fraternidade apaziguadora, acabando, ao final, por ocultar as relações assimétricas onde
estão mergulhados, professor e aluno entre si e entre eles e a sociedade das hierarquias. O
aluno cumpre o ritual mas enuncia o avesso.
Temos elementos para entender uma sociedade onde jovens citadinos fazem seus
discursos tecendo projetos de futuro nos quais, cedo, o enunciado central é encaminhar o
sentido da desconfiança nas contradições: “Se as contradições sociais no plano objetivo se
apresentam como apropriação privada dos resultados do trabalho social, no plano subjetivo
elas são experimentadas como desencontro entre o sonhar e o viver” (MARTINS, 2008: 73).
Este autor nos resolve de maneira bastante lúcida o aparente binômio realidade objetiva e
realidade subjetiva, auxiliando-nos a melhor compreender os sentidos contidos no enunciado do aluno da 5ª série.
Procuramos analisar o texto do aluno buscando os significados e os sentidos dos enunciados por ele emitidos. No entanto, os enunciados pessoais expressam ainda outras realidades. Segundo Bakhtin,
“um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo
184
Terra Livre - n. 34 (1): 177-188, 2010
corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele
reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo o que é ideológico possui um
significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. Um corpo físico vale por si próprio: não
significa nada e coincide inteiramente com sua própria natureza. Nesse caso, não se trata
de ideologia.” (2006: 31)
Quer dizer, quando falamos do mundo, o fazemos através de signos, formas, figuras,
imagens que construímos desse mundo e, na realidade, sem eles, simplesmente não “falamos”. Eles são físico-materiais, sócio-históricos e, ainda, são objeto de um ‘ponto de vista’
construído a partir de um lugar carregado de valor para representar a realidade. Se eles
são inevitáveis pois fazem parte de nosso processo comunicativo, é essencial que a relação
dialógica se ponha a tecer e destecer o diversos fios que despontam nos enunciados desses
signos, formas, figuras e imagens.
Na Geografia é bastante comum que, quando solicitamos aos alunos menores a elaboração de um desenho de uma paisagem montanhosa, nesta, em geral, desfilam elevações
semelhantes aos mares-de-morro com seus cumes arredondados. Elas persistem durante
muitos anos de escolaridade. Também, curiosamente, os alunos da graduação em Pedagogia continuam a desenhá-los, e alguns da Geografia traçam perfis de montanhas do relevo
alpino. Ou seja, a ampliação do repertório de compreensão do mundo é também um aumento do repertório sígnico mas não significa que este vá automaticamente ocupar o núcleo
duro do imaginário social em constituição nos alunos. Podemos compreendê-los sob uma
perspectiva bakhtiniana, pois cada signo dessa narrativa pertence simultaneamente, do
ponto de vista de sua expressividade e do seu relevo na enunciação, a dois contextos que se
entrecruzam, a dois discursos diferentemente orientados na sua expressão. De um lado, o
discurso contém particularidade das construções enunciativas próprias de cada um, e de
outro lado, esse discurso acrescenta sua “história conceitual” que é individual mas é sóciocultural, uma vez que guarda relação com a escolarização.
INTERTEXTUALIDADE
E DISCURSO GEOGRÁFICO
O nosso acesso com a realidade é sempre mediado pela linguagem que construímos a
seu respeito e, nesse sentido, podemos dizer que esse acesso não é direto. Assusta-nos a
nós, geógrafos, que nossa relação com o mundo seja construída dessa maneira. Parece-nos
mais assustador ainda, quando perguntamo-nos o que seja a realidade, uma vez que estamos,
quase como um cacoete, fazendo afirmações sobre a realidade tal qual ela é. Podemos nos
referir à realidade como algo que existe, porém, por exemplo, o nosso companheiro computador pode não existir para comunidades que o desconhecem. Assim, também, podemos
conjecturar que determinada realidade, tão real para determinada comunidade, não existe
para nós, ou seja, ela não é realidade. Evidentemente a questão é cultural e, para estabelecermos um mínimo de consenso, podemos considerar genericamente a realidade como uma
qualidade que os fenômenos possuem, independentemente de nossa vontade (BERGER e
LUCKMANN, 1985: 11). Sendo assim, são essas qualidades, esses atributos que surgem
nos discursos de uma determinada realidade, vista por determinados grupos/classes sociais.
Os discursos não se relacionam diretamente com as coisas mas com os discursos
feitos sobre elas. O processo de sociabilidade nada mais é do que fruto dos discursos que nos
são feitos a respeito disso ou daquilo pelos nossos pais e por aqueles que nos circundam
desde a infância. Quer dizer, não somos tabula rasa de nada.
No entanto, na escola, deixamos de lado tanto esse “passado gnoseológico” como as
relações estabelecidas entre os diversos tipos de textos. Quer dizer, os discursos dialogam
entre si, estabelecendo uma relação de sentido entre os diversos enunciados do processo
comunicativo.
O ensino da Geografia estabeleceu um feudo nos marcos da Cartografia, essa rica
linguagem repleta de signos e sentidos. Através da linguagem cartográfica são mapeados e
185
KIMURA, S.
LINGUAGEM E
PRODUÇÃO DE SENTIDOS...
re-significados seres, entes, coisas de diversas naturezas. No entanto, comparemos com o
exemplo de uma ilustração esquemática do aparelho digestivo do corpo humano, localizando e mapeando seus componentes, guardando, em suas localizações, relações complexas
que definem uma espacialidade orgânica do corpo.
Talvez, possamos nos referir à espacialidade geográfica como um discurso sobre o
espaço com vários enunciados. As coisas, entes e artefatos estão onde estão, vão até vão,
contínuos ou parcelares, superpostos ou isolados, semelhantes ou não, enfim, a eles atribuímos um sentido. Este é o esforço de dotar as linguagens de possibilidades de leituras
objetivadas, uma vez que, sendo os discursos sempre intersubjetivos, as diferentes subjetividades vão polemizar na estruturação da espacialidade. Podemos dizer, então, que, dentre
as diversas subjetividades, as ideologias tentarão dotar de sentido a espacialidade através
do mapeamento. Quer dizer, “a consciência é sempre intencional; sempre ‘tende para’ ou é
dirigida para objetos. Nunca podemos apreender um suposto substrato de consciência enquanto tal, mas somente a consciência de tal ou qual coisa” (BERGER e LUCKMANN,
1985: 37).
Este é um campo muito fecundo para a intertextualidade geográfica. Os enunciados
geográficos são passíveis de uma vasta gama de intercomunicação verbal oral, verbal escrita, gráfica, cartográfica, tabelas numéricas e uma imensa paisagem de signos que permitem migrar os significados de um texto para outro, estabelecendo pontes e construindo
sentidos discursivos, convergentes ou divergentes. Com a consciência de que
“qualquer enunciação, por mais significativa e completa que constitui uma fracção
de uma corrente de comunicação verbal ininterrupta (concernente à vida cotidiana, à literatura, ao conhecimento, à política etc).Mas essa comunicação ininterrupta constitui, por
sua vez, apenas um momento na evolução contínua, em todas as direções, de um grupo
social determinado” (BAKHTIN, 2006: 128).
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Julgamos que o ensino deva ser uma relação entre sujeito e objeto do conhecimento,
subentendendo a necessidade de o professor despregar-se dos conteúdos geográficos, sem
jamais abrir mão deles. Pode parecer contraditório, porém, nossas reflexões vão no sentido
de que o conteúdo seja considerado veículo que circula nas relações dialógicas.
A antiga e sobrevivente polêmica entre metodologias e conteúdos, a bem da verdade,
focalizava o ensino como instrução. Sem abrir mão seja das metodologias seja dos conteúdos, no entanto, pensamos que, ao privilegiar a relação dialógica entre sujeito e objeto do
conhecimento no ensinar-aprender, confere-se a este a condição de relação humana. A Geografia tem muito a fazer por esta relação, na medida em que põe em movimento abordagens que expressam exatamente essa relação humana.
O que é a espacialidade senão uma relação humana? Contudo, ela mobiliza a realidade objetiva externa ao homem, movimentando a realidade subjetiva como se fosse uma
decorrência daquela, talvez porque nossos arquétipos sejam inconscientemente traçados
pelo determinismo físico... Ou, talvez, porque, para não erodir ainda mais a tradição do
materialismo histórico, tenhamos dificuldade em romper os termos dessa relação humana,
caso as forças que desenham a espacialidade expuserem a primazia da realidade subjetiva.
A espacialidade grita em alto e bom som a relação objetiva dos entes e seres, como se
eles estabelecessem uma relação entre si guiados por si mesmos. Os sujeitos espaciais,
depois de construída a espacialidade, em geral não são visíveis na cena. Os agentes e gestores
públicos, o capital financiador, são sujeitos materializados na espacialidade, porém, ficam
ocultados na subjetividade, sendo colocados como pessoas, enquanto, como realidade objetiva além de subjetiva, seu lugar social é substituído pela materialidade dos entes e seres
presentes na paisagem.
Queremos dizer que a espacialidade é uma relação humana mostrada em uma
textualidade cuja leitura é considerada relativamente simples pois essa relação, operando
por clones que são os artefatos, mostra uma materialidade visível. Esta é o enunciado concreto da paisagem, porém, por vezes é mais complexo identificar os autores do discurso
186
Terra Livre - n. 34 (1): 177-188, 2010
expresso em forma de paisagem.
Anos atrás, acompanhando o trabalho de campo coordenado pelo professor Gil Sodero
de Toledo, da USP, levamos professores de Geografia de escolas públicas de São Paulo, a
uma região periférica da cidade, onde se descontinava uma vasta área de loteamento que,
mesmo descontínua à grande mancha urbana, desenhava seus arruamentos e punha à
mostra a instalação da infra-estrutura urbana necessária para a transação imobiliária. Os
signos estavam todos à mostra e, à pergunta do profº Gil a respeito do que eles estavam
vendo, vários professores de Geografia afirmaram estarem vendo o capital. Tratou-se, pois,
de um grande exercício de leituras de textos inscritos na paisagem e de busca de seus
sentidos, re-significando a materialidade visível.
Contudo, reiteramos sempre que somos o nosso tempo e buscamos construir o nosso
espaço, e isto acontece em situações nem sempre favoráveis, muito pelo contrário. Daí a
necessidade de estarmos sempre lembrando as condições concretas em que se desenvolve o
ensino de Geografia. O que podemos dizer da situação atual do ensino nas escolas públicas
estaduais de São Paulo, onde a produção de materiais pelo governo e a obrigatoriedade de
sua aplicação pelos professores transformam em ventriloquia o discurso docente que deveria mediar a relação entre sujeito e objeto do conhecimento? No entanto, vale a pena lembrar que os enunciados concretos desse discurso passam pela construção de uma textualidade
pessoal e criativa. Os gestos, a corporeidade, o olhar e o silêncio, o texto enunciado e não
enunciado podem dar ao discurso vários sentidos.
Pretendemos, com o foco voltado para o discurso e a busca de sentidos, contribuir
para que re-signifiquemos o ensino de Geografia. São muitos os educadores imbuídos dessa
intenção e, nesse sentido, Milton Santos apontou a importância da corporeidade, individualidade e socialidade como tratamentos geográficos no ensino de Geografia (1996: 21). Suas
reflexões buscavam colocar no centro do ensinar-aprender, via o ensino de Geografia, as
relações humanas a serem compartilhadas.
Quem sabe, através do nosso exemplo da frase que parece estranha, escrita pelo
aluno da 5ª série, possamos repensar a questão da linguagem e dos sentidos nela contidos.
É uma empreitada que exige superações mais do que de natureza lingüística e geográfica,
provavelmente ela remonte a questões de identidade, vividas ou simplesmente entendidas
na alteridade que se possa alcançar.
Certa vez, tendo realizado na disciplina Metodologia do Ensino de Geografia um
trabalho de campo no curso de Pedagogia, estivemos em uma favela, onde uma criança,
curiosa e séria, passou suas mãos em mim. Mais tarde, uma aluna, identificando ser originária de uma favela, explicou-nos que para essas crianças, um mundo diferente representado por uma pessoa de expressão oriental como eu, precisava ser tocado para verificar se
é real. Seu discurso corporal procurou através do tato um significado, buscando neste o
sentido do real: será ela como as demais pessoas portadoras de expressão facial ocidental?
Tomando os exemplos citados neste texto, afirmamos até com uma certa tranqüilidade que alunos e professores poderão, na descoberta dos significados da urbanização brasileira, entender os sentidos que, nesta, eles, enquanto sujeitos sócio-históricos produzem,
com suas inserções e as relações de que são, na verdade, cúmplices e parceiros.
BIBLIOGRAFIA
a) ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá. Petrópolis: Vozes, 14ª ed, 2004.
b) BAKHTIN, Mikhail (Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 12ª ed,
2006.
c) CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Jaaneiro: Paz e Terra,
1982.
d) FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 15ª ed, 1983.
e) KOSIK, Karel. Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2ª ed, 1976.
187
KIMURA, S.
LINGUAGEM E
PRODUÇÃO DE SENTIDOS...
f) BERGER, Peter e LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1985.
g) MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade
anômala. São Paulo: Contexto, 2008.
h) Pesquisa Nacional Unesco. O perfil dos professores brasileiros: o que fazem, o que pensam, o que
almejam. São Paulo: Moderna, 2004.
i) SANTOS, Milton de Almeida. Por uma Geografia cidadã: por uma epistemologia da existência.
Boletim Gaúcho de Geografia. Porto Alegre: AGB - Seção Porto Alegre, 21, 1996.
188
COMPLEXIDADE
DO ESP
AÇO
ESPAÇO
AGRÁRIO
BRASILEIRO: O
AGROHIDRONEGÓCIO E
AS (RE)EXISTÊNCIAS
DOS POVOS
CERRADEIROS
COMPLEJIDAD
DEL ESP
ACIO
ESPACIO
AGRARIO
BRASILEÑO: EL
AGROHIDRONEGOCIO Y
LAS (RE)EXISTENCIAS
DE LOS PUEBLOS
CERRADEROS
COMPLEXITY OF
THE BRAZILIAN
AGRARIAN
SP
ACE: THE
SPACE:
AGROHYDROBUSINESS
AND THE
(RE)EXISTENCES OF
THE CERRADEIROS
PEOPLES
MARCELO RODRIGUES
MENDONÇA
UFG
UFG/CAMPUS
CATALÃO
[email protected]
Terra Livre
Resumo: O artigo pretende compreender a incorporação dos territórios cerradeiros
a economia mundializada, analisando as transformações espaciais ocorridas nas
últimas décadas. As áreas de Cerrado apropriadas pelo capital agroindustrial e
financeiro, a partir da modernização do capital assegurou novos conteúdos na
relação campo-cidade, destacando-se a mobilidade do capital e do trabalho e as
novas configurações espaciais das pequenas e médias cidades, bem como, um novo
(re)ordenamento do território. O cultivo de soja e, mais recentemente, da canade-açúcar são exemplos que expressam o movimento do capital a partir da
modernização conservadora da agricultura, possibilitando uma reflexão sobre a
complexidade da questão agrária no Brasil. As áreas de Cerrado vivenciam uma
acelerada territorialização dos complexos agroindustriais e financeiros,
inicialmente com o complexo grãos-carne e nos últimos anos com o setor
sucroalcooleiro, combinados com a construção de dezenas de empreendimentos
barrageiros. Aqui, são apresentadas algumas indagações sobre os impactos sociais
e ambientais dessas atividades compreendidas no espectro do agrohidronegócio
e, algumas considerações, já podem ser mencionadas: a cana-de-açúcar está
ocupando áreas férteis e que produzem grãos; e os empreendimentos barrageiros
inundam milhares de hectares de terras produtivas, predominantemente ocupada
por camponeses, diferentemente do que dizem os apologetas do agrohidronegócio,
firmados no discurso do progresso. Essas ações empreendidas ocasionam a
desterritorialização de milhares de famílias camponesas, a redução na produção
de alimentos, a precarização do trabalho e a destruição ambiental. Como
contraponto ao modelo implantado, os Povos Cerradeiros constroem suas
(Re)Existências, centradas na luta pela terra e pela reforma agrária e apontam
as atividades agroecológicas enquanto contraponto à destruição ambiental e aos
problemas sociais decorrentes da adoção pelo capital de práticas (in)sustentáveis.
Palavras-Chaves
Palavras-Chaves: Questão agrária; Territórios em disputa; Agrohidronegócio;
Povos Cerradeiros .
Resumen: El artículo pretende comprender la incorporación de los territorios
cerraderos la economía mundializada, analizando las transformaciones espaciales
ocurridas en las últimas décadas. Las áreas de Bioma Cerrado apropiadas por el
capital agroindustrial y financiero, a partir de la modernización del capital aseguró
nuevos contenidos en la relación campo-ciudad, destacándose la movilidad del
capital y del trabajo y las nuevas configuraciones espaciales de las pequeñas y
medias ciudades, bien como, un nuevo (re)ordenamiento del territorio. El cultivo
de soya y, más recién, de la caña de azúcar son ejemplos que expresan el
movimiento del capital a partir de la modernización conservadora de la
agricultura, posibilitando una reflexión sobre la complejidad de la cuestión agraria
en Brasil. Las áreas de Bioma Cerrado vivencian una acelerada territorialización
de los complejos agroindustriales y financieros, inicialmente con el complejo
granos-carne y en los últimos años con el sector sucroalcoholero, combinados con
la construcción de decenas de emprendimientos de diques. Acá, son presentadas
algunas indagaciones sobre los impactos sociales y ambientales de esas actividades
comprendidas en el espectro del agrohidronegocio y, algunas consideraciones, ya
pueden ser mencionadas: la caña de azúcar está ocupando áreas fértiles y que
producen granos; y los emprendimientos de diques inundan millares de hectáreas
de tierras productivas, predominantemente ocupada por campesinos,
diferentemente de lo que dicen los apologetas del agrohidronegocio, sostenidos
en el discurso del progreso. Esas acciones emprendidas ocasionan la
desterritorialización de millares de familias campesinas, la reducción en la
producción de alimentos, la precarización del trabajo y la destrucción ambiental.
Como contrapunto al modelo implantado, los Pueblos Cerraderos construyen sus
(Re)Existencias centradas en la lucha por la tierra y por la reforma agraria y
apuntan las actividades agroecológicas mientras contrapunto a la destruición
ambiental y a los problemas sociales decurrentes de la adopción por el capital de
prácticas (in)sustentables.
Palabras-Claves: Cuestión agraria; Territorios en disputa; Agrohidronegocio;
Pueblos Cerraderos.
Abstract: The article intends to understand the incorporation of the Cerradeiros
territories the worldwide economy, analyzing the occurred space transformations
in the last few decades. The appropriate the Biome Cerrado areas for the agroindustrial and financial capital, from the modernization of the capital assured
new contents in the relation field-city, being distinguished it mobility of the capital
and the work and the new average small space configurations of the e cities, as
well as, new (re)ordered of the territory. The culture of soy and, more recently,
the sugarcane is examples that express the movement of the capital from the
modernization conservative of agriculture, making possible a reflection on the
complexity of the agrarian question in Brazil. The Biome Cerrado areas live deeply
one sped up territorialization of the agro-industrial and financial complexes,
initially with the complex grain-meat and in recent years with the sucroalcohol
sector, combined with the construction of sets of ten of “barrage peoples”
enterprises. Here, some investigations on the social and ambient impacts of these
activities understood in the specter of the agrohydrobusiness are presented and,
some consideration, already they can be mentioned: the sugarcane is occupying
fertile areas and that they produce grains; and the “barrage peoples” enterprises
flood thousand of hectares of productive lands, predominantly busy for peasants,
differently of what they say ‘apologys’ of the agrohydrobusiness , firmed in the
speech of the progress. These undertaken actions cause to the desterritorialization
of thousand of families peasants, the reduction in the food production, the
precarious of the work and the ambient destruction. As counterpoint to the
implanted model, the Cerradeiros Peoples construct to its (Re)Existences , centered
in the fight for the land and the agrarian reform and point the agroecologicals
activities while counterpoint to the ambient destruction and the decurrently social
problems of the adoption for the capital of practical (in)sustainable.
Word-Keys: Agrarian question; Territories in dispute; Agrohydrobusiness;
Cerradeiros Peoples.
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 189-202 Jan-Jun/2010
189
MENDONÇA, M. R.
COMPLEXIDADE DO ESPAÇO AGRÁRIO...
INTRODUÇÃO
Inicialmente quero agradecer a AGB pela oportunidade e saudar a Comissão
Organizadora pelo tema central do XVI Encontro Nacional de Geógrafos CRISE, PRÁXIS
E AUTONOMIA: espaços de esperança e pelo convite para proferir a palestra na Mesa
AÇO AGRÁRIO BRASILEIRO: o(s) movimentos
Redonda A COMPLEXIDADE DO ESP
ESPAÇO
(s) do agronegócio e as resistências dos sujeitos sociais do campo. O objetivo desta Mesa
Redonda é refletir sobre os diferentes movimentos de expansão do capital no campo brasileiro (em especial os complexos grãos-carnes, sucroalcooleiro, agroenergético e madeiracelulose) e as resistências que têm sido impostas pelos diferentes sujeitos sociais (indígenas, quilombolas, camponeses, cerradeiros etc).
Esse artigo é parte de reflexões que estamos construindo desde a defesa da tese de
doutorado - A urdidura espacial do capital e do trabalho no Cerrado do Sudeste Goiano,
defendida na Universidade Estadual Paulista, Campus de Presidente Prudente, em 2004.
Considerando a abrangência da temática e a presença de outros pesquisadores nessa Mesa
Redonda, optei por fazer um recorte espacial, considerando o movimento do capital
agroindustrial e financeiro nas áreas de Cerrado nas últimas décadas, mediante a crescente territorialização do agrohidronegócio no Planalto Central brasileiro. O Centro-Oeste e
adjacências vivencia intenso processo de territorialização das empresas rurais com múltiplas capilaridades que demandam alterações nas formas de uso/apropriação da terra, nas
relações sociais de produção e trabalho, nos conteúdos da relação campo-cidade, entre outros.
Recentemente, a imprensa, a academia e diversos setores formadores de opinião
colocaram na agenda política mundial o aquecimento global, indagando, fortemente, acerca do futuro da humanidade, diante da escalada de destruição sócio-ambiental. Muitos
demonstram teses alarmistas e catastróficas, outros salientam a necessidade do planejamento integrado e da imediata diminuição da emissão de gases tóxicos na atmosfera, entre
tantas outras possibilidades. Entretanto, são poucos os que abordam a centralidade do
problema, qual seja, a intensa crise do capitalismo, enquanto paradigma civilizatório, sendo a questão ambiental a forma mais evidente dos desequilíbrios do processo produtivo na
contemporaneidade. Mas, diante da crise capitalista o próprio movimento do capital aponta as alternativas que podem assegurar a sua longevidade, destacando-se a gradativa substituição dos combustíveis fósseis e a ampliação de fontes energéticas renováveis capazes de
assegurar o bem estar às condições de produção e reprodução.
Não há dúvida que os problemas sócio-ambientais se agravam, porém, poucos são os
pesquisadores que se propõem a realizar uma reflexão sobre as causas e as possíveis ações
de superação. A maioria adotou o discurso midiático, patrocinado pelos complexos
agroindustriais e pelas oligarquias financeiras mundializadas que justificam a elaboração
e a execução de políticas públicas consertacionistas para salvar a humanidade.
Apresentam como num passe de mágica a solução: a agroenergia, os agrocombustíveis
entre tantas outras ações paliativas. É o agronegócio dos agrocombustíveis. Não podemos
negar que a agroenergia expressa um movimento na busca de energias renováveis, consideradas mais limpas e autônomas, pois diminui a dependência em relação às áreas extratoras
de combustíveis fósseis, implicando num redesenho da geopolítica mundial. São muitos os
fatores que podem ser analisados, porém neste artigo, pretende-se discutir a relação entre
a ampliação das políticas que intensificam o cultivo de plantas que servem à produção dos
agrocombustíveis, com destaque para a cana-de-açúcar no Planalto Central Brasileiro e
seus desdobramentos na produção de alimentos e no agravamento das questões sociais e
ambientais.
Para tanto, o recorte espacial são as áreas de Cerrado, precisamente o território
goiano que vivencia uma acelerada territorialização dos complexos agroindustriais e financeiros (grãos-carne, sucroalcooleiro, empreendimentos barrageiros etc). Aqui, são apresentadas algumas indagações sobre os impactos sócio-ambientais dessas atividades compreendidas no espectro do agrohidronegócio. Entretanto, por detrás dos discursos midiáticos
190
Terra Livre - n. 34 (1): 189-202, 2010
fortalecem-se ações devastadoras, sem, no entanto, colocar em pauta as reivindicações para
a satisfação das necessidades básicas para milhões de brasileiros, agraciados, com a indigência assistida1 patrocinada pelo Estado e aplaudida pela filantrofia social que clama por
justiça, desde que não ocorram mudanças estruturais na sociedade brasileira.
Mais uma vez, assiste-se a espetacularização da fome e da miséria para justificar os
pactos sociais, os recursos públicos para ampliar os monocultivos (commodities), como se a
fome fosse “solucionada” com a crescente produção dessas culturas. Sequer debatem a necessidade da reforma agrária, e/ou mesmo, de pensar as condições de sua viabilização a
partir das experiências construídas pelos sujeitos sociais que lutam pela terra, pela água,
pelos territórios da vida neste país.
Mais uma vez o debate é enviesado entre aqueles que se colocam favoráveis ou não
ao agrohidronegócio, no caso a expansão das monoculturas para a produção de energia
(cana-de-açúcar, soja, palma etc) combinadas com o represamento dos rios (empreendimentos barrageiros) para garantir energia limpa, abastecimento de água aos grandes complexos agroindustriais e as cadeias produtivas que alimentam a expansão e reprodução do
capital. Evidentemente neste artigo não será possível refletir sobre todas as questões pontuadas, mas salientar que todas essas indagações são de natureza política e é no campo da
política que necessitam ser discutidas.
A CRISE
VESTIDA DA QUESTÃO AMBIENT
AL
DO CAPIT
CAPITAL
TRAVESTIDA
AMBIENTAL
AL TRA
A conjuntura internacional frente à crise estrutural do capital, aflorada em 2008,
fortaleceu as orientações assimiladas pelo Estado brasileiro, que considerou o setor agrícola como prioridade para assegurar os níveis de crescimento econômico e a geração de
superávits primários. Assim a modernização conservadora da agricultura é intensificada
com a efetiva necessidade de atender as demandas de algumas commodities no mercado
internacional. Com o atributo de conservadora, entende-se a modernização como algo capaz de conservar inalterado o espectro de desigualdades, sobretudo, a concentração fundiária,
não se associando sequer aos princípios das políticas compensatórias distributivistas, como
também, extremamente seletiva, tendo em vista que a apropriação não é realizada por
todos, mas apenas por uma minoria. (THOMAZ JUNIOR, 2000).
Na década de (19)90 a commoditie selecionada como principal indicador das mudanças na política agrícola do país foi a soja – tornou-se a segunda maior geradora de receitas
de exportação da balança comercial brasileira, perdendo apenas para o setor automobilístico – pois o seu cultivo atendia a necessidade de aplicação intensiva de capitais e de
tecnologias. A territorialização do agronegócio, principalmente da soja, foi alarmante: são
quase 23 milhões de hectares (em 2009, segundo estimativa do IBGE o Brasil plantou
22.914 mil hectares) cultivados e a implementação dessas monoculturas, principalmente
nas áreas de Cerrado alterou, sobremaneira, as paisagens cerradeiras.
A modernização capitalista se caracteriza como a vivificante arte do fazer-se plenamente, entretanto é “[...] autodestruição inovadora, perpétua mudança e progresso, incessante, irrestrito fluxo de mercadorias em circulação”. Alves (2000, p. 19). A efemeridade e a
mudança caótica a que assistimos expressam o movimento do capital na sua inércia dinâmica (SANTOS, 1994 e 2000), produzindo a hibridagem dos espaços, propiciando a exigência da fluidez, sustentada na densidade técnica dos territórios enquanto suportes da
competitividade, portanto, da lógica do processo de (re)produção e autoexpansão do capital. A modernização capitalista é o resultado sócio-histórico da concorrência intercapitalista
e da luta de classes.
Para Bihr (2004, p. 67) o conjunto do mundo capitalista atravessa uma crise estrutural global, mas as pesquisas centram suas investigações somente nos problemas que ela
impõe ao capital. “E, sem dúvida, essa crise é, em primeiro lugar, uma crise da reprodução
dessa relação social que é o capital.” Contudo, sendo o capital uma relação social, a sua
crise, por natureza contraditória, só pode ser apreendida a partir do seu par dialético, o
1
Ver Mendonça (2004).
191
MENDONÇA, M. R.
COMPLEXIDADE DO ESPAÇO AGRÁRIO...
trabalho. Assim, a crise do capital na contemporaneidade é também a crise do trabalho,
portanto, dos movimentos sindicais e sociais. Daí concorda-se com a inversão de perspectiva proposta por Bihr (2004), de que a discussão deve ser realizada a partir dos desafios que
as mudanças no capital provocaram sobre os trabalhadores, desde a crise do pacto social
democrata e a fragmentação do trabalho, acarretando a heterogeneização, complexificação
e polissemização com requintes de precarização das relações de trabalho.
A reestruturação produtiva do capital que vem sendo implementada em âmbito mundial e, mais precisamente, nas áreas de Cerrado, mediante a territorialização acelerada do
agrohidronegócio, propiciou mudanças nas relações sociais de produção, com profundas
alterações no trabalho e, especificamente, na ação política dos trabalhadores. A nova organização da produção e as consequentes mudanças nas relações de trabalho (superexploração,
sujeição, precarização etc.) ainda não foram totalmente assimiladas pelas organizações
sociais e sindicais (sindicatos de trabalhadores, movimentos sociais, cooperativas, associações etc.), que não conseguiram dar as respostas adequadas às novas investidas do capital,
seja no campo, seja na cidade.
O agronegócio é o novo nome do modelo de desenvolvimento econômico da
agropecuária capitalista. Porém, esse modelo não é novo, sua origem está no sistema
plantation, em que grandes propriedades foram utilizadas na produção para exportação.
Desde os princípios do capitalismo no Brasil e em suas diferentes fases, esse modelo passou
por adaptações e modificações tecnológicas, aumentando a produtividade e intensificando
a exploração da terra e dos trabalhadores.
A meu ver, o novo são as mudanças na relação capital x trabalho, fortalecidas pela
reestruturação produtiva do capital, e as transformações no trabalho, que ocasionaram
dinâmicas espaciais distintas daquelas do plantation. A complexificação, a intensificação e
a precarização do trabalho espacializam os (re)arranjos do capital, que, em parceria com o
Estado, protagonizam uma das mais ferozes ações contra o Cerrado e os Povos Cerradeiros2.
Isso porque compreendemos que, embora, existam peculiaridades geohistóricas, a
centralidade é (re)pensar as formas de uso e exploração da terra, precisamente aquelas
apropriadas pelo agronegócio que se territorializa e, paralelamente, desenvolve ações conjuntas com os complexos mínero-químicos (fertilizantes), montador-metalúrgico (automóveis e implementos agrícolas) e barrageiro (produção de energia e reserva d’água para os
irrigantes), consubstanciando no agrohidronegócio, como forma de assegurar as condições
de produção/acumulação do capital. Esse processo conforma novas paisagens, cada vez mais
excludentes e com uma diversidade de situações que necessitam ser pesquisadas, pois os
territórios cerradeiros têm sido transformados em nome do progresso técnico e científico,
implicando numa nova matriz espacial.
Mesquita (2004) chama atenção para a natureza excludente e predatória do modelo
energético brasileiro quando se expande para as áreas de Cerrado, territorializando uma
segunda onda de expropriação dos cerradeiros que teimam em (Re)Existir na terra e/ou
construindo ações políticas para retornarem a terra.
A modernização da agricultura nas áreas de Cerrado não eliminou as outras formas
de exploração da terra construídas por camponeses, pecuaristas tradicionais e trabalhadores da terra, mas atravancou e cerceou a ampliação das formas que não estavam ancoradas
nos pacotes tecnológicos, ditos modernos. Poucos camponeses conseguiram resistir e ainda
assim, nas piores terras e vivendo situações de precarização social e ambiental em função
2
Refere-se aos trabalhadores/camponeses que experienciam o labor na terra perfazendo formas de ser e viver
coadunados com as especificidades edafoclimáticas do Bioma Cerrado. Historicamente constituíram formas de
uso e exploração da terra a partir das diferenciações naturais-sociais, experimentando formas materiais e
imateriais de trabalho, que denotam relações sociais de produção e de trabalho, quase sempre, em acordo com as
condições ambientais, resultando em múltiplas práticas sócio-culturais. A novidade está em que, ao envidarem
ações políticas como cavalgadas, passeatas, atos públicos, ocupação de prédios e edificações públicas e privadas,
fechamento de rodovias, dentre outras, carregam sentidos permeados pelos saberes-fazeres, fortalecidos pelas
práticas sócio-culturais enraizadas a partir do labor na terra. Nesse sentido, compreendemos os trabalhadores/
camponeses que lutam por terra e por Reforma Agrária como parte dos Povos Cerradeiros, pois apresentam
ações políticas que objetivam reafirmar ações que expressam (Re)Existência. Maiores informações ver MENDONÇA
(2004).
192
Terra Livre - n. 34 (1): 189-202, 2010
da avassaladora ação do capital agroindustrial e financeiro. Para sobreviverem, se organizaram e passaram a disputar territórios com o agronegócio (recursos, apoio do Estado etc.)
para se manterem vivos, perfazendo um mosaico nas formas de uso e exploração da terra
em Goiás.
A agroindustrialização impulsionada pelas necessidades das empresas nacionais e
transnacionais propiciou a incorporação de vastas áreas de Cerrado, até então não-aproveitadas racionalmente à agricultura comercial/empresarial o que provocou mudanças significativas na paisagem regional (na organização espacial e na existência de outras modalidades de trabalho e de ordenamento territorial). As migrações campo-cidade e principalmente de outras áreas para Goiás em busca de melhores condições de vida alteraram profundamente a dinâmica das cidades existentes.
Essa nova Geografia, que se territorializa no cultivo de soja e nas novas pastagens,
nas franjas da Amazônia e da Caatinga (áreas do Norte e do Nordeste) e na expansão dos
canaviais e das plantas processadoras, no Centro-Sul, é a principal ação das campanhas
milionárias de marketing, por meio das quais o capital impõe sua “leitura” de moderno e de
tecnificado, e é pelo mesmo caminho que setores expressivos da sociedade entendem ser
essa a bola da vez para o desenvolvimento social e econômico e abertura de postos de trabalho. Considerando o processo geral e as dinâmicas específicas das diferentes expressões do
capital agro-industrial-químico-alimentar-financeiro e suas respectivas composições
societárias, cada vez mais presentes e marcantes parcelas do capital estrangeiro, está-se
diante de uma nova divisão territorial do trabalho. (THOMAZ JUNIOR, 2007).
O Cerrado é um ambiente extremamente explorado especialmente pela agricultura
modernizada, que nos últimos trinta anos, modificou as paisagens (cumulativos de tempos), com destaque para os extensos chapadões que se tornaram imensos “mares” de soja.
Os camponeses e pecuaristas tradicionais que não sucumbiram à modernização capitalista
foram “empurrados” para as áreas com declividade acentuada e/ou para os fundos de vales,
onde ainda resistem camponeses e alguns pecuaristas tradicionais. A construção de barragens nos rios do Cerrado desaloja esses sujeitos que deixam de ser produtores e se tornam
tão somente consumidores, potencializando os já graves problemas urbanos, além de afogar as últimas áreas de refúgio de fauna e flora típicas do bioma Cerrado. (MESQUITA,
2004).
O capital tende a ordenar o espaço a partir de uma centralidade difusa, substituindo
a antiga concentração piramidal pelo poder resultante da gestão fluída e flexível das redes.
Assim, qualquer análise acerca da territorialização do agrohidronegócio nas áreas de Cerrado necessita ser pensada a partir da lógica de expansão do capital industrial e financeiro,
materializado nos complexos agroindustriais, conformando substanciais alterações na forma de uso e exploração da terra.
EXPERIÊNCIAS E SENTIDOS EM DISPUT
A: SABERES/FAZERES,
DISPUTA:
AIS, CANA- DE-AÇÚCAR E BARRAGENS...
MEMÓRIA DA TERRA X SOJA, EUCALIPT
EUCALIPTAIS
A leitura das transformações agrárias no espaço do Cerrado necessita compreender o
movimento do capital, a permanente autoexpansão impulsionada pela agudização das contradições e as novas formas de controle social sobre o trabalho, com o intuito de (des)qualificar
a ação política dos trabalhadores e/ou dos sujeitos sociais das áreas cerradeiras. A criação
deliberada de novos objetos e equipamentos técnicos, que incorporados ao Meio, aparecem
como objetos geográficos, possibilitou mudanças bruscas nas formas de produzir. O impacto sobre as atividades tradicionais foi intenso, e os problemas decorrentes foram mascarados sob pena de comprometer o avanço do capital e de incentivar os movimentos sociais e
ambientalistas para as causas sociais e ambientais do Cerrado.
Guilherme Cassel em artigo no Jornal Folha de São Paulo (julho de 2007), diz que a
agricultura familiar/camponesa é responsável por cerca de 60% dos alimentos que chegam
à mesa das famílias brasileiras. Esses dados oficiais demonstram a importância desse setor
da economia brasileira, quase sempre, relegado ao esquecimento por parte das políticas
públicas no país.
193
MENDONÇA, M. R.
COMPLEXIDADE DO ESPAÇO AGRÁRIO...
Para os produtos oriundos das lavouras permanentes, as marcas em favor das pequenas unidades de produção são expressivas: 76,0% do algodão arbóreo; 85,4% da banana;
70,4 do café em coco. Tudo isso reflete na superioridade das pequenas unidades de produção (56,8%) no valor da produção (animal e vegetal), e também nas commodities (laranja,
café e cacau), enquanto as médias detêm 29,6% e as grandes 13,6%. Em relação ao pessoal
empregado, essas grandezas se repetem, pois de um total de 18.000.000 de trabalhadores,
as pequenas unidades representam 87,3% e as grandes apenas 2,5%. É importante enfatizar
que mesmo diante da superioridade das pequenas unidades, os latifúndios “escondem” a
terra improdutiva, sabendo-se que, historicamente, o papel da grande propriedade no Brasil é de servir como reserva patrimonial de valor para as elites e setores hegemônicos, ao
contrário das pequenas, que sempre se vinculam à produção, daí sua participação destacada no agronegócio. (OLIVEIRA, 2004).
Esses dados reforçam o contraponto às teses que apresentam a homogeneização espacial a partir da modernização conservadora da agricultura, centrada nas grandes empresas rurais e empreendimentos barrageiros (agrohidronegócio) que promovem intensa degradação ambiental e não cumprem a legislação trabalhista. A alternativa, a nosso ver,
está na leitura do território a partir da Geografia, enquanto uma ciência que objetiva compreender o processo de apropriação e produção do espaço, portanto, visa, destacadamente,
compreender a produção dos territórios.
É necessário partir da compreensão de que os territórios são urdidos, tecidos, desenhados e redesenhados, a partir das ações políticas forjadas no cotidiano, mas, também
partir do entendimento de que esses territórios são tramados nas relações entre as personas
do capital e os trabalhadores. Não são apenas territórios luminosos e/ou opacos, são territórios que denotam relações de poder, conforme a correlação de forças existentes.
Caso não percebamos as diferenças que teimam em persistir diante da tão propalada
homogeneização espacial, não conseguiremos enxergar as tramas urdidas no processo de
produção dos territórios. Não é possível estabelecer, conforme o desejo do mercado, o discurso de que todos podem ser bons empreendedores. Ledo engano. A tentativa de uniformizar e padronizar as diferenças evidencia a habilidade dos protagonistas (empresas
transnacionais, Estado) que não querem reconhecer a existência milenar de diferentes formas de uso e exploração da terra, estas coadunadas com as necessidades do Homem e do
Meio.
Na dimensão teórica faz-se importante recorrer a Thompson (1981) com o conceito
de experiência para compreendermos, como um conceito distante3, como de camponês, relações de reciprocidades, memória, dentre outros podem ser estabelecidos. O autor diz que
o que descobrimos está num termo que falta: a experiência humana. Os homens e mulheres
retornam como sujeitos, dentro deste termo - não como sujeitos autônomos, “indivíduos
livres”, mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida “tratam” essa
experiência em sua consciência e sua cultura.
Ao vivenciarem suas experiências, esses sujeitos produzem representações sobre si,
sobre o mundo e sobre sua ação neste mundo. Cândido (1979) nos apresenta um estudo
sobre a vida caipira paulista, buscando apreender os traços constitutivos daquilo que compõe o tipo tradicional do ser caipira. Assim as dimensões da alimentação, habitação, costumes, compõem e reafirmam o que é a cultura do homem do campo.
Essas abordagens nos auxiliam a compreender as tramas espaciais considerando o
aprendizado coletivo dos sujeitos pesquisados. Há que refletir sobre o alerta de Primavesi
(2007), quando ressalta o papel do equilíbrio natural-social, mencionando que na natureza
há muitas coisas para as quais não temos respostas e para muitas respostas dizemos: “isso
não é científico”! Nesses casos devemos aprender com os sujeitos que ali vivem, pois aprenderam a partir da observação e da experiência, algo que a ciência ainda não descobriu
adequadamente.
3
GEERTZ, C. Do ponto de vista do nativo: a natureza do entendimento antropológico. In: O saber local - Novos
ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997
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Terra Livre - n. 34 (1): 189-202, 2010
Essas lições sequer são lembradas pelo capital. O agrohidronegócio é o portador do
progresso, que, ao ser ideologizado pelas elites, se efetiva, enquanto materialidade capitalista. Por isso não se deve desconsiderar os seus aspectos negativos, uma vez que forja um
pacto de alianças, não apresentando as contradições que são, inclusive, condição para a sua
operacionalização. A construção de ações políticas a partir de elementos sócio-culturais que
asseguram nichos identitários e o permanente diálogo com o mundo denota a compreensão
de que as questões reivindicadas estão situadas na articulação do lugar com o mundo e
vice-versa, apontando para novas sociabilidades aceleradas pelo movimento do capital
agroindustrial e financeiro. É nessa interlocução com o sistema mundo que se singularizam e, buscam se afirmar, a partir dos constructos políticos e culturais.
São essas motivações/ações que nos farão extrair entendimentos e conhecimentos
das respectivas relações sociais vivenciadas pelos trabalhadores, e que podem se externalizar
por meio de diferentes atividades (nos campos e nas cidades), como também incidir em
mais de uma modalidade para um mesmo trabalhador – daí o conceito de plasticidade
ocupar importante contribuição explicativa sobre a dinâmica geográfica do trabalho –, a
partir do momento em que realizam diferentes atividades laborativas, em territórios e
momentos também diversos e sem nenhuma unidade teórica e analítica que coloque em
evidência a atualidade da fragmentação do trabalho.
Nesse sentido, as práticas agroecológicas, algumas resgatadas e modificadas em acordo
com as novas necessidades técnicas podem expressar a resistência dos camponeses associada aos consumidores que passam a exigir produtos mais saudáveis, inaugurando uma
relação diferenciada com o Meio. Essas ações permitem a busca por uma alimentação saudável e propicia a união de esforços na defesa da reforma agrária, no apoio aos homens e
mulheres que lavram a terra e, se colocam, contra as agressões ao meio ambiente. Isso pode
apontar a unificação orgânica do trabalho, em que os trabalhadores (no campo e na cidade)
se juntam para reivindicar novas formas de produção e novas relações de trabalho, valorizando as ações rumo à soberania alimentar.
Essa reflexão é fundamental para a Geografia, pois o que está em jogo é a defesa dos
territórios (camponês, indígena, quilombola, ribeirinho, seringueiro, cerradeiro). A defesa
das condições de vida e de relações adequadas com a natureza é possível a partir da garantia da permanência e do acesso a terra através de uma reforma agrária que assegure dignidade aos trabalhadores/camponeses e que consiga incorporar os saberes da vida.
Assim, deve levar em conta as especificidades do solo, do clima, dos recursos hídricos
e, principalmente os saberes-fazeres, as experiências e vivências dos sujeitos rumo ao fortalecimento da luta pela terra e pela reforma agrária, pois o que está em jogo não é apenas
a sobrevivência do capital, mas a produção de alimentos e sua adequada distribuição para
assegurar plenas condições de vida para a maioria da população mundial.
A luta contra as barragens e a luta pela terra são ações que objetivam a sobrevivência digna para milhares de famílias, configurando-se em luta concreta pela cidadania. É a
partir dessa compreensão que se utiliza a categoria movimentos sociais como condição para
efetivar as leituras geográficas, a partir do confronto capital x trabalho na disputa pelo
território. A identificação de perspectivas emancipatórias, considerando o direito à diferença, se coloca como um divisor de águas entre a razão hegemonizada pelo capital e as
racionalidades que pululam e teimam em (Re)Existir pelos diversos territórios, configurando distintas territorialidades.
Os movimentos sociais que lutaram e lutam pela terra, pela água e contra as barragens, pela cidadania plena são legítimos produtores do espaço geográfico, denotando distintos territórios e diferentes formas de concreção espacial, ou seja, as territorialidades.
Quando nos referimos aos modos de vida dos Povos Cerradeiros trata-se da forma como se
realiza a vida cotidiana, envolvendo os modos de fazer, ser, interagir e representar, produzidos socialmente.
AS (RE)EXISTÊNCIAS...
Os homens se relacionam a partir do processo de produção e no campo essa relação é
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MENDONÇA, M. R.
COMPLEXIDADE DO ESPAÇO AGRÁRIO...
baseada no cultivo e no labor com a terra, uma prática econômica e sociocultural que entrelaça diversos sentidos. Para apreender como esses sujeitos marcam e demarcam seus territórios e temporalidades torna-se fundamental ter como referência o tempo da natureza,
que é o de plantar, o de colher, o de armazenar, mas também é o de comer e o de festar.
O que nos interessa é a partir da dimensão espacial da modernização do capital
nessas terras, compreender o universo camponês e as formas de (Re)Existência construídas.
Essas ações são permeadas por lutas pela permanência na terra, mas também por variadas
dimensões do ser camponês, como as práticas socioculturais (religiosidade, festas, atividades políticas e oferta/recebimentos de demão, mutirões, “traições”, enfim, o trabalho coletivo etc.) que firma e estabelece laços de solidariedade, possibilitando resolver questões do
cotidiano.
Outro aspecto, não menos importante, é fazer o contraponto às ações desenvolvidas
pelo agrohidronegócio nas áreas de Cerrado, tidas e havidas, como a única forma de uso da
terra que gera trabalho, renda e inclusão social, melhorando a vida de todos. Assim, o foco
é (des)construir as falácias implementadas pelos empresários rurais e seus apoiadores,
sustentados pelo Estado e pelo capital agroindustrial, químico e financeiro
transnacionalizados. As transformação no campo, a partir da implementação dos novos
sistemas técnicos e tecnológicos, alterou os modos de vida dos trabalhadores/camponeses,
mas também trouxe (Re)Existências. Compreendemos (Re)Existência, como a associação
da defesa da terra de trabalho às novas ações políticas (protestos, marchas, fechamento de
rodovias, ocupação de prédios públicos etc) fortalecidas pelas práticas socioculturais.
Esse processo possibilitou aos trabalhadores/camponeses a constituição de várias
(Re)Existências, seja nas práticas pedagógicas e/ou socioculturais, seja na ação política na
luta contra a desterritorialização, na luta pelo acesso a terra e na luta pela reforma agrária, na luta pela água e contra a s barragens, configurando a defesa dos territórios da vida.
Embora diversas ações dessa natureza tenham ocorrido ao longo da história, há que considerar que, com a modernização capitalista no campo, os constructos políticos e ideológicos
foram fortalecidos, pois afirmavam a necessidade de aceitar o moderno e, para isso, era
preciso desenraizar-se.
[…] para ser moderno havia que negar as raízes rurais, os valores, os comportamentos, as
formas de expressão cultural, enfim, a tradição. Ainda, era necessário se revestir dos valores e
das ações que chegavam, trazidas pelo capital industrial e financeiro que apontavam novas
necessidades de consumo. Mais tarde, à medida que os trabalhadores foram tendo acesso aos
bens produzidos, também incorporaram os novos objetos, reelaboraram suas ações, mas não
abandonaram por inteiro as sociabilidades construídas nas áreas rurais, constituindo sociabilidades híbridas. As práticas solidárias de ajuda mútua, mutirão, companheirismo, compadrio
e festas religiosas, entre outras, foram transpostas para as áreas urbanas, possibilitando uma
simbiose diversa e riquíssima entre experiências intercambiadas no processo de
desterritorialização dos Povos Cerradeiros. (MENDONÇA, 2004 p. 137).
As práticas sociais e culturais, tipicamente rurais, reconstruídas nos espaços
urbanos possibilitam a criação de ações políticas que podem fundir a luta pelos direitos
básicos de existência na cidade (moradia, saneamento básico, saúde, educação etc.) com a
necessidade da reforma agrária, diante da territorialização dos movimentos sociais que
lutam pela terra. A relação cidade-campo apresenta novos contornos que podem potenciar
a luta por dias melhores, tanto no campo, com a exigência da reforma agrária, quanto na
cidade pelas políticas públicas de gestão do espaço urbano, conforme as necessidades das
classes trabalhadoras. Assim a agricultura camponesa se caracteriza pela relação complexa entre terra, trabalho e família e o resgate do cultivo e da cultura com práticas
agroecológicas (exemplo o cultivo de sementes crioulas), além de constituir o sustento e a
soberania alimentar, garante a (Re)Existência histórica e cultural dos trabalhadores/camponeses.
Sabe-se que é possível (des)construir as informações que sustentam os mitos do
agrohidronegócio. Todavia, essa atitude implica um posicionamento político e científico
que, quase sempre, intelectuais e demais agentes formadores de opinião não desejam e não
querem. São muitos os interesses das oligarquias financeiras oligopolizadas, ansiosas pe-
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las fatias de mercado e por impor novos padrões de consumo a partir da transgenia e da
comercialização de novos pacotes tecnológicos, que nos deixam “saudosos” das famigeradas
medidas implementadas pela Revolução Verde.
Torna-se fundamental se debruçar sobre a geopolítica da água e/ou dos novos recursos, tais como a sociobiodiversidade, as práticas socioculturais que movem e expressam
outras racionalidades, portanto, cosmovisões que, paulatinamente, estão sendo apropriadas e incorporadas ao modus vivendi. Há que ter cuidado com os discursos afoitos e as
decisões apressadas que aprontadas para dar respostas à crise do capital, não podem e
jamais poderiam significar mudanças no processo de produção social, pois na essência o
controle do capital se efetiva, de forma mais sutil, mas também de forma mais eficaz, pois
travestida de ações humanizadoras agrega pesquisadores, setores progressistas, Organizações não Governamentais, partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais que com a
espetacularização dos fatos, aplaudem sem saber ao certo os sentidos e os significados dessas investidas.
Não é possível fazer a defesa da agroenergia como uma das soluções para a questão
ambiental, embora é sabido que pesquisas sobre fontes alternativas são fundamentais,
desde que os seus resultados sejam disponibilizados para os interesses da maioria e não
para serem mercantilizados para aqueles que podem pagar mais. Por outro lado, não se
pode negar que os agrocombustíveis estão ocupando solos que produzem grãos, impactando
a oferta de alimentos no mercado mundial, provocando a elevação dos preços. A questão
central é perceber que a agroenergia, os agrocombustíveis e similares fazem parte de uma
necessidade de expansão das condições de produção/reprodução do capital, mediante a necessidade histórica de manter os padrões de acumulação.
Certamente, é necessário repensar que a civilização contemporânea se baseia na
utilização acelerada dos combustíveis fósseis e isso é um dos principais agravantes para
assegurar a (in)sustentabilidade ambiental no Planeta. Entretanto, não se pode dissociar
essa proposta da necessária discussão sobre as formas de produção e o acesso aos bens
produzidos socialmente. O receio é que se fazermos uma reflexão qualificada, daqui a algumas décadas tenhamos veículos movidos a hidrogênio possíveis de serem adquiridos, mas
concentrados nas áreas limpas (ricas) em função da manutenção das relações de poder
entre as economias mundiais.
Em Goiás, em publicação recente realizada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência Regional, Castro et. al (2007), destaca que das 103 usinas listadas (18 em
operação, 29 em implantação, 41 com projeto aprovado e 15 com projeto em análise), 77
concentram-se no Sul Goiano, área de maior concentração de infra-estrutura e populacional.
Destaca que a questão ambiental (solo, água) deve ser uma preocupação fundamental,
pois:
[...] mais da metade do território goiano (cerca de 60%) contém solos com elevada a moderada
aptidão agrícola para a cultura da cana e relacionada principalmente a latossolos, argissolos e
cambissolos, onde 17 mil km2 respondem pelo alto potencial e 85 mil km2 pelo moderado. Em
ambos a prática irrigada poderá significar uma maior pressão sobre a oferta hídrica, relacionada principalmente à necessidade de irrigação, em consequência da forte sazonalidade e possível baixa disponibilidade de água nos solos [...] (CASTRO et al., 2007, p. 17).
Ainda acrescenta o que mencionamos anteriormente, sobre a substituição e ou a
redução das áreas dedicadas ao uso agropecuário, destacando-se o uso agrícola: “Considerando-se o uso dos solos, aproximadamente 60% das usinas estarão instaladas em áreas de
uso agrícola associado a culturas anuais em 2003, o que revela tendência de substituição de
áreas já tradicionalmente agrícolas praticadas sobre solos com melhor potencial do estado.” Castro et al (2007, p. 17).
A principal ameaça é a atuação predatória das grandes empresas transnacionais nos
países mais pobres, principalmente na América Latina, na África ou na Ásia. Essas empresas pressionam os governos a adotarem políticas que restringem o acesso das populações
mais necessitadas aos recursos hídricos. A estratégia dos conglomerados empresariais internacionais apoiados pelos Estados dependentes, dentre eles o Brasil, consiste na monopolização da água para a viabilização de grandes projetos, como a construção de grandes
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MENDONÇA, M. R.
COMPLEXIDADE DO ESPAÇO AGRÁRIO...
barragens (energia, irrigação, hidrovias etc) para assegurar reservas d’água, visando garantir a acumulação de recursos para a produção de mercadorias e um maior controle sobre
as populações empobrecidas nessas localidades.
Exemplificando, que possamos fazer uma reflexão sobre a ação dos empreendimentos barrageiros. Apenas no Estado de Goiás estão previstas a construção de quase uma
centena de usinas hidroelétricas (Pequenas Centrais Hidrelétricas com capacidade instalada de produção inferior a 30 MW e Usinas de Aproveitamento Hidrelétrico acima de 30
MW), controladas por grandes transnacionais da energia, destacando-se a Alcoa e a Tractebel
Energia.
Nas áreas de Cerrado e, particularmente, no Estado de Goiás (berço das águas) são
fundamentais informações científicas da rede hidrometeorológica, bem como, das condições de acesso/uso, principalmente diante das investidas dos megaprojetos hidroelétricos
transnacionais que visam assegurar a produção de energia barata para os grandes conglomerados industriais eletrointensivos. Ainda, há que observar a proliferação desenfreada
de lagos artificiais de diversas dimensões para assegurar a irrigação sem os procedimentos
adequados para atender a demanda das atividades agroexportadoras.
Não resta nenhuma dúvida sobre a reinvenção de nomenclaturas, quase sempre,
para garantir as velhas formas de sustentação das relações de poder, centradas nas mãos
de poucas grandes empresas transnacionalizadas, configurando as disputas pelos territórios sob o argumento de “acabar com a fome”. A fome é uma questão política e não se deve
crer que o capital esteja preocupado em incentivar o agronegócio dos agrocombustíveis
para diminuir os impactos ambientais e sociais, mas muito mais para ampliar as condições
de geração de lucros, aumentando a produção de mercadorias e não de alimentos, uma vez
que para ter acesso aos alimentos há que ter dinheiro.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A complexificação das configurações geográficas a partir das alterações na forma de
produzir valor (desemprego conjuntural e estrutural) promoveram a mais cruel realidade
para grande parcela dos trabalhadores brasileiros, sendo que, o empobrecimento é significativamente maior entre os trabalhadores oriundos da terra.
Vive-se a espetacularização de alternativas, aparentemente novas, para manter as
velhas formas de produção do capital. Isso implica em criar e fortalecer ações que questionam a natureza da produção social na contemporaneidade, buscando, efetivamente, repensar os territórios a partir do conflito, da disputa, da contradição.
Isso só é possível a partir da ação dos movimentos sociais. Mas, persistem as travagens
impostas pelo estranhamento, impedindo que os trabalhadores concebam o espaço da produção enquanto um espaço social cheio de possibilidades libertadoras. A força dos movimentos sociais reside no processo permanente de espoliação e superexploração vivida pelos
trabalhadores, que atira todos os dias, milhares de famílias na indigência assistida. As
mudanças no processo produtivo empurram os trabalhadores para as formas precarizadas
de trabalho, destacando-se a informalidade, o subemprego, as múltiplas formas terceirizadas
e subcontratadas de trabalho e, ainda, a responsabilização social desses sujeitos sociais
pelas crescentes condições de miserabilidade.
Por fim, preocupam as condições de trabalho em que a maioria dos trabalhadores são
submetidos. Os casos de trabalho escravo estão tomando as páginas dos jornais e, lembramos que parcela significativa, acaba não sendo conhecida do público. Entre as diversas
denúncias de trabalho escravo no Brasil, o agrohidronegócio de destaca, mas temos que
perceber que nos grandes centros urbanos e empresas, tidas como cumpridoras da legislação trabalhista, estão mergulhadas na fétida lista de utilizarem trabalho escavo.
Esse é o caso das Lojas Marisa em que a Superintendência Regional do Trabalho e do
Emprego do Estado de São Paulo, no dia 18/02/2110, encontrou trabalhadores bolivianos
em condições análogas à escravidão em oficinas de costura. Isso demonstra a natureza
destrutiva do capital, independe se no campo ou na cidade.
Outro aspecto não menos relevante é a aquisição de terras pelo capital estrangeiro.
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Estima-se que cerca 4,3 milhões de hectares foram comprados por estrangeiros. “Na maior
parte das vezes, o capital ‘gringo’ destina-se a subsidiar atividades ligadas ao agronegócio,
como a produção de grãos (soja, milho e demais), cana-de-açúcar, algodão (NASCIMENTO,
2009, p. 01). No setor sucroalcooleiro existem informações em que cerca de 20% da capacidade produtiva já está nas mãos do capital agroindustrial e financeiro estrangeiros. Refletir, pesquisar e se posicionar sobre essas realidades espaciais é tarefa de todos aqueles que
se preocupam com uma sociedade mais humana, inclusive, para evitar que os erros históricos na forma de apropriação do espaço não se repitam. Denúncias de maus tratos aos trabalhadores, escravidão etc. que, infelizmente, ocorrem diariamente não podem fazer parte
do processo de (des)envolvimento. Chega de descaso social e ambiental em nome do progresso.
Compreender que as ações implementadas pelo agrohidronegócio são possíveis no
marco regulatório do Estado capitalista é um desafio, por conta dos compromissos e interesses entre as classes hegemônicas. Entretanto, o que podemos fazer, minimamente, é
exigir o cumprimento da legislação trabalhista e ambiental. Ainda deve-se reivindicar o
zoneamento econômico-ecológico, a agregação de valor aos produtos conforme o interesse
das populações tradicionais, o aproveitamento adequado dos potenciais produtivos dos territórios, políticas públicas eficazes para a agricultura familiar/camponesa etc., e, isso, exige disposição política, compreensão da realidade sócio-econômica e participação efetiva da
sociedade. As tarefas não são fáceis, por isso é preciso (re)agir rumo a compreensão de que
todas essas ações são mitigadoras, pois enquanto perdurar as formas de produção capitalistas a ameaça à sobrevivência de bilhões de homens e mulheres será uma constante.
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COMPLEXIDADE DO ESPAÇO AGRÁRIO...
Terra Livre - n. 33 (2): 155-170, 2009
A DESCONTRUÇÃO DA
DOUTRINA DO
DESENVOLVIMENTO
VIMENTO
DESENVOL
NO ESPÍRITO SANTO
BRASIL
-
THE
DECONSTRUCTION OF
DEVELOPMENT
DOCTRINE IN
ESPÍRITO SANTO BRASIL
LA
DECONSTRUCCIÓN
DE LA DOCTRINA DEL
DESARROLLO EN EL
ESPÍRITO SANTO BRASIL
PAULO CÉSAR SCARIM
UFES
[email protected]
Terra Livre
Resumo: Este trabalho busca resgatar a institucionalização do
desenvolvimento. O desenvolvimento baseado na predominância
de um único sistema de conhecimento expandiu a marginalização
e a desqualificação de outros sistemas de conhecimento, a partir
dos quais seria possível encontrar racionalidades alternativas às
formas de conhecimentos economicistas e reducionistas. Várias
versões locais do desenvolvimento foram criadas, a do Espírito Santo
(Brasil) foi uma delas. Buscamos neste trabalho demonstrar, por
meio do exame das formas, a partir das quais se instalou o
desenvolvimentismo , os limites existentes para este projeto,
enfocando as ações coletivas dos movimentos sociais, representando
a alteridade, possibilitando, assim, enxergar a insurreição
discursiva.
Summary: This paper tries to rescue the development
institutionalization . The development based on the predominance
of a single system of knowledge spread the marginalization and
disqualification of other knowledge systems, from which it would
be possible to find alternative forms of rationalities knowledge
economistic and reductionist. Many local versions of the
development were created, as the Espírito Santo‘s (Brazil) version
. This work aims to demonstrate, through an examination of forms,
from which he settled developmentalism, the limits existing for
this project, focusing on the collective actions of social movements,
representing the otherness, and thus make seeing the insurgency
discourse.
Resumen: Este trabajo trata de rescatar la institucionalización del
desarrollo. El desarrollo basado en el predominio de un sistema
único de difundir el conocimiento ha expendido la marginación y
la descalificación de otros sistemas de conocimiento, de la que sería
posible encontrar racionalidades alternativas a las formas de
conocimiento economicista y reduccionista. Diversas versiones
locales del desarrollo fueron creados, el del Espírito Santo (Brasil)
fue uno. Este trabajo pretende demostrar, mediante un estudio de
las formas, de la cual se estableció el “desarrollismo”, los límites
existentes para este proyecto, centrado en las acciones colectivas
de los movimientos sociales, en representación de la alteridad, y
así hacer ver la insurgencia discursiva.
São Paulo/SP
Ano 26, V.1, n. 34
p. 203-220 Jan-Jun/2010
203
SCARIM, P. C.
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
1- INTRODUÇÃO
Desconstruir o Desenvolvimento é um desafio, ou uma necessidade vital como argumenta Orlando Fals Borba na introdução ao livro de Arturo Escobar, La Invención del
Tercer Mundo (1996). Escobar produz uma obra fundamental, pois descortina a construção
do Desenvolvimento, ou seja, daquela ideologia que encontrou conjuntura propícia no período após a Segunda Guerra Mundial, tendo a doutrina Truman como o centro e a O.N.U
como instrumento principal de propagação do modelo das sociedades avançadas da época,
baseado na urbanização e industrialização, tecnificação da agricultura, rápido crescimento
da produção e aceitação dos valores modernos, da sociedade produtora e do consumo de
mercadorias. Os principais componentes dessa ideologia eram o capital, a ciência e a
tecnologia.
Esta doutrina propagava a necessidade de reestruturação das sociedades agora localizadas, cartografadas e hierarquizadas como subdesenvolvidas nas quais saberes deveriam ser erradicados, instituições desintegradas e modos de vida transformados, pois vistos
como obstáculos ao progresso econômico. O debate em torno da natureza deste desenvolvimento vai dominar o eixo das discussões no agora denominado terceiro mundo nas décadas
de 1950, 1960 e 1970. Mais que sua formulação, o que chama à atenção é a forma de aceitação e implementação desta doutrina na Ásia, África e na América Latina, pois a crítica
ficou muito em torno do tipo de desenvolvimento e menos sobre as incertezas acerca desta
doutrina.
A realidade, como lembra Escobar (1996), foi colonizada pelo discurso do desenvolvimento, que se converteu em certeza para o imaginário social, dominando o espaço discursivo
da época. Transformado num novo campo do pensamento e da experiência, o desenvolvimento constituiu-se também nas próprias estratégias para o enfrentamento dos obstáculos
ao mesmo, ou seja, em estratégias para interromper historicidades. Parte da estratégia era
discursiva (colonialista), para a qual o terceiro mundo caracterizava-se apenas pela fome,
analfabetismo e impotência, necessitando, portanto, da ajuda dos países ocidentais do norte.
Escobar fala do desenvolvimento como uma experiência, historicamente singular,
caracterizada por criar um domínio do pensamento e da ação, definido por formas de pensamento através do qual ganha existência (objetos, conceitos e teorias), por um sistema de
poder que regula a prática e por formas de subjetividade fomentada por este discurso (reconhecimento). Esta formação discursiva dá origem a todo um aparato eficiente que relaciona formas de conhecimento com as técnicas de poder.
Se por um lado, Escobar procura mostrar o estabelecimento, a construção e a consolidação do desenvolvimento e o recorrente subdesenvolvimento e como, a partir daí, se
estrutura o aparato de conhecimento e poder, por outro, procurou dar visibilidade às cartografias de resistências, aos mapas conceituais das experiências terceiro mundistas e às
categorias com as quais se viram obrigadas a resistir.
Numa perspectiva desconstrutivista o autor busca expor a imagem do terceiro mundo e identificar as palavras do discurso do desenvolvimento (e seu caráter arbitrário): mercado, planejamento, população, meio ambiente, produção, igualdade, participação, necessidade e pobreza.
O desenvolvimento baseado na predominância de um único sistema de conhecimento dilatou a marginalização e a desqualificação de outros sistemas de conhecimento, a partir dos quais seria possível encontrar racionalidades alternativas às formas de conhecimentos economicistas e reducionistas.
Várias versões locais do desenvolvimento foram criadas, a do Espírito Santo foi uma
delas. Buscamos neste trabalho demonstrar, por meio do exame das formas, a partir das
quais se instalou o desenvolvimentismo, os limites existentes para este projeto, enfocando
as ações coletivas dos movimentos sociais, representando a alteridade, possibilitando, assim, enxergar a insurreição discursiva.
204
Terra Livre - n. 34 (1): 203-220, 2010
2- O
DESENVOLVIMENTISMO
VIMENTISMO NO
DESENVOL
ESPÍRITO SANTO
Em um primeiro momento cabe desnudar a economia do desenvolvimento – seu elemento mais influente – e o papel dos modeladores que, por meio de um conjunto de técnicas
racionais (planejamento, medição, valoração, conhecimentos profissionais e práticas
institucionais), organiza a produção das formas de conhecimento e dos tipos de poder. Partiremos, portanto, da forma local do desenvolvimento, seus atores e seus discursos.
Na análise econômica recorrente no período desenvolvimentista - focada nos elementos do movimento do capital - o Espírito Santo aparece como região periférica ou de desenvolvimento industrial incompleto. Recuperados os impactos da Segunda Guerra Mundial,
uma nova divisão mundial do trabalho passa a ser delineada na conjuntura geopolítica da
Guerra Fria. A concentração do capital, a formação de grandes conglomerados econômicos
e a ampliação da escala de produção e consumo são marcas importantes deste período.
Existem muitas outras.
Estas transformações das economias dos países desenvolvidos passam a exigir esforços modernizadores das economias subdesenvolvidas, no sentido de aliar o aparato estatal
ao capital internacional e nacional. A criação da Cepal em 1948, do BNDE em 1952 e da
SUDENE em 1959 foram elementos da institucionalização do desenvolvimento na América
Latina e no Brasil.
No Brasil estas transformações provocaram a internalização das dinâmicas internacionais e a internacionalização do capital, o que provocou reassentamentos políticos entre
as forças dominantes tradicionais e os propulsores da industrialização-urbanização. A centralização política, as mudanças nas leis e os planos de desenvolvimento são aspectos cruciais
nesta reorganização político-institucional.
A concepção hierárquica e classificatória da visão de mundo centrada no modelo ocidental-moderno produziu a hierarquização regional, tendo como pano de fundo dois brasis,
o moderno e o arcaico. A internalização da visão cepalina e o Plano de Metas (1950-1955)
são saídas apresentadas ao suposto atraso das regiões periféricas. Impõem, para tanto, a
aplicação de investimentos em infraestrutura de energia e transporte, a integração dependente entre centro e periferia e a substituição das importações. A inserção das regiões
periféricas se dará, dentro desta divisão espacial do trabalho e da lógica do capital, como
área complementar e de possibilidades limitadas. O Espírito Santo, mesmo fazendo parte
da região Sudeste, região moderna-industrial, portanto, não apresentando os níveis de
industrialização característicos das regiões centrais foi localizado na periferia desta região,
o “Nordeste do Sudeste”, como normalmente passa a ser caracterizado a partir deste contexto de criação das grandes regiões brasileiras (a partir da década de 1940) e do
desenvolvimentismo brasileiro (a partir da década de 1950).
Esta percepção do atraso produz também uma leitura interna ao solo capixaba de
seu presente e de seu passado, como também das possibilidades futuras. Quanto ao passado, o atraso transparece como isolamento colonial, ocupação predominantemente litorânea
e reconhecimento das barreiras naturais e institucionais à dominação do solo. O modelo
agroexportador baseado em ciclos de monoculturas passa a ser visto como forma-conteúdo
do atraso.
A palavra-chave deste discurso foi crise do café
café. O comércio do café, principal produto exportador, era controlado por grandes mercadores sediados, principalmente, no Rio de
Janeiro. Com o aumento da produção e a queda do preço, na década de 1950, as condições
para a realização do capital estavam se estreitando. As unidades agrícolas capixabas, principalmente as produtoras de café, eram em sua maioria familiares, com pouco trabalho
assalariado e pouco consumo, porque autosuficientes, e foram identificadas como a causa
do atraso.
A busca, neste trabalho, da compreensão das territorialidades na formação do espaço
agrário capixaba revelou um complexo de conflitos demarcados temporalmente por um
acúmulo desigual, no território, das experiências de resistências às tentativas de
desterritorialização.
Este processo de acúmulo, por sua vez, foi se configurando por rupturas nas formas
205
SCARIM, P. C.
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
e dinâmicas territoriais definindo padrões diferenciados de conflitividade que nos permitiram periodizar este processo em quatro lógicas diferenciadas: a colonial, a moderna colonial, a desenvolvimentista moderna colonial e a global desenvolvimentista moderna colonial.
Para se implantar no estado do Espírito Santo, a ideologia desenvolvimentista necessitou produzir uma versão sobre a história, uma concepção sobre o real e uma visão
sobre o futuro.
Na versão sobre a história, construiu a tese sobre o vazio demográfico, sob a lógica de
que a colonização-modernização foi um processo constante de ocupação de terras de ninguém, provocando intencionalmente a invisibilidade e a subalternização de ambientes e
povos.
Quanto à concepção sobre o real - que se constitui parte e reforço da tese do vazio
demográfico - a expansão de áreas subalternizadas deram-se pelo critério da desqualificação
das áreas como atrasadas e subdesenvolvidas, num processo autoritário de desagregação
da pequena agricultura familiar e de liberação de áreas para outros usos considerados
mais modernos e racionais.
A visão sobre o futuro busca, a partir da desqualificação e da deslegitimação do conhecimento popular, apoiada no domínio da ciência e da técnica, ordenar o futuro. Para
tanto, a razão como única alternativa à saída da crise é apresentada a partir do domínio da
razão, escamoteando a defesa radical dos interesses da industrialização.
Buscamos analisar os documentos e estudos da época que institucionalizaram a ideologia do desenvolvimentismo e os modos como esta ideologia se propagou atingindo trabalhos acadêmicos da época e também de décadas posteriores. Buscaremos, na análise, expor
as ideias fortes e palavras chaves desta construção ideológica.
Antes, porém, foi necessário entendermos o contexto na qual estas concepções foram
implementadas e quais foram os sujeitos e intencionalidades que nortearam a elaboração
do ideário do desenvolvimento.
Resumidamente o fortalecimento de Vitória, com seus portos e ferrovias, como centro exportador de café e minérios, ainda no final da década de 1950, acelerando o comércio
urbano, vai provocar também transformações nas políticas e nos interesses públicos e privados no estado a partir dos governos de Jones dos Santos Neves (1951- 54) e seus interesses industrializantes; de Francisco Lacerda de Aguiar (1955- 58) e os interesses mercantis
exportadores e de Carlos Lindenberg, a partir de 1959, com os interesses agromercantis. A
criação das Federações, do Comércio em 1954 e da Indústria em 1958, reforça esta conjuntura.
É neste contexto que a Federação das Indústrias do Espírito Santo – FINDES –
começa sua atuação, procurando influenciar nas políticas públicas no estado. E, também, o
debate sobre o desenvolvimento do estado ganha notoriedade pública.
As primeiras iniciativas da FINDES já demonstram as perspectivas de sua atuação
no momento em que cria um conselho técnico e realiza um levantamento geoeconômico do
estado. Do conselho técnico faziam parte personagens que posteriormente vão assumir
importantes posições no governo estadual, grandes empresas e em setores diversos da sociedade capixaba, entre eles Arthur Carlos Gerhardt Santos. A criação do Conselho Técnico
da Federação das Indústrias vai transformar a FINDES em órgão auxiliar dos poderes
públicos, no que tange aos problemas industriais. Contribuíram para esta efetivação a realização de diversos eventos, seminários, documentos, estudos e intervenções diretas na
pauta política e economia local.
A criação da SUDENE, em 1959, influencia significativamente tais iniciativas, pois o
Espírito Santo, ao ser excluído destes projetos, passa a reivindicar políticas de atração de
investimentos e de isenção fiscal, levando o governo local a criar um Grupo de Trabalho –
GT, formado pelos representantes das indústrias e das finanças locais, prefeituras e governos estadual e federal. A este GT coube a incumbência de elaborar estudos visando planos
de desenvolvimento para o estado. Diante da “crise” financeira que o estado atravessava
com a economia “presa” ao café, buscou-se influenciar os líderes locais para libertar o estado desta “monocultura” a partir do fomento à industrialização. Através de subgrupos e de
seminários regionais, medidas foram elaboradas para incentivar a industrialização, ampa-
206
Terra Livre - n. 34 (1): 203-220, 2010
rar a agricultura e institucionalizar o planejamento.
É possível perceber as mudanças nos discursos oficiais nos anos de 1960 e 1961,
fortalecendo a visão da promoção do desenvolvimento, visíveis nas articulações para a
mudança da sede da Companhia Vale do Rio Doce – CVRD – para Vitória e com a construção do Porto de Tubarão em Vitória. Assim os discursos oficiais passam, cada vez mais, a ter
uma perspectiva industrializante e de crítica ao isolamento do estado. Diversos documentos deste período começam a ressaltar o “problema do café”
Em 1961, como um dos resultados destes esforços, foi criado o Conselho de Desenvolvimento Econômico – CODEC, que funcionaria como orientador do governo. Mas as medidas sugeridas pelo conselho, na época, não eram aprovadas pela Assembleia Legislativa,
constituída na sua maioria por representantes do setor agromercantil que aprova apenas
tímidas medidas de isenção fiscal.
Em 1962, o Grupo Executivo de Recuperação Econômica da Cafeicultura – GERCA1
– elaborou um plano com o objetivo de reduzir a produção cafeeira. Os resultados não
foram tão expressivos como o esperado.
Francisco Lacerda de Aguiar volta ao governo do estado em 1963 e, com ele, a agricultura volta a ser prioridade nos discursos governistas. Algumas medidas são conduzidas
neste sentido através do “Plano de Industrialização Rural”, do “Plano Educacional
Emergencial”, do estímulo ao processamento de produtos agrícolas tradicionais e ao
associativismo de pequenos empreendimentos rurais. Além disso, fortalece a “Associação
de Crédito e Assistência Técnica Rural do Espírito Santo”” – ACARES2 – e a assistência
rural, que acabaria assumindo o poder político antes conferido aos representantes da FINDES. A criação da Secretaria de Planejamento reduz o poder de intervenção da FINDES.
Em 1964, a FINDES propõe a criação da “Comissão de Desenvolvimento do Meio
Leste” – COMLESTE – que serviria para atração de investimentos. Propõe também a extensão da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste –SUDENE – para a área
ao norte do Rio Doce, ambas propostas negadas pelo governo federal.
A partir do Golpe Militar de 1964, institui-se a centralização do poder e das decisões,
o crescimento econômico com a política macroeconômica expansionista, e a promoção de
investimentos privados através de incentivos fiscais e de linhas de financiamento diretos
com taxas de juros subsidiadas.
Em 1965, devido a várias pressões locais e federais, o governador Francisco Lacerda
de Aguiar renuncia e em seu lugar assume o vice-governador Rubens Rangel, articulado
aos interesses das bases industrializantes. Neste governo interino, ganha força a Secretaria de Planejamento e o CODEC. Este último passa a ser presidido por Arthur Carlos
Gerhardt Santos que, na época, era do quadro técnico da FINDES, após passar por seis
meses de estudos nos EUA.
A Reforma Tributária promovida pelo governo federal que se efetivou nos anos de
1966 e 1967, fortalece a centralização do poder, premiando a capacidade de articulação de
interesses regionais de cada unidade federativa junto ao poder central e, com a criação de
instituições e instrumentos locais de fomento, promove a corrida por recursos federais.
Christiano Dias Lopes Filho, que governou de 1967 a 1970 – primeiro governador
indicado pelo regime militar –, monta um quadro “técnico” a partir do Grupo de Trabalho
constituído no governo anterior por Arthur Carlos Gerhardt Santos, Lélio Rodrigues, Manuel Martins, mais assessores de fora do estado. Ao mesmo tempo vive-se o momento de
um governo federal com centralização em Brasília e do recrudescimento do autoritarismo e
da violência. É neste contexto que as comunidades indígenas e quilombolas sofrem um dos
processos mais rápidos e violento de desterritorialização para plantio de monoculturas de
árvores de eucalipto.
A influência da FINDES aumenta com Christiano Dias Lopes Filho, o que é visível
1
O Grupo Executivo de Recuperação Econômica da Cefeicultura – Gerca, foi criado pelo governo federal em
1961.
2
A Associação de Crédito e Assistência Rural do Espírito Santo, ACARES, foi criada em 1956 e viria a se desdobrar
na EMATER e na INCAPER.
207
SCARIM, P. C.
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
no seu plano de governo que foi baseado no “Diagnóstico para o Planejamento Econômico
do Espírito Santo”, documento elaborado pela FINDES em 1966. É significativo dizer que
este pode ser entendido como um “governo da FINDES”. No entanto, o fato é que Christiano
Dias Lopes Filho foi o primeiro representante que não pertencia ao setor agrofundiário do
Espírito Santo. Além disso, a Federação das Indústrias teve participação ativa neste governo e em vários conselhos estratégicos tais como a SUPPIN - Superintendência de Polarização de Projetos Industriais, a CODEC - Conselho de Desenvolvimento Econômico, entre
outros, e diversos quadros da FINDES ocupavam cargos nos escalões importantes da máquina administrativa.
Em 1967 é realizada uma reforma administrativa visando maior intervenção do Estado na economia, com discurso da racionalização e do desenvolvimento. A máxima veiculada era a de que a industrialização seria o único meio possível para isso. Assim, as bandeiras da Federação das Indústrias, como a conquista de incentivos fiscais, a da criação de um
banco de desenvolvimento e de um centro industrial, são assumidas pelo governo estadual.
O Diagnóstico para o Planejamento Econômico do Estado do Espírito Santo
Santo, de
1966, elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Social e Econômico –
INED – e financiado pela FINDES, com a participação de José Artur Rios e João Paulo
Magalhães, serviu de base para o plano de metas e para o discurso de posse de Christiano
Dias Lopes Filho. O “diagnóstico” propõe o planejamento como instrumento através do
qual o Estado criaria mecanismos de indução do desenvolvimento criando um complexo
industrial, já que as atividades tradicionais, café, cacau e madeira, já não ofereciam perspectivas animadoras, pois foram considerados esgotados seus potenciais produtivos.
Diante dos resultados inexpressivos do plano de erradicação dos cafezais, elaborado
pelo GERCA em 1962, o Instituto Brasileiro do Café (IBC) e o GERCA estabelecem, para o
período de 1966/1967, o segundo programa de erradicação, disponibilizando uma indenização considerada alta para o momento. Os resultados desta vez superaram as expectativas.
Este programa acabou possibilitando o estímulo e a liberação de mão de obra para as atividades que, na época, demonstraram capacidade de crescimento para os anos subsequentes,
tais como a construção civil, a pecuária e o “setor florestal”.
Jones dos Santos Neves assume a direção da FINDES em 1968, permanecendo até
1977. Elabora um plano com 22 pontos dentre os quais constam a criação e atuação de
sindicatos empresariais; a articulação com a CVRD; maior articulação, ação e representação nos órgãos governamentais e no planejamento estadual; criação de um centro industrial; revisão da balança comercial; atração de investimentos.
Em 1968 com a realização do “Simpósio sobre os Problemas do Espírito Santo”, com
a presença do Presidente Costa e Silva, esta articulação da FINDES buscou a concessão de
incentivos fiscais, efetivada em 1969 com a transformação da CODES no Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo – o BANDES, com empréstimos via Banco Nacional de Desenvolvimento – BND. Arthur Carlos Gerhardt Santos assumiu a presidência do banco até
ser nomeado governador. Em 1969, este sistema se fortalece com a criação do Fundo de
Recuperação Econômica do Espírito Santo – FUNRES, gerido pelo Grupo Executivo para a
Recuperação Econômica do Espírito Santo – GERES –, com captação de recursos das renúncias de 33,3% do Imposto de Renda de pessoas físicas e jurídicas residentes na região
capixaba em 1966.
A força da FINDES, neste contexto, pode ser atestada pela conquista de fornecimento de energia com a criação da Espírito Santo Centrais Elétricas S.A. - ESCELSA; a criação
do Banco do Estado do Espírito Santo – BANESTES; a criação de mecanismos de incentivos fiscais para projetos industriais e agropecuários; de benefícios fiscais para a compra de
máquinas e equipamentos; a criação do Centro Industrial de Vitória (CIVIT), em 1969;
soma-se também a criação, em 1971, da Superintendência de Polarização de Projetos Industriais (SUPPIN) e da Coordenação de Planejamento Industrial (COPLAN), órgãos com
participação direta da Federação das Indústrias. Estes elementos demonstram a força da
FINDES neste contexto. A criação em 1969, do Fundo de Desenvolvimento das Atividades
Portuárias (FUNDAP), marca, também, este surto industrializante: obras de infraestrutura
nas estradas, construção de hidrelétricas, construção de usinas de pelotização e o apoio às
208
Terra Livre - n. 34 (1): 203-220, 2010
políticas de “reflorestamento”.3
Em 1968, a federação das indústrias elabora o documento “O Espírito Santo como
Periferia de Dois Pólos”, no qual, a partir da análise da grave crise econômica do estado,
busca a extensão da SUDENE para a zona ao norte do Rio Doce, considerada uma zona
geoeconômica bem definida, num estado pobre entre vizinhos ricos que teria sofrido um
golpe devastador com a erradicação do café. Estas ações derivam no “Plano de Diversificação Econômica e Desenvolvimento Agrícola do Espírito Santo (1968)”. Ao final do governo
de Christiano Dias Lopes Filho várias metas do plano da FINDES obtiveram êxito.
No governo de Arthur Carlos Gerhardt Santos (1971-1974), também sob a força da
ditadura militar, a FINDES buscou consolidar suas conquistas anteriores e abrir novos
espaços para a iniciativa privada com a criação do Fórum de Desenvolvimento Empresarial, entre outras iniciativas; a mesma exerceu bastante influência na elaboração do I Plano
Estadual de Desenvolvimento, fortalecendo a busca de atração dos chamados “grandes
projetos”, como a fábrica da Aracruz Celulose.
No governo de Élcio Álvares (1975 – 1978) foi forte a influência da Federação das
Indústrias na busca destes objetivos, ocupando com seus quadros vários postos importantes no governo, tais como BANDES, Secretaria de Indústria e Comércio SUPPIN, entre
outros.
Neste contexto a FINDES vislumbra uma maior participação do capital capixaba
nas oportunidades de desestatização das empresas públicas, visível no documento “Alguns
Aspectos Estatizantes da Economia Capixaba”, de 1975, coincidentemente ano em que o
governo estadual cria o “Grupo de Trabalho sobre a Desestatização”, que contou com a
participação efetiva da FINDES.
Em 1977 assume a direção da FINDES Oswaldo Vieira Marques (até 1983) já neste
contexto de busca de maior participação das empresas locais no processo de “desenvolvimento”,4 a partir do questionamento da maior participação do capital internacional e da
pouca participação dos ramos tradicionais da economia capixaba.
Esta postura se traduziu em questionamentos sobre a localização industrial da Companhia Siderúrgica de Tubarão – CST, Samarco Mineradora e Aracruz Celulose, por meio
do discurso ambientalista e da exigência de uma política ambiental que fortalecesse os
setores tradicionais (cana-de-açúcar, mineração, agroindústrias, construção civil, petróleo
e turismo) buscado assim, uma maior participação das pequenas e médias empresas, base
de sustentação da Federação das Indústrias, nos investimentos e incentivos fiscais.
Este é o momento vivido pelo último governo do período da ditadura, Eurico Rezende,
que governa de 1979 a 1982. Resulta desta postura a criação, por este governo, da Comissão Estadual da Indústria da Construção – CEICO, e do Conselho de Desenvolvimento
Industrial e Comercial – CEDIC, e na participação direta de diversos quadros da federação
das indústrias.
No Espírito Santo, ao final do processo descrito anteriormente, a crise do milagre
econômico e a ampliação do questionamento político indicando o crepúsculo da ditadura
associado à eclosão das vozes silenciadas e a crise mundial do capitalismo, fez com que, a
partir da segunda metade da década de 1970, uma renovação dos discursos e práticas começasse a despontar.
A partir desta possibilidade, cada vez mais concreta, inicia-se um processo de
desestatização das empresas públicas, momento em que a FINDES vislumbra uma maior
participação do capital capixaba nas oportunidades que se abririam. A referida federação
torna público esse interesse em 1975, através do documento Alguns Aspectos Estatizantes
da Economia Capixaba
Capixaba. Coincidentemente logo após, o governo estadual criou um Grupo
de Trabalho para estudar o processo de desestatização, o que contou com a participação
ativa da FINDES.
3
Coloco este termo “reflorestamento” em suspenso devido à sua constante mudança semântica e sua atual
polêmica político-acadêmica em torno da “monocultura de árvores”.
4
No mesmo sentido do termo “reflorestamento”, por enquanto manteremos o “desenvolvimento” como um termo
em debate.
209
SCARIM, P. C.
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
Um primeiro fato demarca a mudança da forma de mediação praticada pela elite
local frente aos interesses do capital internacional e dos dirigentes nacionais. Em 1977 vem
à tona a primeira tentativa do legislativo capixaba em proibir o plantio de eucalipto em
terras propicias à mecanização agrícola. O governador Élcio Álvares (período da gestão)
veta o projeto e em seu lugar promove isenção de tributos às transações de imóveis destinadas às atividades de reflorestamento como também o financiamento via FUNRES à Aracruz
Celulose.
Neste contexto de busca de maior participação das empresas locais no desenvolvimento, em 1977, assume a direção da FINDES o Sr. Oswaldo Vieira Marques (até 1983) e,
com ele, fortalece-se o discurso de questionamento do disparate entre a participação do
capital internacional e a dos ramos tradicionais da economia capixaba.
A lógica política de mediação voluntariamente subalterna aos grandes projetos definia a participação de seus quadros na direção nas grandes empresas que ainda eram de
controle estatal. Dá-se assim, uma nova troca de função, em 1977, quando Arthur Carlos
Gerhardt Santos assume a presidência de recém criada Companhia Siderúrgica de Tubarão, a CST.
Assim, as duas usinas de pelotização da CST na divisa dos municípios de Vitória e
Serra, da CVRD em parceria com o capital japonês e italiano, conjuntamente com outra
usina em Anchieta, esta com a participação do capital canadense, demarcaram no governo
Élcio Álvares o fortalecimento da participação das poucas grandes empresas nos indicadores econômicos do estado.
Em 1979 entra no governo Eurico Vieira Rezende, com quem as questões centrais do
debate governamental passam a ser o saneamento da contas públicas e a regionalização da
ação integrada do governo.
Esta postura, que se traduziu em questionamentos sobre a localização industrial da
CST, SAMARCO e ARACRUZ, em discurso ambientalista e de política ambiental que fortalecessem os setores tradicionais (cana-de-açúcar, mineração, agroindústrias, construção
civil, petróleo e turismo), busca a maior participação das pequenas e médias empresas,
base de sustentação da federação das indústrias nos investimentos e incentivos fiscais. A
referida postura desdobra-se na criação, pelo governo de Eurico Rezende5, da CEICO Comissão Estadual da Indústria da Construção e do CEDIC - Conselho de Desenvolvimento Industrial e Comercial, e na participação direta de diversos quadros da federação das
indústrias.
O fim da ditadura militar deu-se sob as influências da crise econômica e dos movimentos de recomposições políticas, e fecha-se o ciclo desenvolvimentista com a própria
crise. Assim, os primeiros governadores eleitos após a ditadura, Gerson Camata e Max
Mauro, buscam, em novos conceitos, outras formas de conviver com a estagnação econômica, com a crise do Estado, com o neoliberalismo, com a desvalorização cambial, com a Lei
Kandir em 1986 e buscam apoio para a rearticulação do sistema GERES/BANDES.
Como saída a este contexto de crises os governantes, a partir do início da década de
1990, colocam em prática políticas para promover a abertura comercial com a ampliação
dos benefícios fiscais e de financiamento de unidades de capital e, principalmente, as
privatizações do capital estatal brasileiro, ao mesmo tempo em que praticava a ausência de
políticas de desenvolvimento regional.
Desta forma, nos governos de Albuíno Azevedo (1991-94) e de Vitor Buaiz (19951998), os interesses do SINDIEX – Sindicato das Empresas Importadores e Exportadores
do ES e, principalmente sua articulação, foram fundamentais para a inversão do discurso
da valorização da vocação natural para atividades mercantis-portuárias. Assim, retiram-se
recursos dos cofres públicos por meio de uma prática do Estado que promove a perda da
arrecadação de ICMS pela renuncia fiscal. Neste contexto de guerra dos lugares, os conceitos mudam e, a Integração Competitiva com Especialização, passa a compor os discursos e
documentos da política pública estadual.
5
Eurico Rezende governa de 1979 a 1982, último governo estadual do período da ditadura militar.
210
Terra Livre - n. 34 (1): 203-220, 2010
Aos segmentos de mármore e granito, agroindústria e metalmecânica, que vinham
crescendo com recursos do BNDES, FINEP, CNPq, GERES e BANDES, vão estabelecer
novas formas de mediações, recolocando o Governo no campo dos grupos de interesse local.
Nos anos 80 assistimos a migração dos apelos industrializantes para a defesa de uma suposta vocação natural da região capixaba para o comercio exterior e para o desenvolvimento do setor de serviço como um todo.
Entretanto, esta metamorfose dos conceitos não definiu a total transmutação na ideologia dominante, pois nos anos 90, dos problemas estruturais que impediam a qualificação
das forcas produtivas e a formação de um ambiente científico e tecnológico apropriado ao
salto de qualidade exigida pelas relações concorrenciais, continuavam a atribuir que o principal problema estava na gestão familiar de pequenas unidades de capital e na desarticulação institucional interna que ainda persistiam na região.
Por vários elementos é possível perceber a manutenção de um domínio discursivo
centrado no urbano-industrial, na crise e na erradicação dos cafezais, nas especificidades
da modernização agrícola no estado a partir de alguns elementos históricos, tais como, na
constituição da economia cafeeira baseada na pequena propriedade, nas resistências às
tentativas de industrialização, na integração ao mercado nacional, na industrialização
modernização agrícola e na necessidade da destruição da base produtiva pretérita.
Grande parte dos estudos sobre este processo realimenta as teses do vazio demográfico,
da grande disponibilidade de terras virgens e do isolamento, das crises da agricultura de
pequena escala, da economia de subsistência e de baixa produtividade e conseguem encontrar o “efeito benéfico” deste processo.
Mas apesar das diversas tentativas de desterritorialização camponesa, esta população continuou fortemente presente no território capixaba, como também os discursos do
atraso e do desenvolvimento continuaram presentes.
Assim, apesar das crises vivenciadas pela atividade econômica cafeeira, esta ainda
se apresenta como uma importante opção agrícola capaz de gerar postos de trabalho e
renda para uma parcela expressiva da população do campo, constituindo-se ainda, portanto, na “espinha dorsal” da agricultura estadual. Mesmo assim, diversas propostas de sua
transformação tinham lugar nas pautas técnicas e políticas, pensadas em termos, tais como,
a “Diversificação com café”. Não despontando nenhum outro produto com a capa-cidade de
substituir o café enquanto produto básico para a sustentação da economia agrícola capixaba,
buscou-se promover as transformações estruturais na produção e na reorganiza-ção do
processo de planejamento e acompanhamento da cafeicultura no Espírito Santo. Consideremos aqui, especialmente, o significativo número de pequenos produtores que, historicamente, sustentou econômica e socialmente a população capixaba.
A estratégia de diversificação com o café advogou que o crescimento dessa produção
no Espírito Santo, ao mesmo tempo em que não advogou o au-mento da área plantada com
esse produto, podendo redundar até mesmo na redução da mesma. Aumentar a produção
por hectare através da refor-ma dos cafezais existentes, utilizando de matrizes genéticas
mais produti-vas, tratos culturais que melhor combinem os vetores custos de produção/
produtividade, técnicas de manejo dos solos que permitam sua recuperação e a utilização
racional deste recurso natural.
Verifiquemos, pois, que o duplo sentido da lógica desenvolvimentista continua presente, primeiro quando desconsidera as estratégias camponesas e, segundo, porque apresenta um “pacote” de inovações como solução dos problemas, os quais inclusive foram identificados a partir de um padrão “científico” modernizante.
Por traz de tais estudos está embutida a inserção subalternizada dos agricultores às
grandes empresas, pois a diversificação proposta não advoga a diversifica-ção ao nível das
propriedades, o que representa, por um lado, a mera substituição de uma monocultura por
outra, ampliando os im-pactos das crises de mercado, buscando a integração “base agrícola
x empresas” que deve se dar a partir da atração de empreendimentos novos pelo “escritório
de produção” e pelo estímulo à terceirização (sub-contratação) por empresas pré-existentes. Propõem, assim, tais estudos, ações integradoras subordinando o interior à capital e
esta ao exterior, formando corredores logísticos.
211
SCARIM, P. C.
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
Diversas e contraditórias iniciativas (como a lei que reconhece a propriedade definitiva das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos Quilombos, em atendimento ao artigo 68 da Constituição Federal, no governo Vitor Buaiz; o decreto governamental que expande as áreas de plantio do eucalipto e com o ato da Assembleia Legislativa
que derruba o decreto do governo, no início do governo de José Ignácio de Oliveira; a aprovação em 2001 da Lei número 6.557 que dispõe sobre as terras de domínio do Estado e sua
atuação no processo de discriminação e regularização fundiária, 2001; a aprovação pela
Assembléia Legislativa da Lei número 6.780 proibindo, por tempo indeterminado, o plantio
de eucalipto com fins de produção de celulose no Estado do Espírito Santo até que se realizasse um mapeamento agroecológico e o licenciamento ambiental para o plantio de eucalipto;
e por fim a Assembleia Legislativa aprova a criação de uma Comissão Parlamentar de
Inquérito - CPI - para apurar a situação da monocultura do eucalipto no estado) vão
aprofundar a crise da relação entre o Estado e as empresas na qual a forma de mediação
tradicionalmente instituída a partir da ditadura militar dá seus últimos sinais de existência. Assim, a democracia, introduzindo novos sujeitos na cena política, a privatização das
grandes empresas, rompendo os laços administrativos entre elas e a elite política local e
mais a crise institucional do próprio Estado, questionando a legitimidade de ação pública a
partir da matriz neoliberalista, vão forçar uma mudança da ação e do discurso do setor
privado, à medida que aquelas formas tradicionais de relação já não eram suficientes para
garantir, perante a sociedade local e internacional, a sustentabilidade que antes era garantida pela força do próprio Estado.
A partir de 2003 começam a transparecer novas iniciativas que demarcam a transformação política de uma nova forma de articulação entre interesses privados e interesses
políticos, evitando, assim, novas hostilidades da classe política aos investimentos estrangeiros.
O PEDEAG – Plano Estratégico da Agricultura Capixaba,, construído no início do
primeiro governo de Paulo Hartung (2003-2006) e que foi ampliado para 2007- 2010, atribui o papel de pensar a agricultura capixaba a partir do cenário internacional e do processo
de globalização.
Assim, fica patente a ordem de justificação a partir da globalização, pois segundo o
Plano, esta se expressaria, além do “aumento dos fluxos do comércio”, numa “reestruturação
das atividades econômicas” em escala mundial, com forte “imposição” dos países desenvolvidos na busca de posições mais favoráveis. O imperativo da globalização substitui, assim,
o imperativo da vocação natural do período imediatamente precedente.
O processo de construção do PEDEAG foi um ritual de articulação política e busca de
apoios. Neste documento, portanto, vão aparecer os elementos desta articulação e torna
público o avanço discursivo do agronegócio como articulação de interesses e elaboração
teórica. E neste terreno discursivo verificamos a tendência de inclusão de toda a agricultura no âmbito do agronegócio, pois, segundo o texto, a agricultura empresarial era a principal responsável pela geração de divisas além de âncora verde do Plano Real, a partir dos
últimos anos, com taxa de câmbio mais favorável, vem contribuindo para gerar superávit
nas contas externas.
Ao não apresentar a relação desigual entre o número de estabelecimentos e o domínio efetivo e correlativo entre número e área, o documento apresenta seus objetivos maiores ao longo do texto. Um destes objetivos parte da suposta existência de aproximadamente 600.000 hectares de terras degradadas que, segundo o texto, tal fato poderia ser considerado como um forte limitador da expansão de culturas existentes, inclusive para a diversificação dessas culturas. Esta noção de “terra degradada” será a chave discursiva tanto para
o silêncio acerca das terras improdutivas ou devolutas, quanto para a introdução da necessidade de atividades que “recuperariam” tais áreas.
Além destas terras degradadas, outros fatores limitativos à inclusão às cadeias produtivas e à globalização são apresentados, principalmente aqueles relacionados ao capital
humano e social. Estes fatores limitantes não foram identificados em todos os estratos e
regiões, mas somente “onde o nível de organização das pequenas comunidades apresentava-se ainda precário”. Estas comunidades poderiam, segundo o texto, “funcionar como fa-
212
Terra Livre - n. 34 (1): 203-220, 2010
tor limitador no processo de desenvolvimento.”
Os “fatores facilitadores para o desenvolvimento”, segundo o PEDEAG, se localizariam em outros aspectos, ou seja, na sua localização privilegiada e estratégica que lhe garantisse certas vantagens no acesso aos mercados. As principais referências quanto ao nível de
excelência foram encontradas em alguns estratos do agronegócio capixaba, ou seja, naqueles que se projetam nos mercados nacional e internacional e, portanto, poderiam ser utilizadas como fator facilitador de acesso a mercados e tecnologias: o mamão, o café, o coco e o
eucalipto. Desta forma se elaborou a tese básica de orientação das ações do governo do
estado a partir de 2003. Entre as metas apresentadas encontramos a intenção de promover
4.000 assentamentos com crédito fundiário, ampliar significativamente a exportação, aumentar a produtividade e ampliar diversas áreas de plantio, tais como, em 47% a área
estadual com fruticultura, em 133% a produção de álcool, ampliar a área de monoculturas
de árvores florestal para 290,9 mil hectares, ampliar a produção da pecuária (63% do leite
e em 100% a produção anual de carne bovina) e ampliar as ações em agroturismo, artesanato e agroindústria artesanal, entre outras metas.
A legitimidade conceitual seria dada, portanto, a partir da articulação entre a
competitividade e a existência de áreas degradadas. Ou seja, diante da existência de 600
mil hectares de terras degradadas e dos gargalos representados pela agricultura familiar,
os setores de excelência que conseguem comercializar no mercado internacional seriam
impulsionados a ocupar estas áreas. É importante ressaltar que estes setores, ou seja, a
pecuária, a fruticultura, a cana-de-açúcar, o café e o eucalipto já representavam tendências
à concentração fundiária e à monocultura naquele momento.
O PEDEAG foi, portanto, um marco do surgimento de novos elementos discursivos
apoiados e legitimados em textos programáticos do governo estadual.
Outro elemento importante que começa a se tornar visível nos textos e nas ações foi
uma nova forma de articulação entre os diversos setores econômicos e políticos atuantes no
estado. Esta nova forma de articulação se fortalece a partir da crise institucional dos governos anteriores, na qual as empresas se viram reféns de formas de mediação que não eram
vantajosas para as mesmas, pois os questionamentos às suas práticas econômicas, sociais e
ambientais começavam a ganhar repercussão internacional.
Esta nova articulação se torna textual em 2006, quando a organização não governamental Espírito Santo em Ação elabora o Plano de Desenvolvimento: Espírito Santo 2025,
e principalmente quando o governo do estado do Espírito Santo assume como o Plano do
Governo (Paulo Hartung).
A organização “Espírito Santo em Ação”, criada num contexto de crise do pacto anteriormente forjado, reúne representantes de várias empresas, tais como, a Aracruz Celulose, Águia Branca, CST, Grupo Tristão, CVRD, Samarco, Suzano, Fibrasa, Petrobras, Escelsa,
Banco do Brasil, Calimam, Frisa, Nebrax, Itapemirim, Suco Mais, A Futura, A Gazeta,
Gaya e Elkem. Além dessas empresas, fazem parte da organização personalidades como
Arthur Carlos Gerhardt Santos e líderes da FINDES, do Exército e professores da Universidade Federal do Espírito Santo. A entidade se propõe ser a catalizadora dos interesses
originários dos setores empresariais. Uma de suas ações no ano de 2006 foi a publicação de
manifestos contra as ações indígenas no norte do estado e a nota de repúdio “aos atos de
violência cometidos por índios e não índios (integrantes do MST, CIMI, Rede Alerta Contra
o Deserto Verde e outros) contra a Aracruz e a ordem pública”.
O projeto ES-2025 aponta para o “novo ciclo de desenvolvimento” do estado, baseado
na “integração competitiva, em nível nacional e internacional, de uma economia capixaba
diversificada e de maior valor agregado, sustentada pelo capital humano, social e
institucional de alta qualidade” (palavras do governador Paulo Hartung no documento síntese do plano).
Um dos eixos do documento estabelece “bases sólidas para a construção do futuro” do
Espírito Santo após a superação da crise sendo “em sua essência um plano estratégico de
desenvolvimento”, que consolida “grandes escolhas” que orientarão o futuro. Uma grande
pergunta se coloca: onde queremos chegar?
O Plano ES-2025 parte de uma análise retrospectiva focada no fato de que “desde
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SCARIM, P. C.
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
meados do século XIX até a década de 1950, os ciclos econômicos no Estado do Espírito
Santo estavam intimamente ligados à atividade cafeeira”. Apesar das crises e da redução
da renda, “o modelo de produção em pequenas propriedades familiares dificultava a substituição da cultura, em razão do caráter de subsistência de parte delas”.
De meados dos anos de 1960 até a metade dos anos de 1980, a economia capixaba,
segundo o Plano ES 2025 teria sido marcada por “forte impacto sobre o grau de diversificação de sua base produtiva” passando de uma economia predominantemente agro-exportadora, centrada na produção cafeeira em pequena escala, para uma especialização secundário-exportadora centrada em commodities industriais de produção em larga escala. A partir de 1975, a expansão industrial teria sido mais significativa quando fomentada pelo
grande capital estatal e estrangeiro.
Até os anos de 1960, segundo o Plano ES2025 o grupo hegemônico estaria relacionado essencialmente ao espaço agrário, centrado nos “interesses particulares da classe política dominante”. Com o segundo ciclo de industrialização baseado nos grandes projetos, diante de uma “nova política institucional” externa, o impulso econômico ocasionado e a forte
união entre a União e as lideranças políticas urbanas emergentes “resultou numa forte
reconfiguração político-institucional” no ES. Mas, na década de 1990, o ES teria passado
por uma “forte crise ética e moral”. Após enfrentar esta crise, aliado à forte conjuntura de
crescimento econômico, o ES vive um momento de euforia pelas suas potencialidades: base
logística de alta capacidade, segmentos econômicos de competitividade (mineração, siderurgia, celulose, petróleo, agricultura em diversificação e arranjos produtivos locais), abundância de recursos minerais, ativos ambientais de alto valor, estrutura fundiária equilibrada (“milhares de pequenas propriedades produtivas”), janela democrática favorável, diversidade étnica e cultural e posição geográfica favorável em face da dinâmica da globalização.
Apesar de lembrarem com euforia de milhares de pequenas propriedades produtivas
e da diversidade étnica e cultural, dentre os fatores do contexto capixaba que mais influenciarão o futuro do Espírito Santo, estes desaparecem como sujeitos, incorporados e contidos
no interior de alguns elementos, como nos arranjos produtivos locais, na consciência
ambiental, nos níveis de pobreza, nos fluxos migratórios e nos gargalos no sistema logístico.
No entanto, a principal estratégia do documento é a “importância do comércio exterior
para o desenvolvimento econômico” e a demanda de mão-de-obra qualificada.
Assim, no novo ciclo de desenvolvimento figurariam como pilares centrais a integração
competitiva da economia capixaba ao mundo, o desenvolvimento do capital humano, a eficiência do setor público e o dinamismo e inovação empresarial.
Neste contexto são demarcados os poderios político e econômico das grandes empresas no Espírito Santo. Em 2006, das 200 maiores empresas do Espírito Santo, as 10 maiores empresas privadas (CST, CVRD, ARACRUZ, SAMARCO, COTIA, ESCELSA, COIMEX,
HERINGER, NIBRASCO E GAROTO) somavam a receita anual de 60 bilhões de reais.
Das 200 maiores empresas, 145 estavam na grande Vitória gerando 40.000 empregos. A
Aracruz com 3,7 bilhões de reais de receita gerava 2.249 empregos diretos, ou seja, quase
dois milhões de reais por emprego. A receita destas 200 empresas gerada no estado era de
49 bilhões de reais, com lucro de 23 bilhões de reais. As exportações somaram 6 bilhões de
reais, sendo que destes 45% era do setor de minérios, 25% do aço, 11% da celulose, 10%
mármore e granito e 4% do café. Os EUA ficaram na preferência com 23,8%, a China com
9%, 2%, a Coréia do Sul 8,1%, a Holanda 5,8%, a Argentina 4,8% e o Japão 3,9%.
Em termos de arrecadação de impostos o cálculo muda. A Aracruz, por exemplo, ficou
com o 83° lugar na classificação geral em 2005, gerando 6,3 milhões de reais em impostos.
No mesmo ano gastou 174,6 milhões para comprar terras para plantio de eucaliptos. Apenas como parâmetro de comparação, a Aracruz Celulose contribuiu com financiamentos de
campanha eleitoral em 2006 com o total de 4.952.389,0 reais.
3- CONCLUSÕES
Estes foram os agentes da implantação da doutrina desenvolvimentista no E.S e da
tentativa de desterritorialização camponesa, indígena e quilombola de seus territórios. Para
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Terra Livre - n. 34 (1): 203-220, 2010
Milton Santos 1996 o território devia ser considerado como um conjunto com suas divisões,
heranças e conteúdos diversos, pois é desse modo que ele constitui, pelos lugares, aquele
quadro da vida social onde tudo é intermitente, onde fusões e tensões são registros antigos.
E recomposições e capturações, pois, como lembra Guatarri (2000), se as desterritorializações
provocam linhas de fuga, o território guarda o sentido da apropriação, da subjetivação
fechada sobre si mesmo.
Este processo pós-ditadura deixa suas marcas nas territorialidades agrárias no ES.
A territorialidade, com a sua múltipla semantização do espaço, lugar, paisagem e região,
além das suas dimensões concreta e subjetiva, experiencia outro contraponto, o do movimento, da mobilidade, dos fluxos e das redes. Aos elementos básicos do território (pontos,
linhas e área), a mundialização das cidades e das redes acrescenta as questões das escalas
e das territorialidades. Atribui, portanto, outras qualidades de ser território, identidade,
subjetividade, apropriação, domínio, densidade e fluidez.
Outra incerteza é quanto à capacidade de regulação do Estado, pois não são todos
que vivem na mesma dinâmica e na mesma velocidade. Milton Santos procurava reconhecer a realidade dos territórios tal como é utilizado pela população como um todo. Argumentava que estes usos são múltiplos e por diferentes velocidades e diversas técnicas, colocando em debate a tese da unanimidade da velocidade como único caminho. (SANTOS, 1996,
p.166)
Estes elementos colocam a necessidade da reflexão sobre o conhecimento possível
diante das incertezas. Walter D. Mignolo (2003) encontra no potencial epistemológico do
pensamento liminar a possibilidade de superar a limitação do pensamento territorial, da
epistemologia monolítica da realidade.
O pensamento objetivista espacial, ao pensar as fronteiras, recairia em estudos sobre áreas. Para escapar disto o primeiro parâmetro, apresentado por Mignolo (2003) é o
olhar a partir de outro locus de enunciação, não como novos lugares ontológicos, mas principalmente como irredutíveis diferenças epistemológicas. Menos como fundação e mais como
passagens e travessias, não como área a ser estudada e mais como um pensamento que se
mova ao longo da diversidade, atento a ouvir, atento à exterioridade, que possibilite refletir
para além da ontologização de uma área a ser estudada e caminhar para uma reflexão
sobre a historicidade das diferenças. Mais que uma nova localização, é a desconstrução que
se coloca em primeiro plano, um pensamento que se mova entre ambas as críticas: a crítica
dos discursos imperiais e a crítica dos discursos das identidades. (Mignolo, 2003)
Diante do exposto, é possível observar que se trata do lócus dicotômico de enunciação,
pois populações que foram desterritorializadas – reterritorializadas de formas e em momentos diferentes ao longo destes quinhentos e poucos anos de dominação colonial – moderno – desenvolvimentista, conviveram e resistiram aos vários processos subjugadores.
Desta forma, não buscaremos aqui nem a constatação ufanista do desenvolvimentismo,
pois consideramos que este mais esconde que mostra, nem tampouco a busca das identidades essenciais das “minorias”. Partimos do entendimento inicial de que a prática e o discurso desenvolvimentista visavam (e visam) a desterritorialização do campesinato capixaba
como forma de liberar mão-de-obra para a indústria, liberar terras para os novos empreendimentos empresariais e estatais e ampliar a base de mercado dos insumos químicos e
industriais.
O Espírito Santo foi “localizado” como periferia da periferia do centro de um país
periférico e o pacote modernizante foi imposto como solução. O caráter agrário e pequeno
minifundista familiar do estado eram as características responsáveis pelo “atraso” e a industrialização e a urbanização eram o caminho óbvio. A tecnocracia formada na articulação
entre órgãos governamentais, gerência das grandes empresas e universidade criavam a
legitimação e fundamentação destas práticas e que foram também muito práticas.
A desconstrução de conceitos não pode ser entendida somente como desmerecimento
ou abandono, mas, sobretudo como uma forma de realizá-los, levando ao extremo sua compreensão, assim: o conceito de produção nos leva ao de reprodução, como ultrapassagem
das dicotomias para abarcar o espaço todo; o conceito de rede, pelos novos processos de
territorialização e desterritorialização, leva ao espaço rizomático para dentro e para além
215
SCARIM, P. C.
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
do próprio espaço. A multiescalaridade, a complexidade e a conectabilidade das redes e das
escalas como conteúdo do atual momento vai para além das fronteiras político-administrativo estatal, colocando a questão da continuidade e da descontinuidade.
As hierarquias complexas dos espaços e dos conceitos também são repensadas, num
processo contínuo de produção e definição que inclui o global, o local e a escala humana: o
espaço todo. A realidade apresenta a complexidade, conjunto complexo de sujeitos que atuam em diversas escalas, construindo e reconstruindo recortes políticos conceituais e revendo paradigmas.
As resistências e a complexidade sobressaltam as temporalidades diversas das
rugosidades. A noção de rugosidade desenvolvida por Milton Santos ao longo de vários
momentos de sua obra possui relação com a capacidade organizacional dos lugares e das
populações de se apresentarem efetivamente enquanto territórios.
Buscamos, aqui, a partir da desconstrução dos sujeitos do desenvolvimento, demonstrar que os atos, os discursos, os documentos e os planos guardavam por trás das ideias
uma intencionalidade.
Diante da força hegemônica do pensamento neoliberal e sua capacida-de de apresentar sua própria narrativa histórica como conhecimento objetivo, científico e universal e sua
visão da sociedade moderna como a forma mais avançada, cabe localizar esta força nas
condições histórico-culturais específicas.
A eficácia hegemônica se assenta na presunção de naturalização da sociedade liberal
como a forma mais avançada e normal de existência humana. Mas a primeira observação a
ser feita é que se trata de uma idéia com uma longa história no pensamento social ocidental
dos últimos séculos.
Cabe a busca de alternativas, a desconstrução do caráter universal e natural da
sociedade capitalista-liberal e o questionamento das pretensões de objetividade e neutralidade dos prin-cipais instrumentos de naturalização e legitimação dessa ordem social. Esta
busca de alternativas é correlata ao esforço que, em várias partes do mundo, vem sendo
feito de forma plural e de muitas dimensões e vertentes.
Desta forma torna-se necessário um exercício de retomada destas ideias fortes do
desenvolvimentismo e confrontá-las com os elementos históricos e os indicadores agrícolas,
possibilitando a desconstrução destas ideias, buscando, ao final, indicar outras possibilidades de entendimento de nosso passado, presente e futuro.
Vimos que um dos principais pilares da ideologia desenvolvimentista no ES se referia à construção da ideia de que a produção do espaço capixaba se deu num processo de
preenchimento de um espaço vazio, primeiramente pela colonização e posteriormente pela
modernização.
Analisamos a partir dos elementos históricos que esta tese do vazio não encontra
sustentação e a partir destes elementos nos possibilitam confrontar esta tese.
Partimos da análise da formação territorial, que aplicada à colonização, propôs seu
entendimento como uma relação entre uma sociedade que se expande e os lugares onde
ocorre esta expansão, a colônia, e os processos de internalização do agente externo através
da conquista. Esta conquista territorial incluía incursões múltiplas de interiorização com
suas entradas, bandeiras, mineração e pecuária.
Assim colocamos, inicialmente, alguns termos norteadores de nossa análise: território e domínio. Assim, em se tratando de domínio e conquista, já indica uma perspectiva de
que estas ações visavam à destituição de outros dominantes do território. Isso pode parecer
óbvio, mas perante a tese do vazio não o é. Mas um território pleno de conflitos.
A reflexão sobre os conflitos nos conduz à reflexão sobre as ações. Milton Santos
(1996) nos pergunta: o que é uma ação, um ato ou uma atuação? As ações dizem respeito a
um comportamento orientado a um fim, processo dotado de propósito, subordinado às normas, regulações, rotinas, de longo ou curto prazo, de origem distante, projeto, alienação,
conjunto e etapas cada vez mais estranhos aos fins próprios do homem e do lugar.
Existem os atores que decidem e os outros. No entanto, é sempre por sua corporeidade
que os homens participam do processo de ação, mas seu governo, o do próprio corpo, é
limitado. As escolhas se dão pela consciência, razão, técnica, ou seja, instrumental, mas
216
Terra Livre - n. 34 (1): 203-220, 2010
também por valores, tradição e afetividade, comunicacional, simbólica e ritualizada.
As ações são, em suma, de três ordens: técnica, normativa e simbólica. As ações se
geografizam, mas não de modo indiferente ao valor dos lugares onde estas se realizam.
Neste aparente impasse revela-se a intencionalidade, pois permite outras leituras
críticas da relação indissociável entre sistemas de objetos e ações. A intencionalidade está
presente na produção do conhecimento e das coisas.
O espaço geográfico é oferta de caminhos, é conduta e ação, como também o
direcionamento desta conduta e desta ação. Sem perder a cota do imponderável, rompendo
a unicidade, entortando a flecha do tempo, feixes de vetores ganham autonomia, se integram ao meio, gerando eventos múltiplos e lugares de encontro.
No decorrer da análise do autor, a noção de evento, que a princípio representava uma
complexidade de significados, acontecer solidário, coexistência e trama, se reduz (Santos,
1996). Partindo do pressuposto de que não haveria evento sem atores, este torna-se sinônimo de ação. A teoria do evento torna-se teoria da ação e esta passa a figurar como centro de
sua teoria geográfica. Assim legitima-se a classificação, a tipologia, a categorização, o
ordenamento, a identificação, a finitude e as separações. E somente aí aparecem os conflitos enquanto eventos históricos, localizáveis. Sua duração é sua eficácia mediante recurso
organizacional, com sua área de ocorrência, onde seu impacto determina a escala e sua
geograficidade.
Vimos que, no processo de sua institucionalização, o pensamento e a prática do desenvolvimento no ES carregavam uma série de paradoxos centrados principalmente nas
seguintes tentativas: de imposição da industrialização sobre uma base territorial rural; de
imposição do latifúndio sobre uma base de pequena agricultura familiar e comunitária; de
imposição da monocultura sobre uma diversidade de práticas e cultivos fundados na manutenção integral da família e da comunidade; de imposição de uma racionalidade única e
instrumental sobre uma base de enorme diversidade étnica, social e ecológica de saberes
agrários ainda presentes no território capixaba devido às resistências, insurgências e
domesticações, formando territorialidades e laços múltiplos.
Foi fundamental no aprofundamento destes paradoxos a instalação da ditadura militar a partir de 1964 e a articulação propiciada entre o Estado, o capital nacional e o capital
internacional.
No caso estudado, o do Espírito Santo, representado pelas articulações entre o grupo
político local aliado à ditadura e seus cargos de direção impostos, a elite econômica local,
articulada a partir das federações do comércio e das indústrias e entre e os chamados
grandes projetos, com a participação dos capitais estrangeiros que tiveram, tanto para o
poder econômico como para o poder político locais, também um caráter de imposição.
Desta forma, ao longo do período ditatorial, várias políticas foram implementadas
procurando liberar terras e mão-de-obra para os projetos desenvolvimentistas justificados
por estudos e planos que, por meio de uma linguagem técnica, envernizavam as práticas
violentas de expulsão dos indígenas, quilombolas e posseiros de suas terras.
Na lógica camponesa, o sistema (terra, ferramentas, material vegetal, insumos diversos, força de trabalho, etc.) não constitui uma finalidade em si, mas está fortemente
articulado ao conjunto da vida. A lógica da produção não tem por finalidade a acumulação
de riquezas, mas a garantia de produção é necessária à unidade camponesa. Uma dimensão fundamental da sua sobrevivência é a solidariedade, que garante coesão social em caso
de dificuldades. A lógica da reprodução camponesa não pressiona necessariamente o agricultor a maximizar sua produção e sua renda, mas procura, principalmente, aperfeiçoar a
utilização de sua força de trabalho.
A cultura de autonomia desenvolvida na memória coletiva das coletividades rurais
entra em conflito com a obsessão manifestada pelas lógicas modernizadoras do Estado e
das empresas, no cenário de integração/marginalização, qual seja, a do alinhamento rural
na lógica da produção industrial que permite aumentar o excedente mobilizável.
Na encruzilhada entre a própria lógica que os ensina a reproduzir-se, mesmo com
níveis de vida restritos e uma lógica desenvolvimentista que os convida a produzir mais,
mesmo essa produção se efetivando a um custo social exorbitante, a reprodução camponesa
217
SCARIM, P. C.
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
se faz como resistência.
A lógica camponesa pressupõe a existência de um universo rico em particularidades,
espaço rico e diverso, espaço produtor de culturas, espaço emancipatório e território fecundo construído na solidariedade.
Este espaço é o campo, conceito que pode ser mais bem açambarcado se associado ao
de território como lugar marcado pelo humano. O campo são lugares simbólicos permeados
pela diversidade cultural e étnico-racial, pela multiplicidade de geração e recriação de saberes.
Estes saberes são organizados a partir de lógicas diferentes, de lutas e de mobilização
social, de estratégias de sobrevivência. Estes saberes incluem conhecimentos, habilidades,
sentimentos, valores, modos de ser, de produzir, de se relacionar com a terra e formas de
compartilhar a vida. O campo expressa um conjunto de possibilidades de ligação dos seres
humanos com a própria produção das condições da existência social. O conceito camponês
por sua vez se torna polissêmico.
Neste caminho de reflexão sobressai a ressalva de Porto-Gonçalves (2001) quando
ele diz que os paradigmas são instituídos por sujeitos sociais, histórica e geograficamente
situados e, deste modo, a crise desse paradigma é, também, a crise da sociedade e dos
sujeitos que o instituíram. Assim sendo, não nos surpreendamos quando vemos emergir
novos paradigmas e junto a eles novos sujeitos que reivindicam um lugar no mundo. Estes
pensamentos colocam em questão as relações que tiveram que se forjar em situações
assimétricas de poder, mas que nem por isso se anularam. O termo que o referido pensador
nos oferece é mais do que resistir, é R-Existir (PORTO-GONÇALVES, 2001), pois fala de
sujeitos que se reinventaram na sua diferença.
A partir da crise na mediação capital/Estado, vivenciada pelo pacto iniciado na década de 1960, que derivou no final da década de 1990 e nos anos iniciais da década atual na
necessidade de novas formas de mediação entre o capital e a sociedade, novos padrões de
conflitividade se tornam visíveis. Desta forma, a luta das famílias indígenas, a luta das
famílias quilombolas e a lutas das famílias camponesas com e sem terra contra o capital
demarca o novo padrão de conflitividade, no qual o papel do Estado enquanto mediador é
reconsiderado. Colocou-se em marcha outro processo de reprodução da vida na qual as
periferias não existiam enquanto tais e não tinham na negação o peso das suas falas.
A re-conceituação era uma constante nesta situação de transição paradigmática, onde
na qual não somente a ciência passa a ser questionada na sua legitimidade e no seu monopólio de nomeação das coisas como também era questionada a setorização da política e dos
sujeitos da política. Como os conceitos passam a ser objetos de disputa e conflitos nos cenários oficializados, nos espaços públicos do debate, também a ciência passa a ser sujeito
político ao propor novas conceituações e ao superar teoricamente suas fronteiras, contribuindo para que os sujeitos políticos tradicionais superem suas próprias fronteiras. Desta
forma ciência e política passam a se reconhecerem mutuamente como sujeito e objeto.
A partir daquele momento viveu-se no estado uma ascendência das lutas pela reforma agrária com a ampliação das ações, o trabalho com as crianças, da educação, das mulheres, da via Campesina, articulações com indígenas Tupiniquim e Guarani, comunidades
Quilombolas, Camponeses, Universitários e movimentos populares da cidade.
Assim afirmam a questão do habitat tão importante para o pensamento crítico sobre
a sociedade atual e resgata elementos da reflexão sobre a relação homem e natureza. Para
além da imagem de atraso e incapacidade, o que demonstram as organizações camponesas
é o descontentamento diante das matrizes desenvolvimentistas. As resistências elencadas
por vários documentos governamentais e empresariais, menos que partindo de um tal subdesenvolvimento, partem da utopia da construção de um outro mundo.
218
Terra Livre - n. 34 (1): 203-220, 2010
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219
SCARIM, P. C.
220
A DESCONTRUÇÃO DA DOUTRINA DO DESENVOLVIMENTO...
NOT
AS
OTAS
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222
Terra Livre - n. 34 (1): 223-230, 2010
CONSELHO DAS CIDADES – UMA AVALIAÇÃO
Texto elaborado com a contribuição de colegas da Coordenação Executiva da 4ª. Conferência das Cidades em especial pela comissão de sistematização.
Agradeço aos colegas do Conselho que confiaram em mim para fazer a apresentação
em nome do Conselho.
ARLETE MOYSÉS RODRIGUES
1
Há muitas formas de lutas para tentar obter o direito a viver decentemente nas
cidades, desde pedidos com promessas a serem cumpridas, lutas individuais (trabalho intenso) e lutas coletivas. Centramos nossa fala nas formas coletivas para se obter o direito
condições de vida digna, a cidade como direito.
José Saramago que infelizmente faleceu esta semana em seu livro “Ensaio sobre a
Cegueira”, 2aponta, a meu ver, como o “pensamento único” impede que se enxergue o mundo em sua complexidade e diversidade. Apresenta, no livro, como as pessoas vão ficando
cegas, perdendo seus pontos de referência sem ter como sobreviver.
Para nós a cegueira representa a incapacidade de ser solidário, de compreender o
mundo fora dos parâmetros estabelecidos e da inconsciência coletiva.
As expressões de organizações coletivas rompem com o pensamento único e podem
construir o “Ensaio sobre a Lucidez” (titulo de livro do mesmo autor).
As conferências de vários temas “representam um experimento institucional cuja
função é furar o cerco da unidimensionalidade” (IUPERG, 2010)3 . Desde o início da década
de 90 do século XX foram realizadas 80 conferencias nacionais sendo que 86% delas ocorreram de 2003 a 2009 relativos a políticas públicas sobre os temas: Direitos Humanos, Educação, Cultura, Assistência Social, Saúde, Minorias, Meio ambiente, Cidades.
As Conferências agregam, no geral, pessoas e grupos que não recebem os benefícios
da produção da riqueza, construindo o “Ensaio sobre a Lucidez” 4 (título do livro do mesmo
autor, escrito após o ensaio sobre a Cegueira). As conferências permitem a manifestação
de minorias políticas e mais do que isso a introdução de suas necessidades na política.
Apresentamos a seguir alguns aspectos da importância das conferências
AS CONFERÊNCIAS
1- Fortalecem a democracia representativa no Brasil ao introduzir no debate político, novos protagonistas, novos temas, ampliando a representação política;
2- Redefinem as relações entre a Sociedade Civil e o Estado, possibilitando mediações democráticas eficazes, para atender necessidades gerais e específicas;
3- Fortalecem, incentivam a participação e o controle social, elemento fundamental
na deliberação de propostas, de parâmetros, programas, projetos e implementação de Políticas Públicas;
4-Colocam em destaque as necessidades da maior parcela da sociedade que antes das
conferencias estavam ausentes de debates;
5- Um sistema de Conferências municipais, estaduais e nacional, permite conhecer
as realidades locais, estaduais, regionais e estabelecer programas que atendam as
especificidades sociais e territoriais
1
- Representante da AGB- Associação dos Geógrafos Brasileiros no segmento Entidades Academicas, Profissionais
e de Pesquisa.
2
- Saramago, José ( ....) Ensaio sobre a Cegueira
3
- IUPERJ – 2010 – Entre Representações e Participação – As Conferências Nacionais e o Experimentalismo
Democrático Brasileiro – in www.iuperj.gov.br
4
- Saramago, José – Ensaio sobre a Lucidez ...
223
NOTAS: CONSELHO DAS CIDADES – UMA AVALIAÇÃO...
6- Fortalecem o legislativo aumenta a interlocução com a sociedade civil, como se
verifica pelo número de Projetos de Leis e de Leis aprovadas nos temas debatidos nas
diferentes conferências.
7 - Propicia a articulação nacional de diversos segmentos da sociedade civil como um
espaço de encontro e de trocas.
8–Fortalece a criação de Políticas de Estado e não apenas políticas de governos, evitando que os programas não tenham continuidade quando muda o governo garantindo a
integração das Políticas de Estado
9 – Permite a formação de redes de informação e difusão sobre problemas a serem
enfrentados.
10- Possibilitam manifestações de minorias e a introdução de suas necessidades na
política, como se verifica com conferencias sobre Direitos da pessoa com deficiência (200e e
2008); Direitos da Pessoa Idosa (2006 e 2009).
SOBRE
CONFERENCIAS E CONSELHOS
Estudo recente realizado pelo IUPERJ coordenado por Thamy Pogrebinschi5 aponta
que:
1-As conferências são desafios para a construção democrática e ao mesmo tempo
apontam um processo de alteração da democracia representativa, que passa a contar com
um maior grau de participação, do que aquele que se caracteriza a democracia representativa, cuja participação se encerra, em geral, no voto;
2- Entre 1941 e 1988 foram realizadas 12 conferências nacionais todas na área de
saúde; 3- Porém entre 1988 e 2009 foram realizadas 80 conferências nacionais com 33
temas diferentes. A grande maioria destas conferências foi realizada entre 2003 e 2009
com introdução de novos temas.
4- As conferências são fundamentais para trazerem à tona as contradições, os conflitos que antes eram resolvidos em gabinetes por lobies.
CONFERÊNCIAS
DAS
CIDADES
As Conferencias das Cidades colocam na agenda pública questões urbanas que sempre foram preteridas ou tratadas apenas no âmbito local (ocupação de risco, saneamento
ambiental, regularização fundiária, conflitos fundiários urbanos, urbanização de assentamentos irregulares, acesso a moradia para a população de até 3 salários mínimos; mobilidade urbana, entre outros)
Permite a formação de redes de difusão de informações sobre a função social da cidade e da propriedade.
Fortalecem os Conselhos das Cidades que agem como o interlocutor das propostas
aprovadas em plenárias, ampliado a representação;
II - Objetivo da 4ª. Conferência das Cidades
Realizar “balanço” de avanços, de problemas e de desafios a serem enfrentados, em
cada local, estado, região e na União;
Manter na pauta nacional a questão urbana para tentar reduzir, eliminar os problemas de desigualdades sociais, espaciais, territoriais.
Limites e possibilidades das Conferências das cidades ser num ano eleitoral
Limites
Limites::
a) o tempo é escasso, os compromissos são enormes;
b) Num ano de eleição de governadores, pode ser protelada a criação de Conselhos
5
- Iuperj – 2010 - idem
224
Terra Livre - n. 34 (1): 223-230, 2010
em Estados que ainda não o tem, dificultando a participação da sociedade civil e a integração
de políticas.
c) dificulta a aprovação em todos os níveis do caráter deliberativo do Conselho das
Cidades, em todos os níveis.
Possibilidades
Possibilidades::
a) Demonstra avanços e dificuldades na Construção da Política de Desenvolvimento
Urbano;
b) Instrumento para avaliar as conferências anteriores e o encaminhamento das propostas da 1ª, 2ª, e 3ª, pelo Conselho e Ministérios das Cidades, considerando inclusive propostas para o próxima/o presidente eleito;
b) Permite que a questão urbana continue na pauta governamental nos próximos
anos, desde que o movimento da sociedade civil continue articulado e demonstrando as
questões importantes;
c) Avança na participação e controle social para a implementação de Políticas Urbanas, que devem ser integradas entre si e entre os órgãos da federação com um sistema de
Conselho e de Conferencias;
d) Dar continuidade as políticas inclusivas, desde que sejam colocadas cotidianamente em pauta pela sociedade;
e) pode-se avançar na idéia do entendimento do desenvolvimento urbano não isolado
das demais políticas.
As análises das propostas desta 4ª. Conferência das Cidades mostram que a grande
maioria das cidades não cumpre sua função social. Estão em descompasso com a Constituição de 1988 e o Estatuto da Cidade. Um desafio primordial é o cumprimento da função
social da cidade e da propriedade.
Colocam na agenda a necessidade de criar o Sistema Nacional de Desenvolvimento
Urbano que leve em consideração a implantação das políticas públicas, infra-estrutura no
território.
PROPOST
AS
ROPOSTAS
APRESENTADAS
ADAS EM VÁRIOS EIXOS
APRESENT
I - Necessidade de::
a) Reformular programas, projetos; desburocratizar normas que impedem o acesso
principalmente de pequenos municípios e da população que recebe até 3 salários mínimos;
b) capacitar técnicos e de conselheiros – com recursos das três esferas- considerando
a diversidade territorial, as especificidades locais, o tamanho dos municípios;
c) ampliar ou criar recursos nas três esferas visando colocar em prática os programas;
Estas propostas mostram que existem programas que precisam ser melhorados, adequados as necessidades da maioria e serem políticas de Estado
II – Os Conselhos das Cidades devem ser deliberados em todas as unidades da federação. O Concidades não ser deliberativo implica em vários outros aspectos que serão apresentados adiante.
III – Formulação do Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano – integrando
políticas, Conselhos e Conferencias. O Conselho das Cidades elaborou, conforme deliberado na Plenária da 3ª. Conferência o arcabouço de um sistema que ainda precisa de acertos
para encaminhamento junto ao executivo e legislativo, dada a complexidade do tema. Como
o Conselho não é deliberativo há limites para o encaminhamento de Projetos de Leis.
IV – Há propostas dos Planos Diretores (e assim os instrumentos do Estatuto da
Cidade) sejam obrigatório para todos os municípios, independentemente do tamanho da
população. Possibilidades: os estados exigirem, como SP e PR que todos os municípios façam o Plano Diretor ou alterar o Estatuto da Cidade o que é bastante problemático, pois há
interesses manifestos em se retirar do Estatuto os Estudos Prévios de Impacto de Vizinhança.
Sobre os Planos Diretores: foi realizado um estudo coordenado pela SNPU que avalia
225
NOTAS: CONSELHO DAS CIDADES – UMA AVALIAÇÃO...
e os Planos diretores foram realizados com participação e se os instrumentos do Estatuto
estão realmente delimitados nos Planos Diretores.
A Proposta de estender para todos os municípios a obrigatoriedade do Plano Diretor
precisa ser debatida em conjunto com as propostas de criação de novos municípios. Há
vários Projetos de Leis e de PECs que propõem o retorno da atribuição sobre criação de
municípios para os Estado, sem estabelecer critérios territoriais, econômicos, sociais e
políticos e quais as características do distrito sede que quando o município é criado
passa a ser denominado de cidade. O critério apresentado nos projetos é populacional (de
5 a 15 mil habitantes dependendo da região), o que implica em contradição com as propostas que pretendem estender a obrigatoriedade de Plano Diretor para todos os municípios.
A criação de municípios, sem parâmetros econômicos, sociais, territoriais implica em
que estes sobrevivam de recursos federais e estaduais, desviando recursos necessários para
que se atinja o direito a cidade.
Em 1988, ano da Constituição Brasileira, que definiu que apenas os municípios com
mais de 20 mil habitantes seriam obrigados a realizar plano diretor, mais de 50% dos municípios tinham mais de 20 mil habitantes. Ao mesmo tempo a Constituição de 1988 passou
a atribuição de criar, desmembrar, remembrar municípios para os estados, sem regras nacionais. Entre 1991 e 2000 foram criados mais de 1000 municípios e hoje apenas 30% de
municípios tem mais de 20 mil habitantes, embora concentrem a maior parte da população
urbana. Isto implica que 70% dos municípios, que representam a maior parte do território
brasileiro, não são obrigados a cumprir a função social da cidade e podem crescer sem
nenhum planejamento.
V – Em relação ás leis que regem o parcelamento e o uso do solo urbano (Lei 6766/79
e PL 3057 de 2000), o Conselho das Cidades organizou seminários em todas as regiões do
pais mas apenas dois estados propuseram a retomada do debate.
A resolução aprovada pelo Concidades, na tentativa de contribuir para a alteração
da Lei 6766/79, aponta consensos sem mostrar as contradições e conflitos. Falta aprimorar o debate em relação os interesses divergentes e/ou conflitantes. Um desafio a ser empreendido para que a cidade seja entendida em sua totalidade e não em partes separadas
entre si e o planejamento seja compreendido como um processo que considere todos os
aspectos da dinâmica econômica, territorial, social e política.
CONSELHO
DAS
CIDADES – CONCIDADES
Aprovado na 1ª. Conferência com caráter deliberativo foi implementado com caráter
consultivo e formulador de políticas urbanas. È fundamental que os Conselhos tenham
caráter deliberativo para compor o Sistema de Desenvolvimento Urbano formando um
sistema de Conselhos e Conferências.
È formado pelos segmentos: Movimentos Sociais; Empresários (ligados á produção
do espaço urbano); ONGs: Trabalhadores; Entidades Acadêmicas e Profissionais: Poder
Público Federal, Estadual e Municipal e; sociedades civis do legislativo municipal, estadual e federal.
Cabe ao Concidades encaminhar as deliberações das Conferências e atuar em questões urbanas entre as conferencias.
Os Conselhos são lugar de debate de Políticas.
Devem evidenciar contradições, interesses conflitantes entre os diferentes segmentos para construir uma política nacional de desenvolvimento urbano que universalize o
acesso à uma vida digna.
As contradições precisam ser explicitadas para que o urbano seja entendido em sua
concretude, em sua multiplicidade, complexidade para que o planejamento seja participativo,
esteja integrado com o Plano Diretor e com as políticas publicas que interferem na vida da
cidade.
A explicitação de interesses diferentes permite entender que a política não se realiza
apenas nos gabinetes.
Nas questões contraditórias, conflitantes o papel do Conselho deveria ser o de
226
Terra Livre - n. 34 (1): 223-230, 2010
pactuação, para se obter unidade na diversidade de questões e não forjar consensos.
Mas nem sempre isto ocorre: exemplos: o debate sobre as alterações da Lei 6766 /79,
com seminários realizados em todas as regiões do Brasil apontaram questões fundamentais que não foram incorporadas na Resolução do Conselho que contem apenas os consensos. Além disso, como o Conselho não é deliberativo as resoluções são remetidas como recomendação e contribuição ao legislativo, sem atuação do Conselho em sua plenitude, mantendo-se a política do Loby nos bastidores para questões não consensuais.
O significado das conferências e do Conselho pode ser exemplificado com o que diz
Saramago no livro A Bagagem do Viajante6 – na crônica: A Terra.
“ como um ser vivo, as cidades crescem as custas do que as rodeia. O grande alimento
das cidades é a terra, que tomada no seu imediato sentido de superfície limitada, ganha o
nome de terreno, no qual feita esta operação lingüística, passa a ser possível construir (...)
o terreno desaparece, e em seu lugar surge o imóvel”. Houve um tempo em que a cidade
cresceu devagar (...) as ruas davam para um o campo aberto (...) as terras onde as crianças
brincavam. (...) Hoje a cidade cresce tão rapidamente que deixa para trás (...) a fraternidade.
Cada um por si. Mas é sina dos homens, ao que parece, contrariar as forças dispersivas que
eles próprios põem em movimento ou dentro delas se insurgem (...)recomeçam o aprendizapara nos as
do dos nomes das pessoas e lugares e outra vez se sentam em volta da fogueira (para
conferencias, conselhos
conselhos) falando do futuro e do que todos importa. Para que nenhum deles
morra em vão”
ANEXOS
VI -CONFERENCIAS
DAS
CIDADES-
HISTÓRICO
A 1ª. Conferencia (2003), teve como meta contar com a participação social para elaborar o Plano Nacional de Desenvolvimento Urbano, que tem como premissa: o direito a
moradia digna em lugar que conta com equipamentos públicos, transporte coletivo publico
de qualidade, mobilidade urbano, saneamento ambiental, segurança, saúde e trabalho.
Obs. O Plano Nacional de Desenvolvimento Urbano da década de 70 – tinha como
meta o “crescimento econômico”, mas não o atendimento das necessidades, o que demonstra a importância das conferencias para a definição de metas sociais.
A 1ª. Conferência resultou em 25 diretrizes: Direito a Cidade como direito coletivo;
Aplicação do Estatuto da Cidade em Planos Diretores Participativos; Desenvolvimento
Urbano tendo como princípio a igualdade de acesso aos padrões urbanos; Criação de Sistema Nacional de Habitação e Moradia com o principio da moradia digna como direito humano; Saneamento ambiental público como direito humano; alteração da legislação de consórcios intermunicipais (da esfera privada para a esfera pública); criação do Sistema Financeiro de Habitação; O transporte Público coletivo urbano, transito urbano e mobilidade
urbana tendo como objetivo democratizar os espaços públicos.
Aprovou a criação do Conselho das Cidades e o processo das conferencias municipais,
estaduais e nacional.
Entre a 1ª. e 2ª. Conferência constitui-se o Conselho das Cidades que atuou para
implementar as propostas da 1ª. Conferência.
A 2ª Conferencia (2005) apontou 40 diretrizes para
A Política Nacional de Desenvolvimento com integração de políticas setoriais integradas no território e nas unidades da Federação em especial em regiões metropolitanas.
Após debate os consórcios intermunicipais, que eram da esfera do direito privado
passaram, por lei para a esfera do direito público.
Definiu-se o marco regulatório do saneamento.
6
Saramago, José – 1996- A Bagagem do Viajante – Cia das Letras
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NOTAS: CONSELHO DAS CIDADES – UMA AVALIAÇÃO...
Propôs-se a regulamentação do FNHIS, após a aprovação da Lei do Fundo nacional
de habitação, uma conquista dos movimentos populares.
Priorizou a regularização fundiária aplicando os instrumentos do Estatuto da Cidade e atuação na prevenção de ocupação de risco.
Apontou a necessidade de enfrentamento das questões habitacionais metropolitanas. Referendou a Campanha Nacional do Plano Diretor concomitante a 2ª. Conferência;
propôs capacitação de técnicos e conselheiros.
Entre a 2. e 3 ª. Conferência o Conselho das Cidades atuou para implementar as
propostas aprovadas.
O Conselho foi o protagonista principal da organização da 3ª. Conferência.
A 3ª. Conferência (2007) apresentou 22 diretrizes relacionadas:
A criação do Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano;
Criação de Conselhos das Cidades nos níveis Estaduais e Municipais;
Reafirmou que os Conselhos devem ter caráter deliberativo;
Estabeleceu mecanismos para a política de Regularização Fundiária.
Definiu a implementação da Lei 11.445/2007 do Saneamento básico e ambiental (diretrizes aprovadas nas conferências, elaborado pelo Conselho, em conjunto com o Legislativo
e executivo).
Definiu como prioridade o transporte urbano público coletivo e a mobilidade urbana.
Destacou a necessidade de integração dos meios de transporte, a priorização de transportes sobre trilhos, e o barateamento de tarifas para os transporte publico coletivo.
Foi criado o Programa de Habitação de interesse social no âmbito do Conselho Gestor
– FNHIS, com critérios para o repasse de recursos.
Propôs Assistência Técnica Gratuita transformada em Lei e que agora necessita de
regulamentação.
Propôs formas para a atuação dos governos na mediação e prevenção de conflitos
fundiários. O Conselho realizou seminários para tratar de estabelecer formas de atuação.
E esta quarta conferencia pode ser uma marca para a continuidade de políticas que
visam o atendimento universal do padrão de vida urbano, com participação e controle social.
SÍNTESE
AS POR
DE PROPOST
PROPOSTAS
EIXOS
Além das questões elencadas destaca-se
Eixo I – Criação e Implementação de Conselhos das Cidades, Planos,
Fundos e seus Conselhos Gestores nos níveis Federal, Estadual, Municipal
e Distrito Federal
A) Urgente necessidade de criação de Conselhos com caráter deliberativo, de Fundos
Estaduais e Municipais que conte com efetiva participação e controle social, visando construir o Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano com o objetivo de articular as
políticas setoriais em cada lugar e nos diversos níveis de governo (Federal, estadual Municipal);
B) Os Conselhos devem ter caráter deliberativo para evitar as atuais restrições em
todos os níveis, diálogo com executivo e legislativo, com outros Ministérios, outros órgãos.
Esta não é uma questão retórica pois se observa que uma Resolução de um Conselho
deliberativo como o CONAMA em alguns casos se superpõe a Legislação do uso do solo,
inclusive da Lei Estatuto da Cidade.
C) Capitação de técnicos e de conselheiros, fundamental para implementar conhecimento real sobre os problemas e as políticas urbanas sobre a cidade. È necessário que
técnicos, conselheiros e sociedade civil, possam compreender a complexidade da produç&atild